O 18 BRUMÁRIO DE LUIS BONAPARTE. Karl Marx

 

Capítulo VI

A aliança com a Montanha e os republicanos puros, à qual o partido da ordem viu-se condenado no esforço vam de conservar o poder militar e reconquistar o controlo supremo sobre o Poder Executivo, provou irrefutavelmente que ele perdera a sua maioria parlamentar própria. A 28 de Maio, o simples poder do calendário, do ponteiro do relógio, deu o sinal para a sua completa desintegraçom. Com o 28 de Maio tivo início o ultimo ano de vida da Assembleia Nacional. Tinha agora que decidir-se ou a manter inalterada a Constituiçom ou a reformá-la. A revisom da Constituiçom, porém, nom implicava apenas no domínio da burguesia ou da democracia pequeno-burguesa, democracia ou anarquia proletária, república parlamentar ou Bonaparte: significava também Orléans ou Bourbon! Surgiu assim no Parlamento o pomo de discórdia que teria forçosamente que inflamar abertamente o conflito de interesses que dividia o partido da ordem em facçons hostis. O partido da ordem era um combinado de substáncias sociais heterogêneas. A questom da revisom gerou urna temperatura política na qual ele voltou a se decompor nos seus elementos primitivos.

O interesse dos bonapartistas na revisom era simples. Para eles tratava-se, sobretudo, de abolir o artigo 45, que proibia a reeleiçom de Bonaparte e a prorrogaçom dos seus poderes. A posiçom dos republicanos nom parecia menos simples. Rejeitavam incondicionalmente qualquer revisom; viam nela umha conspiraçom universal contra a república. Considerando que controlavam mais de um quarto dos votos da Assembleia Nacional e que de acordo com a Constituiçom eram necessários três quartos dos votos para tornar legalmente válida a resoluçom de reforma e para convocar a Assembleia encarregada de proceder a essa revisom, tinham apenas que contar os seus votos para terem certeza da vitória. E tinham certeza da vitória.

Diante de posiçons tam definidas o partido da ordem via-se preso em contradiçons inextricáveis. Se rejeitasse a reforma estaria pondo em perigo o status quo, umha vez que teria deixado a Bonaparte apenas umha saída, pola força, e no segundo domingo de Maio de 1852, na hora decisiva, estaria entregando a França à anarquia revolucionária, com um presidente que perdera a autoridade, com um Parlamento que a muito nom a possuía, e com um povo que se mostrava disposto a reconquistá-la. Se votasse a favor da reforma constitucional, sabia que votava em vam e que teria forçosamente que fracassar inconstitucionalmente, se declarasse válida a simples maioria de votos, só poderia entom esperar dominar a revoluçom submetendo-se incondicionalmente a Poder Executivo, o que tornaria Bonaparte dono da Constituiçom, da reforma e do próprio partido. Umha reforma apenas parcial, que prorrogasse a autoridade do presidente, prepararia o caminho para a usurpaçom imperial. Umha revisom geral que encurtasse a vida da república lançaria as pretensons dínásticas em inevitável conflito, pois as condiçons de restauraçom dos Bourbons e dos orleanistas eram nom só diferentes, como se excluíam mutuamente.

A república parlamentar era mais do que o campo neutro no qual as duas facçons da burguesia francesa, os legitimistas e orleanistas, a grande propriedade territorial e a indústria podiam viver lado a lado com igualdade de direitos. Era a condiçom inevitável para o seu domínio em comum a única forma de governo no qual o seu interesse geral de classe podia submeter ao mesmo tempo tanto as reivindicaçons das suas diferentes facçons como as demais classes da sociedade. Na qualidade de monárquicos, eles recaiam no seu velho antagonismo, na luita pola supremacia do latifúndio ou do capital, e a mais alta expressom desse antagonismo, a sua personificaçom, eram os seus próprios reis, as suas dinastias. Daí a resistência do partido da ordem à volta dos Bourbons.

Creton, orleanista e representante do povo, apresentara periodicamente em 1849, 1850 e 1851 umha moçom propondo a revogaçom do decreto de exílio das famílias reais. Com a mesma regularidade o Parlamento fornecia o espetáculo de umha Assembleia de monárquicos que obstinadamente impedia a passagem através da qual os seus reis exilados podiam retornar à pátria. Ricardo III assassinara Henrique VI observando que ele era bom demais para este mundo e que o seu lugar era no céu. Eles declaravam que a França era demasiado má para receber novamente os seus reis. Compelidos polas circunstáncias, tinham-se convertido em republicanos e sancionavam repetidas vezes a decisom popular que bania os seus reis da França.

A reforma da Constituiçom - e as circunstáncias obrigavam a que fosse tomada em consideraçom - punha em julgamento, juntamente com a república, o governo comum das duas facçons burguesas e reavivava, com a possibilidade da monarquia, a rivalidade de interesses que esta representara alternadamente como preponderantes, a luita pola supremacia de umha facçom sobre a outra. Os diplomatas do partido da ordem pensavam que podiam solucionar a contenda através do amálgama das duas dinastias, por meio de umha suposta fusom dos partidos monárquicos e das suas casas reais. A verdadeira fusom da Restauraçom e da monarquia de Julho, porém, foi a república parlamentar, na qual se amalgamárom as cores orleanista e legitimista e desaparecêrom as várias espécies de burgueses, dando lugar ao burguês propriamente dito, à espécie burguesa. Agora, entretanto, o orleanista devia tornar-se legitimista e o legitimista orleanista. A realeza, em que se personificava o seu antagonismo, devia encarnar a sua uniom; a expressom dos seus interesses exclusivos de facçom deveria tornar-se a expressom do seu interesse de classe comum; a monarquia deveria fazer o que só a aboliçom de duas monarquias, a república, podia fazer e de facto fez. Era a pedra fisolofal que os doutores do partido da ordem quebravam a cabeça para descobrir. Como se a monarquia legitimista pudesse jamais converter-se na monarquia da burguesia industrial ou a monarquia burguesa jamais converter-se na monarquia da tradicional aristocracia da terra. Como se o latifúndio e a indústria pudessem irmanar-se sob umha só coroa, quando a coroa só podia descer sobre umha cabeça, a do irmao mais velho ou a do mais jovem. Como se a indústria pudesse chegar a algum acordo com o latifúndio enquanto este nom se decidisse a tomar-se industrial. Se Henrique V morresse no dia seguinte, o conde de Paris nom se tornaria por isso o rei dos legitimistas, a menos que deixasse de ser o rei dos orleanistas. Os filósofos da fusom, entretanto, que se tornavam mais vociferantes à medida que a questom da reforma passava ao primeiro plano, que tinham feito da Assemblée Nátionale o seu diário oficial e que se acham novamente empenhados no seu trabalho mesmo neste momento (Fevereiro de 1852), consideravam que toda a dificuldade provinha da oposiçom e rivalidade entre as duas dinastias. As tentativas de reconciliar a família Orléans com Henrique V, começárom desde a morte de Luís Filipe mas que, como acontece geralmente com as intrigas dinásticas, só eram encenadas durante os períodos de recesso da Assembleia Nacional, nos entreatos, por detrás dos bastidores, mais por coqueteria sentimental com a velha superstiçom do que com propósitos sérios, convertêrom-se agora em grandes representaçons de Estado, desempenhadas polo partido da ordem no cenário público, em vez das representaçons de amadores que vinham sendo encenadas até entom. Os mensageiros correm de Paris a Veneza, de Veneza a Claremont, de Claremont a Paris. O conde de Chambord lança um manifesto no qual, "com a ajuda de todos os membros da sua família", anuncia nom a sua, mas a Restauraçom "nacional". O orleanista Salvandy atira-se aos pés de Henrique V. Os chefes legitimistas, Berryer, Benoist d'Azy, Saint-Priest, viajam até Claremont a fim de convencer os orleanistas, porém em vam. Os adeptos da fusom percebem tarde demais que os interesses das duas facçons burguesas nem perdem o seu exclusivismo nem adquirem maleabilidade quando acentuados na forma de interesse de família, interesses de duas casas reais. Se Henrique V viesse a reconhecer o conde de Paris como o seu sucessor - o único êxito que, na melhor das hipóteses, poderia alcançar a fusom - a Casa de Orléans nom conquistaria nengum direito que já nom tivesse assegurado devido à ausência de herdeiros de Henrique V, mas perderia, por outro lado, todos os direitos que alcançara com a Revoluçom de Julho. Renunciaria a suas pretensons primitivas, a todos os títulos que arrancara do ramo mais antigo dos Bourbons em quase cem anos de luita; trocaria sua prerrogativa histórica, a prerrogativa do reino moderno, pola prerrogativa da sua árvore genealógica. A fusom, portanto, nom representaria senom a abdicaçom voluntária da Casa de Orléans, a sua renúncia à legitimidade, o recuo arrependido da igreja protestante do Estado à Igreja Católica. Um recuo que, ademais, nom a conduziria sequer ao trono que perdera, mas apenas aos degraus do trono onde nascera. Os velhos ministros orleanistas, Guizot, Duchátel etc. que acorriam também a Claremont a fim de advogar a fusom, representavam na realidade apenas o Katzenjammer[1] da Revoluçom de Julho, a desilusom em face do reino burguês e da realeza da burguesia, a crença supersticiosa na legitimidade como o último amuleto contra a anarquia. Embora se afigurassem como mediadores entre os Orléans e os Bourbons, eles nada mais eram, na realidade, do que orleanistas renegados, e o príncipe de Joinville recebeu-os como tais. Por outro lado, a ala orleanista que tinha possibilidades de se desenvolver, o seu sector belicoso. Thiers, Baze etc., convenceu com tanto maior facilidade a família de Luís Filipe de que se qualquer restauraçom directamente monarquista pressupunha a fusom das duas dinastias e umha tal fusom pressupunha a abdicaçom da Casa de Orléans - estava, polo contrário, perfeitamente de acordo com a tradiçom dos seus antepassados reconhecer no momento a república e esperar até que os acontecimentos permitissem converter em trono a cadeira presidencial. Circulárom rumores sobre a candidatura de Joinville, aguçou-se a curiosidade do público e, alguns meses mais tarde, em Setembro, após a rejeiçom da reforma constitucional, a sua candidatura foi publicamente proclamada.

