Mensagem
do Comité Central à Liga dos Comunistas (Londres, março
de 1850)
Karl Marx e Friedrich Engels
Do Comité
Central à Liga
Irmaos: Durante
os dous anos revolucionários de 1848 e 1849, a Liga atravessou galhardamente
umha dupla prova: primeiro, porque os seus membros participaram energicamente
do movimento em todos os lugares onde ele se deu e porque, na imprensa, nas
barricadas e nos campos de batalha, estivérom na vanguarda da única
classe verdadeiramente revolucionária - o proletariado. Ademais, porque
a concepçom que a Liga tinha do movimento, tal como foi formulada nas
circulares dos congressos e do Comité Central, em 1847, assim como
no Manifesto Comunista, se revelou a única acertada; porque as esperanças
manifestadas nesses documentos se confirmaram plenamente, e os pontos de vista
sobre as condiçons sociais do momento, que a Liga até entom
só divulgara secretamente, se acham agora na boca de todo o mundo e
som defendidos abertamente nas praças públicas. Ao mesmo tempo,
a primitiva e sólida organizaçom da Liga debilitou-se de modo
considerável. Grande parte dos seus membros - os que participam directamente
do movimento revolucionário - acreditava que já passara a época
das sociedades secretas e que bastava a atividade pública. Alguns círculos
e comunidades fôrom enfraquecendo os seus laços com o Comité
Central e terminárom por extingui-los pouco a pouco.
Assim, pois, enquanto o partido democrático, o partido da pequena-burguesia,
fortalecia sua organizaçom na Alemanha, o partido operário perdia
sua única base firme, conservava a custo sua organizaçom em
algumhas localidades, para fins exclusivamente locais e, por isso, no movimento
geral caiu por completo sob a influência e a direçom dos democratas
pequeno-burgueses.
É necessário acabar com tal estado de cousas, é preciso
restabelecer a independência dos operários. Compreendendo esta
necessidade, o Comité Central, já no inverno de 1848-1849, enviou
Joseph Moll com a missom de reorganizar a Liga na Alemanha. A missom de Moll
nom produziu o resultado desejado, em parte porque os operários alemáns
nom tinham experiência suficiente e em parte por que tal experiência
se interrompeu em virtude da insurreiçom de maio do ano passado. O
próprio Moll, que empunhou armas e se incorporou ao exército
de Baden-Palatinado, tombou no encontro de 19 de Julho, nas imediaçons
de Murg. A Liga perdeu nele um dos membros mais antigos, mais activos e mais
seguros, que participara de todos os congressos e comités centrais
e que já realizara antes, com grande êxito, várias missons
no exterior. Depois da derrota dos partidos revolucionários da Alemanha
e França, em Julho de 1849, quase todos os membros do Comité
Central voltaram a reunir-se em Londres, preencheram as suas fileiras com
novas forças revolucionárias e empreenderam com renovada energia
a tarefa de reorganizar a Liga.
Esta reorganizaçom só pode ser alcançada por um enviado
especial, e o Comité Central acha que é de grande importância
que esse enviado parta precisamente agora, quando é iminente umha nova
revoluçom, quando, portanto, o partido operário deve agir de
modo mais organizado, mais unánime e mais independente, se nom quer
de novo ser explorado pola burguesia e marchar a reboque desta, como em 1848.
Já em 1848, vos dixemos, irmaos, que os liberais burgueses alemáns
logo chegariam ao poder e empregariam imediatamente contra os operários
esse poder recém-conquistado. Já vistes como se realizou isto.
Com efeito, imediatamente depois do movimento de Março de 1848, fôrom
os burgueses que ficárom com o poder, utilizando-o sem delongas para
forçar os operários, seus aliados na luita, a voltar à
sua condiçom anterior de oprimidos. E, embora a burguesia nom pudesse
obter todo isso sem se aliar ao partido feudal, derrotado em março,
e, afinal, sem ceder de novo ao domínio deste mesmo partido absolutista
feudal, pode, nom obstante, assegurar para si as condiçons que, em
vista das dificuldades financeiras do governo, haveriam de pôr finalmente
nas suas maos o Poder e salva-guardariam os seus interesses, no caso de o
movimento revolucionário entrar, a partir de agora, na via do chamado
desenvolvimento pacífico. Para assegurar seu domínio, a burguesia
nem sequer precisava recorrer a medidas violentas, que a tornariam odiosa
aos olhos do povo, pois todas essas medidas violentas já foram tomadas
pola contra-revoluçom feudal. Mas o desenvolvimento nom há de
seguir essa via pacífica. Polo contrário, a revoluçom,
que há de acelerar esse desenvolvimento, está próxima,
quer seja provocada por umha insurreiçom do proletariado francês,
quer por umha invasom da Babel revolucionária pola Santa Aliança.
