GALIZA E A DIVERSIDADE LINGÜÍSTICA NO MUNDO. SUBSÍDIOS PARA UM DIAGNÓSTICO ACTUALIZADO DA SITUAÇOM SOCIOLINGÜÍSTICA GALEGA

 

3.- Para um diagnóstico actualizado da situaçom sociolingüística galega

3.1.- A história explica o presente

Como viveu a Galiza esses longos séculos de negaçom e marginalizaçom, de aproveitamento dos seus recursos em funçom do fortalecimento de um projecto que a negava como comunidade viável em todos os planos da vida social? Será que se trata de um continuum que responde à mesma caracterizaçom sociolingüística -a tam recorrida "situaçom diglóssica"-, ou existem mudanças salientáveis que afectem à comunidade lingüística galega?

Estamos convencidos de que a resposta destas questons pode orientar-nos para conhecer, primeiro, a relaçom histórica entre língua e sociedade na nossa terra, e a actualizar, a seguir, um diagnóstico para os tempos que vivemos, que nem som os dos Séculos Escuros, nem os do Rexurdimento ou a Geraçom Nós; nem sequer vivemos os tempos da chamada Transiçom pós-franquista. Estas afirmaçons, que semelham verdades de pé de banco, acham justificaçom na persistência da descriçom sociolingüística actual a partir de esquemas que reflectem a situaçom de umhas décadas atrás, o qual nom se corresponde, segundo trataremos de evidenciar, com o estado actual do galego na Galiza.

3.2.- Evoluçom social e língua na Galiza do século XIX

Podem-se citar exemplos de como se efectivou a desarticulaçom da nossa comunidade lingüística e nacional partindo de um olhar à sua história nas últimas centúrias. De facto, muitos dos males hoje tidos por endémicos na sociedade galega acham a sua origem e explicaçom no papel historicamente jogado pola Galiza no contexto espanhol, a começar polo tam doestado minifundismo do campo galego ou em geral a desarticulaçom social da Galiza rural, mais tarde transplantada à cidade. O certo é que tradicionalmente foram habilitados na Galiza mecanismos sociais que evitavam a generalizaçom da parcelaçom de terras, como a melhora.

Foi o processo seguido pola propriedade rural com as desamortizaçons e outras medidas jurídicas e económicas efectivadas de costas aos verdadeiros interesses e necessidades do campo que liquidárom modos de funcionamento tradicional, e nom precisamente para substituí-los polo progresso da industrializaçom através da criaçom de umha burguesia encarregada de dirigir tal processo55. Umha desarticulaçom, enfim, também atribuível para além do imaginário camponês e dos traços antropológicos galegos, a decisons bem concretas da Administraçom espanhola, como poda ser o nom reconhecimento jurídico da paróquia, factor de merma na coesom social, dada a "disfuncionalidade da Administraçom Local espanhola relativamente à organizaçom institucional espontánea da naçom"56.
Nom é por acaso que ilustramos o declínio histórico da comunidade galega situando-nos no século XIX, pois representa um ponto de inflexom importante no percurso secular da sua consciência lingüística, e o limiar de umha série de mudanças estruturais na sociedade, com importantes conseqüências quantitativas na dinámica de grupos sociolingüísticos galegos. Um percurso que FREIXEIRO MATO esquematiza no que toca ao estatuto social do idioma dividindo-o em "sete séculos de normalidade" e "cinco séculos de conflito" (57).

Deparamos nessa altura com umha novidade na subjectividade de umha parte da intelectualidade galega. Umha intelectualidade maioritariamente adscrita à pequena burguesia, que pola primeira vez desenvolve um labor colectivo, numericamente minoritário, pertencente a diversas tendências ideológicas, desde as liberais progressistas até as moderadas e mesmo conservadoras, mas de umha importáncia simbólica fundamental para o que há de ser o desenvolvimento posterior do nacionalismo galego. Um nacionalismo, lembremo-lo, para o que sempre o idioma foi bandeira de todo aquilo que compunha -e compom- a identidade galega. Infelizmente, nem a incipiente burguesia industrial, nem a "tradicional" burguesia mercantil assumiriam a sua condiçom galega, o que acha explicaçom na estrutura económica que as vincula de modo subsidiário e dependente com a oligarquia espanhola (58). De maneira que, como afirma Carvalho Calero, "se no tránsito da Idade Média para a Idade Moderna se castelhanizou lingüisticamente a nobreza, no tránsito da Idade Moderna para a Contemporánea castelhanizou-se a burguesia" (59). Nom é alheia a esse desprezo polo "particular" a ideologia liberal uniformizadora emanada da Revoluçom Francesa60, com a extensom do seu aparelho administrativo centralizado durante o século que comentamos.
Já do século anterior ao surgimento do incipiente galeguismo, cujo arranque situa X. R. BARREIRO em 1840 (61), conservamos análises críticas da situaçom da língua, com base em factores históricos e sociais, dentre as que destacam as do Padre Sarmiento:

"No pocas veces he pensado en cuál ha sido la causa de que en Galicia se haya introducido el uso o abuso de escribir en castellano, lo que antes se escribía en latín o gallego... No habiendo precedido ni concilio ni cortes, ni consentimiento uniforme de los gallegos para actuar, otorgar, comerciar en lengua castellana ¿Quién lo introdujo? La respuesta está patente que Galicia llora y llorará siempre: no los galllegos sino los no gallegos que a los principios del siglo XVI inundaron el reino de Galicia, no para cultivar sus tierras, sino para hacerse carne y sangre de las mejores y para cargar con los más pingues empleos así eclesiásticos como civiles.
Ellos han sido los que por no saber la lengua gallega ni por palabra ni por escrito, han introducido la mostruosidad de escribir en castellano para los que no saben sino el gallego puro" (62).

Certificamos portanto o facto de o idioma adquirir categoria política desde os primeiros anos do século XIX. Nom entraremos na análise da funcionalidade lingüística no conjunto do país durante esta centúria63, mais que para tratar de enquadrar as grandes tendências sociolingüísticas no curso das relaçons sociais e económicas que regista a Galiza decimonónica. A situaçom objectiva da comunidade lingüística galega nom apresenta em princípio grandes novidades quanto a uso social se comparado com os séculos anteriores. Isto é devido a que o corpo social conserva as funçons sociais identitária, familiar, laboral e local, quer dizer, aquelas mais definitórias das línguas de transmissom natural. As restantes funçons som monopolizadas polo espanhol, se exceptuarmos a leve irrupçom do nosso idioma na literatura e noutras manifestaçons da vida cultural em que mantivera umha presença precária (64).

O primeiro dado a ter em conta na história contemporánea galega é a total dependência dos seus traços caracterizadores a respeito de factores exógenos, o que torna patente a total desmembraçom do corpo social como parte de umha periferia de umha periferia, pois já temos comentado brevemente o papel lateral da Espanha no concerto capitalista europeu da altura. Assim, circunstáncias fora do controlo de qualquer agente interno à formaçom social galega determinam súbitos crescimentos demográficos em 1898 (repatriaçom massiva de Cuba e Porto Rico), igual que mais tarde pola crise mundial de 1929, ou mesmo a ré-ruralizaçom do país devida à posguerra civil (65). Nom é preciso lembrarmos que a repatriaçom foi devida à prévia e brutal emigraçom, sintoma evidente da incapacidade que, de maneira induzida pola dependência, mantivo a nossa naçom paralisada ante a chegada dos países avançados à nova fase de desenvolvimento capitalista.