A tentativa de realizar umha fusom de orleanistas e legitimistas, portanto, nom só fracassara como destruíra a sua fusom parlamentar, a sua forma comum republicana, e fragmentara o partido da ordem nos seus elementos componentes; mas quanto mais crescia a divergência entre Claremont e Veneza, quanto mais falhavam as possibilidades de acordo e a agitaçom de Joinville ganhava terreno; tanto mais vivas e intensas se tornavam as negociaçons entre o ministro bonapartista Faucher e os legitimistas.

A desintegraçom do partido da ordem nom se deteve ao reduzir-se aos seus elementos primitivos. Cada umha das duas alas principais, por sua vez, experimentou novo processo de decomposiçom. Era como se todos os velhos matizes que anteriormente luitavam e se debatiam um contra o outro dentro de cada um dos dous campos, tanto do legitimista como do orleanista, como infusórios secos ao contato da água, tivessem novamente adquirido suficiente energia vital para constituir grupos próprios e antagonismos independentes. Os legitimistas imaginavam estar novamente em meio às controvérsias existentes entre as Tulherias e o Pavilhom Marsan, entre Villèle e Polignac. Os orleanistas reviviam os tempos áureos dos torneios entre Guizot, Molé, Broglie, Thiers e Odilon Barrot.

A ala do partido da ordem que ansiava pola reforma mas que estava novamente cindida sobre a questom dos limites dessa reforma, umha ala composta por legitimistas chefiados de um lado por Berryer e Failoux e de outro lado La Rochejaquelin, bem como polos orleanistas cansados de luitar chefiados por Molé, Broglie, Montalembert e Odilon Barrot, entrou em acordo com os representantes bonapartistas sobre a seguinte moçom, indefinida e ampla: "Os representantes abaixo assinados, tendo em vista restaurar a naçom no pleno exercício da sua soberania, proponhem que seja procedida a reforma da Constituiçom." nom obstante, ao mesmo tempo declaravam unanimemente, através do seu porta-voz, Tocqueville, que a Assembleia Nacional nom tinha o direito de propor a aboliçom da república, que esse direito cabia exclusivamente à cámara encarregada da reforma. Quanto ao mais, a Constituiçom só poderia ser reformada de maneira "legal' ou seja, se, conforme o preceito constitucional, três quartos dos votos se manifestassem a favor da reforma. A 19 de Julho, depois de seis dias de tempestuosos debate, a reforma foi rejeitada, como era de se esperar. Houve 446 votos a favor, mas 278 contrários. Os orleanistas extremados, Thiers, Changarnier etc., votárom com os republicanos e a Montanha.

A maioria do Parlamento declarou-se, assim, contra a constituiçom, mas essa mesma Constituiçom declarava-se a favor da minoria e estabelecia como decisivo o pronunciamento desta. Nom tinha o partido da ordem, entretanto, a 31 de Maio de 1850 e a 13 de Junho de 1849, subordinado a Constituiçom à maioria parlamentar? nom fora toda a sua política baseada até agora na subordinaçom dos parágrafos da Constituiçom às decisons da maioria parlamentar? nom deixara aos democratas a superstiçom bíblica na letra da lei, e castigado por isso esses mesmos democratas? No momento, porém, a reforma da Constituiçom nom significava senom a manutençom do poder presidencial, da mesma forma que a manutençom da Constituiçom significava apenas a deposiçom de Bonaparte. O Parlamento manifestava-se favorável a ele, mas a Constituiçom declarava-se contra o Parlamento. Ele, portanto, agiu de acordo com o Parlamento quando rasgou a Constituiçom, e de acordo com a Constituiçom quando dissolveu o Parlamento.

O Parlamento declarara a Constituiçom, e com ela o seu próprio poder, "acima da maioria"; mediante os seus votos abrogara a Constituiçom e prorrogara o poder presidencial, declarando ao mesmo tempo que nem aquela podia morrer nem este viver enquanto ele próprio continuasse a existir. Os que deveriam enterrá-lo já esperavam junto à porta. Enquanto o Parlamento discutia a reforma, Bonaparte destituiu o general Baraguey d'Hilliers, que se mostrara irresoluto no comando da Primeira Divisom do Exército, nomeando para substituí-lo o general Magnan, o vencedor de Lyon, o herói das jornadas de Dezembro, umha das suas criaturas, que sob Luís Filipe, por ocasiom da expediçom a Boulogne, já se comprometera mais ou menos a favor de Bonaparte.

Com a sua decisom sobre a reforma o partido da ordem demonstrou que nom sabia nem governar nem servir; nem morrer; nem suportar a república nem derrubá-la; nem defender a Constituiçom nem revogá-la; nem cooperar com o presidente nem romper com ele. De onde esperava entom a soluçom de todas as contradiçons? Do calendário, da marcha dos acontecimentos. Deixou de se arvorar em árbitro dos acontecimentos. Desafiou, portanto, os acontecimentos a assumirem o controlo sobre ele, desafiando dessa maneira o poder ao qual, no decurso da luita contra o povo, cedera umha prerrogativa atrás da outra, até permanecer impotente diante desse poder. A fim de que o chefe do Poder Executivo pudesse com maior tranqüilidade traçar contra ele o seu plano de campanha, reforçar os seus meios de ataque, escolher as suas armas e fortificar as suas posiçons, precisamente nesse momento crítico o Parlamento resolveu retirar-se de cena e suspender as suas sessons durante três meses, de 10 de Agosto a 4 de novembro.

O partido parlamentar nom só se desdobrara nas suas duas grandes facçons, cada umha dessas nom só se subdividírom por sua vez, mas o partido da ordem de dentro do Parlamento. Os arautos e escribas da burguesia, a sua plataforma e a sua imprensa, em suma, os ideólogos da burguesia, e a própria burguesia, representantes e os representados, enfrentavam-se com hostilidade e nom mais se compreendiam.

Os legitimistas das províncias, com o seu horizonte limitado e o seu entusiasmo ilimitado, acusavam os seus dirigentes parlamentares, Berryer e Falloux, de haverem desertado para o campo bonapartista, de terem abandonado Henrique V. Os seus cérebros liriais acreditavam no pecado original, mas nom na diplomacia.

Muito mais fatal e decisiva foi a ruptura da burguesia comercial com os seus políticos. Censuravam-nos, nom como os legitimistas censuravam os seus, por terem abandonado os seus princípios que já se tinham tornado inúteis.

Já indiquei acima como, desde a entrada de Fould para o ministério, a ala da burguesia comercial que detivera a parte do leom no governo de Luís Filipe, ou seja, a aristocracia financeira, tornara-se bonapartista. Fould nom representava apenas os interesses de Bonaparte na Bolsa, representava também os interesses da Bolsa junto a Bonaparte. A posiçom da aristocracia financeira está pintada de forma magistral numha passagem do seu órgao europeu, The Economist de Londres. No seu número de lº de Fevereiro de 1851 escreve o correspondente de Paris: "Tivemos oportunidade de comprovar em numerosas fontes que a França deseja, acima de tudo, a tranqüilidade. O presidente o declara na sua  mensagem à Assembleia Legislativa; e o mesmo é repetido da tribuna; afirmado nos jornais; anunciado do púlpito; e é demonstrado pola sensibilidade dos títulos públicos à menor perspectiva de perturbaçom, e pola sua estabilidade quando se torna evidente que o Poder Executivo sai vitorioso."

No seu número de 29 de novembro de 1851 o The Economist declara no seu próprio nome: "O Presidente é o guardiám da ordem, e é agora reconhecido, como tal em todas as Bolsas de Valores da Europa. "A aristocracia financeira condenava, portanto, a luita parlamentar do partido da ordem contra o Poder Executivo como umha perturbaçom da ordem, e comemorava cada vitória do presidente sobre os supostos representantes dela como vitórias da ordem. Por aristocracia financeira nom se deve entender aqui apenas os grandes promotores de empréstimos e especuladores de títulos públicos, a respeito dos quais torna-se imediatamente óbvio que os seus interesses coincidem com os interesses do poder público. Todo o moderno círculo financeiro, todo o sector de actividades bancárias está entrelaçado na forma mais íntima com o crédito público. Parte do seu capital activo é necessariamente invertida e posta a juros em títulos públicos de fácil resgate. Os depósitos de que disponhem, o capital colocado a sua disposiçom e por eles distribuído entre comerciantes e industriais, provêm em parte dos dividendos de possuidores de títulos do governo. Se em todas as épocas a estabilidade do poder público significava tudo para todo o mercado financeiro e para os oficiantes desse mercado financeiro, por que nom o seria hoje, e com muito mais razom, quando cada dilúvio ameaça destruir os velhos Estados e, com eles, as velhas dívidas do Estado?

Também a burguesia industrial, no seu fanatismo pola ordem, irritava-se com as disputas em que o partido da ordem se empenhava no Parlamento com o Poder Executivo. Depois do seu voto a 18 de Janeiro, por ocasiom da destituiçom de Changarnier, Thiers, Anglas, Saine-Beuve etc., recebêrom precisamente dos seus constituintes dos distritos industriais censuras públicas, nas quais a sua coligaçom com a Montanha era particularmente condenada como alta traiçom contra a ordem. Se, como vimos, as críticas jactanciosas, as mesquinhas intrigas que assinalárom a luita do partido da ordem contra o presidente, nom merecêrom melhor recepçom, entom por outro lado, esse partido burguês, que exigia que os seus representantes permitissem, sem oferecer resistência, que o poder militar passasse das maos do seu próprio Parlamento para as de um pretendente aventureiro - nom era sequer digno das intrigas desperdiçadas na sua  intençom. Demonstrou que a luita para manter os seus interesses públicos, os seus próprios interesses de classe, o seu poder político, só lhe trazia embaraço e desgostos, pois constituía umha perturbaçom dos seus negócios privados.

Quase que sem exceçons os dignitários burgueses das cidades da província, as autoridades municipais, os juizes dos tribunais comerciais etc., recebiam Bonaparte em todas as localidades que visitava nas suas excursons, da maneira mais abjeta, mesmo quando, como aconteceu em Dijon, ele desferiu um ataque sem reservas contra a Assembleia Nacional e, especialmente, contra o partido da ordem.

