DOENÇA INFANTIL DO ESQUERDISMO NO COMUNISMO. Lenine

VII - DEVE-SE PARTICIPAR NOS PARLAMENTOS BURGUESES

 

Os comunistas "de esquerda" alemáns com o maior desdém e a maior leviandade, respondem a essa pergunta pola negativa. Seus argumentos? Na citaçom transcrita no parágrafo V pode-se ler:

"... rejeitar do modo mais categórico todo retorno aos métodos parlamentares de luita, que já caducárom  histórica e politicamente..."

Além do tom ridiculamente presunçoso em que isso está dito, sua falsidade é evidente. "Retorno" ao parlamentarismo! Já existe, por acaso, umha república soviética na Alemanha? Entom, como se pode falar de "retorno"? Nom é umha frase vazia?

O parlamentarismo "caducou historicamente". Isso está certo do ponto de vista da propaganda. Mas ninguém ignora que daí à sua superaçom na prática há 'uma enorme distáncia. Há muitas décadas já s6 podia dizer, com toda razom, que o capitalismo tinha "caducado historicamente"; Mas isso nem mesmo impede que sejamos obrigados a sustentar umha luita extremamente prolongada e tenaz no terreno do capitalismo. O parlamentarismo "caducou historicamente" do ponto de vista histórico-universal, isto é, a época do parlamentarismo burguês terminou, começou a época da ditadura do proletariado. Isso é indiscutível. Na história universal, porém, o tempo é contado por décadas. Nesse terreno, dez ou vinte anos a mais ou a menos nom tem importáncia; representam um número tam modesto que, mesmo aproximadamente, é impossível aquilatar seu valor. Por isso, utilizar-se do critério da história universal para umha questom de política prática constitui o mais gritante erro teórico.

"Caducou politicamente o parlamentarismo"? Isto já é outra questom. Se fosse verdade, a posiçom dos esquerdistas" seria firme. Mas isso tem que ser provado através de umha análise muito séria, análise que os esquerdistas nem sequer sabem como abordar. Do mesmo modo, nom vale um tostom, como veremos, a análise contida nas Teses. Sobre o Parlamentarismo, publicado no 19 número, do Boletim do Birô Provisório de Amsterdam da Internacional Comunista (Bulletín of the Provisional Bureau in Amsterdom of Communist International,, February - 1920) e que exprime claramente as tendências esquerdistas dos holandeses, ou as tendências holandesas dos esquerdistas.

Em primeiro lugar, os "esquerdistas" alemáns, como se sabe, já consideravam em Janeiro de 1919 que o parlamentarismo tinha "caducado politicamente", malgrado a opiniom de destacados dirigentes políticos como Rosa de Luxemburgo e Karl Leibknecht. É sabido que os "esquerdistas" se equivocaram. Tal facto é suficiente para destruir de golpe e radicalmente a tese de que o parlamentarismo "caducou politicamente". Os "esquerdistas" tem a obrigaçom de demonstrar por que seu erro indiscutível de entom, deixou hoje de ser um erro. Contudo, eles nom apresentam, nem podem apresentar, a menor sombra de prova. A atitude de um partido político diante de seus erros é um dos critérios mais importantes e seguros para a apreciaçom da seriedade desse partido e do cumprimento efectivo de seus deveres para com a sua classe e as massas trabalhadoras. Reconhecer francamente os erros, pôr a nu as suas causas, analisar a situaçom que os originou e discutir cuidadosamente os meios de corrigi-los é, o que caracteriza um partido sério; nisso consiste o cumprimento de seus deveres; isso significa-- educar e instruir a classe e, depois, as massas. Ao nom cumprir esse dever nem estudar com toda a atençom, zelo e prudência necessários seu erro evidente, os "esquerdistas" da Alemanha (e da Holanda) demonstram exactamente que nom som o partido da classe, e sim um círculo; que nom som o partido das massas e sim um grupo de intelectuais e de um reduzido número de operários que imitam os piores aspectos dos intelectualóides.

Em segundo lugar, no mesmo folheto do grupo "de esquerda" de Francfort, do qual transcrevemos trechos mais detalhados páginas atrás, lemos :

". . . os milhons de operários que ainda seguem a política do centro" (do partido católico- centrista) "som contra-revolucionário. Os proletários do campo formam as legions dos exércitos contra-revolucionários". (página 3 do folheto em questom).

Como se vê, a afirmaçom é feita com ênfase e exagero excessivo. Mas o facto fundamental exposto aqui é indiscutível, e seu reconhecimento polos "esquerdistas" atesta seu erro com acentuada evidência. Com efeito, como se pode dizer que o "parlamentarismo caducou politicamente", se "milhons" e "legions" de proletários ainda som nom apenas partidários do parlamentarismo em geral, como, inclusive, francamente "contra-revolucionários"!? E evidente que o parlamentarismo na Alemanha ainda nom caducou politicamente. E evidente que os "esquerdistas" da Alemanha considerárom  seu desejo, suas concepçons político- ideológicas, umha realidade objetiva. Este é o mais perigoso dos erros para os revolucionários. Na Rússia, onde o jugo sumamente selvagem e feroz do czarismo criou, durante um período prolongadíssimo e com formas particularmente variadas, revolucionários de todos os matizes, revolucionários de abnegaçom, entusiasmo, heroísmo e força de vontade assombrosos, pudemos observar bem de perto, estudar com singular atençom e conhecer minuciosamente este erro dos revolucionários, o que nos fai vê-lo com particular clareza nos outros. Como é natural, para os comunistas da Alemanha o parlamentarismo "caducou politicamente"; mas, trata-se exactamente de nom julgar que o caduco para nós tenha caducado para a classe, para a massa. Mais umha vez, constatamos que os "esquerdistas" nom sabem raciocinar, nom sabem conduzir-se como o partido da classe, como o partido das massas. Vosso dever consiste em nom descer ao nível das massas, ao nível dos sectores atrasados da classe. Isso nom se discute. Tendes a obrigaçom de dizer-lhes a amarga verdade: dizer-lhes que seus preconceitos democrático-burgueses e parlamentares nom passam disso: preconceitos. Ao mesmo tempo, porém, deveis observar com serenidade o estado real de consciência e de preparo de toda a classe (e nom apenas de sua vanguarda comunista), de toda a massa trabalhadora (e nom apenas de seus elementos avançados).

Mesmo que nom fossem "milhons" e "legions", e sim umha simples minoria bastante considerável de operários industriais que seguisse os padres católicos e de trabalhadores agrícolas que seguisse os latifundiários e camponeses ricos (Grossbauern), poderíamos assegurar sem, vacilar que o parlamentarismo na Alemanha ainda nom caducou politicamente, que a participaçom nas eleiçons parlamentares e na luita através da, tribuna parlamentar som obrigatórias para o partido do proletariado revolucionário, precisamente para educar os sectores atrasados de sua classe, precisamente para despertar e instruir a massa aldeá inculta, oprimida e ignorante. Enquanto nom tenhais força para dissolver o parlamento burguês e qualquer outra organizaçom reaccionária, vossa obrigaçom é actuar no seio dessas instituiçons, precisamente porque ainda há nelas operários embrutecidos polo clero e pola vida nos rincons: mais afastados do campo. Do contrário, correi o risco de vos converter em simples charlatáns.

Em terceiro lugar, os comunistas "de esquerda" som pródigos de elogios a nós bolcheviques. às vezes dá-nos vontade de dizer-lhes: louvem-nos menos e tratem de compreender melhor a nossa táctica, familiarizar-se mais com ela! Participamos das eleiçons ao parlamento burguês da Rússia, à Assembleia Constituinte, em setembro-novembro de 1917. Era justa ou nom a nossa táctica? Se nom era, é preciso dize-lo com clareza o demonstrá-lo; isso é indispensável para que o comunismo internacional elabore a táctica justa. Se era, é preciso tirar as conclusons que se impomm. Naturalmente, nom se trata absolutamente de equiparar as, condiçons da Rússia às da Europa Ocidental. Mas, quando se trata em particular do significado que tem a ideia de que "o parlamentarismo caducou politicamente", é indispensável levar em conta com exactidom a nossa experiência, pois sem considerar umha experiência concreta, tais ideias convertem-se muito facilmente em frases vazias. Nós, bolcheviques russos, nom tínhamos, porventura, em setembro-novembro de 1917, mais direito que todos os comunistas do Ocidente de considerar que o parlamentarismo tinha sido superado politicamente na Rússia? Tínhamos, sem dúvida, pois a questom nom se baseia em se os parlamentos burgueses existem há muito ou há pouco tempo, mas sim em até que ponto as massas trabalhadoras estám preparadas (ideológica, politicamente e na prática) para adotar o regime soviético o dissolver (ou permitir a dissoluçom) do parlamento democrático-burguês. Que a classe operária das cidades, os soldados e os camponeses da Rússia estavam, em setembro-novembro de 1917, excepcionalmente preparados, em virtude de umha série de condiçons particulares, para adotar o regime soviético e dissolver o parlamento burguês mais democrático é um facto histórico absolutamente indiscutível e plenamente demonstrado. Contudo, os bolcheviques nom boicotárom  a Assembleia Constituinte, e sim, polo contrário, participárom  das eleiçons, tanto antes como depois da conquista do Poder político polo proletariado. Creio haver demonstrado no artigo citado páginas atrás, no qual analiso minuciosamente os resultados das eleiçons para a Assembleia Constituinte da Rússia, que essas eleiçons tivérom conseqüências políticas de extraordinário valor (e de suma utilidade para o proletariado).

A conclusom que se tira desse facto é absolutamente indiscutível: está provado que, mesmo algumhas semanas antes da vitória da República Soviética, mesmo depois dessa vitória, a participaçom num parlamento democrático-burguês, longe de prejudicar o proletariado revolucionário, permite-lhe demonstrar com maior facilidade às massas atrasadas a razom por que semelhantes parlamentos devem ser dissolvidos, facilita o êxito de sua dissoluçom, facilita a "supressom política" do parlamentarismo burguês. Nom levar em consideraçom essa experiência e pretender, ao mesmo tempo, pertencer à Internacional Comunista - que deve elaborar internacionalmente a sua táctica (nom umha táctica estreita ou de caráter estritamente nacional, mas exactamente umha táctica internacional) - significa incorrer no mais profundo dos erros e precisamente afastar-se de facto do internacionalismo, embora este seja proclamado em palavras.

