QUE FAZER? SEGUIDO DE O ESTADO E A REVOLUÇOM
PRÓLOGO DO COMITÉ CENTRAL DE PRIMEIRA LINHA (MLN)
Escritos e publicados com três
lustros de diferença, o Que Fazer?. Problemas candentes do nosso movimento
(Outono de 1901-Fevereiro de 1902), e O Estado e a revoluçom. A doutrina
do marxismo sobre o Estado e as tarefas do proletariado na Revoluçom
(Agosto-Setembro de 1917) som duas obras ineludíveis do pensamento
revolucionário que Abrente Editora se congratula de poder editar no
nosso idioma como segundo volume da colecçom Biblioteca Galega de Marxismo-Leninismo
que em 1997 tirava do prelo o Manifesto Comunista comemorando o 150 aniversário
da sua publicaçom e iniciava a ambiciosa tarefa de publicar os clássicos
do marxismo em galego.
Achamos que, igual que naquela
altura vincamos a necessidade de ofertarmos ediçons galegas dos textos
marxistas clássicos, nesta ocasiom devemos congratular-nos todos os
galegos e galegas de que pola primeira vez sejam editadas duas obras fundamentais
de Lenine na Galiza e em galego. O mesmo facto de acontecer isto um século
depois de tais textos serem escritos, dá ideia das conseqüências
que a dependência galega tem para a nossa inserçom na cultura
e correntes de pensamento universais, nomeadamente tendo em conta que no vizinho
e irmao Portugal existem ediçons de O Estado e a Revoluçom já
nos anos vinte do século recém concluído.
Abrente Editora, como estrutura
editorial da organizaçom comunista galega Primeira Linha (MLN) que
este ano comemora o quinto aniversário da sua fundaçom,
nom pretende com a ediçom destes dous textos de Lenine sacralizar o
ideário e as achegas teóricas do revolucionário russo,
convertendo-as num receituário escolástico a que acudir para
aplicar mecanicamente na nossa intervençom política quotidiana,
ou para resolver magicamente as dúvidas da praxe política do
emergente projecto revolucionário que actualmente na Galiza se está
articulando com a reorganizaçom do Movimento de Libertaçom Nacional
Galego.
Com a ediçom destas duas
obras pretendemos continuar com o objectivo de armar e formar ideologicamente
as revolucionárias e revolucionários da Galiza para que podam
cumprir correctamente as tarefas que lhes correspondem na actual conjuntura
histórica: contribuir para a unidade, consolidaçom e desenvolvimento
da esquerda independentista, e sentar as bases para construir o Partido Comunista
patriótico.
Embora ambas obras estejam concebidas como textos teóricos, som seguindo
o materialismo histórico, resultado de experiências, de
análises e sobretudo, de práticas concretas, emanadas de umha
determinada estrutura social e de umha determinada luita de classes. O marxismo
é um método científico de análise da realidade
que nos dota de ferramentas teóricas para poder entender as diferentes
sociedades, as suas leis de funcionamento e desenvolvimento, e portanto, as
obras teóricas marxistas devem ser analisadas e estudadas sem perder
de vista que o fundamental é conhecermos a fundo a estrutura social
sobre a que agimos para poder transformá-la, afastando-nos da absurda
e anti-dialéctica tentaçom de aplicar falsas receitas universais
que, se bem fôrom ou som acertadas para outras conjunturas históricas
ou latitudes geográficas, nom tenhem porque ser acaídas para
a nossa concreta estrutura social. Marx e Engels explicárom claramente
que As concepçons teóricas dos comunistas nom se baseiam,
de modo algum, em ideias ou princípios inventados ou descobertos por
tal ou qual reformador do mundo. Som apenas a expressom geral das condiçons
reais de umha luita de classes existente, de um movimento histórico
que se desenvolve baixo os nossos olhos. (Página 62-63 do Manifesto
Comunista. Abrente Editora, 1997).
O primeiro texto, redigido após
o desterro siberiano imposto a Vladímir Ilich pola autocracia czarista,
é umha obra de combate em que Lenine desenvolve a sua concepçom
do Partido Comunista como umha organizaçom de luita cuja finalidade
é contribuir para o triunfo da revoluçom socialista, alargando
e desenvolvendo a tese recolhida num texto anterior, o artigo Por onde começar?,
publicado em Maio do 1901, onde se abordam questons fundamentais
da política social-democrata, das tarefas organizativas e da necessidade
de criaçom de um partido em toda a Rússia. Tal como exprime
o editorial do primeiro número do Iskra, o vozeiro de agitaçom
política e propaganda ideológica que desde Dezembro de 1900
se edita em Leipzig, e germolo do que posteriormente será o Partido
Bolchevique, Lenine concebe o Partido como umha estrutura política
unificada, centralizada, disciplinada e selectiva, configurada por revolucionári@s
profissionais, homens que nom consagrem à revoluçom as
suas tardes livres, senom toda a vida. ... os operários,
os homens médios da massa, som capazes de dar provas de umha energia
e umha abnegaçom gigantescas numha greve, num combate de rua com a
polícia e a tropa, podem (e som os únicos que podem) decidir
o resultado de todo o nosso movimento, mas precisamente a luita contra a polícia
política exige qualidades especiais, exige revolucionários profissionais.
