O 18 BRUMÁRIO DE LUIS BONAPARTE. Karl Marx

Capítulo III

A Assembleia Legislativa Nacional reuniu-se a 28 de Maio de 1849. A 2 de Dezembro de 1851 foi dissolvida. Esse período cobre a vida efêmera da república constitucional ou república parlamentar.

Na primeira Revoluçom Francesa o domínio dos constitucionalistas é seguido do domínio dos girondinos e o domínio dos girondinos polo dos jacobinos. Cada um desses partidos apoia-se no mais avançado. Assim que impulsiona a revoluçom o suficiente para se tornar incapaz de levá-la mais além, e muito menos de marchar à sua frente, é posto de lado polo aliado mais audaz que vem atrás e mandado à guilhotina. A revoluçom move-se, assim, ao longo de umha linha ascensional.

Com a Revoluçom de 1848 dá-se o inverso. O partido proletário aparece como um apêndice do partido pequeno-burguês democrático. É traído e abandonado por esse a 16 de abril, a 15 de Maio e nas jornadas de Junho. O partido democrata, por sua vez, apoia-se no partido republicano burguês. Assim que consideram firmada a sua posiçom os republicanos burgueses desvencilham-se do companheiro inoportuno e apoiam-se sobre os ombros do partido da ordem. O partido da ordem ergue os ombros fazendo cair aos trambolhsons os republicanos burgueses e atira-se, por sua vez, nos ombros das forças armadas. Imagina manter-se ainda sobre estes ombros militares, quando, um belo dia, percebe que se transformárom em baionetas. Cada partido ataca par trás aquele que procura empurrá-lo para a frente e apoia pola frente naquele que o empurra para trás. Nom é de admirar que nessa postura ridícula perca o equilíbrio e, feitas as inevitáveis caretas, caia por terra em estranhas cabriolas. A revoluçom move-se, assim, em linha descendente. Encontra-se nesse estado de movimento regressivo antes mesmo de ser derrubada a última barricada de Fevereiro e constituído o primeiro órgao revolucionário.

O período que temos diante de nós abrange a mais heterogênea mistura de contradiçons clamorosas: constitucionalistas que conspiram abertamente contra a constituiçom; revolucionários declaradamente constitucionalistas; umha Assembleia Nacional que quer ser onipotente e permanece sempre parlamentar; umha Montanha que encontra a sua vocaçom na paciência e se consola das suas derrotas actuais com profecias de vitórias futuras; realistas que som patres conscripti [1] da república e que som forçados pola situaçom a manter no estrangeiro as casas reais hostis, de que som partidários, e a manter na França a república que odeiam; um Poder Executivo que encontra a sua força na sua  própria debilidade e a sua respeitabilidade no desprezo que inspira; umha república que nada mais é do que a infámia combinada de duas monarquias, a Restauraçom e a monarquia de Julho, com rótulo imperialista; alianças cuja primeira cláusula é a separaçom; luitas cuja primeira lei é a indecisom; agitaçom desenfreada e desprovida de sentido em nome da tranqüilidade, os mais solenes sermsons sobre a tranqüilidade em nome da revoluçom; paixons sem verdade, verdades sem paixons, heróis sem feitos heróicos, história sem acontecimentos; desenvolvimento cuja única força propulsora parece ser o calendário, fatigante pola constante repetiçom das mesmas tensons e relaxamentos; antagonismos que parecem evoluir periodicamente para um clímax, unicamente para se embotarem e desaparecer sem chegar a resolver-se; esforços pretensiosamente ostentados e terror filisteu ante o perigo de o mundo acabar-se, e ao mesmo tempo as intrigas mais mesquinhas e comédias palacianas representadas polos salvadores do mundo que, no seu laisser aller [2] recordam mais do que o dia do juízo final os tempo da Fronda - o génio coletivo oficial da França reduzido a zero pola estupidez astuciosa de um único indivíduo; a vontade coletiva da naçom, sempre que se manifesta por meio do sufrágio universal, buscando a sua expressom adequada nos inveterados inimigos dos interesses das massas, até que finalmente a encontra na obstinaçom de um flibusteiro. Se existe na história do mundo um período sem Nengumha releváncia, é este. Os homens e os acontecimentos aparecem como Schlemihls invertidos, como sombras que perdêrom os seus corpos. A revoluçom paralisa os seus próprios portadores, e dota apenas os adversários de umha força apaixonada. Quando o "espectro vermelho", continuamente conjurado e exorcizado polos contra-revolucionários, finalmente aparece, nom traz à cabeça o barrete frígio da anarquia, mas enverga o uniforme da ordem, os culotes vermelhos.

Vimos que o ministério nomeado por Bonaparte, no dia da sua ascensom, 20 de Dezembro de 1848, era um ministério do partido da ordem, da coligaçom legimitista e orleanista. Esse ministério Barrot-Falloux sobrevivera à Assembleia Constituinte republicana, cujo termo de vida cortara de um modo mais ou menos violento, e encontrava-se ainda ao leme. Changarnier, o general dos monárquicos coligados, continuou a reunir na sua  pessoa o comando geral da Primeira Divisom do Exército e da Guarda Nacional de Paris. Finalmente, as eleiçons gerais tinham assegurado ao partido da ordem umha ampla maioria na Assembleia Nacional. Os deputados e pares de Luís Filipe defrontáram-se aqui com umha hoste sagrada de legitimistas, para os quais muitos dos votos da naçom tinham-se transformado em cartsons de ingresso para o teatro político. A representaçom bonapartista era por demais escassa para poder formar um partido parlamentar independente. Apareciam apenas como mauvaise queue [3] do partido da ordem. O partido da ordem encontrava-se, assim, de posse do poder governamental, do exército e do Poder Legislativo, em suma, de todo o poder estatal; fora moralmente fortalecido polas eleiçons gerais, que figérom aparecer o seu domínio como sendo a expressom da vontade do povo, e polo simultáneo triunfo da contra-revoluçom em todo o continente europeu.

Nunca um partido iniciou a sua campanha com tantos recursos ou sob auspícios tam favoráveis.

Os republicanos puros naufragados verificárom que estavam reduzidos a um grupo de cerca de 50 homens na Assembleia Legislativa Nacional, chefiados polos generais africanos Cavaignac, Lamoricière e Bedeau. O grande partido da oposiçom, entretanto, era constituído pola Montanha, o partido social-deomocrata adoptara no Parlamento este nome de batismo. Comandava mais de 200 dos 750 votos da Assembleia Nacional e era, por conseguinte, polo menos tam poderoso quanto qualquer das três fraçons partido da ordem tomadas isoladamente. A sua inferioridade numérica em comparaçom com toda a coligaçom monarquista parecia estar compensada por circunstáncias especiais. Nom só as eleiçons departamentais demonstrárom que ele tinha conquistado um número considerável de partidários entre a populaçom rural como contava nas suas fileiras com quase todos os deputados eleitos por Paris; o exército figera profissom de fé democrática elegendo três suboficiais, e o líder da Montanha, Ledru-Rollin, em contraste com todos os representantes do partido da ordem, fora elevado à nobreza parlamentar por cinco departamentos, que tinham concentrado nele a sua votaçom. Em vista dos inevitáveis choques entre os monárquicos e de todo o partido da ordem com Bonaparte, a 28 de Maio de 1849 a Montanha parecia ter diante de si todos os elementos de êxito. Quinze dias depois perdia tudo, inclusive a honra.

