PRÓLOGO A GUERRA
DO POVO, EXÉRCITO DO POVO. Ernesto Che Guevara
Prólogo ao livro de Vo Nguyen Giap, Guerra do povo, exército do povo, Editora Política, Habana 1964. Traduzido a partir de Escritos y discursos, tomo 1, Editorial de Ciencias Sociales, Havana 1972, páginas 225-232
Ediçom digital
de 18 de Setembro de 2002
Consideramos umha alta
honra prologar este livro baseado nos escritos do vicegeneral Vo Nguyen Giap,
actualmente Primeiro Ministro da Defesa Nacional e Comandante em Chefe do
Exército Popular da República Democrática do Viet Nam.
O general Gial fala com a autoridad que lhe confere a sua longa experiência
pessoal e a do partido na luita de libertaçom. A obra, que tem de por
si umha actualidade permanente, reveste mais interesse, se couber, devido
à tumultuosa série de acontecimentos acontecidos nos últimos
tempos nesta regiom da Ásia, e às controvérsias surgidas
sobre o uso adequado da luita armada como meio de resolver as contradiçons
insalváveis entre exploradores e explorados, em determinadas condiçons
históricas.
Os combates que, exitosamente,
levaram durante longos anos os heróicos exércitos e o povo inteiro
do Viet Nam, repetem-se agora; o Viet Nam do Sul está em pé
de guerra; a parte do país arrebatada ao seu legítimo dono,
o povo vietnamita, está cada vez mais perto da vitória. Ainda
quando os inimigos imperialistas ameacem com enviar milhares de homens, os
desaforados falem do uso da bomba atómica táctica e o general
Taylor seja nomeado embaixador da chamada "República do Viet Nam
do Sul" e, tacitamente, comandante em chefe dos exércitos que
tratarám de liquidar a guerra do povo, nada impedirá a sua derrota.
Muito perto, no Laos, a guerra civil acendeu, provocada também polas
manobras dos norte-americanos, apoiados de umha maneira ou outra polos seus
aliados de sempre, e o reino neutral da Camboja, parte, como os seus irmaos
Laos e Viet Nam, da antiguamente chamada Indochina francesa, está sujeita
a violaçons das suas fronteiras e a ataques permanentes, pola sua posiçom
erguida em defesa da neutralidade e do direito a viver como naçom soberana.
Por isto todo, a obra
que prologamos sobarda os limites de um episódio histórico determinado
e adquere vigência para toda a zona; mas, além disso, os problemas
que coloca tenhem particular importáncia para a maior parte dos povos
da América Latina submetidos ao domínio do imperialismo norte-americano,
sem contarmos com que seria de extraordinário interesse o conhecimento
dela para todos os povos de África que dia a dia sustenhem luitas cada
vez mais duras, mas também repetidamente vitoriosas, contra os colonialistas
de diversa índole.
O Viet Nam tem características
especiais; umha civilizaçom muito velha e umha longa tradiçom
como reino independente com particularidades próprias e cultura autóctone.
Dentro da sua milenária história, o episódio do colonialismo
francês é pouco mais do que umha pinga de água. No entanto,
as suas qualidades fundamentais e opostas do agressor igualam, em termos gerais,
as contradiçons insalváveis que se apresentam em todo o mundo
dependente, bem como a forma de resolvê-las: Cuba, sem conhecer estes
escritos, bem como também nom outros que sobre o tema se tinham feito
narrando as experiências da Revoluçom chinesa, iniciou o caminho
da sua libertaçom por métodos semelhantes, com o sucesso que
está hoje à vista de todos.
Portanto, esta obra coloca
questons de interesse geral para o mundo em luita pola sua libertaçom.
Podem resumir-se assim: a factabilidade da luita armada, em condiçons
especiais em que tenham fracassado os métodos pacíficos de luita
de libertaçom; o tipo que deve ter esta, em lugares com grandes extensons
de terreno favorável para a guerra de guerrilhas e com populaçom
camponesa maioritária ou importante.
Apesar de que o livro
se baseia numha compilaçom de artigos, tem boa ilaçom, e certas
repetiçons nom fam mais do que dar-lhe maior vigor ao conjunto.
Trata-se nele da guerra
de libertaçom do povo vietnamita; da definiçom desta luita como
guerra do povo e do seu braço executor como exército do povo;
da exposiçom das grandes experiências do partido na direcçom
da luita armada e a organizaçom das forças armadas revolucionárias.
O capítulo final trata sobre o episódio definitiov da contenda,
Dien Vien Fu, em que já as forças de libertaçom ganham
em qualidade e passam à guerra de posiçons, derrotando também
neste terreno o inimigo imperialista.
