A Causa da Derrota
Rosa Luxemburg

O desmoronamento repentino da grande acçom da classe operária belga, para a qual estavam dirigidos os olhares de todo o proletariado internacional, é um duro golpe para o movimento de todos os países. Seria inútil consolar-nos com as frases gerais habituais dizendo que a luita só está adiada, que cedo ou tarde também ganharemos na Bélgica. Para julgar tal ou qual episódio da luita de classes, nom basta considerar a marcha geral da História, que no fim das contas nos beneficia. Esta nom é mais do que a CONDIÇOM objectiva de nossas luitas e vitórias. O que é preciso considerar som os elementos subjectivos, a atitude consciente da classe operária combativa e seus chefes, atitude que aposta para assegurarmos a vitória polo caminho mais rápido. Deste ponto de vista, imediatamente depois da derrota, nossa primeira tarefa é darmos conta o mais claramente possível de suas causas.

I - QUANDO TRIUNFA O OPORTUNISMO

O que surge antes de todo com absoluta clareza quando se passa em revista a interrompida campanha das últimas semanas, é a falta de umha táctica clara e conseqüente dos nossos líderes belgas.
Como primeira medida vemo-los limitar a luita ao marco da cámara. Ainda que desde o começo nom houvera, por assim dizer, nengumha esperança de que a maioria clerical capitularia, a fracçom socialista parecia nom querer proclamar a greve geral. Esta eclodiu pola decisom soberana da massa proletária impaciente. Em 14 de abril podia-se ler no LE PEUPLE de Bruxelas: Dixo-se que o governo está decidido a manter-se até o fim, e também a classe se prepara para todo. E por isso a greve geral acaba de ser proclamada em todo o país, nom polos órgaos políticos do partido, sendo por seus órgaos económicos, nom polos seus deputados, sendo por seus delegados sindicais. É o próprio proletariado organizado que, nom vendo outros meios para vencer, acaba de decidir solenemente interromper o trabalho em todas as partes".
O deputado Demblom, em 18 de abril, fijo a mesma comprovaçom na cámara: "Quem se atreveria a dizer ainda hoje que nada está em estado de agitaçom, sendo os próprios agitadores, frente a fulminante explosom da greve geral, que nós mesmos nom esperávamos?" (veja-se informe parlamentar de LE PEUPLE de 19 de abril).
Ao haver eclodido espontaneamente a greve geral, os chefes socialistas declarárom-se imediatamente solidários das massas e da greve geral, como o supremo meio de luita. A GREVE GERAL ATÉ A VITÓRIA, tal foi a palavra lançada pola fracçom socialista e pola direcçom do partido. Em 15 de abril LE PEUPLE escreve "Desde o fundo de sua alma, os socialistas desejárom nom verem-se levados à greve geral, e o congresso de páscoa do partido, remetendo-se às circunstáncias para determinar o instrumento conveniente de luita, nom decidira nada a respeito... porém somente a greve geral é capaz de nos assegurar definitivamente e apesar de todo a vitória".
LE PEUPLE de 17 de abril diz: "Nom há cansaço nem desánimo na classe operária, juramo-lo no seu nome, luitaremos até a vitória".
LE PEUPLE de 18 de abril afirma: "A greve geral durará tanto tempo quanto necessário para conquistar o sufrágio universal".
No mesmo dia, o conselho geral do partido operário decidiu CONTINUAR A GREVE GERAL, depois que a cámara rechaçara a revisom.
Na manhá de 20 de abril, o órgao central do partido de Bruxelas assegura: "Continuar a greve geral é salvar o sufrágio universal".
E no mesmo dia, a fracçom socialista e a direçom do partido, com umha súbita meia volta, decidírom terminar a greve geral.
As mesmas vacilaçons se manifestárom com respeito a outra palavra de ordem da campanha: A dissoluçom do parlamento. Quando em 15 de abril, os liberais reclamárom à cámara, os socialistas abstivérom-se de intervir e portanto nom votárom tampouco a favor do adiamento do momento decisivo, adiamento desejado pola burguesia.