Antes de prosseguirmos com a história parlamentar desta época tornam-se necessárias algumhas observaçons a fim de evitar as concepçons erróneas tam comuns a respeito do carácter geral da época que temos diante de nós. Aos olhos dos democratas, o período da Assembleia Legislativa Nacional caracterizava-se polo mesmo problema vivido durante a Assembleia Constituinte: a simples luita entre republicanos e monárquicos. Resumiam, entretanto, o movimento propriamente dito numha só palavra: "reacçom" - noite em que todos os gatos som pardos e que lhes permite desfiar todos os seus lugares-comuns de guarda-noturno. E, certamente, à primeira vista, o partido da ordem revela um emaranhado de diferentes facçons monárquicas, que nom só intrigam umha contra a outra, cada qual tentando elevar ao trono o seu próprio pretendente e excluir o da facçom contrária, como se unem todas no ódio comum e nas investidas comuns contra a "república". Em contraste com essa conspiraçom monarquista, a Montanha, por seu lado, aparece como representante da "república". O partido da ordem parece estar perpetuamente empenhado numha "reacçom", dirigida contra a imprensa, o direito de associaçons e cousas semelhantes, umha reacçom nem mais nem menos como a que sucedeu na Prússia, e que, com na Prússia, é exercida na forma de brutal interferência policial por parte da burocracia, da gendarmaria e dos tribunais. A Montanha, por sua vez, está igualmente ocupada em aparar esses golpes, defendendo assim os "eternos direitos do homem", como todos os partidos supostamente populares vêm fazendo, mais ou menos, há um século e meio. Quando, porém, se examina mais de perto à situaçom e os partidos, desaparece essa aparência superficial que dissimula a luita de classes e a fisionomia peculiar da época.

Os legitimistas e os orleanistas, como dissemos, formavam as duas grandes facçons do partido da ordem. O que ligava estas facçons aos seus pretendentes e as opunha umha à outra seriam apenas as flores-de-lis e a bandeira tricolor, a Casa dos Bourbons e a Casa de Orléans, diferentes matizes do monarquismo? Sob os Bourbons governara a grande propriedade territorial, com os seus padres e lacaios; sob os Orléans, a alta finança, a grande indústria, o alto comércio, ou seja, o capital, com o seu séquito de advogados, professores e oradores melífluos. A monarquia legitimista foi apenas a expressom política do domínio hereditário dos senhores de terra, como a monarquia de Julho fora apenas a expressom política do usurpado domínio dos burgueses arrivistas. O que separava as duas facçons, portanto, nom era Nengumha questom de princípios, eram as suas condiçons materiais de existência, duas diferentes espécies de propriedade, era o velho contraste entre a cidade e o campo, a rivalidade entre o capital e o latifúndio. Que havia, ao mesmo tempo, velhas recordaçons, inimizades pessoais, temores e esperanças, preconceitos e ilusons, simpatias e antipatias, convicçons, questons de fé e de princípio que as mantinham ligadas a umha ou a outra casa real - quem o nega? Sobre as diferentes formas de propriedade, sobre as condiçons sociais, maneiras de pensar e concepçons de vida distintas e peculiarmente constituídas. A classe inteira os cria e os forma sobre a base das suas condiçons materiais e das relaçons sociais correspondentes. O indivíduo isolado, que as adquire através da tradiçom e da educaçom, poderá imaginar que constituem os motivos reais e o ponto de partida da sua conduta. Embora orleanistas e legitimistas, embora cada facçom se esforçasse por convencer-se e convencer os outros de que o que as separava era a sua lealdade às duas casa reais, os actos provárom mais tarde que o que impedia a uniom de ambas era mais a divergência dos seus interesses. E assim como na vida privada se diferencia o que um homem pensa e di de si mesmo do que ele realmente é e fai,nas luitas históricas deve-se distinguir mais ainda as frases e as fantasias dos partidos da sua formaçom real e dos seus interesses reais, o conceito que fam de si do que som na realidade. Orleanistas e legitimistas encontram-se lado a lado na república, com pretensons idênticas. Se cada lado desejava levar a cabo a restauraçom da sua própria casa real, contra a outra, isto significava apenas que cada um dos dous grandes interesses em que se divide a burguesia - o latifúndio e o capital - procurava restaurar a sua própria supremacia e suplantar o outro. Falamos em dous interesses da burguesia porque a grande propriedade territorial, apesar das suas tendências feudais e do seu orgulho de raça, tornou-se completamente burguesa com o desenvolvimento da sociedade moderna. Também os tories na Inglaterra imaginárom por muito tempo entusiasmar-se pola monarquia, a igreja e as maravilhas da velha Constituiçom inglesa,. até que a hora do perigo arrancou-lhes a confissom de que se entusiasmam apenas pola renda territorial.

Os monárquicos coligados intrigavam-se uns contra os outros pola imprensa, em Ems, em Claremont, fora do Parlamento. Atrás dos bastidores envergavam novamente as suas velhas librés orleanistas e legitimistas e novamente se empenhavam nas velhas disputas. Mas diante do público, nas suas grande representaçons de Estado, como grande partido parlamentar, iludem as suas respectivas casas reais com simples mesuras e adiam in infinitum a restauraçom da monarquia. Exercem as suas verdadeiras actividades como partido da ordem, quer dizer, sob um rótulo social, e nom sob um rótulo político; como representantes do regime burguês, e nom como paladinos de princesas errantes; como classe-burguesa contra as outras classes e nom como monárquicos contra republicanos. E como partido da ordem exerciam um poder mais amplo e severo sobre as demais classes da sociedade do que jamais tinham exercido sob a Restauraçom ou sob a monarquia de Julho, um poder que, de maneira geral, só era possível sob a forma de república parlamentar, pois apenas sob esta forma podiam os dous grandes sectores da burguesia francesa unir-se e, assim, pôr na ordem do dia o domínio da sua classe, em vez do regime de umha facçom privilegiada desta classe. Se, nom obstante, como partido da ordem, insultavam também a república e manifestavam a repugnáncia que sentiam por ela, isto nom era devido apenas a recordaçons monárquicas. O instinto ensinava-lhes que a república, é bem verdade, torna completo o seu domínio político, mas ao mesmo tempo solapa as suas fundaçons sociais, umha vez que tenhem agora de se defrontar com as classes subjugadas e luitar com elas sem qualquer mediaçom, sem poderem esconder-se atrás da coroa, sem poderem desviar o interesse da naçom com as luitas secundárias que sustentavam entre si e contra a monarquia. Era um sentimento de fraqueza que os fazia recuar das condiçons puras do domínio da sua própria classe e ansiar polas antigas formas, mais incompletas, menos desenvolvidas e portanto menos perigosas, desse domínio. Por outro lado, cada vez que os monárquicos coligados entram em conflito com o pretendente que se lhes opunha, com Bonaparte, cada vez que julgam a sua omnipotência parlamentar ameaçada polo Poder Executivo, cada vez, portanto, que tenhem que exibir o título político do seu domínio, apresentam-se como republicanos e nom como monárquicos, desde o orleanista Thiers, que adverte a Assembleia Nacional de que a república é o que menos os separa, até o legitimista Berryer que, a 2 de Dezembro de 1851, cingindo umha faixa tricolor, arenga o povo reunido diante da prefeitura do décimo distrito em nome da república. É claro que um eco zombeteiro responde-lhe: Henrique V! Henrique V!