Começa-se narrando
como, depois de acabada a guerra mundial com o triunfo da Uniom Soviética
e das potências aliadas do Ocidente, França burlou todos os acordos
e levou o país a umha situaçom de extrema tensom. Os métodos
pacíficos e racionais de resolver as controvérsias fôrom
demonstrando a sua inutilidade, até que o povo tomou a via da luitar
armada; nesta, polas características do país, o peso fundamentalmente
recaia no campesinato. Era umha guerra de características camponesas,
polos lugares fundamentais de acçom e pola composiçom fundamental
do exército, mas estava dirigida pola ideologia do proletariado, fazendo
válida mais umha vez a aliança operário-camponesa como
factor fundamental da vitória. Embora nos primeiros momentos, polas
características da luita anticolonialista e antiimperialista, era umha
guerra de todo o povo, e umha grande quantidade de gente cuja extracçom
nom respondia exactamente às definiçons clássicas de
camponês pobre ou de operário, incorporava-se também à
luita de libertaçom; a pouco e pouco, definiam-se os campos e começava
a luita antifeudal, atingindo entom o seu verdadeiro carácter de antiimperialista,
anticolonialista, antifeudal, dando como resultado o estabelecimento de umha
revoluçom socialista.
A luita de massas foi
utilizada durante todo o transcorrer da guerra polo partido vietnamita. Foi
utilizada, em primeiro lugar, porque a guerra da guerrilha nom é mais
do que umha expressom da luita de massas e nom se pode pensar nela quando
esta está isolada do seu meio natural, que é o povo; a guerrilha
significa, neste caso, a avançada numericamente inferior da grande
maioria do povo que nom tem armas mas que exprime na sua vanguarda a vontade
de triunfo. Aliás, a luita de massas foi utilizada nas cidades em todo
o momento como arma imprescindível para o desenvolvimento da luita;
é muito importante salientar que a luita de massas, no decurso da acçom
pola libertaçom do povo vietnamita, nunca cedeu os seus direitos para
acolher-se a determinadas concessons ao regime; nom parlamentou sobre concessons
mútuas, colocou a necessidade de obter determinadas liberdades e garantias
sem qualquer contrapartida, evitando assim que, em muitos sectores, a guerra
se figesse mais cruel ainda do que a faziam os colonialistas franceses. Este
significado da luita de massas no seu carácter dinámico, sem
compromissos, dá-lhe umha importáncia fundamental à compreensom
do problema da luita pola libertaçom na Latino-América.
O marxismo foi aplicado
conseqüentemente à situaçom histórica concreta do
Viet Nam, e por isso, guiados por um partido de vanguarda, fiel ao seu povo
e conseqüente na sua doutrina, atingírom tam sonada vitória
sobre os imperialistas.
As características
da luita, em que houvo que ceder terreno e esperar muitos anos para ver o
resultado final da vitória, com vaivéns, fluxos e refluxos,
dam-lhe o carácter de guerra prolongada.
Durante todo o tempo da luita pudo-se dizer que a frente estava onde estava
o inimigo; num momento dado, este ocupava quase todo o país e a frente
estava espalhada por onde o inimigo estivesse; logo a seguir houvo umha delimitaçom
de linhas de combate e ali havia umha frente principal, mas a retaguarda inimiga
constituia constantemente um outro cenário para os bandos em luita,
de maneira que a guerra foi totoal e que nunca os colonialistas pudérom
mobilizar à vontade, num terreno de base sólida, as suas tropas
de agressom contras zonas libertadas.
A palavra de ordem "dinamismo,
iniciativa, mobilidade, decisom rápida ante situaçons novas",
é síntese soma da táctica guerrilheira, e nessas poucas
palavras está exprimido todo a dificílima arte da guerra popular.
Em certos momentos, as
novas guerrilhas, alçadas sob a direcçom do partido, estavam
ainda em lugares nos quais a penetraçom francesa era muito forte e
a populaçom estava aterrorizada; nesses casos, praticavam constantemente
o que os vietnamitas chamam a "propaganda armada". A propaganda
armada é simplesmente a presença de forças de libertaçom
em determinados lugares, que vam mostrando o seu poderio e a sua embatibilidade,
submidos no grande mar do povo como peixe na água. A propaganda armada,
ao perpetuar-se na zona, catalisava as massas com a sua presença e
revolucionava imediatamente a regiom, acrescentando novos territórios
aos já conseguidos polo exército do povo. É assim que
proliferam as bases e as zonas guerrilheiras em todo o território vietnamita;
a táctica, neste caso, estava resumida numha palavra de ordem que se
expressa assim: se o inimigo se concentrar, perde terreno, se se diluir, perde
força, no momento em que o inimigo se concentrar para atacar duramente,
cumpre contraatacar em todos os lugares onde reunciou ao emprego disperso
das suas forças; se o inimigo volta a ocupar determinados lugares com
pequenos grupos, o contraataque fará-se consoante a correlaçom
existente em cada lugar, mas a força fundamental de choque do inimigo
terá-se diluido mais umha vez. Eis um outro dos ensinamentos fundamentais
da guerra de libertaçom do povo vietnamita.
