DOENÇA INFANTIL
DO “ESQUERDISMO” NO COMUNISMO
[1]
. Lenine
ÍNDICE
I – EM QUE SENTIDO SE
PODE FALAR DA SIGNIFICAÇOM INTERNACIONAL DA REVOLUÇOM RUSSA?
II - UMHA DAS CONDIÇONS
FUNDAMENTAIS DO ÊXITO DOS BOLCHEVIQUES
III - AS PRINCIPAIS
ETAPAS DA HISTÓRIA DO BOLCHEVISMO
IV - QUAIS FÔROM
OS INIMIGOS QUE O BOLCHEVISMO ENFRENTOU, DENTRO DO MOVIMENTO OPERÁRIO, PARA
PODER CRESCER, FORTALECER-SE E TEMPERAR-SE?
V – O COMUNISMO "DE
ESQUERDA" NA ALEMANHA. CHEFES, PARTIDO, CLASSE, MASSA
VI - OS REVOLUCIONÁRIOS
DEVEM ACTUAR NOS SINDICATOS REACCIONÁRIOS ?
VII -
DEVE-SE PARTICIPAR NOS PARLAMENTOS BURGUESES
IX
- O COMUNISMO "DE ESQUERDA", NA INGLATERRA
I.
CISOM DOS COMUNISTAS ALEMÁNS
II.
OS COMUNISTAS E OS INDEPENDENTES NA ALEMANHA
III.
TURATI E COMPANHIA NA ITÁLIA
IV.
CONCLUSONS ERRADAS DE PREMISSAS JUSTAS
DOENÇA INFANTIL DO ESQUERDISMO NO COMUNISMO.
Lenine
I – EM QUE SENTIDO
SE PODE FALAR DA SIGNIFICAÇOM INTERNACIONAL DA REVOLUÇOM RUSSA?
Nos primeiros meses que se seguírom à
conquista do Poder político polo proletariado na Rússia (25-X/7-XI de 1917)
poderia-se acreditar que, em virtude das enormes diferenças existentes entre a
Rússia atrasada e os países adiantados da Europa Ocidental, a revoluçom
proletária nesses países seria muito pouco parecida com a nossa. Actualmente já
possuímos umha experiência internacional bastante considerável, experiência que
demonstra, com absoluta clareza, que alguns dos aspectos fundamentais da nossa
revoluçom nom tenhem apenas significaçom local, particularmente nacional,
russa, mas revestem-se, também, de significaçom internacional, E nom me refiro
à significaçom internacional no sentido amplo da palavra: nom som apenas
alguns, mas sim todos os aspectos fundamentais - e muitos secundários - da
nossa revoluçom que tenhem significaçom internacional quanto à influência que
exercem sobre todos os países. Refiro-me ao sentido mais estrito da palavra,
isto é, entendendo por significaçom internacional a sua transcendência mundial
ou a inevitabilidade histórica de que se repita em escala universal o, que
aconteceu em nosso país, significaçom que deve ser reconhecida em alguns dos aspectos
- fundamentais da nossa revoluçom.
Naturalmente, seria o maior dos erros exagerar o
alcance dessa verdade, aplicando-a a outros aspectos da nossa revoluçom além de
alguns dos fundamentais. Também seria errado nom ter em conta que depois da
vitória da revoluçom proletária, mesmo que seja em apenas um dos países
adiantados, se produzirá, com toda certeza, umha radical transformaçom: a
Rússia, logo depois disso, transformará-se nom em país modelo, e sim, de novo,
em pais atrasado (do ponto de vista "soviético" e socialista).
No momento histórico actual, porém, trata-se
exactamente de que o exemplo russo ensina algo a todos os países, algo muito
substancial, a respeito de seu futuro próximo e inevitável. Os operários
evoluídos de todos os países já compreendêrom isso há muito tempo e, mais que
compreender, já perceberam, sentírom
com seu instinto de classe revolucionária. Daí a
"significaçom" internacional (no sentido estrito da palavra) do Poder
Soviético e dos fundamentos da teoria e da táctica bolcheviques. Esse facto nom
foi compreendido polos chefes "revolucionários" da II Internacional,
como Kautsky na Alemanha e Otto Bauer e Friedrich Adler na Áustria, que, por
isso, se convertêrom em reaccionários, em defensores do pior dos oportunismo e da
social-traiçom. Assinalemos, de passagem, que o folheto anónimo A Revoluçom
Mundial (Weltre-revolution), publicado em 1919 em Viena (Sozialistische
Bücherei, Heft II; Ignaz Brand*), apresenta com particular clareza todo o
processo de desenvolvimento do pensamento e todo o conjunto de raciocínios, ou
melhor, todo esse abismo de incompreensons, pedantismo, vilania e traiçom aos
interesses da classe operária, tudo isso mascarado sob a "defesa" da
ideia da "revoluçom mundial".
Mas teremos de deixar para outra ocasiom o exame mais
pormenorizado desse folheto. Consignemos aqui apenas o seguinte: na época, já
bem distante, em que Kautsky era um marxista e nom um renegado, previa, ao
abordar a questom como historiador, a possibilidade do surgimento de umha
situaçom em que o revolucionarismo do proletariado russo se converteria em
modelo para a Europa Ocidental. Isso foi em 1902, quando Kautsky publicou na Iskra
revolucionária o artigo Os eslavos e a revoluçom, no qual dizia:
"Actualmente" (ao contrário de 1848)
"pode-se acreditar que os eslavos nom só se incorporárom às fileiras dos povos revolucionários, como,
também, que o centro de gravidade das ideias e da obra revolucionárias se
desloca, dia a dia, para os eslavos. O centro revolucionário está-se
transferindo do Ocidente para o Oriente. Na primeira metade do século XIX
encontrava-se na França e, em alguns momentos, na Inglaterra. Em 1848, a
Alemanha também se incorporou às fileiras das naçons revolucionárias... O novo
século inicia-se com acontecimentos que sugerem a ideia de que caminhamos para
um novo deslocamento do centro revolucionário: concretamente, de sua
transferência para a Rússia... É possível que a Rússia, que assimilou tanta
iniciativa revolucionária do Ocidente, esteja hoje, ela própria, pronta para
servir-lhe de fonte de energia revolucionária. O crescente movimento
revolucionário russo será, talvez, o meio mais poderoso para eliminar esse
espírito de filisteísmo flácido e de politicagem de praticismo mesquinho que
começa a difundir-se em nossas fileiras e ressuscitará a chama viva do anseio
de luita e a fidelidade apaixonada aos nossos grandes ideais. Há muito tempo
que a Rússia deixou de ser para a Europa Ocidental um simples reduto da reacçom
e do absolutismo. O que acontece actualmente é, talvez, exactamente o
contrário. A Europa Ocidental torna-se o reduto da reacçom e do absolutismo
russos... É possível que os revolucionários russos já tivessem derrubado o czar
há muito tempo se nom fossem obrigados a luitar, ao mesmo tempo, contra o
aliado deste, o capital europeu. Esperamos que dessa vez consigam derrotar
ambos os inimigos e que a nova "santa aliança" desmorone, mais
rapidamente que suas predecessoras. Contudo, seja qual for o resultado da luita
actual na Rússia, o sangue e o sofrimento dos mártires que essa luita cria,
infelizmente em demasia, nom serám inúteis e sim, polo contrário, fecundarám os
germes da revoluçom social em todo o mundo civilizado, fazendo-os crescer com
maior esplendor e rapidez. Em 1848, os eslavos eram umha terrível geada que calcinava
as flores da primavera popular. É bem possível que agora venham a representar o
papel da tormenta que romperá o gelo da reacçom e trará consigo
irresistivelmente, umha nova e feliz primavera para os povos". (Karl
Kautsky, Os eslavos e a revoluçom, artigo publicado na Iskra, jornal
revolucionário da social-democracia, russa, n.º 18, 10 de Março de 1902).
Como Karl Kautsky escrevia bem, há dezoito anos!
II - UMHA DAS CONDIÇONS
FUNDAMENTAIS DO ÊXITO DOS BOLCHEVIQUES
Hoje, sem dúvida, quase todo mundo já compreende que
os bolcheviques; nom se teriam mantido no poder, nom digo dous anos e meio, mas
nem sequer dous meses e meio, nom fosse a disciplina rigorosíssima,
verdadeiramente férrea, de nosso Partido, nom fosse o total e incondicional
apoio da massa da classe operária, isto é, tudo que ela tem de consciente,
honrado, abnegado, influente e capaz de conduzir ou trazer consigo as camadas
atrasadas.
A ditadura do proletariado é a guerra mais severa e
implacável da nova classe contra um inimigo mais poderoso, a burguesia,
cuja resistência está decuplicada, em virtude de sua derrota (mesmo que em
apenas um país), e cuja potência consiste nom só na força do capital internacional,
na força e na solidez das relaçons internacionais da burguesia, como também na
força do costume, na força da pequena produçom. Porque, infelizmente, continua
a haver no mundo a pequena produçom em grande escala, e ela cria capitalismo e
burguesia constantemente, todo dia, a toda hora, através de um processo
espontáneo e em massa. Por tudo isso, a ditadura do proletariado é necessária,
e a vitória sobre a burguesia torna-se impossível sem umha guerra prolongada,
tenaz, desesperada, mortal; umha guerra que exige serenidade, disciplina,
firmeza, inflexibilidade e umha vontade única.
A experiência da ditadura proletária
triunfante na Rússia, repito, demonstrou, de modo palpável, a quem nom sabe
pensar ou a quem nom teve oportunidade de refletir sobre esse problema, que a
centralizaçom incondicional e a disciplina mais severa do proletariado
constituem umha das condiçons fundamentais da vitória sobre a burguesia.
Fala-se disso com freqüência. Mas nom se medita
suficientemente sobre o que isso significa e sobre as condiçons em que isso se
torna possível. Nom conviria que as saudaçons entusiásticas ao Poder dos
Sovietes e aos bolcheviques fossem acompanhadas, mais amiúde, pola mais séria
análise das causas que permitírom aos bolcheviques forjar a disciplina de que
necessita o proletariado revolucionário?
0 bolchevismo existe como corrente do pensamento
político e como partido político desde 1903. Somente a história do bolchevismo
em todo o período de sua existência é capaz de explicar satisfatoriamente as
razons polas quais ele pudo forjar e manter, nas mais difíceis condiçons, a
disciplina férrea, necessária à vitória do proletariado.