Consideremos agora os argumentos "esquerdistas holandeses" em prol da nom participaçom nos parlamentos. Eis a tese, a mais importante das teses "holandesas" citadas anteriormente, traduzida do inglês:

"Quando o sistema capitalista de produçom é destroçado e a sociedade atravessa um período revolucionário, a acçom parlamentar perde gradualmente seu valor em comparaçom com a acçom das próprias massas. Quando, nestas condiçons, o parlamento se converte em centro e órgao da contra-revoluçom e, por outro lado, a classe operária cria os instrumentos de seu Poder sob a forma dos Soviets, pode tornar-se inclusive necessário renunciar a toda participaçom na acçom parlamentar"

A primeira frase é, evidente, falsa, posto que a acçom das massas - umha grande greve, por exemplo - é sempre mais importante que a acçom parlamentar, e nom só durante a revoluçom ou numa situaçom revolucionária. Esse argumento, de indubitável inconsistência e falso histórica e politicamente, só serve para mostrar com particular evidência que seus defensores desprezam completamente a experiência de toda a Europa (da França nas vésperas das revoluçons de 1848 e 1870, da Alemanha entre 1878 e 1890, etc.) e da Rússia (ver acima) sobre a importáncia da combinaçom da luita legal com a ilegal. Essa questom é da maior importáncia, tanto no geral como no particular, porque em todos os países civilizados e adiantados aproxima-se a largas passadas a época em que tal combinaçom será - e, em parte, já o é - cada vez mais obrigatória para o partido do proletariado revolucionário, em conseqüência do amadurecimento e da proximidade (1ª guerra civil do proletariado contra a burguesia, em conseqüência das ferozes perseguiçons feitas aos comunistas polos governos republicanos e, de modo geral, burgueses, que violam por todos os meios a legalidade (como exemplo disso basta citar os Estados Unidos), etc. Essa questom fundamental nom é absolutamente compreendida polos holandeses e esquerdistas em geral.

A segunda frase é, em primeiro lugar, falsa historicamente. Nós, bolcheviques, atuamos nos parlamentos mais contra-revolucionários e a experiência demonstrou que semelhante participaçom foi nom só útil como necessária para o partido do proletariado revolucionário, precisamente depois da primeira revoluçom burguesa na Rússia (1905), a fim de preparar a segunda revoluçom burguesa (Fevereiro de 1917) e, logo em seguida, a, revoluçom socialista (outubro de 1917), Em segundo lugar, essa frase é de um ilogismo surpreendente. Da transformaçom do parlamento em órgao e centro (diga-se, de passagem, que nunca foi nem pode ser realmente o "centro") da contra-revoluçom e da criaçom polos operários dos instrumentos de seu Poder sob a forma de Soviets conclui-se que os trabalhadores devem preparar-se ideológica, política e tecnicamente para a luita dos Soviets contra o parlamento, para a dissoluçom do parlamento polos Soviets. Daí, porém, nom se deduz de modo algum que essa dissoluçom seja dificultada, ou nom seja facilitada, pola presença de umha oposiçom soviética dentro de um parlamento contra-revolucionário. Nunca dissemos, durante a nossa luita vitoriosa contra Denikin e Kolchak, que a existência de umha oposiçom proletária, soviética, na zona ocupada por eles tenha sido indiferente para nossos triunfos. Sabemos muito bem que a dissoluçom da Constituinte, por nós efetuada a 5 de Janeiro de 1918, longe de ser dificultada, foi facilitada pola presença: na Constituinte contra-revolucionária que dissolvíamos tanto de umha oposiçom soviética conseqüente, a bolchevique, como de umha oposiçom soviética inconseqüente, a dos social-revolucionários de esquerda. Os autores da tese confundiram-se totalmente e esquecêrom a experiência de umha série de revoluçons, talvez até de todas, experiência que confirma a singular utilidade que representa, por ocasiom das revoluçons, combinar a acçom de massas fora do parlamento reaccionário com umha oposiçom simpatizante da revoluçom (ou, melhor ainda, que a apoia, abertamente) dentro desse parlamento. Os holandeses e os "esquerdistas" em geral raciocinam, nesse problema, como doutrinadores da revoluçom que nunca participárom  de umha revoluçom verdadeira, ou que nunca meditárom  sobre a história das revoluçons, ou que ingenuamente tomam a negaçom subjetiva de umha determinada instituiçom reaccionária por sua efetiva destruiçom mediante o conjunto de forças de umha série de fatores objetivos. O meio mais seguro de desacreditar umha nova ideia política (e nom somente umha ideia política) e prejudicá-la consiste em levá-la ao absurdo, a pretexto de defendê-la, umha vez que toda verdade, se a tornamos "exorbitante" (como dizia Dietzgen, pai), se a exageramos e a estendemos além dos limites em que ela é realmente aplicável, pode ser levada ao absurdo e, nessas condiçons, ela própria se transforma num absurdo. Eis o desserviço que os esquerdistas da Holanda e da Alemanha prestam à nova verdade da superioridade do Poder Soviético sobre os parlamentos democrático-burgueses. Naturalmente, estaria errado quem continuasse sustentando, de modo geral, a velha afirmaçom de que abster-se de participar dos parlamentos burgueses é inadmissível em todas as circunstáncias. Nom posso tentar formular aqui as condiçons em que é útil o boicote, já que a finalidade desse folheto é bem mais modesta: analisar a experiência russa em relaçom a algumhas questons atuais da táctica comunista internacional. A experiência russa nos apresenta umha aplicaçom feliz e acertada (1905) e outra equivocada (1906) do boicote por parte dos bolcheviques. Analisando o primeiro caso, concluímos: os bolcheviques conseguírom impedir a convocaçom do parlamento reaccionário polo Poder reaccionário, num- momento em que a acçom revolucionária extraparlamentar das massas (particularmente as greves) crescia com rapidez excepcional, em que nom havia nengumha sector do proletariado e do campesinato que pudesse apoiar de modo algum o Poder reaccionário, em que a influência do proletariado revolucionário sobre as grandes massas atrasadas estava assegurada pola luita grevista e polo movimento camponês. É totalmente evidente que esta experiência é inaplicável às atuais condiçons. europeias. Também salta aos olhos - em virtude dos argumentos acima expostos - que a defesa, mesmo condicional, da renúncia à participaçom nos parlamentos, feita polos holandeses e polos "esquerdistas" é radicalmente falsa e nociva à causa do proletariado revolucionário.

Na Europa Ocidental e nos Estados Unidos o parlamento tornou-se extremamente odioso para a vanguarda revolucionária da classe operária Isso é indiscutível. E é facilmente compreensível, pois é difícil imaginar maior vilania, abjeçom e felonia que a conduta da imensa maioria dos deputados socialistas e social-democratas no parlamento, durante e depois da guerra. Contudo, deixar-se levar por esses sentimentos ao resolver a questom de conto se deve luitar contra o mal universalmente reconhecido. Pode-se dizer que, em muitos países da Europa Ocidental, o estado de espírito revolucionário ainda é umha "novidade", umha "raridade" aguardada durante muito tempo, em vam e impacientemente, razom por que, provavelmente, predomina com tanta facilidade. É claro que sem um estado de espírito revolucionário das massas e sem condiçons que favoreçam o desenvolvimento desse sentimento, a táctica revolucionária nom se transformará em acçom; na Rússia, porém, umha experiência bastante longa, dura e sangrenta convenceu-nos de que é impossível levar em conta apenas o estado de espírito revolucionário para criar umha táctica revolucionária. A táctica deva ser elaborada levando-se em consideraçom serenamente, com estrita objetividade, todas as forças de classe do Estado em questom (e dos Estados que o rodeiam, assim como de todos os Estados em escala mundial) e também a experiência dos movimentos revolucionários. Manifestar o revolucionarismo somente através de invectivas contra o oportunismo parlamentar, apenas condenando a participaçom nos parlamentos, é facílimo; mas, exactamente por ser muito fácil, nom representa a soluçom para um problema difícil, dificílimo. Nos parlamentos europeus é muito mais difícil que na Rússia criar umha fraçom parlamentar realmente revolucionária. Sem dúvida. Isso, porém, nom é senom umha expressom parcial da verdade geral de que - na situaçom concreta de 1917, extraordinariamente original do ponto dê vista histórico - foi fácil à Rússia começar a revoluçom socialista; todavia, ser-lhe-á mais difícil que aos países europeus continuá-la e concluí-la. Já no começo de 1918 tive de assinalar essa circunstáncia, e a experiência dos dous anos decorridos desde entom veio confirmar inteiramente a justeza dessa consideraçom. Condiçons específicas como: 1) a possibilidade de conjugar a revoluçom soviética com a cessaçom, graças a ela, da guerra imperialista, que tinha esgotado indescritivelmente os operários e. camponeses; 2) a possibilidade de tirar proveito, durante certo tempo, da luita mortal em que estavam empenhados os dous grupos mais poderosos de tubarons imperialistas do mundo, grupos que nom podiam unir-se contra o inimigo soviético; 3) a possibilidade de suportar umha guerra civil relativamente longa, em parte pola gigantesca extensom do país o pola deficiência de suas comunicaçons; 4) a existência entre os camponeses de um movimento revolucionário democrático-burguês tam profundo que o partido do proletariado pudo tornar suas as reivindicaçons do partido dos camponeses (do partido social-revoluc4onário, profundamente hostil, em sua maioria, ao bolchevismo) e realizá-las imediatamente graças à conquista do Poder político polo proletariado - nom existem hoje na Europa Ocidental. E a repetiçom dessas condiçons ou de outras semelhantes nom é nada fácil. Por isso, entre outras razons, é mais difícil para a Europa Ocidental que para nós começar a Revoluçom socialista. Tratar de "furtar-se" a essa dificuldade "saltando" por cima do árduo problema de utilizar os parlamentos reaccionários para fins revolucionários é pura infantilidade. Quereis criar umha sociedade nova e temeis a dificuldade de criar umha boa fraçom parlamentar de comunistas convictos, abnegados e heróicos num parlamento revolucionário! Isso nom é, por acaso, umha infantilidade? Se Karl Liebknecht na Alemanha e Z. Höglund na Suécia soubérom, mesmo sem o apoio, vindo da base das massas, dar um exemplo de utilizaçom realmente revolucionária dos parlamentos revolucionários, como é possível que um partido revolucionário de massas que cresce rapidamente nom possa, em meio às desilusons o à ira do após-guerra das massas, forjar umha fraçom comunista nos piores parlamentos? Exactamente porque as massas atrasadas de operários e mais ainda - de pequenos camponeses estám muito mais imbuídas de preconceitos democrático-burgueses e parlamentaristas na Europa Ocidental que na Rússia, exactamente por isso, somente no seio de instituiçons como os parlamentos burgueses os comunistas podem (e devem) travar umha luita prolongada e tenaz, sem retroceder diante de nengumha dificuldade, para denunciar, desvanecer e superar tais preconceitos.