Contra a burguesia coligada fora formada umha coalizom de pequenos burgueses e operários, o chamado partido social democrata. A pequena burguesia percebeu que tinha sido mal recompensada depois das jornada e Junho de 1848, que os seus interesses materiais corriam perigo e que as garantias democráticas que deviam assegurar a efectivaçom desses interesses estavam sendo questionadas pola contra-revoluçom. Em vista disto aliou-se aos operários. Por outro lado, a sua representaçom parlamentar, a Montanha, posta à margem durante a ditadura dos republicanos burgueses, reconquistara na segunda metade do período da Assembleia Constituinte sua popularidade perdida com a luita contra Bonaparte e os ministros monárquicos. Concluíra umha aliança com os dirigentes socialistas. Em Fevereiro de 1849 a reconciliaçom foi comemorada com banquetes. Foi elaborado um programa comum, organizados comitês eleitorais comuns e lançados candidatos comuns. Quebrou-se o aspecto revolucionário das reivindicaçons sociais do proletariado e deu-se a elas umha feiçom democrática; despiu-se a forma puramente política das reivindicaçons democráticas da pequena burguesia e ressaltou-se o seu aspecto socialista. Assim surgiu a social-democracia. A nova Montanha, resultado dessa combinaçom, continha, além de alguns figurantes tirados da classe operária e de alguns socialistas sectários, os mesmos elementos da velha Montanha, mas, mais fortes numericamente. Em verdade, ela se tinha modificado no curso do desenvolvimento, com a classe que representava. O carácter peculiar da social-democracia resume-se no facto de exigir instituiçons democrático-republicanas como meio nom de acabar com dous extremos, capital e trabalho assalariado, mas de enfraquecer o seu antagonismo e transformá-lo em harmonia. Por mais diferentes que sejam as medidas propostas para alcançar esse objectivo, por mais que sejam enfeitadas com concepçons mais ou menos revolucionárias, o conteúdo permanece o mesmo. Esse conteúdo é a transformaçom da sociedade por um processo democrático, porém umha transformaçom dentro dos limites da pequena burguesia. Só que nom se deve formar a concepçom estreita de que a pequena burguesia, por princípio, visa a impor um interesse de classe egoísta. Ela acredita, polo contrário, que as condiçons especiais para a sua emancipaçom som as condiçons gerais sem as quais a sociedade moderna nom pode ser salva nem evitada a luita de classes. Nom se deve imaginar, tampouco, que os representantes democráticos sejam na realidade todos shopkeepers (lojistas) ou defensores entusiastas destes últimos. Segundo a sua formaçom e posiçom individual podem estar tam longe deles como o céu da terra. O que os toma representantes da pequena burguesia é o facto de que a sua mentalidade nom ultrapassa os limites que esta nom ultrapassa na vida, de que som conseqüentemente impelidos, teoricamente, para os mesmos problemas e soluçons para os quais o interesse material e a posiçom social impelem, na prática, a pequena burguesia. Esta é, em geral, a relaçom que existe entre os representantes políticos e literários de umha classe e a classe que representam.

Depois desta análise, é evidente que se a Montanha luitava continuamente contra o partido da ordem em prol da república e dos chamados direitos do homem nem a república nem os direitos do homem constituíam o seu objectivo final, da mesma maneira por que um exército ao qual se quer despojar das suas armas e que resiste nom entrou em luita, com o objectivo de conservar a posse das suas armas.

Logo que se reuniu a Assembleia Nacional, o partido da ordem provocou a Montanha. A burguesia sentia agora a necessidade de acabar com a pequena burguesia democrática, assim como um ano atrás compreendera a necessidade de ajustar contas com o proletariado revolucionário. Apenas, a situaçom do adversário era diferente. A força do partido proletário estava nas ruas, ao passo que a da pequena burguesia estava na própria Assembleia Nacional. Tratava-se, pois de atraí-los para fora da Assembleia Nacional, para as ruas, e fazer com que eles mesmos destroçassem a sua força parlamentar antes que o tempo e as circunstáncias pudessem consolidá-la. A Montanha precipitou-se de corpo e alma na armadilha.

O bombardeio de Roma polas tropas francesas foi a isca que lhe atirárom. Violava o artigo 5 da Constituiçom, que proibia qualquer declaraçom de guerra por parte do Poder Executivo sem o assentimento da Assembleia Nacional, e em resoluçom de 8 de Maio a Assembleia Constituinte expressara a sua desaprovaçom à expediçom romana. Baseado nisso, a 11 de Junho de 1849 Ledru-Rollin apresentou um projecto de impeachment contra Bonaparte e os seus ministros. Exasperado polas alfinetadas de Thiers, deixou-se na realidade arrastar ao ponto de ameaçar defender a Constituiçom por todos os meios, inclusive de armas na mao. A Montanha levantou-se como um só homem e repetiu esse apelo às armas. A 12 de Junho a Assembleia Nacional rejeitou o projecto de impeachment e a Montanha deixou o Parlamento. Os acontecimentos de 13 de Junho som conhecidos: a proclamaçom lançada por umha ala da Montanha declarando Bonaparte e os seus ministros "fora da Constituiçom!"; a passeata da Guarda Nacional democrática que, desarmada como estava, dispersou-se ao defrontar as tropas de Changarnier etc. etc. Umha parte da Montanha fugiu para o estrangeiro; outra parte foi citada polo Supremo Tribunal de Bourges, e umha resoluçom parlamentar submeteu os restantes à vigiláncia de bedel do presidente da Assembleia Nacional. O estado de sítio foi novamente declarado em Paris e a ala democrática da Guarda Nacional dissolvida. Quebrou-se, assim, a influência da Montanha no Parlamento e a força da pequena burguesia em Paris.

Lyon, onde o 13 de Junho dera a senha para umha sangrenta insurreiçom operária foi, juntamente com os cinco departamentos adjacentes, declarada igualmente sob estado de sítio, situaçom que perdura até o presente momento.

A maior parte da Montanha abandonara a sua vanguarda na hora difícil, recusando-se a assinar a proclamaçom. A imprensa desertara, apenas dous jornais ousando publicar o pronunciamento. A pequena burguesia traiu os seus representantes, polo facto de a Guarda Nacional ou nom aparecer ou, onde apareceu, impedir o levantamento de barricadas. Os representantes, por sua vez, ludibriárom a pequena burguesia, polo facto de que os seus pretensos aliados do exército nom aparecêrom em lugar nengum. Finalmente, em vez de ganhar forças com o apoio do proletariado, o partido democrático infetara o proletariado com a sua própria fraqueza e, como costuma acontecer com os grandes feitos dos democratas, os dirigentes tivérom a satisfaçom de poder acusar o "povo" de deserçom, e o povo a satisfaçom de poder acusar os seus dirigentes de o terem iludido.

Raramente fora umha acçom anunciada tam estrepitosamente como a iminente campanha da Montanha, raramente um acontecimento fora alardeado com tanta segurança ou com tanta antecedência como a vitória inevitável da democracia. É mais do que certo que os democratas acreditam nas trombetas diante de cujos toques ruíram as muralhas de Jericó. E sempre que enfrentam as muralhas do despotismo procuram imitar o milagre. Se a Montanha queria vencer no Parlamento, nom devia ter apelado para as armas. Se apelou para as armas no Parlamento, nom devia ter-se comportado nas ruas de maneira parlamentar. Se a demonstraçom pacífica tinha um carácter sério, entom era loucura nom prever que teria umha recepçom belicosa. Se se pretendia realizar umha luita efectiva, entom era umha ideia esquisita depor as armas com que teria que ser conduzida esta luita. Mas as ameaças revolucionárias da pequena burguesia e dos seus representantes democráticos nom passam de tentativas de intimidar o adversário. E quando se vêem num beco sem saída, quando se comprometêrom o suficiente para tornar necessário levar a cabo as suas ameaças, fazem-no entom de maneira ambígua, que evita principalmente os meios de alcançar o objectivo, e tenta encontrar pretextos para sucumbir. A estrepitosa abertura que anunciou a contenda perde-se num murmúrio pusilánime assim que a luita tem que começar; os atores deixam de se levar a sério e a peça murcha lamentavelmente, como um balom furado.

