GALIZA E A DIVERSIDADE LINGÜÍSTICA
NO MUNDO. SUBSÍDIOS PARA UM DIAGNÓSTICO ACTUALIZADO DA SITUAÇOM
SOCIOLINGÜÍSTICA GALEGA
3.- Para um diagnóstico
actualizado da situaçom sociolingüística galega
3.1.- A história explica
o presente
Como viveu a Galiza esses longos
séculos de negaçom e marginalizaçom, de aproveitamento
dos seus recursos em funçom do fortalecimento de um projecto que a
negava como comunidade viável em todos os planos da vida social? Será
que se trata de um continuum que responde à mesma caracterizaçom
sociolingüística -a tam recorrida "situaçom diglóssica"-,
ou existem mudanças salientáveis que afectem à comunidade
lingüística galega?
Estamos convencidos de que a resposta destas questons pode orientar-nos para conhecer, primeiro, a relaçom histórica entre língua e sociedade na nossa terra, e a actualizar, a seguir, um diagnóstico para os tempos que vivemos, que nem som os dos Séculos Escuros, nem os do Rexurdimento ou a Geraçom Nós; nem sequer vivemos os tempos da chamada Transiçom pós-franquista. Estas afirmaçons, que semelham verdades de pé de banco, acham justificaçom na persistência da descriçom sociolingüística actual a partir de esquemas que reflectem a situaçom de umhas décadas atrás, o qual nom se corresponde, segundo trataremos de evidenciar, com o estado actual do galego na Galiza.
3.2.-
Evoluçom social e língua na Galiza do século XIX
Podem-se citar exemplos de como se efectivou a desarticulaçom da nossa comunidade lingüística e nacional partindo de um olhar à sua história nas últimas centúrias. De facto, muitos dos males hoje tidos por endémicos na sociedade galega acham a sua origem e explicaçom no papel historicamente jogado pola Galiza no contexto espanhol, a começar polo tam doestado minifundismo do campo galego ou em geral a desarticulaçom social da Galiza rural, mais tarde transplantada à cidade. O certo é que tradicionalmente foram habilitados na Galiza mecanismos sociais que evitavam a generalizaçom da parcelaçom de terras, como a melhora.
Foi o processo seguido pola propriedade
rural com as desamortizaçons e outras medidas jurídicas e económicas
efectivadas de costas aos verdadeiros interesses e necessidades do campo que
liquidárom modos de funcionamento tradicional, e nom precisamente para
substituí-los polo progresso da industrializaçom através
da criaçom de umha burguesia encarregada de dirigir tal processo55.
Umha desarticulaçom, enfim, também atribuível para além
do imaginário camponês e dos traços antropológicos
galegos, a decisons bem concretas da Administraçom espanhola, como
poda ser o nom reconhecimento jurídico da paróquia, factor de
merma na coesom social, dada a "disfuncionalidade da Administraçom
Local espanhola relativamente à organizaçom institucional espontánea
da naçom"56.
Nom é por acaso que ilustramos o declínio histórico da
comunidade galega situando-nos no século XIX, pois representa um ponto
de inflexom importante no percurso secular da sua consciência lingüística,
e o limiar de umha série de mudanças estruturais na sociedade,
com importantes conseqüências quantitativas na dinámica
de grupos sociolingüísticos galegos. Um percurso que FREIXEIRO
MATO esquematiza no que toca ao estatuto social do idioma dividindo-o em "sete
séculos de normalidade" e "cinco séculos de conflito"
(57).
Deparamos nessa altura com umha
novidade na subjectividade de umha parte da intelectualidade galega. Umha
intelectualidade maioritariamente adscrita à pequena burguesia, que
pola primeira vez desenvolve um labor colectivo, numericamente minoritário,
pertencente a diversas tendências ideológicas, desde as liberais
progressistas até as moderadas e mesmo conservadoras, mas de umha importáncia
simbólica fundamental para o que há de ser o desenvolvimento
posterior do nacionalismo galego. Um nacionalismo, lembremo-lo, para o que
sempre o idioma foi bandeira de todo aquilo que compunha -e compom- a identidade
galega. Infelizmente, nem a incipiente burguesia industrial, nem a "tradicional"
burguesia mercantil assumiriam a sua condiçom galega, o que acha explicaçom
na estrutura económica que as vincula de modo subsidiário e
dependente com a oligarquia espanhola (58). De maneira que, como afirma Carvalho
Calero, "se no tránsito da Idade Média para a Idade Moderna
se castelhanizou lingüisticamente a nobreza, no tránsito da Idade
Moderna para a Contemporánea castelhanizou-se a burguesia" (59).
Nom é alheia a esse desprezo polo "particular" a ideologia
liberal uniformizadora emanada da Revoluçom Francesa60, com a extensom
do seu aparelho administrativo centralizado durante o século que comentamos.
Já do século anterior ao surgimento do incipiente galeguismo,
cujo arranque situa X. R. BARREIRO em 1840 (61), conservamos análises
críticas da situaçom da língua, com base em factores
históricos e sociais, dentre as que destacam as do Padre Sarmiento:
"No pocas veces he pensado
en cuál ha sido la causa de que en Galicia se haya introducido el uso
o abuso de escribir en castellano, lo que antes se escribía en latín
o gallego... No habiendo precedido ni concilio ni cortes, ni consentimiento
uniforme de los gallegos para actuar, otorgar, comerciar en lengua castellana
¿Quién lo introdujo? La respuesta está patente que Galicia
llora y llorará siempre: no los galllegos sino los no gallegos que
a los principios del siglo XVI inundaron el reino de Galicia, no para cultivar
sus tierras, sino para hacerse carne y sangre de las mejores y para cargar
con los más pingues empleos así eclesiásticos como civiles.
Ellos han sido los que por no saber la lengua gallega ni por palabra ni por
escrito, han introducido la mostruosidad de escribir en castellano para los
que no saben sino el gallego puro" (62).
Certificamos portanto o facto de
o idioma adquirir categoria política desde os primeiros anos do século
XIX. Nom entraremos na análise da funcionalidade lingüística
no conjunto do país durante esta centúria63, mais que para tratar
de enquadrar as grandes tendências sociolingüísticas no
curso das relaçons sociais e económicas que regista a Galiza
decimonónica. A situaçom objectiva da comunidade lingüística
galega nom apresenta em princípio grandes novidades quanto a uso social
se comparado com os séculos anteriores. Isto é devido a que
o corpo social conserva as funçons sociais identitária, familiar,
laboral e local, quer dizer, aquelas mais definitórias das línguas
de transmissom natural. As restantes funçons som monopolizadas polo
espanhol, se exceptuarmos a leve irrupçom do nosso idioma na literatura
e noutras manifestaçons da vida cultural em que mantivera umha presença
precária (64).
O primeiro dado a ter em conta
na história contemporánea galega é a total dependência
dos seus traços caracterizadores a respeito de factores exógenos,
o que torna patente a total desmembraçom do corpo social como parte
de umha periferia de umha periferia, pois já temos comentado brevemente
o papel lateral da Espanha no concerto capitalista europeu da altura. Assim,
circunstáncias fora do controlo de qualquer agente interno à
formaçom social galega determinam súbitos crescimentos demográficos
em 1898 (repatriaçom massiva de Cuba e Porto Rico), igual que mais
tarde pola crise mundial de 1929, ou mesmo a ré-ruralizaçom
do país devida à posguerra civil (65). Nom é preciso
lembrarmos que a repatriaçom foi devida à prévia e brutal
emigraçom, sintoma evidente da incapacidade que, de maneira induzida
pola dependência, mantivo a nossa naçom paralisada ante a chegada
dos países avançados à nova fase de desenvolvimento capitalista.
É também a ausência
de novidades estruturais na formaçom social galega que determina a
estabilidade da partiçom funcional no uso entre galego e espanhol.
Ao contrário do que concluem certas análises idealistas próprias
das primeiras etapas da evoluçom do discurso galeguista, hoje podemos
afirmar que a conservaçom do galego durante séculos como "língua
camponesa -e marinheira- do meu povo" (66) nom se deveu tanto à
persistência patriótica das classes populares ante o afám
espanholizador dos centros de poder, quanto mais bem às próprias
condiçons derivadas de o nosso país ficar praticamente isolado
de toda inovaçom que, indefectivelmente, penetrava da mao do espanhol.
