GALIZA E A DIVERSIDADE LINGÜÍSTICA
NO MUNDO. SUBSÍDIOS PARA UM DIAGNÓSTICO ACTUALIZADO DA SITUAÇOM
SOCIOLINGÜÍSTICA GALEGA
4.- Conclusom: a necessidade de umha nova dinámica normalizadora
Segundo afirmamos quando aclarávamos o conceito de normalizaçom
lingüística, citando o irlandês D. FENNELL, para que umha
comunidade lingüística recupere a sua língua, minorizada
e ameaçada como a nossa, devem cumprir-se algumhas condiçons
como que adquira a vontade de salvar-se, e nom se lhe impida tomar as medidas
apropriadas para fazê-lo. A partir daí, cumpre-lhe atingir o
seu compactamento e posta em prática de umha planificaçom em
que o governo deverá jogar o seu papel, mas nom suplantar a iniciativa
e vontade de umha colectividade que decidiu já que quer existir como
grupo humano diferenciado, contribuindo assim para o enriquecimento geral
das sociedades humanas.
Nom existem receitas milagrosas
que garantam a salvaçom de umha comunidade lingüística,
como também nom pode dizer-se em nengum momento que umha comunidade
lingüística esteja condenada a desaparecer. Existem exemplos históricos
de povos que perdem a língua apesar de contarem com umhas condiçons
objectivas óptimas para a sua recuperaçom, enquanto o caso do
hebreu -ressuscitado dos textos religiosos- confirma que de se darem as condiçons
subjectivas adequadas, podem salvar-se os contextos mais adversos no caminho
da normalizaçom da língua que um povo fai sua.
É claro que o primeiro passo
para mudarmos a situaçom adversa em que o povo galego está imerso
deve partir da tomada de consciência dessa situaçom. Daí
a insistência com que repetimos que cumpre actualizarmos o diagnóstico
sobre a saúde do galego. É fundamental que os sectores conscientizados
do pulso real da língua se articulem, conformem esse espaço
simbólico que dinamize o processo de recuperaçom, e o fagam
sem pôr mais impedimentos dos que tal empresa já tem pola presença
conflituosa do espanhol como língua hegemónica.
Cumpre, portanto, adoptarmos critérios
gerais motivadores para um cada vez maior número de galegos e galegas.
Um desses critérios é sem dúvida o reintegracionismo.
Quase duas décadas de política e de normativa oficiais tenhem
dado mostras da sua incapacidade para mobilizar vontades a favor do idioma.
Foi geral -e, em nossa opiniom, errada- a tendência a arrumar o chamado
"conflito normativo", cedendo à imposiçom do isolacionismo
em nome de avançarmos unidos e deixarmos debates "secundários"
para quando o galego estivesse "normalizado". Dessa mentalidade
parte a separaçom conceptual entre "normalizar" e "normativizar"
assumida polo nacionalismo, e que com a passagem dos anos se tem demonstrado
falaz. Aliás, evidenciou-se a autêntica ordem de prioridades
do poder: pujo na imposiçom do padrom espanholizador todo o empenhamento
que negou nom só ao avanço na normalizaçom do status,
senom mesmo ao cumprimento da lei aprovada polas próprias instáncias
oficiais.
A norma e filosofia oficiais tenhem
servido de pontais na hibridaçom formal entre galego e espanhol, nom
já como línguas, quanto como universos culturais autónomos.
Esta crescente confussom entre ambos os sistemas -sempre em favor do que de
partida era mais forte- funciona como elemento desmotivador na reafirmaçom
da identidade galega, e portanto na promoçom de um discurso da responsabilidade
social quanto à necessária normalizaçom lingüística
(101).
Tudo isto, sem levar em conta o
antidemocrático do processo de marginalizaçom e repressom até,
dos sectores que contra vento e maré mantivérom alta a bandeira
do reintegracionismo, algo imprescindível para hoje podermos falar
de reorientaçom da política lingüística e cultural
na Galiza.