É também a ausência de novidades estruturais na formaçom social galega que determina a estabilidade da partiçom funcional no uso entre galego e espanhol. Ao contrário do que concluem certas análises idealistas próprias das primeiras etapas da evoluçom do discurso galeguista, hoje podemos afirmar que a conservaçom do galego durante séculos como "língua camponesa -e marinheira- do meu povo" (66) nom se deveu tanto à persistência patriótica das classes populares ante o afám espanholizador dos centros de poder, quanto mais bem às próprias condiçons derivadas de o nosso país ficar praticamente isolado de toda inovaçom que, indefectivelmente, penetrava da mao do espanhol. Começando por umha industria e um comércio impulsionados em boa medida por burguesias foráneas, ou o próprio Estado centralizado, com a sua incipiente burguesia administrativa como referência de modernidade, bem como a chegada da imprensa escrita, ou com um acesso à educaçom que na nossa terra se produziu a um ritmo mais lento, percentual e cronologicamente, do que acontecia noutras latitudes do Estado espanhol (67).

A respeito da lenta introduçom do ensino centralista na Galiza, Narciso DE GABRIEL (1988) documenta o desinteresse dos pais no mundo rural decimonónico polo ensino do espanhol nas escolas de ferrado e nas públicas incompletas. Ele mesmo explica-o pola falta de motivaçons actuantes nesse senso numha populaçom condenada a perpetuar o papel produtivo num sector agrário cronicamente subdesenvolvido. Unicamente se veria a necessidade do espanhol na perspectiva da emigraçom, argumento igualmente empregado por sectores ilustrados para justificar a imposiçom do espanhol na Galiza (68). Nom há dúvida de que o facto de nom se julgar necessário o aprendizado do espanhol em funçom do rol social desenvolvido pola maioria da populaçom galega, nom impede que se veja a superioridade da língua oficial, na medida em que acompanha o progresso das minorias urbanas que ocupam posiçons socioeconómicas de privilégio. Ou polo simples facto de ser o idioma da administraçom e, portanto, da autoridade, o que em meios urbanos o introduziu mesmo como marca, mais que de um progresso social, de umha vontade do mesmo.

É este um exemplo de como som as estruturas socioeconómicas que condicionam a consciência lingüística e a própria permanência da língua do país. A introduçom do ensino em espanhol, para além de nom alcançar umha maioria do povo rural galego, nom podia impor-se a umha realidade que nom o demandava. O modelo elitista a imitar quanto ao comportamento lingüístico nom se encontrava nesse espaço, senom no referido hábitat urbano. Polo contrário, a universalizaçom do ensino em épocas mais recentes, ao lado de mudanças estruturais no modelo de desenvolvimento galego, tenhem posto de manifesto umha muito maior eficácia uniformizadora da escola espanhola na Galiza, sempre acompanhando o ritmo de urbanizaçom da nossa sociedade ao longo do século XX.

Com efeito, a entrada em jogo desses factores espanholizadores nom agiu no sentido de democratizar a sociedade permitindo a livre eleiçom de língua, como afirmam sem ficarem corados os ideólogos do "bilingüismo limpo" na actualidade. Igual que o modo de vida rural incluia o galego como ingrediente consubstancial, resto do que algum dia fora idioma de cultura de toda umha sociedade, a penetraçom progressiva de inovaçons também nom deu lugar à eleiçom e supujo o avanço inescusável no caminho da substituiçom lingüística, por mais que se "cooficializasse" o galego e hoje se chegue a permitir a sua escolha parcial de maneira individual. Mesmo a introduçom do galego no ensino como língua veicular nom serviria por si só para regaleguizar a sociedade sem outras transformaçons sociais de fundo calado, pois poderia provocar o mesmo rechaço passivo que provocou a castelhanizaçom no mundo rural do século XIX, se nom se lhe ver utilidade (69).

Daí que a via para anular a possível concorrência do galego como língua de uso social ante a chegada de novas actividades veiculizadas polo espanhol poucas vezes precisasse de umha repressom explícita em forma de legislaçom punitiva. A inevitável associaçom entre o código lingüístico e a actividade social que veicula garantiu em todo o momento umha "actualizaçom" de aquelas pessoas que acediam a essas novas actividades que representavam o possível ascenso social, ficando igualmente caracterizadas aquelas que, incapazes de alcançar o ascenso, permaneciam ancoradas no uso do código inferior. De igual maneira, os factos relativizam a existência de umha legislaçom favorável a um idioma minorizado como medida normalizadora, quando as condiçons sociais que lhe atribuem o rol de "insuficiente", "desnecessário" ou similar, se mantenhem intactas ou sem mudanças significativas quanto à consciência lingüística da colectividade (70).

Ao longo do século XIX, a Galiza mantivo o carácter rural de maneira quase absoluta. Em meados de século, o índice de ruralidade atinge 90%, e nas províncias de Lugo e Ourense, a percentagem alcança 95%. Um povoamento rural correspondente a umha economia eminentemente agrária e atrasada, com um índice de populaçom activa agrária ainda de 85'8% em 1900, quando nos países mais avançados da Europa se situava já entre 30% e 45%, e mesmo as médias de Estados periféricos como o espanhol ou o italiano supunham entre 60% ou 65% do total (71). A falta de alternativas internas é que explica a saída do país ao longo do século de uns 900.000 galegos na sangria migratória.

A frustrada industrializaçom na Galiza do século XIX, devida entre outras razons à falta de umha reforma agrária que garantisse que o excedente fosse investido no mercado e na indústria em lugar de continuar a engordar as classes rendistas, é a chave económica que explica a conservaçom de um modelo social continuador de etapas históricas já superadas noutros países nessa mesma altura. A descapitalizaçom da fraca burguesia atraída polas desamortizaçons em curso, ante a perda do mercado americano e a crise europeia prolongada na Galiza mais alá da data de 1848 em que concluíra noutras áreas, ajuda também a explicar o estagnamento galego. Como também o fai conhecermos a política económica do Estado espanhol, em cujo desenho se priorizam determinadas áreas para protagonizarem o desenvolvimento industrial pendente: País Basco, Astúrias, Catalunha e um sector do Levante som as áreas escolhidas, ficando o nosso país, com outros espaços do Estado, encarregado de fornecer mao de obra aos novos centros industriais, e de contribuir para a consolidaçom dessa aposta centralista através de um sistema fiscal que se apoia sobretudo no sector agrário em benefício das áreas industrializadas.

Pensamos que som todos esses factores socioeconómicos, ao lado do puramente físico da sua situaçom geográfica marginal a respeito de outras áreas de progresso, que explicam a maior conservaçom do idioma no nosso país do que nos restantes minorizados polo Estado espanhol ou noutros territórios em que na altura se edificavam uniformizadores projectos de Estado-naçom. Tese, de resto, confirmada polos progressivamente maiores desequilíbrios internos entre certos focos industrializados na costa (Vigo, Corunha, Ferrol, Vila-Garcia,...) e as despovoadas zonas do interior das quatro províncias, nomeadamente de Lugo e Ourense (descontando as capitais de província e contadas vilas cabeceiras de comarca e/ou industrializadas ou dotadas de serviços). Os primeiros vírom avançar em maior medida o uso do espanhol, por mais que mantivessem o galego justamente nos espaços rurais e actividades agrárias, e as segundas registam ainda hoje um maior nível de uso social do galego (72). E, correlativamente, som as áreas urbanas -e as pessoas mais novas- que manifestam atitudes mais favoráveis ao idioma -embora seja de jeito passivo-.

A grande quantidade de preconceitos ligados ao próprio idioma tem a ver com a identificaçom entre o atraso socioeconómico e o código lingüístico que, em boa medida, o representa. É fulcral nessa identificaçom a concorrência de um outro código a que só umha minoria tem acesso (73). Salientam no século XIX a identificaçom do galego como simples "dialecto", representante de umha cultura inferior, e inútil ante a necessidade de procurar trabalho "fora". Chega-se a assumir como natural a necessidade de emigrar por razons económicas, exercendo de novo um factor socioeconómico o efectivo labor destrutivo da mais mínima autoestima (74).

Foi à luita por combater essas crenças que o galeguismo destinou boa parte das suas energias desde os inícios da sua actividade e durante todo o século XX, ainda que a realidade esmagadora da situaçom do país e a pressom ideológica dominante dificultárom umha conscientizaçom que sempre ficou reduzida às minorias.