Começando por umha industria e um comércio impulsionados em
boa medida por burguesias foráneas, ou o próprio Estado centralizado,
com a sua incipiente burguesia administrativa como referência de modernidade,
bem como a chegada da imprensa escrita, ou com um acesso à educaçom
que na nossa terra se produziu a um ritmo mais lento, percentual e cronologicamente,
do que acontecia noutras latitudes do Estado espanhol (67).
A respeito da lenta introduçom
do ensino centralista na Galiza, Narciso DE GABRIEL (1988) documenta o desinteresse
dos pais no mundo rural decimonónico polo ensino do espanhol nas escolas
de ferrado e nas públicas incompletas. Ele mesmo explica-o pola falta
de motivaçons actuantes nesse senso numha populaçom condenada
a perpetuar o papel produtivo num sector agrário cronicamente subdesenvolvido.
Unicamente se veria a necessidade do espanhol na perspectiva da emigraçom,
argumento igualmente empregado por sectores ilustrados para justificar a imposiçom
do espanhol na Galiza (68). Nom há dúvida de que o facto de
nom se julgar necessário o aprendizado do espanhol em funçom
do rol social desenvolvido pola maioria da populaçom galega, nom impede
que se veja a superioridade da língua oficial, na medida em que acompanha
o progresso das minorias urbanas que ocupam posiçons socioeconómicas
de privilégio. Ou polo simples facto de ser o idioma da administraçom
e, portanto, da autoridade, o que em meios urbanos o introduziu mesmo como
marca, mais que de um progresso social, de umha vontade do mesmo.
É este um exemplo de como
som as estruturas socioeconómicas que condicionam a consciência
lingüística e a própria permanência da língua
do país. A introduçom do ensino em espanhol, para além
de nom alcançar umha maioria do povo rural galego, nom podia impor-se
a umha realidade que nom o demandava. O modelo elitista a imitar quanto ao
comportamento lingüístico nom se encontrava nesse espaço,
senom no referido hábitat urbano. Polo contrário, a universalizaçom
do ensino em épocas mais recentes, ao lado de mudanças estruturais
no modelo de desenvolvimento galego, tenhem posto de manifesto umha muito
maior eficácia uniformizadora da escola espanhola na Galiza, sempre
acompanhando o ritmo de urbanizaçom da nossa sociedade ao longo do
século XX.
Com efeito, a entrada em jogo desses
factores espanholizadores nom agiu no sentido de democratizar a sociedade
permitindo a livre eleiçom de língua, como afirmam sem ficarem
corados os ideólogos do "bilingüismo limpo" na actualidade.
Igual que o modo de vida rural incluia o galego como ingrediente consubstancial,
resto do que algum dia fora idioma de cultura de toda umha sociedade, a penetraçom
progressiva de inovaçons também nom deu lugar à eleiçom
e supujo o avanço inescusável no caminho da substituiçom
lingüística, por mais que se "cooficializasse" o galego
e hoje se chegue a permitir a sua escolha parcial de maneira individual. Mesmo
a introduçom do galego no ensino como língua veicular nom serviria
por si só para regaleguizar a sociedade sem outras transformaçons
sociais de fundo calado, pois poderia provocar o mesmo rechaço passivo
que provocou a castelhanizaçom no mundo rural do século XIX,
se nom se lhe ver utilidade (69).
Daí que a via para anular
a possível concorrência do galego como língua de uso social
ante a chegada de novas actividades veiculizadas polo espanhol poucas vezes
precisasse de umha repressom explícita em forma de legislaçom
punitiva. A inevitável associaçom entre o código lingüístico
e a actividade social que veicula garantiu em todo o momento umha "actualizaçom"
de aquelas pessoas que acediam a essas novas actividades que representavam
o possível ascenso social, ficando igualmente caracterizadas aquelas
que, incapazes de alcançar o ascenso, permaneciam ancoradas no uso
do código inferior. De igual maneira, os factos relativizam a existência
de umha legislaçom favorável a um idioma minorizado como medida
normalizadora, quando as condiçons sociais que lhe atribuem o rol de
"insuficiente", "desnecessário" ou similar, se
mantenhem intactas ou sem mudanças significativas quanto à consciência
lingüística da colectividade (70).
Ao longo do século XIX,
a Galiza mantivo o carácter rural de maneira quase absoluta. Em meados
de século, o índice de ruralidade atinge 90%, e nas províncias
de Lugo e Ourense, a percentagem alcança 95%. Um povoamento rural correspondente
a umha economia eminentemente agrária e atrasada, com um índice
de populaçom activa agrária ainda de 85'8% em 1900, quando nos
países mais avançados da Europa se situava já entre 30%
e 45%, e mesmo as médias de Estados periféricos como o espanhol
ou o italiano supunham entre 60% ou 65% do total (71). A falta de alternativas
internas é que explica a saída do país ao longo do século
de uns 900.000 galegos na sangria migratória.
A frustrada industrializaçom
na Galiza do século XIX, devida entre outras razons à falta
de umha reforma agrária que garantisse que o excedente fosse investido
no mercado e na indústria em lugar de continuar a engordar as classes
rendistas, é a chave económica que explica a conservaçom
de um modelo social continuador de etapas históricas já superadas
noutros países nessa mesma altura. A descapitalizaçom da fraca
burguesia atraída polas desamortizaçons em curso, ante a perda
do mercado americano e a crise europeia prolongada na Galiza mais alá
da data de 1848 em que concluíra noutras áreas, ajuda também
a explicar o estagnamento galego. Como também o fai conhecermos a política
económica do Estado espanhol, em cujo desenho se priorizam determinadas
áreas para protagonizarem o desenvolvimento industrial pendente: País
Basco, Astúrias, Catalunha e um sector do Levante som as áreas
escolhidas, ficando o nosso país, com outros espaços do Estado,
encarregado de fornecer mao de obra aos novos centros industriais, e de contribuir
para a consolidaçom dessa aposta centralista através de um sistema
fiscal que se apoia sobretudo no sector agrário em benefício
das áreas industrializadas.
Pensamos que som todos esses factores
socioeconómicos, ao lado do puramente físico da sua situaçom
geográfica marginal a respeito de outras áreas de progresso,
que explicam a maior conservaçom do idioma no nosso país do
que nos restantes minorizados polo Estado espanhol ou noutros territórios
em que na altura se edificavam uniformizadores projectos de Estado-naçom.
Tese, de resto, confirmada polos progressivamente maiores desequilíbrios
internos entre certos focos industrializados na costa (Vigo, Corunha, Ferrol,
Vila-Garcia,...) e as despovoadas zonas do interior das quatro províncias,
nomeadamente de Lugo e Ourense (descontando as capitais de província
e contadas vilas cabeceiras de comarca e/ou industrializadas ou dotadas de
serviços). Os primeiros vírom avançar em maior medida
o uso do espanhol, por mais que mantivessem o galego justamente nos espaços
rurais e actividades agrárias, e as segundas registam ainda hoje um
maior nível de uso social do galego (72). E, correlativamente, som
as áreas urbanas -e as pessoas mais novas- que manifestam atitudes
mais favoráveis ao idioma -embora seja de jeito passivo-.
A grande quantidade de preconceitos
ligados ao próprio idioma tem a ver com a identificaçom entre
o atraso socioeconómico e o código lingüístico que,
em boa medida, o representa. É fulcral nessa identificaçom a
concorrência de um outro código a que só umha minoria
tem acesso (73). Salientam no século XIX a identificaçom do
galego como simples "dialecto", representante de umha cultura inferior,
e inútil ante a necessidade de procurar trabalho "fora".
Chega-se a assumir como natural a necessidade de emigrar por razons económicas,
exercendo de novo um factor socioeconómico o efectivo labor destrutivo
da mais mínima autoestima (74).
Foi à luita por combater
essas crenças que o galeguismo destinou boa parte das suas energias
desde os inícios da sua actividade e durante todo o século XX,
ainda que a realidade esmagadora da situaçom do país e a pressom
ideológica dominante dificultárom umha conscientizaçom
que sempre ficou reduzida às minorias.