E o papel de traiçom que os liberais burgueses alemáns desempenhárom
em relaçom ao povo, em 1848, será desempenhado na próxima
revoluçom polos pequeno-burgueses democratas, que hoje ocupam na oposiçom
o mesmo lugar que ocupavam os liberais burgueses antes de 1848. Este partido
democrático, mais perigoso para os operários do que foi o partido
liberal, está integrado polos seguintes elementos:
I. Pola parte mais progressista da grande burguesia, cujo objetivo é
a total e imediata derrocada do feudalismo e do absolutismo. Essa fracçom
está representada polos antigos conciliadores de Berlim que propugeram
a suspensom do pagamento de suas contribuiçons.
II. Pola pequena-burguesia democrata-constitucional, cujo principal objectivo
no movimento anterior era criar um Estado federal mais ou menos democrático,
tal como o propugnaram os seus representantes - a esquerda da Assembleia de
Frankfurt -, mais tarde o Parlamento de Stuttgart e ela mesma na campanha
de pró-constituiçom do Império.
III. Polos pequeno-burgueses republicanos, cujo ideal é umha república
federal alemá no estilo da Suíça e que agora se chamam
a si mesmos "vermelhos" e "democrata-sociais", porque
têm o pio desejo de acabar com a opressom do pequeno capital polo grande,
do pequeno-burguês polo grande burguês. Representavam esta fracçom
os membros dos congressos e comités democráticos, os dirigentes
das unions democráticas e os redactores da imprensa democrática.
Agora, depois da sua derrota, todas essas fracçons se chamam republicanas
ou vermelhas, exactamente como os pequeno-burgueses republicanos da França
se chamam, hoje em dia, socialistas. Ali onde ainda têm a possibilidade
de perseguir seus fins por métodos constitucionais, como em Wurtemberg,
Baviera etc., aproveitam a ocasiom para conservar as suas velhas frases e
para demonstrar com os factos que nom mudárom em absoluto. Compreende-se,
de resto, que a mudança de nome deste partido nom modifica de modo
algum sua atitude para com os operários; a única cousa que fai
é demonstrar que agora se vê obrigado a luitar contra a burguesia,
aliada ao absolutismo, e a procurar o apoio do proletariado.
O partido democrata pequeno-burguês é muito poderoso na Alemanha.
Nom somente abrange a enorme maioria da populaçom burguesa das cidades,
os pequenos comerciantes e industriais e os mestres artesáns, mas também
é acompanhado polos camponeses e operários agrícolas,
pois estes últimos ainda nom encontrárom o apoio de um proletariado
urbano independentemente organizado.
A atitude do partido operário revolucionário em face da democracia
pequeno-burguesa é a seguinte: marchar com ela na luita pola derrubada
daquela fracçom cuja derrota é desejada polo partido operário;
marchar contra ela em todos os casos em que a democracia pequeno-burguesa
queira consolidar a sua posiçom em proveito próprio.
Longe de desejar a transformaçom revolucionária de toda a sociedade
em benefício dos proletários revolucionários, a pequena-burguesia
democrata tende a umha mudança da ordem social que poda tornar a sua
vida, na sociedade actual, mais cómoda e confortável. Por isso,
reclama em primeiro lugar umha reduçom dos gastos do Estado por meio
de umha limitaçom da burocracia e do deslocamento das principais cargas
tributárias para os ombros dos grandes proprietários de terras
e burgueses. Exige, ademais, que se ponha fim à pressom do grande capital
sobre o pequeno, pedindo a criaçom de instituiçons de crédito
do Estado e leis contra a usura, com o que ela e os camponeses teriam a possibilidade
de obter, em condiçons favoráveis, créditos do Estado,
em lugar de serem obrigados a pedi-los aos capitalistas; ela pede, igualmente,
o estabelecimento de relaçons burguesas de propriedade no campo, mediante
a total aboliçom do feudalismo. Para levar a cabo todo isso, precisa
de um regime democrático, seja constitucional ou republicano, que dê
maioria a ela e a seus aliados, os camponeses, e autonomia democrática
local, que ponha nas suas maos o controlo directo da propriedade comunal e
umha série de funçons desempenhadas hoje em dia por burocratas.
