GALIZA E A DIVERSIDADE LINGÜÍSTICA NO MUNDO. SUBSÍDIOS PARA UM DIAGNÓSTICO ACTUALIZADO DA SITUAÇOM SOCIOLINGÜÍSTICA GALEGA

 

1.- A realidade das comunidades lingüísticas no mundo: progresso ou pobreza?


Vivemos tempos de globalizaçom. Isso é o que se nos di continuamente nos meios de comunicaçom, fazendo referência ao facto de o planeta ficar pequeno, as distáncias se reduzirem e o grande mercado do mundo chegar até o último confim. Para alguns, trata-se do clímax do progresso humano, para outros do desastre ainda nom bem calibrado da universalizaçom neoliberal após a queda do bloco antagónico hegemonizado pola extinta Uniom Soviética.

Para além das consideraçons que a este respeito pudéssemos fazer, queremos matizar a sentença prévia e dizer que a dita globalizaçom nom é nova, embora se veja na actualidade reforçada por umha fase de desenvolvimento capitalista caracterizada polo império das transnacionais, grandes gestoras da economia planetária, por cima das fronteiras e mesmo sem um país de referência, por mais que tenham nos Estados do centro os seus beneficiários.
Lembremos, com Inmanuel WALLERSTEIN, que o capitalismo tem a sua origem histórica no salto qualitativo de o capital passar a ser usado com o objectivo primário da auto-expansom ou acumulaçom exponencial do mesmo25. O processo que se segue para conseguir mais capital a partir de um investimento prévio (o circuíto do capital) raramente era concluído antes dos tempos modernos. Em palavras de WALLERSTEIN "O capitalismo histórico implicou, pois, a mercantilizaçom generalizada dos processos -nom apenas os processos de troca, mas também os de produçom, de distribuiçom e de investimento- que até aí eram efectuados sem a intervençom do "mercado"(26).

Os inicios deste sistema mundial chamado capitalismo situam-se portanto já na Europa dos finais do século XV, e desde essa altura foi expandindo-se até chegar a abranger a Terra toda no século XIX. Esta leitura do acontecido no planeta nos últimos cinco séculos semelha apresentar umha realidade contraditória: a de umha divisom do trabalho a escala mundial face à separaçom dos protagonistas da acumulaçom de capital em Estados soberanos, politicamente autónomos. Os principados territoriais alicerçados numha relativa afinidade étnica constituíam o precedente medieval que resultara por sua vez do fraccionamento político do Império Romano do Ocidente. A transformaçom da sociedade tradicional em moderna verificou-se pola própria dinámica de um capitalismo em alça que adaptava os espaços políticos e nacionais às suas necessidades de mercado e expansom. Francisco LETAMENDIA, citando Pierre VILAR, sublinha como parte desse processo, "a conversom operada polo Renascimento das principais línguas "vulgares" no signo da unidade política, da qual deriva a sua vitória sobre o latim; o mercantilismo e a unificaçom da moeda; e a Reforma protestante, que reforça a ideia de que os súbditos e um mesmo príncipe devem formar umha comunidade uniforme" (27).

Estes Estados, vocacionados para darem forma jurídico-política à nova realidade socioeconómica, garantírom desde entom os relacionamentos de troca desigual entre centro e periferia do sistema mundial28, para além das muito diversas funçons internas e externas desses aparelhos, sempre ao serviço das classes dominantes. Isto deu pé a que ENGELS sintetizasse no século XIX a definiçom dos Estados como destacamentos especiais de homens armados (29).

No plano internacional, "organizam-se hierarquicamente em funçom do respectivo poder efectivo de cada um, poder que outorga a capacidade efectiva de concentrar capital acumulado no seu território, por oposiçom aos Estados rivais" (30).

Na formulaçom de WALLERSTEIN, a história dos últimos cinco séculos da humanidade cobra um novo sentido, à luz do qual pretendemos avaliar o que supugérom para umha característica que singulariza as sociedades humanas: a sua variedade língüística e cultural, que nós reivindicamos como ingrediente necessário na definiçom de um novo contexto de relacionamento com base na justiça social. Já que, com TXEPETX, afirmamos que "a normalizaçom de umha Comunidade Lingüística com vontade de ser cuja existência estiver ameaçada, interessa nom apenas aos falantes -presentes e futuros- da dita Comunidade, mas também ao conjunto dos cidadaos de um Estado e à humanidade em geral, porque orienta a sociedade na direcçom específica do desenvolvimento humano" (31).