É inegável que o Que fazer? representa a teorizaçom sistemática do modelo organizativo do partido comunista, da genuína organizaçom de vanguarda leninista.
Embora tenha sido mimeticamente
aplicado posteriormente em centos de estruturas sociais nos últimos
cem anos, desconhecendo que os seus paradigmas, o modelo organizativo que
nos apresenta, é fruto dumha conjuntura concreta, dumha época
histórica determinada, ou seja, das necessidades e das tarefas específicas
do movimento operário russo nos inícios de século, e
portanto, assim deve ser estudado, entendido e adaptado em qualquer outra
conjuntura histórica e estrutura social. @s comunistas galeg@s de prática
independentista assim o concebemos desde que em 1996 pugemos em marcha o longo
processo de construçom do partido comunista galego, assim o vimos aplicando
desde que iniciamos a tarefa de dotarmos o nosso país de umha organizaçom
revolucionária útil para avançar nos objectivos que perseguimos
na actual conjuntura: recuperar a independência nacional da Galiza mediante
o reconhecimento do exercício da autodeterminaçom nacional que
nos permita construir umha sociedade socialista.
Um século depois da sua
publicaçom, a vigência do Que Fazer?, despreendido da sua
inseparável análise conjuntural (regime autocrático,
portanto o Partido Revolucionário deve ser clandestino; brutal repressom,
portanto o Partido deve ser hierárquico e hiper-centralizado),
é indiscutível. A concepçom leninista do Partido teorizada
nesta obra clarifica que o partido revolucionário tem umhas tarefas
concretas a nível estratégico, polo que deve canalizar todas
as energias tácticas numha única direcçom: a destruiçom
do modo de produçom capitalista mediante a orientaçom, direcçom
e organizaçom política do sujeito revolucionário objectivamente
interessado em atingi-lo, a classe trabalhadora.
Esta concepçom organizativa
parte da premissa marxista da elaboraçom teórica permanente,
Sem teoria revolucionária nom pode haver movimento revolucionário,
como único método científico de conhecimento da realidade
que se pretende transformar, como única via para poder realmente transformá-la
com umha praxe correcta e eficaz.
O Que Fazer? está estruturado
em três partes. A primeira aborda os problemas da política social-democrata,
combatendo as tendências reformistas, a degeneraçom economista
de sectores do movimento operário que, criticando as reivindicaçons
políticas, nega sistematicamente a existência de condiçons
objectivas e renuncia a gerar a criaçom de consciência revolucionária,
reduzindo a consciência de classe a um simples reflexo das condiçons
económicas, pois tam só pretendem meras reformas e limitadas
conquistas sociais que nom questionem a natureza opressora do capitalismo.
Orabém, o pensamento de Lenine nom descarta a luita polas reformas,
apoia e defende a sua prática, a sua utilidade imediata como método
de alcançar conquistas sociais e laborais para o povo trabalhador,
mas também como mecanismo para conscientizar as massas da necessidade
de mudar a ordem social existente, demonstrando-lhe sobre o terreno que esta
é a única possibilidade de acabar com a dominaçom e a
exploraçom. A social-democracia dirige a luita da classe operária
nom só para obter condiçons vantajosas de venda da força
de trabalho, mas para que seja destruído o regime social que obriga
os nom possuidores a venderem-se aos ricos.
A actual dimensom desse trade-unionismo
que Lenine combate com virulência segue a ser hoje um dos piores obstáculos
para a acçom política revolucionária. A metástase
reformista é hoje particamente hegemónica nas organizaçons
sindicais, nas forças políticas e sociais de esquerda operantes
na Galiza.
Lenine clarifica e demonstra como
o natural espontaneísmo das massas provoca a necessidade da existência
de organizaçons políticas revolucionárias que fomentem,
coordenem, e dirijam as luitas concretas, imprimindo-lhes consciência
e perspectiva global, a nossa tarefa, a tarefa da social-democracia,
consiste em combater a espontaneidade, em fazer com que o movimento operário
se desvie desta tendência espontánea do trade-unionismo de se
acolher debaixo da asa da burguesia e em atraí-lo para debaixo da asa
da social-democracia revolucionária.