Nengum partido exagera mais os meios de que dispom, nengum se ilude com tanta leviandade sobre a situaçom como o partido democrático. Como umha ala do exército votara no seu favor, a Montanha estava agora convencida de que o exército se levantaria ao seu lado. E em que situaçom? numha situaçom que, do ponto de vista das tropas, nom tinha outro significado senom o de que os revolucionários tinham-se colocado ao lado dos soldados romanos, contra os soldados franceses. Por outro lado, as recordaçons de Junho de 1848 ainda estavam muito frescas para provocar outra cousa que nom fosse a profunda aversom do proletariado à Guarda Nacional e a completa desconfiança dos chefes das sociedades secretas em relaçom aos dirigentes democráticos. Para superar essas diferenças era necessário que grandes interesses comuns estivessem em jogo. A violaçom de um parágrafo abstrato da Constituiçom nom poderia criar esses interesses. Nom fora a Constituiçom violada repetidas vezes, segundo afirmavam os próprios democratas? nom tinham os periódicos mais populares estigmatizado essa Constituiçom como sendo obra desconchavada de contra-revolucionários? Mas o democrata, por representar a pequena burguesia, ou seja, umha classe de transiçom na qual os interesses de duas classes perdem simultaneamente as suas arestas, imagina estar acima dos antagonismos de classes em geral. Os democratas admitem que se defrontam com umha classe privilegiada mas eles, com todo o resto da naçom, constituem o povo. O que eles representam é o direito do povo; o que interessa a eles é o interesse do povo. Por isso, quando um conflito está iminente, nom precisam analisar os interesses e as posiçons das diferentes classes. Nom precisam pesar os seus próprios recursos de maneira demasiado crítica. Tem apenas que dar o sinal e o povo, com todos os seus inexauríveis recursos, cairá sobre os opressores. Mas se na prática os seus interesses mostram-se sem interesse e a sua potência, impotência, entom ou a culpa cabe aos sofistas perniciosos, que dividem o povo indivisível em diferentes campos hostis, ou o exército estava por demais embrutecido e cego para compreender que os puros objectivos da democracia som o que há de melhor para ele, ou tudo fracassou devido a um detalhe na execuçom, ou entom um imprevisto estragou desta vez a partida. Haja o que houver, o democrata sai da derrota mais humilhante, tam imaculado como era inocente quando entrou na questam, com a convicçom recém-adquirida de que terá forçosamente que vencer, nom porque ele e o seu partido deverám abandonar o antigo ponto de vista, mas, polo contrário, porque as condiçons tem que amadurecer para se porem de acordo com ele.

Nom se deve imaginar, por conseguinte, que a Montanha, dizimada e destroçada como estava, e humilhada polo novo regulamento parlamentar, estivesse especialmente desconsolada. Se o 13 de Junho removera os seus dirigentes, tinha, por outro lado, aberto vaga para homens de menor envergadura, que se sentiam desvanecidos com esta nova posiçom. Se a sua impotência no Parlamento já nom deixava lugar a dúvida, tinham agora o direito de limitar as suas actividades a rasgos de indignaçom moral e ruidosa oratória. Se o partido da ordem simulava ver encarnados neles os últimos representantes oficiais da revoluçom e todos os horrores da anarquia, podiam mostrar-se na realidade ainda mais insípidos e modestos. Consolárom-se, entretanto, polo 13 de Junho, com esta sentença profunda: Mas se ousarem investir contra o sufrágio universal, bem, entom lhes mostraremos de que somos capazes! Nous verrons! [4]

Quanto aos montagnards [5] que tinham fugido para o estrangeiro, basta observar aqui que Ledru-Rollin, em vista de ter conseguido arruinar irremediavelmente, em menos de 15 dias, o poderoso partido que chefiava - via-se agora chamado a formar um governo francês in partibus, que à medida que caía o nível da revoluçom e os maiorais oficiais da França oficial diminuíam de tamanho, a sua figura à distáncia, fora do campo de acçom, parecia crescer em estatura; que podia figurar como pretendente republicano para 1852, e que dirigia circulares periódicas aos valáquios e a outros povos, nas quais os déspotas do continente eram ameaçados com as façanhas dele e dos seus confederados. Estaria Proudhon inteiramente errado quando gritou a esses senhores: Vous n 'étes que des blagueurs? [6]

A 13 de Junho o partido da ordem nom tinha apenas destroçado a Montanha: tinha efetuado a subordinaçom da Constituiçom às decisons majoritárias da Assembleia Nacional. E compreendia a república da seguinte maneira: que a burguesia governa aqui sob formas parlamentares, sem encontrar, como na monarquia, quaisquer barreiras tais como o veto do Poder Executivo ou o direito de dissolver o Parlamento. Esta era umha república parlamentar, como a cognominou Thiers. Mas se a burguesia assegurou a 13 de Junho a sua omnipotência dentro do Parlamento, nom tornara ao mesmo tempo o próprio Parlamento irremediavelmente fraco diante do Poder Executivo e do povo, expulsando a bancada mais popular? Entregando numerosos deputados, sem maiores formalidades, por intimaçom dos tribunais, ela aboliu as suas próprias imunidades parlamentares. O regulamento humilhante a que submeteu a Montanha exaltava o presidente da República na mesma medida em que degradava os representantes do povo. Denunciando umha insurreiçom em defesa da carta constitucional como um acto de anarquia visando à subversom do regime, vedou a si própria a possibilidade de recorrer à insurreiçom no caso de o Poder Executivo violar contra ela a Constituiçom. E, por ironia da história, o general que por ordem de Bonaparte bombardeou Roma e forneceu, assim, o motivo imediato da revolta constitucional de 13 de Junho, aquele mesmo Oudinot, seria o homem que o partido da ordem, suplicante e inutilmente, apresentaria ao povo a 2 de Dezembro de 1851 como o general que defendia a Constituiçom contra Bonaparte. Outro herói do 13 de Junho, Vieyra, que fora elogiado da tribuna da Assembleia Nacional polas brutalidades que cometera nas redaçons de jornais democráticos à frente de um bando da Guarda Nacional pertencente aos altos círculos financeiros - este mesmo Vieyra fora iniciado na conspiraçom de Bonaparte e contribuiu essencialmente para privar a Assembleia Nacional, na hora da sua morte, de qualquer proteçom por parte da Guarda Nacional.

O 13 de Junho tem ainda outro significado. A Montanha quigera forçar o impeachment de Bonaparte. A sua derrota foi, portanto, umha vitória directa de Bonaparte, o seu triunfo pessoal sobre os seus inimigos democratas. O partido da ordem conquistou a vitória; Bonaparte tinha apenas que embolsá-la. Foi o que fez. A 14 de Junho podia ler-se nos muros de Paris umha proclamaçom em que o presidente, relutantemente, como que a contrAgosto, compelido pola simples força dos acontecimentos, emerge do seu isolamento claustral e, afetando virtude ofendida, queixa-se das calúnias dos seus adversários e, embora pareça identificar a sua pessoa com a causa da ordem, antes identifica a causa da ordem com a sua pessoa. Além disso, a Assembleia Nacional tinha, é bem verdade, aprovado subseqüentemente a expediçom contra Roma, mas Bonaparte assumira a iniciativa da questam. Depois de reinstalar o pontífice Samuel no Vaticano, podia esperar entrar nas Tulherias como novo rei David. Conquistara o apoio dos padres.

A revolta de 13 de Junho limitou-se, como vimos, a umha passeata pacífica. Lauréis guerreiros nom podiam, portanto, ser conquistados na sua  repressom. Contudo, numha época dessas, tam pobre de heróis e acontecimentos, o partido da ordem transformou esta batalha incruenta numha segunda Austerlitz. Da tribuna e na imprensa elogiava-se o exército como o poder da ordem, em contraste com as massas populares, que representavam a impotência da anarquia, e se exalava Changarnier como o "baluarte da sociedade", ilusom em que ele próprio veio finalmente a acreditar. Subrepticiamente, porém, os corpos de tropa que pareciam duvidosos foram transferidos de Paris, os regimentos em que as eleiçons tinham produzido os resultados mais democráticos foram banidos da França para a Argélia, os espíritos turbulentos existentes entre as tropas foram relegados a destacamentos penais e, por fim, o isolamento entre a imprensa e o quartel e entre o quartel e a sociedade burguesa foi efetuado de maneira sistemática.