Via de regra, os grandes Estados a que fazemos referência, quer os situados no centro do sistema, quer os periféricos, costumam caracterizar-se por ser a sua constituiçom prévia à existência da comunidade nacional ou naçom a que apelam para autojustificar o projecto socioeconómico que representam. De facto, o mais habitual é que no seu espaço territorial de referência incluam diversas comunidades que vem negado o seu ser em favor de umha delas, no caso dos Estados do centro, ou do próprio Estado colonial no caso dos Estados nascidos da aplicaçom do modelo estadual às àreas periféricas colonizadas polas potências do centro do sistema mundial (32). Assim, sabemos que na actualidade existem entre três mil e quatro mil línguas no mundo (segundo definirmos como dialectos ou idiomas muitas delas), e a correspondência em número de Estados é inferior a 200.

Som claros os exemplos do que dizemos no caso da Europa, onde praticamente nom há Estados que se correspondam com a geografia de umha única comunidade lingüística e, o que é mais grave, onde os direitos das diversas comunidades lingüísticas sejam respeitadas por igual. Polo contrário, som numerosíssimos ainda hoje os exemplos de Estados constituídos sobre territórios geograficamente discontínuos, ou de territórios contínuos divididos entre Estados, sendo também abundantes as desigualdades manifestas em favor da comunidade lingüística que sustenta a identidade "legítima" de cada Estado. Podemos citar o Estado francês, o inglês, o italiano ou o espanhol, como casos evidentes de projectos nacionais construídos em diversas etapas do capitalismo histórico sobre comunidades nacionais pré-existentes cujos direitos se vírom negados pola legitimidade do correspondente Estado-naçom (33).

Na periferia do sistema mundial, a criaçom de Estados crioulos nom serviu para frear o aniquilamento protagonizado polas potências coloniais. A maior arbitrariedade no que di respeito à correspondência entre Estado e naçom torna-se patente no número de línguas que costumam ficar submetidas à imposta polo colonizador. Assim, o Estado peruano tem na actualidade como referência no seu projecto nacional um território em que se falam 96 línguas34, no México falam-se 289 e na Colômbia 79, conhecendo-se a extinçom de doze, seis e dezanove respectivamente. Nom é preciso nesses casos lembrar que língua ocupa a posiçom dominante, mas servem para indiciar qual é a situaçom actual dos direitos lingüísticos neste mundo das liberdades (35).

Dado que, como acabamos de ver, os Estados promovêrom historicamente a criaçom de naçons nos territórios que dominavam, por meio da uniformizaçom lingüístico-cultural cuja cobertura filosófico-racional acabou sendo o modelo surgido da Revoluçom Francesa, nom é difícil perceber o papel que o sistema hoje hegemónico no globo tem jogado desde a sua irrupçom na história no que di respeito à diversidade lingüística das sociedades humanas. Mas podemos verificá-lo dando umha olhadela a alguns dados relativos à evoluçom, permanência e extinçom das línguas sobre o nosso planeta nos últimos séculos(36).

No continente europeu, como dixemos, é norma a desigualdade lingüística e Estados como o inglês, amiúde colocados como modelo de trajectória democrática, tenhem no seu haver a triste conquista unificadora de provocar a extinçom do córnico, idioma céltico cuja derradeira falante morreu em 1777; além da minorizaçom de línguas como o irlandês, o escocês, ou o galês, todas elas em grave perigo para a sua sobrevivência. A falta de correspondência entre comunidade nacional e Estado-naçom provocou e provoca no velho continente que o alemám corra perigo na Alsácia, o sámi nos Estados escandinavos e o albanês na Jugoslávia e na Grécia, além do ocitano em França, o dinamarquês na Alemanha e o checheno na Rússia. Som, em quase todos os casos, conseqüências de longos processos históricos de extorsom cultural que ameaçam com consumar-se em favor da definitiva imposiçom do projecto nacional representado por cada um dos Estados implicados (37).

Se olharmos a realidade de outros continentes, comprovaremos como na Ásia os processos de colonizaçom primeiro e de industrializaçom e modernizaçom depois produzírom grandes desfeitas em comunidades lingüísticas atrapadas nesses processos, ou nos de construçom de novos Estados-naçom de corte ocidental. Podemos exemplificar o que relatamos com a existência na Índia de umhas 1600 línguas, das quais só quinze tenhem algum tipo de reconhecimento oficial.