Postos frente à decisom de terminar a greve geral, nossos camaradas retomam essa palavra de ordem e LE PEUPLE de 20 de abril recomenda aos operários: "Reivindicar por todas as partes e a voz em coro a dissoluçom do parlamento. Inclusive até estes últimos dias se nota um giro sobre o mesmo tema na atitude dos chefes. LE PEUPLE de 20 de abril apresenta A GREVE GERAL como o único meio de impor a dissoluçom da cámara. Porém, nesse mesmo dia , a direcçom do partido decide terminar a greve geral, e desde entom a única via que permite conseguir a dissoluçom do parlamento parece ser a intervençom do rei.
Assim se emaranhárom, se cruzárom e se chocárom mutuamente as diferentes palavras de ordem no transcurso da recente campanha belga: Obstruçom ao Parlamento, Greve Geral, Dissoluçom da Cámara, Intervençom do Rei. Nengumha dessas bandeiras foi prosseguida até o final e por último toda a campanha foi sufocada de um só golpe, sem nengumha razom aparente, e os operários fôrom mandados de volta às suas casas, consternados, com as maos vazias.
Se nom se podia esperar que a maioria parlamentar consentisse em revisar a constituiçom, nom se compreende porque se recorreu à greve geral, com tanta vacilaçom e repugnáncia. Nom se explica porque, de pronto, precisamente quando tomava um bom impulso, foi suspendida quando se reconhecera que era o único meio de luita.
Se a dissoluçom do parlamento e novas eleiçons realmente deixavam prever a derrota dos clericais, é impossível entom a passividade de nossos deputados quando os liberais propugérom dissolver o parlamento, e mais impossível todavia é compreender toda a campanha actual para a revisom da constituiçom, que de todos os modos podia ser conseguida efectivamente nas próximas eleiçons. Porém se é vá a esperança posta em novas eleiçons no desprezível sistema eleitoral actual, é por sua vez incompreensível o entusiasmo actual dos socialistas por esta bandeira.
Todas estas contradiçons parecem insolúveis no entanto se analisa a táctica socialista em si na campanha belga, porém elas se explicam muito simplesmente enquanto se considera o campo socialista em sua uniom com o campo LIBERAL.
Antes de todo forom os liberais quem determinaram o programa dos socialistas na recente luita. Fundamentalmente por desígnio o partido operário tivo que renunciar ao sufrágio feminino para adoptar a representaçom proporcional como cláusula da constituiçom.
Os liberais ditárom aos socialistas os MEIOS da luita, erguendo-se CONTRA a greve geral inclusive antes que eclodisse, impondo-lhes os limites legais quando se desencadeou, lançando primeiro a bandeira da dissoluçom da cámara, apelando ao rei como árbitro supremo e decidindo pôr fim na sua sessom do dia 19, CONTRARIAMENTE a decisom da direcçom do partido de 18 de abril, a culminaçom de greve geral. A tarefa dos chefes socialistas vinha sendo transmitir à classe operária as bandeiras lançadas por seus aliados e fazer a música da agitaçom que correspondia ao texto liberal. Finalmente em 20 de abril, os socialistas pugérom em execuçom a última decisom dos liberais mandando a retirada de suas tropas.
Assim, em toda a campanha, os LIBERAIS aliados com os socialistas aparecem como os verdadeiros CHEFES, os socialistas como seus submetidos executantes e a classe operária como umha massa passiva, arrastada polos socialistas a reboque da burguesia.
A atitude contraditória e tímida dos chefes de nosso partido belga explica-se pola sua posiçom intermediária entre a massa operária, que se lança na luita, e a burguesia liberal que a retém por todos os meios.

