CARTA AO CONGRESSO

V.I. LENINE

I

Eu aconselharia muito que neste Congresso fossem introduzidos várias mudanças na nossa estrutura política.

Desejaria expor-vos as consideraçons que acho mais importantes.

Primeiro de todo, situo o aumento de membros do CC até várias dezenas e até mesmo umha centena. Acho que se nom empreendêssemos tal reforma, o nosso Comité Central veria-se ameaçado de grandes perigos, no caso de o curso dos acontecimentos nom ser de todo favorável para nós (e nom podemos contar com isso).

Também tenciono propor ao Congresso que, sob determinadas condiçons, se dê carácter legislativo às decisons do GOSPLAN, cincidindo neste sentido com o camarada Trotski, até certo ponto e sob determinadas condiçons.

No que di respeito ao primeiro ponto, quer dizer, ao aumento do número de membros do CC, acho que isto é necessário tanto para elevar o prestígio do CC como para um trabalho a sério com o objectivo de melhorar o nosso aparelho e de evitar que os conflitos de pequenas partes do CC podam adquirir umha importáncia excessiva para todos os destinos do Partido.

Opino que o nosso Partido está no seu direito de pedir à classe operária de 50 a 100 membros do CC, e que pode recebê-los dela sem pôr demasiado em tensom as suas forças. Esta reforma aumentaria de forma considerável a solidez do nosso Partido e facilitaria-lhe a luita que sustém, rodeado de Estados hostis, luita que, no meu modo de ver, pode e deve agudizar-se muito nos anos próximos. Figura-se-me que, devido a esta medida, a estabilidade do nosso Partido faria-se mil vezes maior.

Lenine
23.XII.22
Taquigrafado por M. V.

II

Continuaçom das notas

24 de Dezembro de 1922

Por estabilidade do Comité Central, de que falava mais arriba, entendo as medidas contra a cisom do grau em que tais medidas podam, em geral, adoptar-se. Porque, naturalmente, tinha razom o guarda branco de Russkaya Mysl (acho que era S. F. Oldenburg) quando, em primeiro lugar, no jogo dessas gentes contra a Rússia Soviética, punha as esperanças na cisom do nosso Partido e quando, no segundo lugar, as esperanças de que se fosse produzir esta cisom cifrava-as em gravíssimas discrepáncias no seio do Partido.

O nosso Partido apoia-se em duas classes, e por isso é possível a sua instabilidade e seria inevitável a sua queda se estas duas classes nom pudessem chegar a um acordo. Seria inútil adoptar umhas ou outras medidas com vistas a esta eventualidade e, em geral, fazer consideraçons a respeito da estabilidade do nosso CC. Nengumha medida seria capaz, neste caso, de evitar a cisom. Mas eu confio em que isto remete para um futuro demasiado remoto e é um acontecimento demasiado improvável para falar dele.

Refiro-me à estabilidade como garantia contra a cisom num próximo futuro, e tenho o propósito de expor aqui várias consideraçons de índole puramente pessoal. Eu acho que o fundamental no problema da estabilidade, deste ponto de vista, som membros do CC como Staline e Trotski. As relaçons entre eles, sob o meu modo de ver, contém mais de metade do perigo dessa cisom que se poderia evitar, e a cujo objecto deve servir entre outras cousas, segundo o meu critério, o alargamento do CC até 50 ou até 100 membros.

O camarada Staline, chegado a Secretário Geral, concentrou nas suas maos um poder imenso, e nom estou certo que sempre saiba utilizá-lo com a suficiente prudência. Por outra parte, o camarada Trotski, segundo demonstra a sua luita contra o CC com motivo do problema do Comissariado do Povo de Vias de Comunicaçom, nom se distingue unicamente pola sua grande capacidade. Pessoalmente, quiçá seja o homem mais capaz do actual CC, mas está demasiado embebido e demasiado atraído polo aspecto puramente administrativo dos assuntos.