Quanto à caracterizaçom dos grupos sociais segundo a sua posiçom como utentes de um ou outro códigos, partimos de umha sociedade em que o galego era língua muito maioritária, embora sofresse um processo de minorizaçom relativamente estabilizado polo próprio estagnamento das forças produtivas galegas num estádio pré-industrial. A minoria espanholfalante ocupava posiçons localizadas social e espacialmente, excepto naqueles focos acima referidos em que se desenvolviam actividades de tipo industrial, que avançavam o que seria a base de umha novidosa permeabilizaçom da presença espanhola na Galiza ao atrair para esses centros industriais (escassos) populaçom procedente do ámbito rural.

De um certo conhecimento passivo do espanhol maioritário tradicionalmente, passará-se a umha diversa gradaçom de bilingüismo nos imigrantes às cidades ou os habitantes das suas periferias ou de vilas próximas. Na medida que, ao longo do século seguinte, as etapas de desenvolvimento económico cheguem à Galiza, a balança demolingüística irá abalando do lado de um semibilingüismo primário ou natural (A/A) que, com a introduçom do ensino em espanhol e de outros meios e domínios em que esse é o idioma de acesso, se transformará em bilingüismo diglóssico ou substitutivo (A/AB).

3.3.- Século XX na Galiza: avanço ou recuo?

É significativo repararmos na evoluçom do monolingüismo em galego desde o século XIX até o último quartel do século XX. Os dados do Mapa Sociolingüístico Galego mostram que em 1877 o grupo de falantes habituais de só galego estava próximo de 90%, o que confirma estarmos ainda ante umha situaçom de conservaçom da tradicional distribuiçom sociolingüística na nossa sociedade. Mas confirma-se também a proximidade de um ponto de inflexom que marca a queda contínua desse grupo, fundamental na vitalidade mantida polo galego durante séculos de marginalizaçom. A grande descida na percentagem de monolíngües em galego, iniciada já em 1877, produz-se a partir de 1924 e até 1947 primeiro, e de 1967 à actualidade depois. Ao tudo, falamos da perda de um 70% de populaçom monolíngüe entre 1877 e 1974 (de 88'5% a 17'5%). Quanto ao monolingüismo em espanhol entre os mesmos anos, passou de 2'9% para 20'5%, o que significa a existência em 1974 de um maior número de monolíngües hispanófonos do que galegófonos (75).

Repare-se em que estamos na data álgida do chamado desenvolvismo hispano, que como todas as suas etapas de alça ou declínio económico, tivo reflexo directo na dependente sociedade galega, tanto na modernizaçom das suas estruturas -embora fosse em funçom de interesses e critérios exógenos- quanto na uniformizaçom lingüístico-cultural que a acompanhou. Teremos ocasiom de ver a evoluçom concretizada a partir dessa data, mas o que gostaríamos de frisar agora é a implicaçom real do fenómeno, além das circunstáncias socioeconómicas e demográficas que o envolvêrom. Esta descida da percentagem de galegofalantes acompanhou ao longo do século XX a paralela queda percentual da populaçom rural e agrária galega face à urbana e enquadrada nos sectores secundário e terciário. Já dixemos que no início do século a correlaçom entre populaçom rural e urbana se situava em 90% face a 10% -90.1% face a 9.9%, exactamente, em 1900-. Daí até 1920, passamos a uns índices de 87'3% e 12'7% respectivamente, quer dizer, unicamente 3 pontos escassos de diferença em vinte anos. Entre essa data e 1950, a populaçom rural passa a representar 78'6% e a urbana 21'4% -8'7 pontos de diferença em trinta anos-. Entre 1950 e 1970 -vinte anos- temos um aumento urbano e umha diminuiçom rural de 7'1 pontos. E a partir de 70 até 1991 -outros vinte e um anos- a diferença encurta-se em mais oito pontos, ficando nessa altura em 63% de populaçom rural face a 36'5% urbana76. Numericamente, isto supom que a zona urbana quintuplicou a sua entidade até os inícios dos anos 90, enquanto a zona rural se mantivo, perdendo finalmente valor no recenseamento de 1991. Também se comprova que o maior aumento da populaçom urbana se dá segundo o século vai mais avançado, igual que a perda de populaçom monolíngüe, ainda que a um ritmo nom tam marcado. Contudo, seria errado pensar que a perda de peso do mundo rural se deveu principalmente ao êxodo interno para as cidades. Tenha-se em conta de partida que, entre 1900 e 1990, a populaçom galega só cresceu numhas 750.000 pessoas -37%-, enquanto a espanhola aumentou em 111%. A maior parte da populaçom activa agrária que abandonou o campo durante o século XX fijo-o para emigrar, ante a já comentada incapacidade da sociedade galega para incorporá-la a umha descolagem industrial que só se deu de maneira tímida e focalizada. Assim, entre 1900 e 1970 o fluxo migratório expulsou da Galiza por cima das 800.000 pessoas. Nessa altura -1973-, o peso da indústria supunha na ocupaçom da Galiza 21'2%, face a 36'1% no conjunto do Estado espanhol e 52% na Catalunha. O sector serviços, também ligado à progressom urbana, significava nesse ano 26% do emprego galego, 38'8% do espanhol e 38'7% do catalám (77). O tipo de industrializaçom responde a esse modelo de desenvolvimento dependente e portanto em funçom de critérios e interesses alheios: pasta de papel, alumínio, refino de petróleo, de umha parte, e produçom de automóveis ou construçom naval de outra. É o que X. LÔPEZ FACAL chamava naquela altura indústrias desarticuladas para frente e para trás, fazendo referência ao facto de nom incluírem as fases finais ou iniciais, respectivamente, do processo produtivo (78). Essa característica reflecte a fraqueza industrial galega ao tempo que explica o seu abalar ante circunstáncias de mercado ou conveniência exterior a que sempre fica supeditada.

A diferença entre os ritmos de urbanizaçom e espanholizaçom, indo esta por diante de aquela, pode explicar-se polo facto de o tipo de assentamento em si nom ser o realmente determinante na perda da língua, senom na medida que representa o sintoma de umhas tendências que fam perder entidade à economia tradicional agrária ao longo do século; economia tradicional agrária que sustinha, como dixemos, umha estrutura social e cultural ancorada no conservadorismo e o isolamento, favorecendo a permanência estável do esquema sociolingüístico a que já temos feito referência.

Se aprofundarmos um bocado na evoluçom da populaçom activa agrária ao longo do século XX, veremos que é negativa em termos relativos no conjunto de Estados desenvolvidos, quer do centro capitalista (Bélgica, Holanda, Reino Unido, Dinamarca, França ou Estados Unidos), quer da sua periferia (Itália, Espanha, Portugal, Irlanda...), na qual se integra geográfica e economicamente a Galiza. Se nos primeiros se situa a inícios da década de noventa à roda de 5% da populaçom activa total, e no Estado espanhol, periférico, representa em 1990 11'3%, na Galiza, embora o peso da populaçom activa agrária descesse durante todo o século XX, ainda supom em 1991 umha percentagem de 23'8% (79). Como se vê, apesar de no nosso país a economia agrária dar emprego a segmentos da sociedade percentualmente superiores à de outros países próximos, fica longe do tanto por cento de populaçom assentada no hábitat rural galego, o que significa que umha parte desta populaçom está vinculada a trabalhos enquadrados em sectores diferentes do primário. Em concreto, em 1991 a indústria e a construçom seuponhem 31'3% e o sector serviços 45% da populaçom activa galega (80). Rompeu-se a maioria absoluta que a economia agrária atrasada supunha nos séculos XIX e anteriores, e a permanência de ainda boa parte da populaçom galega no meio rural fica redefinida por umhas comunicaçons mais fluídas com "a modernidade", nom apenas através de estradas para assistir diariamente ao trabalho ou aceder aos serviços situados nas cada vez mais urbanizadas cabeceiras de comarca, senom também pola recepçom massiva das ondas televisivas e radiofónicas, bem como pola universalizaçom nos últimos decénios do Ensino Geral Básico. Todo o qual ajuda a perceber a actual situaçom da língua e a olhar com realismo as suas necessidades de futuro.