Chegamos aqui ao ponto decisivo da história da Guarda Nacional francesa. Em 1830 ela tivera acçom decisiva na queda da Restauraçom. Sob Luís Filipe abortárom todas as rebelisons nas quais a Guarda Nacional colocou-se ao lado das tropas. Quando nas jornadas de Fevereiro de 1848 ela mantivo umha atitude passiva diante da insurreiçom e urna atitude equívoca para com Luís Filipe, este considerou-se perdido e, efectivamente, estava perdido. Arraigou-se assim a convicçom de que a revoluçom nom poderia triunfar sem a Guarda Nacional nem o exército vencer contra ela. Era a superstiçom do exército sobre a omnipotência burguesa. As jornadas de Junho de 1848, quando toda a Guarda Nacional, juntamente com as tropas de linha, sufocou a insurreiçom, tinham reforçado essa superstiçom. Depois que Bonaparte assumiu o poder, a posiçom da Guarda Nacional foi, de certo modo, enfraquecida pola uniom inconstitucional, na pessoa de Changarnier, do comando das suas forças com o comando da Primeira Divisom do Exército.

Assim como o comando da Guarda Nacional aparecia aqui como atributo do comandante-geral do exército, a própria Guarda Nacional parecia ser um mero apêndice das tropas de linha. Finalmente, a 13 de Junho o seu poder foi quebrado, e nom só pola sua dissoluçom parcial, que daí por diante repetiu-se periodicamente por toda a França, até que dela restárom apenas meros fragmentos. A manifestaçom de 13 de Junho fora, sobretudo, umha manifestaçom da Guarda Nacional democrática. Nom tinham, .é verdade, empunhado armas contra o exército, e sim envergado apenas a sua farda; precisamente nessa farda, porém, estava o talismám. O exército convenceu-se de que esse uniforme era um pedaço de lá como qualquer outro. Quebrou-se o encanto. Nas jornadas de Junho de 1848 a burguesia e a pequena burguesia, na qualidade de Guarda Nacional, se tinham unido ao exército contra o proletariado; a 13 de Junho de 1849 a burguesia fijo dispersar a Guarda Nacional pequeno-burguesa polo exército; a 2 de Dezembro de 1851 desapareceu a própria Guarda Nacional burguesa e Bonaparte limitou-se a registrar esse facto quando subseqüentemente assinou o decreto da sua dissoluçom. A burguesia destruiu assim a sua derradeira arma contra o exército, mas tivo de fazê-lo num momento no qual a pequena burguesia nom mais a seguia como vassalo e sim levantava-se diante dela como rebelde, como de maneira geral teria forçosamente que destruir com as suas próprias maos todos os seus meios defesa contra o absolutismo, tam logo se tornasse ela própria absolutista.

Enquanto isso, o partido da ordem celebrava a reconquista do poder que parecia ter-lhe escapado em 1848, apenas para voltar em 1849 sem limite algum, e celebrava-a por meio de invectivas contra a república e a Constituiçom, com maldiçons contra todas as revoluçons presentes, passadas e futuras, inclusive as organizadas polo seu próprio dirigente e por meio de leis que amordaçavam a imprensa, destruíam o direito de associaçom e faziam do estado de sítio umha instituiçom regular, orgánica. A Assembleia Nacional suspendeu entom os seus trabalhos desde meados de Agosto até meados de outubro, depois de ter designado umha comissom permanente para representá-la durante o período de recesso. Durante esse recesso, os legitimistas conspirárom em Ems, os orleanistas em Claremont, Bonaparte por meio de excursons principescas, e os Conselhos Departamentais nas deliberaçons sobre a revisom da Constituiçom - incidentes que geralmente ocorrem nos períodos de recesso da Assembleia Nacional e que só comentarei quando constituírem acontecimentos. Basta acrescentar aqui que a Assembleia Nacional agiu impoliticamente desaparecendo de cena durante longos intervalos e deixando que aparecesse à frente da república umha única e mesmo assim triste figura, a de Luís Bonaparte, enquanto para escándalo do público o partido da ordem fragmentava-se nos seus componentes monárquicos e entregava-se às suas divergências internas sobre a Restauraçom monárquica. Tantas vezes emudecia durante esses recessos o barulho confuso do Parlamento e os seus membros dissolviam-se pola naçom, quantas se tornava indubitavelmente claro que só faltava umha cousa para completar o verdadeiro carácter dessa república: tornar permanente o recesso e substituir a Liberté, Égalité, Fraternité, polas palavras inequívocas: Infantaria, Cavalaria, Artilharia!

 

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O 18 BRUMÁRIO DE LUIS BONAPARTE. Karl Marx

 

Capítulo IV

 

Em meados de outubro de 1849 a Assembleia Nacional reuniu-se umha vez mais. A lo. de novembro Bonaparte surpreendeu-a com umha mensagem em que anunciava a demissom do ministério Barrot-Falloux e a formaçom de um novo ministério. Jamais alguém demitiu lacaios com tanta sem-cerimónia como Bonaparte aos seus ministros. Os pontapés destinados à Assembleia Nacional fôrom, no momento, dados em Barrot e companhia.

O ministério Barrot, como vimos, fora composto de legitimistas e orleanistas, um ministério do partido da ordem. Bonaparte necessitava dele para dissolver a Assembleia Constituinte republicana, para levar a cabo a expediçom contra Roma e para destroçar o partido democrático. Eclipsara-se aparentemente detrás desse ministério, entregara o poder governamental nas maos do partido da ordem e assumira o modesto disfarce que o editor-responsável de um jornal usara sob Luís Filipe, a máscara de homme de paille [7] . Agora arremessava fora essa máscara que nom constituía mais o véu diáfano atrás do qual podia esconder a sua fisionomia, e sim umha máscara de ferro que o impedia de exibir umha fisionomia própria. Nomeara o ministério Barrot com o objectivo de quebrar a Assembleia Nacional em nome do partido da ordem; destituiu-o a fim de declarar-se independente da Assembleia Nacional do partido da ordem.

Nom faltavam pretextos plausíveis para essa destituiçom. O ministério Barrot descuidava-se inclusive do decoro que teria permitido com que o presidente da República aparecesse como um poder ao lado da Assembleia Nacional. Durante o recesso da Assembleia Nacional, Bonaparte publicou umha carta dirigida a Edgar Ney na qual parecia desaprovar a atitude liberal do Papa, da mesma forma que, quando se opugera à Assembleia Constituinte, publicara umha carta na qual elogiava Oudinot polo ataque contra a república romana. Quando a Assembleia Nacional votou os créditos para a expediçom romana, Victor Hugo, por um pretenso liberalismo, levantou a questom da carta. O partido da ordem sufocou com clamores despicientemente incrédulos a ideia de que os caprichos de Bonaparte pudessem ter qualquer importáncia política. Nengum dos ministros levantou a luva em favor dele. Em outra ocasiom, Barrot, com a sua conhecida retórica oca, deixou escapar da tribuna palavras de indignaçom sobre as "abomináveis intrigas" que, segundo afirmava, se teciam nos círculos mais chegados ao presidente. Finalmente, embora o ministério tivesse obtido da Assembleia Nacional umha pensom de viuvez para a duquesa de Orléans, rejeitava toda e qualquer proposta que visasse a aumentar a Lista Civil do presidente. E em Bonaparte o pretendente imperial estava tam intimamente ligado com o aventureiro em maré de pouca sorte que a sua grande ideia, a de que era chamado a restaurar o império, era sempre suplementada pola outra, de que o povo francês tinha a missom de pagar as suas dívidas.

