DOENÇA INFANTIL DO ESQUERDISMO NO
COMUNISMO. Lenine
X - ALGUMHAS CONCLUSONS
A revoluçom burguesa de 1905 na Rússia evidenciou
umha reviravolta extraordinariamente original da história universal: num dos
países capitalistas mais atrasados, o movimento grevista alcançou, pola
primeira vez no mundo, força e amplitude inusitadas. Só em Janeiro de 1905, o
número de grevistas foi dez vezes maior que a média anual de grevistas durante
os dez anos anteriores (1895/1904); de Janeiro a outubro de 1905, as greves aumentárom incessantemente e em proporçons gigantescas.
Sob a influência de umha série de fatores históricos completamente originais, a
Rússia atrasada deu ao mundo o primeiro exemplo nom só de um salto brusco, em
época de revoluçom, da atividade espontánea das massas oprimidas (coisa que
ocorreu em todas as grandes revoluçons), como também de umha projeçom do
proletariado que superava infinitamente o que se podia esperar por sua pequena
percentagem entre a populaçom; mostrou pola primeira vez a combinaçom da greve
económica com a greve política, com a transformaçom desta última em insurreiçom
armada, o nascimento de umha nova forma de luita de massas e de organizaçom de
massas das classes oprimidas polo capitalismo: os Soviets.
As revoluçons de Fevereiro e outubro de 1917
levárom ao desenvolvimento multilateral
dos Soviets em todo o pais e, depois, à sua vitória na revoluçom proletária,
socialista. Menos de dous anos mais tarde manifestou-se o caráter internacional
dos Soviets, a extensom dessa forma de luita e de organizaçom ao movimento
operário mundial, o destino histórico dos Soviets de serem os coveiros, os
herdeiros e os sucessores do parlamentarismo burguês, da democracia burguesa em
geral.
Mais ainda. A história do movimento operário mostra
actualmente que ele está destinado a atravessar em todos os países (e já
começou a atravessar) um período de luita do comunismo nascente, cada dia mais
forte, que marcha para a vitória, sobretudo e principalmente contra o
"menchevismo>> próprio (de cada país), isto é, contra o oportunismo
e o social-chovinismo e, de outro lado, como complemento, por assim dizer,
contra o comunismo "de esquerda". A primeira dessas luitas
desenvolveu-se em todos os países, ao que parece sem exceçons, sob a forma de
luita entre a II Internacional (hoje praticamente morta) e a III. A segunda
luita manifesta-se na Alemanha, na Inglaterra, na Itália, nos Estados Unidos
(onde polo menos umha parte dos "Operários Industriais do Mundo" e
das tendências anarco-sindicalistas apoiam os erros do comunismo de esquerda,
ao mesmo tempo em que reconhecem de maneira quase geral, quase incondicional, o
sistema soviético) e na França (atitude de umha parte dos ex-sindicalistas em
relaçom ao partido. político e ao parlamentarismo, também paralelamente ao reconhecimento
do sistema dos Soviets), isto é, manifesta-se nom só em escala internacional,
como universal.
Contudo, embora a escola preparatória que leva o
movimento operário à vitória sobre a burguesia seja em toda a parte idêntica em
sua essência, seu desenvolvimento efetua-se em cada país de modo original. Os
grandes países capitalistas adiantados avançam por esse caminho muito mais
rapidamente que o bolchevismo, ao qual a história concedeu um prazo de quinze
anos para preparar-se como tendência política organizada a fim de conquistar a
vitória. No curto prazo de um ano, a III Internacional já alcançou um triunfo
decisivo ao desfazer a II Internacional, a Internacional amarela,
social-chovinista, que há poucos meses era incomparavelmente mais forte que a
III, parecia sólida e poderosa, e dispunha do apoio da burguesia mundial sob
todas as formas, directas e indirectas, materiais (postos ministeriais,
passaporte, imprensa) e morais.