3.4.- A língua da Galiza no limiar do século XXI

Se retomarmos agora os factores recorrentes apreciados por BRENZINGER, HEINE e SOMMER (citados in Carme JUNYENT, 1993), nos processos de extinçom lingüística, veremos que as mudanças no sistema económico, o número absoluto de falantes e a urbanizaçom, concorrem no caso galego com toda a nitidez, ajudando os casos estudados por esses autores a enxergar o futuro que nos espera como comunidade lingüística se nom pugermos remédio.

Ligado com isto, ainda nos nossos dias a populaçom rural continua a ser maioria no nosso país (81), igual que a populaçom galega continua a ter como língua habitual a galega de forma maioritária -29'9%- ou exclusiva -38'7%-. E nada indica na actualidade que ambos os fenómenos -urbanizaçom e desgaleguizaçom- vaiam deixar de avançarem de maos dadas, senom mais bem o contrário, pois se o conjunto da Galiza envelhece a olhos vistos, o meio rural fai-no muito mais marcadamente, e dentro da populaçom urbana, maioritariamente desgaleguizada, as suas faixas etárias mais novas dam mostras de um abandono tam generalizado como alarmante do idioma do país, por mais que se nos diga que a perda de populaçom monolíngüe em galego supujo um enriquecimento pola via do bilingüismo.

Para já, convém levarmos em conta que nom estamos a falar do mesmo quando comparamos o grupo histórico dos monolíngües em galego com o dos monolíngües em espanhol, como na actualidade resulta pouco rigoroso falarmos sem mais do aumento do grupo social caracterizado como bilíngües. Os monolíngües "históricos" em galego eram monolíngües primários, quer dizer, tinham competência comunicativa só em galego, ligada à manutençom histórica da transmissom natural; mas em nengum caso umha formaçom secundária no mesmo; entendendo por formaçom secundária nom apenas a escolar, mas a geral exposiçom ao idioma em usos pertencentes aos mais variados domínios formais, o que os teria convertido em monolíngües secundários ou cultivados. Nom faziam parte, logo, de um espaço simbólico que, como núcleo ideativo e motor de recuperaçom da comunidade lingüística, nom existia senom nos grupos galeguistas progressivamente incorporados ao uso do galego em ámbitos de uso escrito e formal, o que começou a acontecer significativamente segundo o novo século ia andando e careceu dos canais apropriados para a sua reproduçom. Sabemos que a lenta introduçom do ensino e os meios de comunicaçom nom serviu para completar lingüisticamente esse numerosíssimo grupo de monolíngües primários em galego, senom para aprofundar no paradigma de extorsom (82). Polo contrário, o crescimento do grupo de monolíngües em espanhol viu-se arroupado pola introduçom do ensino e demais retículos comunicativos formais e secundários. O motor desse crescimento é constituído por umhas condiçons socioeconómicas que favorecem a substituiçom lingüística, polo que costumam acabar por serem monolíngües secundários (falantes naturais com formaçom cultural na língua inicial), fim último da aplicaçom do citado paradigma. Portanto, estes sim constituírom um espaço simbólico que se tornou forte e atraiu para si os grupos nom completados em espanhol, o que foi acontecendo nas sucessivas geraçons.

Dito por outras palavras, a situaçom de colingüismo ou convívio entre duas comunidades lingüísticas num mesmo território, -umha muito maioritária galegofalante ligada à subdesenvolvida Galiza tradicional, e outra muito minoritária espanholfalante vinculada com o progresso e a modernidade-, rompeu com a progressiva transformaçom das estruturas tradicionais da sociedade. O ensino -que começa a sua introduçom a sério na decada de sessenta-, os meios de comunicaçom escritos -que também aumentam a sua presença social nessa altura-, a rádio -o transistor estendera-se já na década de cinqüenta-, televisom -generalizada sobretudo a partir dos anos sessenta-, mesmo a modernizaçom das vias de comunicaçom, fôrom ferramentas que o desenvolvismo achegou e que ajudárom a "actualizar" lingüisticamente umha populaçom ainda maioritariamente rural, mas em lento processo de proletarizaçom e urbanizaçom.

Destarte, o predomínio em cada vez maior medida de grupos bilíngües deve ser precisado no senso de desvendar que tipo de bilingüismo abraçam esses substitutos do antigo monolingüismo primário em galego. Já que nom é igual que estejamos a falar de grupos de bilíngües primários ou secundários, os quais se caracterizam polo domínio completo da própria língua e o conhecimento só primário do espanhol, ou um domínio completo do galego e apenas secundário do espanhol -respectivamente-, do que falarmos do grupo de bilíngües diglóssicos (também chamados, sintomaticamente, substitutivos). No tramo histórico que comentamos, trata-se do segundo caso, caracterizado pola introduçom completa no espanhol (aprendizagem natural e cultural, ou viceversa) e um conhecimento e uso primário do galego, ao conservar as funçons que garantiam a transmissom intergeracional da língua. Neste quadro é que podemos com toda a propriedade falar do contexto galego como "diglóssico", no senso que lhe dérom os primeiros sociolingüistas galegos (83). Um quadro que se mantivo basicamente assim durante a maior parte do século XX, mas que julgamos que mudou no seu último quartel.

Durante a década de setenta, a crise europeia e mundial condicionou a reduçom do fluxo migratório anterior e mesmo a volta de emigrantes. A tendência iniciada nessa altura -a partir de 1973- fai-se sentir ainda nos recenseamentos mais recentes. Contudo, cumpre matizar que a interrupçom do despovoamento galego nom afectou ao conjunto do território, senom que dous terços do total continuárom a perder habitantes. Inclusivamente se verifica umha oposiçom entre a Galiza oriental -que continuou a perder populaçom- e a ocidental, mais dinámica e desenvolvida, cujo crescimento demográfico se situa em 13'21%, embora na década de noventa já o conjunto da Galiza volte a perder habitantes.

As áreas de crescimento som as situadas em torno do Golfo Ártabro e a sua extensom para Carvalho, e em torno das Rias Baixas e a sua extensom para o Baixo Minho, quer dizer, as que concentram umha mais significativa actividade industrial, ao lado das capitais provinciais interiores e de outras cabeças de comarca caracterizadas por aglutinarem serviços ou certas indústrias (As Pontes, Cervo, O Barco,...).

Porém, a maior parte dos concelhos galegos perdêrom habitantes ao longo da segunda metade do século XX, continuando na actualidade essa tendência. Áreas montanhesas como os Ancares, o Courel ou Queixa, vales como os do Minho ou do Sil, além das próprias áreas do interior das províncias ocidentais, nomeadamente os concelhos assentados na dorsal montanhosa da Galiza meridional exemplificam esse generalizado despovoamento84.

É neste quadro de despovoamento rural e urbanizaçom demográfica progressivos, acompanhando o fim do modelo socioeconómico tradicional em favor de um novo em que ganham peso os sectores secundário e terciário -de jeito claramente descompensado-, que se contextualizam os dados sociolingüísticos actuais.
Levando em conta as tendências demográficas e socioeconómicas brevemente recenseadas, estamos em condiçons de pô-las em relaçom com os dados sociolingüísticos quantitativos para umha interpretaçom realista dos mesmos, como contributo para umha planificaçom lingüística que nom desenharemos nestas páginas, mas alguns de cujos princípios e orientaçons sim poderám ser apontados.
O dado acima indicado de em 1974 registar-se pola primeira vez na história da Galiza umha maioria de monolíngües hispanófonos face à populaçom monolíngüe galegófona -20'5% e 17'5%, respectivamente- simboliza o salto de qualidade que fai com que umha situaçom historicamente definida para o galego como de língua maioritária minorizada, passe a corresponder-se com o modelo de língua minoritária minorizada. Um salto qualitativo que a partir desses anos se irá tornando patente em sucessivos estudos de campo que recolhem a evoluçom intergeracional, e que acaba por certificar o maior e mais rigoroso estudo dos realizados até hoje na Galiza no campo da macro-sociolingüística quantitativa (85): o Mapa Sociolingüístico Galego, finalizado em 1995, financiado pola Junta da Galiza e levado a cabo pola Real Academia Galega, o que, para além da metodologia exposta nos volumes que o componhem, lhe tira qualquer suspeita de tendenciosidade apocalíptica própria de "exaltados nacionalistas".

