O socialismo moderno é, em primeiro lugar, polo seu conteúdo, fruto do reflexo na inteligência, de um lado dos antagonismos de classe que imperam na moderna sociedade entre possuidores e despossuídos, capitalistas e operários assalariados, e, de outro lado, da anarquia que reina na produçom. Pola sua forma teórica, porém, o socialismo começa apresentando-se como umha continuaçom, mais desenvolvida e mais conseqüente, dos princípios proclamados polos grandes pensadores franceses do século XVIII. Como toda nova teoria, o socialismo, embora tivesse suas raízes nos factos materiais económicos, tivo de ligar-se, ao nascer, às ideias existentes.
Os grandes homens que, em França, iluminárom os cérebros
para a revoluçom que se havia de desencadear, adoptárom umha atitude resolutamente
revolucionária. Nom reconheciam autoridade exterior de nengumha espécie.
A religiom, a concepçom da natureza, a sociedade, a ordem estatal: todo
eles submetiam à crítica mais impiedosa; todo quanto existia devia justificar
os títulos de sua existência ante o foro da razom, ou renunciar a continuar
existindo. A todo se aplicava como rasura única a razom pensante. Era a
época em que, segundo Hegel, "o mundo girava sobre a cabeça"
[i]
, primeiro no sentido de que a cabeça humana e os princípios
estabelecidos pola sua especulaçom reclamavam o direito de ser acatados
como base de todos os actos humanos e toda relaçom social, e logo também,
no sentido mais amplo de que a realidade que nom se ajustava a essas conclusons
se via subvertida, de facto, desde os alicerces até a cumieira. Todas as
formas anteriores de sociedade e de Estado, todas as leis tradicionais,
fôrom atiradas no monturo como irracionais; até entom o mundo se deixara
governar por puros preconceitos; todo o passado nom merecia senom comiseraçom
e desprezo. Só agora despontava a aurora, o reino da razom; daqui por diante
a superstiçom, a injustiça, o privilégio e a opressom seriam substituídos
pola verdade eterna, pola eterna justiça, pola igualdade baseada na natureza
e polos direitos inalienáveis do homem.
Já sabemos, hoje, que esse império da razom nom era
mais que o império idealizado pola burguesia; que a justiça eterna tomou
corpo na justiça burguesa; que a igualdade se reduziu à igualdade burguesa
em face da lei; que como um dos direitos mais essenciais do homem foi proclamada
a propriedade burguesa; e que o Estado da razom, o "contrato social"
de Rousseau, pisou e somente podia pisar o terreno da realidade, convertido
na república democrática burguesa. Os grandes pensadores do século XVIII,
como todos os seus predecessores, nom podiam romper as fronteiras que sua
própria época lhes impunha.
Mas, ao lado do antagonismo entre a nobreza feudal o
a burguesia, que se erigia em representante de todo o resto da sociedade,
mantinha-se de pé o antagonismo geral entre exploradores e explorados, entre
ricos gozadores e pobres que trabalhavam. E esse facto exactamente é que
permitia aos representantes da burguesia arrogar-se a representaçom, nom
de umha classe determinada, mas de toda a humanidade sofredora. Mais ainda:
desde o momento mesmo em que nasceu, a burguesia conduzia nas suas entranhas
sua própria antítese, pois os capitalistas nom podem existir sem os operários
assalariados, e na mesma proporçom em que os mestres de ofícios das corporaçons
medievais se convertiam em burgueses modernos, os oficiais e os jornaleiros
nom agremiados transformavam-se em proletários. E se, em termos gerais,
a burguesia podia arrogar-se o direito de representar, nas suas luitas com
a nobreza, além dos seus interesses, os das diferentes classes trabalhadoras
da época, ao lado de todo grande movimento burguês que se desatava, eclodiam
movimentos independentes daquela classe que era o precedente mais ou menos
desenvolvido do proletariado moderno. Tal foi na época da Reforma e das
guerras camponesas na Alemanha. A tendência dos anabatistas e de Thomas
Münzer; na grande Revoluçom Inglesa, os levellers
[ii]
, e na Revoluçom Francesa, Babeuf. Essas sublevaçons revolucionárias
de umha classe incipiente som acompanhadas, pola sua vez, polas correspondentes
manifestaçons teóricas: nos séculos XVI e XVII
[iii]
aparecem as descriçons utópicas de um regime
ideal da sociedade; no século XVIII, teorias já abertamente comunistas,
como as de Morelly e Mably. A reivindicaçom da igualdade nom se limitava
aos direitos políticos, mas se estendia às condiçons sociais de vida de
cada indivíduo; já nom se tratava de abolir os privilégios de classe, mas
de destruir as próprias diferenças de classe. Um comunismo ascético, ao
modo espartano, que renunciava a todos os gozos da vida: tal foi a primeira
forma de manifestaçom da nova teoria. Mais tarde vinhérom os três grandes
utopistas: Saint-Simon, em que a tendência continua ainda a se afirmar,
até certo ponto, junto da tendência proletária; Fourier e Owen, este último,
num país onde a produçom capitalista estava mais desenvolvida e sob a impressom
engendrada por ela, expondo em forma sistemática umha série de medidas orientadas
no sentido de abolir as diferenças de classe, em relaçom direta com o materialismo
francês.
Traço comum aos três é que nom actuavam como representantes
dos interesses do proletariado, que entretanto surgira como um produto histórico.
Da mesma maneira que os enciclopedistas, nom se proponhem emancipar primeiramente
umha classe determinada, mas, de chofre, toda a humanidade. 19 assim como
eles, pretendem instaurar o império da razom e da justiça eterna. Mas entre
o seu império e o dos enciclopedistas medeia um abismo. Também o mundo burguês,
instaurado segundo os princípios dos enciclopedistas, é injusto e irracional
e merece, portanto, ser jogado entre os trastes inservíveis, tanto quanto
o feudalismo e as formas sociais que o antecedêrom. Se até agora a verdadeira
razom e a verdadeira justiça nom governárom o mundo é simplesmente porque
ninguém soubo penetrar devidamente nelas. Faltava o homem genial, que agora
se ergue ante a humanidade com a verdade, por fim descoberta. O facto de
que esse homem tenha aparecido agora, e nom antes, o facto de que a verdade
tenha sido por fim descoberta agora, e nom antes, nom é, segundo eles, um
acontecimento inevitável, imposto pola concatenaçom do desenvolvimento histórico,
e sim porque o simples acaso assim o quijo. Poderia ter aparecido quinhentos
anos antes, poupando assim à humanidade quinhentos anos de erros, de luitas
e de sofrimentos.
Vimos como os filósofos franceses do século XVIII, que
abrírom o caminho à revoluçom, apelavam para a razom como o juiz único de
todo o que existe. Pretendia-se instaurar um Estado racional, umha sociedade
ajustada à razom, e todo quanto contradixesse a razom eterna deveria ser
rechaçado sem nengumha piedade. Vimos também que, na realidade, essa razom
nom era mais que o senso comum do homem idealizado da classe média que,
precisamente entom, se convertia em burguês. Por isso, quando a Revoluçom
Francesa empreendeu a construçom dessa sociedade e desse Estado da razom,
redundou que as novas instituiçons, por mais racionais que fossem em comparaçom
com as antigas, distavam bastante da razom da luita. O Estado da razom falira
completamente. O contrato social de Rousseau tomara corpo na época do terror,
e a burguesia, perdida a fé na sua própria habilidade política, refugiou-se,
primeiro na corrupçom do Diretório e, por último, sob a égide do despotismo
napoleónico. A prometida paz eterna convertera-se numha interminável guerra
de conquistas. Tampouco tivo melhor sorte a sociedade da razom. O antagonismo
entre pobres e ricos, longe de dissolver-se no bem-estar geral, aguçara-se
com o desaparecimento dos privilégios das corporaçons e outros, que estendiam
umha ponte sobre ele, e os estabelecimentos eclesiásticos de beneficência,
que o atenuavam. A "liberaçom da propriedade" dos entraves feudais,
que agora se convertia em realidade, vinha a ser para o pequeno burguês
e o pequeno camponês a liberdade de vender a esses mesmos poderosos senhores
sua pequena propriedade, esgotada pola esmagadora concorrência do grande
capital e da grande propriedade latifundiária; com o que se transformava
na "liberaçom" do pequeno burguês e do pequeno camponês de toda
propriedade. O assenso da indústria sobre bases capitalistas converteu a
pobreza e a miséria das massas trabalhadoras em condiçom de vida da sociedade.
O pagamento à vista transformava-se, cada vez mais, segundo a expressom
de Carlyle, no único elo que unia à cidade. A estatística criminal crescia
de ano para ano. Os vícios feudais, que até entom eram exibidos impudicamente,
à luz do dia, nom desapareceram, mas se recolheram, por um momento, um pouco
ao fundo do cenário; em troca, floresciam exuberantemente os vícios burgueses,
até entom superficialmente ocultos. O comércio foi degenerando, cada vez
mais, em trapaça. A "fraternidade" do lema revolucionário tomou
corpo nas deslealdades e na inveja da luita de concorrência. A opressom
violenta cedeu lugar à corrupçom, e a espada, como principal alavanca do
poder social, foi substituída polo dinheiro. O direito de pernada
[iv]
passou do senhor feudal ao fabricante burguês. A prostituiçom
desenvolveu-se em proporçons até entom desconhecidas. O próprio casamento
continuou sendo o que já era: a forma reconhecida pola lei, o manto com
que se cobria a prostituiçom, completado ademais com umha abundáncia de
adultérios. Numha palavra, comparadas com as brilhantes promessas dos pensadores,
as instituiçons sociais e políticas instauradas polo "triunfo da razom"
redundaram em tristes e decepcionantes caricaturas. Faltavam apenas os homens
que pugessem em relevo o desengano, e esses homens surgírom nos primeiros
anos do século XIX. Em 1802, vinhérom à luz as Cartas de Genebra de Saint-Simon;
em 1808, Fourier publicou a sua primeira obra, embora as bases de sua teoria
datassem já de 1799; a 1º de Janeiro de 1800, Robert Owen assumiu a direcçom
da empresa de New Lanark.
No entanto, naquela época, o modo capitalista de produçom,
e com ele o antagonismo entre a burguesia e o proletariado, achava-se ainda
muito pouco desenvolvido. A grande indústria, que acabava de nascer em Inglaterra,
era ainda desconhecida em França. E só a grande indústria desenvolve, de
umha parte, os conflitos que transformam numha necessidade imperiosa a subversom
do modo de produçom e a eliminaçom do seu carácter capitalista - conflitos
que eclodem nom só entre as classes engendradas por essa grande indústria,
mas também entre as forças produtivas e as formas de distribuiçom por ela
criadas - e, de outra parte, desenvolve também nessas gigantescas forças
produtivas os meios para solucionar esses conflitos. As vésperas do século
XIX, os conflitos que brotavam da nova ordem social mal começavam a desenvolver-se,
e menos ainda, naturalmente, os meios que levam à sua soluçom. Se as massas
despossuídas de Paris conseguírom dominar por um momento o poder durante
o regime de terror, e assim levar ao triunfo a revoluçom burguesa, inclusive
contra a burguesia, foi só para demonstrar até que ponto era Impossível
manter por muito tempo esse poder nas condiçons da época. O proletariado,
que apenas começava a destacar-se no seio das massas que nada possuem, como
tronco de umha nova classe, totalmente incapaz ainda para desenvolver umha
acçom política própria, nom representava mais que um estrato social oprimido,
castigado, incapaz de valer-se por si mesmo. A ajuda, no melhor dos casos,
tinha que vir de fora, do alto.