A primeira pergunta que surge é a seguinte: como se
mantém a disciplina do partido revolucionário do proletariado? Como é ela
comprovada? Como é fortalecida? Em primeiro lugar, pola consciência da
vanguarda proletária e por sua fidelidade à revoluçom, por sua firmeza, seu
espírito de sacrifício, seu heroísmo. Segundo, por sua capacidade de ligar-se,
aproximar-se e, até certo ponto, se quigerem, de fundir-se com as mais amplas
massas trabalhadoras, antes de tudo com as massas proletárias, mas também com
as massas trabalhadoras nom proletárias. Finalmente, pola justeza da linha
política seguida por essa vanguarda, pola justeza de sua estratégia, e de sua
táctica políticas, com a condiçom de que as mais amplas massas se convençam
disso por experiência própria. Sem essas condiçons é impossível haver
disciplina num partido revolucionário realmente capaz de ser o partido da
classe avançada, fadada a derrubar a burguesia e a transformar toda a
sociedade. Sem essas condiçons, os propósitos de implantar umha disciplina
convertem-se, inevitavelmente, em ficçom, em frases sem significado, em gestos
grotescos. Mas, por outro lado, essas condiçons nom podem surgir de repente.
Vam-se formando somente através de um trabalho prolongado, de umha dura
experiência; sua formaçom é facilitada por umha acertada teoria revolucionária
que, por sua vez, nom é um dogma e só se forma de modo definitivo em estreita
ligaçom com a experiência prática de um movimento verdadeiramente de massas e
verdadeiramente revolucionário.
Se o bolchevismo pode elaborar e levar à prática com
êxito, nos anos de 1917/1920, em condiçons de inaudita gravidade, a mais
rigorosa centralizaçom e umha disciplina férrea, deve-se simplesmente a umha
série de particularidades históricas da Rússia.
De um lado, o bolchevismo surgiu em 1903 fundamentado
na mais sólida base da teoria do marxismo. E a justeza dessa teoria
revolucionária - e de nengumha outra - foi demonstrada tanto pola experiência
internacional de todo o século XIX como, em particular, pola experiência dos
desvios, vacilaçons, erros e desilusons do pensamento revolucionário na Rússia.
No decurso de quase meio século, aproximadamente de 1840 a 1890, o pensamento
de vanguarda na Rússia, sob o jugo do terrível despotismo do czarismo selvagem
e reaccionário, procurava avidamente umha teoria revolucionária justa,
acompanhando com zelo e atençom admiráveis cada "última palavra" da
Europa e da América nesse terreno. A Rússia tornou sua a única teoria
revolucionária justa, o marxismo, em meio século de torturas e sacrifícios
extraordinários, de heroísmo revolucionário nunca visto, de incrível energia e
abnegada pesquisa, de estudo, de experimentaçom na prática, de desilusons, de
comprovaçom, de comparaçom com a experiência da Europa. Graças à emigraçom
provocada polo czarismo, a Rússia revolucionária da segunda metade do século
XIX contava, mais do que qualquer outro país, com enorme riqueza de relaçons
internacionais e excelente conhecimento de todas as formas e teorias do
movimento revolucionário mundial.
Por outro lado, o bolchevismo, surgido sobre essa
granítica base teórica, teve umha história prática de quinze anos (1903/1917)
sem paralelo no mundo, em virtude de sua riqueza de experiências. Nengum país,
no decurso desses quinze anos, passou, nem ao menos aproximadamente, por umha
experiência revolucionária tam rica, umha rapidez e um variedade semelhantes na
sucessom das diversas formas do movimento, legal e ilegal, pacífico e
tumultuoso, clandestino e declarado, de propaganda nos círculos e entre as
massas, parlamentar e terrorista. Em nengum país esteve concentrada, em tam
curto espaço de tempo, semelhante variedade de formas, de matizes, de métodos
de luita, de todas as clames da sociedade contemporánea, luita que, além disso,
em conseqüência do atraso do país e da opressom do jugo czarista, amadurecia
com singular rapidez e assimilava com particular: sofreguidam e eficiência a "última
palavra" da experiência política americana e europeia.
III - AS PRINCIPAIS
ETAPAS DA HISTÓRIA DO BOLCHEVISMO
Anos de preparaçom da revoluçom (1903/1905). Prenúncio
de grande tempestade em toda a parte, fermentaçom e preparativos em todas as
classes. No estrangeiro, a imprensa dos emigrados expom teoricamente todas as
questons essenciais da revoluçom. Com umha luita encarniçada de concepçons
programáticas e tácticas, os representantes das três classes fundamentais, das
três correntes políticas principais - a liberal-burguesa, a
democrático-pequeno-burguesa (encoberta polos rótulos de
social-democrática" e "social-revolucionária") é a proletária
revolucionária - prenunciam e preparam
a futura luita aberta de classes. Todas as questons que motivárom a luita armada das massas em 1905/1907 e em
1917/1920 podem (e devem) ser encontradas, em forma embrionária, na imprensa
daquela época. Naturalmente, entre essas três tendências principais existem
todas as formaçons intermediárias, transitórias, híbridas que se queira. Em
termos mais exactos: na luita entre os órgaos da imprensa, os partidos, as
fracçons e os grupos vam-se cristalizando as tendências ideológicas e políticas
com caráter realmente de classe; cada umha das classes forja para si umha arma
ideológica e política para as batalhas futuras.
Anos de revoluçom (1905/1907). Todas as classes agem
abertamente. Todas as concepçons, programáticas e tácticas som comprovadas
através da acçom das massas. luita grevista sem precedentes no mundo inteiro
por sua amplitude e dureza. Transformaçom da greve económica em greve política
e da greve política em insurreiçom. Comprovaçom prática das relaçons existentes
entre o proletariado dirigente e os camponeses dirigidos, vacilantes e
instáveis. Nascimento, no processo espontáneo da luita, da forma soviética de
organizaçom. As discussons de entom sobre o papel dos Soviets som umha
antecipaçom da grande luita de 1917/1920. A sucessom das formas de luita
parlamentares e nom parlamentares, da táctica de boicote do parlamento e de
participaçom no mesmo, e das formas legais e ilegais de luita,, assim como suas
relaçons recíprocas e as ligaçons existentes entre elas, distinguem-se por umha
assombrosa riqueza de conteúdo. Do ponto de vista do aprendizado dos
fundamentos da ciência política polas massas e os chefes, polas massas e os
partidos - cada mês desse período equivale a um ano de desenvolvimento
"pacifico" e "constitucional". Sem o "ensaio
geral" de 1905, a vitória da Revoluçom de Outubro de 1917 teria sido
impossível.
Anos de reacçom (1907/1910). 0 czarismo triunfou.
Fôrom esmagados todos os partidos revolucionários e de posiçom. Desánimo,
desmoralizaçom, cisons, dispersom, deserçons, pornografia em vez de política.
Fortalecimento da tendência para o idealismo filosófico, misticismo como
disfarce de um estado de espírito contra-revolucionário. Todavia, ao mesmo
tempo, justamente essa grande derrota dá aos partidos revolucionários e à
classe revolucionária umha verdadeira liçom extremamente proveitosa, umha liçom
de dialética histórica, de compreensom, de destreza e arte na direçom da luita
política. Os amigos manifestam-se na desgraça. Os exércitos derrotados passam
por umha boa escola.
0 czarismo vitorioso vê-se obrigado a destruir
apressadamente os remanescentes do regime pré-burgues e patriarcal na Rússia. O
desenvolvimento burguês do país progride com notável rapidez. As ilusons à
margem e acima das classes, as ilusons sobre a possibilidade de evitar o
capitalismo dissipam-se. A luita de classes manifesta-se de modo absolutamente
novo e com maior relevo.
Os partidos revolucionários tenhem de completar sua
instruçom. Aprendêrom a desencadear a ofensiva. Agora tenhem que compreender
que essa ciência deve ser completada pola de saber recuar ordenadamente. É
preciso compreender - e a classe revolucionária aprende a compreendé-la através
de sua própria e amarga experiência - que nom se pode triunfar sem saber atacar
e empreender a retirada com ordem. De todos os partidos revolucionários e de
oposiçom derrotados, fôrom os bolcheviques que recuárom com maior ordem, com menores perdas para seu
"exército", conservando melhor seu núcleo central, com cisons menos
profundas e irreparáveis, menos desmoralizaçom e com maior capacidade para
reiniciar a acçom de modo mais amplo, justo e vigoroso. E se os bolcheviques
conseguírom tal resultado foi exclusivamente porque desmascarárom impiedosamente e expulsárom os revolucionários de boca, obstinados em
nom compreender que é necessário recuar, que é preciso saber recuar, que é
obrigatório aprender a actuar legalmente nos mais reaccionários parlamentos e
nas organizaçons sindicais, cooperativas, nas organizaçons de socorros mútuos e
outras semelhantes, por mais reaccionárias que sejam.
Anos de ascenso (1910/1914). A principio, o ascenso
foi de umha lentidam incrível; em seguida, depois dos acontecimentos do Lena[2].
em 1912, verificou-se com rapidez um pouco maior. Vencendo dificuldade3
inauditas, os bolcheviques eliminárom
os mencheviques, cujo papel como agentes da burguesia no movimento
operário foi admiravelmente compreendido depois de 1905 por toda a burguesia e
aos quais, por isso mesmo, ela apoiava de mil maneiras contra os bolcheviques.
Estes nunca teriam conseguido eliminar os mencheviques, caso nom tivessem
aplicado umha táctica justa, combinando o trabalho ilegal com a utilizaçom
obrigatória das "possibilidades legais". Na mais reaccionária das
Dumas, os bolcheviques conquistárom
toda a bancada operária.