Os "esquerdistas" alemáns queixam-se dos. maus "chefes" de seu partido e caem no desespero, chegando ao ridículo de "negar" os "chefes". Porém, em circunstáncias que obrigam freqüentemente a mantê-los na clandestinidade, a formaçom de "chefes" bons, seguros, provados é prestigiosos torna-se particularmente difícil e é impossível vencer semelhantes dificuldades sem a combinaçom do trabalho legal com o ilegal, sem fazer os "chefes" passarem, entre outras provas, também pola do parlamento. A crítica - a mais implacável, violenta e intransigente - deve dirigir-se nom contra o parlamentarismo ou a acçom parlamentar, mas sim contra os chefes que nom sabem - o mais ainda contra os que nom querem - utilizar as eleiçons e a tribuna parlamentares de modo revolucionário, comunista. Somente essa crítica - ligada, naturalmente, à expulsom dos chefes incapazes e sua substituiçom por outros mais capazes - constituirá um trabalho revolucionário proveitoso e fecundo, que educará simultaneamente os "chefes", para que sejam dignos da classe operária e das massas trabalhadoras, e as massas, para que aprendam a orientar-se como é necessário na situaçom política e a compreender as tarefas, amiúde bastante complexas e confusas, que dessa situaçom decorrem.*1

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* Fôrom muito poucas as possibilidades que tive para conhecer o comunismo "de esquerda" da Itália. Sem dúvida, o camarada Bordiga e sua fraçom de "comunistas boicotadores" (comunistas abstencionistas) estám errados ao defender a nom participaçom no parlamento. Mas há um ponto em que, a meu ver, tenhem razom, polo que posso julgar atendo-me a dous números de seu jornal Il Soviet (números 3 e 4 de 18-1 e 1-2 de 1920), a quatro números (1, 2, 3 e 4, de 1-10 a 30-11 de 1919) da excelente revista do camarada Serrati Comunismo e a números avulsos de jornais burgueses italianos que pude ler. O camarada Bordiga e sua fraçom tem razom precisamente quando atacam Turati e seus partidários. que estám num partido que reconhece o Poder dos Soviets e a ditadura do proletariado, continuam' sendo membros do parlamento e prosseguem em sua antiga e perniciosa política oportunista. É natural que, ao tolerar isso, o camarada Serrati e todo o Partido Socialista Italiano[1] incorrem num erro tam cheio de prejuízos e perigos como o havido na Hungria, onde os senhores Turati locais sabotárom  internamente o Partido e o Poder dos Soviets. Essa atitude errada, inconseqüente ou sem caráter em relaçom aos parlamentares oportunistas, gera, por um lado, o comunismo "de esquerda" e, por outro, justifica até certo ponto a sua existência. É claro que o camarada Serrati nom tem razom ao acusar de inconseqüência o deputado Turati (Comunismo, n.3) pois inconseqüente é, exactamente, o Partido Socialista Italiano, que tolera em seu seio oportunistas parlamentares como Turati e Cia. (Nota do autor)

 

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VIII - NENGUM COMPROMISSO ?

 

Na citaçom do folheto de Francfort já vimos o tom decidido com que os "esquerdistas" lançam essa palavra de ordem. É triste ver como pessoas que, sem dúvida, se considêrom marxistas e querem sê-lo esquecêrom as verdades fundamentais do marxismo. Engels - que, como Marx, pertence a essa raríssima categoria de escritores, em cujos grandes trabalhos, - as frases tenhem todas, sem exceçom, umha assombrosa profundidade de conteúdo - escrevia contra o Manifesto dos 33 comunardos-blanquistas*1, em 1874, o seguinte:

" ... Somos comunistas", diziam em seu manifesto os comunardos-blanquistas, "porque queremos atingir nosso objetivo sem nos deter-mos em etapas intermediárias e sem compromissos, que nada mais fazem que tornar distante o dia da vitória e prolongar o período de escravidom".

"Os comunistas alemáns som comunistas porque, através de todas as etapas intermediárias e de todos os compromissos criados nom por eles, mas pola marcha da evoluçom histórica, vêem com clareza e perseguem constantemente seu objetivo final: a supressom das classes e a criaçom de um regime social onde nom haverá lugar para a propriedade privada da terra e de todos os meios de produçom. Os 33 blanquistas som comunistas por imaginarem que basta seu desejo de saltar as etapas intermediárias e os compromissos para que a cousa esteja feita, e porque acreditam firmemente que "a cousa arrebenta" num dia desses e o Poder cai em suas maos o "comunismo será implantado" no dia seguinte. Portanto, se nom podem fazer isto imediatamente, nom som comunistas.

"Que pueril ingenuidade a de apresentar a própria impaciência como argumento teórico!" (F. Engels; Programa dos Comunardos-bIanquistas, no jornal social-democrata alemám Volksstaat*2 ,1874, pg 73, incluído na recompilaçom Artigos de 1817/1875, traduçom russa, Petrogrado, 1919, páginas 52/53).

Engels expressa nesse mesmo artigo seu profundo respeito por Vaillant e fala dos "méritos indiscutíveis" deste (que foi, como Guesde, um dos chefes mais destacados do socialismo internacional antes de sua traiçom ao socialismo em agosto de 1914). Mas Engels nom deixa de analisar em todos os detalhes seu erro evidente. É claro que os revolucionários muito jovens e inexperientes, assim como os revolucionários pequeno-burgueses mesmo de idade respeitável e grande experiência, considêrom extremamente perigoso, incompreensível e erróneo "autorizar que se firmem compromisso". E muitos sofistas (como politiqueiros ultra ou excessivamente "experimentados") raciocinam do mesmo modo que os chefes do oportunismo inglês citados polo camarada Lansbury: "Se os Bolcheviques se permitem tal ou qual compromisso, por que nós nom nos permitimos qualquer compromisso?". Mas os proletários, educados por repetidas greves, (para só falar dessa manifestaçom da luita de classes) assimilam habitualmente de modo admirável a profundíssima verdade (filosófica, histórica, política e psicológica), enunciada por Engels. Todo proletário conhece greves, conhece "compromissos" com os odiados opressores e exploradores, depois dos quais os operários tivérom de voltar ao trabalho sem haver conseguido nada ou contentando-se com a satisfaçom parcial de suas reivindicaçons. Todo proletário, graças ao ambiente de luita de massas e do acentuado agravamento dos antagonismos de classe em que vive, percebe a diferença existente entre um compromisso imposto por condiçons objetivas (pobreza de fundos financeiros dos grevistas, que nom contam com apoio algum, passam fome e estám extenuados ao máximo) - compromisso que em nada diminui a abnegaçom revolucionária nem a disposiçom de continuar. A luita dos operários que o assumírom - e um compromisso de traidores que atribuem a causas objetivas seu vil egoísmo (os fura-greves também assumem "compromissos"!), sua covardia, seu desejo de atrair a simpatia dos capitalistas, sua falta de firmeza ante as ameaças e, às vezes, ante as exortaçons, as esmolas ou as adulados capitalistas (esses compromissos de traidores som particularmente numerosos na história do movimento operário inglês por parte dos chefes da trade-unions, se bem que, sob umha ou outra forma, quase todos os operários de todos os países tenham podido observar fenómenos semelhantes).

É claro que acontecem casos isolados extraordinariamente difíceis e complexos, em que só através dos maiores esforços se pode determinar com exactidom o verdadeiro caráter desse ou daquele "compromisso", do mesmo modo que há a casos de homicídio em que nom é nada fácil julgar se este era absolutamente justo e até obrigatório (como, por exemplo, em caso de legítima defesa) ou se era efeito de um descuido imperdoável, ou mesmo conseqüência de um plano perverso executado com habilidade. Nom há dúvida de que em política, onde às vezes se trata de relaçons nacionais o internacionais muito complexas entre as classes e os partidos, se registrarám inúmeros casos muito mais difíceis que a questom de saber se um compromisso assumido por ocasiom de umha greve é legítimo ou se se trata de umha perfídia de um fura-greve, de um chefe traidor, etc. Preparar umha receita ou umha regra geral ("nengum compromisso"!) para todos os casos é um absurdo. É preciso ter a cabeça no lugar para saber orientar-se em cada caso particular. A importáncia de possuir umha organizaçom de partido com chefes dignos desse nome consiste precisamente, entre outras cousas, em chegar - mediante um trabalho prolongado, tenaz, múltiplo e variado de todos os representantes de umha determinada classe capazes de pensar*3 - a elaborar os conhecimentos e a experiência necessários e, além dos conhecimentos e experiência, a sagacidade política exacta para resolver bem e rapidamente as questons políticas complexas.

As pessoas ingênuas e totalmente inexperientes pensam que basta admitir os compromissos em geral para que desapareça completamente a linha divisória entre o oportunismo, contra o qual sustentamos e devemos sustentar umha luita intransigente, e o marxismo revolucionário ou comunismo. Mas essas pessoas, se ainda nom sabem que todas as linhas divisórias na natureza o na sociedade som variáveis e até certo ponto convencionais, só podem ser ajudadas mediante o estudo prolongado, a educaçom, a ilustraçom e a experiência política e prática. Nas questons práticas da política de cada momento particular ou específico da história é importante saber distinguir aquelas em que se manifestam os compromissos da espécie mais inadmissível, os compromissos de traiçom, que representam um oportunismo funesto para a classe revolucionária, e dedicar todos os esforços para explicar seu sentido e luitar contra elas. Durante a guerra imperialista de 1914/1918 entre dous grupos de países igualmente criminosos e vorazes, o principal e fundamental dos oportunismos foi o que adotou a forma de social-chovinismo, isto é, o apoio da "defesa da pátria", o que eqüivalia de fato, naquela guerra, à defesa dos interesses de rapina da "própria" burguesia. Depois da guerra foi a defesa da espoliadora "Sociedade das Naçons", a defesa das alianças directas ou indirectas com a burguesia do próprio país contra o proletariado revolucionário e, o movimento "soviético" e a defesa da democracia o do parlamentarismo burgueses contra o "Poder dos Soviets". Fôrom essas as principais manifestaçons desses compromissos inadmissíveis e traidores que, em seu conjunto, culminárom  num oportunismo funesto para o proletariado revolucionário e sua causa.