O ministério Barrot-Falloux foi o primeiro e último ministério parlamentar criado por Bonaparte. A sua destituiçom assinala, por conseguinte, umha reviravolta decisiva. O partido da ordem perdeu assim, para nunca mais reconquistar, umha posiçom indispensável para a manutençom do regime parlamentar, a alavanca do Poder Executivo. Torna-se imediatamente óbvio que num país como a França, onde o Poder Executivo controla um exército de funcionários que conta mais de meio milhom de indivíduos e portanto mantém umha imensa massa de interesses e de existências na mais absoluita dependência; onde o Estado enfeixa, controla, regula, superintende e mantém sob tutela a sociedade civil, desde as suas mais amplas manifestaçons de vida até as suas vibraçons mais insignificantes, desde as suas formas mais gerais de comportamento até a vida privada dos indivíduos; onde através da mais extraordinária centralizaçom, esse corpo de parasitas adquire umha ubiqüidade, umha onisciência, umha capacidade de acelerada mobilidade e umha elasticidade que só encontra paralelo na dependência desamparada, no carácter caoticamente informe do próprio coro social - compreende-se que em semelhante país a Assembleia Nacional perde toda a influência real quando perde o controlo das pastas ministeriais, se nom simplifica ao mesmo tempo a administraçom do Estado, reduz o corpo de oficiais do exército ao mínimo possível e, finalmente, deixa a sociedade civil e a opiniom pública criarem órgaos próprios, independentes do poder governamental. Mas é precisamente com a manutençom dessa dispendiosa máquina estatal nas suas numerosas ramificaçons que os interesses materiais da burguesia francesa estam entrelaçados da maneira mais íntima. Aqui encontra postos para a sua populaçom excedente e compensa sob forma de vencimentos o que nom pode embolsar sob a forma de lucros, juros, rendas honorários. Por outro lado, os seus interesses políticos forçavam-na a aumentar diariamente as medidas de repressom e, portanto, os recursos e o pessoal do poder estatal, enquanto tinha ao mesmo tempo que empenhar-se numha guerra ininterrupta contra a opiniom pública e receosamente mutilar e paralisar os órgaos independentes do movimento social, onde nom conseguia amputá-los completamente. A burguesia francesa viu-se assim competida pola sua posiçom de classe a aniquilar, por um lado, as condiçons vitais de todo o poder parlamentar e portanto inclusive o seu próprio, e, por outro lado, a tornar irresistível o Poder Executivo que lhe era hostil.

O novo ministério chamava-se ministério d'Hautpoul. Nom no sentido de que o general d'Hautpoul tivesse recebido o cargo de primeiro-ministro. Simultaneamente com a destituiçom de Barrot, Bonaparte abolira essa dignidade que, é bem verdade, condenava o presidente da República à situaçom de nulidade legal de um monarca constitucional, p0rém um monarca constitucional sem trono nem coroa, sem cetro nem espada, sem direito à irresponsabilidade, sem a posse imprescritível da mais alta dignidade do Estado e, pior que tudo, sem Lista Civil. O ministério d'Hautpoul possuía apenas um homem de projeçom parlamentar, o agiota Fould, um dos elementos mais notórios da alta finança. Coube-lhe a pasta da Fazenda. Consultando-se as cotaçons da Bolsa de Paris verifica-se que de 1º de Novembro de 1848 em diante os fonds [8] do governo francês sobem e descem com a subida ou a queda dasacçons bonapartistas. Enquanto Bonaparte encontrara assim o seu aliado na Bolsa, chamou a si ao mesmo tempo o controlo da polícia, nomeando Carlier Chefe de Polícia de Paris.

Só no curso dos acontecimentos, porém, poderiam revelar-se as conseqüências da substituiçom de ministros. Em primeiro lugar, Bonaparte dera um passo à frente apenas para ser empurrado novamente para trás de maneira ainda mais conspícua. A sua mensagem brusca foi seguida da mais servil declaraçom de fidelidade à Assembleia Nacional. Sempre que os ministros ousavam fazer umha tentativa tímida de introduzir os seus caprichos pessoais como propostas legislativas, eles mesmos pareciam realizar, só a contrAgosto e compelidos polo cargo, dèmarches cómicas de cuja improficiência estavam de antemao convencidos. Sempre que Bonaparte declarava intempestivamente as suas intençons às escondidas dos ministros e entretinha-se com as suas idées napoléoniennes [9] os seus próprios ministros desautorizavam-no da tribuna da Assembleia Nacional. Os seus anseios de usurpaçom pareciam fazer-se ouvir apenas para que nom silenciassem os risos malévolos de seus adversários. Comportava-se como um génio incompreendido, a quem o mundo inteiro toma por um idiota. Nunca desfrutou o desprezo de todas as classes de maneira mais completa do que durante esse período. Nunca a burguesia governou de maneira mais absoluta, nunca exibiu com maior ostentaçom as insígnias do seu poder.

Nom preciso entrar aqui na história da sua actividade legislativa, que se resume, neste período, em duas leis: a lei restabelecendo o imposto sobre o vinho e a lei do ensino abolindo a irreligiosidade. Se o consumo do vinho foi dificultado aos franceses, em compensaçom era-lhes servido em abundáncia o licor da eternidade. Se na lei do imposto do vinho a burguesia declarava inviolável o velho e odioso sistema tributário francês, procurava através da lei do ensino assegurar entre as massas o velho estado de espírito conformista. É espantoso ver os orleanistas, os burgueses liberais, esses velhos apóstolos do voltairianismo e da filosofia eclética, confiarem aos seus inimigos tradicionais, os jesuítas, a supervisom do espírito francês. Por mais que divergissem os orleanistas e legitimistas a respeito dos pretendentes ao trono, compreendiam que para assegurar o seu domínio unificado era necessário unificar os meios de repressom de duas épocas, que os meios de subjugaçom da monarquia de Julho tinham que ser complementados e reforçados com os meios de subjugaçom da Restauraçom.

Os camponeses, desapontados em todas as suas esperanças, esmagados mais do que nunca, de um lado polo baixo nível dos preços do grao e de outro polo aumento dos impostos e das dívidas hipotecárias, começárom a agitar-se nos Departamentos. A resposta foi urna investida contra os mestres-escolas, que foram submetidos ao clero, umha investida contra os maíres [10] , que foram submetidos aos alcaides, e um sistema de espionagem, ao qual todos estavam sujeitos. Em Paris e nas grandes cidades a própria reacçom reflete o carácter da época, e provoca mais do que reprime.

No campo torna-se monótona, vulgar, mesquinha, cansativa e vexatória - em suma, o gendarme. Compreende-se como três anos de regime de gendarme, consagrado polo regime da Igreja, tinham forçosamente que enfraquecer a massa imatura.

Por maior que fosse o entusiasmo e a eloqüência empregada polo partido da ordem contra a minoria, do alto da tribuna da Assembleia Nacional, os seus discursos permaneciam monossilábicos como os dos cristams, cujas palavras devem se limitar a sim; sim, nom, nom! Tam monossilábicos na tribuna como na imprensa. Insípidos como umha charada cuja soluçom já é conhecida. Quer se tratasse do direito de petiçom ou do imposto sobre o vinho, da liberdade de imprensa ou da liberdade de comércio, de clubes ou da carta municipal, da proteçom da liberdade individual ou da regulamentaçom do orçamento do Estado, a senha se repete constantemente, o tema permanece sempre o mesmo, o veredito está sempre pronto e reza invariavelmente: socialismo. Até o liberalismo burguês é declarado socialista, o desenvolvimento cultural da burguesia é socialista, a reforma financeira burguesa é socialista. Era socialismo construir urna ferrovia onde já existisse um canal, e era socialismo defender-se com um porrete quando se era atacado com um florete.