Quando o comércio era próspero, como ainda era em princípios de 1851, a burguesia comerciante enfurecia-se contra qualquer luita parlamentar, temendo que o comércio viesse a ressentir-se disso. Quando o comércio andava mal, como acontecia constantemente a partir do fim de Fevereiro de 1851, a burguesia comerciante acusava as luitas parlamentares como responsáveis pola paralisaçom e clamava para que cessassem, a fim de que o comércio pudesse desenvolver-se novamente. Os debates sobre a reforma coincidírom justamente com esse período difícil. Tratando-se aqui da questom do ser ou nom ser da forma de governo vigente, a burguesia sentia-se tanto mais autorizada a exigir que os seus representantes pugessem fim a essa torturante situaçom provisória e mantivessem ao mesmo tempo o status quo. Nom havia nisso nengumha contradiçom. Por fim da situaçom provisória ela compreendia precisamente a sua perpetuaçom, o adiamento para um futuro distante do momento em que umha decisom tivesse que ser tomada. O status quo só poderia ser mantido de duas maneiras: pola prorrogaçom do poder de Bonaparte, ou mediante a sua renúncia constitucional e a eleiçom de Cavaignac. Um sector da burguesia desejava esta última soluçom e nom soubo dar aos seus representantes outro conselho senom o de que se conservassem em silêncio e nom tocassem na questom candente. Estavam convencidos de que se os seus representantes nom falassem, Bonaparte nom agiria. Queriam um Parlamento-avestruz, que escondesse a cabeça para permanecer oculto. Outro sector da burguesia desejava, tendo em vista que Bonaparte já se encontrava na presidência, que continuasse no posto, a fim de que tudo pudesse prosseguir na mesma rotina de sempre. Irritavam-se por nom ter o Parlamento violado abertamente a Constituiçom e abdicado sem maiores formalidades.

Os Conselhos Gerais dos Departamentos, aqueles organismos provinciais que representavam a alta burguesia e que se reuniam a partir de 25 de Agosto, durante o período de recesso da Assembleia Nacional, manifestárom-se quase que por unanimidade pola reforma, e, por conseguinte, contra o Parlamento e a favor de Bonaparte.

De maneira ainda mais inequívoca do que o seu afastamento dos seus próprios representantes parlamentares, a burguesia demonstrou a sua cólera contra os seus representantes literários, a sua própria imprensa. As sentenças, condenando ruinosas multas e a descabidos períodos de encerramento ditadas polos júris burgueses por qualquer ataque de jorna listas burgueses contra os desejos usurpatórios de Bonaparte, qualquer tentativa da imprensa de defender os direitos políticos da burguesia contra o Poder Executivo, assombravam nom só a França, como toda a Europa.

Se o partido parlamentar da ordem, com o seu clamor pola tranqüilidade, como demonstrei, comprometia-se manter-se tranqüilo, se declarava o domínio político da burguesia incompatível com a segurança e a existência da burguesia, destruindo com as suas próprias maos, na luita contra as demais classes da sociedade, todas as condiçons necessárias ao seu próprio regime, o regime parlamentar, por outro lado a massa extraparlamentar da burguesia, com o seu servilismo para com o presidente, com os seus insultos ao Parlamento, com maus-tratos a sua própria imprensa, convidava Bonaparte a suprimir e aniquilar o sector do partido que falava e escrevia, os seus políticos e literatos, a sua tribuna e a sua imprensa, a fim de poder entregar-se entom aos seus negócios particulares com plena confiança, sob a proteçom de um governo forte e absoluto. Declarava inequivocamente que ansiava se livrar do seu próprio domínio político a fim de s livrar das tribulaçons e perigos desse domínio.

E essa massa, que já se rebelara contra a luita puramente parlamentar e literária polo domínio da sua própria classe traíra os dirigentes dessa luita, ousa agora, depois do caso passado, acusar o proletariado por nom se ter levantado numha luita sangrenta umha luita de vida ou de morte, na sua defesa! Essa massa, que sacrificava a cada momento os seus interesses gerais de classe, isto é, os seus interesses políticos aos mais mesquinhos e mais sórdidos interesses particulares, e exigia dos seus representantes idêntico sacrifício, queixa-se agora de que o proletariado nom se tenha sacrificado aos seus interesses materiais, os interesses políticos ideais dela! Apresenta-se como umha alma pura a quem o proletariado, desencaminhado polos socialistas, nom teria sabido compreender e abandonara no momento decisivo. E encontra um eco geral no mundo burguês. Nom me refiro aqui, naturalmente, aos politiqueiros alemáns e ao refugo ideológico da mesma origem. Refiro-me, por exemplo, ao já citado Economist, que já a 29 de novembro de 1851, ou seja, quatro dias antes do golpe de Estado, apresentara Bonaparte como o "guardiám da ordem" e Thiers e Berryer como "anarquistas", e a 27 de Dezembro de 1851, depois que Bonaparte aquietara esses anarquistas, já vocifera sobre a traiçom perpetrada polas "massas proletárias, ignorantes, incultas e estúpidas contra a habilidade, conhecimento, disciplina, influência mental, recursos intelectuais e peso moral das camadas médias e superiores". Massa estúpida, ignorante e grosseira era a própria massa burguesa. É bem verdade que em 1851 a França atravessara umha pequena crise comercial. Em fins de Fevereiro registrou-se um declínio das exportaçons em comparaçom a 1850: em março o comércio experimentou um revés e as fábricas deixárom de trabalhar; em abril a situaçom dos departamentos industriais parecia tam desesperadora como depois das jornadas de Fevereiro; em Maio os negócios nom tinham ainda tomado pé; em 28 de Junho o activo do Banco de França demonstrava, polo enorme aumento dos depósitos e o decréscimo igualmente grande em adiantamentos contra letras de cámbio, que a produçom estava paralisada, e só em meados de outubro começou a produzir-se umha melhora progressiva nos negócios. A burguesia francesa atribuía essa paralisaçom do comércio a causas puramente políticas, à luita entre o Parlamento e o Poder Executivo, à precariedade de umha forma provisória de governo, à aterradora perspectiva do segundo domingo de Maio de 1852. Nom negarei que todas essas circunstáncias exerciam um efeito deprimente em alguns ramos da indústria de Paris e dos Departamentos. Essa influência das condiçons políticas, contudo, era apenas local e sem importáncia. Será necessária outra prova disso além do facto de que a melhora do comércio produziu-se em meados de outubro, no momento preciso em que a situaçom política agravou-se, o horizonte político escureceu, e esperava-se a qualquer momento que caísse uni raio do Eliseu? Quanto ao mais, o burguês francês, cuja "habilidade, conhecimento, intuiçom espiritual e recursos intelectuais" nom ia além do próprio apêndice nasal, podia ter encontrado a causa da sua miséria comercial, durante todo o período da Exposiçom Industrial de Londres, directamente diante do nariz. Enquanto na França as fábricas fechavam, na Inglaterra ocorriam falências comerciais. Enquanto em abril e Maio o pánico industrial alcançou o seu clímax na França, em abril e Maio o pánico comercial atingiu o seu clímax na Inglaterra. Os lanifícios ingleses atravessavam as mesmas dificuldades dos franceses, o mesmo acontecendo com a indústria da seda dos dous países. É bem verdade que os cotonifícios ingleses continuavam trabalhando, mas já nom realizavam os lucros obtidos em 1849 e 1850. A única diferença era que na França a crise era industrial, ao passo que na Inglaterra era comercial; que enquanto na França as fábricas estavam paralisadas, na Inglaterra ampliavam a sua capacidade, embora sob condiçons menos favoráveis do que nos anos precedentes; que na França eram as exportaçons, enquanto na Inglaterra eram as importaçons que tinham sido mais seriamente atingidas pola crise. A causa comum que, naturalmente, nom deve ser procurada dentro dos limites do horizonte político francês, era evidente. Os anos de 1849 e 1850 foram os anos de maior prosperidade material e de umha superproduçom que só se manifestou como tal em 1851. Esta superproduçom em princípios desse ano recebeu novo e especial impulso com a perspectiva da Exposiçom Industrial. Registrárom-se, ademais, as seguintes circunstáncias peculiares: primeiro a perda parcial da safra de algodom em 1850 e 1851, em seguida a certeza da obtençom de umha safra de algodom maior do que se esperava; primeiro a subida, em seguida a queda brusca, em suma, flutuaçons do preço do algodom. A safra de seda bruta, polo menos na França tinha sido inferior à produçom média. Finalmente, os lanifícios tinham-se expandido a tal ponto desde 1848 que a produçom de lá nom podia manter as normas de abastecimento, e o preço da lá em bruto subiu em completa desproporçom ao preço dos artigos de lá. Já temos portanto aqui, na matéria-prima para três indústrias do mercado mundial, três motivos para umha paralisaçom do comércio. Independentemente dessas circunstáncias especiais, a crise aparente de 1851 nom era nada mais do que a parada que a superproduçom e a superespeculaçom invariavelmente provocam no ciclo industrial, antes de reunirem todas as suas forças a fim de se precipitarem febrilmente através da última fase desse ciclo e alcançarem mais umha vez o ponto de partida, a crise geral do comércio. Durante tais intervalos na história do comércio irrompem na Inglaterra as falências comerciais, ao passo que na França é a própria indústria que tem de se paralisar, em parte porque forçada a retroceder dada a concorrência dos ingleses que precisamente entom começava a fazer-se intolerável em todos os mercados, e em parte por ser umha indústria de luxo, que deve preferentemente sofrer as conseqüências de toda crise comercial. Portanto, além das crises gerais, a França experimenta crises comerciais internas, que som, nom obstante, determinadas e condicionadas muito mais polas condiçons gerais do mercado mundial do que por influências locais francesas. Nom seria desinteressante estabelecer um confronto entre o discernimento do burguês inglês e o preconceito do burguês francês. No seu relatório anual de 1851, umha das maiores firmas comerciais de Liverpool declara: "Poucos anos tenhem desmentido de maneira tam cabal os prognósticos feitos no seu início como o ano que acaba de findar; em vez da grande prosperidade que era quase unanimemente esperada, este ano revelou-se um dos mais decepcionantes do último quarto de século - referimo-nos, naturalmente, às classes mercantis, e nom às classes manufatureiras. Nom obstante, no começo do ano havia certamente motivos para esperar-se o contrário - os estoques de produtos eram moderados, o capital era abundante, os géneros alimentícios baratos, bem assegurada umha colheita generosa, reinava completa paz no continente, e o nosso país nom experimentava quaisquer perturbaçons políticas ou fiscais; nunca, efectivamente, estivérom mais livres as asas do comércio... A que atribuir, entom, esse resultado desastroso? Julgamos que ao excesso tanto das importaçons com das exportaçons. A menos que os nossos comerciantes estabeleçam maiores restriçons a sua liberdade de acçom, só um pánico trienal poderá deter-nos."