" ... Repelir do modo mais categórico todo compromisso com os demais partidos... toda política de manobra e conciliaçom", dizem os esquerdistas da Alemanha no folheto de Francfort.

É surpreendente que, com semelhantes ideias, esses esquerdistas nom condenem categoricamente o Bolchevismo! Nom é possível que os esquerdistas alemáns ignorem que toda a história do bolchevismo, antes e depois da Revoluçom de Outubro, está cheia de casos de manobra, de acordos e compromissos com outros partidos, inclusive os partidos burgueses!

Fazer a guerra para derrotar a burguesia internacional, umha guerra cem vezes mais difícil, prolongada e complexa que a mais encarniçada das guerras comuns entre Estados, e renunciar de antemao a qualquer manobra, a explorar os antagonismos de interesses (mesmo que sejam apenas temporários) que dividem nossos inimigos, renunciar a acordos e compromissos com possíveis aliados (ainda que provisórios, inconsistentes, vacilantes, condicionais), nom é, por acaso, qualquer cousa de extremamente ridículo? Isso nom será parecido com o caso de um homem que na difícil subida de umha montanha, onde ninguém jamais tivesse posto os pés, renunciasse de antemao a fazer zigue-zagues, retroceder algumhas vezes no caminho já percorrido, abandonar a direçom escolhida no início para experimentar outras direçons? E pensar que pessoas tam pouco conscientes, tam inexperientes (menos mal se a causa disso é a juventude de tais pessoas, juventude cujas características autorizam que se digam semelhantes tolices durante certo tempo) pudêrom ser apoiadas directa ou indirectamente, franca ou veladamente, total ou parcialmente, pouco importa, por alguns membros do Partido Comunista Holandês!!

Depois da primeira revoluçom socialista do proletariado, depois da derrubada da burguesia num pais, o proletariado desse país continua sendo durante muito tempo mais débil que a burguesia, em virtude, simplesmente,, das imensas relaçons internacionais que ela tem e graças à restauraçom, ao renascimento espontáneo e contínuo do capitalismo e da burguesia através dos pequenos produtores de mercadorias do país em que ela foi derrubada. Só se pode vencer um inimigo mais forte retesando e utilizando todas as forças e aproveitando obrigatoriamente com o maior cuidado, minúcia, prudência e habilidade a menor "brecha" entre os inimigos, toda contradiçom de interesses entre a burguesia dos diferentes países, entre os diferentes grupos ou categorias da burguesia dentro de cada país; também é necessário aproveitar as menores possibilidades de conseguir um aliado de massas, mesmo que temporário, vacilante, instável, pouco seguro, condicional. Quem nom compreende isto, nom compreende nengumha palavra de marxismo nem de socialismo científico, contemporáneo, em geral. Quem nom demonstrou na prática, durante um período bem considerável e em situaçons políticas bastante variadas, sua habilidade em aplicar esta verdade à vida, ainda nom aprendeu a ajudar a classe revolucionária em sua luita para libertar toda a humanidade trabalhadora dos exploradores. E isso aplica-se tanto ao período anterior à conquista do Poder político polo proletariado como ao posterior.

Nossa teoria, diziam Marx e Engels[2], nom é um dogma, mas sim um guia para a acçom, e o grande erro, o imenso crime de marxista; "registrados", como Karl Kautski, Otto Bauer e outros consiste em nom haver compreendido essa afirmaçom, em nom haver sabido aplicá-la nos momentos mais importantes da revoluçom proletária. "A acçom política nom se parece em nada com a calçada da avenida Nevsk! (a calçada larga, limpa e lisa da rua principal de Petersburgo, rua absolutamente reta), já dizia N.G. Chernishevski, o grande socialista russo do período pré-marxista. Desde a época de Chernishevski, os revolucionários russos pagárom  com inúmeras vítimas a omissom ou esquecimento dessa verdade. É preciso conseguir a todo custo que os comunistas de esquerda e os revolucionários da Europa Ocidental e da América fiéis à classe operária paguem menos caro que os atrasados russos a assimilaçom dessa verdade.

Os social-democratas revolucionários da Rússia aproveitárom  repetidas vezes antes da queda do tzarismo os serviços dos liberais burgueses, isto é, concluíram com eles inúmeros compromissos práticos, e em 1901/1902, mesmo antes do nascimento do bolchevismo, a antiga redaçom da Iskra (na qual participávamos Plekhanov, Axelrod, Zasúlich, Martov, Potresov e eu) concertou - (é verdade que por pouco tempo) umha aliança política formal com Struve, chefe político do liberalismo burguês, sem deixar de sustentar, simultaneamente, a luita ideológica e política mais implacável contra o liberalismo burguês e contra as menores manifestaçons de sua influência no seio do movimento operário. Os bolcheviques sempre praticárom  essa mesma política. Desde 1905 defendêrom sistematicamente a aliança da classe operária com os camponeses contra a burguesia liberal e o tzarismo sem negar-se nunca, ao mesmo tempo, a apoiar a burguesia contra o tzarismo (na segunda fase das eleiçons ou nos empates eleitorais, por exemplo) e sem interromper a luita ideológica e política mais intransigente contra o partido camponês revolucionário-burguês, os "social-revolucionários", que eram denunciados como democratas pequeno-burgueses que falsamente se apresentavam como socialistas.

Em 1917, os bolcheviques constituíram, por pouco tempo, um bloco político formal com os "social-revolucionários" para as eleiçons da Duma. Com os mencheviques, estivemos formalmente durante vários anos, de 1903 a 1912, num partido social-democrata único, sem interromper nunca a luita ideológica e política contra eles como portadores da influência burguesa no seio do proletariado e como oportunistas. Durante a guerra assumimos umha espécie de compromisso com os "kautskistas", os mencheviques de esquerda (Martov) e urna parte do "social-revolucionários" (Chernov, Natanson). Assistimos com eles às conferências de Zimmerwal,d e Kienthal e lançamos manifestos conjuntos, mas nunca interrompemos nem atenuamos a luita política e ideológica contra os "kautskistas", contra Martov e Chernov. (Natanson morreu em 1919 sendo já um "comunista revolucionário" -populista, muito chegado a nós e quase solidário conosco). No momento da Revoluçom de Outubro fizemos um bloco político, nom formal, mas muito importante (e muito eficaz) com o campesinato pequeno-burguês, aceitando na íntegra, sem a mais leve modificaçom, o programa agrário dos social-revolucionários, isto é, contraímos um compromisso indubitável para provar aos camponeses que nom nos queríamos impor e sim chegar a um acordo com eles. Ao mesmo tempo, propusemos aos "social-revolucionários de esquerda" (e depois o realizamos) um bloco político formal com participaçom no governo, bloco que eles rompêrom depois da paz de Brest, chegando, em julho de 1918, à insurreiçom armada e, mais tarde, à luita armada contra nós.

É fácil, por conseguinte, compreender que o ataque dos esquerdistas alemáns ao Comité Central do Partido Comunista da Alemanha, em virtude deste admitir a ideia de um bloco com os "independentes" ("Partido Social-democrata, Independente da Alemanha", os kautskistas) pareçam-nos carecer de seriedade e que vejamos neles umha demonstraçom evidente da posiçom errada dos "esquerdistas". Na Rússia também havia mencheviques de direita (que participárom  do governo de Kerenski), equivalentes aos Scheidemann da Alemanha, e mencheviques de esquerda (Martov), que se opunham aos mencheviques de direita e eqüivaliam aos kautskistas alemáns. Em 1917, assistimos plenamente à passagem gradual das massas operárias ,dos mencheviques; para os bolcheviques. No 1º Congresso dos Soviets de toda a Rússia, celebrado em junho desse ano, tínhamos uns 137o dos votos. A maioria pertencia aos social-revolucionários e aos mencheviques. No II Congresso dos Soviets (25 de outubro de 1917, segundo o antigo calendário) tínhamos 51% dos sufrágios. Por que será que na Alemanha umha tendência igual, absolutamente idêntica, dos operários passarem da direita para a esquerda nom levou ao fortalecimento imediato dos comunistas, mas sim, no inicio, ao do partido intermediário dos "independentes", embora esse partido nunca tenha tido nengumha ideia política independente e nengumha política independente, nem tenha feito outra cousa que vacilar entre Scheidemann e os comunistas ?

Nom há dúvida de que umha das causas foi a táctica errada dos comunistas alemáns, que devem reconhecer seu erro honradamente e , sem temor, e aprender a corrigi-lo. O erro consistiu em negar-se a participar no parlamento reaccionário, burguês, e nos sindicatos reaccionários; o erro consistiu em múltiplas manifestaçons dessa doença infantil do "esquerdismo", que agora se manifestou e que, graças a isso, será curada melhor, mais rapidamente e com maior proveito para o organismo.