Isto nom era mera figura de retórica, questom de moda ou tática partidária. A burguesia tinha urna noçom exacta do facto de que todas as armas que forjara contra o feudalismo voltavam o seu gume contra ela, que todos os meios de cultura que criara rebelavam-se contra a sua própria civilizaçom, que todos os deuses que inventara a tinham abandonado. Compreendia que todas as chamadas liberdades burguesas e órgaos e progresso atacavam e ameaçavam o seu domínio de classe, e tinham, portanto, se convertido em "socialistas". Nessa ameaça e nesse ataque ela discernia com acerto o segredo do socialismo, cujo sentido e tendência avaliava com maior precisom do que o próprio pretenso socialismo; este nom pode compreender por que a burguesia endurece cruelmente o seu coraçom contra ele, se ele lamenta com sentimentalismo os sofrimentos da humanidade, ou se profetiza com espírito cristam a era milenar e a fraternidade universal, ou se em estilo humanista palreia sobre o espírito, a cultura e a liberdade, ou se à moda doutrinária excogita de um sistema para a conciliaçom e bem-estar de todas as classes. O que a burguesia nom alcançou, porém, foi a conclusom lógica de que o seu próprio regime parlamentar, o seu poder político de maneira geral, estava agora também a enfrentar o veredito condenatório geral de socialismo. Enquanto o domínio da classe burguesa nom se tivesse organizado completamente, enquanto nom tivesse adquirido a sua pura expressom política, o antagonismo das outras classes nom podia, igualmente, mostrar-se na sua  forma pura, e onde aparecia nom podia assumir o aspecto perigoso que converte toda luita contra o poder do Estado numha luita contra o capital. Se em cada vibraçom de vida na sociedade, ela via a "tranqüilidade" ameaçada, como podia aspirar a manter à frente da sociedade um regime de desassossego, o seu próprio regime, o regime parlamentar, esse regime que, segundo a expressom de um dos seus porta-vozes, vive em luita e pola luita? O regime parlamentar vive do debate; como pode proibir os debates? Cada interesse, cada instituiçom social, é transformado aqui em ideias gerais, debatido como ideias; como pode qualquer interesse, qualquer instituiçom, afirmar-se acima do pensamento e impor-se como artigo de fé? A luita dos oradores na tribuna evoca a luita dos escribas na imprensa; o clube de debates do Parlamento é necessariamente suplementado polos clubes de debates dos salsons e das tabernas; os representantes, que apelam constantemente para a opiniom pública, dam à opiniom pública o direito de expressar a sua verdadeira opiniom nas petiçons. O regime parlamentar deixa tudo à decisom das maiorias; como entom as grandes maiorias fora do Parlamento nom ham de querer decidir? Quando se toca música nas altas esferas do Estado, que se pode esperar dos que estam embaixo, senom que dancem?

Assim, denunciando agora como "socialista" tudo o que anteriormente exaltara como "liberal", a burguesia reconhece que o seu próprio interesse lhe ordena subtrair-se aos perigos do self-government [11] ; que, a fim de restaurar a calma no país, é preciso antes de tudo restabelecer a calma no seu Parlamento burguês; que a fim de preservar intacto o seu poder social, o seu poder político deve ser destroçado; que o burguês particular só pode continuar a explorar as outras classes e a desfrutar pacatamente a propriedade, a família, a religiom e a ordem sob a condiçom de que a sua classe seja condenada, juntamente com as outras, à mesma nulidade política; que, a fim de salvar a sua bolsa, deve abrir mao da coroa, e que a espada que a deve salvaguardar é fatalmente também umha espada de Dámocles suspensa sobre a sua cabeça.

No campo dos interesses gerais da burguesia a Assembleia Nacional mostrava-se tam improdutiva que, por exemplo, os debates sobre a estrada de ferro Paris-Avignon, que começárom no inverno de 1850, nom tinham sido concluídos ainda a 2 de Dezembro de 1851. Onde nom reprimia ou exercia umha actuaçom reaccionária, estava atacada de incurável esterilidade.

Enquanto o ministério assumia em parte a iniciativa de formular leis dentro do espírito do partido da ordem, e em parte superava mesmo a violência daquele partido na execuçom e fiscalizaçom das mesmas, o próprio Bonaparte, por outro lado, através de propostas tolas e infantis, tentava ganhar popularidade, ressaltar a sua oposiçom à Assembleia Nacional, e aludir a reservas secretas que estavam apenas temporariamente impedidas pola situaçom de porem os seus tesouros ocultos à disposiçom do povo francês. Para isso, opujo que se decretasse um aumento de quatro sous [12] por dia no soldo dos suboficiais; para isso, propujo a criaçom de um banco para conceder créditos de honra aos operários. Dinheiro como dádiva e dinheiro como empréstimo, era com perspectivas como essas que esperava atrair as massas. Donativos e empréstimos - resume-se nisso a ciência financeira do lúmpen proletariado, tanto de alto como de baixo nível. Essas eram as únicas alavancas que Bonaparte sabia movimentar. Nunca um pretendente especulou mais vulgarmente com a vulgaridade das massas.

A Assembleia Nacional inflamou-se repetidas vezes com essas inegáveis tentativas de ganhar popularidade à sua custa, com o crescente perigo de que esse aventureiro, esporeado polas dividas e sem reputaçom que o freasse, se lançasse a um golpe desesperado. A divergência entre o partido da ordem e o presidente assumira um carácter ameaçador quando um acontecimento inesperado atirou o segundo, contrito, nos braços do primeiro. Referimo-nos às eleiçons suplementares de 10 de março de 1850. Essa eleiçom foi realizada com o propósito de preencher as cadeiras de deputados que tinham ficado vazias depois de 13 de Junho em virtude da prisom ou do exílio dos seus ocupantes. Paris elegeu apenas candidatos social-democratas. Concentrou mesmo a maioria dos votos num insurrecto de Junho de 1848, Deflotte. Assim a pequena burguesia de Paris, aliada ao proletariado, vingou-se da derrota sofrida a 13 de Junho de 1849. O proletariado parecia ter-se afastado do campo de batalha na hora do perigo só para reaparecer em ocasiom mais propicia com maior número de combatentes e um grito de guerra mais audaz. Umha circunstáncia parecia ressaltar o perigo dessa vitória eleitoral. O exército votou em Paris a favor do insurrecto de Junho e contra La Hitte, ministro de Bonaparte, e nos departamentos principalmente a favor dos montagnards, que também aqui, embora de maneira nom tam decisiva como em Paris, mantinham ascendência sobre os seus adversários.

Bonaparte viu-se de repente confrontado outra vez com a revoluçom. Da mesma forma que a 29 de Janeiro de 1849 e a 13 de Junho de 1849, também, a 10 de março de 1850, desapareceu atrás do partido da ordem. Rendeu-lhe tributo, pediu perdom de maneira pusilánime, prontificou-se a nomear o ministério que quisessem por indicaçom da maioria parlamentar, chegou ao ponto de implorar aos dirigentes dos partidos orleanistas e legitimistas, aos Thiers, Berryers, Brogliés, Molés, em suma aos chamados burgraves, que assumissem eles próprios a direcçom do Estado. O partido da ordem mostrou-se incapaz de se beneficiar com essa oportunidade que nom mais se repetiria. Em vez de assumir corajosamente o poder que lhe era oferecido, nem sequer obrigou Bonaparte a reintegrar o ministério que dissolvera a lo. de novembro; contentou-se em humilhá-lo com o seu perdom e incorporar o Sr. Baroche ao ministério d'Hautpoul. Na qualidade de promotor público esse Baroche investira e debatera perante o Supremo Tribunal de Bourges, a primeira a vez contra os revolucionários de 15 de Maio, a segunda contra os democratas de 13 de Junho, ambas as vezes a pretexto de atentado contra a Assembleia Nacional. Pois bem: nengum dos ministros de Bonaparte contribuiu mais, subseqüentemente, para a degradaçom da Assembleia Nacional, e depois de 2 de Dezembro de 1851 encontramo-lo novamente bem instalado e muitíssimo bem pago como vice-presidente do Senado. Cuspira na sopa dos revolucionários para que Bonaparte pudesse tomá-la.