Essa situaçom histórica informa também as doutrinas
dos fundadores do socialismo. As suas teorias incipientes nom fam mais do
que reflectir o estado incipiente da produçom capitalista, a incipiente
condiçom de classe. Pretendia-se tirar da cabeça a soluçom dos problemas
sociais, latentes ainda nas condiçons económicas pouco desenvolvidas da
época. A sociedade nom encerrava senom males, que a razom pensante era chamada
a remediar.
Tratava-se, por isso, de descobrir um sistema novo e
mais perfeito de ordem social, para implantá-lo na sociedade vindo de fora,
por meio da propaganda e, sendo possível, com o exemplo, mediante experiências
que servissem de modelo. Esses novos sistemas sociais nasciam condenados
a mover-se no reino da utopia; quanto mais detalhados e minuciosos fossem,
mais tinham que degenerar em puras fantasias.
Assentado isso, nom há por que nos determos nem um momento
mais nesse aspecto, já definitivamente incorporado ao passado. Deixemos
que os trapeiros literários revolvam solemnemente nessas fantasias, que
parecem hoje provocar o riso, para ressaltar sobre o fundo desse "cúmulo
de disparates" a superioridade de seu raciocínio sereno. Quanto a nós,
admiramos os germes geniais de ideias e as ideias geniais que brotam por
toda a parte sob essa envoltura de fantasia que os filisteus som incapazes
de ver.
Saint-Simon era filho da grande Revoluçom Francesa,
que estalou quando ele nom contava ainda trinta anos. A Revoluçom foi o
triunfo do terceiro estado, isto é, da grande massa activa da naçom, a cujo
cargo corriam a produçom e o comércio, sobre os estados até entom ociosos
e privilegiados da sociedade: a nobreza e o clero. Mas logo se viu que o
triunfo do terceiro estado nom era mais que o triunfo de umha parte muito
pequena dele, a conquista do poder político polo sector socialmente privilegiado
dessa classe: a burguesia possuidora. Essa burguesia desenvolvia-se rapidamente
já no processo da revoluçom, especulando com as terras confiscadas e logo
vendidas da aristocracia e da Igreja, e lesando a naçom por meio das verbas
destinadas ao exército. Foi precisamente o governo desses negocistas que,
sob o Diretório, levou à França e a Revoluçom à beira da ruína, dando com
isso a Napoleom o pretexto para o golpe de Estado. Por isso, na ideia de
Saint-Simon, o antagonismo entre o terceiro estado e os estados privilegiados
da sociedade tomou a forma de um antagonismo entre "trabalhadores"
e "ociosos". Os "ociosos" eram nom só os antigos privilegiados,
mas todos aqueles que viviam de suas rendas, sem intervir na produçom nem
no comércio. No conceito de "trabalhadores" nom entravam somente
os operários assalariados, mas também os fabricantes, os comerciantes e
os banqueiros. Que os ociosos tinham perdido a capacidade para dirigir espiritualmente
e governar politicamente era um facto indisfarçável, selado em definitivo
pola Revoluçom. E, para Saint-Simon, as experiências da época do terror
tinham demonstrado, pola sua vez, que os descamisados nom possuíam tampouco
essa capacidade. Entom, quem haveria de dirigir e governar? Segundo Saint-Simon,
a ciência e a indústria, unidas por um novo laço religioso, um "novo
cristianismo", forçosamente místico e rigorosamente hierárquico, chamado
a restaurar a unidade das ideias religiosas, destruída desde a
Reforma. Mas a ciência eram os sábios académicos; e a indústria eram,
em primeiro lugar, os burgueses activos, os fabricantes, os comerciantes,
os banqueiros. E embora esses burgueses tivessem de transformar-se numha
espécie de funcionários públicos, de homens da confiança de toda a sociedade,
sempre conservariam frente aos operários umha posiçom autoritária e economicamente
privilegiada. Os banqueiros seriam os chamados em primeiro lugar para regular
toda a produçom social por meio de umha regulamentaçom do crédito. Esse
modo de conceber correspondia perfeitamente a umha época em que a grande
indústria, e com ela o antagonismo entre a burguesia e o proletariado, mal
começava a despontar em França. Mas Saint-Simon insiste muito especialmente
neste ponto: o que o preocupa, sempre e em primeiro lugar, é a sorte da
“classe mais numerosa e mais pobre” da sociedade (“la classe la plus nombreuse
et la plus pauvre").
Nas suas Cartas de Genebra, Saint-Simon formula
a tese de que "todos os homens devem trabalhar". Na mesma obra
já se expressa a ideia de que o reinado do terror era o governo das massas
despossuídas. "Vede –grita-lhes– o que se passou em França quando os
vossos camaradas subírom ao poder: provocárom a fame". Mas conceber
a Revoluçom Francesa como umha luita de classes, e nom só entre a nobreza
e a burguesia, mas entre a nobreza, a burguesia e os despossuídos, era,
em 1802, umha descoberta verdadeiramente genial.
Em 1816, Saint-Simon declara que a política é a ciência
da produçom e predi já a total absorçom da política pola economia. E se
aqui nom fai senom aparecer em germe a ideia de que a situaçom económica
é a base das instituiçons políticas, proclama já claramente a transformaçom
do governo político sobre os homens numha administraçom das cousas e na
direçom dos processos da produçom, que nom é senom a ideia da "aboliçom
do Estado" que tanto alarde levanta ultimamente. E, elevando-se ao
mesmo plano de superioridade sobre os seus contemporáneos, declara, em 1814,
imediatamente depois da entrada das tropas coligadas em Paris, e reitera
em 1815, durante a Guerra dos Cem Dias, que a aliança de França com Inglaterra
e, em segundo lugar, a destes países com a Alemanha é a única garantia do
desenvolvimento próspero e da paz na Europa. A fim de aconselhar aos franceses
de 1815, umha aliança com os vencedores de Waterloo era necessário possuir
tanto valentia quanto capacidade para ver longe na história.
O que em Saint-Simon é amplitude genial de visom, que
lhe permite conter já, em germe, quase todas as ideias nom estritamente
económicas dos socialistas posteriores, em Fourier é a crítica engenhosa
autenticamente francesa, mas nem por isso menos profunda, das condiçons
sociais existentes. Fourier pega a burguesia pola palavra, por seus inflamados
profetas de antes e seus interesseiros aduladores de depois da revoluçom.
Pom a nu, impiedosamente, a miséria material e moral do mundo burguês, e
a compara com as fascinantes promessas dos velhos enciclopedistas, com a
imagem que eles faziam da sociedade em que a razom reinaria sozinha, de
umha civilizaçom que faria felizes todos os homens e de umha ilimitada capacidade
humana de perfeiçom. Desmascara as brilhantes frases dos ideólogos burgueses
da época, demonstra como a essas frases grandiloqüentes corresponde, por
toda parte, a mais cruel das realidades e derrama sua sátira mordaz sobre
esse ruidoso fracasso da fraseologia. Fourier nom é apenas um crítico; seu
espírito sempre jovial fai dele um satírico, um dos maiores satíricos de
todos os tempos. A especulaçom criminosa desencadeada com o refluxo da onda
revolucionária e o espírito mesquinho do comércio francês naqueles anos
aparecem pintados nas suas obras com traços magistrais e encantadores. Mas
é ainda mais magistral nele a crítica das relaçons entre os sexos e da posiçom
da mulher na sociedade burguesa. É ele o primeiro a proclamar que o grau
de emancipaçom da mulher numha sociedade é o barómetro natural polo qual
se mede a emancipaçom geral. Contodo, onde mais sobressai Fourier é na maneira
como concebe a história da sociedade. Fourier divide toda a história anterior
em quatro fases ou etapas de desenvolvimento: o selvagismo, a barbárie,
o patriarcado e a civilizaçom, esta última fase coincidindo com o que chamamos
hoje sociedade burguesa, isto é, com o regime social implantado desde o
século XVI, e demonstra que a "ordem civilizada eleva a umha forma
complexa, ambígua, equívoca e hipócrita todos aqueles vícios que a barbárie
praticava em meio à maior simplicidade". Para ele a civilizaçom move-se
num "círculo vicioso", num ciclo de contradiçons, que reproduz
constantemente sem poder superá-las, conseguindo sempre precisamente o contrário
do que deseja ou alega querer conseguir. E assim nos encontramos, por exemplo,
com o facto de que "na civilizaçom, a pobreza brota da própria abundáncia"
Como se vê, Fourier maneja a dialéctica com a mesma mestria de seu contemporáneo
Hegel. Diante dos que enchem a boca falando da ilimitada capacidade humana
de perfeiçom, pom em relevo, com igual dialéctica, que toda fase histórica
tem sua vertente ascensional, mas também sua ladeira descendente, e projeta
essa concepçom sobre o futuro de toda a humanidade. E assim como Kant introduziu
na ciência da natureza o desaparecimento futuro da terra, Fourier introduz
no seu estudo da história a ideia do futuro desaparecimento da humanidade.
Enquanto o vendaval da revoluçom varria o solo de França,
desenvolvia-se em Inglaterra um processo revolucionário, mas tranqüilo,
porém nem por isso menos poderoso. O vapor e as máquinas-ferramenta converteram
a manufatura na grande indústria moderna, revolucionando com isso todos
os fundamentos da sociedade burguesa. O ritmo vagaroso do desenvolvimento
do período da manufatura converteu-se num verdadeiro período de luita e
embate da produçom. Com umha velocidade cada vez mais acelerada, ia-se dando
a divisom da sociedade em grandes capitalistas e proletários que nada, possuem
e, entre eles, em lugar da antiga classe média tranqüila e estável, umha
massa Instável de artesaos e pequenos comerciantes, a parte mais flutuante
da populaçom, levava umha existência sem nengumha segurança. O novo modo
de produçom apenas começava a galgar a vertente ascensional; era ainda o
modo de produçom normal, regular, o único possível, naquelas circunstáncias.
E no entanto deu origem a toda umha série de graves calamidades sociais:
amontoamento, nos bairros mais sórdidos das grandes cidades, de umha populaçom
arrancada do seu solo; dissoluçom de todos os laços tradicionais dos costumes,
da submissom patriarcal e da família; prolongaçom abusiva do trabalho, que
sobretodo entre as mulheres e as crianças assumia proporçons aterradoras;
desmoralizaçom em massa da classe trabalhadora, lançada de súbito a condiçons
de vida totalmente novas - do campo para a cidade, da agricultura para a
indústria, de umha situaçom estável para outra constantemente variável e
insegura. Em tais circunstáncias, ergue-se como reformador um fabricante
de 29 anos, um homem cuja pureza quase infantil tocava às raias do sublime
e que era, ao lado disso, um condutor de homens como poucos. Robert Owen
assimilara os ensinamentos dos filósofos materialistas do século XVIII,
segundo os quais o carácter do homem é, de um lado, produto de sua organizaçom
inata e, de outro, fruto das circunstáncias que envolvem o homem durante
sua vida, sobretodo durante o período de seu desenvolvimento. A maioria
dos homens de sua classe nom via na revoluçom industrial senom caos e confusom,
umha ocasiom propícia para pescar no rio revolto e enriquecer depressa.
Owen, porém, viu nela o terreno adequado para pôr em prática a sua tese
favorita, introduzindo ordem no caos. Já em Manchester, dirigindo umha fábrica
de mais de 500 operários, tentara, nom sem êxito, aplicar praticamente a
sua teoria. De 1800 a 1829 orientou no mesmo sentido, embora com maior liberdade
de iniciativa e com um êxito que lhe valeu fama na Europa, a grande fábrica
de fios de algodom de New Lanark, na Escócia, da qual era sócio e gerente.