O "Partido Social-democrata Independente" alemám. carece, visivelmente, de homogeneidade; ao lado dos antigos chefes oportunistas (Kautski, Hilferding e, polo que se vê, em grande parte Crispien, Ledebour e outros), que demonstrárom  sua incapacidade para compreender a significaçom do Poder Soviético e da ditadura do proletariado e para dirigir a luita revolucionária deste, formou--se e cresce com singular rapidez, nesse partido, umha ala esquerda, proletária. Centenas de milhares de membros do partido - que tem, ao que parece, uns 750 000 membros - som proletários que se afastam de Scheidemann e caminham a largas passadas em direçom ao comunismo. Esta ala proletária já no Congresso dos independentes, realizado em Leipzig em 1919, propujo a adesom imediata e incondicional à III Internacional. Temer um "compromisso" com essa ala do partido é simplesmente ridículo. polo contrário, para os comunistas é obrigatório procurar e encontrar umha forma adequada de compromisso com ela, que permita, de um lado, facilitar a apressar a fusom completa e necessária com ela e que, de outro, nom entrave de modo algum os comunistas em suar luita ideológica e política contra a ala direita, oportunista, dos "independentes". É provável que nom seja fácil elaborar umha forma adequada de compromisso, mas só um charlatám poderia prometer aos operários e aos comunistas alemáns um caminho "fácil" para alcançar a vitória.,

O capitalismo deixaria de ser capitalismo se o proletariado "puro" nom estivesse rodeado de umha massa de elementos de variadíssimas graduaçons, elementos que representam a transiçom do proletário ao semiproletário (o aue obtém grande parte de seus meios de existência vendendo sua força de trabalho), do semiproletário ao pequeno camponês (e ao pequeno artesom, ao biscateiro, ao pequeno patrom em geral) do pequeno camponês ao camponês médio, etc., e se no próprio seio do proletariado nom houvesse sectores com um maior ao menor desenvolvimento, divisons de caráter territorial, profissional, às vezes religioso, etc. De tudo isso se depreende imperiosamente a necessidade umha necessidade absoluta - que tem a vanguarda do proletariado, sua parte consciente, o Partido Comunista, de recorrer à manobra aos acordos, aos compromissos com os diversos grupos proletários, com os diversos partidos dos operários e dos pequenos patrons. Toda a questom consiste em saber aplicar essa táctica para elevar, e nom para rebaixar, o nível geral de consciência, de espírito revolucionário e de capacidade de luita e de vitória do proletariado. É preciso assinalar, entre outras cousas, que a vitória dos bolcheviques sobre os mencheviques exigiu da Revoluçom de Outubro de 1917, nom só antes como também depois dela, a aplicaçom de umha táctica de manobras, acordos, compromissos, ainda que de tal natureza, é claro, que facilitavam e apressavam a vitória dos bolcheviques, além de consolidar e fortalecê-los às custas dos mencheviques. Os democratas pequeno-burgueses (inclusive os mencheviques) vacilavam inevitavelmente entre a burguesia e o proletariado, entre a democracia burguesa e o regime soviético, entre o reformismo e o revolucionarismo, entre o amor aos operários e o medo da ditadura do proletariado, etc. A táctica acertada dos comunistas deve consistir em utilizar essas vacilaçons e nom, de modo algum, em desprezá-las; para utilizá-las é necessário fazer concessons aos elementos que se inclinam para o proletariado - no caso e na medida exactos em que o fazem - e, ao mesmo tempo, luitar contra os elementos que se inclinam para a burguesia. Em virtude de seguirmos umha táctica acertada, o menchevismo se foi decompondo e se decompom cada vez mais em nosso país; essa táctica foi isolando os chefes obstinados no oportunismo e trazendo para o nosso campo os melhores operários, os melhores elementos da democracia pequeno-burguesa. Trata-se de um processo longo, e as "soluçons" fulminantes, tais como "nengum compromisso", nengumha manobra, só podem dificultar o crescimento da influência do proletariado revolucionário e o aumento de suas forças.

Finalmente, um dos erros incontestes dos "esquerdistas" da Alemanha consiste em sua insistência inflexível em nom reconhecer o Tratado de Versailles. Quanto maiores som a "firmeza" e a "importáncia" e o tom "categórico" e sem apelaçom com que formula esse ponto de vista K. Horner, por exemplo, menos inteligente resulta. Nom basta renegar as indignantes tolices do bolchevismo nacional (Lauffenberg e outros), que, nas atuais condiçons da revoluçom proletária internacional, chegou até a falar na formaçom de umha aliança com a burguesia alemá para a guerra contra a Entente. É preciso compreender que é absolutamente errónea a táctica que nega a. obrigaçom da Alemanha Soviética (se surgisse rapidamente umha república soviética alemá) de reconhecer durante certo tempo o Tratado de Versailles e submeter-se a ele. Daí nom se deduz que os "independentes" tiveram, razom ao reclamar a assinatura do Tratado de Versailles nas condiçons entom existentes, quando os Scheidemann estavam no governo, ainda nom tinha sido derrubado o Poder Soviético na Hungria e ainda nom estava excluída a possibilidade de umha ajuda da revoluçom soviética em Viena para apoiar a Hungria Soviética. Naquele momento, os "independentes" manobrárom  muito mal, pois tomárom  para si a responsabilidade, maior ou menor, por traidores tipo Scheidemann e se desviárom  em maior ou menor escala da luita de classes implacável (e friamente arquitetada) contra os Scheidemann para colocar-se "fora" ou "acima" das classes.

Mas a situaçom actual é de tal natureza, que os comunistas alemáns nom devem amarrar-se as maos e prometer a renúncia obrigatória e indispensável ao Tratado de Versailles em caso de triunfar o comunismo. Isso seria umha tolice. É preciso que se diga: os Scheidemann e os kautskistas cometêrom .uma série de traiçons que dificultárom  (e em parte fizêrom fracassar) a aliança com a Rússia Soviética e com a Hungria Soviética. Nós, comunistas, procuraremos por todos os meios facilitar e preparar essa aliança; quanto à paz de Versailles, nom estamos de modo algum obrigados a rechaçá-la a todo custo e, além disso, imediatamente. A possibilidade de rechaçá-la eficazmente depende dos êxitos do movimento soviético nom só na Alemanha, como também no terreno internacional. Este movimento foi dificultado polos Scheidemann e os kautskistas; nós o favorecemos. Nisso reside a essência da questom, a diferença radical. E se nossos inimigos de classe, os exploradores e seus lacaios, os Scheidemann e os kautskistas, deixárom  escapar umha série de possibilidades de fortalecer o movimento soviético alemám e internacional e a revoluçom soviética alemá e internacional, a culpa é deles. A revoluçom soviética na Alemanha robustecerá o movimento soviético internacional, que é o reduto mais forte (e o único seguro invencível e de potência universal) contra o Tratado de Versailles e contra o imperialismo mundial em geral. Colocar obrigatoriamente, a todo preço e imediatamente em primeiro plano a denúncia do Tratado de Versailles, antes da questom de libertar do jugo imperialista os demais países oprimidos polo imperialismo, é umha manifestaçom de nacionalismo pequeno-burguês (digno dos Kautsky, Hilferding, Otto Bauer & Cia.) mas nom de internacionalismo revolucionário. A derrubada da burguesia em qualquer dos grandes países europeus, inclusive Alemanha, é um acontecimento tam favorável para a revoluçom internacional que, em proveito dessa derrubada, podemos e devemos aceitar, se for necessário, umha existência mais prolongada do. Tratado de Versailles. Se a Rússia pudo resistir sozinha durante vários meses ao Tratado de Brest, com proveito para a revoluçom, nom é nada impossível que a Alemanha Soviética, aliada à Rússia Soviética, possa suportar mais tempo com proveito para a revoluçom o Tratado de Versailles.

Os imperialistas da França, Inglaterra, etc., provocam os comunistas alemáns, preparando-lhes essa armadilha: "Digam que nom assinarám o Tratado de Versailles". E os comunistas "de esquerda" caem como patinhos na armadilha, em vez de manobrar com destreza contra um inimigo traiçoeiro e, no momento actual, mais forte, em vez de dizer-lhe: "Agora assinaremos o Tratado de Versailles". Amarrarmos as maos antecipadamente, declarar abertamente ao inimigo, hoje melhor armado que nós, que vamos luitar contra ele e em que momento, é umha tolice e nada tem de revolucionário. Aceitar o combate quando é claramente vantajoso para o inimigo e nom para nós constitui um crime, e nom servem para nada os políticos da classe revolucionária que nom sabem "manobrar", que nom sabem concertar "acordos e compromissos" a fim de evitar um combate que todos sabem ser desfavorável.

_______________

* Partidários de Louis Auguste Blanqui, participantes da Comuna de Paris. (Nota do tradutor)

*2 O Estado Popular. (Nota da Redaçom)

*3 Mesmo no país mais culto, toda classe, inclusive a mais avançada e com o mais excepcional florescimento, de todas as suas forças espirituais gerado polas circunstáncias do momento, conta - e contará inevitavelmente enquanto subsistirem as classes e a sociedade sem classes nom estiver assentada, consolidada e desenvolvida por completo sobre seus próprios fundamentos ~ Com representantes que nom pensam e que som incapazes de pensar. 0 capitalismo nom seria o capitalismo opressor das massas se isso nom acontecesse. (Nota do autor)

 

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IX - O COMUNISMO "DE ESQUERDA", NA INGLATERRA

 

Na Inglaterra ainda nom existe o Partido Comunista, mas entre os operários observa-se um movimento comunista jovem, amplo, poderoso, que cresce com rapidez e permite que se alimentem as mais radiosas esperanças. Há alguns partidos e organizaçons políticas, ("Partido Socialista Británico"[3] , "Partido Socialista Operário", "Sociedade Socialista do Sul de Gales", "Federaçom Socialista Operaría"[4] que desejam fundar o Partido Comunista e que, para isso, já fazem negociaçons entre si. O Workers Dreadnought (t. VI, n.º. 48, de 21/11/1920), semanário da última das organizaçons citadas, dirigido pola camarada Sylvia Pankhurst, publicou um artigo escrito por ela, intitulado, Rumo ao Partido Comunista. Nele está exposta a marcha das negociaçons entre as quatro organizaçons citadas para constituir um Partido Comunista único, baseado na adesom à II Internacional o no reconhecimento, em vez do parlamentarismo, do sistema soviético e da ditadura do proletariado. Acontece que um dos principais obstáculos para a criaçom imediata de um Partido Comunista único é a falta de unanimidade no que concerne à participaçom no parlamento e à adesom do novo Partido Comunista ao velho "Partido Trabalhista" oportunista, social-chovinista e profissionalista, integrado predominantemente por trade-unions. A "Federaçom Socialista Operária" e o "Partido Socialista Operário"*1 pronunciam-se contra a participaçom nas eleiçons parlamentares e no parlamento, e contra a adesom ao "Partido Trabalhista", discordando quanto a isso de todos ou da maioria dos membros do Partido Socialista Británico, que, é, na sua opiniom, "a ala direita dos Partidos Comunistas" na Inglaterra (pág. 5, artigo citado de Sylvia Pankhurst).