Primeira guerra imperialista mundial (1914/1917). 0
parlamentarismo legal, com um "parlamento" ultra-reaccionário, presta
os mais úteis serviços ao partido do proletariado revolucionário, aos
bolcheviques. Os deputados bolcheviques som deportados para a Sibéria. Na
imprensa dos emigrados encontram entre nós sua mais plena expressom todos os
matizes das concepçons do social-imperialismo, do social-chovinismo, do
social--patriotismo, do internacionalismo inconseqüente e do conseqüente, do
pacifismo e, da negaçom revolucionária das ilusons pacifistas. Os imbecis
sabichons e as velhas comadres da II Internacional, que franziam o cenho com
desdém e arrogáncia ante a abundáncia de "fracçons" no socialismo
russo e ante a luita encarniçada que havia entre elas, fôrom incapazes, quando
a guerra suprimiu em todos os países adiantados a tam alardeada
"legalidade" de organizar, ainda que apenas aproximadamente, um
intercámbio livre (ilegal) de ideias e umha elaboraçom livre (ilegal) de
concepçons justas, como os revolucionários russos organizárom na Suíça e em outros países. Precisamente
por isso, tanto os social-patriotas declarados como os "kautskistas"
de todos os países revelaram-se os piores traidores do proletariado. E se o
bolchevismo foi capaz de triunfar em 1917/1920, umha das causas fundamentais
dessa vitória consiste em que desmascarou impiedosamente, já desde fins de
1914, a vileza, a infámia e a abjeçom do social-chovinismo e do
"kautskismo" (ao qual correspondem o longuetismo[3]
na França, as ideias dos chefes do Partido Trabalhista Independente[4]
e dos fabianos[5] na
Inglaterra, de Turati na, Itália, etc.) e em que as massas fôrom-se convencendo
cada vez mais, por experiência própria, de que as concepçons dos bolcheviques
eram justas.
Segunda revoluçom russa (Fevereiro-outubro de 1917).
0 incrível grau de decrepitude e caducidade do czarismo criou contra ele (com
ajuda dos reveses e sofrimentos de umha guerra infinitamente penosa) umha
tremenda força destruidora. Em poucos dias, a Rússia converteu-se numa
república burguesa democrática mais livre (nas condiçons da guerra) que
qualquer outro país. Os chefes dos partidos de oposiçom e revolucionários
começárom a formar o governo, como nas
repúblicas do mais "puro parlamentarismo", pois o título de chefe de
partido de oposiçom no parlamento, mesmo no mais reaccionário jamais havido,
sempre facilitou o papel ulterior desse chefe na revoluçom Em poucas semanas,
os mencheviques e os "social-revolucionários" assimilárom com perfeiçom todos os maneirismos, e posiçons,
argumentos o sofismas dos heróis europeus da II Internacional, dos
ministerialistas e de toda a corja oportunista Tudo que hoje lemos sobre os
Scheidemann e os Noske, Kautsky e Hilferding, Renner e Austerlitz, Otto Bauer e
Fritz Adler, Turati e Longuet, sobre os fabianos e os chefes do Partido
Trabalhista Independente da Inglaterra nos parece (e é, na realidade) umha
repetiçom monótona de um assunto antigo e conhecido. A História os ludibriou,
obrigando os oportunistas de um país atrasado a se manifestarem antes dos
oportunistas de umha série de países adiantados.
Se todos os heróis da II Internacional
fracassárom e se cobrírom de opróbrio
na questom do papel e da importáncia dos Soviets e do Poder Soviético; se eles
se cobrírom de ignominia com singular "brilhantismo" e se os chefes
dos três grandes partidos que se separárom
agora da II Internacional (Partido Social-Democrata Independente da
Alemanha[6],
Partido Longuetista da França e Partido Trabalhista Indepedente da Inglaterra)
se confundírom nossa questom; se todos eles se tornárom escravos dos preconceitos da democracia
pequeno-burguesa (exactamente da mesma maneira que os pequeno-burgueses de
1848, que se chamavam "social-democratas"), também é verdade que já
vimos tudo isso no exemplo dos mencheviques. A História fez esse gracejo: os
Soviets surgírom na Rússia em 1905, fôrom falsificados em Fevereiro-outubro de
1917 polos mencheviques - que fracassárom
por nom haver compreendido o papel e a importáncia dos Soviets --- e
hoje surgiu no mundo inteiro a ideia do Poder Soviético, ideia que se difunde
com inusitada rapidez entre o proletariado de todos os países. Enquanto isso,
os antigos heróis da II Internacional fracassam em toda a parte, por nom terem
sabido compreender, do mesmo modo que os nossos mencheviques, o papel e a
importáncia dos Soviets. A experiência demonstrou que, em algumhas questons
essenciais da revoluçom proletária, todos os países passarám, inevitavelmente,
por onde a Rússia passou.
Contrariamente às opinions que nom raro se expendem
agora na Europa e na América, os bolcheviques começárom com muita prudência e nom preparárom de modo algum com facilidade a sua vitoriosa
luita contra a república burguesa parlamentar (de fato) e contra os
mencheviques. No início do período citado, nom conclamamos à derrubada do
governo, e sim explicamos a impossibilidade de fazê-lo sem modificar
previamente a composiçom e o estado de espírito dos Soviets. Nom declaramos o
boicote ao parlamento burguês, mas, polo contrário, dissemos - e a partir da
Conferência de nosso Partido, celebrada em Abril de 1917, passamos a dizê-lo
oficialmente em nome do Partido - que umha república burguesa com umha
Constituinte era preferível à mesma república sem Constituinte, mas que a
república "operária-camponesa" soviética é melhor que qualquer
república democrático-burguesa, parlamentar. Sem essa preparaçom prudente,
minuciosa, sensata e prolongada nom teríamos podido alcançar nem manter a
vit6ria; de Outubro de 1917.
IV - QUAIS FÔROM
OS INIMIGOS QUE O BOLCHEVISMO ENFRENTOU, DENTRO DO MOVIMENTO OPERÁRIO, PARA
PODER CRESCER, FORTALECER-SE E TEMPERAR-SE?
Em primeiro lugar, e acima de tudo, na luita contra o
oportunismo que, em 1914, transformou-se definitivamente em social -chovinismo
e bandeou-se, de umha vez por todas, para o lado da burguesia, contra o
proletariado. Esse era, naturalmente, o principal inimigo do bolchevismo dentro
do movimento operário, e continua sendo, em escala mundial. O bolchevismo
prestou e presta a esse inimigo a maior atençom. Esse aspecto da atividade dos
bolcheviques já é muito bem conhecido no estrangeiro.
Quanto a outro inimigo do bolchevismo no movimento
operário, a cousa já é bem diferente. Pouco se sabe, no estrangeiro, que o
bolchevismo cresceu, formou-se e temperou-se, durante muitos anos, na luita
contra o revolucionarismo pequeno-burguês, parecido com o anarquismo, ou que
adquiriu dele algumha cousa, afastando-se, em tudo que é essencial, das
condiçons e exigências de umha conseqüente luita de classes do proletariado.
Para os marxistas está plenamente provado do ponto de vista teórico - e a
experiência de todas as revoluçons e movimentos revolucionários da Europa
confirmam-no totalmente - que o pequeno proprietário, o pequeno patrom (tipo
social muito difundido em vários países europeus e que tem caráter de massas),
que, muitas vezes sofre sob o capitalismo umha pressom contínua e, amiúde, umha
agravaçom terrivelmente brusca e rápida de suas precárias condiçons de vida,
nom sendo difícil arruinar-se, passa-se facilmente para umha posiçom
ultra-revolucionária, mas é incapaz de manifestar serenidade, espírito de
organizaçom, disciplina e firmeza. O pequeno-burguês "enfurecido"
polos horrores do capitalismo é, como o anarquismo, um fenómeno social comum a todos
os países capitalistas.
Som por demais conhecidas a inconstáncia e a
esterilidade dessas veleidades revolucionárias, assim como a facilidade com que
se transformam rapidamente em submissom, apatia, fantasias, e mesmo num
entusiasmo "furioso" por essa ou aquela tendência burguesa "em
moda". Contudo, o reconhecimento teórico, abstrato, de tais verdades nom é
suficiente, de modo algum, para proteger um partido revolucionário dos antigos
erros, que sempre acontecem por motivos inesperados, com ligeira variaçom de
forma, com aparência ou contorno nunca vistos, anteriormente, numa situaçom
original (mais ou menos original).
O anarquismo foi, muitas vezes, umha espécie de
expiaçom dos pecados oportunistas do movimento operário. Essas duas anomalias
completavam-se reciprocamente. Se o anarquismo exerceu na Rússia umha
influência relativamente insignificante nas duas revoluçons (1905 e 1917) e
durante sua preparaçom, nom obstante a populaçom pequeno-burguesa ser aqui mais
numerosa que nos países europeus, isso deve-se, em parte, sem dúvida, ao
bolchevismo, que sempre lutou impiedosa e inconciliavelmente contra o
oportunismo. Digo "em parte" porque o que mais contribuiu para
debilitar o anarquismo na Rússia foi a possibilidade que teve no passado
(década de 70 do século XIX) de alcançar um desenvolvimento extraordinário e
revelar profundamente seu caráter falso e sua incapacidade de servir como
teoria dirigente da classe revolucionária.
Ao surgir em 1903, o bolchevismo herdou a tradiçom de
luita implacável contra o revolucionarismo pequeno-burguês, semi-anarquista (ou
capaz de "namoricar" o anarquismo), tradiçom que sempre existira na
social-democracia revolucionária e que se consolidou particularmente em nosso
país em 1900/1903, quando fôrom assentadas as bases do partido de massas do
proletariado revolucionário da Rússia. O bolchevismo fez sua e continuou a
luita contra o partido que mais fielmente representava as tendências do
revolucionarismo pequeno-burguês (isto é, o partido dos "socialistas
revolucionários") em três pontos principais. Em primeiro lugar, esse
partido, que repudiava o marxismo, obstinava-se em nom querer compreender
(talvez fosse mais justo dizer que nom podia. compreender) a necessidade de
levar em conta, com estrita objetividade, as forças de classe e suas relaçons
mútuas antes de empreender qualquer acçom política. Em segundo lugar, esse
partido via um sinal particular de seu "revolucionarismo" ou de seu
"esquerdismo" no reconhecimento do terror individual, dos atentados,
que nós, marxistas, rejeitávamos categoricamente. É claro que condenávamos o
terror individual exclusivamente por conveniência; as pessoas capazes de
condenar "por princípio" o terror da grande revoluçom francesa ou, de
modo geral, o terror de um partido revolucionário vitorioso, assediado pola
burguesia do mundo inteiro, já fôrom fustigadas e ridicularizadas por Plekhanov
em 1900/1903, quando este era marxista e revolucionário. Em terceiro lugar, ser
"esquerdista" consistia, para os social-revolucionários, em rir dos
pecados oportunistas, relativamente leves, da social-democracia alemá, ao mesmo
tempo que imitavam os ultra-oportunistas desse mesmo partido, em questons como
a agrária ou a da ditadura do proletariado.