Quanto à caracterizaçom
dos grupos sociais segundo a sua posiçom como utentes de um ou outro
códigos, partimos de umha sociedade em que o galego era língua
muito maioritária, embora sofresse um processo de minorizaçom
relativamente estabilizado polo próprio estagnamento das forças
produtivas galegas num estádio pré-industrial. A minoria espanholfalante
ocupava posiçons localizadas social e espacialmente, excepto naqueles
focos acima referidos em que se desenvolviam actividades de tipo industrial,
que avançavam o que seria a base de umha novidosa permeabilizaçom
da presença espanhola na Galiza ao atrair para esses centros industriais
(escassos) populaçom procedente do ámbito rural.
De um certo conhecimento passivo
do espanhol maioritário tradicionalmente, passará-se a umha
diversa gradaçom de bilingüismo nos imigrantes às cidades
ou os habitantes das suas periferias ou de vilas próximas. Na medida
que, ao longo do século seguinte, as etapas de desenvolvimento económico
cheguem à Galiza, a balança demolingüística irá
abalando do lado de um semibilingüismo primário ou natural (A/A)
que, com a introduçom do ensino em espanhol e de outros meios e domínios
em que esse é o idioma de acesso, se transformará em bilingüismo
diglóssico ou substitutivo (A/AB).
3.3.- Século XX na Galiza:
avanço ou recuo?
É significativo repararmos
na evoluçom do monolingüismo em galego desde o século XIX
até o último quartel do século XX. Os dados do Mapa Sociolingüístico
Galego mostram que em 1877 o grupo de falantes habituais de só galego
estava próximo de 90%, o que confirma estarmos ainda ante umha situaçom
de conservaçom da tradicional distribuiçom sociolingüística
na nossa sociedade. Mas confirma-se também a proximidade de um ponto
de inflexom que marca a queda contínua desse grupo, fundamental na
vitalidade mantida polo galego durante séculos de marginalizaçom.
A grande descida na percentagem de monolíngües em galego, iniciada
já em 1877, produz-se a partir de 1924 e até 1947 primeiro,
e de 1967 à actualidade depois. Ao tudo, falamos da perda de um 70%
de populaçom monolíngüe entre 1877 e 1974 (de 88'5% a 17'5%).
Quanto ao monolingüismo em espanhol entre os mesmos anos, passou de 2'9%
para 20'5%, o que significa a existência em 1974 de um maior número
de monolíngües hispanófonos do que galegófonos (75).
Repare-se em que estamos na data
álgida do chamado desenvolvismo hispano, que como todas as suas etapas
de alça ou declínio económico, tivo reflexo directo na
dependente sociedade galega, tanto na modernizaçom das suas estruturas
-embora fosse em funçom de interesses e critérios exógenos-
quanto na uniformizaçom lingüístico-cultural que a acompanhou.
Teremos ocasiom de ver a evoluçom concretizada a partir dessa data,
mas o que gostaríamos de frisar agora é a implicaçom
real do fenómeno, além das circunstáncias socioeconómicas
e demográficas que o envolvêrom. Esta descida da percentagem
de galegofalantes acompanhou ao longo do século XX a paralela queda
percentual da populaçom rural e agrária galega face à
urbana e enquadrada nos sectores secundário e terciário. Já
dixemos que no início do século a correlaçom entre populaçom
rural e urbana se situava em 90% face a 10% -90.1% face a 9.9%, exactamente,
em 1900-. Daí até 1920, passamos a uns índices de 87'3%
e 12'7% respectivamente, quer dizer, unicamente 3 pontos escassos de diferença
em vinte anos. Entre essa data e 1950, a populaçom rural passa a representar
78'6% e a urbana 21'4% -8'7 pontos de diferença em trinta anos-. Entre
1950 e 1970 -vinte anos- temos um aumento urbano e umha diminuiçom
rural de 7'1 pontos. E a partir de 70 até 1991 -outros vinte e um anos-
a diferença encurta-se em mais oito pontos, ficando nessa altura em
63% de populaçom rural face a 36'5% urbana76. Numericamente, isto supom
que a zona urbana quintuplicou a sua entidade até os inícios
dos anos 90, enquanto a zona rural se mantivo, perdendo finalmente valor no
recenseamento de 1991. Também se comprova que o maior aumento da populaçom
urbana se dá segundo o século vai mais avançado, igual
que a perda de populaçom monolíngüe, ainda que a um ritmo
nom tam marcado. Contudo, seria errado pensar que a perda de peso do mundo
rural se deveu principalmente ao êxodo interno para as cidades. Tenha-se
em conta de partida que, entre 1900 e 1990, a populaçom galega só
cresceu numhas 750.000 pessoas -37%-, enquanto a espanhola aumentou em 111%.
A maior parte da populaçom activa agrária que abandonou o campo
durante o século XX fijo-o para emigrar, ante a já comentada
incapacidade da sociedade galega para incorporá-la a umha descolagem
industrial que só se deu de maneira tímida e focalizada. Assim,
entre 1900 e 1970 o fluxo migratório expulsou da Galiza por cima das
800.000 pessoas. Nessa altura -1973-, o peso da indústria supunha na
ocupaçom da Galiza 21'2%, face a 36'1% no conjunto do Estado espanhol
e 52% na Catalunha. O sector serviços, também ligado à
progressom urbana, significava nesse ano 26% do emprego galego, 38'8% do espanhol
e 38'7% do catalám (77). O tipo de industrializaçom responde
a esse modelo de desenvolvimento dependente e portanto em funçom de
critérios e interesses alheios: pasta de papel, alumínio, refino
de petróleo, de umha parte, e produçom de automóveis
ou construçom naval de outra. É o que X. LÔPEZ FACAL chamava
naquela altura indústrias desarticuladas para frente e para trás,
fazendo referência ao facto de nom incluírem as fases finais
ou iniciais, respectivamente, do processo produtivo (78). Essa característica
reflecte a fraqueza industrial galega ao tempo que explica o seu abalar ante
circunstáncias de mercado ou conveniência exterior a que sempre
fica supeditada.
A diferença entre os ritmos
de urbanizaçom e espanholizaçom, indo esta por diante de aquela,
pode explicar-se polo facto de o tipo de assentamento em si nom ser o realmente
determinante na perda da língua, senom na medida que representa o sintoma
de umhas tendências que fam perder entidade à economia tradicional
agrária ao longo do século; economia tradicional agrária
que sustinha, como dixemos, umha estrutura social e cultural ancorada no conservadorismo
e o isolamento, favorecendo a permanência estável do esquema
sociolingüístico a que já temos feito referência.
Se aprofundarmos um bocado na evoluçom
da populaçom activa agrária ao longo do século XX, veremos
que é negativa em termos relativos no conjunto de Estados desenvolvidos,
quer do centro capitalista (Bélgica, Holanda, Reino Unido, Dinamarca,
França ou Estados Unidos), quer da sua periferia (Itália, Espanha,
Portugal, Irlanda...), na qual se integra geográfica e economicamente
a Galiza. Se nos primeiros se situa a inícios da década de noventa
à roda de 5% da populaçom activa total, e no Estado espanhol,
periférico, representa em 1990 11'3%, na Galiza, embora o peso da populaçom
activa agrária descesse durante todo o século XX, ainda supom
em 1991 umha percentagem de 23'8% (79). Como se vê, apesar de no nosso
país a economia agrária dar emprego a segmentos da sociedade
percentualmente superiores à de outros países próximos,
fica longe do tanto por cento de populaçom assentada no hábitat
rural galego, o que significa que umha parte desta populaçom está
vinculada a trabalhos enquadrados em sectores diferentes do primário.
Em concreto, em 1991 a indústria e a construçom seuponhem 31'3%
e o sector serviços 45% da populaçom activa galega (80). Rompeu-se
a maioria absoluta que a economia agrária atrasada supunha nos séculos
XIX e anteriores, e a permanência de ainda boa parte da populaçom
galega no meio rural fica redefinida por umhas comunicaçons mais fluídas
com "a modernidade", nom apenas através de estradas para
assistir diariamente ao trabalho ou aceder aos serviços situados nas
cada vez mais urbanizadas cabeceiras de comarca, senom também pola
recepçom massiva das ondas televisivas e radiofónicas, bem como
pola universalizaçom nos últimos decénios do Ensino Geral
Básico. Todo o qual ajuda a perceber a actual situaçom da língua
e a olhar com realismo as suas necessidades de futuro.