Umha populaçom operária que foi crescendo paulatinamente até 2500 almas,
recrutada a princípio entre os elementos mais heterogéneos, a maioria dos
quais muito desmoralizados, converteu-se nas suas maos numha colónia-modelo,
na qual nom se conheciam a embriaguez, a polícia, os juizes de paz, os processos,
os asilos para pobres nem a beneficência pública. Para isso bastou, tam
somente, colocar seus operários em condiçons mais humanas de vida, consagrando
um cuidado especial à educaçom da prole. Owen foi o criador dos jardins-de-infáncia,
que funcionárom pola primeira vez em New Lanark. As crianças eram enviadas
às escolas desde os dous anos, e nelas se sentiam tam bem que só com dificuldade
eram levadas para casa. Enquanto nas fábricas dos seus concorrentes os operários
trabalhavam treze e catorze horas diárias, em New Lanark a jornada de trabalho
era de dez horas e meia. Quando umha crise algodoeira obrigou o fechamento
da fábrica por quatro meses, os operários de New Lanark, que ficárom sem
trabalho, continuárom recebendo suas diárias integrais. E contodo a empresa
incrementara ao dobro o seu valor e rendeu a seus proprietários, até o último
dia, enormes lucros.
Owen, entretanto, nom estava satisfeito com o que conseguira.
A existência que se propugera dar a seus operários distava muito ainda de
ser, a seus olhos, umha existência digna de um ser humano. "Aqueles
homens eram os meus escravos". As circunstáncias relativamente favoráveis
em que os colocara estavam ainda muito longe de permitir-lhes desenvolver
racionalmente e em todos os aspectos o carácter e a inteligência, e muito
menos desenvolver livremente suas energias. "E, contodo, a parte produtora
daquela populaçom de 2.500 almas dava à sociedade umha soma de riqueza real
que, apenas meio século antes, teria exigido o trabalho de 600.000 homens
juntos. Eu perguntava-me: onde vai parar a diferença entre a riqueza consumida
por essas 2.500 pessoas e a que precisaria ser consumida polas 600.000?"
A resposta era clara: essa diferença era invertida em abonar os proprietários
da empresa com 5 por cento de juros sobre o capital de instalaçom, ao qual
vinham somar-se mais de 300.000 libras esterlinas de lucros. E o caso de
New Lanark era, só que em proporçons maiores, o de todas as fábricas de
Inglaterra. "Sem essa nova fonte de riqueza criada polas máquinas,
teria sido impossível levar adiante as guerras travadas para derrubar Napoleom
e manter de pé os princípios da sociedade aristocrática. E, no entanto,
esse novo poder era obra da classe operária."
[v]
A ela deviam pertencer também, portanto, os seus frutos.
As novas e gigantescas forças produtivas, que até ali só tinham servido
para que alguns enriquecessem e as massas fossem escravizadas, lançavam,
segundo Owen, as bases para umha reconstruçom social e estavam fadadas a
trabalhar somente para o bem-estar colectivo, como propriedade colectiva
de todos os membros da sociedade.
Foi assim, por esse caminho puramente prático - resultado,
por dizê-lo, dos cálculos de um homem de negócios que surgiu o comunismo
oweniano, conservando sempre esse carácter prático. Assim, em 1823, Owen
propom um sistema de colónias comunistas para combater a miséria reinante
na Irlanda e apresenta, em apoio de sua proposta, um orçamento completo
de despesas de instalaçom, desembolsos anuais e rendas prováveis. E assim
também nos seus planos definitivos da sociedade do futuro, os detalhes técnicos
som calculados com um domínio tal da matéria, Incluindo até projectos, desenhos
de frente, de perfil e do alto que, umha vez aceite o método oweniano de
reforma da sociedade, pouco se poderia objectar, mesmo um técnico experimentado,
contra os pormenores de sua organizaçom.
O avanço para o comunismo constitui um momento crucial
na vida de Owen. Enquanto se limitara a actuar só como filantropo, nom colhera
senom riquezas, aplausos, honra e fama. Era o homem mais popular da Europa.
Nom só os homens de sua classe e posiçom social, mas também os governantes
e os príncipes o escuitavam e o aprovavam. No momento, porém, em que formulou
as suas teorias comunistas, virou-se a página. Eram precisamente três grandes
obstáculos -os que, segundo ele, se erguiam no seu caminho da reforma social:
a propriedade privada, a religiom e a forma actual do casamento. E nom ignorava
ao que se expunha atacando-os: à execraçom de toda a sociedade oficial e
à perda de sua posiçom social. Mas isso nom o detivo nos seus ataques implacáveis
contra aquelas instituiçons, e ocorreu o que ele previa. Desterrado pola
sociedade oficial, ignorado completamente pola imprensa, arruinado por suas
fracassadas experiências comunistas na América, às quais sacrificou toda
a sua fortuna, dirigiu-se à classe operária, no seio da qual actuou ainda
durante trinta anos. Todos os movimentos sociais, todos os progressos reais
registrados em Inglaterra em interesse da classe trabalhadora, estám ligados
ao nome de Owen. Assim, em 1819, depois de cinco anos de grandes esforços,
conseguiu que fosse votada a primeira lei limitando o trabalho da mulher
e da criança nas fábricas. Foi ele quem presidiu o primeiro congresso em
que as trade-unions de toda a Inglaterra se fundírom numha grande organizaçom
sindical única. E foi também ele quem criou, como medidas de transiçom,
para que a sociedade pudesse organizar-se de maneira integralmente comunista,
de um lado, as cooperativas de consumo e de produçom –que servírom, polo
menos, para demonstrar na prática que o comerciante e o fabricante nom som
indispensáveis–, e de outro lado, os mercados operários, estabelecimentos
de troca dos produtos do trabalho por meio de bônus de trabalho e cuja unidade
é a hora de trabalho produzido; esses estabelecimentos tinham necessariamente
que fracassar, mas se antecipam muito aos bancos proudhonianos de troca,
diferenciando-se deles somente em que nom pretendem ser a panaceia universal
para todos os males sociais, mas pura e simplesmente um primeiro passo para
umha transformaçom muito mais radical da sociedade.
As concepçons dos utopistas dominárom durante muito
tempo as ideias socialistas do século XIX, e em parte ainda hoje as dominam.
Rendiam-lhes homenagens, até há muito pouco tempo, todos os socialistas
franceses e ingleses e a eles se deve também o incipiente comunismo alemám,
incluindo Weitling. Para todos eles, o socialismo é a expressom da verdade
absoluta, da razom e da justiça, e é bastante revelá-lo para, graças à sua
virtude, conquistar o mundo. E, como a verdade absoluta nom está sujeita
a condiçons de espaço e de tempo nem ao desenvolvimento histórico da humanidade,
só o acaso pode decidir quando e onde essa descoberta se revelará. Acrescente-se
a isso que a verdade absoluta, a razom e a justiça variam com os fundadores
de cada escola; e como o carácter específico da verdade absoluta, da razom
e da justiça está condicionado, pola sua vez, em cada um deles, pola inteligência
pessoal, condiçons de vida, estado de cultura e disciplina mental, resulta
que nesse conflito de verdades absolutas a única soluçom é que elas vaiam
acomodando-se umhas às outras. E, assim, era inevitável que surgisse umha
espécie de socialismo ecléctico e medíocre, como o que, com efeito, continua
imperando ainda nas cabeças da maior parte dos operários socialistas de
França e de Inglaterra: umha mistura extraordinariamente variegada e cheia
de matizes, compostas de desabafos críticos, princípios económicos e as
imagens sociais do futuro menos discutíveis dos diversos fundadores de seitas,
mistura tanto mais fácil de compor quanto mais os ingredientes individuais
iam perdendo, na torrente da discussom, os seus contemos sutis e agudos,
como as pedras limadas pola corrente de um rio. Para converter o socialismo
em ciência era necessário, antes de todo, situá-lo no terreno da realidade.
Entretanto, junto da filosofia francesa do século XVIII,
e por trás dela, surgira a moderna filosofia alemá, cujo ponto culminante
foi Hegel. O principal mérito dessa filosofia é a restauraçom da dialéctica,
como forma suprema do pensamento. Os antigos filósofos gregos eram todos
dialécticos inatos, espontáneos, e a cabeça mais universal de todos eles
- Aristóteles - chegara já a estudar as formas mais substanciais do pensamento
dialéctico. Em troca, a nova filosofia, embora tendo um ou outro brilhante
defensor da dialéctica (como, por exemplo, Descartes e Spinoza) caía cada
vez mais, sob a influência principalmente dos ingleses, na chamada maneira
metafísica de pensar, que também dominou quase totalmente entre os franceses
do século XVIII, ao menos nas suas obras especificamente filosóficas. Fora
do campo estritamente filosófico, eles criárom também obras-primas de dialéctica;
como prova, basta citar O Sobrinho de Rameau, de Diderot, e o estudo
de Rousseau sobre a origem da desigualdade entre os homens. Resumiremos
aqui, sucintamente, os traços mais essenciais de ambos os métodos discursivos.
Quando nos detemos a pensar sobre a natureza, ou sobre
a história humana, ou sobre nossa própria actividade espiritual, deparamo-nos,
em primeiro plano, com a imagem de umha trama infinita de concatenaçons
e influências recíprocas, em que nada permanece o que era, nem como e onde
era, mas todo se move e se transforma, nasce e morre. Vemos, pois, antes
de todo, a imagem de conjunto, na qual os detalhes passam ainda mais ou
menos para o segundo plano; fixamo-nos mais no movimento, nas transiçons,
na concatenaçom, do que no que se move, se transforma e se concatena. Essa
concepçom do mundo, primitiva, ingénua, mas essencialmente exacta, é a dos
filósofos gregos antigos, e aparece claramente expressa pola primeira vez
em Heráclito: todo é e nom é, pois todo flui, todo se acha sujeito a um
processo constante de transformaçom, de incessante nascimento e caducidade.
Mas essa concepçom, por mais exactamente que reflicta o carácter geral do
quadro que nos é oferecido polos fenómenos, nom basta para explicar os elementos
isolados que formam esse quadro total; sem conhecê-los a imagem geral nom
adquirirá tampouco um sentido claro. Para penetrar nesses detalhes temos
de despregá-los do seu tronco histórico ou natural e investigá-los separadamente,
cada qual por si, no seu carácter, causas e efeitos especiais, etc. Tal
é a missom primordial das ciências naturais e da história, ramos de investigaçom
que os gregos clássicos situavam, por motivos muito justificados, num plano
puramente secundário, pois primeiramente deviam dedicar-se a acumular os
materiais científicos necessários. Enquanto nom se reúne umha certa quantidade
de materiais naturais e históricos nom se pode proceder ao exame crítico,
à comparaçom e, consequentemente, à divisom em classes, ordens e espécies.