Estas duas qualidades de dous destacados chefes do CC actual podem levar sem querê-lo à cisom, e se o nosso Partido nom tomar medidas para o impedir, a cisom pode vir sem ninguém estar à espera.

Nom seguirei caracterizando os restantes membros do CC polas suas qualidades pessoais. Recordarei apenas que o episódio de Zinoviev e Kamenev em Outubro nom é, naturalmente, um acaso, e que disto podem ser culpados pessoalmente tam pouco como Trotski do seu nom bolchevismo.

Quanto aos jovens membros do CC, direi algumhas palavras a respeito de Bukharine e de Piatakov. Som, no meu juízo, os que mais destacam (entre os mais jovens), e neles deveria-se ter mais em conta o seguinte: Bukharine nom só é um valiosíssimo e notabilíssimo teórico do Partido, mas, além disso, é considerado legitimamente o favorito de todo o Partido; mas as suas concepçons teóricas muito dificilmente podem qualificar-se de inteiramente marxistas, pois há nele algo escolástico (nunca estudou e acho que nunca compreendeu por completo a dialéctica).

25.XII. Vem depois Piatakov, homem sem dúvida de grande vontade e grande capacidade, mas a quem atraem demasiado a administraçom e o aspecto administrativo dos assuntos para poder confiar nele um problema político sério.

Naturalmente, umha e outra observaçom som válidas apenas para o presente, no suposto de estes dous destacados e fiéis militantes nom encontrarem ocasiom de completar ao seus conhecimentos e de corrigir a sua unilateral formaçom.

Lenine
25.XII.22
Taquigrafado por M. V.


SUPLEMENTO À CARTA DE 24 DE DEZEMBRO DE 1922


Staline é brusco demais, e este defecto, plenamente tolerável no nosso meio e nas relaçons entre nós, os comunistas, fai-se intolerável no cargo de Secretário Geral. Por isso proponho aos camaradas que pensem a forma de passar Staline para outro posto e de nomear para este cargo outro homem que se diferencie do camarada Staline em todos os restantes aspectos apenas por umha vantagem, a saber: que seja mais tolerante, mais leal, mais correcto e mais atento com os camaradas, menos caprichoso, etc. Esta circunstáncia pode parecer umha fútil pequeneza. Mas eu acho que, do ponto de vista de prevenir a cisom e do ponto de vista do que escrevim antes a respeito das relaçons entre Staline e Trotski, nom é umha pequeneza, ou se trata de umha pequeneza que pode adquirir importáncia decisiva.

Lenine
Taquigrafado por L. F.
4 de Janeiro de 1923


III


Continuaçom das notas.

26 de Dezembro de 1922

O alargamento do CC até 50 ou até mesmo 100 membros deve perseguir, do meu modo de ver, um fim duplo e até triplo: quanto maior for o número de membros do CC, mais gente aprenderá a fazer o trabalho deste e tanto menor será o perigo dumha cisom devida a qualquer imprudência. A incorporaçom de muitos operários ao CC ajudará os operários a melhorarem o nosso aparelho, que é péssimo. No fundo, herdamo-lo do velho regime, visto que foi absolutamente impossível refazê-lo num prazo tam curto, sobretodo com a guerra, com a fame, etc. Por isso podemos contestar tranqüilamente aos "críticos" que com sorriso burlom ou com malícia assinalam os defeitos do nosso aparelho, que som gentes que nom compreendem nada as condiçons da nossa revoluçom. Em cinco anos é impossível por completo reformar o aparelho em medida suficiente, sobretodo vistas as condiçons em que se produziu a nossa revoluçom. Bastante é se em cinco anos temos criado um novo tipo de Estado em que os operários marcham à frente dos camponeses contra a burguesia, o que, considerando as condiçons da hostil situaçom internacional, é umha obra gigantesca. Mas a consciência de que isto é assim nom deve em modo nengum fechar-nos os olhos ante o facto de que, em essência, temos pegado no velho aparelho do czar e da burguesia e que agora, ao advir a paz e cobrir em grau mínimo as necessidades relacionadas com a fame, todo o trabalho deve orientar-se ao melhoramento do aparelho.