Imaginai agora o burguês francês, o seu cérebro comercialmente enfermo, torturado na agonia desse pánico comercial, girando estonteado polos boatos de golpes de Estado e de restauraçom do sufrágio universal, pola luita entre o Parlamento e o Poder Executivo, pola guerra da Fronda entre orleanistas e polas conspiraçons comunistas no sul da França, polas supostas Jacqueries nos Departamentos de Nièvre e Cher, pola propaganda de diversos candidatos à presidência, polas palavras de ordem dos jornais que lembravam os pregsons de vendedores ambulantes, polas ameaças dos republicanos de defender a Constituiçom e o sufrágio universal de armas na mao, pola pregaçom dos emigrados heróis in partibus, que anunciavam que o mundo se acabaria no segundo domingo de Maio de 1852 - pensai em tudo isso e compreendereis a razom pola qual em meio a essa incrível e estrepitosa confusom de revisom, fusom, prorrogaçom, Constituiçom, conspiraçom, coligaçom, usurpaçom e revoluçom, o burguês berra furiosamente para a sua república parlamentar: "Antes um fim com terror, do que um terror sem fim".

Bonaparte compreendeu esse grito. O seu poder de compreensom se aguçara com a crescente turbulência de credores que viam em cada crepúsculo que tornava mais próximo o dia do vencimento, o segundo domingo de Maio de 1852, um movimento dos astros protestando as suas terrenas letras de cámbio. Tinham-se convertido em verdadeiros astrólogos. A Assembleia Nacional frustrara as esperanças de Bonaparte numha prorrogaçom constitucional dos seus poderes; a candidatura do príncipe de Joinville impedia maiores vacilaçons.

Se jamais houve um acontecimento que, muito antes de ocorrer, tivesse projetado diante de si a sua sombra, foi o golpe de Estado de Bonaparte. Já a 29 de Janeiro de 1849, pouco mais de um mês depois da sua eleiçom, figera a Changarnier umha proposta nesse sentido. No verao de 1849, o seu próprio primeiro-ministro, Odilon Barrot, denunciara veladamente a política de golpes de Estado; no inverno de 1850, Thiers figera-o abertamente. Em Maio de 1851, Persigny tentara novamente ganhar Changarnier para o golpe; o Messager de l'Assemblée publicara umha notícia sobre essas negociaçons. Os jornais bonapartistas ameaçavam com um golpe de Estado cada vez que ocorria umha tempestade parlamentar, e tornavam-se mais agressivos à medida que a crise se aproximava. Nas orgias que Bonaparte celebrava todas as noites com a "escória" de ambos os sexos, quando se aproximava a meia-noite e as copiosas libaçons desatavam as línguas e aguçavam a imaginaçom, o golpe de Estado era marcado para a manhá seguinte. Desembainhavam-se as espadas, tilintavam as taças, representantes eram atirados polas janelas, o manto imperial caía sobre os ombros de Bonaparte, até que o romper da aurora afugentava novamente o fantasma e Paris, estupefata, tornava a inteirar-se, polas vestais pouco dadas a reticências e polos paladinos indiscretos, do perigo de que tinha novamente escapado. Durante os meses de Setembro e outubro os boatos de golpe de Estado sucediam-se rapidamente. Ao mesmo tempo a sombra ganhava cores, como um daguerreótipo iluminado. Consultai os números de Setembro e outubro dos Órgaos da imprensa diária europeia e encontrareis, palavra por palavra, intimidaçons como esta: "Paris está cheia de boatos sobre um golpe de Estado. Diz-se que a capital será tomada polas tropas durante a noite, e que na manhá seguinte aparecerám os decretos de dissoluçom da Assembleia Nacional, declarando o Departamento do Sena sob estado de sítio, restaurando o sufrágio universal e apelando para o povo. Diz-se que Bonaparte anda em busca de ministros para porem em execuçom esses decretos ilegais." As correspondências que trazem essas notícias terminam sempre com a palavra fatal: "adiado". O golpe de Estado fora sempre a ideia fixa de Bonaparte. Com esta ideia em mente voltara a pisar o solo francês. Estava tam obcecado por ela que constantemente deixava-a transparecer. Estava tam fraco que, também constantemente, desistia dela. A sombra do golpe de Estado tornara-se tam familiar aos parisienses sob a forma de fantasma, que quando finalmente apareceu em carne e osso nom queriam acreditar no que viam. O que permitiu, portanto, o êxito do golpe de Estado nom foi nem a reserva reticente do chefe da Sociedade de 10 de Dezembro nem o facto de a Assembleia Nacional ter sido colhida de surpresa. Se tivo êxito, foi apesar da indiscriçom daquele e com o conhecimento antecipado desta - resultado necessário e inevitável de acontecimentos anteriores.

A 10 de outubro, Bonaparte comunicou aos seus ministros a sua decisom de restaurar o sufrágio universal; a 16, estes apresentárom as suas renúncias; a 26, Paris tivo conhecimento da formaçom do ministério Thorigny. O Chefe de Polícia, Carlier, foi simultaneamente substituído por Maupas; o chefe da Primeira Divisom Militar, Magnan concentrou na capital os regimentos mais leais. A 4 de novembro, a Assembleia Nacional reiniciou as suas sessons. Nom tinha nada melhor a fazer do que recapitular, em forma breve e sucinta, o curso polo qual tinha passado, e provar que tinha sido enterrada apenas depois da sua morte.

O primeiro posto que perdera na sua  luita contra o Poder Executivo fora o ministério. tivo que reconhecer solenemente essa derrota aceitando a autoridade do ministério Thorigny, um mero simulacro de gabinete. A Comissom Permanente recebera o Sr. Giraud debaixo de risos, quando ele se apresentara como representante dos novos ministros. Um ministério tam fraco para medidas fortes como a restauraçom do sufrágio universal! O objectivo exacto, porém, era nom fazer passar nada no Parlamento, mas tudo contra o Parlamento.

No mesmo dia da sua reabertura a Assembleia Nacional! recebeu a mensagem de Bonaparte na qual ele exigia a restauraçom do sufrágio universal e a revogaçom da lei de 31 de Maio de 1850. No mesmo dia os seus ministros apresentárom um decreto nesse sentido. A Assembleia Nacional rejeitou imediatamente o pedido de urgência do ministério, e a 13 de novembro, rejeitou o projecto de lei por 355 votos contra 348. Rasgou, assim, o seu mandato umha vez mais; umha vez mais confirmou o facto de que se transformara, de corpo de representantes livremente eleitos polo povo, em Parlamento usurpador de umha classe; que cortara, ela mesma, os músculos que ligavam a cabeça parlamentar ao corpo da naçom.

Se, com a sua moçom de restaurar o sufrágio universal, o Poder Executivo apelava da Assembleia Nacional para o povo, com a sua Lei dos Questores, o Poder Legislativo apelou do povo para o exército. Essa Lei dos Questores devia estabelecer o seu direito de requisitar tropas directamente, de formar um exército parlamentar. Colocando assim o exército como árbitro entre ela e o povo, entre ela e Bonaparte, reconhecendo no exército o poder estatal decisivo, tinha que confirmar, por outro lado, o facto de que há muito tempo desistira da sua pretensom de dominar esse poder. Ao debater o seu direito a requisitar tropas, em vez de requisitá-las imediatamente, deixava transparecer as suas dúvidas quanto aos seus próprios poderes. Ao rejeitar a Lei dos Questores confessou publicamente a sua impotência. Esse projecto foi derrotado, faltando aos seus proponentes apenas 108 votos para obterem maioria. A Montanha, portanto, decidiu a questam. Viu-se na situaçom do asno de Buridan, nom porém, entre dous feixes de feno, com o problema de decidir qual dos dous era mais atraente, mas entre duas saraivadas de golpes com o problema de decidir qual era a mais violenta. De um lado havia o medo de Changarnier, do outro, o medo de Bonaparte. Tem-se que reconhecer que a situaçom nada tinha de heróica.

A 18 de novembro foi apresentada umha emenda à lei sobre as eleiçons municipais proposta polo partido da ordem, no sentido de que em vez de três anos bastaria que os eleitores municipais tivessem um ano de domicilio. Essa emenda foi derrotada em discussom única, mas essa discussom única demonstrou logo ter sido um erro. Fragmentando-se em facçons hostis o partido da ordem perdera há muito a sua maioria parlamentar independente. Mostrou agora que já nom havia maioria algumha no Parlamento. A Assembleia Nacional tornara-se incapaz de adoptar acordos. Os átomos que a constituíram nom mais se mantinham unidos por qualquer força de coesom; exalara o seu último suspiro; estava morta.

Finalmente, poucos dias antes de catástrofe, a massa extraparlamentar da burguesia devia confirmar solenemente, umha vez mais, a sua ruptura com a burguesia do Parlamento. Thiers que, como herói parlamentar estava mais contagiado do que os demais do mal incurável do cretinismo parlamentar, arquitetara juntamente com o Conselho de Estado, depois da morte do Parlamento, umha nova intriga parlamentar, unia Lei de Responsabilidades, com a qual se pretendia manter o presidente firmemente dentro dos limites da Constituiçom. Assim como a 15 de Setembro, ao lançar a pedra fundamental do novo mercado de Paris, Bonaparte, como um segundo Masaniello, encantara as dames des bales, as mulheres do mercado - é verdade que umha delas representava, em poder efectivo, mais do que 17 burgraves; assim como depois da introduçom da Lei dos Questores ele cativara os tenentes que regalava no Eliseu, assim, agora, a 25 de novembro, arrebatou a burguesia industrial, que se reunira no circo para receber das suas maos medalhas de honra pola Exposiçom Industrial de Londres. Transcreverei aqui a parte significativa do seu discurso, segundo o Journal des Débats:
"Diante de êxitos tam inesperados, creio que tenho razom de reiterar quam grande seria a República Francesa se lhe permitissem defender os seus verdadeiros interesses e reformar as suas instituiçons, ao invés de estar sendo constantemente perturbada, de um lado por demagogos, e de outro por alucinaçons monárquicas. (Fortes, estrondosos e repetidos aplausos de todos os lados do anfiteatro.) As alucinaçons monárquicas retardam todo o progresso e todos os ramos importantes da indústria. Em vez de progresso vê-se apenas luita. Vem-se homens que eram antes os mais zelosos sustentáculos do poder e das prerrogativas reais tornarem-se partidários de umha Convençom com o propósito único de debilitar o poder que emanou do sufrágio universal. (Fortes e repetidos aplausos) Vemos os homens que mais sofrêrom com a Revoluçom, e que mais a deplorárom, provocar umha nova revoluçom, e apenas para amordaçar a vontade da naçom... Prometo-vos tranqüilidade para o futuro" etc. etc. (Bravo, bravo, umha tempestade de bravos.)