Na Oceánia, R. M. W. DIXON (38) relata que "das aproximadamente 200 línguas que se falavam na Austrália antes da invasom europeia, por volta de 50 já estám extinguidas, tendo morrido os seus derradeiros falantes há alguns anos (...) Há mais 100 línguas que estám em vias de extinçom. Algumhas só som recordadas por algumhas pessoas idosas, e deixarám de ser faladas ou recordadas dentro de muito poucos anos; outras som ainda aprendidas polos filhos de algumhas famílias mas o número total de falantes é tam pequeno -algumhas dúzias ou menos- que estas línguas semelham estar destinadas ao desuso em muito poucas geraçons mais. Finalmente, talvez 50 línguas gozem de um relativamente bom estado de saúde, sendo faladas como primeira língua por alguns centenares (ou, nun ou dous casos, por alguns milhares) de falantes e preservando o seu uso na totalidade de labores quotidianos, cerimónias e rituais".

Nom é melhor a situaçom no continente americano, onde só no território sobre o qual se edificou a naçom que hoje som os Estados Unidos, se falavam vários centos de línguas antes do extermínio dos povos índios. Na actualidade, das menos de 160 que sobrevivem, só 20 som faladas nalgumha medida por pessoas de qualquer idade; 30 só por adultos de diferentes idades; 60 por adultos de mediana idade e idosos; e 45 só polos mais velhos. Esta imagem e a sua projecçom imediata no tempo dá-nos umha ideia da perda efectivada até hoje e do ritmo de desaparecimento da riqueza lingüística que continua nos nossos dias.

Na Mesoamérica, "um número indeterminado de línguas extinguírom-se como conseqüência da conquista. Olhando o mapa da distribuiçom lingüística ao início do contacto, pode-se ver que excepto as línguas do norte, localizadas na realiade para além da Mesoamérica, a maioria das que desaparecêrom eram faladas por grupos que ocupavam pequenas zonas em regions de grande diversidade lingüística, nomeadamente ao longo da costa e zonas interiores próximas nos actuais Estados mexicanos de Guerrero, Michoacám e Colima. Na sua maior parte, as línguas extinguírom-se durante os primeiros anos do século XVI sobretudo a causa da grande descida da populaçom causada polas epidemias"(39).

Quanto a África, calcula-se que há um total de 222 línguas conhecidas situadas em diferentes graus de minorizaçom que vam da sua já verificada desapariçom a diferentes graus de desnormalizaçom. De novo a criaçom de Estados a partir do modelo europeu foi origem de grandes desastres étnicos e de perdas irreparáveis no património cultural da nossa espécie.
Em 1990, MORENO CABRERA40 calculava em 1.000 o número de línguas que desapareceriam nas duas décadas seguintes. Já decorrêrom dez anos desde essa estimaçom e nada indica que o processo se tenha invertido, senom mais bem intensificado na medida em que a assimilaçom particular ou regional que cada povo minorizado sofre por parte do Estado correspondente se vê reforçada pola universalizaçom do chamado "american way of life" como modelo sociocultural de referência num mundo unipolar, capitalista e neoliberal(41).

Carme JUNYENT, citando BRENZINGER, HEINE e SOMMER, fala das mudanças no sistema económico, o número absoluto de falantes e a urbanizaçom, como "factores recorrentes" nos processos de extinçom lingüística em África. Parece-nos necessário afirmar que esses mesmos factores estám presentes em qualquer contexto de minorizaçom, como chaves para a interpretaçom das fases em que CALVET divide a penetraçom de umha língua alheia na sociedade (42). Repare-se que, nos tempos que vivemos, "a populaçom mundial, em conjunto, e pola primeira vez na história, está a piques de se converter numha populaçom maioritariamente urbana" (43), o que liga o factor urbanizador com a tendência geral à perda da riqueza lingüística que historicamente caracterizou as sociedades humanas.

De resto, os factores apontados tenhem importáncia fundamental no processo de assimilaçom lingüística verificado na Galiza, sendo as nossas cidades exemplo histórico de como as mudanças económicas e a urbanizaçom associada às mesmas influem na variaçom do número absoluto de falantes. No extremo oposto, lugares da própria Galiza caracterizados polo assentamento rural e o estagnamento económico plasmado numha economia agrária atrasada, para além de sofrerem um envelhecimento populacional, mantenhem estável até certa altura o modelo histórico diglóssico, ficando como maioritária a língua minorizada. De tudo isto trataremos em páginas posteriores.