De outra parte, e nom menos importante,
devemos deixar de interiorizar certo discurso maioritariamente estendido que
fai recair toda a responsabilidade das deficiências em matéria
de política lingüística sobre o poder, concretizado na
legislaçom ou no governo. Porque a assunçom desse discurso mantém-nos
de algum jeito alheios a essa política, o que por conseqüência
provoca, como máximo, a apática simpatia a que já nos
temos referido linhas atrás. Devemos estender um novo discurso da responsabilidade,
que faga assumir ao povo o protagonismo da luita pola língua, e situe
o papel do Estado, governo, ou legislaçom de turno no seu lugar, fundamental
e complementar do labor dos grupos sociais articulados, mas nom substituto
deles.
Esta nova mentalidade social começa
a sementar-se a partir da prática social. Cumpre darmos passos na compactaçom
do enfraquecido e disperso espaço simbólico galego e na sua
activaçom, recuperando a tensom normalizadora existente anos atrás
e superando-a em qualidade e quantidade. Nom podemos continuar a dar paus
de cego, senom trabalhar coordenadamente para atingir primeiro espaços
comuns de trabalho normalizador e depois ou simultaneamente avanços
concretos que sirvam para reforçar a motivaçom social.
A legislaçom, o governo,
o Estado,.... virám ao rego como conseqüência dessa acçom
social que situe os objectivos lingüísticos por cima das disputas
partidárias, obrigando as forças políticas, económicas
e sociais a situar-se a respeito do repto normalizador.
Vendo a realidade actual quanto
a coesom e acçom social em favor do galego, achamos um deserto onde
cada quem clama polo seu lado, enquanto a maioria social fica alheia à
política propagandística do poder e às queixas testemunhais
de agrupaçons incapazes de aglutinar um corpo social significativo,
porventura devido a nem ser essa a intençom dos seus promotores. O
fraco movimento normalizador, como outros movimentos sociais, está
supeditado a directrizes partidárias, jogando a fazer "oposiçom
institucional" (102), mais do que a preocupar-se por dar passos no caminho
da galeguizaçom objectiva e efectiva. A sua acçom limita-se
amiúde ao aproveitamento do fax e dos espaços informativos que
cedem os meios com vistas a ocupar essa quota correspondente aos "galeguistas".
A alternativa passa por, umha vez
que se compreende que o protagonismo deve corresponder à sociedade
civil, desenvolver medidas necessárias de ordem interna e externa aos
próprios organismos normalizadores, entre as que podemos citar:
- A unidade de acçom dos
sectores sociais favoráveis à normalizaçom, hoje dispersos
por disputas alheias ao objectivo normalizador (pugna entre partidos, p. ex.)
ou perfeitamente assumíveis desde um critério aberto e integrador
(diversas propostas padronizadoras). Em todos os casos devem ser muitos mais
os pontos de encontro, umha vez desterrado o sectarismo imperante na actualidade.
- A posta em funcionamento de espaços
físicos onde os galegofalantes das nossas cidades se encontrem, se
reforcem e promovam actividades conjuntas que situem o idioma no centro das
mesmas. Existe algumha experiência recente no nosso país neste
senso, como a Fundaçom Artábria de Ferrol, além das desenvolvidas
com sucesso em países como a Catalunha (Via Fora, em Barcelona, p.
ex.) ou Euskal Herria (Kafé Antzokia em Bilbo, entre outras).
- A organizaçom sectorial
de pessoas atingidas por umha problemática lingüística,
como poda ser o ámbito do ensino. As iniciativas neste campo podem
ir da desobediência civil ante a gritante discriminaçom de crianças
galegofalantes pola inexistência na maioria das cidades de escolas em
que o galego seja língua veicular, à aposta pola criaçom
de umha rede alternativa de centros sustentados polos próprios pais
onde se garanta que o ensino deixa de ser mecanismo espanholizador, do tipo
dos promovidos por outras comunidades lingüísticas como a bretoa
(escolas Diwan), a basca (Ikastolas) ou a catalá (escolas Bressola,
na Catalunha Norte), por citar algumhas cujos resultados som palpáveis.
- O desenho e execuçom de
umha planificaçom que leve à progressiva implantaçom
de meios de comunicaçom em galego, iniciativa sempre adiada apesar
de todo o corpo social pró-galego concordar na sua necessidade. Paralelamente,
é fundamental conseguir que as ondas portuguesas -e brasileiras, através
dos satélites- cheguem ao nosso país. Isso ajudará a
romper preconceitos e incomunicaçons seculares, e agirá como
reforço, primeiro, da autoestima lingüística, e segundo,
na reorientaçom e construçom de um sistema cultural galego que
olhe para o seu ámbito próprio.