Nom vamos entrar na análise pormenorizada do MSG, para o que remetemos à última ediçom da obra de Manuel PORTAS Língua e sociedade na Galiza86. Unicamente queremos comentar alguns dados significativos da tendência que apontamos, completados com outros provenientes de outros estudos complementares.

Se contrastarmos a evoluçom socioeconómica e demográfica das comarcas em crescimento com a diacronia sociolingüística correspondente, comprovamos que som hoje as mais desgaleguizadas. A evidência neste sentido representada polas capitais provinciais e restantes grandes cidades, manifesta-se em dados como a língua veicular no Concelho de Vigo87, que confronta 29'8% de galegofalantes maioritários ou exclusivos a 70'2% de espanholfalantes, dentro de umha tendência desgaleguizadora ao longo de todo o século XX que se reforça nos bairros mais urbanos do concelho e nas geraçons mais novas88. Na mesma direcçom avançam as percentagens de aquisiçom primária de galego e espanhol na populaçom viguesa: 48'3% de espanholfalantes iniciais face a 18'4% de galegofalantes iniciais e 32'2% de bilíngües iniciais que, como temos comentado, acabam por completarem-se secundariamente em espanhol no momento da socializaçom num ambiente consituído por domínios em que este é o idioma ambientalmente hegemónico. Abandonam assim o que fora identidade partilhada na etapa de aprendizagem primária.

O caso de Vigo nom é excepcional. O mesmo acontece na outra grande cidade galega, na Corunha89, onde o galego é língua habitual de 35'1% e o espanhol de 64.9% em termos absolutos. De novo, os factores hábitat e idade determinam um maior avanço da espanholizaçom90, que se verifica também nas percentagens de falantes iniciais de umha e outra língua: 34'9% de galegofalantes primários, 54'4% de espanholfalantes primários e 10'3% de bilíngües iniciais.

As outras cidades -Ponte-Vedra, Ferrol, Santiago, Lugo e Ourense- mostram diversos graus numha tendência muito similar (91).

Nos estudos quantitativos sobre o uso do galego como língua habitual, tem-se posto em relaçom o idioma com outras variáveis sociais como o sexo, a classe social, o nível de estudos ou o grupo profissional dos entrevistados. Nom entramos nós a comentar esses factores por considerarmo-los menos determinantes do que hábitat e idade, na medida em que estas variáveis sempre pesam mais do que aquelas, por mais que também mereçam ser avaliadas para um retrato exaustivo da situaçom da língua (92).

Mas também outros concelhos como Carvalho, Redondela, Vila-Garcia, Narom, Fene, Pontedeume, Sada, Arteixo,... Funcionalmente dependentes de capitais ou cidades industrializadas, som dos que registam maiores índices de espanholfalantes habituais em dados absolutos, e percentagens correlativamente menores de galegofalantes, que podem chegar a 45% e reduzir-se a 50% respectivamente (93). Isso sem entrarmos a distinguir grupos de idade ou tipo de hábitat, o que conviria para aclarar a diferença entre as geraçons mais velhas e as mais novas, e entre os seus núcleos urbanos e as suas áreas rurais de cada um dos concelhos referidos.

Os dados referidos ao conhecimento som altos (94), o que se explica a partir primeiro do contacto que ainda existe entre a maioria do povo galego com a sua língua, que mantém espaços ambientais amplos, além da evidente proximidade lingüística com o dominante espanhol, que torna fácil perceber e até falar galego a partir desse idioma. De outra parte, haveria que relativizar esse grau de conhecimento pola degradaçom e hibridaçom que sofre o galego, o que fai com que se encurte a distáncia com o espanhol satelizando a nossa língua até o ponto de afirmarem-se competentes em galego pessoas que, sem o conhecimento profundo do falante inicial ou nativo, nom podem ter a sua competência (95). Isso, para nom falarmos do plano escrito, onde a dependência permite que quase qualquer pessoa alfabetizada em espanhol se poda considerar competente em galego, porque "se escrevem de modo muito semelhante". De facto, manifesta-se um conhecimento escrito do galego maior nos falantes iniciais e habituais espanholfalantes, o que confirma que continuam as dificuldades para a formaçom de um espaço de falantes completos, pois os galegofalantes primários costumam nom ter conhecimentos do plano secundário e os que tenhem umha certa formaçom secundária nom se completam através da assunçom do galego para as funçons primárias que definem a identidade lingüística. O circuíto de aprendizagem interrompe-se para uns e para outros evitando umha dinámica de grupos favorável às necessidades do galego (96).

Quanto à valorizaçom positiva que a maioria das pessoas perguntadas fam da língua e da necessidade de normalizá-la, sendo um bom dado em si, nom indica mais do que a existência de umha maioria social que ocupa posiçons longe do espaço simbólico, do uso completo, mas que da periferia a respeito do mesmo nom mantém atitudes agressivas com umha hipotética normalizaçom. Polo contrário, afirma que a apoiaria. Mas, na verdade, nom compromete a sua vontade com um processo desse tipo, senom que manifesta no dia a dia umha total passividade que, é claro, poderia transformar-se em actividade de articular-se um espaço simbólico e aplicar-se umha planificaçom adequada. No entanto, sem a articulaçom desse espaço, a situaçom tem-se manifestado historicamente instável e a perda, a médio prazo, de referentes materiais como a própria língua, bem como o reforço da presença e assunçom do espanhol como língua de identidade em amplos sectores da populaçom galega, podem fazer com que num futuro em que já tenham morrido os "avôs que falavam galego", este deixe de despertar neles essa apática simpatia, para afirmarem-se com todas as conseqüências na sua nova identidade lingüística. Nesse suposto, o galego poderia inclusive manter alguns espaços de uso em qualidade de língua de transmissom cultural, e até resultar prestigioso o seu conhecimento ou uso em determinados "ritos" professionais ou culturais (algo disso já acontece em certos postos funcionariais dependentes da administraçom autonómica), mas sem a imprescindível transmissom natural que define as línguas vivas. Nom seria o primeiro caso na história, é claro, mas para nós significaria a perda da identidade galega tal e como até hoje está definida.

A identidade materializada na língua conserva-se na actualidade no vasto território galego em processo de envelhecimento e despovoamento mais marcados, como resto de umha Galiza tradicional que se resistisse a desaparecer, o que se observa na conservaçom de uns dados quantitativos mais favoráveis para o galego. Essa populaçom, com a inserida nos espaços urbanos e periurbanos e ainda nom assimilada às coordenadas hegemónicas por quase estritamente razons cronológicas (97), permite manter por enquanto umhas percentagens absolutas superiores de galegofalantes. Mas repare-se que falamos de um povo -o galego-que atingiu o seu máximo demográfico histórico em 1986 com 2.844.484 habitantes, a partir do qual se produz umha queda em termos absolutos que o situa em 1998 em 2.724.348 (-119.666). Um povo cuja populaçom menor de vinte anos representava em 1975 871.640 pessoas e que em 1998 apenas 556.348 (-315.292, perda de 63'8%!), e cuja média de idade se situava em 1975 em 34'8 anos e em 1998 subira para 41 anos. É evidente que o saldo migratório favorável 3.272 pessoas nom compensa os factores anteriores, mas sim engrossa progressivamente a presença espanhola até 8'56% de residentes estrangeiros na Galiza no ano 199198. Umha minoria significativa e afirmada na sua espanholidade como parece demonstrar esse 10'4% de cidadaos galegos que em 1999 afirmavam sentir-se só espanhóis (99).