2.- Espanha e a negaçom da pluralidade lingüística das sociedades humanas

Parece-nos conveniente descer agora mais um nível para chegarmos ao espaço geográfico e político em que se insere a Galiza, o projecto de Estado-naçom espanhol. Umha aproximaçom à sua realidade de conjunto pode ajudar-nos a perceber melhor a situaçom actual do nosso próprio país e da sua língua, na medida em que a pertença da Galiza a esse Estado a tem condicionado historicamente de maneira determinante.

O Estado unitário nasceu com a instauraçom do absolutismo nas chamadas "naçons imperiais marítimas", tais como França, Inglaterra, Portugal, Castela ou Dinamarca. No caso espanhol, o projecto imperial dos Habsburgo ocupou um papel económico central na Europa da primeira metade do século XVI, com umha expansom comercial transatlántica e grande influência política no velho continente. Lembremos, com WALLERSTEIN, que nos Estados do Centro da economia mundial nessa altura histórica "a criaçom de um forte aparelho de Estado unido a umha cultura nacional, fenómeno amiúde chamado integraçom, serve como mecanismo para proteger as disparidades surgidas no seio do sistema mundial e como máscara ideológica justificadora da manutençom de tais disparidades".

A Espanha de Carlos V parecia cumprir a primeira das premissas -forte aparelho de Estado- mas é claro que estava ainda longe de conseguir essa eufemisticamente chamada "integraçom" numha única cultura nacional, dado que, para além dos territórios coloniais "externos", na própria península acolhia várias culturas nacionais: polo menos a galega, a catalá e a basca.

Posteriormente, chegou mesmo a abranger o território português, o que dificultou mais ainda essa simplificaçom pretendida à volta do projecto nacional espanhol nucleado pola cultura e língua castelhanas.

A partir da segunda metade do século XVI, Espanha perdeu fôlegos tanto no plano económico quanto político no palco internacional, deixando de ocupar um lugar entre os mais poderosos do centro da economia-mundo em favor de outras potências concorrentes: França, Países Baixos, Inglaterra,...

O declínio progressivo espanhol imbuiu áreas internas como a Galiza de um retrasso crónico, ao empecer um desenvolvimento endógeno, toda vez que as classes dominantes galegas foram já extirpadas do território no início do processo de unificaçom estatal que comentamos. Nom existia iniciativa própria como formaçom social autónoma, senom umha permanente dependência de centros de decisom alheios às classes sociais que detinham um interesse objectivo no progresso nacional da Galiza (44). Umhas classes despossuídas até o ponto de, confirmando a sentença muito posterior de Karl MARX referida ao proletariado, ficarem sem pátria.

A revoluçom industrial implica umha maior hierarquizaçom do espaço estatal. O Estado espanhol nom passa de ser umha área periférica do centro capitalista, caracterizado por umha tardia incorporaçom à fase industrial das suas camadas dirigentes, o que lastrou o desenvolvimento do conjunto. J. M. BEIRAS expom no seu já clássico O Atraso económico da Galiza que "umhas quatro quintas partes das maiores indústrias galegas som posteriores à guerra civil"45. A funçom da Galiza na precária incorporaçom espanhola ao capitalismo industrial no século XIX impom-lhe um papel de fornecedora de matérias primas e alimentos aos centros económicos existentes no Estado. É o tantas vezes descrito "colonialismo interior" (46), "colonialismo interno" (47) ou "capitalismo colonial" (48) que afecta também à Bretanha e à Ocitánia em França, ou ao Mezzogiorno na Itália (49), por citar contextos próximos.

Outros espaços lingüísticos e culturais sob administraçom espanhola, como o basco ou o catalám, caracterizam-se pola maior permanência no tempo de instituiçons nacionais face à assimilaçom castelhana, o que livrou a Catalunha por exemplo dos Séculos Escuros galegos e da perda de memória colectiva que implicárom entre nós. A sua situaçom geográfica e a presença na fase que comentamos de umha burguesia nacional catalá, e de um elemento fundamental para o desenvolvimento capitalista no século XIX em Euskal Herria -o ferro-, fijo de ambas naçons centros económicos nom coincidentes com o centro político do Estado.