Em segundo lugar, o Que fazer?
aborda a peremptória tarefa de construir umha sólida força
política de carácter nacional para toda a Rússia definida
pola sua concepçom de organizaçom de vanguarda. Porque
nom basta intitular-se vanguarda, destacamento avançado:
é preciso proceder de modo a que todos os outros destacamentos vejam
e sejam obrigados a reconhecer que marchamos à cabeça
Esta afirmaçom determina claramente que modelo de vanguarda defende
Lenine. Vanguarda no sentido mais rigoroso e sério do termo, vanguarda
na dimensom política, intelectual e moral, nom estritamente no plano
superficial e consignista de @s primeir@s em avançar e últim@s
em retroceder, vanguarda nom para suplantar a acçom das massas,
senom para contribuir a fazer mais eficaz as suas luitas e reivindicaçons
dando-lhes um sentido global e anti-sistémico.
Um Partido que se dirija ao conjunto
dos sectores populares, que dê resposta às suas luitas particulares,
sintetizando-as no objectivo comum de desmascarar os governos da burguesia,
o capitalismo, luitando por umha verdadeira alternativa democráticia
e socialista, um Partido configurado por militantes no sentido mais integral
da sua dimensom Devemos ir a todas as classes da populaçom
como teóricos, como propagandistas, como agitadores e como organizadores.
Finalmente, na terceira parte da obra Lenine aborda a importáncia de
contar com meios de comunicaçom partidários, de veículos
de socializaçom próprios, do seu papel agitador, propagandista
e organizador político. A imprensa partidária é um dos
mecanismos fundamentais na hora de construir um movimento revolucionário,
difundir os ideais comunistas, a orientaçom do Partido, divulgar as
luitas ocultadas pola censura. A ediçom de um jornal de caracter nacional
(O Iskra), de órgaos locais coordenados a nível nacional, profissionalizados
e de qualidade, tanto do ponto de vista técnico como político,
configuram assim a concepçom leninista do Partido. Nas páginas
do Que Fazer? constatamos a dimensom de sermos capazes de transmitir o ideário
e a política do Partido aos sectores sociais a que se dirige a luita
e que sustentam a sua existência. Se a importáncia de contar
com uns adequados mecanismos de comunicaçom era evidente em 1902 para
as forças revolucionárias, hoje, um século depois, resultam
imprescindíveis para competirmos com a burguesia neste campo, numha
sociedade e num planeta globalizados e modulados polos meios de comunicaçom
de massas. Para as forças anti-sistémicas, na sociedade da comunicaçom,
resulta já nom só vital dotar-se de meios de comunicaçom
tradicionais (jornais, revistas), como empregar as novas tecnologias. Estar
na Rede, ter página na Internet, utilizar o correio electrónio,
é no ano 2001 tam importante como contar com um jornal impreso de agitaçom
e propaganda que estruture e arme ideologicamente o movimento político,
tal como o concebia Lenine em 1902.
Se o Que Fazer? é umha obra escrita por um Lenine com trinta e um anos,
quando no exílio filandês, nas vésperas da Revoluçom
de Outubro, escreve o Estado e a Revoluçom, Vladímir Ilich achava-se
em plena madurez intelectual e política, reconhecido nacional e internacionalmente
como um dos dirigentes mais prestigiados e populares do Partido Bolchevique.
Esta inconclusa obra foi concebida
como umha necessária clarificaçom ideológica com que
refutar as deturpaçons sobre a concepçom marxista do Estado
que vinha popularizando a corrente oportunista da social-democracia, nomeadamente
Kautsky e Bukhárine.
Apoiando-se em textos de Karl Marx
e F. Engels, Lenine ratifica a tese marxista de definir o Estado como um órgao
de dominaçom de classe, um órgao de opressom de umha classe
sobre outra, a ordem que legaliza e afiança esta opressom,
amortecendo os choques entre as classes sociais. Salienta como qualquer Estado
necessita dotar-se de meios coercitivos (polícia, exército regular)
para perpetuar esta dominaçom. Como nas sociedades burguesas o Estado
é o instrumento de exploraçom e repressom de que se dota a burguesia
para perpetuar umha ordem social injusta. Como o sujeito revolucionário,
proletariado na terminologia clássica marxista, povo trabalhador,
classes trabalhadoras e/ou camadas populares, para o comunismo do século
XXI, tem que destruir o aparelho de Estado burgués substituindo-o
polo novo Estado ao serviço da maioria social, mediante umha ruptura
democrática, umha revoluçom popular. Lenine, apoiando-se na
doutrina de Marx e Engels, é determinante nesta questom: A substituiçom
do Estado burguês polo proletário é impossível
sem revoluçom violenta. A supressom do Estado proletário, isto
é, a supressom de todo o Estado, é impossível a nom ser
pola via da extinçom.