Por isso, os rudimentos das ciências naturais exactas nom foram desenvolvidos
senom a partir dos gregos do período alexandrino
[vi]
e, mais tarde, na Idade Média, polos árabes; a ciência
autêntica da natureza data somente da segunda metade do século XV e, desde
entom, nom fijo senom progredir a ritmo acelerado. A análise da natureza
nas suas diversas partes, a classificaçom dos diversos processos e objectos
naturais em determinadas categorias, a pesquisa interna dos corpos orgánicos
segundo a sua diversa estrutura anatómica, fôrom outras tantas condiçons
fundamentais a que obedecêrom os gigantescos progressos realizados, durante
os últimos quatrocentos anos, no conhecimento científico da natureza. Esses
métodos de investigaçom, porém, transmitiu-nos, ao lado disso, o hábito
de enfocar as cousas e os processos da natureza isoladamente, subtraídos
à concatenaçom do grande todo; portanto, nom na sua dinámica, mas estaticamente;
nom como substancialmente variáveis, mas como consistências fixas; nom na
sua vida, mas na sua morte. Por isso, esse método de observaçom, ao transplantar-se,
com Bacon e Locke, das ciências naturais para a filosofia, determinou a
estreiteza específica característica dos últimos séculos: o método metafísico
de especulaçom.
Para o metafísico, as cousas e as suas imagens no pensamento,
os conceitos, som objectos de investigaçom isolados, fixos, rígidos, focalizados
um após o outro, de per si, como algo dado e perene. Pensa só em antíteses,
sem meio-termo possível; para ele, das duas umha: sim, sim; nom, nom; o
que for além disso, sobra. Para ele, umha cousa existe ou nom existe; um
objecto nom pode ser ao mesmo tempo o que é e outro diferente. O positivo
e o negativo se excluem em absoluto. A causa e o efeito revestem também,
a seus olhos, a forma de umha rígida antítese. A primeira vista, esse método
discursivo parece-nos extremamente razoável, porque é o do chamado senso
comum. Mas o próprio senso comum - personagem muito respeitável dentro de
casa, entre quatro paredes - vive peripécias verdadeiramente maravilhosas
quando se aventura polos caminhos amplos da Investigaçom; e o método metafísico
de pensar, por muito justificado e até necessário que seja em muitas zonas
do pensamento, mais ou menos extensas segundo a natureza do objecto de que
se trate, tropeça sempre, cedo ou tarde, com umha barreira, ultrapassada
a qual converte-se num método unilateral, limitado, abstrato, e se perde
em insolúveis contradiçons, pois, absorvido polos objectos concretos, nom
consegue perceber sua concatenaçom; preocupado com sua existência, nom atenta
na sua origem nem na sua caducidade; obcecado polas árvores, nom consegue
ver o bosque. Na realidade de cada dia, sabemos, por exemplo, e podemos
dizer com toda certeza se um animal existe ou nom; porém, pesquisando mais
detidamente, verificamos que às vezes o problema se complica consideravelmente,
como sabem muito bem os juristas, que tanto e tam inutilmente tenhem-se
atormentado por descobrir um limite racional a partir do qual deva a morte
do filho no ventre materno ser considerada um assassinato; nem é fácil tampouco
determinar rigidamente o momento da morte, umha vez que a fisiologia demonstrou
que a morte nom é um fenómeno repentino, instantáneo, mas um processo muito
longo. Do mesmo modo, todo ser orgánico é, a qualquer instante, ele mesmo
e outro; a todo instante, assimila matérias absorvidas do exterior e elimina
outras do seu interior; a todo instante, morrem certas células e nascem
outras no seu organismo; e no transcurso de um período mais ou menos demorado
a matéria de que é formado renova-se totalmente, e novos átomos de matérias
venhem ocupar o lugar dos antigos, por onde todo o seu ser orgánico é, ao
mesmo tempo, o que é e outro diferente. Da mesma maneira, observando as
cousas detidamente, verificamos que os dous pólos de umha antítese, o positivo
e o negativo, som tam inseparáveis quanto antitéticos um do outro e que,
apesar de todo o seu antagonismo, se penetram reciprocamente; e vemos que
a causa e o efeito som representaçons que somente regem, como tais, na sua
aplicaçom ao caso concreto, mas que, examinando o caso concreto na sua concatenaçom
com a imagem total do universo, se juntam e se diluem na ideia de umha trama
universal de acçons e reacçons, em que as causas e os efeitos mudam constantemente
de lugar e em que o que agora ou aqui é efeito adquire em seguida ou ali
o carácter de causa, e vice-versa.
Nengum desses fenómenos e métodos discursivos se encaixa
no quadro das especulaçons metafísicas. Ao contrário, para a dialéctica,
que focaliza as cousas e as suas imagens conceituais substancialmente nas
suas conexons, na sua concatenaçom, na sua dinámica, no seu processo de
nascimento e caducidade, fenómenos como os expostos nom som mais que outras
tantas confirmaçons de seu modo genuíno de proceder. A natureza é a pedra
de toque da dialéctica, e as modernas ciências naturais oferecem-nos para
essa prova um acervo de dados extraordinariamente copiosos e enriquecidos
cada dia que passa, demonstrando com isso que a natureza se move, em última
instáncia, polos caminhos dialécticos e nom polas veredas metafísicas, que
nom se move na eterna monotonia de um ciclo constantemente repetido, mas
percorre umha verdadeira história. Aqui é necessário citar Darwin, em primeiro
lugar, quem, com a sua prova de que toda a natureza orgánica existente,
plantas e animais, e entre eles, como é lógico, o homem, é o produto de
um processo de desenvolvi mento de milhons de anos, assestou na concepçom
metafísica da natureza o mais rude golpe. Até hoje, porém, os naturalistas
que soubérom pensar dialecticamente podem ser contados com os dedos, e esse
conflito entre os resultados descobertos e o método discursivo tradicional
pom a nu a ilimitada confusom que reina presentemente na teoria das ciências
naturais e que constitui o desespero de mestres e discípulos, de autores
e leitores.
Somente seguindo o caminho da dialéctica, nom perdendo
jamais de vista as inumeráveis acçons e reacçons gerais do devenir e do
perecer, das mudanças de avanço e retrocesso, chegamos a umha concepçom
exacta do universo, do seu desenvolvimento e do desenvolvimento da humanidade,
assim como da imagem projectada por esse desenvolvimento nas cabeças dos
homens. E foi esse, com efeito, o sentido em que começou a trabalhar, desde
o primeiro momento, a moderna filosofia alemá. Kant iniciou a sua carreira
de filósofo dissolvendo o sistema solar estável de Newton e a sua duraçom
eterna - depois de recebido o primeiro impulso - num processo histórico:
no nascimento do Sol e de todos os planetas a partir de umha massa nebulosa
em rotaçom. Daí, deduziu que essa origem implicava também, necessariamente,
a morte futura do sistema solar. Meio século depois sua teoria foi confirmada
matematicamente por Laplace e, ao fim de outro meio século, o espectroscópio
veu demonstrar a existência no espaço daquelas massas ígneas de gás, em
diferente grau de condensaçom.
A filosofia alemá moderna encontrou a sua culmináncia
no sistema de Hegel, em que pola primeira vez - e aí está o seu grande mérito
- se concebe todo o mundo da natureza, da história e do espírito como um
processo, isto é, em constante movimento, mudança, transformaçom e desenvolvimento,
tentando além disso ressaltar a íntima conexom que preside esse processo
de movimento e desenvolvimento. Contemplada desse ponto de vista, a história
da humanidade já nom aparecia como um caos inóspito de violências absurdas,
todas igualmente condenáveis diante do foro da razom filosófica hoje já
madura, e boas para serem esquecidas quanto antes, mas como o processo de
desenvolvimento da própria humanidade, que cabia agora ao pensamento acompanhar
nas suas etapas graduais e através de todos os desvios, e demonstrar a existência
de leis internas que orientam todo aquilo que à primeira vista poderia parecer
obra do acaso cego.
Nom importava que o sistema de Hegel nom resolvesse
o problema que se propunha. O seu mérito, que marca época, consistiu em
tê-lo proposto. Nom em vao, trata-se de um problema que nengum homem sozinho
pudo resolver. E embora fosse Hegel, como Saint-Simon, a cabeça mais universal
- de seu tempo, seu horizonte achava-se circunscrito, em primeiro lugar,
pola limitaçom inevitável dos seus próprios conhecimentos e, em segundo
lugar, polos conhecimentos e concepçons de sua época, limitados também em
extensom e profundidade. Deve-se acrescentar a isso umha terceira circunstáncia.
Hegel era idealista; isto é, para ele as ideias de sua cabeça nom eram imagens
mais ou menos abstratas dos objectos ou fenómenos da realidade, mas essas
cousas e seu desenvolvimento se lhe afiguravam, ao contrário, como projecçons
realizadas da "ideia", que já existia, nom se sabe como, antes
de existir o mundo. Assim, foi todo posto de cabeça para baixo, e a concatenaçom
real do universal apresentava-se completamente às avessas. E por mais exactas
e mesmo geniais que fossem várias das conexons concretas concebidas por
Hegel, era inevitável, polos motivos que acabamos de apontar, que muitos
dos seus detalhes tivessem um carácter amaneirado, artificial, construído;
numha palavra, falso. O sistema de Hegel foi um aborto gigantesco, mas o
último de seu género. De facto, continuava sofrendo de umha contradiçom
interna incurável; pois, enquanto de um lado partia como pressuposto inicial
da concepçom histórica, segundo a qual a história humana é um processo de
desenvolvimento que nom pode, pola sua natureza, encontrar o arremate intelectual
na descoberta disso que chamam verdade absoluta, de outro lado nos é apresentado
exactamente como a soma e a síntese dessa verdade absoluta. Um sistema universal
e definitivamente plasmado do conhecimento da natureza e da história é incompatível
com as leis fundamentais do pensamento dialéctico - que nom exclui, mas
longe disso implica que o conhecimento sistemático do mundo exterior na
sua totalidade poda progredir gigantescamente de geraçom em geraçom.
A consciência da total inversom em que incorria o idealismo
alemám levou necessariamente ao materialismo; mas nom, veja-se bem, àquele
materialismo puramente metafísico e exclusivamente mecánico do século XVIII.
Em oposiçom à simples repulsa, ingenuamente revolucionária, de toda a história
anterior, o materialismo moderno vê na história o processo de desenvolvimento
da humanidade, cujas leis dinámicas é missom sua descobrir. Contrariamente
à ideia da natureza que imperava entre os franceses do século XVIII, assim
como em Hegel, em que esta era concebida como um todo permanente e invariável,
que se movia dentro de ciclos estreitos, com corpos celestes eternos, tal
como Newton os representava, e com espécies invariáveis de seres orgánicos,
como ensinara Linneu, o materialismo moderno resume e compendia os novos
progressos das ciências naturais, segundo os quais a natureza tem também
sua história no tempo, e os mundos, assim como as espécies orgánicas que
em condiçons propícias os habitam, nascem e morrem, e os ciclos, no grau
em que som admissíveis, revestem dimensons infinitamente mais grandiosas.
Tanto em um como em outro caso, o materialismo moderno é substancialmente
dialéctico e já nom precisa de umha filosofia superior às demais ciências.
Desde o momento em que cada ciência tem que prestar contas da posiçom que
ocupa no quadro universal das cousas e do conhecimento dessas cousas, já
nom há margem para umha ciência especialmente consagrada ao estudo das concatenaçons
universais. Da filosofia anterior, com existência própria, só permanece
de pé a teoria do pensar e de suas leis: a lógica formal e a dialéctica.
O demais se dissolve na ciência positiva da natureza e da história.