A burguesia industrial aclama assim, com aplausos abjetos, o golpe de Estado de 2 de Dezembro, a aniquilaçom do Parlamento a queda do seu próprio domínio, a ditadura de Bonaparte. A trovoada de aplausos de 25 de novembro tivo a sua resposta no troar dos canhons a 4 de Dezembro, e foi na casa Sr. Sallandrouze, um dos que mais aplaudira, que foi cair o maior número de bombas.

Cromwell, quando dissolveu o Parlamento Amplo, entrou sozinho na sala de sessons, puxou o relógio a fim de que tudo acabasse no minuto exacto que tinha fixado e expulsou os membros do Parlamento um por um com insultos hilariantes e humorísticos. Napoleom, de estatura menor que o seu modelo, apresentou-se polo menos perante o Poder Legislativo no 18 Brumário e embora com voz embargada, leu para a Assembleia a sua sentença de morte. O segundo Bonaparte, que, ademais, dispunha de um Poder Executivo muito diferente do de Cromwell ou do de Napoleom, buscou o seu modelo nom nos anais da história do mundo, mas nos anais da Sociedade de 10 de Dezembro, nos anais dos tribunais criminais. Rouba 25 milhsons de francos ao Banco de França, compra o general Magna com 1 milhom, os soldados por 15 francos cada um e um pouco de aguardente, reúne-se secretamente com os seus cúmplices, como um ladrom, na calada da noite, ordena que sejam assaltadas as residências dos dirigentes parlamentares mais perigosos e que Cavaignac, Lamoricière, Leflô, Changarnier, Charras, Thiers, Baze etc. sejam arrancados de seus leitos, que as principais praças de Paris e o edifício do Parlamento sejam ocupados polas tropas e que cartazes escandalosos sejam colocados ao romper do dia nos muros de Paris proclamando a dissoluçom da Assembleia Nacional e do Conselho de Estado, a restauraçom do sufrágio universal e colocando o Departamento do Sena sob estado sítio. Da mesma maneira manda inserir pouco depois no Moniteur um documento falso afirmando que parlamentares influentes se tinham agrupado em torno dele num Conselho de Estado.

O Parlamento acéfalo, reunido no edifício da maine do décimo distrito e consistindo principalmente de legitimistas e orleanistas, vota a deposiçom de Bonaparte entre repetidos gritos de "Viva a República", arenga em vam a multidom curiosa congregada diante do edifício e é finalmente conduzido, sob a custódia de atiradores de precisom africanos, primeiro para o quartel d'Orsay e em seguida, amontoado em carros celulares, é transportado para as penitenciárias de Mazas, Ham e Vincennes. Assim terminárom o partido da ordem, a Assembleia Legislativa e a Revoluçom de Fevereiro. Antes de passar rapidamente às conclusons, façamos um breve resumo da sua história:

I - Primeiro Período: De 24 de Fevereiro a 4 de Maio de 1848. Período de Fevereiro. Prólogo. Comédia da confraternizaçom geral.

II - Segundo Período: Período de constituiçom da república e da Assembleia Nacional Constituinte.

1. De 4 de Maio a 25 de Junho de 1848. Luita de todas as classes contra o proletariado. Derrota do proletariado nas jornadas de Junho.

2. De 25 de Junho a 10 de Dezembro de 1848. Ditadura dos republicanos burgueses puros. Elaboraçom do projecto da Constituiçom. Proclamaçom do estado de sítio em Paris. A ditadura burguesa é posta à margem a 10 de Dezembro com a eleiçom de Bonaparte para presidente.

3. De 20 de Dezembro de 1848 a 28 de Maio de 1849. Luita da Assembleia Constituinte contra Bonaparte e contra o partido da ordem, aliado a Bonaparte. Fim da Assembleia Constituinte. Queda da burguesia republicana.

III- Terceiro Período: Período da república constitucional da Assembleia Legislativa Nacional.

1. De 28 de Maio de 1849 a 13 de Junho de 1849. Luita da pequena burguesia contra a burguesia e contra Bonaparte. Derrota da democracia pequeno-burguesa.

2. De 13 de Junho de 1849 a 31 de Maio de 1850. Ditadura parlamentar do partido da ordem. Completa o seu domínio com a aboliçom do sufrágio universal, mas perde o ministério parlamentar.

3. De 31 de Maio de 1850 a 2 de Dezembro de 1851. Luita entre a burguesia parlamentar e Bonaparte.

a) De 31 de Maio de 1850 a 12 de Janeiro de 1851. O Parlamento perde o controlo supremo do exército.

b) De 12 de Janeiro a 11 de abril de 1851. Leva a pior nas suas tentativas de recuperar o poder administrativo. O partido da ordem perde a sua maioria parlamentar independente. A sua aliança com os republicanos e a Montanha.

c) De 11 de abril de 1851 a 9 de outubro de 1851. Tentativas de revisom, fusom, prorrogaçom. O partido da ordem se decompom nas suas partes integrantes. Torna-se definitiva a ruptura do Parlamento burguês e da imprensa burguesa com a massa da burguesia.

d) De 9 de outubro a 2 de Dezembro de 1851. Franca ruptura do Parlamento com o Poder Executivo. O Parlamento consuma o seu derradeiro acto e sucumbe, abandonado pola sua própria classe, polo exército e por todas as demais classes. Fim do regime parlamentar e do domínio burguês. Vitória de Bonaparte. Paródia de restauraçom do império.

 

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O 18 BRUMÁRIO DE LUIS BONAPARTE. Karl Marx

 

Capítulo VII

 

No umbral da Revoluçom de Fevereiro, a república social apareceu como umha frase, como umha profecia. Nas jornadas de Junho de 1848 foi afogada no sangue do proletariado de Paris, mas ronda os subseqüentes actos da peça como um fantasma. A república democrática anuncia o seu advento. A 13 de Junho de 1849 é dispersada juntamente com a sua pequena burguesia, que se pujo em fuga, mas que na corrida se vangloria com redobrada arrogáncia. A república parlamentar, juntamente com a burguesia, apossa-se de todo o cenário; goza a vida em toda a sua plenitude, mas o 2 de Dezembro de 1851 a enterra sob o acompanhamento do grito de agonia dos monárquicos coligados: "Viva a República!"

A burguesia francesa rebelou-se contra o domínio do proletariado trabalhador; levou ao poder o lúmpen proletariado tendo à frente o chefe da Sociedade de 10 de Dezembro. A burguesia conservava a França resfolegando de pavor ante os futuros terrores da anarquia vermelha; Bonaparte descontou para ela esse futuro quando, a 4 de Dezembro, fijo com que o exército da ordem, inspirado pola aguardente, fuzilasse nas suas janelas os eminentes burgueses do Bulevar Montmartre e do Bulevar des Italiens. A burguesia fijo a apoteose da espada; a espada a domina. Destruiu a imprensa revolucionária; a sua própria imprensa foi destruída. Colocou as reunions populares sob a vigiláncia da polícia; os seus salons estám sob a Guarda Nacional democrática; a sua própria Guarda Nacional foi dissolvida. Impujo o estado de sítio; o estado de sítio foi-lhe imposto. Substituiu os júris por comissons militares; os seus júris som substituídos por comissons militares. Submeteu a educaçom pública ao domínio dos padres; os padres submetem-na à educaçom deles. Desterrou pessoas sem julgamento; está sendo desterrada sem julgamento. Reprimiu todos os movimentos da sociedade através do poder do Estado; todos os movimentos da sua sociedade som reprimidos polo poder do Estado. Levada polo amor à própria bolsa, rebelou-se contra os seus políticos e homens de letras; os seus políticos e homens de letras foram postos de lado, mas a sua bolsa está sendo assaltada agora que a sua boca foi amordaçada e a sua pena quebrada. A burguesia nom se cansava de gritar à revoluçom o que Santo Arsênio gritou aos cristams: Fuge, tace, quíesce! (Foge, cala, sossega!) Agora é Bonaparte que grita à burguesia: Fuge, tace, quiesce!

A burguesia francesa há muito encontrara a soluçom para o dilema de Napoleom: Dans cinquante ans l'Europe sera republicaine ou cosaque![2] Encontrara a soluçom na république cosaque. Nengumha Circe[3], por meio de encantamentos, transformara a obra de arte que era a república burguesa, num monstro. A república nom perdeu senom a aparência de respeitabilidade. A França de hoje já estava contida, na sua  forma completa, na república parlamentar. Faltava apenas um golpe de baioneta para que a bolha arrebentasse e o monstro saltasse diante dos nossos olhos.

Por que o proletariado de Paris nom se revoltou depois de 2 de Dezembro?

A queda da burguesia mal fora decretada; o decreto ainda nom tinha sido executado. Qualquer insurreiçom séria do proletariado teria imediatamente instilado vida nova à burguesia, a teria reconciliado com o exército e assegurado aos operários umha segunda derrota de Junho.

A 4 de Dezembro, o proletariado foi incitado à luita por burgueses e vendeiros. Naquela noite, várias legisons da Guarda Nacional prometêrom aparecer, armadas e uniformizadas na cena da luita. Burgueses e vendeiros tinham tido notícia de que, num dos seus decretos de 2 de Dezembro, Bonaparte abolira o voto secreto e ordenava que marcassem "sim" ou "nom", adiante dos seus nomes, nos registros oficiais. A resistência de 4 de Dezembro intimidou Bonaparte. Durante a noite mandou que fossem colocados cartazes em todas as esquinas de Paris, anunciando a restauraçom do voto secreto. O burguês e o vendeiro imaginárom que tinham alcançado seu objectivo. Os que deixárom de comparecer na manhá seguinte fôrom o burguês e o vendeiro.