A História, diga-se de passagem, confirmou hoje, em
grande escala, em escala histórico-mundial, a opiniom que sempre defendemos,
isto é: que a social-democracia revolucionária alemá (devemos levar em conta
que, já em 1900/1903, Plekhanov reclamava a expulsom de Bernstein do partido e
que os bolcheviques, mantendo sempre essa tradiçom, desmascaravam em 1913 toda
a vilania, a baixeza e a traiçom de Legien) estava mais próxima que ninguém do
partido de que o proletariado revolucionário necessitava para triunfar. Agora,
em 1920, depois de todos os rompimentos e crises ignominiosos da época da
guerra e dos primeiros anos que a sucederam, vê-se com clareza que, de todos os
partidos ocidentais, a social-democracia revolucionária alemá é, exactamente, a
que deu os melhores chefes e que mais rapidamente se recuperou, corrigiu e
fortaleceu. Isso também se verifica no partido dos espartaquistas[7]
e na ala esquerda, proletária, do "Partido Social-Democrata Independente
da Alemanha", que mantém umha luita firme contra o oportunismo e a falta
de caráter dos Kautsky, Hilferding, Ledebour e Crispien. Se dermos agora umha
olhada num período histórico completamente encerrado, que vai da Comuna de
Paris à primeira República Socialista Soviética, veremos delinear-se com relevo
absolutamente definido e indiscutível a posiçom do marxismo diante do anarquismo.
Afinal de contas, o marxismo demonstrou ter razom. E se os anarquistas
assinalavam com justeza o caráter oportunista das concepçons sobre o Estado que
imperavam na maioria dos partidos socialistas, é preciso observar, em primeiro
lugar, que esse caráter oportunista provinha de umha deformaçom e até mesmo de
umha ocultaçom consciente das ideias de Marx a respeito do Estado (em meu livro
0 Estado e a Revoluçom registrei que Bebel manteve no fundo de umha gaveta
durante 36 anos, de 1875 a 1911, a carta em que Engels denunciava com singular
realce, vigor, franqueza e clareza o oportunismo das concepçons
social-democratas em voga sobre o Estado); e, em segundo lugar, que a
retificaçom dessas ideias oportunistas e o reconhecimento do Poder Soviético e
de sua superioridade sobre a democracia parlamentar burguesa partírom com maior
amplitude e rapidez precisamente das tendências mais marxistas existentes no
selo dos partidos socialistas da Europa e da América.
Houve dous momentos em que luita do bolchevismo contra
os desvios "esquerdistas" de seu próprio partido adquiriu dimensons
particularmente consideráveis: em 1908, em torno da participaçom num
"parlamento" ultra-reaccionário e nas associaçons operárias legais,
regidas polas leis mais reaccionárias, e em 1918 (paz de Brest), em torno da
admissibilidade desse ou daquele "compromisso".
Em 1908, os bolcheviques "de esquerda"
fôrom expulsos de nosso partido, em virtude de seu empenho em nom querer
compreender a necessidade de participar num "parlamento" ultra-reaccionário.
Os "esquerdistas", entre os quais havia muitos excelentes
revolucionários que depois fôrom (e continuam sendo) honrosamente membros do
Partido Comunista, apoiavam-se, principalmente, na feliz experiência do boicote
de 1905. Quando o czar anunciou, em agosto de 1905, a convocaçom de um
"parlamento" consultivo, os bolcheviques, contra todos os partidos da
oposiçom e contra os mencheviques, declararam
o boicote a esse parlamento, que foi liquidado, com efeito, pola
revoluçom de outubro de 1905. Naquela ocasiom, o boicote foi justo, nom porque
seja certo abster-se, de modo geral, de participar nos parlamentos
reaccionários, mas porque foi levada em conta, acertadamente, a situaçom
objetiva, que levava à rápida transformaçom das greves de massas em greve
política e, sucessivamente, em greve revolucionária e em insurreiçom. Além
disso, o motivo da luita era, nessa época, saber se se devia deixar nas maos do
czar a convocaçom da primeira instituiçom representativa, ou se se devia tentar
arrancá-la das maos das antigas autoridades. Como nom havia, nem podia haver, a
plena certeza de que a situaçom objetiva era semelhante e que seu
desenvolvimento havia de realizar-se no mesmo sentido e com igual rapidez, o
boicote deixava de ser justo.
O boicote dos bolcheviques ao "parlamento"
em 1905, enriqueceu o proletariado revolucionário com umha experiência política
extraordinariamente preciosa, mostrando que, na combinaçom das formas de luita
legais e ilegais, parlamentares e extraparlamentares, é, às vezes, conveniente
e até obrigatório saber renunciar às formas parlamentares. Mas transportar
cegamente, por simples imitaçom, sem espírito critico, essa experiência a
outras condiçons, a outra situaçom, é o maior dos erros. O que já constituíra
um erro, embora pequeno e facilmente corrigível *, foi o boicote dos
bolcheviques à "Duma" em 1906. Os boicotes de 1907, 1908 e dos anos
seguintes fôrom erros muito mais sérios e dificilmente reparáveis, pois, de um
lado, nom era acertado esperar que a onda revolucionária se reerguesse com
muita rapidez e se transformasse em insurreiçom e, por outro lado, o conjunto
da situaçom histórica originada pola renovaçom da monarquia burguesa impunha a
necessidade de combinar-se o trabalho legal com o ilegal. Hoje, quando se
considera retrospectivamente esse período histórico já encerrado por completo,
cuja ligaçom com os períodos posteriores já se manifestou plenamente,
compreende-se com extrema clareza que os bolcheviques nom teriam podido
conservar (já nom digo consolidar, desenvolver e fortalecer) o núcleo sólido do
partido revolucionário do proletariado durante os anos 1908/1914, se nom
tivessem defendido, na mais árdua luita, a combinaçom obrigatória das formas
legais com as ilegais, a participaçom obrigatória num parlamento ultra-reaccionário
e numa série de instituiçons regidas por leis reaccionárias (associaçons de
mútuo socorro, etc.).
Em 1918, as cousas nom chegárom à cisom. Os comunistas "de
esquerda" só constituíram, na ocasiom, um grupo especial, ou
"fraçom", dentro de nosso Partido, e por pouco tempo. No mesmo ano,
os mais destacados representantes do "comunismo de esquerda", Rádek e
Bukharin, por exemplo, reconhecêrom abertamente seu erro. Achavam que a paz de
Brest era um compromisso com os imperialistas, inaceitáveis por princípio e
funesto para o partido do proletariado
revolucionário. Tratava-se, realmente, de um compromisso com os imperialistas;
mas era precisamente um compromisso dessa espécie que era obrigatório naquelas
circunstáncias.
Hoje, quando ouço, por exemplo, os "social-revolucionários"
atacarem nossa táctica ao assinar a paz de Brest, ou umha observaçom como a que
me foi feita polo camarada Landsbury durante umha conversa: "Os chefes de
nossas trade-unions inglesas dizem que também se podem permitir um compromisso,
umha vez que os bolcheviques se permitiram", respondo habitualmente, antes
de tudo, com umha comparaçom simples e "popular":
Imagine que o automóvel em que você está viajando é
detido por bandidos armados. Você lhes dá o dinheiro, a carteira de identidade,
o revólver e o automóvel; mas, em troca disso, escapa da agradável companhia
dos bandidos. Trata-se, evidentemente, de um compromisso. Do ut des
("dou" meu dinheiro, minhas armas e meu automóvel, "para que me
dês" a possibilidade de seguir em paz). Dificilmente, porém, se
encontraria um homem sensato capaz de declarar que esse compromisso é
"inadmissível do ponto de vista dos princípios", ou de denunciar quem
o assumiu como cúmplice dos bandidos (ainda que esses, possuindo o automóvel, e
as armas, possam utilizá-los para novas pilhagens). Nosso compromisso com os
bandidos do imperialismo alemám foi semelhante a esse.
Mas quando os mencheviques e os
social-revolucionários na Rússia, os partidários de ScheideMann (e, em grande parte,
os kautskistas) na Alemanha, Otto Bauer e Friedrich Adler (sem falar dos Srs.
Renner e outros) na Áustria, os Renaudel, Longuet & Cia. na França, os
fabianos, os "independentes" e os "trabalhistas" [8]
na Inglaterra assumiram, em 1914/1918 e em 1918/1920, com os bandidos de sua
própria burguesia e, às vezes, da burguesia "aliada", compromissos
dirigidos contra o proletariado revolucionário de seu próprio país, esses
senhores agírom como cúmplices dos bandidos.
A conclusom é clara: rejeitar os compromissos
"por principio", negar a legitimidade de qualquer compromisso, em
geral, constitui umha infantilidade que é inclusive difícil de se levar a
sério. O político que queira ser útil ao proletariado revolucionário deve saber
distinguir os casos concretos de compromissos que som mesmo inadmissíveis, que
som umha expressom de oportunismo e de traiçom, e dirigir contra esses
compromissos concretos toda a força da critica, todo esforço de um
desmascaramento implacável e de umha guerra sem quartel, nom permitindo aos
socialistas, com sua grande experiência de "manobristas", e aos
jesuítas parlamentares que se livrem da responsabilidade através de preleçons
sobre os compromissos em geral". Os senhores "chefes" das
trade-unions inglesas, assim como os da Sociedade Fabiana e os do Partido
Trabalhista "Indepedente", pretendem, exactamente desse modo,
eximir-se da responsabilidade da traiçom que cometeram, por haver assumido
semelhante compromisso que, na realidade, nada mais é que oportunismo, defecçom
e traiçom da pior, espécie.