O que importa agora é que os comunistas de cada país
levem em conta com plena consciência tanto as tarefas fundamentais, de
principio, da luita contra o oportunismo e o doutrinarismo "de
esquerda", como as particularidades concretas que esta luita adquire e
deve adquirir inevitavelmente em cada país, de acordo com os aspectos originais
de sua economia, sua política, sua cultura, sua composiçom nacional (Irlanda,
etc.), suas colónias, diversidade de religions, etc., etc. Sente-se expandir e
crescer em toda a parte o descontentamento contra a II Internacional por causa
de seu oportunismo e sua inépcia, sua incapacidade para criar um órgao
realmente centralizado e dirigente, apto para orientar a táctica internacional
do proletariado revolucionário em sua luita pola república soviética universal.
É preciso compreender perfeitamente que esse centro dirigente nom pode, de modo
algum, ser formado segundo normas tácticas estereotipadas de luita,
mecanicamente igualadas, idênticas. Enquanto subsistirem diferenças nacionais e
estatais entre os povos e os países e essas diferenças subsistirám inclusive
durante muito tempo depois da instauraçom universal da ditadura do proletariado
- a unidade da táctica internacional do movimento operário comunista de todos
os países exigirá, nom a supressom da variedade, nom a supressom das
particularidades nacionais (o que é, actualmente, um sonho absurdo), mas sim
umha tal aplicaçom dos princípios fundamentais do comunismo (Poder Soviético e
ditadura do proletariado) que modifique acertadamente esses princípios em seus
detalhes, que os adapte, que os aplique acertadamente às particularidades
nacionais e nacional-estatais. Investigar, estudar, descobrir, adivinhar,
captar o que há de particular e específico, do ponto de vista nacional, na
maneira pola qual cada país aborda concretamente a soluçom do problema internacional
comum, do problema do triunfo sobre o oportunismo e o doutrinarismo de esquerda
no movimento operário, a derrubada da burguesia, a instauraçom da república
soviética e da ditadura proletária, é a principal tarefa do período histórico
que actualmente atravessam todos os países adiantados (e nom só os adiantados).
Já se fez o principal - claro que nom se fez tudo, absolutamente, mas já se fez
o principal - para ganhar a vanguarda da classe operária para colocá-la ao lado
do Poder Soviético contra o parlamentarismo, ao lado da ditadura do
proletariado contra a democracia burguesa. Agora é preciso concentrar todas as
forças e toda a atençom no passo seguinte, que parece ser - e, de certo modo, é
realmente - menos fundamental, mas que, em compensaçom, está mais perto da
soluçom efetiva do problema, isto é: procurar as formas de passar à revoluçom
proletária ou de abordá-la.
A vanguarda proletária está ideologicamente
conquistada. Isto é o principal. Sem isto nom é possível dar sequer o primeiro
passo para a vitória. Mas daí para o triunfo ainda falta umha grande distáncia
a percorrer. Apenas com a vanguarda é impossível triunfar. Lançar a vanguarda
sozinha à batalha decisiva, quando toda a classe, quando as grandes massas
ainda nom adoptárom umha posiçom de
apoio directo a essa vanguarda ou, polo menos, de neutralidade simpática, e nom
som totalmente incapazes de apoiar o adversário, seria nom só umha estupidez,
como um crime. E para que realmente toda a classe, para que realmente as
grandes massas dos trabalhadores e dos oprimidos polo capital cheguem a ocupar
essa posiçom, a propaganda e a agitaçom, por si, som insuficientes. Para isso
necessita-se da própria experiência política das massas. Tal é a lei
fundamental de todas as grandes revoluçons, confirmada hoje com força e realce
surpreendentes tanto pela, Rússia como pola Alemanha. Nom só as massas
incultas, em muitos casos analfabetas, da Rússia, como também as massas da
Alemanha, muito cultas, sem nengum analfabeto, precisárom experimentar em sua própria carne toda a
impotência, toda a veleidade, toda a fraqueza, todo o servilismo ante a
burguesia, toda a infámia do governo dos cavalheiros da II Internacional, toda
a inelutabilidade da ditadura dos ultra-reaccionários (Kornilov na Rússia, Kapp
& Cia. na Alemanha), única alternativa diante da ditadura do proletariado,
para orientar-se decididamente rumo ao comunismo.