Segundo imagino eu as cousas, umhas dezenas de operários incluídos no CC podem, melhor do que qualquer outro, entregar-se ao labor de revisar, melhorar e refazer o nosso aparelho. A Inspecçom Operária e Camponesa, a que num pirncípio pertencia esta funçom, tem sido incapaz de cumpri-la e unicamente pode ser empregue como "apêndice" ou como auxiliar, em determinadas condiçons, destes membros do CC. Os operários que passarem a formar parte do CC devem ser preferentemente, segundo o meu critério, nom os que tenhem actuado longo tempo nas organizaçons soviéticas (nesta parte da carta, o que digo dos operários refere-se também por completo aos camponeses), porque neles tenhem enraizado já certas tradiçons e certos preconceitos com os que é desejável precisamente luitar.

Os operários que se incorporarem ao CC devem ser, de preferência, pessoas que se achem por baixo da capa dos que nos cinco anos passárom a ser funcionários soviéticos, e devem achar-se mais perto dos simples operários e camponeses, que, porém, nom entrem, directa ou indirectamente, na categoria dos exploradores. Acho que esses operários, que assistirám a todas as reunions do CC e do Buró Político, e que lerám todos os documentos do CC, podem ser quadros de fiéis partidários do regime soviético, capazes, primeiro, de dar estabilidade ao próprio CC e, segundo, de trabalhar realmente na renovaçom e melhoramento do aparelho.

Lenine
Taquigrafado por L. F.
26.11.22


IV


Continuaçom das notas.

27 de Dezembro de 1922

Cobre a concessom de funçons legislativas ao GOSPLAN

Esta ideia sugeriu-na o camarada Trotski, acho, há já tempo. Eu manifestei-me contra, porque estimava que, em tal caso, produziria-se umha falta de concordáncia fundamental no sistema das nossas instituiçons legislativas. Mas um exame atento do problema leva-me à conclusom de que, no fundo, aqui há umha ideia saudável: o GOSPLAN acha-se algo à margem das nossas instituiçons legislativas, embora como conjunto de pessoas competentes, de peritos, de homens da ciência e da técnica, se ache, no fundo, nas melhores condiçons para emitir juízos atinados.

Porém, até agora partíamos do ponto de vista de que o GOSPLAN deve apresentar ao Governo um material criticamente analisado, e que as instituiçons governamentais devem ser as encarregadas de resolver os assuntos públicos. Eu acho que na situaçom actual, quando os assuntos públicos se tenhem complicado extraordinariamente, quando a cada passo há que resolver assim como venhem os problemas em que é necessário o ditame dos membros do GOSPLAN sem os separar dos problemas em que nom se necesita, e até mais ainda, resolver assuntos em que uns pontos requerem o ditame do GOSPLAN enquanto outros pontos nom o requerem, deve-se dar um passo no sentido de aumentar a competência do GOSPLAN.

Este passo, entendo-o de tal jeito que as decisons do GOSPLAN nom podam ser rejeitadas segundo o procedimento corrente nos organismos soviéticos, mas que para as modificar seja requerido um procedimento especial; por exemplo, levá-las à reuniom do CEC de toda a Rússia, preparar o assunto cuja decisom deva ser modificada segundo instruçons especiais, redigindo-se, segundo regras especiais, relatórios por escrito com o objectivo de sopesar se a dita decisom do GOSPLAN deve ser anulada; marcar, enfim, prazos especiais para modificar as decisons do GOSPLAN, etc.