Ao ritmo actual, semelha evidente que num par de geraçons o galego pode ser língua já minoritária, para além de continuar sendo língua minorizada, visto que o grau de incorporaçom às funçons formalizadas nas últimas décadas nom é capaz, primeiro, de fazê-lo em detrimento da presença do espanhol nas mesmas, e segundo, condicionando a conservaçom do idioma do país nas funçons reduto de que está a ser aceleradamente afastado.

É imprescindível, se quigermos modificar a tendência imperante, abrirmos os olhos a umha realidade gritante que indica a perda do galego por parte deste povo, nom já para domínios correspondentes a funçons secundárias ou formais como vinha acontecendo desde havia vários séculos. Na actualidade, a comunidade lingüística galega está imersa num processo de perda do galego como língua de identidade, através da ruptura da transmissom natural entre geraçons. Se numha primeira fase todos verificamos como pais e maes galegofalantes se preocupárom com garantir o "progresso" dos seus filhos e filhas integrando-os de cheio em grupos sociolingüísticos cada vez mais afastados do espaço simbólico galego e próximos do correspondente espanhol, doravante terá mais peso quantitativo o fenómeno de transmissom directa do espanhol -como língua de identidade dos pais- aos filhos, umha vez que nas geraçons mais novas o espanhol se está a converter de facto na língua maioritária. Desde que a geraçom seguinte a assuma também como própria, a nova identidade lingüística do povo galego estará a um passo de ser umha outra bem diferente da que ainda hoje proclamamos, por mais que no ensino se adquira o galego como matéria ou ainda código pseudo-veicular ou se exija o seu conhecimento para determinadas provas académicas e laborais.

A evoluçom socioeconómica previsível nos próximos anos, bem como outros factores socializadores -crescente influência dos meios de comunicaçom de massas- favorecem umha generalizada motivaçom rumada para a aquisiçom do espanhol, e reforçam o sentimento de inutilidade social de um galego despido de qualquer carácter motivacional para a sua aquisiçom e uso. Unicamente se verifica umha certa motivaçom para a aprendizagem secundária como ferramenta académica ou de baremo laboralmente rendível no ámbito da funçom pública. Ao mesmo tempo, o reforçamento do preconceito social referente à necessidade de afastá-lo do português, relacionado com um sentimento mais amplo de rechaço do povo vizinho, tora a possibilidade de confrontarmos a utilidade e rendibilidade internacionalmente reconhecidas ao galego-português através dos Estados que o tenhem como língua nacional com a precariedade vigorante no território que lhe deu a vida.

Muito pouca bagagem para umha enfraquecida comunidade cujo nível de consciência lingüística se situa na actualidade numha passiva simpatia pola língua própria, mas que se mostra incapaz de articular qualquer acçom estratégica conducente a inverter umhas tendências de que nom som conscientes nem boa parte das suas elites intelectuais (100).

 


 

 

NOTAS

 

55.- X. M. BEIRAS, (1995, pp. 110 e 111).

56.- R. LÔPEZ-SUEVOS (1990, pp. 90 e 91) explica a importáncia dessa desconsideraçom pola Administraçom espanhola da organizaçom local tradicional como factor no grave problema económico e ambiental representado polo lume florestal na Galiza.

57.- X. R. FREIXEIRO MATO (1997).

58.- Papel típico das classes dirigentes em países dependentes no momento de consolidaçom dos Estados-naçom, que LETAMENDIA (1997, p. 26) define deste modo: "O Estado pode estabelecer relaçons de clientelismo (isto é, umha aliança utilitária entre dous interlocutores de status desigual em que o patrom outorga protecçom ao ciente em troca da sua submissom) com as elites periféricas, erigindo estas no seu interlocutor privilegiado e tornando-as em mediadoras das massas camponesas."

59.- R. CARVALHO CALERO, (1979, p. 144).

60.- É curioso a este respeito comprovar como a Revoluçom francesa, em nome de princípios como a igualdade jurídica, a liberdade, a soberania popular, o sentimento nacional e o direito dos povos a disporem de si próprios, serviu para deslegitimar a existência prévia de povos diferenciados no interior das fronteiras dos modernos Estados, identificando-os com o Antigo Regime, e negando-lhes qualquer direito baseado na tradiçom ou a história. Daí que acabasse servindo de cobertura ideológica de projectos radicalmente centralistas.

61.- X. R. BARREIRO, (1981, p. 324).

62.- Citado por X. R. BARREIRO, (1981, p. 328).

63.- Para umha análise em profundidade dos usos do galego no séc. XIX, veja-se FREIXEIRO MATO (1997) e PORTAS (1997).

64.- L. TATO (1999, pp. 9 e 10), julga provável a encenaçom de autos e comédias em galego durante os Séculos Escuros "em vilas pequenas, onde os recursos económicos nom permitiriam a contrataçom de companhias profissionais" Referindo-se à confraria do Sacramento de Padrom, em 1566, e anos sucesivos, afirma que "tendo em conta a data em que se representárom estes autos e a origem do dramaturgo, o mais provável é que fossem escritos em galego, posto que tinham que ser representados polos vizinhos, e que havia castigos e multas para os que se negassem a trabalhar como actores."

65.- X. R. BARREIRO, (1981, p. 15).

66.- Com efeito, define melhor tal apelativo a classe em que se conservou o idioma do que o da língua proletária usado por Celso Emílio, pois nos núcleos urbanos operários a língua irá perdendo presença à medida que os camponeses se vaiam integrando na condiçom proletária, mais alá da permanência do "proletariado simbiótico" definido por LÔPEZ SUEVOS. De facto, o processo de substuiçom avançou ao longo do século XX à medida que o emprego no sector secundário -e terciário- foi crescendo e descendo a populaçom activa adscrita ao primário.

67.- M. PORTAS (1997) achega o dado comparativo para 1860 entre a existência como média do Estado de umha escola por cada 841 habitantes, enquanto na Galiza a rácio é de umha escola por cada 1484 habitantes. Narciso DE GABRIEL (1988, "Escolarizaçom e prática lingüística na Galiza rural do século XIX", Agália 1988, pp. 35 a 55) afirma que na populaçom infantil galega compreendida entre os quatro e os treze anos, a percentagem inscrita nas escolas públicas ou privadas era de 38'42% em 1885, sendo de 50'50% entre os meninhos e de 26'19% entre as raparigas. Segundo os seus dados, 50% da populaçom infantil galega nom tinha nesses anos nengum tipo de contacto com a escola. Com efeito, a generalizaçom do nível primário do ensino nom se efectiva até meados do século XX. X. R. BARREIRO (1982) acrescenta que entre 1840 e 1880 o analfabetismo na Galiza rural atinge 70% na populaçom adulta masculina e 98% na feminina.

68.- Narciso DE GABRIEL, (1988, p. 47), cita da obra de Luís Otero y Pimentel En honor de Galicia. Estudio sobre los problemas de la Enseñanza y Emigración (1907) o seguinte trecho significativo: "mientras que los gallegos, por unas causas o por otras, tengan que emigrar a otros países, lo que conviene y hay que procurar es que salgan del suyo bien instruídos en el idioma nacional, y aun, si es posible, en alguno de los extranjeros más usuales en el comercio, que es como podrán competir ventajosamente con los de los países más cultos, y demostrar con los hechos, que no somos tan ignorantes como muchos nos suponen".

69.- De facto, e sem podermos falar na actualidade de algo sequer semelhante ao papel veicular do galego no ensino, o rejeitamento que nom raro se dá em certos pais ante a galeguizaçom de algumhas matérias, pode ser explicado em parte por essa manifesta inutilidade na "vida real", ao nom se acompanhar de umha política lingüística global conducente a criar a necessidade social do galego.