II - PARLAMENTARISMO OU ACÇOM DE MASSA

Nom somente o carácter vacilante desta campanha, mas também sua derrota final, explicam-se pola posiçom dirigente dos liberais.
Na luita polo sufrágio universal desde 1886 até o momento actual, a classe operária belga fijo uso da greve de massas como o meio político mais eficaz. Foi a greve de massas a que se deveu, em 1891, a primeira capitulaçom do governo e o parlamento: o começo da revisom da constituiçom. A ela se deveu, em 1893, a segunda capitulaçom do partido dirigente: o sufrágio universal com voto plural.
É evidente que, inclusive desta vez, somente a pressom das massas operárias sobre o parlamento e sobre o governo permitiu arrancar um resultado palpável. Se a defesa dos clericais foi desesperada já no último decénio do século passado, quando nom se tratava mais do que o começo das concessons, a toda vista devia converter-se em umha luita de morte agora que se trata de entregar o resto: a dominaçom parlamentar. Era evidente que os ruidosos discursos na cámara nom podiam conseguir nada. Fazia falta a pressom máxima das massas para vencer a resistência máxima do governo.
Frente a isto, as vacilaçons dos socialistas em proclamar a greve geral, a esperança secreta porém - evidente, ou polo menos o desejo de triunfar no possível, SEM recorrer à greve geral, aparecem desde o começo como o primeiro sintoma do reflexo da política liberal sobre nossos camaradas, desta política que em todas as épocas, sabe-se, crê poder quebrar as muralhas da reaçom com o som das trombetas da grandiloqüência parlamentar.
Nom, obstante, a aplicaçom da greve geral na Bélgica é um problema claramente determinado pola sua repercussom ECONÓMICA directa, a greve actua antes de todo em desfavor da burguesia industrial e comercial, e em umha medida muito reduzida somente em detrimento de seu inimigo verdadeiro, o partido clerical. Na luita actual, a repercussom POLÍTICA da greve de massas sobre os clericais no poder nom pode ser, portanto, mais que um efeito INDIRECTO exercido pola pressom que a burguesia liberal, molestava pola greve geral transmite ao governo clerical e a maioria parlamentar. Além disso a greve geral também exerce umha pressom política DIRECTA sobre os clericais, aparecendo-lhes como o precursor, como a primeira etapa de umha verdadeira revoluçom andarilha em gestaçom, para a Bélgica, a importáncia política das massas operárias em greve residiu sempre, e ainda hoje, no facto de que em caso de rechaço obstinado da maioria parlamentar, estám dispostas e som capazes de vencer o partido no poder por meio de distúrbios, por meio de sublevaçons andarilhas.
A aliança e o compromisso dos nossos camaradas belgas com os liberais privárom a greve geral do seu efeito político em dous pontos.
Impondo de ANTEMAO limites e formas legais à luita, submisso à pressom dos liberais, proibindo toda manifestaçom, todo espírito da massa, dissipavam a força política latente da greve geral. Os clericais nom tinham porque temer umha greve geral que DE TODAS AS MANEIRAS nom queria ser outra cousa que umha greve pacífica. Umha greve geral, acorrentada de ANTEMAO aos grilhons da legalidade, assemelha-se a umha demonstraçom de guerra com canhons cuja carga teria sido previamente arremessada à água, a vista do inimigo. Nem sequer um meninho se assusta de umha ameaça "com os punhos no bolso", assim como o aconselha seriamente LE PEUPLE aos grevistas, e umha classe no poder, luitando até a morte pola sua dominaçom política, assusta-se menos ainda. Precisamente por isso em 1891 e 1893 lhe bastou ao proletariado belga com abandonar tranquilamente o trabalho para romper a resistência dos clericais que podiam temer que a paz se transformaria em distúrbio e a greve em revoluçom. Por isso, inclusive desta vez, a classe operária talvez nom teria necessitado recorrer à violência se os dirigentes nom tivessem descarregado a sua arma de ANTEMAO, se nom tivessem feito da expediçom de guerra umha parada dominical e do tumulto da greve um simples alarme falso.
Porém, em segundo lugar, a aliança com os liberais aniquilou o outro efeito, o efeito directo da greve geral. A pressom da greve sobre a burguesia só tem importáncia política se a burguesia estiver obrigada a transmitir esta pressom a seus superiores políticos, os clericais que governam. Mas esta só se produz se a burguesia se sente subitamente assaltada polo proletariado e se vê incapaz de escapar a este impulso.
Este efeito se perde quando a burguesia se encontra em umha situaçom cómoda que lhe permite deslocar sobre as massas proletárias que leva a reboque, a pressom que padece, antes que a transmita aos governos clericais desembaraçando-se deste modo de um peso difícil como um simples movimento de ombro. A burguesia belga encontrava-se precisamente nesta situaçom no transcurso da última campanha: graças à aliança ela podia determinar os movimentos das colunas operárias e fazer cessar a greve geral em caso de necessidade. Isto é o que ocorreu e enquanto a greve começou a incomodar seriamente à burguesia, esta lançou a ordem de voltar ao trabalho. E aqui terminou a "pressom" da greve geral.
Assim, a derrota final aparece como conseqüência inevitável da táctica de nossos camaradas belgas. A sua acçom parlamentar nom deu resultados porque a pressom da greve geral que apoiava esta acçom nom se apresentou e a greve geral tampouco por ter, atrás dela, nom estava o espectro ameaçador do livre desenvolvimento do movimento popular, o espectro da revoluçom.
Em umha palavra, a acçom extra-parlamentar foi sacrificada à acçom parlamentar, porém, precisamente por causa disto, ambas fôrom condenadas à esterilidade, e toda a luita ao fracasso.

III - O BUROCRATISMO CONTRA A ESPONTANEIDADE

O episódio da luita polo sufrágio universal que acaba de terminar representa umha reviravolta no movimento operário belga. Pola primeira vez na Bélgica o partido socialista entrou na luita ligado ao partido liberal por um compromisso formal, e, do mesmo modo que a fracçom ministerialista do socialismo francês aliado ao radicalismo se encontrou na situaçom de Prometeu Acorrentado. Saberám ou nom libertar-se os nossos camaradas do abraço asfixiante do liberalismo? Da resposta a esta pergunta depende, nom vacilarmos em dizer, o futuro do sufrágio universal na Bélgica e do movimento operário em geral. Porém a experiência recente dos socialistas belgas é preciosa para o proletariado internacional. Nom será novamente sendo um efeito desse sopro fraco e enervante do oportunismo que sopra a alguns anos, e que se manifestou na aliança funesta de nossos amigos belgas com a burguesia liberal.
A decepçom que acabamos de sofrer na Bélgica deve pôr-nos em guarda contra umha política que, de se estender a todos os países conduziria a graves derrotas e finalmente ao relaxamento da disciplina e da confiança ilimitada que as massas operárias tem em nós, os socialistas; destas massas sem as quais nom somos nada e que algum dia poderíamos perder com ilusons parlamentares e experiências oportunistas.

 

 


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