A tarefa imediata da vanguarda consciente do
movimento operário internacional, isto é, dos partidos, grupos e tendências
comunistas, consiste em saber atrair as amplas massas (hoje, em sua maior
parte, ainda adormecidas, apáticas, rotineiras, inertes) para essa sua nova
posiçom, ou, melhor dizendo, em saber dirigir nom só seu próprio partido, como
também essas massas no período de sua aproximaçom, de seu deslocamento para
essa nova posiçom. Se a primeira tarefa histórica (ganhar para o Poder
Soviético e para a ditadura da classe operária a vanguarda consciente do
proletariado) nom podia ser cumprida sem umha vitória ideológica e política completa
sobre o oportunismo e o social-chovinismo, a segunda tarefa, que é agora
imediata e que consiste em saber atrair as massas para essa nova posiçom capaz
de assegurar o triunfo da vanguarda na revoluçom, nom pode ser cumprida sem
liquidar o doutrinarismo de esquerda, sem corrigir completamente seus erros,
sem desembaraçar-se deles.
Enquanto se trata (e na medida em que se trata ainda
hoje) de ganhar para o comunismo a vanguarda do proletariado, a propaganda
deve) ocupar o primeiro lugar; inclusive os círculos, com todas ás suas
debilidades, som úteis neste caso e dam resultados fecundos. Mas quando se
trata da acçom prática das massas, de movimentar – se me é permitido usar essa
expressom – exércitos de milhons de homens, dispor todas as forças da classe de
umha determinada sociedade para a luita final e decisiva., nom conseguireis
nada através, unicamente dos hábitos de propagandista, com a simples repetiçom
das verdades do comunismo "puro". E é porque nesse caso a conta nom é
feita aos milhares, como fai o propagandista membro de um grupo reduzido e que
ainda nom dirige massas, e sim aos milhons e dezenas de milhons. Nesse caso é
preciso perguntar a si próprio nom só se convencemos a vanguarda da classe
revolucionária, como também se estám em movimento as forças historicamente
ativas de todas as classes da tal sociedade, obrigatoriamente de todas, sem
exceçom, de modo que a batalha decisiva esteja completamente amadurecida, de
maneira que 1) todas as forças de classe que nos som adversas estejam suficientemente
perdidas na confusom, suficientemente lutando entre si, suficientemente
debilitadas por umha luita superior a suas forças; 2) que todos os elementos
vacilantes, instáveis, inconsistentes, intermediários, isto é, a pequena
burguesia, a democracia pequeno-burguesa, que se diferencia da burguesia,
estejam suficientemente desmascarados diante do povo, suficientemente cobertos
de opróbrio por sua falência prática; 3) que nas massas proletárias comece a
aparecer e a expandir-se com poderoso impulso o afám de apoiar as açons
revolucionárias mais resolutas, mais valentes e abnegadas contra a burguesia. É
entom que está madura a revoluçom, que nossa vitória está assegurada, caso
tenhamos sabido levar em conta todas as condiçons levemente esboçadas acima e tenhamos
escolhido acertadamente o momento.