Há compromissos e compromissos. É preciso saber
analisar a situaçom e as circunstáncias concretas de cada compromisso, ou de
cada variedade de compromisso. É preciso aprender a distinguir o homem que
entregou aos bandidos sua bolsa e suas armas para diminuir o mal causado, por
eles e facilitar sua captura e execuçom, daquele que dá aos bandidos sua bolsa
e suas armas para participar da divisom do saque. Em política, isso está muito
longe de ser sempre assim tam difícil como nesse pequeno exemplo de
simplicidade infantil. Seria, porém, um simples charlatám quem pretendesse
inventar para os operários umha fórmula que, antecipadamente, apresentasse
soluçons adequadas para todas as circunstáncias da vida, ou aquele que
prometesse que na política do proletariado nunca surgirám dificuldades nem
situaçons complicadas.
A fim de nom deixar margem a interpretaçons falsas,
tentarei esboçar, ainda que em poucas palavras, algumhas teses fundamentais
para a análise dos casos concretos de compromisso.
O partido que acertou com o imperialismo alemám o
compromisso de firmar a paz de Brest vinha elaborando na prática o seu
internacionalismo desde fins de 1914. Esse partido nom receou proclamar a
derrota da monarquia czarista e estigmatizar a "defesa da pátria", na
guerra entre duas aves de rapina imperialistas. Os deputados desse partido no
parlamento fôrom deportados para a Sibéria, em vez de seguir o caminho que leva
às pastas ministeriais num governo burguês. A revoluçom, ao derrubar o czarismo
e proclamar a república democrática, submeteu esse partido a umha nova e
importante prova: nom ajustou nengum acordo com os imperialistas de
"seu" país, e sim preparou sua derrubada e os derrubou. Esse mesmo
partido, umha vez dono do Poder político, nom deixou pedra sobre pedra nem da
propriedade agrária nem da propriedade capitalista. Depois de publicar e
inutilizar os tratados secretos dos imperialistas, esse partido propujo a paz a
todos os povos e só cedeu ante a violência dos bandidos de Brest quando os
imperialistas anglo-franceses frustrárom
a paz e depois de os bolcheviques terem feito tudo que, era humanamente
possível para acelerar a revoluçom na Alemanha e em. outros países. A total
justeza de semelhante compromisso, assumido por tal partido nessas
circunstáncias, torna-se dia a dia mais clara e evidente para todos.
Os mencheviques e social-revolucionários da Rússia
(do mesmo modo que todos os chefes da II Internacional no mundo inteiro, em
1914/1920) começárom pola traiçom,
justificando directa ou indirectamente a "defesa da pátria", isto é,
a defesa de sua burguesia espoliadora, e persistírom na traiçom coligando-se
com a burguesia de seu país e lutando a seu lado contra o proletariado
revolucionário de seu próprio país. Sua uniom na Rússia com Kerenski e os democratas
constitucionalistas[9] e, depois,
com KoIchak e Denikin, assim como a aliança de seus correligionários
estrangeiros com a burguesia de seus respectivos países, foi umha deserçom para
o campo da burguesia, contra o proletariado. Seu compromisso com os bandidos do
imperialismo consistiu, do principio ao fim, em tornar-se cúmplices do
banditismo imperialista.
_____________
* Pode-se dizer, da política e dos partidos, com as
variaçons correspondentes, o mesmo que dos indivíduos. Inteligente nom é aquele
que nom comete erros. Nom há, nem pode haver, homens que nom cometam erros.
Inteligente é aquele que comete erros nom muito graves e sabe corrigi-los
acertada e rapidamente. (Nota do autor)
V – O COMUNISMO
"DE ESQUERDA" NA ALEMANHA. CHEFES, PARTIDO, CLASSE, MASSA.
Os comunistas alemáns, de quem vamos falar agora, nom
se chamam de "esquerdistas", mas de "oposiçom de
princípio", se nom me engano. Mas, polo que se segue, pode-se ver que
tenhem todos os sintomas da "doença infantil do esquerdismo".
0 folheto intitulado Cisom no Partido Comunista da
Alemanha (Liga dos Espartaquistas), que reflete o ponto de vista dessa oposiçom
e que foi editado polo "Grupo local de Francfort-sobre-o-Meno", expom
com. grande evidência, exactidom, clareza e concisom a essência dos pontos de
vista dessa oposiçom. Algumhas citaçons serám suficientes para mostrar aos
leitores essa essência:
"0 Partido Comunista é o partido da luita de
classes mais decidida..."
"Do ponto de vista político, esse período de
transiçom" (entre o capitalismo e o socialismo) "é o período da
ditadura do proletariado..."
"Surge a seguinte pergunta: quem deve exercer a
ditadura; o Partido Comunista ou a classe proletária? Por princípio, devemos
tender para a ditadura do Partido Comunista ou para a ditadura da classe
proletária?"...
(Os grifos som do original).
Mais adiante, o autor do folheto acusa o
"CC" do Partido Comunista da Alemanha de procurar umha coligaçom com
o Partido Social-democrata Independente da Alemanha, de ter levantado "a
questom do reconhecimento, em princípio, de todos os meios políticos" de
luita, entre eles o parlamentarismo, somente para ocultar suas verdadeiras e
principais intençons de coligar-se com os independentes. E o folheto continua:
"A oposiçom escolheu outro caminho. Defende o
critério de que a questom da hegemonia do Partido Comunista e de sua ditadura
nada mais é que umha questom de táctica. Em todo caso, a hegemonia do Partido
Comunista é a última forma de toda hegemonia de partido. Por principio, deve-se
tender para a ditadura da classe proletária. E todas as medidas do Partido, sua
organizaçom, suas formas de luita, sua estratégia e sua táctica devem
orientar-se, para esse objetivo. De acordo com isso é preciso rejeitar do modo
mais categórico todo compromisso com os demais partidos, todo retorno aos
métodos parlamentares de luita, que já caducárom histórica e politicamente, toda política de manobra e
conciliaçom". "Os métodos especificamente proletários de luita
revolucionária devem ser ressaltados com energia. E, para abarcar os mais
amplos sectores e camadas proletários, que devem incorporar-se à luita
revolucionária sob a direçom do Partido Comunista, é preciso criar novas formas
de organizaçom, sobre a mais ampla base e com os mais amplos limites. Esse lugar
de agrupamento de todos os elementos revolucionários é a Uniom Operária,
construída sobre a base das organizaçons de fábrica. Nela devem unir-se todos
os operários fiéis ao lema: Fora dos Sindicatos! É nela que se forma o
proletariado militante nas mais amplas fileiras combativas. Para ser admitido
basta reconhecer a luita de classes, o sistema dos Soviets e a ditadura. Toda a
educaçom política posterior das massas militantes e sua orientaçom política na
luita é missom do Partido Comunista, que se encontra fora da Uniom
Operária..."
" ... Há agora, por conseguinte, dous partidos
comunistas frente à frente:
"Um, é o partido dos chefes, que trata de
organizar e dirigir a luita revolucionária de cima, aceitando os compromissos e
o parlamentarismo com a finalidade de criar situaçons que permitam a esses
chefes participar de um governo de coligaçom, em cujas maos esteja a ditadura.
O outro, é o partido das massas, que espera o ascenso
da luita revolucionária de baixo, que conhece e aplica nessa luita um único método
que leva firmemente ao objetivo traçado, rejeitando todos os processos
parlamentares e oportunistas; esse método único é a derrubada incondicional da
burguesia para depois implantar a ditadura de classe do proletariado, com a
finalidade de instaurar o socialismo..."
"'... De um lado, a ditadura dos chefes; de
outro, a ditadura das massas! Essa é a nossa palavra de ordem".
Tais som as teses fundamentais que caracterizam o
ponto de vista da oposiçom no Partido Comunista Alemám.
Todo bolchevique que tenha participado
conscientemente do desenvolvimento do bolchevismo desde 1903, ou que o tenha
observado de perto, nom poderá deixar de exclamar imediatamente, depois de
haver lido tais opinions: "Que velharias conhecidas! Que infantilidades de
"esquerda"!".
Examinemos, porém, mais de perto essas opinions.
O simples facto de perguntar "ditadura do
Partido ou ditadura da classe?" – "ditadura (partido) dos chefes ou
ditadura (partido) das massas?" demonstra a mais incrível e irremediável
confusom de ideias. Há pessoas que se esforçam para inventar algumha cousa
inteiramente original e que, no seu afám de sabedoria, nom conseguem senom cair
no ridículo. Todos sabem que as massas se dividem em classes, que só é possível
opor as massas às classes num sentido; opondo-se umha esmagadora maioria (sem
dividi-la de acordo com as posiçons ocupadas no regime social da produçom) a
categorias que ocupam umha posiçom especial nesse regime; que as classes som,
geralmente e na maioria dos casos (pelo menos nos países civilizados modernos),
dirigidas por partidos políticos; que os partidos políticos som dirigidos, via
de regra, por grupos mais ou menos estáveis, integrados polas pessoas mais
prestigiosas, influentes o sagazes, eleitas para os cargos de maior
responsabilidade e chamadas de chefes. Tudo isso é o ABC, tudo isso é simples e
claro. Que necessidade havia de trocar isso por tais confusons, por essa
espécie de volapuk*1 ? Essas pessoas se desnortearam, polo visto,
caindo numa situaçom difícil, em virtude da rápida sucessom da vida legal e
ilegal do Partido, que altera as relaçons comuns, normais e simples entre os
chefes, os partidos e as classes. Na Alemanha, como nos demais países europeus,
as pessoas estám excessivamente habituadas com a legalidade, a eleiçom livre e
regular dos "chefes" polos congressos ordinários dos partidos, a
comprovaçom cómoda da composiçom de classe desses últimos através das eleiçons
parlamentares, dos comícios, imprensa, estado de espírito dos sindicatos e
outras organizaçons, etc. Quando, em virtude da marcha impetuosa da revoluçom e
do desenvolvimento da guerra civil, foi preciso passar dessa rotina para a
sucessom da legalidade e da ilegalidade e sua combinaçom, para métodos
"pouco cómodos", "nom, democráticos’, a fim de designar, formar
ou conservar os "grupos de dirigentes’, essas pessoas perdêrom a cabeça e
começárom a inventar um monstruoso
absurdo. Ao que parece, os "tribunistas" holandeses[10],
que tivérom o azar de nascer num país pequeno, com umha tradiçom e condiçons de
situaçom legal particularmente privilegiada e estável, e que nunca assistírom à
sucessom das situaçons legais e ilegais, desorientaram-se e perdêrom a cabeça,
favorecendo invençons absurdas.