Criar as condiçons para a derrubada do poder burguês polas classes
populares, promover a subjectividade necessária para umha assunçom
maioritária das ideias revolucionárias, continua a ser tarefa
prioritária e imprescindível de um partido comunista. É-o
frente a quem defende como única via plausível para mudar de
raíz umha sociedade, libertar umha naçom, emancipar a classe
trabalhadora ou umha minoria étnica, a obtençom de umha maioria
aritmética parlamentar. Semelhante tese pode ser muito produtiva na
hora de recolher votos, mas é umha colossal falácia difundida
polos interessados em que nom haja mudanças reais, os opressores e
as correntes reformistas do movimento operário e popular.
Tanto na Miséria da Filosofia,
como no Manifesto Comunista, está perfeitamente elaborada e desenvolvida
esta tese sem a mínima concessom à qualquer ambigüidade
que poda dar lugar a interpretaçons carentes de rigor ou a interessadas
matizaçons. Mas na actual conjuntura política, caracterizada
pola ofensiva do capitalismo neoliberal a nível mundial, e pola agressom
da oligarquia espanhola contra os movimentos de libertaçom nacional
da Galiza e das outras naçons sem Estado da Península Ibérica,
defender publicamente este princípio marxista, fora dos recintos académicos
ou universitários, pode dar lugar à abertura de diligências
judiciais por apologia do terrorismo por parte de algum famoso juiz espanhol
ao serviço directo do ministério de Interior desse Estado imperialista,
ou mesmo acabar nas suas prisons, após ser torturada nas suas europeias
esquadras ou quartelilhos.
Lenine, em o Estado e a Revoluçom, defende, novamente seguindo Marx,
que a supressom do Estado proletário, quer dizer, a supressom de todo
Estado, só é possível mediante um processo de extinçom,
polemizando assim com a clássica tese anarquista sustentada na sua
destruiçom. Para Lenine o Estado proletário, a ditadura do proletariado
na terminologia proposta por Marx e Engels após a Comuna de Paris,
só é necessário para esmagar a resistência dos
exploradores a perder definitivamente os seus seculares privilégios
e consolidar a nova ordem social em plena construçom. O proletariado
necessita do poder do Estado, de umha organizaçom centralizada da força,
de umha organizaçom da violência, tanto para reprimir a resistência
dos exploradores como para dirigir a imensa massa da populaçom, o campesinato,
a pequena burguesia, os semiproletários, na obra da organizaçom
da economia socialista. Concebe, pois, o novo Estado emanado da revoluçom
socialista (O proletariado organizado como classe dominante) como
algo transitório, porque numha sociedade sem contradiçons de
classe o Estado torna desnecessário e impossível.
Esta tese marxista aperfeiçoada
por Lenine nom foi posta em prática no processo de construçom
do socialismo que derivou da revoluçom bolchevique de 1917. Umha das
causas do fracasso desta tentativa acha-se precisamente na impossibilidade
material de destruir o Estado czarista pola incapacidade bolchevique de contar
com efectivos humanos em quantidade suficiente para levantar um aparelho de
poder póprio e exclusivo, assim como pola aplicaçom deturpada
da teoria revolucionária, que em lugar de alargar a participaçom
e controlo democrático ao conjunto das classes populares, favoreceu
a detençom do poder estatal por umha casta burocrática gram-russa.
Nom é preciso lembrar como esse caminho, frontalmente contrário
ao do «Estado em extinçom» marxista, acabou por fazer do
socialismo umha caricatura para finalmente restaurar o poder capitalista na
terra da revoluçom de Outubro.
É evidente que estas duas obras seguem a ser um ineludível referente teórico para @s oprimid@s do mundo que somos conscientes da dominaçom e exploraçom que sofremos, e da necessidade de agir colectivamente na sua transformaçom. Na construçom de forças revolucionárias na Galiza do século XXI segue a ser necessário estudar e reflectir sobre as achegas teóricas que estas duas obras nos transmitem para podermos avançar no caminho da nossa liberdade nacional e emancipaçom social.
Comité Central de Primeira
Linha (Movimento de Libertaçom Nacional)
Galiza, Março de 2001
O ESTADO E A REVOLUÇOM