Neste senso, acho que se pode e se deve coincidir com o camarada Trotski, mas nom no de que a presidência do GOSPLAN deve ser ocupada por um pessoeiro destacado, um dos nossos chefes políticos, ou o Presidente do Conselho Supremo da Economia Nacional, etc. Parece-me que, neste assunto, o factor pessoal se vincula hoje demasiado intimamente com o problema de princípio. Acho que os ataques que agora se escuitam contra o Presidente do GOSPLAN, camarada Krzhizhanovski, e o Vicepresidente, camarada Piatakov, e que se lançam contra os dous, de tal maneira que, de umha parte, escuitamos acusaçons de extrema brandura, de falta de independência e de carácter, enquanto, de outra parte, escuitamos acusaçons de grosseria, de trato quartelense, de falta de umha sólida preparaçom científica, etc., acho que estes ataques som expressom dos dous aspectos do problema, desorbitando-os até o extremo, e que o que nós necessitamos realmente no GOSPLAN é umha acertada combinaçom dos dous tipos de carácter, modelo de um dos quais pode ser Piatakov e do outro Krzhizhanovski.

Acho que à cabeça do GOSPLAN deve haver umha pessoa com preparaçom científica no sentido técnico ou agronómico, que possua umha longa experiência, de muitas dezenas de anos, de trabalho práctico, quer na técnica, quer na agronomia. Acho que essa pessoa deve possuir nom tanto de aptitudes administrativas como de ampla experiência e capacidade para atrair a gente.

Lenine
27.XII.22
Taquigrafado por M. V.


V


Continuaçom a respeito do carácter legislativo das decisons do GOSPLAN.

28.XII.22

Advertim que certos camaradas nossos, capazes de influir decisivamente na orientaçom dos assuntos públicos, exageram o aspecto administrativo, o qual, naturalmenmte é necessário no seu lugar e no seu tempo, mas que nom há que confundir com o aspecto científico, com a ampla compreensom da realidade, com a capacidade de atrair a gente, etc.

Em toda instituiçom pública, particularmente no GOSPLAN, necessita-se a uniom destas duas qualidades, e quando o camarada Krzhizhanovski me dixo que incorporara Piatakov ao GOSPLAN e se pugesse de acordo com ele a respeito do trabalho, eu dei o meu consentimento, conservando, por umha parte, certas dúvidas, e confiando por vezes, por outra parte, que lograríamos neste caso a combinaçom de ambos os tipos de homem de Estado. Cumpriu-se esta esperança? Agora há que aguardar e ver algum tempo mais o que resulta na prática, mas em princípio eu acho que nom se pode pôr em dúvida que esta uniom de caracteres e tipos (de pessoas, de qualidades) é indubitavelmente necessária para o bom funcionamento das instituiçons públicas. Parece-me que neste ponto o exagero do "zelo administrativo" é tam nociva como todo exagero em geral. O dirigente dumha instituiçom pública deve possuir no mais alto grau a capacidade de atrair a gente e uns conhecimentos científicos e técnicos o bastante sólidos como para controlar o seu trabalho. Isto é o fundamental. Sem isto, o trabalho nom pode ir por bom caminho. Por outro lado, é muito importante que saiba administrar e que tenha um digno auxiliar ou auxiliares neste terreno. É duvidoso que estas duas qualidades se podam encontrar unidas numha só pessoa, e é duvidoso que seja necessário.

Lenine
Taquigrafado por L. F.
28.XII.22


VI


Continuaçom das notas sobre o GOSPLAN

29 de Dezembro de 1922

Polos vistos, o GOSPLAN vai-se convertendo em todos os sentidos numha comissom de peritos. À cabeça de tal instituiçom tem de figurar umha pessoa de grande expriência e de amplos conhecemrntos científicos no terreno de técnica. A capacidade administrativa deve ser no fundo umha cousa secundária. O GOSPLAN deve gozar de certa independência e autonomia do ponto de vista do prestígio desta instituiçom científica, e o motivo de que assim seja é um: a honestidade do seu pessoal e o seu sincero desejo de fazer que se cumpra o nosso plano de construçom económica e social.