Por outro lado, salta aos olhos o uso impensado e
ilógico de algumhas palavras "da moda" em nossa época sobre "a
massa" e "os chefes". Essas pessoas ouvírom muitos ataques
contra "os chefes" e os sabe de cor, ouvírom como se os contrapunha à
"massa", mas nom soubêrom raciocinar sobre o significado de tudo isso
e ver as cousas com clareza.
No fim da guerra imperialista e depois dela,
manifestou-se em todos os países com singular vigor e evidência o divórcio
entre "os chefes" e "a massa". A causa fundamental desse
fenómeno foi explicada muitas vezes por Marx e Engels, de 1852 a 1892, usando o
exemplo da Inglaterra. A situaçom monopolista, desse país originou o nascimento
de umha "aristocracia operária" oportunista, semi-pequeno-burguesa,
saída da "massa". Os chefes dessa aristocracia operaria passavam-se
freqüentemente para o campo da burguesia, que os sustentava directa ou
indirectamente. Marx foi alvo do ódio, que lhe honra, desses canalhas, por
havê-los, qualificado publicamente de traidores. O imperialismo moderno (do
século XX) criou umha situaçom privilegiada, monopolista, para alguns países
avançados, e, nesse terreno, surgiu em toda a parte, dentro da II
Internacional, esse tipo de chefes traidores, oportunistas, social-chovinistas,
que defendem os interesses de sua corporaçom, de seu reduzido grupo de
aristocracia operária. Esses partidos oportunistas afastaram-se das
"massas", isto é, dos sectores mais amplos de trabalhadores, de sua
maioria, dos operários pior remunerados. A vitória do proletariado
revolucionário torna-se impossível sem a luita contra esse mal, sem o desmascaramento,
a desmoralizaçom e a expulsom dos chefes oportunistas social-traidores; essa
política, exactamente, foi a aplicada pola II Internacional.
Mas, com tal pretexto, chegar a contrapor, em termos
gerais, a ditadura das massas à ditadura dos chefes é um absurdo ridículo, umha
tolice. O mais engraçado é que, de fato, em lugar dos antigos chefes que se
limitavam a ideias comuns sobre as cousas simples, destacam-se (dissimulados
pola palavra de ordem "abaixo os chefes") chefes novos, que dizem
supremos disparates e asneiras. Tais som, na Alemanha, Lauffenberg, Wolfweim,
Horner[11],
Karl Schroeder, Friedrich Wendell e Karl Erler*2. As tentativas
desse último para "aprofundar" a questom e proclamar, de modo geral,
a inutilidade e o "caráter burguês" dos partidos políticos
representam verdadeiras colunas de Hércules da estupidez, deixando qualquer um
estupefato. Como é certo que de. um pequeno erro se pode fazer sempre um
monstruosamente grande, caso se persista nele, caso se o aprofunde para
justificá-lo, caso se tente "levá-lo às últimas conseqüências"!
Negar a necessidade do Partido e da disciplina
partidária: eis o resultado a que chegou a oposiçom. E isso equivale a desarmar
completamente o proletariado, em proveito da burguesia. Eqüivale precisamente à
dispersom, instabilidade, incapacidade de de dominar-se para unir-se e actuar
de modo organizado, defeitos tipicamente pequeno-burgueses, que, se formos
indulgentes com eles, causam inevitavelmente a ruína. de todo movimento
revolucionário do proletariado. Negar a necessidade do Partido, do
ponto-de-vista do comunismo, é dar um salto das vésperas da derrocada do
capitalismo (na Alemanha) nom até a fase inferior ou média do comunismo, mas
até a sua fase superior. Na Rússia (depois de mais de dous anos da derrubada da
burguesia) ainda estamos dando os primeiros passos na transiçom do capitalismo
para o socialismo, ou fase inferior do comunismo. As classes continuam
existindo e existirám durante anos em toda a parte, depois da conquista do
Poder polo proletariado. É possível que na Inglaterra, onde nom há camponeses
(apesar de haver pequenos patrons) esse prazo seja mais curto. Suprimir as
classes significa nom só expulsar os latifundiários e os capitalistas - isso
nós fizemos com relativa facilidade - como também suprimir os pequenos
produtores de mercadorias; estes, porém, nom se pode expulsar, nom se pode
esmagar; é preciso conviver com eles, e só se pode (e deve) transformá-los,
reeducá-los, mediante um trabalho de organizaçom muito longo, lento e prudente.
Esses pequenos produtores cercam o proletariado por todos os lados de umha
atmosfera pequeno-burguesa, embebem-no nela, corrompem-no com ela, provocam
constantemente no seio do proletariado recaídas de frouxidom, dispersividade e
individualismo pequeno-burgueses, de oscilaçons entre entusiasmo e abatimento.
Para fazer frente a isso, para permitir que o proletariado exerça acertada,
eficaz e vitoriosamente sua funçom organizadora (que é sua funçom principal),
som necessárias umha centralizaçom e umha disciplina severíssimas no partido
político do proletariado. A ditadura do proletariado é umha luita tenaz,
cruenta e incruenta, violenta e pacífica, militar e económica, pedagógica e
administrativa, contra as forças e as tradiçons da antiga sociedade. A força do
hábito de milhons e dezenas de milhons de homens é a força mais terrível. Sem
partido férreo e temperado na luita, sem um partido que goze da confiança de
tudo que exista de honrado dentro da classe, sem um partido que saiba tomar o
pulso do estado de espírito das massas e influir nele é impossível levar a cabo
com êxito essa luta. É mil vezes mais fácil vencer a grande burguesia
centralizada que "vencer" milhons e milhons de pequenos patrons, os
quais, com seu trabalho, invisível, de corrupçom, trabalho intangível, diário,
obtêm os mesmos resultados de que a burguesia necessita, que determinam a
restauraçom da burguesia. Quem concorre para enfraquecer, por pouco que seja, a
disciplina férrea do Partido do proletariado (principalmente na época de sua
ditadura) ajuda, na realidade, a burguesia contra o proletariado.
Ao lado da questom sobre os chefes, o partido, a
classe e a massa, é preciso exprimir a dos sindicatos
"reaccionários". Mas, antes, a fim de facilitar a compreensom da
conclusom, tomarei a liberdade de fazer algumhas observaçons baseadas na
experiência de nosso Partido. Nele, sempre houve ataques contra a
"ditadura dos chefes". Que eu lembre, a primeira vez foi em 1895,
quando nosso Partido ainda nom existia formalmente, mas já começava a se constituir
em Petersburgo o grupo central que iria encarregar-se da direçom dos grupos
distritais. No IX Congresso de nosso Partido (Abril de 1920) houve umha pequena
oposiçom que também se pronunciou contra a "ditadura dos chefes", a
"oligarquia", etc. Nom há, portanto, nada de surpreendente, nada de
novo, nada de alarmante na "doença infantil do "comunismo de
esquerda" entre os alemáns. Essa doença manifesta-se sem perigo e, umha
vez curada, chega mesmo a fortalecer o organismo. Por outro lado, a rápida sucessom
do trabalho legal e ilegal, que implica na necessidade de "ocultar",
de envolver com singular segredo o Estado-Maior, os chefes, originou em nosso
país, algumhas vezes, fenómenos profundamente perigoso. O pior deles foi a
infiltraçom no Comité Central bolchevique, em 1912, de um agente provocador -
Malinovski. Este delatou dezenas e dezenas dos mais abnegados e excelentes
camaradas,. causando a sua condenaçom a trabalhos forçados e provocando a morte
de muitos deles. Se nom causou maiores danos foi porque estabelecêramos
adequadamente a correlaçom entre os trabalhos legal e ilegal. Para ganhar nossa
confiança, Malinovski, como membro do Comité Central do Partido e deputado à
Duma, teve de ajudar-nos a organizar a publicaçom de diários legais que,
inclusive sob o czarismo, soubêrom luitar contra o oportunismo dos mencheviques
e difundir, com os disfarces necessários, os princípios fundamentais do
bolchevismo. Com umha das maos, Malinovski enviava para a prisom e para a morte
dezenas e dezenas dos melhores combatentes do bolchevismo; com a outra via-se
obrigado a contribuir para a educaçom de .dezenas e dezenas de milhares de
novos bolcheviques, através da imprensa legal. Sobre este facto deveriam
refletir cuidadosamente os camaradas alemáns (e também os ingleses, americanos,
franceses e italianos) que tem diante de si a tarefa de aprender a realizar um
trabalho revolucionário nos sindicatos "reaccionários"*3.
Em muitos países, até nos mais adiantados, a
burguesia infiltra e continuará infiltrando, sem a menor dúvida, provocadores
nos Partidos Comunistas. Um dos meios de luitar contra esse perigo consiste em
saber combinar acertadamente o trabalho ilegal com o legal.
_______________
*1 Volapuk - Idioma internacional
artificial inventado por SchIeyer, em 1879. (Nota de Ediciones en Lenguas
Extranjeras)
*2 No Diário Operário Comunista[12]12
(n.º. 32, Hamburgo, 7 de Fevereiro de 1920), Karl Erler, num artigo intitulado
A dissoluçom do Partido, escreve: "A classe operária nom pode destruir o
Estado burguês sem aniquilar a democracia burguesa, e nom pode aniquilar a
democracia burguesa sem destruir os partidos ".
As mais confusas cabeças dos sindicalistas e
anarquistas latinos podem sentir-se "satisfeitas": alguns alemáns
importantes que polo visto, se considêrom marxistas (em seus artigos no jornal
citado, K. Erler e K. Horner demonstram serenamente que se considêrom firmes
marxistas, apesar de dizerem de modo singularmente ridículo tolices
inacreditáveis, manifestando assim nom conhecer o ABC do marxismo) chegam a
afirmar cousas completamente absurdas. Por si só, o reconhecimento do marxismo
nom exime ninguém dos erros. . Os. russos bem sabem disso, porque o marxismo,
com muita freqüência, esteve "em moda" em nosso pais. '(Nota do
autor)
*3Malinovski esteve preso na Alemanha.