3.4.- A língua da Galiza no limiar do século XXI
Se retomarmos agora os factores
recorrentes apreciados por BRENZINGER, HEINE e SOMMER (citados in Carme JUNYENT,
1993), nos processos de extinçom lingüística, veremos que
as mudanças no sistema económico, o número absoluto de
falantes e a urbanizaçom, concorrem no caso galego com toda a nitidez,
ajudando os casos estudados por esses autores a enxergar o futuro que nos
espera como comunidade lingüística se nom pugermos remédio.
Ligado com isto, ainda nos nossos
dias a populaçom rural continua a ser maioria no nosso país
(81), igual que a populaçom galega continua a ter como língua
habitual a galega de forma maioritária -29'9%- ou exclusiva -38'7%-.
E nada indica na actualidade que ambos os fenómenos -urbanizaçom
e desgaleguizaçom- vaiam deixar de avançarem de maos dadas,
senom mais bem o contrário, pois se o conjunto da Galiza envelhece
a olhos vistos, o meio rural fai-no muito mais marcadamente, e dentro da populaçom
urbana, maioritariamente desgaleguizada, as suas faixas etárias mais
novas dam mostras de um abandono tam generalizado como alarmante do idioma
do país, por mais que se nos diga que a perda de populaçom monolíngüe
em galego supujo um enriquecimento pola via do bilingüismo.
Para já, convém levarmos
em conta que nom estamos a falar do mesmo quando comparamos o grupo histórico
dos monolíngües em galego com o dos monolíngües em
espanhol, como na actualidade resulta pouco rigoroso falarmos sem mais do
aumento do grupo social caracterizado como bilíngües. Os monolíngües
"históricos" em galego eram monolíngües primários,
quer dizer, tinham competência comunicativa só em galego, ligada
à manutençom histórica da transmissom natural; mas em
nengum caso umha formaçom secundária no mesmo; entendendo por
formaçom secundária nom apenas a escolar, mas a geral exposiçom
ao idioma em usos pertencentes aos mais variados domínios formais,
o que os teria convertido em monolíngües secundários ou
cultivados. Nom faziam parte, logo, de um espaço simbólico que,
como núcleo ideativo e motor de recuperaçom da comunidade lingüística,
nom existia senom nos grupos galeguistas progressivamente incorporados ao
uso do galego em ámbitos de uso escrito e formal, o que começou
a acontecer significativamente segundo o novo século ia andando e careceu
dos canais apropriados para a sua reproduçom. Sabemos que a lenta introduçom
do ensino e os meios de comunicaçom nom serviu para completar lingüisticamente
esse numerosíssimo grupo de monolíngües primários
em galego, senom para aprofundar no paradigma de extorsom (82). Polo contrário,
o crescimento do grupo de monolíngües em espanhol viu-se arroupado
pola introduçom do ensino e demais retículos comunicativos formais
e secundários. O motor desse crescimento é constituído
por umhas condiçons socioeconómicas que favorecem a substituiçom
lingüística, polo que costumam acabar por serem monolíngües
secundários (falantes naturais com formaçom cultural na língua
inicial), fim último da aplicaçom do citado paradigma. Portanto,
estes sim constituírom um espaço simbólico que se tornou
forte e atraiu para si os grupos nom completados em espanhol, o que foi acontecendo
nas sucessivas geraçons.
Dito por outras palavras, a situaçom
de colingüismo ou convívio entre duas comunidades lingüísticas
num mesmo território, -umha muito maioritária galegofalante
ligada à subdesenvolvida Galiza tradicional, e outra muito minoritária
espanholfalante vinculada com o progresso e a modernidade-, rompeu com a progressiva
transformaçom das estruturas tradicionais da sociedade. O ensino -que
começa a sua introduçom a sério na decada de sessenta-,
os meios de comunicaçom escritos -que também aumentam a sua
presença social nessa altura-, a rádio -o transistor estendera-se
já na década de cinqüenta-, televisom -generalizada sobretudo
a partir dos anos sessenta-, mesmo a modernizaçom das vias de comunicaçom,
fôrom ferramentas que o desenvolvismo achegou e que ajudárom
a "actualizar" lingüisticamente umha populaçom ainda
maioritariamente rural, mas em lento processo de proletarizaçom e urbanizaçom.
Destarte, o predomínio em
cada vez maior medida de grupos bilíngües deve ser precisado no
senso de desvendar que tipo de bilingüismo abraçam esses substitutos
do antigo monolingüismo primário em galego. Já que nom
é igual que estejamos a falar de grupos de bilíngües primários
ou secundários, os quais se caracterizam polo domínio completo
da própria língua e o conhecimento só primário
do espanhol, ou um domínio completo do galego e apenas secundário
do espanhol -respectivamente-, do que falarmos do grupo de bilíngües
diglóssicos (também chamados, sintomaticamente, substitutivos).
No tramo histórico que comentamos, trata-se do segundo caso, caracterizado
pola introduçom completa no espanhol (aprendizagem natural e cultural,
ou viceversa) e um conhecimento e uso primário do galego, ao conservar
as funçons que garantiam a transmissom intergeracional da língua.
Neste quadro é que podemos com toda a propriedade falar do contexto
galego como "diglóssico", no senso que lhe dérom os
primeiros sociolingüistas galegos (83). Um quadro que se mantivo basicamente
assim durante a maior parte do século XX, mas que julgamos que mudou
no seu último quartel.
Durante a década de setenta,
a crise europeia e mundial condicionou a reduçom do fluxo migratório
anterior e mesmo a volta de emigrantes. A tendência iniciada nessa altura
-a partir de 1973- fai-se sentir ainda nos recenseamentos mais recentes. Contudo,
cumpre matizar que a interrupçom do despovoamento galego nom afectou
ao conjunto do território, senom que dous terços do total continuárom
a perder habitantes. Inclusivamente se verifica umha oposiçom entre
a Galiza oriental -que continuou a perder populaçom- e a ocidental,
mais dinámica e desenvolvida, cujo crescimento demográfico se
situa em 13'21%, embora na década de noventa já o conjunto da
Galiza volte a perder habitantes.
As áreas de crescimento
som as situadas em torno do Golfo Ártabro e a sua extensom para Carvalho,
e em torno das Rias Baixas e a sua extensom para o Baixo Minho, quer dizer,
as que concentram umha mais significativa actividade industrial, ao lado das
capitais provinciais interiores e de outras cabeças de comarca caracterizadas
por aglutinarem serviços ou certas indústrias (As Pontes, Cervo,
O Barco,...).
Porém, a maior parte dos
concelhos galegos perdêrom habitantes ao longo da segunda metade do
século XX, continuando na actualidade essa tendência. Áreas
montanhesas como os Ancares, o Courel ou Queixa, vales como os do Minho ou
do Sil, além das próprias áreas do interior das províncias
ocidentais, nomeadamente os concelhos assentados na dorsal montanhosa da Galiza
meridional exemplificam esse generalizado despovoamento84.
É neste quadro de despovoamento
rural e urbanizaçom demográfica progressivos, acompanhando o
fim do modelo socioeconómico tradicional em favor de um novo em que
ganham peso os sectores secundário e terciário -de jeito claramente
descompensado-, que se contextualizam os dados sociolingüísticos
actuais.
Levando em conta as tendências demográficas e socioeconómicas
brevemente recenseadas, estamos em condiçons de pô-las em relaçom
com os dados sociolingüísticos quantitativos para umha interpretaçom
realista dos mesmos, como contributo para umha planificaçom lingüística
que nom desenharemos nestas páginas, mas alguns de cujos princípios
e orientaçons sim poderám ser apontados.