O projecto identitário espanhol viveu o seu derradeiro grande momento de exaltaçom patriótica na guerra contra a invasom napoleónica. A partir daí, aprofundou numha crise tantas vezes referida e recriada polos seus escritores e intelectuais, com as guerras carlistas, a perda das colónias em 1898, e mesmo a guerra civil no século seguinte, que se bem supujo a vitória do espanholismo mais agressivo e reaccionário, nom conseguiu resolver a problemática da identidade espanhola nem pola via do aniquilamento físico dos sectores negadores dessa identidade.

A demora na instauraçom do Estado burguês e o parelho desenvolvimento das indústrias catalá -têxtil- e basca -ferro- fornecêrom sustento económico a umhas burguesias só parcelarmente incorporadas à invençom de Espanha, um projecto em crise permanente e necessitado para afirmar-se da assimilaçom das outras nacionalidades que inclui no seu espaço territorial. Eis o motivo de nessa mesma altura, no século XIX, começarem a tomar forma os movimentos nacionalistas galego, basco e catalám como projectos nacionalitários alternativos50. Eis o motivo de os três darem grande protagonismo à reivindicaçom lingüística face ao papel da língua castalhana como símbolo imposto dessa unificaçom forçada -e fracassada- que representa Espanha.

É neste quadro histórico que devemos situar a política lingüística desenvolvida polo Estado espanhol desde que começou a configurar-se como projecto monocultural castelhano, ou seja, desde os seus inícios. E é assim que se explicam discursos e atitudes dos seus vultos literários e intelectuais mais significativos, unánimes na condena de qualquer tentativa, por tímida que fosse, de dar trascendência pública ao galego para além do papel folclórico-costumista (51). A própria burla sistematizada em forma de tópico literário da figura galega na literatura castelhana, reforçada já a partir do renascimento "espanhol" do século XVI e sobretodo XVII, responde a essa vontade (52).

Umha ferramenta de primeira ordem na implantaçom da língua oficial nos territórios em que um outro idioma ainda gozava de certa vitalidade, foi o sistema de ensino liberal. Já no Informe de la Junta creada por la Regencia para proponer los medios de proceder al arreglo de los diversos ramos de Instrucción Pública, redigido por Manuel José Quintana em 1813, se afirma que "debe pues ser una doctrina en nuestras escuelas, y unos los métodos de su enseñanza, a que es consiguiente que sea también una lengua en que se enseñe, y que ésta sea la lengua castellana"(53).

Face aos argumentos pedagógicos empregados nas comunidades agredidas por esta política, para defender a inclusom das línguas próprias no ensino, o sistema nom duvidava em recorrer ao mesmo argumento para justificar a substituiçom do latim polo castelhano como língua de cultura, o que levava o discurso oficial referente à língua escola a umha irresolúvel contradiçom interna (54). É este um dos terrenos em que melhor se transparece a tentativa uniformizadora do Estado, ao serviço da construçom de um espaço nacional espanhol, ao tempo que se explica a necessidade de as comunidades afectadas pola mesma se afirmarem com urgência.

Dado que o ensino nom chegava ao conjunto das populaçons rurais, outros mecanismos colaborárom para garantir nom apenas o contacto com a língua oficial, mas -sobretudo nessa altura- para sementar entre os povos periféricos o reconhecimento da sua superioridade funcional e simbólica. O modelo liberal de exército, através da universalizaçom do serviço militar, serviu para este fim ao garantir o contacto com a língua espanhola e reforçar o sentimento de inferioridade de aqueles que nom a falavam. A ele devemos também sem dúvida boa parte do défice de autoestima lingüística ainda hoje generalizado entre o nosso povo.

 


 

NOTAS

 

25.- I. WALLERSTEIN (1999).

26.- I. WALLERSTEIN, (1999, p. 13).

27.- F. LETAMENDIA, (1997, p. 21).

28.- F. LETAMENDIA, (1997, pp. 24-25).

29.- In F. ENGELS, A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Ed. Avante, Lisboa. Desenvolvido posteriormente por V. I. LENINE in O Estado e a Revolução, compilada em Obras Escolhidas, Ed. Avante, Lisboa, 1980. P. 126 e seguintes. Contudo, ENGELS e LENINE referem-se com essa famosa definiçom à organizaçom superadora da velha organizaçom gentílica, entendida como regime da comunidade primitiva, prévia ao surgimento das classes. Nessa acepçom, o Estado é muito anterior ao aparecimento do capitalismo como sistema mundial.

30.- I. WALLERSTEIN (1999, p. 41, 42).