Quando regressou à Rússia, já no Poder bolchevique, foi imediatamente entregue
aos tribunais e fusilado por nossos operários. Os mencheviques criticaram-nos
acerbamente polo erro de ter abrigado um, provocador no Comité Central de nosso
Partido, Mas, quando no período de Kerenskí exigimos que fosse detido e julgado
o presidente da Duma, Rodzianko, que desde antes da guerra sabia que Malinovski
era um provocador e nom comunicara o facto aos deputados
"trudoviques" (trabalhistas) e operários da Duma, nem os mencheviques
nem os social-revolucionários, que formavam no governo de Kerenski,
apoiárom nossa exigência, e Rodzianko
ficou em liberdade e pode unir-se a Denikin sem o menor obstáculo. (Nota do
autor)
VI - OS REVOLUCIONÁRIOS
DEVEM ACTUAR NOS SINDICATOS REACCIONÁRIOS ?
Os "esquerdistas" alemáns acham que podem
responder a essa pergunta com umha negativa absoluta. Na sua opiniom, a
algazarra e os gritos encolerizados contra os sindicatos
"reaccionários" e "contra-revolucionários" (K. Horner destaca-se
pola "seriedade" e estupidez com que fai isso) bastam para
"demonstrar" a inutilidade e até a inadmissibilidade da actuaçom dos
revolucionários, os comunistas, nos sindicatos amarelos, social-chovinistas,
conciliadores e dos legienístas*1.
Mas, por muito convencidos que estejam os
"esquerdistas" alemáns do caráter revolucionário de semelhante
táctica, ela é, na realidade, profundamente errónea e nada contém, a nom ser
frases vazias.
Para esclarecer o que digo, partirei de nossa própria
experiência, de acordo com o plano geral deste folheto, que tem por objetivo
aplicar à Europa Ocidental o que a história e a táctica actual do bolchevismo
tem de aplicável, importante e obrigatório em toda a parte.
A correlaçom entre chefes, partido, classe e massa e,
ao mesmo tempo, a atitude da ditadura do proletariado o de seu partido no que
concerne aos sindicatos apresentam entre nós, actualmente, da seguinte forma
concreta: a ditadura é exercida polo Proletariado organizado nos Soviete e
dirigido polo Partido Comunista Bolchevique, que, segundo os dados do último
Congresso (Abril de 1920), conta com 611 000 membros. O número de filiados
oscilou muito, tanto antes como depois da Revoluçom de Outubro, e foi mesmo
consideravelmente menor em 1918/1919[13].
Receamos ampliar excessivamente o Partido porque os arrivistas e aventureiros,
que nada merecem além de ser fusilados, tendem inevitavelmente a infiltrar-se
no partido governante. A última vez que abrimos de par em par as portas do
Partido - exclusivamente para operários e camponeses - foi nos dias (inverno de
1919) em que Yudenich estava a algumhas verstas de Petrogrado e Denikin. estava
em Oriol (a umas trezentas e cinqüenta verstas de Moscovo), isto é, quando a
República Soviética corria um perigo terrível, mortal, e os aventureiros,
arrivistas, aproveitadores e, de modo geral, todos os elementos instáveis nom
podiam, de jeito nengum, esperar fazer umha carreira vantajosa se aderissem aos
comunistas, pois era mais fácil a perspectiva da forca o das torturas. O
Partido, que convoca congressos anuais (no último, a representaçom foi de um
delegado para cada mil militantes), é dirigido por um Comité Central de 19
membros, eleito no congresso; a gestám dos assuntos cotidianos é exercida em
Moscovo por dous organismos ainda mais restritos, denominados "Birô de
Organizaçom" e "Birô Político", eleitos em sessons plenárias do
Comité-Central. Em. cada um desses dous organismos participam cinco membros do
CC. Estamos, por conseguinte, diante de umha verdadeira oligarquia".
Nengumha questom importante, política ou de organizaçom, é resolvida por
qualquer instituiçom estatal de nossa República sem as diretrizes do Comité
Central do Partido.
Em seu trabalho, o Partido apoia-se directamente nos sindicatos, que tenhem agora, segundo os dados do último Congresso (Abril de 1920), mais de quatro milhons de filiados e que, no aspecto formal, som sem partido. De fato, todas as instituiçons dirigentes da imensa maioria dos sindicatos e sobretudo, naturalmente, a central, ou Birô sindical de toda a Rússia (Conselho Central dos Sindicatos da Rússia), compomm-se de comunistas e aplicam todas as diretrizes do Partido. Obtém-se, no conjunto, um dispositivo proletário, formalmente nom comunista, flexível e relativamente amplo, poderosíssimo, por meio do qual o Partido está estreitamente ligado à classe e às massas, e através do qual se exerce, sob a direçom do Partido, a ditadura da classe. É claro que nos teria sido impossível governar o país e exercer a ditadura, já nom digo dous anos e meio, mas nem sequer dous meses e meio, se nom houvesse a mais- estreita ligaçom com os sindicatos, seu apoio entusiasta, seu abnegadíssimo trabalho tanto na organizaçom económica como na militar. Como se pode compreender, esta estreitíssima ligaçom significa, na prática, um trabalho de propaganda e agitaçom bastante complexo e variado, reunions oportunas e freqüentes, nom só com os dirigentes, mas geralmente com os militantes que tenhem influência nos sindicatos, e também umha luita decidida contra os mencheviques, que conservárom até hoje um certo número de adeptos – bem pequeno, é verdade - aos quais ensinam todas as artimanhas da contra-revoluçom, desde a defesa ideológica da democracia (burguesa) e a pregaçom da "independência" dos sindicatos (independência... em relaçom ao Poder estatal proletário!) até à sabotagem à disciplina proletária, etc., etc.
Reconhecemos que o contato com as "massas"
através dos sindicatos nom é suficiente. No transcurso da revoluçom criou-se em
nosso pais, na prática, um organismo que procuramos manter a todo custo,
desenvolver e ampliar: as conferências de operários e camponeses sem partido,
que nos possibilitam observar o estado de espírito das massas, aproximarmo-nos
delas, corresponder a seus desejos, promover aos postos do Estado seus melhores
elementos, etc. Um decreto recente sobre a transformaçom do Comissariado do
Povo de Controle do Estado em "Inspecçom Operária e Camponesa"
concede a essas conferências sem partido o direito de eleger membros para o
Controlo do Estado, encarregados das mais diversas funçons de revisom, etc.
Além disso, como é natural, todo o trabalho do
Partido realiza-se através dos Soviets, que agrupam as massas trabalhadoras,
sem distinçom de ofício. Os congressos distritais dos Soviets representam umha
instituiçom democrática como jamais se viu nas melhores repúblicas democráticas
do mundo burguês. Por meio desses congressos (cujo trabalho procura acompanhar
o Partido com a maior atençom possível) assim como através da designaçom
constante dos operários mais conscientes para diversos cargos nas povoaçons
rurais, o proletariado exerce sua funçom dirigente com relaçom ao campesinato,
realiza-se a ditadura do proletariado urbano, a luita sistemática contra os
camponeses ricos, burgueses, exploradores e especuladores, etc.
Esse é o mecanismo geral do Poder estatal proletário
examinado "de cima", do ponto de vista da realizaçom prática da
ditadura. É de esperar que o leitor compreenda por que o bolchevique russo, que
conhece tal mecanismo e o viu nascer dos pequenos círculos ilegais e
clandestinos no decurso de 25 anos, só pode achar ridículas, pueris e absurdas
todas as discussons sobre a ditadura de cima ou de baixo, a ditadura dos chefes
ou a ditadura das massas, etc., ridículas, pueris e absurdas como umha discussom
acerca da maior ou menor utilidade que tem para o homem a perna esquerda ou o
braço direito.
Também nom podemos deixar de achar um absurdo
ridículo e pueril as argumentaçom ultra-sábias, empoladas e terrivelmente
revolucionárias dos esquerdistas alemáns a respeito de ideias como: os
comunistas nom podem nem devem actuar nos sindicatos reaccionários; é lícito
renunciar a semelhante atividade; é preciso abandonar os sindicatos e organizar
obrigatoriamente umha "uniom operária" novinha em folha e completamente
pura, inventada por comunistas muito simpáticos (e na maioria dos casos,
provavelmente, bem jovens), etc., etc.
O capitalismo lega inevitavelmente ao socialismo, de
um lado, as antigas diferenciaçons profissionais e corporativas entre os
operários, formadas mo decorrer dos séculos, e, por outro lado, os sindicatos,
que só muito lentamente, no transcurso dos anos, podem transformar-se, e se
transformarám, em sindicatos de indústria mais amplos, menos corporativos (que
abarcam indústrias inteiras, em vez de englobar somente corporaçons, ofícios e
profissons). Depois, por meio desses sindicatos de indústria, será iniciada a
supressom da divisom do trabalho entre os homens, a educaçom, instruçom e
formaçom de homens universalmente desenvolvidos e universalmente preparados,
homens que saberám fazer tudo. O comunismo marcha e deve marchar para esse
objetivo, que será atingido, embora somente dentro de muitos anos. Tentar hoje
antecipar-se na prática a esse resultado futuro de um comunismo chegado ao fim
de seu completo desenvolvimento, solidez e formaçom, de sua realizaçom integral
e de seu amadurecimento, é o mesmo que querer ensinar matemáticas superiores a
umha criança de quatro anos.
Podemos (e devemos) empreender a construçom do
socialismo nom com um material humano fantástico, nem especialmente criado por
nós, mas com o que nos foi deixado de herança polo capitalismo. Nom é
necessário dizer que isso é muito "difícil"; mas, qualquer outro modo
de abordar o problema é tam pouco sério que nem vale a pena falar dele.
Os sindicatos representárom um progresso gigantesco da classe operária nos primeiros tempos
do desenvolvimento do capitalismo, visto que significavam a passagem da
dispersom e da impotência dos operários aos rudimentos da uniom de classe.