Os democratas pequeno-burgueses acham também que é preciso opor-se
ao domínio e ao rápido crescimento do capital, em parte limitando
o direito de herança, em parte pondo nas maos do Estado o maior número
possível de empresas. No que toca aos operários, é indubitável
que devem continuar sendo operários assalariados; os pequeno-burgueses
democratas apenas desejam que eles tenham salários mais altos e umha
existência mais garantida e esperam alcançar isso facilitando,
por um lado, trabalho aos operários, através do Estado, e, por
outro, com medidas de beneficência. Numa palavra, confiam em corromper
os operários com esmolas mais ou menos veladas e debilitar sua força
revolucionária por meio da melhoria temporária de sua situaçom.
Nem todas as fracçons da democracia pequeno-burguesa defendem todas
as reivindicaçons que acabamos de citar. Tam somente uns poucos democratas
pequeno-burgueses consideram seu objectivo o conjunto dessas reivindicaçons.
Quanto mais avançam alguns indivíduos ou fracçons da
democracia pequeno-burguesa, tanto maior é o número dessas reivindicaçons
que apresentam como suas, e os poucos que vem no acima exposto o seu próprio
programa suponhem, certamente, que ele representa o máximo que se pode
exigir da revoluçom. Mas essas reivindicaçons nom podem satisfazer
de nengum modo o partido do proletariado. Enquanto os pequeno-burgueses democratas
querem concluir a revoluçom o mais rapidamente possível, depois
de terem obtido, no máximo, os reclamos supra-mencionados, os nossos
interesses e as nossas tarefas consistem em tornar a revoluçom permanente
até que seja eliminada a dominaçom das classes mais ou menos
possuidoras, até que o proletariado conquiste o poder do Estado, até
que a associaçom dos proletários se desenvolva, nom só
num país, mas em todos os países predominantes do mundo, em
proporçons tais que cesse a competiçom entre os proletários
desses países, e até que polo menos as forças produtivas
decisivas estejam concentradas nas maos do proletariado. Para nós,
nom se trata de reformar a propriedade privada, mas de aboli-la; nom se trata
de atenuar os antagonismos de classe, mas de abolir as classes; nom se trata
de melhorar a sociedade existente, mas de estabelecer umha nova. Nom resta
a menor dúvida de que, com o desenvolvimento da revoluçom, a
democracia pequeno-burguesa obterá, na Alemanha, por algum tempo, umha
influência predominante. A questom é, pois, saber qual há
de ser a atitude do proletariado e particularmente da Liga diante da democracia
pequeno-burguesa:
Enquanto subsistir a situaçom actual, em que os democratas pequeno-burgueses
também se acham oprimidos;
No curso da próxima luita revolucionária, que lhes dará
umha situaçom de superioridade;
Ao terminar a luita, durante a situaçom de sua superioridade sobre
as classes derrubadas e sobre o proletariado.
1. No momento presente, quando a pequena-burguesia democrática é
oprimida por toda parte, exorta em geral o proletariado à uniom e à
reconciliaçom, estende-lhe a mao e procura criar um grande partido
de oposiçom, que abranja todas as tendências do partido democrata,
isto é, procura arrastar o proletariado a umha organizaçom partidária
onde ham de predominar as frases social-democratas de tipo geral, atrás
das quais se ocultárom os interesses particulares da democracia pequeno-burguesa,
organizaçom na qual, em nome da tam desejada paz, as reivindicaçons
especiais do proletariado nom podam ser apresentadas. Semelhante uniom seria
feita em benefício exclusivo da pequena-burguesia democrata e em prejuízo
indubitável do proletariado. Este teria perdido a posiçom independente
que conquistou à custa de tantos esforços e cairia mais umha
vez na situaçom de simples apêndice da democracia burguesa oficial.