Por meio de um coup de main durante a noite de 1º para 2 de Dezembro Bonaparte despojara o proletariado de Paris dos seus dirigentes, os comandantes das barricadas. Um exército sem oficiais, avesso a luitar sob a bandeira dos montagnards devido às recordaçons de Junho de 1848 e 1849 e Maio de 1850, deixou à sua vanguarda, as sociedades secretas, a tarefa de salvar a honra insurrecional de Paris. Esta Paris, a burguesia a abandonara tam passivamente à soldadesca, que Bonaparte pudo mais tarde apresentar zombeteiramente como pretexto para desarmar a Guarda Nacional o medo de que as suas armas fossem voltadas contra ela própria polos anarquistas!

Cest le triomphe complet et définitif du Socialisme![4] Assim caracterizou Guizot o 2 de Dezembro. Mas se a derrocada da república parlamentar encerra em si o germe da vitória da revoluçom proletária, o seu resultado imediato e palpável foi a vitória de Bonaparte sobre o Parlamento, do Poder Executivo sobre o Poder Legislativo, da força sem frases sobre a força das frases. No Parlamento a naçom tornou a lei a sua vontade geral, isto é, tornou a sua vontade geral a lei da classe dominante. Renuncia, agora, ante o Poder Executivo, a toda vontade própria e submete-se aos ditames superiores de umha vontade estranha, curva-se diante da autoridade. O Poder Executivo, em contraste com o Poder Legislativo, expressa a heteronomia de umha naçom, em contraste com a sua autonomia. A França, portanto, parece ter escapado ao despotismo de umha classe apenas para cair sob o despotismo de um indivíduo, e, o que é ainda pior, sob a autoridade de um indivíduo sem autoridade. A luita parece resolver-se de tal maneira que todas as classes, igualmente impotentes e igualmente mudas, caem de joelhos diante da culatra do fuzil.

Mas a revoluçom é profunda. Ainda está passando polo purgatório. Executa metodicamente a sua tarefa. A 2 Dezembro concluíra a metade do seu trabalho preparatório; conclui agora a outra metade. Primeiro aperfeiçoou o poder do Parlamento, a fim de poder derrubá-lo. Umha vez conseguido isso, aperfeiçoa o Poder Executivo, o reduz a sua expressom mais pura, isola-o, lança-o contra si próprio como o único alvo, a fim de concentrar todas as suas forças de destruiçom contra ele. E quando tiver concluído essa segunda metade do seu trabalho preliminar, a Europa se levantará de um salto e exclamará exultante: Belo trabalho, minha boa toupeira!

Esse Poder Executivo, com a sua imensa organizaçom burocrática e militar, com a sua engenhosa máquina do Estado, abrangendo amplas camadas com um exército de funcionários totalizando meio milhom, além de mais meio milhom de tropas regulares, esse tremendo corpo de parasitas que envolve como umha teia o corpo da sociedade francesa e sufoca todos os seus poros, surgiu ao tempo da monarquia absoluta, com o declínio do sistema feudal, que contribuiu para apressar. Os privilégios senhoriais dos senhores de terras e das cidades transformárom-se em outros tantos atributos do poder do Estado, os dignitários feudais em funcionários pagos e o variegado mapa dos poderes absolutos medievais em conflito entre si, no plano regular de um poder estatal cuja tarefa está dividida e centralizada como numha fábrica. A primeira Revoluçom Francesa, na sua  tarefa de quebrar todos os poderes independentes - locais, territoriais, urbanos e provinciais - a fim de estabelecer a unificaçom civil da naçom, tinha forçosamente que desenvolver o que a monarquia absoluita começara: a centralizaçom, mas ao mesmo tempo o ámbito, os atributos e os agentes do poder governamental. Napoleom aperfeiçoara essa máquina estatal. A monarquia legitimista e a monarquia de Julho nada mais figérom do que acrescentar maior divisom do trabalho, que crescia na mesma proporçom em que a divisom do trabalho dentro da sociedade burguesa criava novos grupos de interesses e, por conseguinte, novo material para a administraçom do Estado. Todo interesse comum (gemeinsame) era imediatamente cortado da sociedade, contraposto a ela como um interesse superior, geral (allgemeins), retirado da actividade dos próprios membros da sociedade e transformado em objecto da actividade do governo, desde a ponte, o edifício da escola e a propriedade comunal de umha aldeia, até as estradas de ferro, a riqueza nacional e as universidades da França. Finalmente, na sua  luita contra a revoluçom, a república parlamentar viu-se forçada a consolidar, juntamente com as medidas repressivas, os recursos e a centralizaçom do poder governamental. Todas as revoluçons aperfeiçoárom essa máquina, ao invés de destroçá-la. Os partidos que disputavam o poder encaravam a posse dessa imensa estrutura do Estado como o principal espólio do vencedor.

Mas sob a monarquia absoluta, durante a primeira Revoluçom, sob Napoleom, a burocracia era apenas o meio de preparar o domínio de classe da burguesia. Sob a Restauraçom, sob Luís Filipe, sob a república parlamentar, era o instrumento da classe dominante, por muito que luitasse por estabelecer o seu próprio domínio.

Unicamente sob o segundo Bonaparte o Estado parece tornar-se completamente autónomo. A máquina do Estado consolidou a tal ponto a sua posiçom em face da sociedade civil que lhe basta ter à frente o chefe da Sociedade de 10 de Dezembro, um aventureiro surgido de fora, glorificado por umha soldadesca embriagada, comprada com aguardente e salsichas e que deve ser constantemente recheada de salsichas. Daí o pusilánime desalento, o sentimento de terrível humilhaçom e degradaçom que oprime a França e lhe corta a respiraçom. A França se sente desonrada.

E, nom obstante, o poder estatal nom está suspenso no ar. Bonaparte representa umha classe, e justamente a classe mais numerosa da sociedade francesa, os pequenos (Parzellen) camponeses.

Assim como os Bourbons representavam a grande propriedade territorial e os Orléans a dinastia do dinheiro, os Bonapartes som a dinastia dos camponeses, ou seja, da massa do povo francês. O eleito do campesinato nom é o Bonaparte que se curvou ao Parlamento burguês, mas o Bonaparte que o dissolveu. Durante três anos as cidades tinham conseguido falsificar o significado da eleiçom de 10 de Dezembro e roubar aos camponeses a restauraçom do Império. A eleiçom de 10 de Dezembro de 1848 só se consumou com o golpe de Estado de 2 de Dezembro de 1851.

Os pequenos camponeses constituem umha imensa massa, cujos membros vivem em condiçons semelhantes mas sem estabelecerem relaçons multiformes entre si. O seu modo de produçom os isola uns dos outros, em vez de criar entre eles um intercámbio mútuo. Esse isolamento é agravado polo mau sistema de comunicaçons existente na França e pola pobreza dos camponeses. O seu campo de produçom, a pequena propriedade, nom permite qualquer divisom do trabalho para o cultivo, Nengumha aplicaçom de métodos científicos e, portanto, Nengumha diversidade de desenvolvimento, Nengumha variedade de talento, Nengumha riqueza de relaçons sociais. Cada família camponesa é quase auto-suficiente; ela própria produz inteiramente a maior parte do que consome, adquirindo assim os meios de subsistência mais através de trocas com a natureza do que do intercámbio com a sociedade. Umha pequena propriedade, um camponês e a sua família; ao lado deles outra pequena propriedade, outro camponês e outra família. Algumha dezenas delas constituem umha aldeia, e algumhas dezenas de aldeias constituem um Departamento. A grande massa da naçom francesa é, assim, formada pola simples adiçom de grandezas homólogas, da mesma maneira que batatas num saco constituem um saco de batatas. Na medida em que milhsons de famílias camponesas vivem em condiçons económicas que as sepárom umhas das outras, e oponhem o seu modo de vida, os seus interesses e a sua cultura aos das outras classes da sociedade, estes milhsons constituem umha classe. Mas na medida em que existe entre os pequenos camponeses apenas umha ligaçom local e em que a similitude dos seus interesses nom cria entre eles comunidade algumha, ligaçom nacional algumha, nem organizaçom política, nessa exata medida nom constituem umha classe. Som, conseqüentemente, incapazes de fazer valer o seu interesse de classe no seu próprio nome, quer através de um Parlamento, quer através de umha Convençom. Nom podem representar-se, tenhem que ser representados. O seu representante tem, ao mesmo tempo, que aparecer como o seu senhor, como autoridade sobre eles, como um poder governamental ilimitado que os protege das demais classes e que do alto lhes manda o sol ou a chuva. A influência política dos pequenos camponeses, portanto, encontra a sua expressom final no facto de que o Poder Executivo submete ao seu domínio a sociedade.

A tradiçom histórica originou nos camponeses franceses a crença no milagre de que um homem chamado Napoleom restituiria a eles toda a glória passada. E surgiu um indivíduo que se fai passar por esse homem porque carrega o nome de Napoleom, em virtude do Code Napoléon[5], que estabelece: La recherche de la paternité est interdite[6]. Depois de 20 anos de vagabundagem e depois de umha série de aventuras grotescas, a lenda se consuma e o homem se torna imperador dos franceses. A ideia fixa do sobrinho realizou-se porque coincidia com a ideia fixa da classe mais numerosa do povo francês.

Mas, pode-se objetar: e os levantes camponeses na metade da França, as investidas do exército contra os camponeses, as prisons e deportaçons em massa de camponeses?

A França nom experimentara, desde Luís XIV, umha semelhante perseguiçom de camponeses "por motivos demagógicos".

É preciso que fique bem claro. A dinastia de Bonaparte representa nom o camponês revolucionário, mas o conservador; nom o camponês que luita para escapar às condiçons da sua existência social, a pequena propriedade, mas antes o camponês que quer consolidar a sua propriedade; nom a populaçom rural que, ligada à das cidades, quer derrubar a velha ordem de cousas por meio dos seus próprios esforços, mas, polo contrário, aqueles que, presos por essa velha ordem num isolamento embrutecedor, querem ver-se a si próprios e as suas propriedades salvos e beneficiados polo fantasma do Império. Bonaparte representa nom o esclarecimento, mas a superstiçom do camponês; nom o seu bom-senso, mas o seu preconceito; nom o seu futuro, mas o seu passado; nom a sua moderna Cevènnes, mas a sua moderna Vendée.