A divisom fundamental é, portanto, a mesma que na Alemanha, malgrado as enormes diferenças de forma em que se manifestam as divergências (na Alemanha essa forma é muito mais parecida "com a russa" que na Inglaterra), além de muitas outras circunstáncias. Examinemos os argumentos dos "esquerdistas".

Ao falar da participaçom no parlamento, a camarada Sylvia Pankhurst alude a umha carta à Redaçom do camarada W. Gallacher, publicada no mesmo número, o qual, em nome do "Conselho Operário da Escócia", de Glasgow, escreve:

"Este Conselho é definidamente antiparlamentarista e está apoiado pola ala esquerda de várias organizaçons políticas. Representamos o movimento revolucionário na Escócia, que pretende criar umha organizaçom revolucionária nas indústrias (nos diversos sectores da produçom) e um Partido Comunista, baseado em Comités sociais, no país inteiro. Durante muito tempo altercamos com os parlamentares oficiais. Nom achamos necessário declarar-lhes guerra abertamente e eles temem iniciar o ataque contra nós.

Semelhante estado de cousas, porém, nom pode prolongar-se muito. Nós triunfamos em toda a linha.

Os membros de base do Partido Trabalhista Independente da Escócia tem umha repugnáncia cada vez maior pola ideia do parlamento, e quase todos os grupos locais som partidários dos Soviets (no texto inglês emprega-se o termo russo) ou Conselhos Operários. Sem dúvida, isso tem considerável importáncia para os senhores que considêrom a política um meio de vida (como se fosse umha profissom) e ponhem em jogo todos os métodos para persuadir seus membros a voltarem para o parlamentarismo. Os camaradas revolucionários nom devem (todos os grifos som do autor) apoiar esse bando. Nesse terreno, nossa luita será muito difícil. Um dos seus piores aspectos consistirá na traiçom daqueles cuja ambiçom pessoal é um motivo mais forte que seu interesse pola revoluçom. Qualquer apoio ao parlamentarismo eqüivale a contribuir para que o Poder caia nas maos dos Scheidemann e Noske británicos. Henderson. Clynes, & Cia som reaccionários irrecuperáveis. O Partido Trabalhista Independente oficial cai, cada vez mais sob o controle dos liberais burgueses, que encontrárom  um refúgio espiritual no campo dos senhores MacDonald, Snowden e companhia. O Partido Trabalhista Independente oficial é violentamente hostil à III Internacional, mas a massa é partidária dela. Apoiar, seja como for, os parlamentaristas oportunistas significa simplesmente fazer o jogo desses senhores. O Partido Socialista Británico nada significa... Precisa-se é de umha boa organizaçom revolucionária industrial e de um Partido Comunista que atue em bases claras, bem definidas, científicas. Se nossos camaradas podem ajudar-nos a criar ambas as cousas, aceitaremos de bom gosto sua ajuda; se nom podem, por Deus, nom se metam nisso, se nom querem trair a Revoluçom apoiando os reaccionários, que tam cuidadosamente tratam de adquirir o "honroso" (?) (a interrogaçom é do autor) titulo de parlamentar e que ardem de desejos de demonstrar que som capazes de governar tam bem quanto os próprios "amos", os políticos de classe".

Esta carta à Redaçom exprime admiravelmente, na minha opiniom, o estado de espirito e o ponto de vista dos comunistas jovens e dos operários comuns que apenas começam a chegar ao comunismo. Esse estado de espírito é altamente consolador e valioso: é preciso saber apreciá-lo e apoiá-lo, porque sem ele seria para desanimar da vitória da revoluçom proletária na Inglaterra (e em qualquer outro país). É preciso conservar cuidadosamente e ajudar com toda a solicitude os homens que sabem expressar esse estado de ánimo das massas e suscitá-lo (pois muito amiúde ele permanece oculto, inconsciente, adormecido). Mas, ao mesmo tempo, é mister dizer-lhes, clara e sinceramente que, por si só, esse espírito é insuficiente para dirigir as massas na grande luita revolucionária, e que esses ou outros erros em que podem incorrer ou incorrem os homens mais fiéis à causa revolucionária som capazes de prejudicá-la. A carta dirigida à Redaçom polo camarada Gallacher mostra de modo inconteste, o germe de todos os erros que cometem os comunistas "de esquerda" alemáns e em que incorrêrom os bolcheviques "de esquerda" russos em 1908 e 1918.

O autor da carta está imbuído do mais nobre ódio proletário aos "políticos de classe " da burguesia (ódio compreensível e suscetível de penetrar, por outro lado, nom só nos proletários, como em todos os. trabalhadores, todos os "pequenos", para empregar a expressom alemá). Esse ódio de um representante das massas oprimidas e exploradas é, na verdade, o "princípio de toda a sabedoria", a base de todo movimento socialista e comunista e de seus êxitos. Mas o autor nom leva em conta, polo visto, que a política é umha ciência e umha arte que nom caem do céu, que nom se obtêm gratuitamente, e que se o proletariado quiger vencer a burguesia deve formar seus "políticos de classe", proletários, e de tal envergadura que nom sejam inferiores aos políticos burgueses.

O autor compreendeu de modo admirável que nom é o parlamento, e sim apenas os Soviets operários que podem constituir o instrumento necessário do proletariado para atingir seus objetivos. E, naturalmente, quem até agora nom compreendeu isso, é o pior dos reaccionários, mesmo que seja o homem mais culto, o político mais experiente, o socialista mais sincero, o marxista mais erudito, o mais honrado cidadao e chefe de família. Há, porém, umha questom que o autor nom apresenta e nem sequer pensa que seja necessário apresentar; se se pode levar os Soviets à vitória sobre o parlamento sem fazer com que os políticos "soviéticos" entrem no parlamento, sem decompor o parlamentarismo estando dentro dele, sem preparar no interior do parlamento o êxito dos Soviets no cumprimento de sua tarefa de acabar com o parlamento. Contudo, o autor exprime umha ideia absolutamente justa ao dizer que o Partido Comunista Inglês deve actuar em bases científicas. A ciência exige, em primeiro lugar, que se leve em conta a experiência dos demais países, sobretudo se esses países, também capitalistas, passam ou passárom  há pouco por umha experiência bastante parecida ; em segundo lugar, exige que se levem em conta todas as forças, todos os grupos, partidos, classes e massas que atuam dentro do pais considerado, em vez de determinar a política baseando-se exclusivamente nos desejos e opinions, no grau de consciência e de preparaçom para a luita de um só grupo ou partido.

É certo que os Henderson, Clynes, MacDonald e Snowden som reaccionários irrecuperáveis. E também é certo que querem tomar o Poder (ainda que prefírom a coligaçom com a burguesia), que querem "governar", de acordo com as rançosas normas burguesas e que, umha vez de posse do Poder, procederám inevitavelmente como os Scheidemann e os Noske. Tudo isso é verdade; mas dai nom se deduz, absolutamente, que apoiá-los eqüivale a trair a revoluçom, mas sim que, no interesse dela, os revolucionários da classe operária devem conceder a esses senhores certo apoio parlamentar. Para tornar clara essa ideia usarei dous documentos políticos ingleses atuais : 1) o discurso pronunciado polo Primeiro Ministro Lloyd George a 18 de Março de 1920 (segundo o texto do The Manchester Guardian de 19 do mesmo mês) e 2) os argumentos de umha comunista "de esquerda", camarada Sylvia Pankhurst, no artigo citado.

Em seu discurso, Lloyd George polemiza com Asquith (que fora convidado especialmente para a reuniom, mas que se negou a assisti-la) e com aqueles liberais que querem umha aproximaçom com o Partido Trabalhista e nom a coligaçom com os conservadores. (Na carta dirigida à Redaçom polo camarada Gallacher vimos também umha alusom à passagem de alguns liberais ao Partido Trabalhista Independente). Lloyd George demonstra que é necessária umha coligaçom dos liberais com os conservadores, inclusive umha coligaçom estreita, pois de outro modo a vitória pode ser alcançada polo Partido Trabalhista,. que Lloyd George "prefere chamar" de socialista e que aspira "à propriedade coletiva" dos meios de produçom. "Na França isso se chamava comunismo" - explica em linguagem popular o chefe da burguesia inglesa a seus ouvintes, membros do Partido Liberal parlamentar, que, com certeza, até entom ignoravam isso – "na Alemanha chamava-se socialismo; na Rússia chama-se bolchevismo". Para os liberais isso é inadmissível por princípio, esclarece Lloyd George, pois os liberais som, por princípio, defensores da propriedade privada. "A civilizaçom está em perigo", declara o orador, razom por que devem unir-se liberais e conservadores...

"... Se vocês forem aos distritos agrícolas - di Lloyd George - verám conservadas, reconheço, as antigas divisons do partido. Lá, o perigo está longe, nom existe. Mas quando o perigo lá chegar, será tam grande como o é hoje em alguns distritos industriais. Quatro quintos de nosso país dedicam-se à Indústria e ao comércio; apenas um quinto vive da agricultura. Eis umha das circunstáncias que sempre tenho em mente quando penso nos perigos com que o futuro nos ameaça. Na França, a populaçom é agrícola e por isso constitui umha base sólida de determinadas opinions, base que nom se modifica tam rapidamente e que nom é facilmente excitável polo movimento revolucionário. Em nosso país a cousa é diferente. Nosso pais é menos estável que qualquer outro, e se se começar a vacilar, a catástrofe aqui será, em virtude dos motivos citados, mais forte que nos demais países".

Através dessas citaçons, o leitor pode perceber que o Sr. Lloyd George nom só é muito inteligente, como também que aprendeu muito com os marxistas. Nós também nom faríamos nengum mal em aprender com Lloyd George.

É igualmente interessante registrar o seguinte episódio da discussom havida depois do discurso de Lloyd George:

"G. Wallace: Gostaria de perguntar como encara o primeiro ministro os resultados de sua política nos, distritos industriais no que concerne aos operários industriais, muitos dos quais som hoje liberais e nos concedem tam grande apoio. Nom se pode prever um resultado que provoque um aumento enorme da força do Partido Trabalhista por parte desses mesmos operários que hoje nos apoiam tam sinceramente?