Tal uniom deve ser, portanto, resolutamente rejeitada. Em vez de descer mais
umha vez ao papel de coro laudatório dos democratas burgueses, os operários
e, sobretodo, a Liga devem procurar estabelecer, junto aos democratas oficiais,
umha organizaçom independente do partido operário, ao mesmo
tempo legal e secreta, e fazer de cada comunidade o centro e núcleo
de sociedades operárias, nas quais a atitude e os interesses do proletariado
podam ser discutidos independentemente das influências burguesas. Umha
prova de quam pouco séria é a atitude dos democratas burgueses
diante de umha aliança com o proletariado, na qual este tivesse a mesma
força e os mesmos direitos que ela, som os democratas de Breslau, cujo
órgao de imprensa, o Neue Oder Zeitung, ataca com fúria os operários
organizados independentemente, os quais tacha de socialistas. Para luitar
contra um inimigo comum nom se precisa de nengumha uniom especial. Umha vez
que é necessário luitar directamente contra tal inimigo, os
interesses de ambos os partidos coincidem no momento e essa uniom, como vem
ocorrendo até agora, surgirá no futuro por si mesma e momentaneamente.
É claro que nos iminentes conflitos sangrentos, assim como em todos
os anteriores, serám sobretodo os operários que conquistárom
a vitória por seu valor, resoluçom e espírito de sacrifício.
Nessa luita, como nas anteriores, a massa pequeno-burguesa manterá
umha atitude de expectativa, de irresoluçom e inactividade por tanto
tempo quanto seja possível, com o propósito de , ao ficar assegurada
a vitória, utilizá-la em benefício próprio, convidar
os operários a que permaneçam tranquilos e retornem ao trabalho,
evitar os chamados excessos e despojar o proletariado dos frutos da vitória.
Nom depende dos trabalhadores impedir que a pequena-burguesia democrata proceda
desse modo, mas está ao seu alcance dificultar aos democratas burgueses
a possibilidade de se imporem ao proletariado pola força das armas
e ditar-lhes condiçons sob as quais o domínio burguês
leve desde o princípio o germe de sua queda, facilitando, consideravelmente,
sua ulterior substituiçom polo poder do proletariado. Durante o conflito
e imediatamente depois de terminada a luita, os operários devem procurar,
em primeiro lugar e enquanto for possível, resistir às tentativas
contemporizadoras da burguesia e obrigar os democratas a levarem à
prática as suas atuais frases terroristas. Devem agir de tal maneira
que a agitaçom revolucionária nom seja reprimida de novo, imediatamente
depois da vitória. Polo contrário, devêrom procurar mantê-la
polo maior tempo possível. Os operários nom só nom devem
opor-se aos chamados excessos, aos actos de vingança popular contra
indivíduos odiados ou contra edifícios públicos que o
povo só relembre com ódio, nom somente devem admitir tais actos,
mas assumir a sua direçom. Durante a luita, e depois dela, os operários
devem aproveitar todas as oportunidades para apresentar suas própria
exigências, ao lado das exigências dos democratas burgueses. Devem
exigir garantias para os operários tam logo os democratas burgueses
se disponham a tomar o poder. Se for preciso, essas garantias devem ser arrancadas
pola força. Em geral, é preciso levar os novos governantes a
se obrigarem às maiores concessons e promessas; é o meio mais
seguro de comprometê-los. Os operários devem conter, em geral
e na medida do possível, o entusiasmo provocado pola nova situaçom
e pola embriaguez do triunfo, que se segue a toda luita de rua vitoriosa,
opondo a todo isso umha apreciaçom fria e serena dos acontecimentos
e manifestando abertamente sua desconfiança para com o novo governo.
Ao lado dos novos governos oficiais, os operários deverám constituir
imediatamente governos operários revolucionários, seja na forma
de comités ou conselhos municipais, seja na forma de clubes operários
ou de comités operários, de tal modo que os governos democrático-burgueses
nom só perdam imediatamente o apoio dos operários, mas também
se vejam desde o primeiro momento fiscalizados e ameaçados por autoridades
atrás das quais se encontre a massa inteira dos operários. Numha
palavra, desde o primeiro instante da vitória, é preciso despertar
a desconfiança nom mais contra o partido reaccionário derrotado,
mas contra o antigo aliado, contra o partido que queira explorar a vitória
comum no seu exclusivo benefício.