Os três anos de rigoroso domínio da república parlamentar tinham libertado umha parte dos camponeses franceses da ilusom napoleónica, revolucionando-os ainda que apenas superficialmente; mas os burgueses reprimiam-nos violentamente, cada vez que se punham em movimento. Sob a república parlamentar a consciência moderna e a consciência tradicional do camponês francês disputárom a supremacia. Esse progresso tomou a forma de umha luita incessante entre os mestres-escola e os padres. A burguesia derrotou os mestres-escola. Pola primeira vez os camponeses figérom esforços para se comportarem independentemente em face da actuaçom do governo. Isto manifestava-se no conflito contínuo entre os maires e os prefeitos. A burguesia depujo os maires. Finalmente, durante o período da república parlamentar, os camponeses de diversas localidades levantárom-se contra a sua própria obra, o exército. A burguesia castigou-nos com estados de sítio e expediçons punitivas. E essa mesma burguesia clama agora contra a estupidez das massas, contra a ville multitude[7] que a traiu em favor de Bonaparte. Ela própria forçou a consolidaçom das simpatias do campesinato polo Império e mantivo as condiçons que originam essa religiom camponesa. A burguesia, é bem verdade, deve forçosamente temer a estupidez das massas enquanto essas se mantenhem conservadoras, assim como a sua clarividência, tam logo se tornam revolucionárias.

Nos levantes ocorridos depois do golpe de Estado parte dos camponeses franceses protestou de armas na mao contra o resultado do seu próprio voto a 10 de Dezembro de 1848. A experiência adquirida desde aquela data abrira-lhes os olhos. Mas tinham entregado a alma às forças infernais da história; a história obrigou-nos a manter a palavra empenhada, e a maioria estava ainda tam cheia de preconceitos que justamente nos Departamentos mais vermelhos a populaçom camponesa votou abertamente em favor de Bonaparte. Na sua  opiniom a Assembleia Nacional impedira a marcha de Bonaparte. Este limitara-se agora a romper as cadeias que as cidades tinham imposto à vontade do campo. Em algumhas localidades os camponeses chegárom a abrigar a ideia ridícula de umha Convençom lado a lado com Napoleom.

Depois que a primeira Revoluçom transformara os camponeses de semi-servidom em proprietários livres, Napoleom confirmou e regulamentou as condiçons sob as quais podiam dedicar-se à exploraçom do solo francês que acabava de lhes ser distribuído e saciar a sua ánsia juvenil de propriedade. Mas o que, agora, provoca a ruína do camponês francês é precisamente a própria pequena propriedade, a divisom da terra, a forma de propriedade que Napoleom consolidou na França; justamente as condiçons materiais que transformárom o camponês feudal em camponês proprietário, e Napoleom em imperador. Duas geraçons bastárom para produzir o resultado inevitável: o arruinamento progressivo da agricultura, o endividamento progressivo do agricultor. A forma "napoleónica" de propriedade, que no princípio do século XIX constituía a condiçom para libertaçom e enriquecimento do camponês francês, desenvolveu-se no decorrer desse século na lei da sua escravizaçom e pauperizaçom. E esta, precisamente, é a primeira das idées napoléoniennes que o segundo Bonaparte tem que defender. Se ele ainda compartilha com os camponeses a ilusom de que a causa da ruína deve ser procurada, nom na pequena propriedade em si, mas fora dela, na influência de circunstáncias secundárias, as suas experiências arrebentarám como bolhas de sabom quando entrarem em contato com as relaçons de produçom.

O desenvolvimento económico da pequena propriedade modificou radicalmente a relaçom dos camponeses para com as demais classes da sociedade. Sob Napoleom a fragmentaçom da terra rio interior suplementava a livre concorrência e o começo da grande indústria nas cidades. O campesinato era o protesto ubíquo contra a aristocracia dos senhores de terra que acabara de ser derrubada. As raízes que a pequena propriedade estabeleceu no solo francês privárom o feudalismo de qualquer meio de subsistência. Os seus marcos formavam as fortificaçons naturais da burguesia contra qualquer ataque de surpresa por parte dos seus antigos senhores. Mas no decorrer do século XIX, os senhores feudais foram substituídos polos usurários urbanos; o imposto feudal referente à terra foi substituído pola hipoteca; a aristocrática propriedade territorial foi substituída polo capital burguês. A pequena propriedade do camponês é agora o único pretexto que permite ao capitalista retirar lucros, juros e renda do solo, ao mesmo tempo que deixa ao próprio lavrador o cuidado de obter o próprio salário como puder. A dívida hipotecária que pesa sobre o solo francês impom ao campesinato o pagamento de umha soma de juros equivalentes aos juros anuais do total da dívida nacional británica. A pequena propriedade, nessa escravizaçom ao capital a que o seu desenvolvimento inevitavelmente conduz, transformou a massa da naçom francesa em trogloditas. Dezesseis milhsons de camponeses (inclusive mulheres e crianças) vivem em antros, a maioria dos quais só dispom de umha abertura, outros apenas duas e os mais favorecidos apenas três. E as janelas som para umha casa o que os cinco sentidos som para a cabeça. A ordem burguesa, que no princípio do século pujo o Estado para montar guarda sobre a recém-criada pequena propriedade e premiou-na com lauréis, tornou-se um vampiro que suga o seu sangue e a sua medula, atirando-o no caldeirom alquimista do capital. O Code Napoléon já nom é mais do que um código de arrestos, vendas forçadas e leilsons obrigatórios. Aos 4 milhsons (inclusive crianças etc.), oficialmente reconhecidos, de mendigos, vagabundos, criminosos e prostitutas da França devem ser somados 5 milhsons que pairam à margem da vida e que ou tenhem o seu pouso no próprio campo ou, com os seus molambos e os seus filhos, constantemente abandonam o campo polas cidades e as cidades polo campo. Os interesses dos camponeses, portanto, já nom estam mais, como ao tempo de Napoleom, em consonáncia, mas sim em oposiçom com os interesses da burguesia, do capital. Por isso os camponeses encontram o seu aliado e dirigente natural no proletariado urbano, cuja tarefa é derrubar o regime burguês. Mas o governo forte e absoluto - e esta é a segunda idée napoléonienne que o segundo Napoleom tem que executar - é chamado a defender pola força essa ordem "material". Essa ordre matériel serve também de mote em todas as proclamaçons de Bonaparte contra os camponeses rebeldes.

Além da hipoteca que lhe é imposta polo capital, a pequena propriedade está ainda sobrecarregada de impostos. Os impostos som a fonte de vida da burocracia, do exército, dos padres e da corte, em suma, de toda a máquina do Poder Executivo. Governo forte e impostos fortes som cousas idênticas. Pola sua própria natureza a pequena propriedade forma umha base adequada a umha burguesia todo-poderosa e inumerável. Cria um nível uniforme de relaçons e de pessoas sobre toda a superfície do país. Dai permitir também a influência de umha pressom uniforme, exercida de um centro supremo, sobre todos os pontos dessa massa uniforme. Aniquila as gradaçons intermediárias da aristocracia entre a massa do povo e o poder do Estado. Provoca, portanto, de todos os lados, a ingerência directa desse poder do Estado e a interposiçom dos seus órgaos imediatos. Finalmente, produz um excesso de desempregados para os quais nom há lugar nem no campo nem nas cidades, e que tentam, portanto, obter postos governamentais como umha espécie de esmola respeitável, provocando a criaçom de postos do governo. Com os novos mercados que abriu a ponta de baioneta, com a pilhagem do continente, Napoleom devolveu com juros os impostos compulsórios. Esses impostos serviam de incentivo à laboriosidade dos camponeses, ao passo que agora despojam o seu trabalho dos seus últimos recursos e completam a sua incapacidade de resistir ao pauperismo. E umha vasta burguesia, bem engalanada e bem alimentada, é a idée napoleoniénne mais do agrado do segundo Bonaparte. Como poderia ser de outra maneira, visto que ao lado das classes existentes na sociedade ele é forçado a criar umha casta artificial, para a qual a manutençom do seu regime se transforma numha questom de subsistência? umha das suas primeiras operaçons financeiras, portanto, foi elevar os salários dos funcionários ao nível anterior e criar novas sinecuras.

Outra ídée napoléonienne é o domínio dos padres como instrumento de governo. Mas na sua  harmonia com a sociedade, na sua  dependência das forças naturais e na sua  submissom à autoridade que a protegia de cima, a pequena propriedade recém-criada era naturalmente religiosa, a pequena propriedade arruinada polas dívidas em franca divergência com a sociedade e com a autoridade e impelida para além das suas limitaçons torna-se naturalmente irreligiosa. O céu era um acréscimo bastante agradável à estreita faixa de terra recém-adquirida, tanto mais quanto dele dependiam as condiçons meteorológicas; mas converte-se em insulto assim que se tenta impingi-lo como substituto da pequena propriedade. O padre aparece entom como mero mastim ungido da polícia terrena - outra idèe napoléonienne. Da próxima vez a expediçom contra Roma terá lugar na própria França, mas em sentido oposto ao do Sr. de Montalembert.

Finalmente, o ponto culminante das idées napoléoniennes é a preponderáncia do exército. O exército era o point d'honneur[8] dos pequenos camponeses, eram eles próprios transformados em heróis, defendendo as suas novas propriedades contra o mundo exterior, glorificando a sua nacionalidade recém-adquirida, pilhando e revolucionando o mundo. A farda era o seu manto de poder; a guerra a sua poesia; a pequena propriedade, ampliada e a alargada na imaginaçom, a sua pátria, e o patriotismo a forma ideal do sentimento da propriedade. Mas os inimigos contra os quais o camponês francês tem agora que defender a sua propriedade nom som os cossacos; som os huissers[9] e os agentes do fisco. A pequena propriedade nom mais está abrangida no que se chama pátria, e sim no registro das hipotecas. O próprio exército já nom é a flor da juventude camponesa; é a flor do pántano do lúmpen proletariado camponês. Consiste em grande parte em remplaçants,[10] em substitutos, do mesmo modo por que o próprio Bonaparte é apenas um remplaçant, um substituto de Napoleom. Os seus feitos heróicos consistem agora em caçar camponeses em massa, com antílopes, em servir de gendarme, e se as contradiçons internas do seu sistema expulsarem o chefe da Sociedade de 10 de Dezembro para fora das fronteiras da França, o seu exército, depois de alguns actos de banditismo, colherá nom louros, mas açoites.