70.- Algo que define a situaçom actual do galego, na medida em que sabemos que a Lei de Normalizaçom, cujos objectivos ficam longe de procurarem um papel hegemónico para a língua própria da Galiza, nom se cumprem em ámbitos tam importantes como o ensino, a toponímia, ou mesmo a escolha por parte do administrado da língua de relaçom com a administraçom. A dificuldade ou até impossibilidade de fazer do galego veículo expressivo "suficiente" leva à frustraçom da aprendizagem e à merma da consciência lingüística imprescindível para manter aceso o facho da recomposiçom do espaço simbólico galego. Nesse contexto, afirma SÁNCHEZ CARRIÓN (1987, p. 383): "Umha elite de poder sagaz pode inclusive permitir-se a concesom à comunidade lingüística subordinada de leis ambíguas, pseudonormalizadoras e aparentemente protectoras do património lingüístico da comunidade desarticulada, já que nesta, em virtude da sua própria desarticulaçom, as aspiraçons máximas da maioria som sempre muito inferiores aos requerimentos mínimos".

Na mesma linha, Julen AREJOLALEIBA (1990) afirma ao respeito: "Se nom existirem comunidades lingüisticas que realmente sintam a necessidade pessoal e grupal de viverem em euskara, se nom formos capazes de criar este sentimento, de bem pouco serve lançarmos pelotas fora e julgarmos que algum dia se há de chegar a criar consciência lingüística "por decreto lei". (...) "As discriminaçons legais portanto, terám de ser combatidas ao seu devido momento, quer dizer, ao consolidar umha comunidade lingüística heterogénea e consciente da sua capacidade de acçom. Ao nom existir núcleo nengum monolíngüe em euskara, se nom se for criando esta necessidade social, a mudança legal nom oferece nengum tipo de garantias. Na grande maioria dos processos de normalizaçom e de substituiçom lingüística, a jurisprudência nom é a causa mas um efeito."

Por seu turno, J. L. ÁLVAREZ ENPARANTZA (1995) apresenta um bom número de exemplos históricos de como a legislaçom pode ser insuficiente se for contra tendências sociológicas que nom som modificadas.

Entre nós, P. GARCIA NEGRO (1999) tem afirmado: "outorgam-se direitos com tal de que nom se exerçam".

71.- Veja-se Edelmiro LÓPEZ IGLÉSIAS (1995, pp. 375 a 403).

72.- Para o conjunto da Galiza, o Mapa Sociolingüístico Galego (MSG) reflecte umha percentagem de espanholfalantes habituais de 71'9% face a 37'7% de galegofalantes, no hábitat urbano. Nos núcleos de menos de 2.000 habitantes, a correlaçom é de 21'3% maioritária ou exclusivamente espanholfalantes habituais frente a 78'6% galegofalantes; e nos lugares de menos de 2.000 habitantes e hábitat disperso, 10'3% face a 89'7% de 2.000 habitantes, a correlaçom é de 21'3% maioritária ou exclusivamente espanholfalantes habituais frente a 78'6% galegofalantes; e nos lugares de menos de 2.000 habitantes e hábitat disperso, 10'3% face a 89'7% respectivamente. O contraste é, como se vê, marcado segundo figermos referência à língua do campo ou a da cidade.

73.- Com efeito, noutras áreas do Estado espanhol atrasadas e monolíngües, a língua nom é alvo das frustraçons colectivas, e unicamente a realidade intra-lingüística dos níveis de língua serve para marcar os diferentes grupos ou classes.

74.- Para um repasso dos preconceitos actuantes na sociedade galega do século XIX, postos em relaçom com a consciência lingüística da Galiza de fins do século XX, veja-se F. RODRÍGUEZ (1989, pp. 663 a 670).

75.- Repare-se que ainda no ano lectivo correspondente a 1972-73, só estudavam 41% das raparigas e rapazes galegos com idades entre 14 e 17 anos (PORTAS, 1997, p. 135). Sendo algo posterior a universalizaçom do ensino, entende-se melhor a progressiva desgaleguizaçom da gente nova depois dessa data, sem que a introduçom do galego como matéria tenha servido para frear o seu protagonismo como complemento de umha reestruturaçom global da nossa sociedade que, dos factores estruturais aos mais superestruturais, favorece essa tendência.galegos com idades entre 14 e 17 anos (PORTAS, 1997, p. 135). Sendo algo posterior a universalizaçom do ensino, entende-se melhor a progressiva desgaleguizaçom da gente nova depois dessa data, sem que a introduçom do galego como matéria tenha servido para frear o seu protagonismo como complemento de umha reestruturaçom global da nossa sociedade que, dos factores estruturais aos mais superestruturais, favorece essa tendência.

76.- Dados tirados de X. M. BEIRAS e A. LÓPEZ (1999, p. 42).

77.- C. NOGUEIRA (1977, p. 32 e ss).

78.- X. LÓPEZ FACAL (1977, p. 18 e ss).

79.- Dados tirados de E. LÓPEZ IGLÉSIAS (1995, pp. 375 a 403).

80.- Dados sobre sectores secundário e terciário tirados de X. M. BEIRAS e A. LÓPEZ (1999, p. 212). Nesse estudo, atribui-se à populaçom activa agrária em 1991 umha percentagem de 23'7%.

81.- Ao contrário do que se passa na Espanha, onde a populaçom urbana supom 65% do total.

82.- Mediante o qual o monolíngüe primário (A/Ø) passa a ser semibilíngüe secundário ou diglóssico (A/B) primeiro, e bilíngüe diglóssico (A/AB) depois, para acabar tornando-se monolíngüe secundário (Ø/AB) na língua que no começo nem falava. No transcurso do processo, as crianças deixam de nativizar-se só em galego, convertendo-se em semibilíngües primárias (A/A), para a seguir incorporar-se ao grupo das bilíngües diglóssicas (A/AB)

83.- Aplicando à realidade galega o conceito previamente usado por sociolingüistas como R. NINYOLES ou J. FISHMAN que por seu turno o tomaram do seu primeiro utilizador, C. A. FERGUSON.

84.- Aplicando à realidade galega o conceito previamente usado por sociolingüistas como R. NINYOLES ou J. FISHMAN que por seu turno o tomaram do seu primeiro utilizador, C. A. FERGUSON.

85.- Por mais que admita reservas. Um exemplo prático de como as respostas dadas nom se correspondem claramente com a realidade temo-lo nas percentagens de monolíngües iniciais em galego que recolhe o Mapa Sociolingüístico Galego, que se situam para idades entre 16 e 20 anos em 34%. Talvez poda ser essa a percentagens de galego-dominantes iniciais. Lembre-se que este conceito foi proposto por C. ÁLVAREZ CÁCCAMO (1987): "Dado que há umha alta percentagem dos falantes de galego que som também parcialmente competentes em espanhol (e utilizam esta língua com maior ou menor freqüência), prefiro utilizar o termo "galego-dominante" (quer dizer, bilíngüe cuja língua principal é o galego) em vez de "galego-falante", que poderia ser interpretado como "monolíngüe".

Com efeito, resulta impensável hoje em dia um semelhante índice de pessoas novas que tenhem como única língua de aquisiçom primária o galego, ante a generalizada presença ambiental do espanhol já mesmo nos ámbitos de uso mais primários em que as crianças se socializam. Também na percentagem de "só galegofalantes habituais" devemos interpretar com cautela o resultado do trabalho citado -38'7 % para o total da Galiza-, na medida em que, quando descemos à realidade quotidiana dos usos detectáveis nas nossas ruas, poucos grupos sociologicamente representativos respondem a esse comportamento. De umha parte, estariam os falantes monolíngües naturais, sem competência em espanhol, grupo hoje muito minoritário e "em vias de extinçom". De outra parte, os grupos instalados na prática galegófona, com diverso grau de formaçom secundária e/ou primária em ambos idiomas, mas com umha consciência lingüística elevada que os fai manter-se no galego apesar das barreiras que a tal prática som colocadas quotidianamente numha sociedade em que prima o contrário a essa fidelidade. É claro que ambos os sectores nom suponhem 38'7% da populaçom galega, polo que deveremos interpretar a resposta de usarem "sempre" o galego como "sempre que corresponde", de acordo com a permanência do esquema diglóssico em faixas de idade elevadas e tipos de hábitat nom urbano principalmente.