No entanto, enquanto que essa revoluçom na concepçom
da natureza só se pudo impor na medida em que a pesquisa fornecia à ciência
os materiais positivos correspondentes, já há muito tempo se tinham revelado
certos factos históricos que imprimiram umha reviravolta decisiva no modo
de focalizar a história. Em 1831, estala em Lyon a primeira insurreiçom
operária, e de 1838 a 1842 atinge o auge o primeiro movimento operário nacional:
o dos cartistas ingleses. A luita de classes entre o proletariado e a burguesia
passou a ocupar o primeiro plano da história dos países europeus mais avançados,
ao mesmo ritmo em que se desenvolvia neles, de um lado, a grande indústria,
e de outro lado, a dominaçom política recém-conquistada da burguesia. Os
factos refutavam cada vez mais rotundamente as doutrinas burguesas da identidade
de interesses entre o capital e o trabalho e da harmonia universal e o bem-estar
geral das naçons, como fruto da livre concorrência. Nom havia como passar
por alto esses fatos, nem era tampouco possível ignorar o socialismo francês
e inglês, expressom teórica sua, por mais imperfeita que fosse. Mas a velha
concepçom idealista da história, que ainda nom tinha sido removida, nom
conhecia luitas de classes baseadas em interesses materiais, nem conhecia
interesses materiais de qualquer espécie; para ela a produçom, bem como
todas as relaçons económicas, só existiam acessoriamente, como um elemento
secundário dentro da "história cultural"
Os novos factos obrigárom à revisom de toda a história
anterior, e entom viu-se que, com excepçom do Estado primitivo, toda a história
anterior era a história das luitas de classes. E que essas classes sociais
em luita entre si eram em todas as épocas fruto das relaçons de produçom
e de troca, isto é, das relaçons económicas de sua época; que a estrutura
económica da sociedade em cada época da história constitui, portanto, a
base real cujas propriedades explicam, em última análise, toda a superestrutura
integrada polas Instituiçons jurídicas e políticas, assim como pola ideologia
religiosa, filosófica, etc., de cada período histórico. Hegel libertara
da metafísica a concepçom da história, tomando-a dialéctica; mas a sua interpretaçom
da história era essencialmente idealista. Agora, o idealismo fora despejado
do seu último reduto a concepçom da história, substituída por umha concepçom
materialista da história, com o que se abria o caminho para explicar a consciência
do homem pola sua existência, e nom esta pola sua consciência, que era até
entom o tradicional.
Desse modo o socialismo já nom aparecia como a descoberta
casual de tal ou qual intelecto genial, mas como o produto necessário da
luita entre as duas classes formadas historicamente: o proletariado e a
burguesia. A sua missom já nom era elaborar um sistema o mais perfeito possível
da sociedade, mas investigar o processo histórico económico de que, forçosamente,
tinham que brotar essas classes e o seu conflito, descobrindo os meios para
a soluçom desse conflito na situaçom económica assim criada. Mas o socialismo
tradicional era incompatível com essa nova concepçom materialista da história,
tanto quanto a concepçom da natureza do materialismo francês nom podia ajustar-se
à dialéctica e às novas ciências naturais. Com efeito, o socialismo anterior
criticava o modo de produçom capitalista existente e as suas conseqüências,
mas nom conseguia explicá-lo nem podia, portanto, destruí-lo ideologicamente;
nada mais lhe restava senom repudiá-lo, pura a simplesmente, como mau. Quanto
mais violentamente clamava contra a exploraçom da classe operária, inseparável
desse modo de produçom, menos estava em condiçons de indicar claramente
em que consistia e como nascia essa exploraçom. Mas do que se tratava era,
por um lado, de expor esse modo capitalista de produçom nas suas conexons
históricas e como necessário para umha determinada época da história, demonstrando
com isso também a necessidade de sua queda e, por outro lado, pôr a nu o
seu carácter interno, ainda oculto. Isso se tomou evidente com a descoberta
da mais-valia. Descoberta que veu revelar que o regime capitalista de produçom
e a exploraçom do operário, que dele se deriva, tinham por forma fundamental
a apropriaçom de trabalho nom pago; que o capitalista, mesmo quando compra
a força de trabalho de seu operário por todo o seu valor, por todo o valor
que representa como mercadoria no mercado, dela retira sempre mais valor
do que lhe custa e que essa mais-valia é, em última análise, a soma de valor
de onde provém a massa cada vez maior do capital acumulado em maos das classes
possuidoras. O processo da produçom capitalista e o da produçom de capital
estavam assim explicados.
Essas duas grandes descobertas - a concepçom materialista
da história e a revelaçom do segredo da produçom capitalista através da
mais-valia - nós as devemos a Karl Marx. Graças a elas o materialismo converte-se
em umha ciência, que só nos resta desenvolver em todos os seus detalhes
e concatenaçons.
A concepçom materialista da história parte da tese de
que a produçom, e com ela a troca dos produtos, é a base de toda a ordem
social; de que em todas as sociedades que desfilam pola história, a distribuiçom
dos produtos, e juntamente com ela a divisom social dos homens em classes
ou camadas, é determinada polo que a sociedade produz e como produz o polo
modo de trocar os seus produtos. De conformidade com isso, as causas profundas
de todas as transformaçons sociais e de todas as revoluçons políticas nom
devem ser procuradas nas cabeças dos homens nem na ideia que eles façam
da verdade eterna ou da eterna justiça, mas nas transformaçons operadas
no modo de produçom e de troca; devem ser procuradas nom na filosofia, mas
na economia da época de que se trata. Quando nasce nos homens a consciência
de que as instituiçons sociais vigentes som irracionais e injustas, de que
a razom se converteu em insensatez e a bênçom em praga
[vii]
, isso nom é mais que um indício de que nos métodos de
produçom e nas formas de distribuiçom produzírom-se silenciosamente transformaçons
com as quais já nom concorda a ordem social, talhada segundo o padrom de
condiçons económicas anteriores. E assim já está dito que nas novas relaçons
de produçom tenhem forçosamente que conter-se - mais ou menos desenvolvidos
- os meios necessários para pôr termo, aos males descobertos. E esses meios
nom devem ser tirados da cabeça de ninguém, mas a cabeça é que tem de descobri-los
nos factos materiais da produçom, tal e qual a realidade os oferece.
Qual é, nesse aspecto, a posiçom do socialismo moderno?
A ordem social vigente - verdade reconhecida hoje por
quase todo o mundo - é obra das classes dominantes dos tempos modernos,
da burguesia. O modo de produçom característico da burguesia, ao qual desde
Marx se dá o nome de modo capitalista de produçom, era incompatível com
os privilégios locais e dos estados, como o era com os vínculos impessoais
da ordem feudal. A burguesia lançou por terra a ordem feudal e levantou
sobre suas ruínas o regime da sociedade burguesa, o império da livre concorrência,
da liberdade de domicílio, da igualdade de direitos dos possuidores de mercadorias,
e tantas outras maravilhas burguesas. Agora já podia desenvolver-se livremente
o modo capitalista de produçom. E ao chegarem o vapor e a nova maquinaria
ferramenta, transformando a antiga manufactura na grande indústria, as forças
produtivas criadas e postas em movimento sob o comando da burguesia desenvolvêrom-se
com umha velocidade inaudita e em proporçons até entom desconhecidas. Mas,
do mesmo modo que no seu tempo a manufactura e o artesanato, que continuava
desenvolvendo-se sob a sua influência, se chocavam com os entraves feudais
das corporaçons, a grande indústria, ao chegar a um nível de desenvolvimento
mais alto, já nom cabe no estreito marco em que é contida polo modo de produçom
capitalista. As novas forças produtivas transbordam já da forma burguesa em que som
exploradas, e esse conflito entre as forças produtivas e o modo de produçom
nom é precisamente nascido na cabeça do homem - algo assim como o conflito
entre o pecado original do homem e a justiça divina - mas tem suas raízes
nos factos, na realidade objectiva, fora de nós, independentemente da vontade
ou da actividade dos próprios homens que o provocárom. O socialismo moderno
nom é mais que o reflexo desse conflito material na consciência, sua projecçom
ideal nas cabeças, a começar polas da classe que sofre directamente as suas
conseqüências: a classe operária.
Em que consiste esse conflito?
Antes de sobrevir a produçom capitalista, isto é, na
Idade Média, dominava, com carácter geral, a pequena indústria, baseada
na propriedade privada do trabalhador sobre os seus meios de produçom: no
campo, a agricultura corria a cargo de pequenos lavradores, livres ou vassalos;
nas cidades, a indústria achava-se em maos dos artesaos. Os meios de trabalho
- a terra, os instrumentos agrícolas, a oficina, as ferramentas - eram meios
de trabalho individual, destinados unicamente ao uso individual e, portanto,
forçosamente, mesquinhos, diminutos, limitados. Mas isso mesmo levava a
que pertencessem, em geral, ao próprio produtor. O papel histórico do modo
capitalista de produçom e seu portador - a burguesia - consistiu precisamente
em concentrar e desenvolver esses dispersos e mesquinhos meios de produçom,
transformando-os nas poderosas alavancas produtoras dos tempos actuais.
Esse processo, que a burguesia vem desenvolvendo desde o século XV e que
passa historicamente polas três etapas da cooperaçom simples, a manufactura
e a grande indústria, é minuciosamente exposto por Marx na secçom quarta
de O Capital. Mas a burguesia, como fica também demonstrado nessa obra,
nom podia inverter aqueles; primitivos meios de produçom em poderosas orças
produtivas sem transformá-los de meios individuais de produçom em meios
sociais, só manejáveis por umha colectividade de homens. A roca, o tear
manual e o martelo do ferreiro fôrom substituídos pola máquina de fiar,
polo tear mecánico, polo martelo movido a vapor; a oficina Individual deu
o lugar à fábrica, que impom a cooperaçom de centenas e milhares de operários.
E, com os meios de produçom, transformou-se a própria produçom, deixando
de ser umha cadeia de actos individuais para converter-se numha cadeia de
actos sociais, e os produtos transformárom-se de produtos individuais em
produtos sociais. O fio, as telas, os artigos de metal que agoira saíam
da fábrica eram produto do trabalho colectivo de um grande número de operários,
por cujas maos tinha que passar sucessivamente para sua elaboraçom. Já ninguém
podia dizer: isso foi feito por mim, esse produto é meu.
Mas onde a produçom tem por forma principal um regime
de divisom social do trabalho criado paulatinamente, por impulso elementar,
sem sujeiçom a plano algum, a produçom imprime aos produtos a forma de mercadoria,
cuja troca, compra e venda permitem aos diferentes produtores individuais
satisfazer as suas diversas necessidades. E isso era o que acontecia na
Idade Média. O camponês, por exemplo, vendia ao artesao os produtos da terra,
comprando-lhe em troca os artigos elaborados na sua oficina. Nessa sociedade
de produtores isolados, de produtores de mercadorias, veu a introduzir mais
tarde o novo modo de produçom. Em meio àquela divisom elementar do trabalho,
sem plano nem sistema, que imperava no seio de toda a sociedade, o novo
modo de produçom implantou a divisom planificada do trabalho dentro de cada
fábrica; ao lado da produçom individual surgiu a produçom social. Os produtos
de ambas eram vendidos no mesmo mercado e, portanto, a preços aproximadamente
iguais. Mas a organizaçom planificada podia mais que a divisom elementar
do trabalho; as fábricas em que o trabalho estava organizado socialmente
elaboravam seus produtos mais baratos que os pequenos produtores isolados.
A produçom individual foi pouco a pouco sucumbindo em todos os campos e
a produçom social revolucionou todo o antigo modo de produçom. Contodo,
esse carácter revolucionário passava despercebido; tam despercebido que,
polo contrário, se implantava com a única e exclusiva finalidade de aumentar
e fomentar a produçom de mercadorias. Nasceu directamente ligada a certos
setores de produçom e troca de mercadorias que já vinham funcionando: o
capital comercial, a indústria artesanal e o trabalho assalariado. E já
que surgia como umha nova forma de produçom de mercadorias, mantivêrom-se
em pleno vigor sob ela as formas de apropriaçom da produçom de mercadorias.