31.- J. M. SÁNCHEZ CARRIÓN "TXEPETX" (1987, p. 219).

32.- Em palavras de LETAMENDIA "A delimitaçom do território do Estado polas fronteiras cobra com o Estado-Naçom um novo significado, sendo defendido pola força. Nom existem no Estado moderno fronteiras naturais, mas políticas. E nasce o conceito de inimigo interior, quando os espaços nacionais se encerram contra aqueles que se tornam em corpos estranhos dentro das suas fronteiras". F. LETAMENDIA (1997, p. 22).

F. RODRÍGUEZ (1991, p. 13) resume o processo de imposiçom do Estado-naçom na etapa que comentamos: "Até o [século] XVIII nom abrange a política assimilacionista mais que muito pequenas camadas da populaçom, que estám directamente vinculadas ao Estado centralizado imposto pola oligarquia do povo assovalhador. É a época em que se consegue a traiçom étnica das camadas dirigentes da etnia assovalhada (média e alta nobreza). A burguesia será assimilada no século XIX, porque o poder político-económico assim o exige, ou melhor, porque de havê-la, é um produto e umha causa do Estado centralizado. Também agora começará umha política estatal consciente destinada a arrasar a língua e os valores culturais das massas da etnia assovalhada".

33.- No caso da Espanha, se contarmos os territórios discontínuos incluídos no seu projecto nacional desde um ano antes da aprovaçom da Constituiçom de 1812, que na actualidade deixárom de pertencer ao Estado espanhol para constituírem Estados próprios, depararemos na surpreendente quantidade de vinte (Paraguai, Argentina, Chile, Peru, Bolívia, Uruguai, Venezuela, Equador, Nicarágua, Honduras, Costa Rica, El Salvador, República Dominicana, Guatemala, México, Cuba, Panamá, Colômbia, Filipinas e Guiné Equatorial). Ainda hoje, outros territórios à margem da continuidade territorial peninsular sob administraçom espanhola som as Canárias, Ceuta, Melilha e as Ilhas Balears, enquanto outros assentamentos territorialmente contínuos som soberanos a respeito do Estado espanhol: Portugal, Andorra e Gibraltar. Talvez estes dados nos ajudem a relativizar o carácter "sagrado", "eterno" ou "intocável" das fronteiras dos Estados-naçom, sobretudo se levarmos em conta que por volta de 78% dos Estados actuais se formárom a partir da independência de um Estado preexistente.

34.- Das quais, algumhas "nom respeitam" as suas fronteiras. Assim, o quéchua fala-se nas suas diversas variedades, além de no próprio Peru, na bolívia, no Chile e na Argentina.

35.- Também o galego tem jogado historicamente o papel glotofágico que comentamos. No Brasil, levado polo imperialismo português, impujo-se progressivamente aos centos de línguas faladas naquele território, extinguindo umha parte, e deixando as restantes em situaçom muito precária. De facto, hoje quase se pode falar de um território monolíngüe em português, levando em conta que, num país habitado por mais de cem milhons de habitantes, a maioria das mais de cento e cinqüenta línguas americanas ainda faladas nom passam de uns poucos centos ou dúzias de falantes. Em poucos anos todo esse património lingüístico pode desaparecer com os seus derradeiros falantes. Em África, os colonizadores portugueses chamavam aos idiomas nativos «línguas de cans», o que dá ideia do respeito que lhes mereciam.

36.- Dados tirados de Carme JUNYENT (1993) e Barbara F. GRIMES (1996-99).

37.- Nom podemos deixar de referir-nos a processos soberanistas como os que durante o século XX independizárom, nuns casos através do uso da violência e noutros por via pacífica, a Islándia da Dinamarca em 1918, a Irlanda da Inglaterra em 1921, a Estónia, Letónia e lituánia da URSS durante a década de oitenta ou a Eslavénia, Croácia, Bósnia, Eslováquia, e Chéquia ao longo da década de noventa, por só citar alguns casos conhecidos. Só na última década do século XX, por volta dos 25 países atingírom a independência no Planeta. Contudo, convém lembrarmos que a soberania nom sempre garante a normalizaçom da língua ameaçada, como mostra o caso irlandês.

38.- ROBINS, R. H. & UHLENBECK, E. M., 1991.

39.- SUÁREZ, J. A. (1983, p. 163).