2. Mas, para opor-se enérgica e ameaçadoramente a esse partido,
cuja traiçom aos operários começará desde os primeiros
momentos da vitória, estes devem estar armados e organizados. Deverá
armar-se, imediatamente, todo o proletariado, com fuzis, carabinas, canhons
e muniçons; é preciso opor-se ao ressurgimento da velha milícia
burguesa, dirigida contra os operários. Onde nom se poda adoptar essas
medidas, os operários devem procurar organizar-se independentemente,
como guarda proletária, com chefes e um estado-maior eleitos por eles
próprios, e pôr-se às ordens, nom do governo, mas dos
conselhos municipais revolucionários criados polos próprios
operários. Onde os operários trabalharem em empresas do Estado,
deverám promover seu armamento e organizaçom em corpos especiais
com comandos eleitos por eles mesmos, ou como unidades que participem da guarda
proletária. Sob nengum pretexto entregarám suas armas e muniçons;
toda tentativa de desarmamento será rejeitada, caso necessário,
pola força das armas. Destruiçom da influência dos democratas
burgueses sobre os operários; formaçom imediata de umha organizaçom
independente e armada da classe operária; criaçom de condiçons
que, na medida do possível, sejam as mais duras e comprometedoras para
a dominaçom temporária e inevitável da democracia burguesa:
tais som os pontos principais que o proletariado e, portanto, a Liga devem
ter em mente durante a próxima insurreiçom e depois dela.
3. Logo que os novos governos se tenham consolidado um pouco iniciarám
suas luitas contra os operários. A fim de estarem em condiçons
de oporem-se energicamente aos democratas pequeno-burgueses, é preciso,
sobretodo, que os operários estejam organizados de modo independente
e centralizados através dos seus clubes. Depois da derrocada dos governos
existentes, e na primeira oportunidade, o Comité Central transferirá-se
para a Alemanha, convocará imediatamente um Congresso, perante o qual
proporá as medidas necessárias para a centralizaçom dos
clubes operários sob a direçom de um organismo estabelecido
no centro principal do movimento. A rápida organizaçom de agrupamentos
- polo menos provinciais- dos clubes operários é umha das medidas
mais importantes para revigorar e desenvolver o partido operário. A
conseqüência imediata da derrubada dos governos existentes há
de ser a eleiçom de umha assembleia nacional representativa. Nela o
proletariado deverá fazer com que:
I. Nengum núcleo operário seja privado do direito de voto, a
pretexto algum, nem por qualquer estratagema das autoridades locais ou dos
comissários do governo.
II. Ao lado dos candidatos burgueses democráticos figurem em toda parte
candidatos operários, escolhidos na medida do possível entre
os membros da Liga, e que para o seu triunfo se ponham em jogo todos os meios
disponíveis. Mesmo que nom exista esperança algumha de triunfo,
os operários devem apresentar candidatos próprios para conservar
a independência , fazer umha avaliaçom de forças e demonstrar
abertamente a todo mundo sua posiçom revolucionária e os pontos
de vista do partido. Ao mesmo tempo, os operários nom devem deixar-se
enganar polas alegaçons dos democratas de que, por exemplo, tal atitude
divide o partido democrático e facilita o triunfo da reacçom.
Todas essas alegaçons têm o objetivo de iludir o proletariado.
Os êxitos que o partido operário alcançar com semelhante
atitude independente pesam muito mais do que os danos que poda ocasionar a
presença de uns quantos reacionários na assembleia representativa.
Se a democracia agir resolutamente, desde o princípio, e com medidas
terroristas contra a reaçom, a influência desta nas eleiçons
ficará de antemao eliminada.
O primeiro ponto a provocar o conflito entre os democratas burgueses e os
operários será a aboliçom do feudalismo. Do mesmo modo
que na primeira revoluçom francesa, os pequeno-burgueses entregárom
as terras feudais aos camponeses, na qualidade de propriedade livre, isto
é, procurárom conservar o proletariado agrícola e criar
umha classe camponesa pequeno-burguesa, que passará polo mesmo ciclo
de empobrecimento e endividamento progressivo em que se encontra, atualmente,
o camponês francês.