Na produçom de mercadorias, tal como se tinha desenvolvido
na Idade Média, nom podia surgir o problema de a quem pertencer os produtos
do trabalho. O produtor individual criava-os, geralmente, com matérias-primas
da sua propriedade, produzidas nom poucas vezes por ele mesmo, com os seus
próprios meios de trabalho e elaborados com o seu próprio trabalho manual
ou da sua família. Nom necessitava, portanto, apropriar-se deles, pois já
eram seus polo simples facto de produzi-los. A propriedade dos produtos
baseava-se, pois, no trabalho pessoal. E mesmo naqueles casos em que se
empregava a ajuda alheia, esta era, em regra, acessória, e recebia freqüentemente,
além do salário, outra compensaçom: o aprendiz e o oficial das corporaçons
nom trabalhavam menos polo salário e pola comida do que para aprender a
chegar a ser mestres algum dia. Sobrevém a concentraçom dos meios de produçom
em grandes oficinas e manufaturas, sua transformaçom em meios de produçom
realmente sociais. Entretanto, esses meios de produçom e seus produtos sociais
fôrom considerados como se continuassem a ser o que eram antes: meios de
produçom e produtos individuais. E se até aqui o proprietário dos meios
de trabalho se apropriara dos produtos, porque eram, geralmente, produtos
seus e a ajuda constituía umha exceçom, agora o proprietário dos meios de
trabalho continuava apoderando-se do produto, embora já nom fosse um produto
seu, mas fruto exclusivo do trabalho alheio. Desse modo, os produtos, criados
agora socialmente, nom passavam a ser propriedade daqueles que haviam posto
realmente em marcha os meios de produçom e eram realmente seus criadores,
mas do capitalista. Os meios de produçom e a produçom fôrom convertidos
essencialmente em factores sociais. E, no entanto, viam-se submetidos a
umha forma de apropriaçom que pressupom a produçom privada individual, isto
é, aquela em que cada qual é dono de seu próprio produto e, como tal, comparece
com ele ao mercado. O modo de produçom vê-se sujeito a essa forma de apropriaçom,
apesar de destruir o pressuposto sobre o qual repousa
[viii]
. Nessa contradiçom, que imprime ao novo modo de produçom
o seu carácter capitalista, encerra-se em germe, todo o conflito dos tempos
actuais. E quanto mais o novo modo de produçom se impom e impera em todos
os campos fundamentais da produçom e em todos os países economicamente importantes,
afastando a produçom individual, salvo vestígios insignificantes, maior
é a evidência com que se revela a incompatibilidade entre a produçom social
e a apropriaçom capitalista.
Os primeiros capitalistas já se encontrárom, como ficou
dito, com a forma do trabalho assalariado. Mas como excepçom, como ocupaçom
secundária, como simples ajuda, como ponto de transiçom. O lavrador que
saía de quando em vez para ganhar umha diária, tinha seus dous palmos de
terra própria, graças às quais, em caso extremo, podia viver. Os regulamentos
das corporaçons velavam para que os oficiais de hoje se convertessem amanhá
em mestres. Mas, logo que os meios de produçom adquirírom um carácter social
e concentrárom-se em maos dos capitalistas, as cousas mudárom. Os meios
de produçom e os produtos do pequeno produtor individual fôrom sendo cada
vez mais depreciados, até que a esse pequeno produtor nom ficou outro recurso
senom ganhar um salário pago polo capitalista. O trabalho assalariado, que
era antes excepçom e mera ajuda, passou a ser regra e forma fundamental
de toda a produçom, e o que era antes ocupaçom acessória se converte em
ocupaçom exclusiva do operário. O operário assalariado temporário transformou-se
em operário assalariado para toda a vida. Ademais, a multidom desses para
sempre assalariados vê-se engrossada em proporçons gigantescas pola derrocada
simultánea da ordem feudal, pola dissoluçom das mesnadas
[ix]
dos senhores feudais, a expulsom dos camponeses de suas
terras, etc. Realizara-se o completo divórcio entre os meios de produçom
concentrados nas maos dos capitalistas, de um lado, e, de outro lado, os
produtores que nada possuíam além de sua própria força de trabalho. A contradiçom
entre a produçom social e a apropriaçom capitalista reveste a forma de antagonismo
entre o proletariado e a burguesia.
Vimos que o modo de produçom capitalista introduziu-se
numha sociedade de produtores de mercadorias, de produtores individuais,
cujo vínculo social era o intercámbio dos seus produtos. Mas toda sociedade
baseada na produçom de mercadorias apresenta a particularidade de que nela
os produtores perdem o comando sobre suas próprias relaçons sociais. Cada
qual produz para si, com os meios de produçom de que consegue dispor, e
para as necessidades de seu intercámbio privado. Ninguém sabe qual a quantidade
de artigos do mesmo tipo que os demais lançam no mercado, nem da quantidade
que o mercado necessita; ninguém sabe se o seu produto individual corresponde
a umha demanda efectiva, nem se poderá cobrir os gastos, nem sequer, em
geral, se poderá vendê-lo. A anarquia impera na produçom social. Mas a produçom
de mercadorias tem, como toda forma de produçom, as suas leis características,
próprias e inseparáveis dela; e essas leis abrem caminho apesar da anarquia,
na própria anarquia e através dela. Tomam corpo na única forma de enlace
social que subsiste: na troca, e impom-se aos produtores individuais sob
a forma das leis imperativas da concorrência. A principio, esses produtores
ignoram-nas, e é preciso que umha larga experiência vá revelando-as, pouco
a pouco. Impom-se, pois, sem os produtores, e mesmo contra eles, como leis
naturais cegas que presidem essa forma de produçom. O produto impera sobre
o produtor.
Na sociedade medieval, e sobretodo nos seus primeiros
anos, a produçom destinava-se principalmente ao consumo próprio, a satisfazer
apenas às necessidades do produtor e a sua família. E onde, como acontecia
no campo, subsistiam relaçons pessoais de vassalagem, contribuía também
para satisfazer as necessidades do senhor feudal. Nom se produzia, pois,
nengumha troca, nem os produtos revestiam, portanto, o carácter de mercadorias.
A família do lavrador produzia quase todos os objectos de que necessitava:
utensílios, roupas e viveres. Só começou a produzir mercadorias quando começou
a criar um excedente de produtos, depois de cobrir suas próprias necessidades
e os tributos em espécie que devia pagar no senhor feudal; esse excedente,
lançado no intercámbio social, no mercado, para sua venda, converteu-se
em mercadoria. Os artesaos das cidades, por certo, tivérom que produzir
para o mercado desde o primeiro momento. Mas também elaboravam eles próprios
a maior parte dos produtos de que necessitavam para o seu consumo; tinham
as suas hortas e os seus pequenos campos, apascentavam o seu gado nos campos
comunais, que lhes forneciam também madeira e lenha; as suas mulheres fiavam
o linho e a lá, etc. A produçom para a troca, a produçom de mercadorias,
achava-se no seu início. Por isso o intercámbio era limitado, o mercado
era reduzido, o modo de produçom era estável. Em face do exterior imperava
o exclusivismo local; no interior, a associaçom local: a Marca
[x]
no campo, as corporaçons nas cidades.
Mas ao estender-se a produçom de mercadorias e, sobretodo,
ao aparecer o modo capitalista de produçom, as leis da produçom de mercadorias,
que até aqui tinhamd apenas dado sinais de vida, passam a funcionar de maneira
aberta e poderosa. As antigas associaçons começam a perder força, as antigas
fronteiras vam caindo por terra, os produtores vam convertendo-se mais e
mais em produtores de mercadorias independentes e isolados. A anarquia da
produçom social sai à luz e se aguça cada vez mais. Mas o instrumento principal
com que o modo de produçom capitalista fomenta essa anarquia na produçom
social é precisamente o inverso da anarquia: a crescente organizaçom da
produçom com carácter social, dentro de cada estabelecimento de produçom.
Por esse meio, pom fim à velha estabilidade pacífica. Onde se implanta num
ramo industrial, nom tolera a seu lado nengum dos velhos métodos. Onde se
apodera da indústria artesanal, ela a destrói e aniquila. O terreno de trabalho
transforma-se num campo de batalha. As grandes descobertas geográficas e
as empresas de colonizaçom que as acompanham multiplicam os mercados e aceleram
o processo de transformaçom de oficina do artesao em manufatura. E a luita
nom eclode somente entre os produtores locais isolados; as contendas locais
nom adquirem envergadura nacional, e surgem as guerras comerciais dos séculos
XVII e XVIII
[xi]
. Até que, por fim, a grande indústria e a implantaçom
do mercado mundial dam carácter universal à luita, ao mesmo tempo que lhe
imprimem umha inaudita violência. Tanto entre os capitalistas individuais
como entre industriais e países inteiros, a primazia das condiçons - natural
ou artificialmente criadas - da produçom decide a luita pola existência.
O que sucumbe é esmagado sem piedade. É a luita darwinista da existência
individual transplantada, com redobrada fúria, da natureza para a sociedade.
As condiçons naturais de vida da besta convertem-se no ponto culminante
do desenvolvimento humano. A contradiçom entre a produçom social e a apropriaçom
capitalista manifesta-se agora como antagonismo entre a organizaçom da produçom
dentro de cada fábrica e a anarquia da produçom no seio de toda a sociedade.
O modo capitalista de produçom move-se nessas duas formas
da contradiçom a ele inerente por suas próprias origens, descrevendo sem
apelaçom aquele "círculo vicioso" já revelado por Fourier. Mas
o que Fourier nom podia ver ainda na sua época é que esse círculo se vai
reduzindo gradualmente, que o movimento se desenvolve em espiral e tem de
chegar necessariamente ao seu fim, como o movimento dos planetas, chocando-se
com o centro. É a força propulsora da anarquia social da produçom que converte
a imensa maioria dos homens, cada vez mais marcadamente, em proletários,
e essas massas proletárias serom, pola sua vez, as que, afinal, porom fim
à anarquia da produçom. É a força propulsora da anarquia social da produçom
que converte a capacidade infinita de aperfeiçoamento das máquinas num preceito
imperativo, que obriga todo capitalista industrial a melhorar continuamente
a sua maquinaria, sob pena de perecer. Mas melhorar a maquinaria eqüivale
a tomar supérflua umha massa de trabalho humano. E assim como a implantaçom
e o aumento quantitativo da maquinaria trouxeram consigo a substituiçom
de milhons de operários manuais por um número reduzido de operários mecánicos,
o seu aperfeiçoamento determina a eliminaçom de um número cada vez maior
de operários das máquinas e, em última instáncia, a criaçom de umha massa
de operários disponíveis que ultrapassa a necessidade média de ocupaçom
do capital, de um verdadeiro exército industrial de reserva, como eu já
o chamara em 1845
[xii]
, de um exército de trabalhadores disponíveis para as
épocas em que a indústria trabalha a pleno vapor e que logo nas crises que
sobrevêm necessariamente depois desses períodos, é lançado às ruas, constituindo
a todo momento umha grilheta amarrada aos pés da classe trabalhadora na
sua luita pola existência contra o capital e um regulador para manter os
salários no nível baixo correspondente às necessidades do capitalista. Assim,
para dizê-lo com Marx, a maquinaria converteu-se na mais poderosa arma do
capital contra a classe operária, um meio de trabalho que arranca constantemente
os meios de vida das maos do operário, acontecendo que o produto do próprio
operário passa a ser o instrumento de sua escravizaçom. Desse modo, a economia
nos meios de trabalho leva consigo, desde o primeiro momento, o mais impiedoso
desperdício da força de trabalho e a espoliaçom das condiçons normais da
funçom mesma do trabalho. E a maquinaria, o recurso mais poderoso que se
pudo criar para reduzir a jornada de trabalho, converte-se no mais infalível
recurso para converter a vida inteira do operário e de sua família numha
grande jornada disponível para a valorizaçom do capital; ocorre, assim,
que o excesso de trabalho de uns é a condiçom determinante da carência de
trabalho de outros, e que a grande indústria, lançando-se polo mundo inteiro,
em desabalada carreira, à conquista de novos consumidores, reduz na sua
própria casa o consumo das massas a um mínimo de fome e mina com Isso o
seu próprio mercado interno. "A lei que mantém constantemente o excesso
relativo de populaçom ou exército industrial de reserva em equilíbrio com
o volume e a intensidade da acumulaçom do capital amarra o operário ao capital
com ataduras mais fortes do que as cunhas com que Vulcano cravou Prometeu
no rochedo. Isso dá origem a que a acumulaçom do capital corresponda a umha
acumulaçom igual de miséria. A acumulaçom de riqueza em um dos pólos determina
no polo oposto, no polo da classe que produz o seu próprio produto como
capital, umha acumulaçom igual de miséria, de tormentos de trabalho, de
escravidom, de ignoráncia, de embrutecimento e de degradaçom moral."