O partido social-democrata, por seu lado, parecia apenas procurar pretextos para pôr novamente em dúvida a sua vitória e quebrar a sua agressividade. Vidal, um dos representante recém-eleitos por Paris, fora eleito simultaneamente por Estrasburgo. Induzírom-no a abrir mao da diplomaçom por Paris e aceitar a de Estrasburgo. E assim, em vez de tornar definitiva a sua vitória nas urnas e obrigar portanto o partido da ordem a contestá-la imediatamente no Parlamento, em vez de forçar o adversário a luitar num momento de entusiasmo popular e em que o exército se mostrava favorável, o partido democrata esgotou Paris durante os meses de março e abril com umha nova campanha eleitoral, deixou que a exaltaçom das paixons populares se perdesse nesse repetido jogo eleitoral, deixou que a energia revolucionária se saciasse com os êxitos constitucionais, se dissipasse em intrigas mesquinhas, oratória oca e manobras falsas, deixou que a burguesia reunisse as suas forças e figesse os seus preparativos e, finalmente, permitiu que o significado das eleiçons de março encontrasse um comentário sentimentalmente enfraquecedor na eleiçom suplementar de abril, em que foi eleito Eugène Sue. Em resumo, transformou o 10 de março num 1o. de abril.

A maioria parlamentar percebeu a debilidade do seu adversário. Os seus 17 burgraves - pois Bonaparte deixara-lhes a direcçom e a responsabilidade do ataque - elaborárom umha nova lei eleitoral cuja apresentaçom foi confiada ao Sr. Faucher, que solicitou essa honra para si. A 8 de Maio apresentou a lei segundo a qual seria abolido o sufrágio universal, seria imposta a condiçom de que os eleitores residissem polo menos três anos na circunscriçom eleitoral e, finalmente, tornaria a prova de domicilio dependente, no caso dos operários, de um atestado fornecido polos patrsons.

Da mesma forma por que os democratas tinham, em estilo revolucionário, agitado os espíritos e feito demonstraçons de violência durante a campanha eleitoral constitucional, agora, quando se tornava necessário provar o carácter sério dessa vitória de armas na mao, em estilo constitucional pregavam a ordem, "majestosa serenidade", a actuaçom legal, ou seja, a submissom cega à vontade da contra-revoluçom, que se impunha como lei. Durante os debates, a Montanha cobriu de vergonha o partido da ordem, afirmando, contra a paixom revolucionária do último, a atitude desapaixonada do filisteu que se mantém dentro da lei, e fulminando aquele partido com a censura terrível de que procedera de maneira revolucionária. Mesmo os deputados recém-eleitos se esmeravam em provar, com a sua atitude correta e discreta, o absurdo que era atacá-los como anarquistas e atribuir a sua eleiçom a umha vitória da revoluçom. A 31 de Maio foi aprovada a nova lei eleitoral. A Montanha contentou-se em enfiar sorrateiramente um protesto no bolso do presidente da assembleia. À lei eleitoral seguiu-se umha nova lei de imprensa, pola qual a imprensa revolucionária foi totalmente suprimida. Merecera essa sorte. O National e La Presse, dous órgaos burgueses, ficárom depois desse dilúvio como a guarda mais avançada da revoluçom.

Vimos como durante os meses de março e abril os dirigentes democráticos tinham feito tudo para envolver o povo de Paris numha luita falsa e como, depois de 8 de Maio, figérom tudo para desviá-lo da luita efectiva. Além disso, nom devemos esquecer que o ano de 1850 foi um dos anos mais esplêndidos de prosperidade industrial e comercial, e o proletariado de Paris atravessa, assim, umha fase de pleno emprego. A lei eleitoral de 31 de Maio de 1850, porém, o excluiu de qualquer participaçom no poder político. Isolou-o da própria arena. Atirou novamente os operários à condiçom de párias que tinham ocupado antes da Revoluçom de Fevereiro. Deixando-se dirigir polos democratas diante de um tal acontecimento e esquecendo os interesses revolucionários da sua classe por um bem-estar momentáneo, os operários renunciárom à honra de se tomarem umha força vencedora, submetêrom-se a sua sorte, provárom que a derrota de Junho de 1848 os pugera fora de combate por muitos anos e que o processo histórico teria por enquanto que passar por cima das suas cabeças. No que concerne à pequena burguesia - que a 13 de Junho gritara: "Mas se ousarem investir contra o sufrágio universal, bem, entom lhes mostraremos de que somos capazes!" - contentava-se agora em discutir que o golpe contra-revolucionário que a atingira nom era golpe e que a lei de 31 de Maio nom era lei. No segundo domingo de Maio de 1852 todos os franceses compareceriam às urnas empunhando numha das maos a cédula eleitoral e na outra a espada. Satisfez-se com essa profecia. Finalmente, o exército foi punido polos seus oficiais superiores em vista das eleiçons de março e abril de 1850, como o tinha sido a 28 de Maio de 1849. Desta vez, porém, declarou com decisom: "A revoluçom nom nos enganará umha terceira vez."

A lei de 31 de Maio de 1850 era o golpe de Estado da burguesia. Todas as vitórias até entom conquistadas sobre a revoluçom tinham tido apenas um carácter provisório. Viam-se ameaçadas assim que cada Assembleia Nacional saía de cena. Dependiam dos riscos de umha nova eleiçom geral, e a história das eleiçons a partir de 1848 demonstrava irrefutavelmente que a influência moral da burguesia sobre as massas populares ia-se perdendo na mesma medida em que se desenvolvia o seu poder efectivo. A 10 de março o sufrágio universal declarou-se directamente contrário à dominaçom burguesa; a burguesia respondeu pondo fora da lei o sufrágio universal. A lei de 31 de Maio era, portanto, umha das necessidades da luita de classes. Por outro lado, a Constituiçom estabelecia um mínimo de 2 milhsons de votos para tornar válidas a eleiçom do presidente da República. Se nengum dos candidatos à presidência recebesse esse mínimo de sufrágios, a Assembleia Nacional deveria escolher o presidente entre os três candidatos mais votados. Na época em que a Assembleia Constituinte elaborara essa lei as listas eleitorais registravam 10 milhsons de eleitores. Na sua  opiniom, portanto, um quinto do eleitorado era suficiente para tornar válida a eleiçom presidencial. A lei de 31 de Maio cortou das listas eleitorais polo menos 3 milhsons de votantes, reduziu para 7 milhsons o número de eleitores e, nom obstante, mantivo o mínimo legal de 2 milhsons de votos para a eleiçom presidencial. Elevou por conseguinte o mínimo legal de um quinto para quase um terço dos eleitores, ou seja, fijo tudo para retirar a eleiçom do presidente das maos do povo e entregá-la nas maos da Assembleia Nacional. Assim, através da lei eleitoral de 31 de Maio, o partido da ordem parecia ter tornado o seu domínio duplamente garantido, entregando a eleiçom da Assembleia Nacional e do presidente da República ao sector mais estacionário da sociedade.



[1] Patres Conscripti - senadores de Roma

[2] Laisser Aller - deixar passar

[3] Mauvaise queue - apêndice doente

[4] Veremos!

[5] Deputados do partido da Montanha

[6] Nom passades de fanfarons

[7] Homme de paille - fantoche.

[8] Fonds: títulos públicos

[9] Ideias napoleónicas

[10] Maires: Prefeitos

[11] Self-Government: autogoverno