O dado acima indicado de em 1974 registar-se pola primeira vez na história
da Galiza umha maioria de monolíngües hispanófonos face
à populaçom monolíngüe galegófona -20'5%
e 17'5%, respectivamente- simboliza o salto de qualidade que fai com que umha
situaçom historicamente definida para o galego como de língua
maioritária minorizada, passe a corresponder-se com o modelo de língua
minoritária minorizada. Um salto qualitativo que a partir desses anos
se irá tornando patente em sucessivos estudos de campo que recolhem
a evoluçom intergeracional, e que acaba por certificar o maior e mais
rigoroso estudo dos realizados até hoje na Galiza no campo da macro-sociolingüística
quantitativa (85): o Mapa Sociolingüístico Galego, finalizado
em 1995, financiado pola Junta da Galiza e levado a cabo pola Real Academia
Galega, o que, para além da metodologia exposta nos volumes que o componhem,
lhe tira qualquer suspeita de tendenciosidade apocalíptica própria
de "exaltados nacionalistas".
Nom vamos entrar na análise
pormenorizada do MSG, para o que remetemos à última ediçom
da obra de Manuel PORTAS Língua e sociedade na Galiza86. Unicamente
queremos comentar alguns dados significativos da tendência que apontamos,
completados com outros provenientes de outros estudos complementares.
Se contrastarmos a evoluçom
socioeconómica e demográfica das comarcas em crescimento com
a diacronia sociolingüística correspondente, comprovamos que som
hoje as mais desgaleguizadas. A evidência neste sentido representada
polas capitais provinciais e restantes grandes cidades, manifesta-se em dados
como a língua veicular no Concelho de Vigo87, que confronta 29'8% de
galegofalantes maioritários ou exclusivos a 70'2% de espanholfalantes,
dentro de umha tendência desgaleguizadora ao longo de todo o século
XX que se reforça nos bairros mais urbanos do concelho e nas geraçons
mais novas88. Na mesma direcçom avançam as percentagens de aquisiçom
primária de galego e espanhol na populaçom viguesa: 48'3% de
espanholfalantes iniciais face a 18'4% de galegofalantes iniciais e 32'2%
de bilíngües iniciais que, como temos comentado, acabam por completarem-se
secundariamente em espanhol no momento da socializaçom num ambiente
consituído por domínios em que este é o idioma ambientalmente
hegemónico. Abandonam assim o que fora identidade partilhada na etapa
de aprendizagem primária.
O caso de Vigo nom é excepcional.
O mesmo acontece na outra grande cidade galega, na Corunha89, onde o galego
é língua habitual de 35'1% e o espanhol de 64.9% em termos absolutos.
De novo, os factores hábitat e idade determinam um maior avanço
da espanholizaçom90, que se verifica também nas percentagens
de falantes iniciais de umha e outra língua: 34'9% de galegofalantes
primários, 54'4% de espanholfalantes primários e 10'3% de bilíngües
iniciais.
As outras cidades -Ponte-Vedra,
Ferrol, Santiago, Lugo e Ourense- mostram diversos graus numha tendência
muito similar (91).
Nos estudos quantitativos sobre
o uso do galego como língua habitual, tem-se posto em relaçom
o idioma com outras variáveis sociais como o sexo, a classe social,
o nível de estudos ou o grupo profissional dos entrevistados. Nom entramos
nós a comentar esses factores por considerarmo-los menos determinantes
do que hábitat e idade, na medida em que estas variáveis sempre
pesam mais do que aquelas, por mais que também mereçam ser avaliadas
para um retrato exaustivo da situaçom da língua (92).
Mas também outros concelhos como Carvalho, Redondela, Vila-Garcia, Narom, Fene, Pontedeume, Sada, Arteixo,... Funcionalmente dependentes de capitais ou cidades industrializadas, som dos que registam maiores índices de espanholfalantes habituais em dados absolutos, e percentagens correlativamente menores de galegofalantes, que podem chegar a 45% e reduzir-se a 50% respectivamente (93). Isso sem entrarmos a distinguir grupos de idade ou tipo de hábitat, o que conviria para aclarar a diferença entre as geraçons mais velhas e as mais novas, e entre os seus núcleos urbanos e as suas áreas rurais de cada um dos concelhos referidos.
Os dados referidos ao conhecimento som altos (94), o que se explica a partir primeiro do contacto que ainda existe entre a maioria do povo galego com a sua língua, que mantém espaços ambientais amplos, além da evidente proximidade lingüística com o dominante espanhol, que torna fácil perceber e até falar galego a partir desse idioma. De outra parte, haveria que relativizar esse grau de conhecimento pola degradaçom e hibridaçom que sofre o galego, o que fai com que se encurte a distáncia com o espanhol satelizando a nossa língua até o ponto de afirmarem-se competentes em galego pessoas que, sem o conhecimento profundo do falante inicial ou nativo, nom podem ter a sua competência (95). Isso, para nom falarmos do plano escrito, onde a dependência permite que quase qualquer pessoa alfabetizada em espanhol se poda considerar competente em galego, porque "se escrevem de modo muito semelhante". De facto, manifesta-se um conhecimento escrito do galego maior nos falantes iniciais e habituais espanholfalantes, o que confirma que continuam as dificuldades para a formaçom de um espaço de falantes completos, pois os galegofalantes primários costumam nom ter conhecimentos do plano secundário e os que tenhem umha certa formaçom secundária nom se completam através da assunçom do galego para as funçons primárias que definem a identidade lingüística. O circuíto de aprendizagem interrompe-se para uns e para outros evitando umha dinámica de grupos favorável às necessidades do galego (96).
Quanto à valorizaçom
positiva que a maioria das pessoas perguntadas fam da língua e da necessidade
de normalizá-la, sendo um bom dado em si, nom indica mais do que a
existência de umha maioria social que ocupa posiçons longe do
espaço simbólico, do uso completo, mas que da periferia a respeito
do mesmo nom mantém atitudes agressivas com umha hipotética
normalizaçom. Polo contrário, afirma que a apoiaria. Mas, na
verdade, nom compromete a sua vontade com um processo desse tipo, senom que
manifesta no dia a dia umha total passividade que, é claro, poderia
transformar-se em actividade de articular-se um espaço simbólico
e aplicar-se umha planificaçom adequada. No entanto, sem a articulaçom
desse espaço, a situaçom tem-se manifestado historicamente instável
e a perda, a médio prazo, de referentes materiais como a própria
língua, bem como o reforço da presença e assunçom
do espanhol como língua de identidade em amplos sectores da populaçom
galega, podem fazer com que num futuro em que já tenham morrido os
"avôs que falavam galego", este deixe de despertar neles essa
apática simpatia, para afirmarem-se com todas as conseqüências
na sua nova identidade lingüística. Nesse suposto, o galego poderia
inclusive manter alguns espaços de uso em qualidade de língua
de transmissom cultural, e até resultar prestigioso o seu conhecimento
ou uso em determinados "ritos" professionais ou culturais (algo
disso já acontece em certos postos funcionariais dependentes da administraçom
autonómica), mas sem a imprescindível transmissom natural que
define as línguas vivas. Nom seria o primeiro caso na história,
é claro, mas para nós significaria a perda da identidade galega
tal e como até hoje está definida.
A identidade materializada na língua
conserva-se na actualidade no vasto território galego em processo de
envelhecimento e despovoamento mais marcados, como resto de umha Galiza tradicional
que se resistisse a desaparecer, o que se observa na conservaçom de
uns dados quantitativos mais favoráveis para o galego. Essa populaçom,
com a inserida nos espaços urbanos e periurbanos e ainda nom assimilada
às coordenadas hegemónicas por quase estritamente razons cronológicas
(97), permite manter por enquanto umhas percentagens absolutas superiores
de galegofalantes. Mas repare-se que falamos de um povo -o galego-que atingiu
o seu máximo demográfico histórico em 1986 com 2.844.484
habitantes, a partir do qual se produz umha queda em termos absolutos que
o situa em 1998 em 2.724.348 (-119.666). Um povo cuja populaçom menor
de vinte anos representava em 1975 871.640 pessoas e que em 1998 apenas 556.348
(-315.292, perda de 63'8%!), e cuja média de idade se situava em 1975
em 34'8 anos e em 1998 subira para 41 anos. É evidente que o saldo
migratório favorável 3.272 pessoas nom compensa os factores
anteriores, mas sim engrossa progressivamente a presença espanhola
até 8'56% de residentes estrangeiros na Galiza no ano 199198. Umha
minoria significativa e afirmada na sua espanholidade como parece demonstrar
esse 10'4% de cidadaos galegos que em 1999 afirmavam sentir-se só espanhóis
(99).