(Marx, O Capital, t. I, cap. XXIII) E esperar do modo capitalista de produçom
umha distribuiçom diferente dos produtos seria o mesmo que esperar que os
dous eletrodos de umha bateria, enquanto conectados com ela, nom decomponham
a água nem engendrem oxigénio no pólo positivo e hidrogénio no pólo negativo.
Vimos que a capacidade de aperfeiçoamento da maquinaria
moderna, levada ao seu limite máximo, converte-se, em virtude da anarquia
da produçom dentro da sociedade num preceito imperativo que obriga os capitalistas
industriais, cada qual por si, a melhorar incessantemente a sua maquinaria,
a tomar sempre mais poderosa a sua força de produçom. Nom menos imperativo
é o preceito em que se converte para ele a mera possibilidade efectiva de
dilatar a sua órbita de produçom. A enorme força de expansom da grande indústria,
a cujo lado a expansom dos gases é umha brincadeira de crianças, revela-se
hoje diante de nossos olhos como umha necessidade qualitativa e quantitativa
de expansom, que zomba de todos os obstáculos que se lhe deparam. Esses
obstáculos som os que lhe opomm o consumo, a saída, os mercados de que os
produtos da grande indústria necessitam. Mas a capacidade extensiva e intensiva
de expansom dos mercados obedece, pola sua vez, a leis muito diferentes
e que actuam de umha maneira muito menos enérgica. A expansom dos mercados
nom pode desenvolver-se ao mesmo ritmo que a da produçom. A colisom torna-se
inevitável, e como é impossível qualquer soluçom senom fazendo-se saltar
o próprio modo capitalista de produçom, essa colisom torna-se periódica.
A produçom capitalista engendra um novo "círculo vicioso".
Com efeito, desde 1825, ano em que estalou a primeira
crise geral, nom se passam dez anos seguidos sem que todo o mundo industrial
e comercial, a distribuiçom e a troca de todos os povos civilizados e de
seu séquito de países mais ou menos bárbaros, saia dos eixos. O comércio
é paralisado, os mercados som saturados de mercadorias, os produtos apodrecem
nos armazéns abarrotados, sem encontrar saída; o dinheiro toma-se invisível;
o crédito desaparece; as fábricas param; as massas operárias carecem de
meios de subsistência precisamente por tê-los produzido em excesso, as bancarrotas
e falências se sucedem. O paradeiro dura anos inteiros, as forças produtivas
e os produtos som malbaratados e destruídos em massa até que, por fim, os
estoques de mercadorias acumuladas, mais ou menos depreciadas, encontram
saída, e a produçom e a troca se vaiam reanimando pouco a pouco. Paulatinamente,
a marcha se acelera, a andadura converte-se em trote, o trote industrial
em galope e, finalmente, em carreira desenfreada, num steepe-chase
[xiii]
da indústria, do comércio, do crédito, da especulaçom,
para terminar, por fim, depois dos saltos mais arriscados, na fossa de um
crack. E assim, sucessivamente. Cinco vezes repete-se a mesma história desde
1825, e presentemente (1877) estamos vivendo-a pola sexta vez. E o carácter
dessas crises é tam nítido e tam marcante que Fourier as abrangia todas
ao descrever a primeira, dizendo que era umha crise plétorique, umha crise
nascida da superabundáncia.
Nas crises estala em explosons violentas a contradiçom
entre a produçom social e a apropriaçom capitalista. A circulaçom de mercadoria
fica, por um momento, paralisada. O meio de circulaçom, o dinheiro, converte-se
num obstáculo para a circulaçom; todas as leis da produçom e da circulaçom
das mercadorias viram polo avesso. O conflito económico atinge seu ponto
culminante: o modo de produçom rebela-se contra o meio de distribuiçom.
O facto de que a organizaçom social da produçom dentro
das fábricas se tenha desenvolvido até chegar a um ponto em que passou a
ser inconciliável com a anarquia - coexistente com ela e acima dela - da
produçom na sociedade é um 'facto que se revela palpavelmente aos próprios
capitalistas pola concentraçom violenta dos capitais, produzida durante
as crises à custa da ruína de numerosos grandes e, sobretodo, pequenos capitalistas.
Todo o mecanismo do modo de produçom falha, esgotado polas forças produtivas
que ele mesmo engendrou. Já nom consegue transformar em capital essa massa
de meios de produçom, que permanecem inactivos, e por isso precisamente
deve permanecer também inactivo o exército industrial de reserva. Meios
de produçom, meios de vida, operários em disponibilidade: todos os elementos
da produçom e da riqueza geral existem em excesso. Mas a "superabundáncia
converte-se em fonte de miséria e de penúria" (Fourier), já que é ela,
exactamente, que impede a transformaçom dos meios de produçom e de vida
em capital, pois na sociedade capitalista os meios de produçom nom podem
pôr-se em movimento senom transformando-se previamente em capital, em meio
de exploraçom da força humana de trabalho. Esse imprescindível carácter
de capital dos meios de produçom ergue-se como um espectro entre eles e
a classe operária. É isso o que impede que se engrenem a alavanca material
e a alavanca pessoal da produçom; é o que nom permite aos meios de produçom
funcionar nem aos operários trabalhar e viver. De um lado, o modo capitalista
de produçom revela, pois, sua própria incapacidade para continuar dirigindo
suas forças produtivas. De outro lado, essas forças produtivas compelem
com umha intensidade cada vez maior no sentido de que resolva a contradiçom,
de que sejam redimidas de sua condiçom de capital, de que seja efectivamente
reconhecido o seu carácter de forças produtivas sociais.
É essa rebeliom das forças de produçom, cada vez mais
imponentes, contra a sua qualidade de capital, essa necessidade cada vez
mais imperiosa de que se reconheça o seu carácter social, que obriga a própria
classe capitalista a considerá-las cada vez mais abertamente como forças
produtivas sociais, na medida em que é possível dentro das relaçons capitalistas.
Tanto os períodos de elevada pressom industrial, com sua desmedida expansom
do crédito, como o próprio crack, com o desmoronamento de grandes empresas
capitalistas, estimulam essa forma de socializaçom de grandes massas de
meios de produçom que encontramos nas diferentes categorias de sociedades
anónimas. Alguns desses meios de produçom e de comunicaçom já som por si
tam gigantescos que excluem, como ocorre com as ferrovias, qualquer outra
forma de exploraçom capitalista. Ao chegar a umha determinada fase de desenvolvimento
já nom basta tampouco essa forma; os grandes produtores nacionais de um
ramo industrial unem-se para formar um truste, um consórcio destinado a
regular a produçom; determinam a quantidade total que deve ser produzida,
dividem-na entre eles e impom, desse modo, um preço de venda de antemao
fixado. Como, porém, esses trustes se desmoronam ao sobrevirem os primeiros
ventos maus nos negócios, conduzem com isso a umha socializaçom ainda mais
concentrada; todo o ramo industrial converte-se numha única grande sociedade
anónima, e a concorrência interna dá lugar ao monopólio interno dessa sociedade
única; assim aconteceu já em 1890 com a produçom inglesa de álcalis, que
na actualidade, depois da fusom de todas as quarenta e oito grandes fábricas
do pais, é explorada por umha só sociedade com direcçom única e um capital
de 120 milhons de marcos.
Nos trustes, a livre concorrência transforma-se em monopólio
e a produçom sem plano da sociedade capitalista capitula ante a produçom
planificada e organizada da nascente sociedade socialista. É claro que,
no momento, em proveito e benefício dos capitalistas. Mas aqui a exploraçom
torna-se tam patente, que tem forçosamente de ser derrubada. Nengum povo
toleraria umha produçom dirigida polos trustes, umha exploraçom tam descarada
da colectividade por umha pequena quadrilha de cortadores de cupons.
De um modo ou de outro, com ou sem trustes, o representante
oficial da sociedade capitalista, o Estado, tem que acabar tomando a seu
cargo o comando da produçom
[xiv]
. A necessidade a que corresponde essa transformaçom de
certas empresas em propriedade do Estado começa a manifestar-se nas grandes
empresas de transportes e comunicaçons, tais como o correio, o telégrafo
e as ferrovias.
Além da incapacidade da burguesia para continuar dirigindo
as forças produtivas modernas que as crises revelam, a transformaçom das
grandes empresas de produçom e transporte em sociedades anónimas, trustes
e em propriedade do Estado demonstra que a burguesia já nom é indispensável
para o desempenho dessas funçons. Hoje, as funçons sociais do capitalista
estám todas a cargo de empregados assalariados, e toda a actividade social
do capitalista se reduz a cobrar suas rendas, cortar seus cupons e jogar
na bolsa, onde os capitalistas de toda espécie arrebatam, uns aos outro,
os seus capitais. E se antes o modo capitalista de produçom deslocava os
operários, agora desloca também os capitalistas, lançando-os, do mesmo modo
que aos operários, entre a populaçom excedente; embora, por enquanto ainda
nom no exército industrial de reserva.
Mas as forças produtivas nom perdem a sua condiçom de
capital ao converter-se em propriedade das sociedades anónimas e dos trustes
ou em propriedade do Estado. No que se refere aos trustes e sociedades anónimas,
é palpavelmente claro, pola sua parte, o Estado moderno nom é tampouco mais
que umha organizaçom criada pola sociedade burguesa para defender as condiçons
exteriores gerais do modo capitalista de produçom contra os atentados, tanto
dos operários como dos capitalistas isolados. O Estado moderno, qualquer
que seja a sua forma, é umha máquina essencialmente capitalista, é o Estado
dos capitalistas, o capitalista colectivo ideal. E quanto mais forças produtivas
passe à sua propriedade tanto mais se converterá em capitalista colectivo
e tanto maior quantidade de cidadaos explorará. Os operários continuam sendo
operários assalariados, proletários. A relaçom capitalista, longe de ser
abolida com essas medidas, se aguça. Mas, ao chegar ao cume, esboroa-se.