Cumpriria, portanto, umha recolha abundante de mostras de fala espontánea nos diferentes domínios de uso por parte dos diversos grupos de falantes, sistematizando com maior rigor os grupos sociolingüísticos presentes na comunidade objecto de estudo, para a partir daí elaborar questionários que levem em conta os condicionantes que agem em cada contexto, para além da consciência do informante, evitando assim resultados questionáveis que, em geral, costumam favorecer o relaxamento das forças "curativas" do corpo sociolingüístico doente. Nesta linha manifestam-se autores como J. J. GUMPERZ (1982) e M. A. FERNÁNDEZ (1991).

86.- 1997, pp. 149 e ss.

87.- Veja-se o Estudio sociolingüístico sobre a situación da lingua galega no Concello de Vigo, publicado em 1998. Para a língua inicial, p. 15 e ss. Para a língua habitual, p. 36 e ss.

88.- Na "Zona Centro", 19'4% galegófonos habituais face a 80'7% hispanófonos. Na área catalogada como "Resto do Concelho", para além dos bairros do núcleo urbano, 29'8% e 70'2% respectivamente. Na faixa de idade entre 15 e 20 anos, 14'3% de galegofalantes habituais e 85'6% de espanholfalantes, que nos maiores de 65 se correspondem com 54'6% e 45'45% respectivamente. Evitamos a distinçom entre os grupos "só galego" e "mais galego", ao nom a considerarmos totalmente fiável, mais que como indicativa do relativo grau de uso. Contudo, costuma ter mais presença o grupo que afirma falar "mais" do que "só".

89.- Neste caso, tomamos os dados de Usos lingüísticos en Galicia, II Volume do Mapa Sociolingüístico Galego, de 1995. P. 95.

90.- Nas áreas urbanas do Concelho, 34'9% de galegofalantes e 65'2% de espanholfalantes, enquanto nas áreas chamadas periurbanas as percentagens mudam para 57'2% e 42'8% respectivamente. No que toca ao factor idade, o contraste é radical: nos corunheses com idades entre 16 e 25 anos, o índice de galegofalantes habituais situa-se em 9'8% e o de espanholfalantes habituais num eloqüente 90'3%%. Na geraçom dos maiores de 65 anos, as percentagens som ainda respectivamente de 63'6% e 36'4%.

91.- Convém citarmos o caso de Ferrol -e a sua comarca- por representar umha tendência extrema na direcçom apontada. No seu hábitat urbano, 75% da populaçom fala habitualmente só ou mais espanhol, face a 25% galegófono habitual. Se confrontarmos as percentagens de galegofalantes urbanos menores de 26 anos com as correspondentes a espanholfalantes desses grupos, deparamos com 4'8% contra 95%. Quanto à língua inicial, o galego foi-no no 82'4% dos casos nas áreas rurais, mas só no 25'3% das urbanas, reduzindo-se neste último espaço de novo a 4'8% nos menores de 26 anos face a 95% de espanholfalantes iniciais. Isto, e outras muitas cousas, é o que nos di o Estudio sociolingüístico da comarca ferrolá, com dados referidos a 1991, publicado em 1993.

92.- Contudo, sim apontamos que como tendência geral na Galiza se dá um menor uso habitual do galego quanto maior for o nível de estudos e mais elevada a classe social a que se pertence. Quanto aos grupos profissionais, os docentes, estudantes, titulados superiores e médios e profissionais liberais som os mais espanholizados; e empresários, membros das forças armadas, pessoal administrativo, pessoal de serviços, autónomos, camponeses, operários, donas de casa e pessoas economicamente inactivas mantenhem um maior uso do galego. É claro que, de cruzarmos estes grupos com as variáveis de hábitat urbano e idade baixa, o peso do espanhol ganha posiçons em todos eles. Daí que demos maior releváncia a esses factores, cuja incidência determina cada umha das restantes variáveis mais do que acontece ao contrário. Assim, é mais provável a influência espanholizadora dos factores idade baixa e hábitat urbano num operário, do que a hipótese de ver-se galeguizado um jovem de hábitat urbano polo facto de pertencer a umha classe -a operária-, embora esta seja ainda em dados absolutos maioritariamente galegofalante. Isto deve-se a que o conjunto das classes da formaçom social galega se vê imbuído de umha tendência espácio-temporal (histórica) uniformizadora que parte da progressiva invasom funcional do espanhol numha sociedade que se tornou, pola evoluçom sócio-económica e demográfica que temos comentado, mais aberta e permeável às pautas de comportamento dominantes.

93.- Veja-se Usos lingüísticos en Galicia, II Volume do Mapa Sociolingüístico Galego, RAG, 1995. Apêndice 1, mapas.

94.- 97% di perceber o galego, 86% di saber falá-lo, 45% assegura que o lê e 27% que o escreve. Aliás, a gente nova afirma ter um maior conhecimento lecto-escrito da língua.

95.- O exemplo paradigmático destes falantes som aqueles profissionais dos meios de comunicaçom que sem dúvida responderiam afirmativamente sobre a sua capacidade de perceberem, falarem, lerem e escreverem em galego, quando na verdade o seu domínio do mesmo é muito reduzido e totalmente empapado de dicçom, fraseologia, fonética e outros traços que delatam o seu ponto de partida. Repare-se na importáncia do grupo a que fazemos referência, que de existir umha planificaçom lingüística normalizadora deveria estar constituído por pessoas da máxima formaçom (galegofalantes completos), ao representar um ponto de referência social de primeira magnitude quanto ao que é o "bom galego".

96.- De resto, algo deve falhar quando outros inquéritos afirmam que, das pessoas que sabem ler em galego, 44% afirmam que preferem ler em castelhano, face a 12'4% que preferem o galego e 40'8 que nom tenhem preferência. CIS (1998, p. 11).

97.- Com efeito, Manuel GONZÁLEZ LORENZO (1985) mostra graficamente a importáncia do factor temporal na perda da identidade lingüística das pessoas deslocadas do campo para a cidade no caso de Ourense. Quanto mais recente for a vinda ao meio urbano, mais manutençom do galego se detecta na geraçom seguinte, e ao contrário, nas pessoas de imigraçom mais antiga, a espanholizaçom dos seus filhos avança notoriamente no índice de aquisiçom primária da língua.

98.- Dados tirados do INE.

99.- Inquérito publicado por La Voz de Galicia.

100.- Dá-se, neste senso, o facto curioso de que, contra os dados que comentamos, a maioria da populaçom galega julga que cada vez se fala mais galego. Em concreto, e à pergunta de "¿Cree Ud. que en los últimos diez años, la gente que le rodea habla el gallego con más, igual ou menos frecuencia que antes?", 61'4% responde que mais, 25% que igual e 6'8% que menos. À pregunta "¿Y dentro de 10 años, cree Ud. que la gente hablará el gallego con más, igual o menos frecuencia que ahora?", 48'3% responde que mais, 25'3% que igual, e 8'4% que menos (CIS, 1998). Pom-se de manifesto o funcionamento da ideologia dominante conforme à interpretaçom marxista da mesma como "falsa consciência necessária", nom já no grosso do nosso povo, quanto nos sectores teoricamente avançados e lingüisticamente conscientes do mesmo. Contudo, cumpre matizar que o nível de alienaçom evidenciado desceu nos últimos anos, e se compararmos essas respostas com as que se davam em 1993 num inquérito do mesmo organismo (Centro de Investigaciones Sociológicas), verificaremos que, naquela altura, a pergunta sobre se o galego se falaria mais, igual ou menos dali a dez anos, recebia as seguintes percentagens: 63% dizia que mais, 17% que igual, e 5% que menos. Será que começamos a intuir que algo vai mal?

 

3.- CONCLUSOM: A NECESSIDADE DE UMHA NOVA DINÁMICA NORMALIZADORA

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