As divergências entre os Churchill e os Lloyd George
de um lado - tipos políticos que existem em todos os países com peculiaridades
nacionais ínfimas - e, de outro, entre os Henderson e os Lloyd George, nom
tenhem absolutamente nengumha importáncia e som insignificantes do ponto de
vista do comunismo puro, isto é, abstrato, ainda incapaz de açons políticas
práticas, de massas. Mas, do ponto de vista dessa acçom prática das massas,
tais divergências tenhem extraordinária importáncia. Saber levá-las em conta,
saber determinar o momento em que amadurecêrom plenamente os conflitos
inevitáveis entre esses "amigos", conflitos que debilitam e extenuam
todos os "amigos" tomados em conjunto, é o trabalho, a missom do
comunista que deseje ser nom só um propagandista consciente, convicto e
teoricamente preparado, como também um dirigente prático das massas na
revoluçom. É necessário unir a mais absoluta fidelidade às ideias comunistas à
arte de admitir todos os compromissos práticos necessários, manobras, acordos,
ziguezagues, retiradas, etc., para precipitar a ascensom ao Poder político dos
Henderson (dos heróis da II Internacional, para nom citar nomes desses
representantes da democracia pequeno-burguesa que se chamam de socialistas) e
seu malogro no mesmo; para acelerar seu fracasso inevitável na prática, o que
educará as massas precisamente em nosso espírito e as orientará precisamente
para o comunismo; para acelerar as rusgas, as disputas, os conflitos e a
separaçom total, inevitáveis entre os Henderson, os Lloyd George e os Churchill
(entre os mencheviques e os social-revolucionários, os democratas
constitucionalistas e os monárquicos; entre os Scheidemann, a burguesia, os
partidários de Kapp, etc.) e para escolher acertadamente o momento de máxima
dissensom entre todos esses "baluartes da sacrossanta propriedade
privada", a fim de esmagá-los por completo, mediante umha resoluta
ofensiva do proletariado, e conquistar o Poder político.
A história em geral, e a das revoluçons em
particular, é sempre mais rica de conteúdo, mais variada de formas e aspectos,
mais viva e mais "astuta" do que imaginam os melhores partidos, as
vanguardas mais conscientes das classes mais avançadas. E isso é compreensível,
pois as melhores vanguardas exprimem a consciência, a vontade, a paixom e a
imaginaçom de dezenas de milhares de homens acicatados pola mais aguda luita de
momentos de exaltaçom e tensom especiais de todas as faculdades humanas, pola
consciência, a vontade, a paixom e a imaginaçom de dezenas de milhons de
homens, enquanto que a revoluçom é feita, em classes. Dai se depreendem duas
conclusons práticas muito importantes: 1) a classe revolucionária, para
realizar sua missom, deve saber utilizar todas as formas ou aspectos, sem a
menor exceçom, da atividade social (terminando depois da conquista do Poder
político, às vezes com grande risco e imenso perigo, o que nom terminou antes
dessa conquista); 2) a classe revolucionária deve estar preparada para
substituir umha forma por outra do modo mais rápido e inesperado.
Todos ham de convir que seria insensata e até mesmo
criminosa a conduta de um exército que nom se dispugesse a conhecer e utilizar
todos os tipos de armas, todos os meios e processos de luita que o inimigo
possui ou pode possuir. Mas essa verdade é ainda mais aplicável à política que
à arte militar. Em política é ainda menos fácil saber de antemao que método de
luita será aplicável e vantajoso para nós, nessas ou naquelas circunstáncias
futuras. Sem dominar todos os meios de luita podemos correr o risco de sofrer
umha derrota fragorosa - às vezes decisiva - se modificaçons, independentes da
nossa vontade na situaçom das outras classes puserem na ordem do dia umha forma
de acçom na qual somos particularmente débeis. Se dominamos todos os meios de
luita, nossa vitória estará garantida, pois representamos os interesses da
classe realmente avançada., realmente revolucionária, inclusive se as
circunstáncias nos impedirem de utilizar a arma mais perigosa para o inimigo, a
arma mais capaz de assestar-lhe golpes mortais com a maior rapidez. Os