Ao ritmo actual, semelha evidente
que num par de geraçons o galego pode ser língua já minoritária,
para além de continuar sendo língua minorizada, visto que o
grau de incorporaçom às funçons formalizadas nas últimas
décadas nom é capaz, primeiro, de fazê-lo em detrimento
da presença do espanhol nas mesmas, e segundo, condicionando a conservaçom
do idioma do país nas funçons reduto de que está a ser
aceleradamente afastado.
É imprescindível,
se quigermos modificar a tendência imperante, abrirmos os olhos a umha
realidade gritante que indica a perda do galego por parte deste povo, nom
já para domínios correspondentes a funçons secundárias
ou formais como vinha acontecendo desde havia vários séculos.
Na actualidade, a comunidade lingüística galega está imersa
num processo de perda do galego como língua de identidade, através
da ruptura da transmissom natural entre geraçons. Se numha primeira
fase todos verificamos como pais e maes galegofalantes se preocupárom
com garantir o "progresso" dos seus filhos e filhas integrando-os
de cheio em grupos sociolingüísticos cada vez mais afastados do
espaço simbólico galego e próximos do correspondente
espanhol, doravante terá mais peso quantitativo o fenómeno de
transmissom directa do espanhol -como língua de identidade dos pais-
aos filhos, umha vez que nas geraçons mais novas o espanhol se está
a converter de facto na língua maioritária. Desde que a geraçom
seguinte a assuma também como própria, a nova identidade lingüística
do povo galego estará a um passo de ser umha outra bem diferente da
que ainda hoje proclamamos, por mais que no ensino se adquira o galego como
matéria ou ainda código pseudo-veicular ou se exija o seu conhecimento
para determinadas provas académicas e laborais.
A evoluçom socioeconómica
previsível nos próximos anos, bem como outros factores socializadores
-crescente influência dos meios de comunicaçom de massas- favorecem
umha generalizada motivaçom rumada para a aquisiçom do espanhol,
e reforçam o sentimento de inutilidade social de um galego despido
de qualquer carácter motivacional para a sua aquisiçom e uso.
Unicamente se verifica umha certa motivaçom para a aprendizagem secundária
como ferramenta académica ou de baremo laboralmente rendível
no ámbito da funçom pública. Ao mesmo tempo, o reforçamento
do preconceito social referente à necessidade de afastá-lo do
português, relacionado com um sentimento mais amplo de rechaço
do povo vizinho, tora a possibilidade de confrontarmos a utilidade e rendibilidade
internacionalmente reconhecidas ao galego-português através dos
Estados que o tenhem como língua nacional com a precariedade vigorante
no território que lhe deu a vida.
Muito pouca bagagem para umha enfraquecida comunidade cujo nível de consciência lingüística se situa na actualidade numha passiva simpatia pola língua própria, mas que se mostra incapaz de articular qualquer acçom estratégica conducente a inverter umhas tendências de que nom som conscientes nem boa parte das suas elites intelectuais (100).
NOTAS
55.- X. M. BEIRAS, (1995, pp. 110 e 111).
56.- R. LÔPEZ-SUEVOS
(1990, pp. 90 e 91) explica a importáncia dessa desconsideraçom
pola Administraçom espanhola da organizaçom local tradicional
como factor no grave problema económico e ambiental representado polo
lume florestal na Galiza.
57.- X. R. FREIXEIRO MATO
(1997).
58.- Papel típico
das classes dirigentes em países dependentes no momento de consolidaçom
dos Estados-naçom, que LETAMENDIA (1997, p. 26) define deste modo:
"O Estado pode estabelecer relaçons de clientelismo (isto é,
umha aliança utilitária entre dous interlocutores de status
desigual em que o patrom outorga protecçom ao ciente em troca da sua
submissom) com as elites periféricas, erigindo estas no seu interlocutor
privilegiado e tornando-as em mediadoras das massas camponesas."
59.- R. CARVALHO CALERO,
(1979, p. 144).
60.- É curioso
a este respeito comprovar como a Revoluçom francesa, em nome de princípios
como a igualdade jurídica, a liberdade, a soberania popular, o sentimento
nacional e o direito dos povos a disporem de si próprios, serviu para
deslegitimar a existência prévia de povos diferenciados no interior
das fronteiras dos modernos Estados, identificando-os com o Antigo Regime,
e negando-lhes qualquer direito baseado na tradiçom ou a história.
Daí que acabasse servindo de cobertura ideológica de projectos
radicalmente centralistas.
61.- X. R. BARREIRO, (1981,
p. 324).
62.- Citado por X. R. BARREIRO, (1981, p. 328).
63.- Para umha análise
em profundidade dos usos do galego no séc. XIX, veja-se FREIXEIRO MATO
(1997) e PORTAS (1997).
64.- L. TATO (1999, pp.
9 e 10), julga provável a encenaçom de autos e comédias
em galego durante os Séculos Escuros "em vilas pequenas, onde
os recursos económicos nom permitiriam a contrataçom de companhias
profissionais" Referindo-se à confraria do Sacramento de Padrom,
em 1566, e anos sucesivos, afirma que "tendo em conta a data em que se
representárom estes autos e a origem do dramaturgo, o mais provável
é que fossem escritos em galego, posto que tinham que ser representados
polos vizinhos, e que havia castigos e multas para os que se negassem a trabalhar
como actores."
65.- X. R. BARREIRO, (1981,
p. 15).
66.- Com efeito, define
melhor tal apelativo a classe em que se conservou o idioma do que o da língua
proletária usado por Celso Emílio, pois nos núcleos urbanos
operários a língua irá perdendo presença à
medida que os camponeses se vaiam integrando na condiçom proletária,
mais alá da permanência do "proletariado simbiótico"
definido por LÔPEZ SUEVOS. De facto, o processo de substuiçom
avançou ao longo do século XX à medida que o emprego
no sector secundário -e terciário- foi crescendo e descendo
a populaçom activa adscrita ao primário.
67.- M. PORTAS (1997) achega o dado comparativo para 1860 entre a existência como média do Estado de umha escola por cada 841 habitantes, enquanto na Galiza a rácio é de umha escola por cada 1484 habitantes. Narciso DE GABRIEL (1988, "Escolarizaçom e prática lingüística na Galiza rural do século XIX", Agália 1988, pp. 35 a 55) afirma que na populaçom infantil galega compreendida entre os quatro e os treze anos, a percentagem inscrita nas escolas públicas ou privadas era de 38'42% em 1885, sendo de 50'50% entre os meninhos e de 26'19% entre as raparigas. Segundo os seus dados, 50% da populaçom infantil galega nom tinha nesses anos nengum tipo de contacto com a escola. Com efeito, a generalizaçom do nível primário do ensino nom se efectiva até meados do século XX. X. R. BARREIRO (1982) acrescenta que entre 1840 e 1880 o analfabetismo na Galiza rural atinge 70% na populaçom adulta masculina e 98% na feminina.
68.- Narciso DE GABRIEL,
(1988, p. 47), cita da obra de Luís Otero y Pimentel En honor de Galicia.
Estudio sobre los problemas de la Enseñanza y Emigración (1907)
o seguinte trecho significativo: "mientras que los gallegos, por unas
causas o por otras, tengan que emigrar a otros países, lo que conviene
y hay que procurar es que salgan del suyo bien instruídos en el idioma
nacional, y aun, si es posible, en alguno de los extranjeros más usuales
en el comercio, que es como podrán competir ventajosamente con los
de los países más cultos, y demostrar con los hechos, que no
somos tan ignorantes como muchos nos suponen".
69.- De facto, e sem podermos falar na actualidade de algo sequer semelhante ao papel veicular do galego no ensino, o rejeitamento que nom raro se dá em certos pais ante a galeguizaçom de algumhas matérias, pode ser explicado em parte por essa manifesta inutilidade na "vida real", ao nom se acompanhar de umha política lingüística global conducente a criar a necessidade social do galego.