Quando começou a desenvolver-se a forma superior de uniom de classe dos
proletários, o partido revolucionário do proletariado (que nom será merecedor
desse nome enquanto nom souber ligar os líderes à classe e às massas num todo
único e indissolúvel), os sindicatos começárom
a manifestar inevitavelmente certos aspectos reaccionários, certa
estreiteza grupal, certa tendência para o apoliticismo, certo espírito de
rotina, etc. O desenvolvimento do proletariado, porém, nom se realizou, nem
podia realizar-se, em nengum país de outra maneira senom por intermédio dos
sindicatos e por sua acçom conjunta com o partido da classe operária. A
conquista do Poder político polo proletariado representa um progresso
gigantesco deste, considerado como classe, e o partido deve dedicar-se mais, de
modo novo e nom apenas polos processos antigos, para educar os sindicatos,
dirigi-los, sem esquecer, ao mesmo tempo, que estes som e serám durante muito
tempo umha "escola de comunismo" necessária, umha escola preparatória
dos proletários para a realizaçom de sua ditadura, a associaçom indispensável
dos operários para a passagem gradual da direçom de toda a economia do país
inicialmente para as maos da classe operária (e nom de profissons isoladas) e,
depois, para as maos de todos os trabalhadores. Na ditadura do proletariado é
inevitável a existência de certo "espirito reaccionário" nos
sindicatos, no sentido assinalado. Nom compreender esse facto significa nom
compreender absolutamente as condiçons fundamentais da transiçom do capitalismo
ao socialismo. Temer esse "espírito reaccionário", tentar prescindir
dele, ignorá-lo, é umha grande tolice, pois eqüivale a temer o papel de
vanguarda do proletariado, que consiste em instruir, ilustrar, educar, atrair
para umha vida nova as camadas e as massas mais atrasadas da classe operária e
do campesinato. Por outro lado, adiar a ditadura do proletariado até que nom
reste nengum operário de estreito espírito profissional, nengum operário com
preconceitos tradeunionistas e corporativistas, seria um erro ainda mais grave.
A arte do político (e a justa compreensom dos seus deveres no comunista)
consiste, precisamente, em saber aquilatar com exactidom as condiçons e o
momento em que a vanguarda do proletariado pode tornar vitoriosamente o Poder;
em que pode, por ocasiom da tomada do Poder e depois dela conseguir um apoio
suficiente de sectores bastante amplos da classe operária e das massas
trabalhadoras nom proletárias; em que pode, umha vez obtido esse apoio, manter,
consolidar e ampliar seu domínio, educando, instruindo e atraindo para si
massas cada vez maiores de trabalhadores.
Prossigamos. Em países mais adiantados que a Rússia
se fez sentir, e devia fazer-se sentir de modo muito mais acentuado, sem
dúvida, que entre nós, certo espírito reaccionário dos sindicatos. Aqui, os
mencheviques tinham (e em parte ainda tem, num reduzidíssimo número de
sindicatos) apoio entre os sindicatos, graças, exactamente, a essa .estreiteza
corporativa, a esse egoísmo e ao oportunismo. Os mencheviques de Ocidente
"entrincheiraram-se" muito mais firmemente nos sindicatos, e lá
surgiu umha camada muito mais forte que em nosso pais de aristocracia operária,
profissional, mesquinha, egoísta, desalmada, ávida, pequeno-burguesa, de
espírito imperialista, subornada e corrompida polo imperialismo. Isto é
indiscutível. A luita contra os Gompers, contra os senhores Jouhaux, Henderson,
Merrheim, Legien e Cia. na Europa Ocidental é muito mais difícil que a luita
contra os nossos mencheviques, que representam um tipo social e político
totalmente homogéneo. É preciso sustentar essa luita implacavelmente e mantê-la
obrigatoriamente, como o fizemos, até desmoralizar e desalojar dos sindicatos
todos os chefes incorrigíveis do oportunismo e do social-chovinismo. É
impossível conquistar o Poder político (e nom se deve nem pensar em tomar o
Poder político) enquanto essa luita nom tiver atingido certo grau; este certo
grau nom é o mesmo em todos os países e sob todas as condiçons, e só dirigentes
políticos sensatos, experimentados e competentes do proletariado podem
determiná-lo com acerto em cada país. (Na Rússia o termómetro do êxito dessa
luita, entre outras cousas, fôrom .as eleiçons de novembro de 1917 para a
Assembleia Constituinte, alguns dias depois da revoluçom proletária de 25 de
outubro de 1917. Nessas eleiçons, os mencheviques sofrêrom fragorosa derrota,
obtendo 700 000 votos - 1400 000 contando os da Transcaucásia - contra os 9 000
000 alcançados polos bolcheviques. Ver. meu artigo As eleiçons para a
Assembleia Constituinte e a ditadura do proletariado, publicado no número 7/8
de A Internacional Comunista).
Mas sustentamos a luita contra a "aristocracia
operária" em nome das massas operárias e para colocá-las ao nosso lado; sustentamos
a luita contra os chefes oportunistas e social-chovinistas para ganhar a classe
operária. Seria tolice esquecer esta verdade mais que elementar e evidente. E é
essa, precisamente, a tolice cometida polos comunistas alemáns "de
esquerda", que deduzem do caráter reaccionário e contra-revolucionário dos
chefetes dos sindicatos que é necessário ... sair dos sindicatos!!., renunciar
ao trabalho neles!!, criar formas de organizaçom operária novas, inventadas!!
umha estupidez tam imperdoável, que eqüivale ao melhor serviço que os
comunistas podem prestar à burguesia. Isso porque nossos mencheviques, como
todos os líderes sindicais oportunistas, social-chovinistas e kautskistas nada
mais som que "agentes da burguesia no movimento operário" (Como
sempre dissemos ao falar dos mencheviques) ou, em outras palavras, os
"lugar-tenentes operários da classe dos capitalistas" (labor
lieutenants of the capitalist class), segundo a magnífica expressom,
profundamente exacta, dos discípulos de Daniel de León nos Estados Unidos. Nom
actuar dentro dos sindicatos reaccionários significa abandonar as massas
operárias insuficientemente desenvolvidas ou atrasadas à influência dos líderes
reaccionários, dos agentes da burguesia, dos operários aristocratas ou
operários aburguesados" (ver a carta de Engels e Marx em 1858 a respeito
dos operários ingleses).
Precisamente a absurda "teoria" da nom
participaçom dos comunistas nos sindicatos é que demonstra do modo mais
evidente a leviandade com que esses comunistas "de esquerda" encaram a questom da influência sobre as
"massas" e como abusam de seu alarido em torno das
"massas". Para saber ajudar a "massa" e conquistar sua
simpatia, adesom e apoio é preciso nom temer as dificuldades, mesquinharias,
armadilhas, insultos e perseguiçons dos "chefes" (que, sendo
oportunistas e social-chovinistas, estám, na maioria das vezes relacionados
directa ou indirectamente com a burguesia e a polícia). Além disso, deve-se
trabalhar obrigatoriamente onde estejam ao massas. É necessário saber fazer todas
as espécies de sacrifícios e transpor os maiores obstáculos para realizar umha
propaganda e umha agitaçom sistemática, pertinaz, perseverante e paciente
exactamente nas instituiçons, associaçons e sindicatos, por mais reaccionários
que sejam, onde haja massas proletárias ou semi-proletárias. E os sindicatos e
cooperativas operários (estas polo menos em alguns casos) som precisamente as
organizaçons onde estám as massas. Na Inglaterra, segundo dados publicados polo
jornal sueco Folkets Dagblad Politiken*2 a 10 de Março de 1920, o
número e membros das trade-unions, que em fins de 1917 era de 5 500 000,
aumentou nos últimos dias de 1918 para 6 600 000, isto é, 19%. Em fins de 1919,
seus efectivos elevavam-se, segundo os cálculos, a 7 500 000. Nom tenho à mao
os números correspondentes à França e à Alemanha; mas alguns fatos,
absolutamente indiscutíveis e que todos conhecem, atestam o notável incremento
do número de membros dos sindicatos também nesses países.
Tais factos provam com toda clareza o que é confirmado
por outros milhares de sintomas: o desenvolvimento da consciência o do desejo
de organizaçom justamente nas massas proletárias, em seus "sectores
inferiores", atrasados. Na Inglaterra, França e Alemanha, milhons de
operários passam pola primeira vez da completa desorganizaçom. É impossível
conceber maior insensatez, maior dano causado à revoluçom polos revolucionários
"de esquerda"! Se hoje, na Rússia, depois de dous anos e meio de
triunfos sem precedentes sobre a burguesia da Rússia e a da Entente estabelecêssemos
como condiçom de ingresso nos sindicatos o "reconhecimento da
ditadura", faríamos umha tolice, perderíamos nossa influência sobre as
massas e ajudaríamos os mencheviques, pois a tarefa dos comunistas consiste em
saber convencer os elementos atrasados, saber actuar entre eles, e nom em
isolar-se deles através de palavras de ordem tiradas subjetivamente de nossa
cabeça e infantilmente "esquerdistas".
Nom há dúvida de que os senhores Gompers, Henderson, Jouhaux e Legien ficarám muito agradecidos a esses revolucionários "de esquerda", que, como os da oposiçom "de princípio" alemá (que o céu nos proteja de semelhantes "princípios" ou alguns revolucionários da "Operários Industriais do Mundo"[14] nos Estados Unidos, pregam a saída dos sindicatos reaccionários a renúncia à actuaçom neles. Nom duvidamos de que os senhores "chefes" do oportunismo recorrerám a todos os artifícios da diplomacia burguesa, à ajuda dos governos burgueses, dos padres, da polícia e dos tribunais para impedir a entrada dos comunistas nos sindicatos, para expulsá-los de lá por todos os meios e tornar o seu trabalho nos sindicatos o mais desagradável possível, ofendê-los, molestá-los e persegui-los. É preciso saber enfrentar tudo isso, estar disposto a todos os sacrifícios e, inclusive, empregar - em caso de necessidade - todos os estratagemas, ardis e processos ilegais, silenciar e ocultar a verdade, com o objetivo de penetrar nos sindicatos, permanecer neles e ai realizar, custe o que custar, um trabalho comunista. Sob o regime tzarista, até 1905, nom tivemos nengumha "possibilidade legal"; mas quando o polícial Subatov organizou suas assembleias e associaçons operárias ultra-revolucionárias, com a finalidade de caçar os revolucionários e luitar contra eles, infiltramos ali membros de nosso Partido (lembro entre eles o camarada Babushkin, destacado operário petersburguense, fusilado em 1906 polos generais czaristas) que estabelecêrom contato com a massa, conseguírom realizar sua agitaçom e tirar os operários da influência dos agentes de Subatov*3. Naturalmente, é mais difícil, actuar assim nos países da Europa Ocidental, particular mente impregnados de preconceitos legalistas, constitucionalistas e democrático-burgueses muito arraigados. Mas se pode e deve actuar dessa maneir