Como vemos: todas as idées napoléoniennes som ideias da pequena propriedade, incipiente, no frescor da juventude, para a pequena propriedade na fase da velhice constituem um absurdo. Nom passam de alucinaçons da sua agonia, palavras que som transformadas em frases, espíritos transformados em fantasmas. Mas a paródia do império era necessária para libertar a massa da naçom francesa do peso da tradiçom e para desenvolver em forma pura a oposiçom entre o poder do Estado e a sociedade com a mina progressiva da pequena propriedade, desmorona-se a estrutura do Estado erigida sobre ela A centralizaçom do Estado, de que necessita a sociedade moderna, só surge das minas da maquina governamental burocrático-militar forjada em oposiçom ao feudalismo.

A situaçom dos camponeses franceses nos fornece a resposta ao enigma das eleiçons de 20 e 21 de Dezembro, que levárom o segundo Bonaparte ao topo do Monte Sinai, nom para receber leis mas para ditá-las.

Evidentemente a burguesia nom tinha agora outro jeito senom eleger Bonaparte. Quando os puritanos, no Concilio de Constança, queixavam-se da vida dissoluta a que se entregavam os papas e se afligiam sobre a necessidade de umha reforma moral, o cardeal Pierre d'Ailly bradou-lhes com veemência 'Quando só o próprio demónio pode ainda salvar a Igreja Católica, vos apelais para os anjos de maneira semelhante, depois do golpe ele Estado, a burguesia francesa gritava: Só o chefe da Sociedade de 10 de Dezembro pode salvar a sociedade burguesa! Só d roubo pode salvar a propriedade; o perjúrio, a religiom; a bastardia, a família; a desordem, a ordem!

Como autoridade executiva que se tornou um poder independente, Bonaparte considera a sua missom salvaguardar "a ordem burguesa". Mas a força dessa ordem burguesa está na classe média. Ele se afirma, portanto, como representante da classe média, e promulga decretos nesse sentido. Nom obstante, ele só é alguém devido ao facto de ter quebrado o poder político dessa classe média e de quebrá-lo novamente todos os dias. Conseqüentemente, afirma-se como o adversário do poder político e literário da classe média. Mas ao proteger o seu poder material, gera novamente o seu poder político. A causa deve, portanto, ser mantida viva; o efeito, porém, onde se manifesta, tem que ser liquidado. Mas isso nom pode se dar sem ligeiras confusons de causa e efeito, pois na sua  mútua influência ambos perdem as suas características distintivas. Daí, novos decretos que apagam a linha divisória. Diante da burguesia Bonaparte se considera ao mesmo tempo representante dos camponeses e do povo em geral, que deseja tornar as classes mais baixas do povo felizes dentro da estrutura da sociedade burguesa. Daí novos decretos que roubam de antemao aos "verdadeiros socialistas" a sua arte de governar. Mas acima de tudo, Bonaparte considera-se o chefe da Sociedade de 10 de Dezembro, representante do lúmpen proletariado a que pertencem ele próprio, o seu entourage[11], o seu governo e o seu exército, e cujo interesse primordial é colher benefícios e retirar prêmios da loteria da Califórnia do tesouro do Estado. E sustenta a sua posiçom de chefe da Sociedade de 10 de Dezembro com decretos, sem decretos e apesar dos decretos.

Essa tarefa contraditória do homem explica as contradiçons do seu governo, esse confuso tatear que ora procura conquistar, ora humilhar, primeiro umha classe depois outra e alinha todas elas uniformemente contra ele, essa insegurança prática constitui um contraste altamente cómico com o estilo imperioso e categórico de os seus decretos governamentais, estilo copiado fielmente do tio.

A indústria e o comércio, e, portanto, os negócios da classe média, deverám prosperar em estilo de estufa sob o governo forte. Som feitas inúmeras concessons ferroviárias. Mas o lúmpen proletariado bonapartista tem que enriquecer.

Os iniciados fam tripotage[12] na Bolsa com as concessons ferroviárias. Obriga-se ao Banco a conceder adiantamentos contraacçons ferroviárias. Mas o Banco tem ao mesmo tempo que ser explorado para fins pessoais, e tem portanto que ser bajulado. Dispensa-se o Banco da obrigaçom de publicar relatórios semanais. Acordo leonino do Banco com o governo. É preciso dar trabalho ao povo. Obras públicas som iniciadas. Mas as obras públicas aumentam os encargos do povo no que di respeito a impostos. Reduzem-se, portanto, as taxas mediante um massacre sobre os rentiers[13], mediante a conversom de títulos de 5% em títulos de 4,5%. Mas a classe média tem mais umha vez que receber um douceur[14] Duplica-se, portanto, o imposto do vinho para o povo, que o adquire en détail, e reduz-se à metade o imposto do vinho para a classe média, que a bebe en gros[15] As unions operárias existentes som dissolvidas, mas prometem-se milagres de uniom para o futuro. Os camponeses tenhem que ser auxiliados. Bancos hipotecários que facilitam o seu endividamento e aceleram a concentraçom da propriedade. Mas esses bancos devem ser utilizados para tirar dinheiro das propriedades confiscadas à Casa de Orléans. Nengum capitalista que concordar com essa condiçom, que nom consta do decreto, e o Banco hipotecário fica reduzido a um mero decreto etc. etc.

Bonaparte gostaria de aparecer como o benfeitor patriarcal de todas as classes. Mas nom pode dar a umha classe sem tirar de outra. Assim como no tempo da Fronda dizia-se do duque de Guise que ele era o homem mais oblígeani 4 da França porque convertera todas as suas propriedades em compromissos dos seus partidários para com ele, Bonaparte queria passar como o homem mais obligeant[16] da França e transformar toda a propriedade, todo o trabalho da França em obrigaçom pessoal para com ele. Gostaria de roubar a França inteira a fim poder entregá-la de presente à França, ou melhor, a fim de poder comprar novamente a França com dinheiro francês, pois como chefe da Sociedade de 10 de Dezembro, tem que comprar o que devia pertencer-lhe. E todas as instituiçons do Estado, o Senado, o Conselho de Estado, o Legislativo, a Legiom de Honra, as medalhas dos soldados, os banheiros públicos, os serviços de utilidade pública, as estradas de ferro, o état major[17] da Guarda Nacional com a exceçom das praças, e as propriedades confiscadas à Casa de Orléans tudo se torna parte da instituiçom do suborno. Todo posto do exército ou na máquina do Estado converte-se em meio de suborno. Mas a característica mais importante desse processo, polo qual a França é tomada para que lhe poda ser entregue novamente, som as porcentagens que vam ter aos bolsos do chefe e dos membros da Sociedade de 10 de Dezembro durante a transaçom. O epigrama com o qual a condessa L., amante do Sr. de Morny, caracterizou o confisco das propriedades da Casa de Orléans (Cest le premier vol[18], de l'aígle[19]) pode ser aplicado a todos os voos desta águia, que mais se assemelha a um abutre. Tanto ele como os seus adeptos gritam diariamente uns para os outros, como aquele cartuxo italiano que admoestava o avarento que, com ostentaçom, contava os bens que ainda poderiam sustentá-lo por muitos anos: Tu fai conto sopra i beni, bisogna prima far il conto sopra gli anni[20]. Temendo enganarem-se no cômputo dos anos, contam os minutos. Um bando de patifes abre caminho para si na corte, nos ministérios, nos altos postos do governo e do exército, umha malta cujos melhores elementos, é preciso que se diga, ninguém sabe de onde viérom, umha bohème barulhenta, desmoralizada e rapace, que se enfia nas túnicas guarnecidas de alamares com a mesma dignidade grotesca dos altos dignitários de Soulouque. Pode-se fazer umha ideia perfeita dessa alta camada da Sociedade de 10 de Dezembro quando se reflete que Véron-Crevel é o seu moralista e Granier de Cassagnac o seu pensador. Quando Guizot, durante o seu ministério, utilizou-se desse Granier num jornaleco dirigido contra a oposiçom dinástica, costumava exaltá-lo com esta tirada: C'est le roi des drôles, "é o rei dos palhaços". Seria injusto recordar a Regência ou Luís XV com referência à corte de Luís Bonaparte ou a sua camarilha. Pois "a França já tem passado com freqüência por um governo de favoritas; más nunca antes por um governo de hommes entretenus".

Impelido polas exigências contraditórias da sua situaçom e estando ao mesmo tempo, como um prestidigitador, ante a necessidade de manter os olhares do público fixados sobre ele, como substituto de Napoleom, por meio de surpresas constantes, isto é, ante a necessidade de executar diariamente um golpe de Estado em miniatura, Bonaparte lança a confusom em toda a economia burguesa, viola tudo que parecia inviolável à Revoluçom de 1848, torna alguns tolerantes em face da revoluçom, outros desejosos de revoluçom, e produz umha verdadeira anarquia em nome da ordem, ao mesmo tempo que despoja do seu halo toda a máquina do Estado, profana-a e torna-a ao mesmo tempo desprezível e ridícula. O culto do Manto Sagrado de Treves ele o repete em Paris sob a forma do culto o manto imperial de Napoleom. Mas quando o manto imperial cair finalmente sobre os ombros de Luís Bonaparte, a estátua de bronze de Napoleom ruirá do topo da Coluna Vendôme.

K. MARX

Escrito entre Dezembro de 1851 a Março de 1852.

 



[1] Katzenjammer; ressaca

[2] Dentro de cinqüenta anos a Europa será ou republicana ou cossaca

[3] Deusa da mitologia grega que transformou em porcos os homens de Ulises (Nota da ediçom francesa)

[4] É o triunfo completo e definitivo do Socialismo

[5] Código Napoleónico

[6] É vedada a investigaçom da paternidade

[7] Ville multitude: multidom vil.

[8] Point d'honneur: Ponto de honra

[9] Huissers: Oficiais de justiça

[10] Remplaçants: substitutos

[11] Entourage: adeptos que cercam um líder

[12] Tribotage: trapaça.

[13] Rentiers: os que vivem de rendas

[14] Douceur: propina

[15] En détail: a varejo; en gros: por atacado

[16] Oblígeante: obsequioso

[17] état major: estado-maior.

[18] Vol significa ao mesmo tempo voo e furto

[19] É o primeiro voo (furto) da águia.

[20] Contas os teus bens, deverias antes contar os teus anos.

 

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