A propriedade do Estado sabre as forças produtivas nom é soluçom do conflito,
mas abriga já no seu seio o meio formal, o instrumento para chegar à soluçom.
Essa soluçom só pode residir em ser reconhecido de um
modo efectivo o carácter social das forças produtivas modernas e, portanto,
em harmonizar o modo de produçom, de apropriaçom e de troca com o carácter
social dos meios de produçom. Para isso, nom há senom um caminho: que a
sociedade, abertamente e sem rodeios, tome posse dessas forças produtivas,
que já nom admitem outra direçom a nom ser a sua. Assim procedendo, o carácter
social dos meios de produçom e dos produtos, que hoje se volta contra os
próprios produtores, rompendo periodicamente as fronteiras do modo de produçom
e de troca, e só pode impor-se com umha força e eficácia tam destruidoras
como o impulso cego das leis naturais, será posto em vigor com plena consciência
polos produtores e se converterá, de causa constante de perturbaçons e cataclismas
periódicos, na alavanca mais poderosa da própria produçom.
As forças activas da sociedade actuam, enquanto nom
as conhecemos e contamos com elas, exactamente como as forças da natureza:
de modo cego violento e destruidor. Mas, umha vez conhecidas, logo que se
saiba compreender tua acçom, as suas tendências e os seus efeitos, está
nas nossas maos o sujeitá-las cada vez mais à nossa vontade e, por meio
delas, alcançar os fins propostos. Tal é o que ocorre, muito especialmente,
com as gigantescas forças modernas da produçom. Enquanto resistirmos obstinadamente
a compreender sua natureza e seu carácter - e a essa compreensom se opom
o modo capitalista de produçom e seus defensores -, essas forças actuárom
apesar de nós, e dominárom-nos, como bem ressaltamos. Em troca, assim que
penetramos na sua natureza, essas forças, postas em maos dos produtores
associados, convertêrom-se de tiranos demoníacos em servas submissas. É
a mesma diferença que há entre o poder maléfico da eletricidade nos raios
da tempestade e o poder benéfico da força elétrica dominada no telégrafo
e no arco voltaico; a diferença que há entre o fogo destruidor e o fogo
posto a serviço do homem. O dia em que as forças produtivas da sociedade
moderna se submeterem ao regime congruente com a sua natureza por fim conhecida,
a anarquia social da produçom deixará o seu posto à regulamentaçom colectiva
e organizada da produçom, de acordo com as necessidades da sociedade e do
indivíduo. E o regime capitalista de apropriaçom, em que o produto escraviza
primeiro quem o cria e, em seguida, a quem dele se apropria, será substituído
polo regime de apropriaçom do produto que o carácter dos modernos meios
de produçom está reclamando: de um lado, apropriaçom directamente social,
como meio para manter e ampliar a produçom; de outro lado, apropriaçom puramente
individual, como meio de vida e de proveito.
O modo capitalista de produçom, ao converter mais e
mais em proletários a imensa maioria dos indivíduos de cada país, cria a
força que, se nom quiger perecer, está obrigada a fazer essa revoluçom.
E, ao forçar cada vez mais a conversom dos grandes meios socializados de
produçom em propriedade do Estado, já indica por si mesmo o caminho polo
qual deve produzir-se essa revoluçom. O proletariado toma nas suas maos
o Poder do Estado e principia por converter os meios de produçom em propriedade
do Estado. Mas, nesse mesmo acto, destrói-se a si próprio como proletariado,
destruindo toda diferença e todo antagonismo de classes, e com isso o Estado
como tal. A sociedade, que se movera até entom entre antagonismos de classe,
precisou do Estado, ou seja, de umha organizaçom da classe exploradora correspondente
para manter as condiçons externas de produçom e, portanto, particularmente,
para manter pola força a classe explorada nas condiçons de opressom (a escravidom,
a servidom ou a vassalagem e o trabalho assalariado), determinadas polo
modo de produçom existente. O Estado era o representante oficial de toda
a sociedade, a sua síntese num corpo social visível; mas o era só como Estado
que, na sua época, representava toda a sociedade: na antigüidade era o Estado
dos cidadaos escravistas, na Idade Média o da nobreza feudal; no nossos
tempos, da burguesia. Quando o Estado se converter, finalmente, em representante
efectivo de toda a sociedade, tornará-se por si mesmo supérfluo. Quando
já nom existir nengumha classe social que precise ser submetida; quando
desaparecerem, juntamente com a dominaçom de classe, juntamente com a luita
pola existência individual, engendrada pola actual anarquia da produçom,
os choques e os excessos resultantes dessa luita, nada mais haverá para
reprimir, nem haverá necessidade, portanto, dessa força especial de repressom
que é o Estado. O primeiro acto em que o Estado se manifesta efectivamente
como representante de toda a sociedade - a posse dos meios de produçom em
nome da sociedade - é ao mesmo tempo o seu último acto independente como
Estado. A intervençom da autoridade do Estado nas relaçons sociais tornará-se
supérflua num campo após outro da vida social e cessará por si mesma. O
governo sobre as pessoas é substituído pola administraçom das cousas e pola
direcçom dos processos de produçom. O Estado nom será "abolido",
extingue-se. É partindo daí que se pode julgar o valor do falado "Estado
popular livre" no que di respeito à sua justificaçom provisória como
palavra de ordem de agitaçom e no que se refere à sua falta de fundamento
científico. É também partindo daí que deve ser considerada a exigência dos
chamados anarquistas de que o Estado seja abolido da noite para o dia.
Desde que existe historicamente o modo capitalista de
produçom, houvo indivíduos e seitas inteiras diante dos quais se projectou
mais ou menos vagamente, como ideal futuro, a apropriaçom de todos os meios
de produçom pola sociedade. Mas, para que isso fosse real, para que se convertesse
numha necessidade histórica, fazia-se preciso que se dessem antes as condiçons
efetivas para a sua realizaçom. A fim de que esse progresso, como todos
os progressos sociais, seja viável, nom basta ser compreendido pola razom
que a existência de classes é incompatível com os ditames da justiça, da
igualdade, etc.; nom basta a simples vontade de abolir essas classes - mas
som necessárias determinadas condiçons económicas novas. A divisom da sociedade
numha classe exploradora e outra explorada, numha classe dominante e outra
oprimida, era umha conseqüência necessária do anterior desenvolvimento incipiente
da produçom. Enquanto o trabalho global da sociedade der apenas o estritamente
necessário para cobrir as necessidades mais elementares de todos, e talvez
um pouco mais; enquanto, por isso, o trabalho absorver todo o tempo, ou
quase todo o tempo, da imensa maioria dos membros da sociedade, esta se
divide, necessariamente, em classes. Junto da grande maioria constrangida
a nom fazer outra cousa senom suportar a carga do trabalho, forma-se umha
classe que se exime do trabalho diretamente produtivo e a cujo carge correm
os assuntos gerais da sociedade: a direçom dos trabalhos, os negócios públicos,
a justiça, as ciências, as artes, etc. É, pois, a lei da divisom do trabalho
que serve de base à divisom da sociedade em classes. O que nom impede que
essa divisom da sociedade em classes se realize por meio da violência e
a espoliaçom, a astúcia e o logro; nem quer dizer que a classe dominante,
umha vez entronizada, se abstenha de consolidar o seu poderio à custa da
classe trabalhadora, transformando seu papel social de direçom numha maior
exploraçom das massas.
Vemos, pois, que a divisom da sociedade em classes tem
sua razom histórica de ser, mas só dentro de determinados limites de tempo,
sob determinadas condiçons sociais. Era condicionada pola Insuficiência
da produçom, e será varrida quando se desenvolverem plenamente as modernas
forças produtivas. Com efeito, a aboliçom das classes sociais pressupom
um grau histórico de desenvolvimento tal que a existência, já nom dessa
ou daquela classe dominante concreta, mas de umha classe dominante qualquer
que seja ela, e, portanto, das próprias diferenças de classe representa
um anacronismo. Pressupom, por conseguinte, um grau culminante no desenvolvimento
da produçom em que a apropriaçom dos meios de produçom e dos produtos e,
portanto, do poder político, do monopólio da cultura e da direcçom espiritual
por umha determinada classe da sociedade, nom só se tomou de facto supérfluo,
mas constitui económica, política e intelectualmente umha barreira levantada
ante o progresso. Pois bem, já se chegou a esse ponto. Hoje, a bancarrota
política e intelectual da burguesia nom é mais um segredo nem para ela mesma
e sua bancarrota económica é um fenómeno que se repete periodicamente de
dez em dez anos. Em cada umha dessas crises a sociedade se asfixia, afogada
pola massa de suas próprias forças produtivas e dos seus produtos, aos quais
nom pode aproveitar e, Impotente, vê-se diante da absurda contradiçom de
que os seus produtores nom tenham o que consumir, por falta precisamente
de consumidores. A força expansiva dos meios de produçom rompe as ataduras
com que som submetidos polo modo capitalista de produçom. Só essa libertaçom
dos meios de produçom é que pode permitir o desenvolvimento ininterrupto
e cada vez mais rápido das forças produtivas e, com isso, o crescimento
praticamente ilimitado da produçom. Mas nom é apenas isso. A apropriaçom
social dos meios de produçom nom só elimina os obstáculos artificiais hoje
antepostos; à produçom, mas pom termo também ao desperdício e à devastaçom
das forças produtivas e dos produtos, umha das conseqüências inevitáveis
da produçom actual e que alcança seu ponto culminante durante as crises.
Ademais, acabando-se com o parvo desperdício do luxo das classes dominantes
e seus representantes políticos, será posta em circulaçom para a colectividade
toda umha massa de meios de produçom e de produtos. Pola primeira vez, surge
agora, e surge de um modo efectivo, a possibilidade de assegurar a todos
os membros da sociedade, através de um sistema de produçom social, umha
existência que, além de satisfazer plenamente e oada dia mais abundantemente
suas necessidades materiais, lhes assegura o livre e completo desenvolvimento
e exercício de suas capacidades físicas e intelectuais
[xv]
.
Ao apossar-se a sociedade dos meios de produçom cessa
a produçom de mercadorias e, com ela, o domínio do produto sobre os produtores.
A anarquia reinante no seio da produçom social cede o lugar a umha organizaçom
planejada e consciente. Cessa a luita pola existência individual e, assim,
em certo sentido, o homem sai definitivamente do reino animal e se sobrepom
às condiçons animais de existência, para submeter-se a condiçons de vida
verdadeiramente humanas. As condiçons que cerca o homem e até agora o dominam,
colocam-se, a partir desse instante, sob o seu domínio e o seu comando e
o homem, ao tornar-se dono e senhor de suas próprias relaçons sociais, converte-se
pola primeira vez em senhor consciente e efectivo da natureza. As leis da
sua própria actividade social, que até agora se erguiam frente ao homem
como leis naturais, como poderes estranhos que o submetiam ao seu império,
som agora aplicadas por ele com pleno conhecimento de causa e, portanto,
submetidas ao seu poderio. A própria existência social do homem, que até
aqui era enfrentada como algo imposto pola natureza e a história, é de agora
em diante obra livre sua. Os poderes objectivos e estranhos que até aqui
vinham imperando na história colocam-se sob o controle do próprio homem.
Só a partir de entom, ele começa a traçar a sua história com plena consciência
do que faz. E só daí em diante as causas sociais postas em acçom por ele
começam a produzir predominantemente, e cada vez em maior medida, os efeitos
desejados. É o salto da humanidade do reino da necessidade para o reino
da liberdade.