Esta última qualidade, naturalmente, agora apenas se pode encontrar como excepçom, porque a imensa maioria dos homens de ciência, dos quais como é lógico se compom o GOSPLAN, acham-se inevitavelmente contagiados de opinions e preconceitos burgueses. Controlar o seu labor neste aspecto deve ser tarefa dumhas quantas pessoas, que podem formar a direcçom do GOSPLAN, que devem ser comunistas e seguir de dia em dia, em toda a marcha do trabalho, o grau de fidelidade dos homens de ciência burgueses e como abandonam os preconceitos burgueses, bem como a sua passgem gradual para o ponto de vista do socialismo. Este duplo trabalho, de controlo científico e de gestom puramente administrativa, deveria ser o ideal dos dirigentes do GOSPLAN na nossa república.

Lenine
Taquigrafado por M. V.
29 de Dezembro de 1922


É racional dividir em tarefas soltas o trabalho que leva a cabo o GOSPLAN? Ou ao contrário, nom deve tender-se a formar um círculo de especialistas permanentes a quem controlar sistematicamente a direcçom do GOSPLAN e que podam resolver todo o conjunto de problemas da sua incumbéncia? Eu acho que é mais racional o último, e que se deve procurar a diminuiçom do número de tarefas soltas temporais e urgentes.

Lenine
29 de Dezembro de 1922
Taquigrafado por M. V.


VII


Continuaçom das notas.

29 de Dezembro de 1922

(PARA A ALÍNEA RELATIVA AO AUMENTO DO NÚMERO DE MEMBROS DO CC)

Ao tempo que aumenta o número dos membros do CC, deveremos, no meu modo de ver, dedicar-nos também, e eu diria que principalmente, à tarefa de revisar e melhorar o nosso aparelho, que nom serve para nada. Para este objecto, devemos valer-nos dos serviços de especialistas muito qualificados, e a tarefa de proporcionar estes especialistas deve recair sobre a IOC (Inspecçom Operária e Camponesa).

A tarefa de combinar estes especialistas da revisom com conhecimentos suficientes e estes novos membros do CC, deve ser resolvida na prática.

Parece-me que a IOC (como resultado do seu desenvolvimento e das nossas perplexidades a respeito do seu desenvolvimento) deu em resumo o que agora observamos: um estado de transiçom de um Comissariado do Povo especial a umha funçom especial dos membros do CC; de umha instituiçom que revisa todo por completo a um conjunto de revisores, escassos em número, mas excelentes, que devem estar bem pagos (isto é particularmente necessário no nosso tempo, em que as cousas se pagam, e atendendo a que os revisores se situam onde melhor som pagos).

Se o número de membros do CC for devidamente aumentado e um ano após outro se capacitarem na direcçom dos assuntos públicos com a ajuda destes especialistas altamente qualificados e dos membros da Inspecçom Operária e Camponesa, prestigiosos em todos os terrenos, eu acho que daremos acertada soluçom a este problema que durante tanto tempo nom podíamos resolver.

Em resumo: até 100 membros do CC e todo o mais de 400 a 500 auxiliares seus, membros da IOC, que revisem segundo as indicaçons dos primeiros.

Lenine
29 de Dezembro de 1922
Taquigrafado por M. V.


Continuaçom das notas

30 de Dezembro de 1922

A RESPEITO DO PROBLEMA DAS NACIONALIDADES OU SOBRE A "AUTONOMIZAÇOM"


Acho que incorrim numha grave culpa perante os operários da Rússia por nom ter intervindo com energia e dureza no decantado problema da autonomizaçom, que oficialmente se denomina, cuido, problema da uniom das repúblicas socialistas soviéticas.
Neste verao, quando o problema surgiu, e estava doente, e mais tarde, no outono, confiei de mais na minha cura e em que os plenos de Outubro e Dezembro me dariam a oportunidade de intervir no problema. Mas nom pudem assistir ao Pleno de Outubro (dedicado a este problema) nem ao de Dezembro, polo que nom cheguei a tocá-lo quase em absoluto.