40.- MORENO CABRERA, J. C. (1990, p. 16)

41.- Outras estimaçons falam da perda de duas línguas por semana como ritmo actual. Em qualquer caso, calcula-se que a metade das línguas vivas som na verdade moribundas, polo que em duas geraçons a maior parte dos idiomas actuais poderám ter desaparecido. O que pode semelhar um exagero visualiza-se aginha que olharmos alguns dados significativos: 52% das línguas actuais som faladas por menos de 10.000 pessoas; 28% falam-nas menos de 1.000 pessoas; um outro 10% de idiomas actuais tenhem menos de 100 utentes. De outra parte, 10 línguas contam com 49% dos falantes nativos do planeta. Dados tirados de B. GRIMES (1996-99). Ainda assim, cumpre lembrarmos que o risco de desaparecimento de línguas nom está necessariamente relacionado com o número de utentes. Há pequenas comunidades lingüísticas de douscentos indivíduos perfeitamente viáveis enquanto nom forem funcionalmente invadidas pola política assimilista de um Estado, e outras em perigo de desapariçom apesar de contarem por milhons os seus falantes, ante a massiva perda de adesons e o enfraquecido espaço simbólico que as sustenta.

42.- L. J. CALVET (1974) fala de três etapas: a primeira de passagem da elite do território ao uso da língua alheia; a segunda, de extensom do conflito e partiçom de sectores da sociedade que aderem à língua invasora (relacionados com o mundo urbano e a suficiência económica) face ao resto; e a terceira, em que culmina o processo de assimilaçom com a extensom a todas as camadas sociais da língua imposta e perda da própria.

43.- X. M. BEIRAS e A. LÓPEZ (1999, p. 40).

44.- A. LÓPEZ CARREIRA (1998, pp. 56-61), cita duas ocasions em que a formaçom social galega "foi capaz de exercer a sua soberania, de actuar com critérios diferentes aos de Castela", apesar de achar-se já imersa no processo a que vimos fazendo referência: Trata-se da Revoluçom Irmandinha, entre 1466 e 1469, em que a nascente burguesia urbana tentou liderar a derrubada do poder feudal; e a própria revolta contra a imposiçom por parte dos Reis Católicos do poder centralizado em Castela (1475-1483). A derrota dos nobres galegos rebeldes supujo o fim da soberania efectiva da Galiza, por mais que formalmente mantivesse o título de Reino durante séculos.

45.- X. M. BEIRAS, (1995, p. 162).

46.- X. M. BEIRAS, (1995, p. 68).

47.- F. LETAMENDIA, (1997, p. 24).

48.- R. L. SUEVOS, (1990, p. 89).

49.- F. LETAMENDIA, (1997, p. 24).

50.- Outros Estados europeus vem surgir projectos de recuperaçom lingüística e nacional, com outras circunstáncias particulares sempre enquadradas no desenvolvimento do capitalismo industrial a que já temos feito referência. Assim acontece na Frísia e na Flandres, por só citarmos dous exemplos pertencentes à área lingüística germánica (na Holanda e na Bélgica, respectivamente). O movimento frisom alça-se contra a imposiçom do neerlandês, enquanto o flamengo o fai ante o assimilismo francófono e procura o apoio holandês mediante umha estratégia reintegracionista finalmente triunfante, que unificou as variedades holandesa e flamenga da língua neerlandesa.

51.- Veja-se a este respeito E. TORRES (1999) e F. RODRÍGUEZ (1988, p. 339 e seguintes).

52.- X. CARAMÊS MARTÍNEZ (1993, pp. 90, 91) pom em relaçom a "nova perspectiva que adquire a língua romance, e que tem que ver com o auge dos nacionalismos na Europa", com a literatura popular como fonte de inspiraçom para a literatura de autor, e com o próprio "nascimento dum espírito nacionalista que em Espanha começara com os RR. CC. e que de contado é assumido por umha grande parte da intelectualidade da época".

53.- Citado por N. DE GABRIEL (1988, p. 44).

54.- O próprio Manuel José Quintana, defensor da imposiçom do castelhano, apela ao argumento pedagógico para deslocar o latim do espaço cultural que ainda ocupava: "La lengua nativa es el instrumento más fácil y más a propósito para comunicar uno sus ideas, para percibir las de los otros, para distinguirlas, determinarlas y compararlas". Citado por N. DE GABRIEL (1988, p. 44)

 

3.- PARA UM DIAGNÓSTICO ACTUALIZADO DA SITUAÇOM SOCIOLINGÜÍSTICA GALEGA

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