70.- Algo que define a
situaçom actual do galego, na medida em que sabemos que a Lei de Normalizaçom,
cujos objectivos ficam longe de procurarem um papel hegemónico para
a língua própria da Galiza, nom se cumprem em ámbitos
tam importantes como o ensino, a toponímia, ou mesmo a escolha por
parte do administrado da língua de relaçom com a administraçom.
A dificuldade ou até impossibilidade de fazer do galego veículo
expressivo "suficiente" leva à frustraçom da aprendizagem
e à merma da consciência lingüística imprescindível
para manter aceso o facho da recomposiçom do espaço simbólico
galego. Nesse contexto, afirma SÁNCHEZ CARRIÓN (1987, p. 383):
"Umha elite de poder sagaz pode inclusive permitir-se a concesom à
comunidade lingüística subordinada de leis ambíguas, pseudonormalizadoras
e aparentemente protectoras do património lingüístico da
comunidade desarticulada, já que nesta, em virtude da sua própria
desarticulaçom, as aspiraçons máximas da maioria som
sempre muito inferiores aos requerimentos mínimos".
Na mesma linha, Julen
AREJOLALEIBA (1990) afirma ao respeito: "Se nom existirem comunidades
lingüisticas que realmente sintam a necessidade pessoal e grupal de viverem
em euskara, se nom formos capazes de criar este sentimento, de bem pouco serve
lançarmos pelotas fora e julgarmos que algum dia se há de chegar
a criar consciência lingüística "por decreto lei".
(...) "As discriminaçons legais portanto, terám de ser
combatidas ao seu devido momento, quer dizer, ao consolidar umha comunidade
lingüística heterogénea e consciente da sua capacidade
de acçom. Ao nom existir núcleo nengum monolíngüe
em euskara, se nom se for criando esta necessidade social, a mudança
legal nom oferece nengum tipo de garantias. Na grande maioria dos processos
de normalizaçom e de substituiçom lingüística, a
jurisprudência nom é a causa mas um efeito."
Por seu turno, J. L. ÁLVAREZ
ENPARANTZA (1995) apresenta um bom número de exemplos históricos
de como a legislaçom pode ser insuficiente se for contra tendências
sociológicas que nom som modificadas.
Entre nós, P. GARCIA
NEGRO (1999) tem afirmado: "outorgam-se direitos com tal de que nom se
exerçam".
71.- Veja-se Edelmiro LÓPEZ IGLÉSIAS (1995, pp. 375 a 403).
72.- Para o conjunto da
Galiza, o Mapa Sociolingüístico Galego (MSG) reflecte umha percentagem
de espanholfalantes habituais de 71'9% face a 37'7% de galegofalantes, no
hábitat urbano. Nos núcleos de menos de 2.000 habitantes, a
correlaçom é de 21'3% maioritária ou exclusivamente espanholfalantes
habituais frente a 78'6% galegofalantes; e nos lugares de menos de 2.000 habitantes
e hábitat disperso, 10'3% face a 89'7% de 2.000 habitantes, a correlaçom
é de 21'3% maioritária ou exclusivamente espanholfalantes habituais
frente a 78'6% galegofalantes; e nos lugares de menos de 2.000 habitantes
e hábitat disperso, 10'3% face a 89'7% respectivamente. O contraste
é, como se vê, marcado segundo figermos referência à
língua do campo ou a da cidade.
73.- Com efeito, noutras
áreas do Estado espanhol atrasadas e monolíngües, a língua
nom é alvo das frustraçons colectivas, e unicamente a realidade
intra-lingüística dos níveis de língua serve para
marcar os diferentes grupos ou classes.
74.- Para um repasso dos preconceitos actuantes na sociedade galega do século XIX, postos em relaçom com a consciência lingüística da Galiza de fins do século XX, veja-se F. RODRÍGUEZ (1989, pp. 663 a 670).
75.- Repare-se que ainda
no ano lectivo correspondente a 1972-73, só estudavam 41% das raparigas
e rapazes galegos com idades entre 14 e 17 anos (PORTAS, 1997, p. 135). Sendo
algo posterior a universalizaçom do ensino, entende-se melhor a progressiva
desgaleguizaçom da gente nova depois dessa data, sem que a introduçom
do galego como matéria tenha servido para frear o seu protagonismo
como complemento de umha reestruturaçom global da nossa sociedade que,
dos factores estruturais aos mais superestruturais, favorece essa tendência.galegos
com idades entre 14 e 17 anos (PORTAS, 1997, p. 135). Sendo algo posterior
a universalizaçom do ensino, entende-se melhor a progressiva desgaleguizaçom
da gente nova depois dessa data, sem que a introduçom do galego como
matéria tenha servido para frear o seu protagonismo como complemento
de umha reestruturaçom global da nossa sociedade que, dos factores
estruturais aos mais superestruturais, favorece essa tendência.
76.- Dados tirados de
X. M. BEIRAS e A. LÓPEZ (1999, p. 42).
77.- C. NOGUEIRA (1977,
p. 32 e ss).
78.- X. LÓPEZ FACAL (1977, p. 18 e ss).
79.- Dados tirados de
E. LÓPEZ IGLÉSIAS (1995, pp. 375 a 403).
80.- Dados sobre sectores
secundário e terciário tirados de X. M. BEIRAS e A. LÓPEZ
(1999, p. 212). Nesse estudo, atribui-se à populaçom activa
agrária em 1991 umha percentagem de 23'7%.
81.- Ao contrário do que se passa na Espanha, onde a populaçom urbana supom 65% do total.
82.- Mediante o qual o
monolíngüe primário (A/Ø) passa a ser semibilíngüe
secundário ou diglóssico (A/B) primeiro, e bilíngüe
diglóssico (A/AB) depois, para acabar tornando-se monolíngüe
secundário (Ø/AB) na língua que no começo nem
falava. No transcurso do processo, as crianças deixam de nativizar-se
só em galego, convertendo-se em semibilíngües primárias
(A/A), para a seguir incorporar-se ao grupo das bilíngües diglóssicas
(A/AB)
83.- Aplicando à realidade galega o conceito previamente usado por sociolingüistas como R. NINYOLES ou J. FISHMAN que por seu turno o tomaram do seu primeiro utilizador, C. A. FERGUSON.
84.- Aplicando à
realidade galega o conceito previamente usado por sociolingüistas como
R. NINYOLES ou J. FISHMAN que por seu turno o tomaram do seu primeiro utilizador,
C. A. FERGUSON.
85.- Por mais que admita
reservas. Um exemplo prático de como as respostas dadas nom se correspondem
claramente com a realidade temo-lo nas percentagens de monolíngües
iniciais em galego que recolhe o Mapa Sociolingüístico Galego,
que se situam para idades entre 16 e 20 anos em 34%. Talvez poda ser essa
a percentagens de galego-dominantes iniciais. Lembre-se que este conceito
foi proposto por C. ÁLVAREZ CÁCCAMO (1987): "Dado que há
umha alta percentagem dos falantes de galego que som também parcialmente
competentes em espanhol (e utilizam esta língua com maior ou menor
freqüência), prefiro utilizar o termo "galego-dominante"
(quer dizer, bilíngüe cuja língua principal é o
galego) em vez de "galego-falante", que poderia ser interpretado
como "monolíngüe".
Com efeito, resulta impensável
hoje em dia um semelhante índice de pessoas novas que tenhem como única
língua de aquisiçom primária o galego, ante a generalizada
presença ambiental do espanhol já mesmo nos ámbitos de
uso mais primários em que as crianças se socializam. Também
na percentagem de "só galegofalantes habituais" devemos interpretar
com cautela o resultado do trabalho citado -38'7 % para o total da Galiza-,
na medida em que, quando descemos à realidade quotidiana dos usos detectáveis
nas nossas ruas, poucos grupos sociologicamente representativos respondem
a esse comportamento. De umha parte, estariam os falantes monolíngües
naturais, sem competência em espanhol, grupo hoje muito minoritário
e "em vias de extinçom". De outra parte, os grupos instalados
na prática galegófona, com diverso grau de formaçom secundária
e/ou primária em ambos idiomas, mas com umha consciência lingüística
elevada que os fai manter-se no galego apesar das barreiras que a tal prática
som colocadas quotidianamente numha sociedade em que prima o contrário
a essa fidelidade. É claro que ambos os sectores nom suponhem 38'7%
da populaçom galega, polo que deveremos interpretar a resposta de usarem
"sempre" o galego como "sempre que corresponde", de acordo
com a permanência do esquema diglóssico em faixas de idade elevadas
e tipos de hábitat nom urbano principalmente.