Pudem apenas conversar com o camarada Dzerzhinski, que tornou do Cáucaso e contou-me como se acha este problema na Geórgia. Também pudem trocar um par de palavras com o camarada Zinoviev e exprimir-lhe os meus temores sobre o particular. O que me dixo o camarada Dzerzhinski, que presidia a comissom enviada polo Comité Central para "investigar" o que di respeito ao incidente de Geórgia, nom pudo deixar-me mais que com temores acrescentados. Se as cousas se pugérom de tam jeito que Ordzhonikidze pudo chegar ao emprego da violência física, segundo me manifestou o camarada Dzerzhinski, podemos imaginar em que chapuceira temos caído. Polos vistos, toda esta empresa da "autonomizaçom" era falsa e intempestiva em absoluto.

Di-se que era necessária a unidade do aparato. Donde partírom tais afirmaçons? Nom será desse mesmo aparato russo que, como indicava já num dos anteriores números do meu diário, tomamos do czarismo, tendo-nos limitado a untá-lo com óleo soviético?

É indubitável que se deveria demorar a aplicaçom desta medida até podermos dizer que respondemos do nosso aparato como algo próprio. Mas agora, em consciência, devemos dizer o contrário, que nós chamamos nosso a um aparato que na verdade nos é ainda alheio por completo e constitui um misto burguês e czarista que nom houvo qualquer hipótese de ultrapassar em cinco anos, sem ajuda de outros países e nuns momentos em que predominavam as "ocupaçons" militares e a luita contra a fame.

Nestas condiçons é muito natural que a "liberdade de separar-se da uniom", com que nós nos justificamos, seja um papel molhado incapaz de defender os nom russos da invasom do russo genuíno, chauvinista, no fundo um homem miserável e dado à violência como é o típico burocrata russo. Nom há qualquer dúvida de que a indignificante percentagem de operários soviéticos e sovietizados afundiria nesse mar de imundícia chauvinista russa como a mosca no leite.

Em defesa desta medida di-se que fôrom segregados os Comissariados do Povo que se relacionam directamente com a psicologia das nacionalidades, com a instruçom nas nacionalidades. Mas a respeito disto ocorre-nos umha pergunta, a de se é possível segregar estes Comissariados por completo, e umha segunda pergunta, a de se temos tomado medidas com a suficiente solicitude para protegermos realmente os nom russos do esbirro genuinamente russo. Eu acho que nom as tomamos, embora pudéssemos e devêssemos tê-lo feito.

Eu acho que neste assunto exercêrom umha influência fatal as pressas e os afáns administrativos de Staline, bem como a sua averson contra o decantado "social-nacionalismo". Via de regra, a aversom sempre exerce em política o pior papel.

Temo igualmente que o camarada Dzerzhinski, que foi ao Cáucaso investigar o assunto dos "delitos" desses "social-nacionais", se tenha distinguido neste caso também só polas suas tendências puramente russas (sabe-se que os nom russos russificados sempre exageram quanto às suas tendências puramente russas), e que a imparcialidade de toda a sua comissom a caracterize suficientemente a "pancada" de Ordzhonikidze. Acho que nengumha provocaçom, mesmo nengumha ofensa, pode justificar esta pancada russa, e que o camarada Dzerzhinski é irremediavelmente culpável de ter reagido ante isso com ligeireza.

Ordzhonikidze era umha autoridade para todos os demais cidadaos do Cáucaso.

Ordzhonikidze nom tinha direito a deixar-se levar pola irritaçom à que ele e Dzerdhinski se remetem. Ao contrário, Ordzhonikidze estava na obriga de se comportar com umha sobriedade que nom se pode pedir a nengum cidadao ordinário, tanto mais se este for acusado de um delito "político". E a realidade é que os social-nacinais eram cidadaos acusados de um delito político, e todo o ambiente em que se produziu esta acusaçom apenas assim podia qualificá-lo.

Relativamente a este assunto, coloca-se já um importante problema de princípio: como compreender o internacionalismo.

Lenine
30.XII.22
Taquigrafado por M. V.