O Primeiro Ministro: Sou de opiniom completamente diferente. O facto de os liberais lutarem entre si leva, sem dúvida, um número bastante considerável deles, movidos polo desespero, para as fileiras do Partido Trabalhista, onde há muitos liberais bastante capazes que hoje se ocupam em desacreditar o governo. O resultado dessa luita entre os liberais, evidentemente, é um importante movimento da opiniom pública em favor do Partido Trabalhista. A opiniom pública inclina-se nom para os liberais que estám fora do Partido Trabalhista, mas sim para este, como mostram as eleiçons parciais".

Digamos, de passagem, que esses raciocínios provam de modo singular até que ponto se confundírom e nom podem deixar de cometer desatinos irreparáveis os mais inteligentes homens da burguesia. É isto que a fará perecer. Nossos camaradas podem até fazer tolices (contanto, é claro, que nom sejam muito consideráveis e possam ser reparadas a tempo) e, nom obstante, acabarám por triunfar.

O segundo documento político som as seguintes consideraçons da comunista "de esquerda" camarada Sylvia Pankhurst:

"...0 camarada Inkpin (secretário do Partido Socialista Británico) denomina o Partido Trabalhista de "a principal organizaçom do movimento da classe operária". Outro camarada do Partido Socialista Británico expressou ainda com mais relevo o ponto de vista desse partido na Conferência da III Internacional. "Consideramos o Partido Trabalhista - dixo - como a classe operária organizada".

Nom compartilhamos dessa opiniom a respeito do Partido Trabalhista. Ele é muito importante do ponto de vista numérico, embora seus membros sejam; em grande parte, inertes e apáticos; trata-se de operários e operárias que entrárom  para as trade-unions porque seus companheiros de oficina som trade-unionistas e porque desejam receber seguros e pensons.

Reconhecemos, porém, que a importáncia numérica do Partido Trabalhista obedece também ao facto de ser esse partido fruto de umha escola de pensamento, cujos limites ainda nom fôrom ultrapassados pola maioria da classe operária británica, embora se preparem grandes modificaçons na mentalidade do povo que transformarám brevemente esse estado de cousas... "

"... O Partido Trabalhista Británico, como as organizaçons social-patriotas dos demais países, chegará inevitavelmente ao Poder polo caminho natural do desenvolvimento social. O dever dos comunistas consiste em organizar as forças que derrubarám os social-patriotas, e em nosso país nom devemos vacilar nem retardar essa acçom.

Nom devemos dispersar nossas energias aumentando as forças do Partido Trabalhista; seu advento ao Poder é inevitável. Devemos concentrar nossas forças na criaçom de um movimento comunista que derrote esse partido. Dentro de pouco tempo o Partido Trabalhista estará no governo; a oposiçom revolucionária deve estar preparada para empreender o ataque contra ele..."

Assim, pois, a burguesia liberal renuncia ao sistema dos "dois partidos" (dos exploradores), consagrado no transcurso da história por umha experiência secular e extremamente proveitoso para os exploradores, considerando necessária a uniom de suas forças a fim de luitar contra o Partido Trabalhista. umha parte dos liberais, como os ratos de um navio que afunda, corre para o Partido Trabalhista. Os comunistas de esquerda considêrom inevitável a passagem do Poder para as maos do Partido Trabalhista e reconhecem que a maior parte dos operários está actualmente a favor desse partido. De tudo isso, chegam à estranha conclusom assim formulada pola camarada Sylvia Pankhurst :

"O Partido Comunista nom deve assumir compromissos... Deve conservar pura a sua doutrina e imaculada a sua independência frente ao reformismo; sua missom é marchar na vanguarda, sem deter-se ou desviar-se de seu caminho, avançar em linha reta em direçom à Revoluçom Comunista".

Pelo contrário, do facto de a maioria dos operários da Inglaterra ainda seguir os Kerenski e os Scheidemann ingleses de nom ter passado "ainda pola experiência de um governo formada por esses homens - experiência que foi necessária tanto na Rússia como na Alemanha para que os operários se passassem em massa para o comunismo deduz-se de modo infalível que os comunistas ingleses devem participar do parlamentarismo, devem ajudar a massa operária de dentro do parlamento a ver na prática os efeitos do governo dos Henderson e dos Snowden, devem ajudar os Henderson e Snowden a derrotarem a coligaçom de Lloyd George e Churchill. Proceder de outro modo significa dificultar a marcha da revoluçom, pois se nom se produz umha modificaçom nas opinions da maioria da classe operária, a revoluçom torna-se impossível; e essa modificaçom se consegue através da experiência política das massas, e nunca apenas com a propaganda. A palavra de ordem: "Avante sem compromissos, sem desviar-se do caminho!" é claramente errada, se quem a propala é umha minoria evidentemente impotente de operários que sabe (ou, polo menos, deve saber) que dentro de pouco tempo, no caso de, Henderson e Snowden triunfarem sobre Lloyd George e Churchill, a maioria perderá a fé - em seus chefes e apoiará o comunismo (ou, em todo caso, adotará umha atitude de neutralidade e, em sua maioria, de neutralidade simpática em relaçom aos comunistas). É a mesma cousa que se 10.000 soldados se lançassem ao combate contra 50.000 inimigos no momento em que é necessário "deter-se", "afastar-se do caminho", e até concertar um "compromisso" para esperar a chegada de um reforço prometido de 100.000 homens, que nom podem entrar em acçom imediatamente. É umha infantilidade própria de intelectuais e nom umha táctica séria da classe revolucionária.

A lei fundamental da revoluçom, confirmada por todas as revoluçons, e em particular polas três revoluçons russas do século XX, consiste no seguinte: para a revoluçom nom basta que as massas exploradas e oprimidas tenham consciência da impossibilidade de continuar vivendo como vivem e exijam transformaçons; para a revoluçom é necessário que os exploradores nom possam continuar vivendo e governando como vivem e governam. Só quando os "de baixo" nom querem e os "de cima" nom podem continuar vivendo à moda antiga é que a revoluçom pode triunfar. Em outras palavras, esta verdade exprime-se do seguinte modo: a revoluçom é impossível sem umha crise nacional geral (que afete explorados e exploradores). Por conseguinte, para fazer a revoluçom é preciso conseguir, em primeiro lugar, que a maioria dos operários (ou, em todo caso, a maioria dos operários conscientes, pensantes, politicamente ativos) compreenda a fundo a necessidade da revoluçom e esteja disposta a sacrificar a vida por ela ; em segundo lugar, é preciso que as classes dirigentes atravessem umha crise governamental que atraia à política inclusive as massas mais atrasadas (o sintoma de toda revoluçom verdadeira é a decuplicaçom ou centuplicaçom do número de homens aptos para a luita política, homens pertencentes à massa trabalhadora e oprimida, antes apática), que reduza o governo à impotência e. torne possível sua rápida derrubada polos revolucionários.

Na Inglaterra, e exactamente o discurso de Lloyd George o demonstra, entre outras cousas, desenvolvem-se a olhos vistos as duas condiçons de umha revoluçom proletária vitoriosa. E os erros dos comunistas de esquerda representam actualmente um singular perigo precisamente porque observamos em alguns revolucionários umha atitude pouco ponderada, pouco atenta, pouco consciente, pouco reflexiva com relaçom a cada um desses fatores. Se somos o partido da classe revolucionária, e nom um grupo revolucionário, se queremos atrair as massas (sem o que corremos o risco de nom passar de simples charlatáns) devemos: em primeiro lugar, ajudar Henderson ou Snowden a vencer Lloyd George e Churchill (mais exactamente: devemos obrigar os primeiros a vencer os segundos, pois os primeiros tem medo de sua própria vitória!); em segundo lugar, ajudar a maioria da classe operária a convencer-se por experiência própria de que temos razom, isto é, da incapacidade completa dos Henderson e Snowden, de sua natureza pequeno-burguesa e traidora, da inevitabilidade de sua falência; e, em terceiro lugar, antecipar o momento em que, sobre a base da desilusom produzida polos Henderson na maioria dos operários, se possa, com grandes probabilidades de êxito, derrubar de golpe o governo dos Henderson. Se inclusive Lloyd George, político inteligentíssimo e resoluto, que nom é pequeno burguês, mas sim grande burguês, debilita-se cada vez mais (com toda a burguesia), ontem por suas "rusgas" com Churchill e hoje por suas "rusgas" com Asquith, e perde a cabeça, com muito mais facilidade a perderám os Henderson.

Falarei de modo mais concreto. Os comunistas ingleses devem, na minha opiniom, unificar seus quatro partidos e grupos (todos muito débeis e alguns extraordinariamente débeis) num Partido Comunista único, baseado nos princípios da III Internacional e da participaçom obrigatória no parlamento. O Partido Comunista propom aos Henderson e Snowden um "compromisso", um acordo eleitoral: marchemos juntos contra a coligaçom de Lloyd George e os conservadores, repartamos os postos no parlamento proporcionalmente aos votos dados polos operários ao Partido Trabalhista ou aos comunistas (nom nas eleiçons, mas numa votaçom especial) conservemos a mais completa liberdade, de agitaçom, propaganda e acçom política. Sem esta última condiçom é impossível, naturalmente, fazer a aliança, pois seria umha traiçom. Os comunistas ingleses devem reivindicar e alcançar a mais completa liberdade, que lhes permita, desmascarar os Henderson e Snowden, de modo tam absoluto como o fizêrom (durante 15 anos, de 1903 a 1917) os bolcheviques russos em relaçom aos Henderson e Snowden da Rússia, isto é, os mencheviques.

Se os Henderson e Snowden aceitarem a aliança nessas condiçons, sairemos ganhando, pois o que nos interessa nom é, absolutamente, o número de cadeiras no parlamento. Nom é esse o nosso objetivo; nesse ponto seremos transigentes (enquanto os Henderson e, sobretudo, seus novos amigos - ou seus novos amos - os liberais que ingressárom  no Partido Trabalhista, correm atrás disso mais que de qualquer outra cousa). Teremos ganho porque levaremos nossa agitaçom às massas num momento em que o próprio Lloyd George as terá "irritado’, e ajudaremos nom só o Partido Trabalhista a formar mais depressa o seu governo, como também as massas a compreenderem melhor toda nossa propaganda comunista, que realizaremos contra os Henderson sem nengumha limitaçom, sem nada silenciar.