Na luita, tem-se passado
por três etapas que caracterizam, em geral, o desenvolvimento da guerra
do povo; inicia-se com guerrilhas de pequeño tamanho, de extraordinária
mobilidade, diluíveis completamente na geografia física e humana
da regiom: com o decorrer do tempo, produzem-se acontecimentos quantitativos
que, num dado momento, dam passagem ao grande salto qualitativo que é
a guerra de movimentos. Aqui som grupos mais compactos os que agem, dominando
zonas inteiras; embora os seus meios sejam maiores e a sua capacidade de castigar
o inimigo muito mais forte, a mobilidade é a sua característica
fundamental. Depois de um outro período, quando maduram as condiçons,
chega-se à etapa final da luita em que o exército se consolida
e, inclusive, à guerra de posiçons, como aconteceu em Dien Bien
Fu, pontilha à ditadura colonial.
No transcorrer da contenda
que, dialecticamente, vai desenvolvenod-se até culminar, no ataque
de Dien Bien Fu, em guerra de posiçons, criam-se zonas libertadas,
ou semi-libertadas do inimigo, que constituem territórios de autodefesa.
A autodefesa é concebida polos vietnamitas também num sentido
activo como parte de umha luita única contra o inimigo; as zonas de
autodefensa podem defender-se elas próprias de ataques limitados, subministram
homens ao exército do povo, mantenhem a segurança interna da
regiom, mantenhem a produçom e asseguram o abastecimento da frente.
A autodefesa nom é nada mais do que umha parte mínima de um
todo, com características especiais; nunca pode conceber-se umha zona
de autodefesa como um todo em si, quer dizer, umha regiom onde as forças
populares tentem defender-se do ataque do inimigo enquanto todo o território
exterior à dita zona fica sem convulsons. Se assim acontecesse, o foco
seria localizado, atenazado e abatido, a nom ser que passasse imediatamente
à fase primeira da guerra do povo, quer dizer, à luita de guerrilhas.
Como já temos dito, todo o processo da luita vietnamita deveu basear-se
no campesinato.
Num primeiro momento,
sem umha definiçom clara dos marcos da luita, esta fazia-se somente
polo interesse da libertaçom nacional, mas aos poucos delimitavam-se
os campos, transformavam-se numha típica guerra camponesa e a reforma
agrária estabelecia-se no curso da luita, quando as contradiçons
aprofundavam e, a um tempo, a força do exército do povo; é
a manifestaçom da luita de classes dentro da sociedade em guerra. Esta
era dirigida polo partido com o fim de anular a maior quantidade possível
de inimigos e de utilizar ao máximo as contradiçons com o colonialismo
dos amigos pouco firmes. Assim, conjugando acertadamente as contradiçons,
é que o partido pudo aproveitar todas as forças emanadas destes
choques e atingir o triunfo no menor tempo possível.
Narra-nos também
o companheiro Vo Nguyen Giap a estreita ligaçom que existe entre o
partido e o exército, como, nesta luita, o exército nom é
senom umha parte do partido dirigente da luita. Da estreita ligaçom
que existe por seu turno entre o exército e o povo; como o exército
e o povo nom som senom a mesma cousa, o que mais umha vez se vê corroborado
na síntese magnífica que figera Camilo: "o exército
é o povo uniformado". O corpo armado, durante a luita e depois
dela, deveu adquirir umha técnica nova, técnica que lhe permitirá
ultrapassar as novas armas do inimigo e rejeitar qualquer tipo de ofensiva.
O soldado revolucionário
tem umha disciplina consciente. Durante todo o processo, caracteriza-se fundamentalmente
pola sua autodisciplina. Por sua vez, no exército do povo, respeitando
todas as regras dos códigos militares, deve haver umha grande democracia
interna e umha grande igualdade na obtençom dos bens necessários
aos homens em luita.
Em todas estas manifestaçons,
o general Nguyen Giap assinala o que nós conhecemos pola nossa própria
experiência, experiência que se realiza alguns anos depois de
conseguido o triunfo polas forças populares vietnamitas, mas que reforça
a ideia da necessidade da análise profunda dos processos históricos
do momento actual. Esta deve ser feita à luz do marxismo, utilizando
toda a sua capacidade criadora, para poder adaptá-lo às circunstáncias
diversas de países, dissímeis em todo o que di respeito ao aspecto
exterior da sua conformaçom, mas iguais na estrutura colonizada, na
existência de um poder imperialista opressor e de umha classe associada
a ele por ligaçons muito estreitas. Após umha análise
certeira, chega o general Giap à seguinte conclusom: "Na conjuntura
actual do mundo, umha naçom, embora seja pequena e fraca, que se alce
num só homem sob a direcçom da classe operária para luitar
resoltamente pola sua independência e a democracia, tem a possibilidade
moral e material de vencer todos os agressores, nom importa quais forem. Em
condiçons históricas determinadas, esta luita pola libertaçom
nacional pode passar por umha luita armada de longa duraçom -a resistência
prolongadal- para atingir o triunfo". Estas palavras sintetizam as características
gerais que deve assumir a guerra de libertaçom nos territórios
dependentes.
Achamos que a melhor declaraçom
para acabar o prólogo é a mesma que utilizam os editores deste
livro e com a qual estamos identificados: "Oxalá que todos os
nossos amigos que, como nós, sofrem ainda os ataques e as ameaças
do imperialismo, podam encontrar em Guerra do povo, exército do povo,
o que achamos nós próprios: novos motivos de fé e esperanças".
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