Continuaçom das notas

31 de Decembro de 1922


A RESPEITO DO PROBLEMA DAS NACIONALIDADES OU SOBRE A "AUTONOMIZAÇOM"
(Continuaçom)


Nas minhas obras a respeito do problema nacional tenho já escrito que a formulaçom abstracta do problema do nacionalismo em geral nom serve para nada. Cumpre distinguirmos entre o nacionalismo da naçom da naçom opressora do nacionalismo da naçom oprimida, entre o nacionalismo da naçom grande e o nacionalismo da naçom pequena.

No que di respeito ao segundo nacionalismo, nós, os integrantes de umha naçom grande, quase sempre somos culpáveis no terreno prático histórico de infinitos actos de violência; e mesmo mais: sem dar-nos conta, cometemos infinito número de actos de violência e ofensas. Nom tenho mais do que evocar as minhas lembranças de como nas regions do Volga tratam despectivamente os nom russos, de como a única maneira de chamar os polacos es "poliáchishka", de que para burlar-se dos tártaros sempre os chamam "príncipes", o ucraniano chamam-no "jojol", e o georgiano e os demais naturais do Cáucaso chamam-nos "homens do Capciosa".

Por isso, o internacionalismo por parte da naçom opressora ou da chamada naçom "grande (embora seja só grande polas suas violências, só como o é um esbirro) nom deve reduzir-se a observar a igualdade formal das naçons, quanto também a observar umha desigualdade que de parte da naçom opressora, da naçom grande, compense a desigualdade que praticamente se produz na vida. Quem nom tenha compreendido isto, nom tem compreendido a posiçom verdadeiramente proletária face ao problema nacional; no fundo, continua a manter o ponto de vista pequenoburguês, e por isso nom pode evitar escorregar a cada instante ao ponto de vista burguês.

O quê é importante para o proletário? Para o proletário é nom só importante, mas umha necessidade essencial, gozar, na luita proletária de classe, do máximo de confiança pola parte dos componentes de outras nacionalidade. O que fai falta para isso? Para isso cumpre mais algo do que a igualdade formal. Para isso, cumpre compensar de umha maneira ou de outra, com o seu trato ou com as suas concessons às outras nacionalidades, a desconfiança, o receio, as ofensas que no passado histórico lhes produziu o governo da naçom dominante.

Acho que nom cumprem mais explicaçons nem entrarmos em mais pormenores tratando-se de bolcheviques, de comunistas, e creio que neste caso, no que atinge à naçom georgiana, temos um exemplo típico de como é que a atitude verdadeiramente proletária exige da nossa parte extremada cautela, delicadeza e transigência. O georgiano que desdenha este aspecto do problema, que lança desdenhosamente acusaçons de "social-nacionalismo" (quando ele próprio é nom apenas um "social-nacional", autêntico e verdadeiro, senom um basto esbirro russo), esse geórgico magoa, em essência, os interesses da solidariedade proletária de classe, porque nada demora tanto o desenvolvimento e a consolidaçom desta solidariedade como a injustiça no terreno nacional, e para nada som tam sensíveis os "ofendidos" componentes de umha nacionalidade como para o sentimento da igualdade e o desprezo dessa igualdade pola parte dos seus camaradas proletários, embora o fagam por negligência, embora a cousa semelhe umha brincadeira. E isso, neste caso, é preferível exagerar quanto às concessons e a suavidade com as minorias nacionais, do que pecar por defeito. Por isso, neste caso, o interesse vital da solidariedade proletária e portanto da luita proletária de classe, requer que jamais olhemos formalmente o problema nacional, senom que sempre levemos em conta a diferença obrigatória na atitude do proletário da naçom oprimida (ou pequena) para a naçom opressora (ou grande).


Lenine
Taquigrafado por M. V.
31.XII.22


Continuaçom das notas.

31 de Dezembro de 1922


Quê medidas práticas se devem tomar nesta situaçom?

Primeira, cumpre manter e fortalecer a uniom das repúblicas socialista; sobre isto nom pode haver dúvida. Necessitamo-lo nós o mesmo que o necessita o proletariado comunista mundial para luitar contra a burguesia mundial e para defender-se das suas intrigas.