Se os Henderson e Snowden repelirem a aliança conosco, nessas condiçons, teremos ganho ainda mais, pois teremos mostrado na hora às massas (levem em conta que inclusive dentro do Partido Trabalhista Independente, puramente menchevique, completamente oportunista, as massas som partidárias dos Soviets) que os Henderson preferem sua intimidade com os capitalistas à uniom de todos os trabalhadores. Teremos ganho imediatamente ante a massa, a qual, sobretudo depois das explicaçons brilhantíssimas, extremamente acertadas e úteis (para o comunismo) dadas por Lloyd George, simpatizará com a ideia da uniom de todos os .operários contra a coligaçom de Lloyd George com os conservadores. Teremos ganho desde o primeiro momento, pois teremos demonstrado às massas que os Henderson e Snowden receiam vencer Lloyd George, receiam tomar o Poder sozinhos e aspírom a conseguir em segredo o apoio de Lloyd George, que estende a mao abertamente aos conservadores contra o Partido Trabalhista. É preciso lembrar que na Rússia, depois da revoluçom de 27 de Fevereiro de 1917 (calendário antigo), o êxito da propaganda dos bolcheviques contra os mencheviques e social-revolucionários (isto é, os Henderson e Snowden russos) foi devido precisamente às mesmas circunstáncias. Dizíamos aos mencheviques e aos social-revolucionários: tomem todo o Poder sem a burguesia, posto que vocês tenhem a maioria nos Soviets (no I Congresso dos Soviets de toda a Rússia, celebrado em junho de 1917, os bolcheviques nom tinham mais que 13% dos votos). Mas os Henderson e Snowden russos tinham medo de tomar o Poder sem a burguesia, e quando esta adiou as eleiçons para a Assembleia Constituinte porque sabia perfeitamente que os social-revolucionários e os mencheviques alcançariam a maioria*2 (ambos formavam um bloco político muito estreito, representavam praticamente umha só democracia pequeno-burguesa), os social-revolucionários e os mencheviques ficárom  impotentes para luitar com energia e até o fim contra esses adiamentos.

Se os Henderson e Snowden se negassem a formar umha aliança com os comunistas, estes sairiam ganhando de imediato, pois conquistariam a simpatia das massas, enquanto os Henderson e Snowden ficariam desacreditados. Pouco nos importaria entom perder algumhas cadeiras no parlamento por causa disso. Só apresentaríamos candidatos num número ínfimo de circunscriçons absolutamente seguras, isto é, onde isto nom representasse a vitória de um liberal contra um trabalhista. Realizaríamos a nossa campanha eleitoral distribuindo volantes de propaganda do comunismo e convidando o povo, em todas as circunscriçons em que nom apresentássemos candidato, a votar no trabalhista contra o burguês. Enganam-se os camaradas Sylvia Pankhurst e Gallacher se vêem nisso umha traiçom ao comunismo ou umha renuncia à luita contra os social-traidores. polo contrário, nom há dúvida de que a causa da revoluçom sairia ganhando.

Hoje em dia, é muito difícil para os comunistas ingleses inclusive aproximar-se das massas, fazer com que elas os ouçam. Contudo, se me apresentar como comunista e, ao mesmo tempo, convidar a         votar em Henderson contra Lloyd George, é certo que serei ouvido. E poderei explicar de modo acessível nom só por que os Soviets som melhores que o parlamento e a ditadura do proletariado melhor que a ditadura de Churchill (mascarada sob o rótulo de "democracia", burguesa), como também por que eu gostaria de sustentar Henderson com meu voto do mesmo modo que a corda sustenta o enforcado; que a aproximaçom dos Henderson a um governo formado por eles mesmos   demonstrará a minha razom, atrairá as massas para o meu lado e acelerará a morte política dos Henderson e Snowden, exactamente como aconteceu com seus correligionários na Rússia e na Alemanha.

E se replicarem dizendo que esta táctica é muito "astuta" ou complicada, que as massas nom a compreenderám, que dispersará e desagregará nossas forças impedindo-nos de concentrá-las, na revoluçom soviética, etc., responderei aos meus contestadores "de esquerda": nom atribuam às massas o seu próprio doutrinarismo ! É de supor-se que na Rússia as massas nom som mais cultas, mas, polo contrário, que som menos cultas que na Inglaterra. Apesar disso, compreendêrom os bolcheviques; e, em vez de prejudicá-los, favoreceu-os o facto de, nas vésperas da revoluçom soviética de setembro de 1917, comporem, listas de candidatos seus ao parlamento burguês (à Assembleia Constituinte) e tomarem parte, no dia seguinte à revoluçom soviética de novembro de 1917, nas eleiçons para essa mesma Constituinte, dissolvida por eles no dia 5 de Janeiro de 1918.

Nom posso examinar pormenorizadamente a segunda divergência entre os comunistas ingleses, consistente em se devem ou nom aderir ao Partido Trabalhista. Tenho pouquíssimos dados sobre essa questom extremamente complexa, dada a extraordinária originalidade do "Partido Trabalhista" Británico, muito pouco parecido estruturalmente com os habituais partidos políticos do continente europeu. Mas nom há dúvida de que, em primeiro lugar, também incorre inevitavelmente em erro quem deduz a táctica do proletariado revolucionário de princípios como este: "0 Partido Comunista deve conservar pura a sua doutrina e imaculada a sua independência frente ao reformismo; sua missom é marchar na vanguarda, sem deter-se ou desviar-se de seu caminho, avançar em linha reta em direçom à Revoluçom Comunista". Princípios como este só fazem repetir o erro dos comunardos-blanquístas franceses, que em 1874 proclamavam a "negaçom" de todo compromisso e de toda etapa intermediária. Em segundo lugar, nom há dúvida de que nesse ponto a tarefa consiste, como sempre, em saber aplicar os princípios gerais e fundamentais do comunismo às peculiaridades das relaçons entre as classes e os partidos, às peculiaridades do desenvolvimento objetivo rumo ao comunismo, próprias a cada pais e que é necessário saber estudar, descobrir e adivinhar.

Mas é preciso falar a respeito disso nom só em relaçom ao comunismo inglês, mas sim em relaçom às conclusons gerais que se referem ao desenvolvimento do comunismo em todos os países capitalistas. Este é o tema que vamos abordar agora.

___________

*1 Polos vistos, esse partido opom-se à adesom ao "Partido Trabalhista", mas nem todos os seus membros som contra a participaçom no parlamento. (Nota do autor)

*2 As eleiçons de novembro de 1917 para a Assembleia Constituinte na Rússia, segundo dados que abrangem mais de 36 milhons de eleitores, dêrom 25% dos votos aos bolcheviques, 13% aos diferentes partidos dos latifundiários e da burguesia e 62% à democracia pequeno-burguesa, isto é, aos social-revolucionários e mencheviques juntamente com os pequenos grupos chegados a eles. (Nota do autor)

 

 



NOTAS

[1] O Partido Socialista Italiano foi fundado em 1892 como "Partido dos Operários Italianos"; em 1893 adotou o nome de "Partido Socialista Italiano". Depois da vitória da Grande Revoluçom Socialista de Outubro na Rússia, a ala esquerda das fileiras do Partido Socialista Italiano viu-se fortalecida Em Janeiro de 1921, no Congresso do Partido realizado em Livorno os esquerdistas rompêrom com o Partido Socialista, convocárom  seu Congresso e fundárom  o Partido Comunista da Itália.

Nos anos de ditadura fascista na Itália. tornou a formar-se umha influente ala esquerda no Partido Socialista Italiano. Em 1934, o Partido Socialista concertou um pacto de unidade de acçom com o Partido Comunista da Itália, pacto que serviu de base para a colaboraçom entre os dous partidos durante a segunda guerra mundial e no período de após-guerra. Em Janeiro de 1947 um grupo de direitistas encabeçado por Saragat abandonou as fileiras do Partido Socialista e formou o chamado "Partido Socialista dos Trabalhadores Italianos", que desde 1952 se denomina Partido Social-democrata. - pág. 71

[2] Lenine refere-se a um trecho da carta de F. Engels a F. Sorge, datada de 29 de novembro de 1886, na qual Engels, criticando os emigrados social-democratas residentes na América, di que, para eles, a teoria "é um dogma e nom um guia para a acçom". -, pág. 78

[3] O "Partido Socialista Británico (British SociMist Party) foi fundado em 1911, em Manchester. Realizou a propaganda e a agitaçom dentro do espírito marxista e era um partido "nom oportunista, verdadeiramente independente dos liberais" (Lenine). Seus pequenos efectivos e o isolamento das massas davam-lhe certo caráter sectário.

Durante a primeira guerra mundial determinaram-se, nele duas tendências: umha abertamente social-chovinista, encabeçada por Hyndman, e outra internacionalista, chefiada por A. Inkpin e outros. O partido cindiu-se em Abril de 1916. Hyndman e seus correligionários ficárom  em minoria e abandonárom  suas fileiras. A partir daquele momento, ficárom  à frente do Partido Socialista Británico elementos internacionalistas. A esse partido coube a iniciativa de constituir o Partido Comunista da Gram-Bretanha, fundado em 1920. - pág. 87

[4] O "Partido Socialista Operário" foi fundado em 1903 por um grupo de social-democratas de esquerda dissidente da Federaçom Social-democrata. A "Sociedade Socialista de Gales do Sul" era um pequeno grupo, integrado inicialmente por mineiros do País de Gales. A "Federaçom Socialista Operária"' era umha organizaçom pouco numerosa, surgida da "Sociedade de defesa dos direitos eleitorais da mulher" e integrada principalmente por mulheres.

Ao ser fundado o Partido Comunista da Gram-Bretanha (o Congresso que o estatuiu realizou-se de 31 de julho a 1 de agosto de 1920), que incluiu em seu programa um ponto sobre a participaçom do Partido nas eleiçons parlamentares e sobre a filiaçom ao Partido Trabalhista, todas as organizaçons "esquerdistas" negaram-se a ingressar no partido. No Congresso do Partido Comunista realizado em Janeiro de 1921, a Sociedade Socialista de Gales do Sul e a Federaçom Socialista Operária (que tinham adotado nessa ocasiom as denominaçons de Partido Comunista Operário e Partido Comunista) fundiram-se com o Partido Comunista da Gram-Bretanha, que tomou o nome de Partido Comunista Unificado da Gram-Bretanha. A direçom do Partido Socialista Operário negou-se a participar da unificaçom. - pág. 87

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X - ALGUMHAS CONCLUSONS

 

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