No interesse do proletariado rural e no seu próprio interesse, os operários
têm de opor-se a esse plano. Têm de exigir que a propriedade feudal
confiscada fique como propriedade do Estado e seja transformada em colónias
operárias, que o proletariado rural associado explore com todas as
vantagens da grande exploraçom agrícola; desse modo, o princípio
da propriedade comum obtém logo umha base sólida, no meio das
vacilantes relaçons de propriedade burguesas. Tal como os democratas
com os camponeses, os operários têm de unir-se com o proletariado
rural. Além disso, os democratas trabalhárom directamente para
umha República federativa ou, polo menos, se nom puderem evitar umha
República umha e indivisível, procurárom paralisar o
governo central mediante o máximo possível de autonomia e independência
para as comunas e províncias. Frente a esse plano, os operários
têm nom só de tentar realizar a República alemá
umha e indivisível, mas também a mais decidida centralizaçom,
nela, do poder nas maos do Estado. Eles nom se devem deixar induzir em erro
polo palavreado sobre a liberdade das comunas, o auto-governo etc. Num país
como a Alemanha, onde estám ainda por remover tantos resquícios
da Idade Média, onde está por quebrar tanto particularismo local
e provincial, nom se pode tolerar em circunstância alguma que cada aldeia,
cada cidade, cada província ponha um novo obstáculo à
actividade revolucionária, que só pode emanar do centro em toda
a sua força. Nom se pode tolerar que se renove o estado de cousas actual,
em que os alemáns, por um mesmo passo em frente, som obrigados a bater-se
separadamente em cada cidade, em cada província. Menos ainda pode tolerar-se
que, através de umha organizaçom comunal pretensamente livre,
se perpetue umha forma de propriedade -a comunal-, que ainda se situa aquém
da propriedade privada moderna e por toda a parte se dissolve necessariamente
nesta e as desavenças dela decorrentes entre comunas pobres e ricas,
assim como o direito de cidadania comunal, subsistente, com as suas mazelas
contra os operários, ao lado do direito de cidadania estatal. Tal como
na França em 1793, o estabelecimento da centralizaçom mais rigorosa
é hoje, na Alemanha, a tarefa do partido realmente revolucionário**.
Vimos como os democratas chegárom à dominaçom com o próximo
movimento e como serám forçados a propor medidas mais ou menos
socialistas. Que medidas devem propor os operários?. Estes nom podem,
naturalmente, propor quaisquer medidas directamente comunistas no começo
do movimento. Mas podem:
1. Obrigar os democratas a intervir em tantos lados quanto possível
da organizaçom social até hoje existente, a perturbar o curso
regular desta, a comprometerem-se a concentrar nas maos do Estado o mais possível
de forças produtivas, de meios de transporte, de fábricas, de
ferrovias, etc.
2. Têm de levar ao extremo as propostas dos democratas, que nom se comportárom
em todo o caso como revolucionários mas como simples reformistas, e
transformá-las em ataques directos contra a propriedade privada; por
exemplo, se os pequeno-burgueses propugerem comprar os caminhos-de-ferro e
as fábricas, os operários têm de exigir que esses caminhos-de-ferro
e fábricas, como propriedade dos reaccionários, sejam confiscadas
simplesmente e sem indenizaçom polo Estado. Se os democratas propugerem
o imposto proporcional, os operários exigirám o progressivo;
se os próprios democratas avançarem a proposta de um imposto
progressivo moderado, os operários insistirám num imposto cujas
taxas subam tam depressa que o grande capital seja com isso arruinado; se
os democratas exigirem a regularizaçom da dívida pública,
os operários exigirám a bancarrota do Estado. As reivindicaçons
dos operários terám, pois, de se orientar por toda a parte segundo
as concessons e medidas dos democratas.
Se os operários alemáns nom podem chegar à dominaçom
e realizaçom dos seus interesses de classe sem passar por todo um desenvolvimento
revolucionário prolongado, polo menos desta vez eles têm a certeza
de que o primeiro acto deste drama revolucionário iminente coincide
com a vitória directa de sua própria classe na França
e é consideravelmente acelerado por aquela.
Mas têm de ser eles próprios a fazer o máximo pola sua
vitória final, esclarecendo-se sobre os seus interesses de classe,
tomando o quanto antes a sua posiçom de partido autônomo, nom
se deixando um só instante induzir em erro polas frases hipócritas
dos pequeno-burgueses democratas quanto à organizaçom independente
do partido do proletariado. Seu grito de batalha tem de ser: a revoluçom
permanente.