Segunda, cumpre manter a uniom das repúblicas socialistas no que atinge ao aparato diplomático, que, dito seja de passagem, é umha excepçom no conjunto do nosso aparato estatal. Nom deixamos entrar nele nem umha só pessoa de certa influência procedente do velho aparato czarista. Todo ele, considerando os cargos de algumha importáncia, compom-se de comunistas. Por isso, este aparato tem ganhado já (podemos dizê-lo rotundamente) o título de aparato comunista provado, limpo, em grau incomparavelmente maior, dos elementos do velho aparato czarista, burguês e pequenoburguês, a que nos vemos na obriga de recorrer nos outro Comissariados do Povo.

Terceira, cumpre punir exemplarmente o camarada Ordzhonikidze (digo isto com grande sentimento, porque somos amigos e trabalhei com ele no estrangeiro, na emigraçom) e também terminar de revisar ou revisar de novo todos os materiais da comissom de Dzerzhinski, com o fim de corrigir o cúmulo de erros e de juízos parcelares que indubitavelmente ali há. A responsabilidade política de toda esta campanha de verdadeiro nacionalismo russo deve fazer-se recair, é claro, sobre Staline e Dzerzhinski.

Quarta, cumpre implantar as normas mais severas no atinente ao emprego do idioma nacional nas repúblicas de outras nacionalidades que fam parte da nossa Uniom, e comprovarmos o seu cumprimento com particular cuidado. Sem qualquer dúvida, com o pretexto de unidade do serviço do caminho-de-ferro, com o pretexto da unidade fiscal, etc., tal como agora é o nosso aparato, escorregará um grande número de abusos de carácter puramente russo. Para combatermos esses abusos, precisa-se de um especial espírito de inventiva, sem falarmos já da particular sinceridade de quem se encarregar de fazê-lo. Cumprirá um código detalhado, que apenas terá qualquer perfeiçom se redigido por pessoas da nacionalidade em questom e que morem na sua república. A respeito disto, de maneira nengumha devemos afirmar-nos de antemao na ideia de que, como resultado de todo este trabalho, nom haja que recuar no seguinte Congresso dos Sovietes, quer dizer, de que nom cumpra manter a uniom das repúblicas soviéticas apenas no senso militar e diplomático, e em todos os restantes aspectos restabelecermos a autonomia completa dos distintos Comissariados do Povo.

Deve ter-se presente que o fraccionamento dos Comissariados do Povo e a falta de concordáncia do seu labor relativamente a Moscovo e os outros centros, podem ser paralisados suficientemente pola autoridade do Partido, se esta for empregue com a necessária discreçom e imparcialidade; o dano que o nosso Estado puder sofrer pola falta de aparatos nacionais unificados com o aparato russo é incalculavelmente, infinitamente menor do que o dano que representaria nom só para nos, quanto para todo o movimento internacional, para os centos milhons de seres da Ásia, que deve avançar ao primeiro plano da história num próximo futuro, depois de nós. Seria um oportunismo imperdoável se em vésperas deste acçom do Oriente, e ao princípio do seu despertar, quebrantássemos o nosso prestígio nele embora só fosse com a mais pequena aspereza e injustiça a respeito das nossas próprias nacionalidades nom russas. Umha cousa é a necessidade de se agrupar contra os imperialistas de Ocidente, que defendem o mundo capitalista. Neste caso nom pode haver dúvidas, e nem cumpre dizer que aprovo incondicionalmente estas medidas. Outra cousa é quando nós mesmos ciamos, ainda que seja em miudezas, em atitude imperialistas com as naçons oprimidas, quebrando destarte por completo toda a nossa sinceridade de princípios, toda a defesa que, consoante com os princípios, fazemos da luita contra o imperialismo. E o manhá da história universal será o dia em que despertem devez o povos oprimidos polo imperialismo, que já abrírom os olhos, e que comece já a longa e dura batalha final pola sua emancipaçom.

Lenine 31.XII.22

Taquigrafado por M. V.


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