- Como pano de fundo, desvinculaçom
da movimentaçom lingüística a respeito das organizaçons
políticas e assunçom por estas da necessidade de que se ponham
ao serviço de aquelas, para evitar que aconteça como hoje, o
contrário.
- O papel das instituiçons
-Cámaras Municipais, Junta da Galiza, Deputaçons, etc., deve
responder a umha procura social perfeitamente verificável e articulada
em organizaçons próprias (Entidades normalizadoras, Associaçons
de Maes e Pais de Alunos, Comités de Empresa, Associaçons vizinhais,
Sindicatos,...) que exijam o desenvolvimento de planos normalizadores concretos
para cada ámbito afectado.
Estas e outras iniciativas que todos e todas podemos ter em mente e tantas
vezes temos comentado com a frustraçom de nunca levá-las à
prática, podem ter nom só o valor objectivo que implicam para
a língua, senom também provocar a motivaçom subjectiva
da desmobilizada ou inconsciente base social hoje desactivada. Por isso, de
partida, nom se precisa de adesons maciças, senom mais bem de grupos
qualitativamente capacitados, polo seu compromisso e claridade de ideias,
para puxar inicialmente de um processo que sem dúvida terá efeitos
multiplicativos desde que se vejam os seus primeiros frutos. E por isso, também,
será importante basear umha nova dinámica em projectos construtivos
de oposiçom aos hoje dominantes protagonizados polo espanhol, alternativos
e capazes de ganhar a cumplicidade primeiro e a adesom depois, de amplas camadas
sociais. Paralela e espontaneamente, esta dinámica precisa de organismos
populares mais centrados na "reivindicaçom" ou demanda de
eliminaçom de entraves para essas e outras iniciativas, dando lugar
a umha nova e rica dialéctica social em que o galego ocupe o centro
da espiral de progresso.
Provavelmente estas linhas finais
podam ser acussadas de utópicas, porquanto efectivamente nom tenhem
lugar nesta terra e neste tempo. Porém, ante a realidade esmagadora
que vivemos no que di respeito à crise das identidades nacionais nom
homologadas polo sistema mundial, achamos mais utópico confiar em que
um processo eleitoral, umha legislaçom ou um governo, por si sós,
vaiam resolver a crise que o nosso povo atravessa, pois acreditamos que sem
a implicaçom directa do mesmo na sua afirmaçom nacional, esta
nom lhe virá dada por graça divina de qualquer signo.
A normalizaçom, como plasmaçom prática da independência do nosso povo no plano lingüístico, nom pode converter-se em totem ou abstracçom idealista, sem concreçom no presente. Igual que a autodeterminaçom colectiva, a construçom da naçom e outros objectivos estratégicos como a justiça social, os direitos das mulheres, a liberdade ou o socialismo, só podem efectivar-se a partir da transformaçom radical da base social que aspira a conquistá-los. O reencontro em plenitude entre a língua galega e o povo que a criou unicamente poderá vir da sua vontade expressa enfrentada com a injusta realidade actual que o nega, com vistas à sua superaçom.
NOTAS
101.- Em palavras de Elvira SOUTO (1999), professora de Didáctica da Língua e a Literatura, "Esta normativa, que tantas vezes se defende em termos pedagógicos como a melhor possível alegando-se que a sua quase-identidade com a do espanhol evita problemas aos escolares (mais problemas se evitariam ensinando umha única língua), na realidade -na realidade da experiência prática- leva anos impedindo esses escolares de adquirirem, em galego, a plena competência lingüística e comunicativa. Por que? Porque a clareza é um dos alicerces mais firmes em que assenta todo o aprendizado lingüístico que nom se limite a simples memorizaçom de algumhas regras ortográficas e gramaticais. E num ensino multilíngüe a clareza só resulta possível de se manterem bem separados os diferentes códigos e se evitarem, na medida do possível, as interferências (mais exactamente, no nosso caso, as transferências do espanhol para o galego)".
102.- Nos últimos meses, mesmo tivemos ocasiom de ver actuar governos municipais nacionalistas em cidades importantes, o que nom varia, senom mais bem confirma, a nossa suspeita de nom jogar-se o futuro do idioma na consecuçom de maiorias eleitorais por parte do nacionalismo institucionalizado.
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