Cumpriria, portanto, umha recolha abundante de mostras de fala espontánea nos diferentes domínios de uso por parte dos diversos grupos de falantes, sistematizando com maior rigor os grupos sociolingüísticos presentes na comunidade objecto de estudo, para a partir daí elaborar questionários que levem em conta os condicionantes que agem em cada contexto, para além da consciência do informante, evitando assim resultados questionáveis que, em geral, costumam favorecer o relaxamento das forças "curativas" do corpo sociolingüístico doente. Nesta linha manifestam-se autores como J. J. GUMPERZ (1982) e M. A. FERNÁNDEZ (1991).
86.- 1997, pp. 149 e ss.
87.- Veja-se o Estudio
sociolingüístico sobre a situación da lingua galega no
Concello de Vigo, publicado em 1998. Para a língua inicial, p. 15 e
ss. Para a língua habitual, p. 36 e ss.
88.- Na "Zona Centro",
19'4% galegófonos habituais face a 80'7% hispanófonos. Na área
catalogada como "Resto do Concelho", para além dos bairros
do núcleo urbano, 29'8% e 70'2% respectivamente. Na faixa de idade
entre 15 e 20 anos, 14'3% de galegofalantes habituais e 85'6% de espanholfalantes,
que nos maiores de 65 se correspondem com 54'6% e 45'45% respectivamente.
Evitamos a distinçom entre os grupos "só galego" e
"mais galego", ao nom a considerarmos totalmente fiável,
mais que como indicativa do relativo grau de uso. Contudo, costuma ter mais
presença o grupo que afirma falar "mais" do que "só".
89.- Neste caso, tomamos
os dados de Usos lingüísticos en Galicia, II Volume do Mapa Sociolingüístico
Galego, de 1995. P. 95.
90.- Nas áreas
urbanas do Concelho, 34'9% de galegofalantes e 65'2% de espanholfalantes,
enquanto nas áreas chamadas periurbanas as percentagens mudam para
57'2% e 42'8% respectivamente. No que toca ao factor idade, o contraste é
radical: nos corunheses com idades entre 16 e 25 anos, o índice de
galegofalantes habituais situa-se em 9'8% e o de espanholfalantes habituais
num eloqüente 90'3%%. Na geraçom dos maiores de 65 anos, as percentagens
som ainda respectivamente de 63'6% e 36'4%.
91.- Convém citarmos o caso de Ferrol -e a sua comarca- por representar umha tendência extrema na direcçom apontada. No seu hábitat urbano, 75% da populaçom fala habitualmente só ou mais espanhol, face a 25% galegófono habitual. Se confrontarmos as percentagens de galegofalantes urbanos menores de 26 anos com as correspondentes a espanholfalantes desses grupos, deparamos com 4'8% contra 95%. Quanto à língua inicial, o galego foi-no no 82'4% dos casos nas áreas rurais, mas só no 25'3% das urbanas, reduzindo-se neste último espaço de novo a 4'8% nos menores de 26 anos face a 95% de espanholfalantes iniciais. Isto, e outras muitas cousas, é o que nos di o Estudio sociolingüístico da comarca ferrolá, com dados referidos a 1991, publicado em 1993.
92.- Contudo, sim apontamos
que como tendência geral na Galiza se dá um menor uso habitual
do galego quanto maior for o nível de estudos e mais elevada a classe
social a que se pertence. Quanto aos grupos profissionais, os docentes, estudantes,
titulados superiores e médios e profissionais liberais som os mais
espanholizados; e empresários, membros das forças armadas, pessoal
administrativo, pessoal de serviços, autónomos, camponeses,
operários, donas de casa e pessoas economicamente inactivas mantenhem
um maior uso do galego. É claro que, de cruzarmos estes grupos com
as variáveis de hábitat urbano e idade baixa, o peso do espanhol
ganha posiçons em todos eles. Daí que demos maior releváncia
a esses factores, cuja incidência determina cada umha das restantes
variáveis mais do que acontece ao contrário. Assim, é
mais provável a influência espanholizadora dos factores idade
baixa e hábitat urbano num operário, do que a hipótese
de ver-se galeguizado um jovem de hábitat urbano polo facto de pertencer
a umha classe -a operária-, embora esta seja ainda em dados absolutos
maioritariamente galegofalante. Isto deve-se a que o conjunto das classes
da formaçom social galega se vê imbuído de umha tendência
espácio-temporal (histórica) uniformizadora que parte da progressiva
invasom funcional do espanhol numha sociedade que se tornou, pola evoluçom
sócio-económica e demográfica que temos comentado, mais
aberta e permeável às pautas de comportamento dominantes.
93.- Veja-se Usos lingüísticos
en Galicia, II Volume do Mapa Sociolingüístico Galego, RAG, 1995.
Apêndice 1, mapas.
94.- 97% di perceber o
galego, 86% di saber falá-lo, 45% assegura que o lê e 27% que
o escreve. Aliás, a gente nova afirma ter um maior conhecimento lecto-escrito
da língua.
95.- O exemplo paradigmático
destes falantes som aqueles profissionais dos meios de comunicaçom
que sem dúvida responderiam afirmativamente sobre a sua capacidade
de perceberem, falarem, lerem e escreverem em galego, quando na verdade o
seu domínio do mesmo é muito reduzido e totalmente empapado
de dicçom, fraseologia, fonética e outros traços que
delatam o seu ponto de partida. Repare-se na importáncia do grupo a
que fazemos referência, que de existir umha planificaçom lingüística
normalizadora deveria estar constituído por pessoas da máxima
formaçom (galegofalantes completos), ao representar um ponto de referência
social de primeira magnitude quanto ao que é o "bom galego".
96.- De resto, algo deve falhar quando outros inquéritos afirmam que, das pessoas que sabem ler em galego, 44% afirmam que preferem ler em castelhano, face a 12'4% que preferem o galego e 40'8 que nom tenhem preferência. CIS (1998, p. 11).
97.- Com efeito, Manuel
GONZÁLEZ LORENZO (1985) mostra graficamente a importáncia do
factor temporal na perda da identidade lingüística das pessoas
deslocadas do campo para a cidade no caso de Ourense. Quanto mais recente
for a vinda ao meio urbano, mais manutençom do galego se detecta na
geraçom seguinte, e ao contrário, nas pessoas de imigraçom
mais antiga, a espanholizaçom dos seus filhos avança notoriamente
no índice de aquisiçom primária da língua.
98.- Dados tirados do
INE.
99.- Inquérito publicado por La Voz de Galicia.
100.- Dá-se, neste senso, o facto curioso de que, contra os dados que comentamos, a maioria da populaçom galega julga que cada vez se fala mais galego. Em concreto, e à pergunta de "¿Cree Ud. que en los últimos diez años, la gente que le rodea habla el gallego con más, igual ou menos frecuencia que antes?", 61'4% responde que mais, 25% que igual e 6'8% que menos. À pregunta "¿Y dentro de 10 años, cree Ud. que la gente hablará el gallego con más, igual o menos frecuencia que ahora?", 48'3% responde que mais, 25'3% que igual, e 8'4% que menos (CIS, 1998). Pom-se de manifesto o funcionamento da ideologia dominante conforme à interpretaçom marxista da mesma como "falsa consciência necessária", nom já no grosso do nosso povo, quanto nos sectores teoricamente avançados e lingüisticamente conscientes do mesmo. Contudo, cumpre matizar que o nível de alienaçom evidenciado desceu nos últimos anos, e se compararmos essas respostas com as que se davam em 1993 num inquérito do mesmo organismo (Centro de Investigaciones Sociológicas), verificaremos que, naquela altura, a pergunta sobre se o galego se falaria mais, igual ou menos dali a dez anos, recebia as seguintes percentagens: 63% dizia que mais, 17% que igual, e 5% que menos. Será que começamos a intuir que algo vai mal?
3.- CONCLUSOM: A NECESSIDADE DE UMHA NOVA DINÁMICA NORMALIZADORA