revolucionários inexperientes imaginam freqüentemente que os meios legais de
luita som oportunistas, umha vez que a burguesia enganava e lograva os
operários com particular freqüência nesse terreno (sobretudo nos períodos
chamados "pacíficos", nos períodos nom revolucionários), e que os
processos ilegais som revolucionários. Mas isso nom é justo. O justo é que os
oportunistas e traidores da classe operária som os partidos e chefes que nom sabem
ou nom querem (nom digam: nom posso, mas sim: nom quero) aplicar os processos
ilegais de luita numa situaçom, por exemplo, como a guerra imperialista de
1914,/1918, em que a burguesia dos países democráticos mais livres enganava os
operários com insolência e crueldade nunca vistas, proibindo que se dissesse a
verdade sobre o caráter de rapina da guerra. Mas os revolucionários que nom
sabem combinar as formas ilegais de luita com todas as formas legais som
péssimos revolucionários. Nom é difícil ser revolucionário quando a revoluçom
já estourou e está em seu apogeu, quando todos aderem à revoluçom simplesmente
por entusiasmo, modismo e inclusive, às vezes, por interesse pessoal de fazer
carreira. Custa muito ao proletariado, causa-lhe duras penas, origina-lhe verdadeiros
tormentos "desfazer-se" depois do triunfo desses
"revolucionários". É muitíssimo mais difícil - e muitíssimo mais
meritório - saber ser revolucionário quando ainda nom existem as condiçons para
a luita directa, aberta, autenticamente de massas, autenticamente
revolucionária, saber defender os interesses da revoluçom (através da
propaganda, da agitaçom e da organizaçom) em instituiçons nom revolucionárias
e, muitas vezes, simplesmente reaccionárias, numa situaçom nom revolucionária,
entre massas incapazes de compreender imediatamente a necessidade de um método
revolucionário de acçom, Saber perceber, encontrar, determinar com exactidom o
rumo concreto ou a modificaçom particular dos acontecimentos suscetíveis de
levar as massas à grande luita revolucionária, verdadeira, final e decisiva é a
principal missom do comunismo contemporáneo na Europa Ocidental e na América.
Um exemplo: Inglaterra. Nom podemos saber e ninguém
pode determinar de antemao - quando eclodirá ali a verdadeira revoluçom
proletária e qual será o motivo principal que despertará, inflamará e lançará à
luita as grandes massas, hoje ainda adormecidas. Temos o dever, por
conseguinte, de realizar todo nosso trabalho preparatório tendo as quatro patas
aferradas ao solo (segundo a expressom predileta do falecido Plekhanov quando
era marxista e revolucionário). Talvez seja umha crise parlamentar que
"abra o caminho", que "rompa o gelo", talvez umha crise que
derive das contradiçons coloniais e imperialistas irremediavelmente complicadas,
cada vez mais graves e exacerbadas, ou talvez outras causas. Nom falamos da
espécie de luita que decidirá a sorte da revoluçom proletária na Inglaterra
(essa questom nom permite nengumha dúvida para nengum comunista, pois para
todos nós está firmemente decidida), mais sim do motivo que despertará as
massas proletárias hoje ainda adormecidas, que as colocará em movimento e as
levará à revoluçom. Nom esqueçamos, por exemplo, que na república burguesa da
França, numa situaçom que era cem vezes menos revolucionária que a actual,
tanto internacional como internamente, bastou umha circunstáncia tam
"inesperada" e "fútil" como o caso Dreyfus - umha das mil
façanhas desonestas do bando militarista reaccionário para levar o povo às
bordas da guerra civil.
Na Inglaterra, os comunistas devem utilizar
constantemente, sem descanso nem vacilaçom, as eleiçons parlamentares, todas as
peripécias da política irlandesa, colonial e imperialista do governo británico
no mundo inteiro e todos os demais campos, esferas e aspectos da vida social,
atuando neles com espírito, novo, com o espírito do comunismo, com o espírito
da III e nom da II Internacional. Nom disponho de tempo nem espaço para
descrever aqui os processos "russos", "bolcheviques", de
participaçom nas eleiçons e na luita parlamentar; mas posso assegurar aos
comunistas dos demais países que em nada se pareciam com as habituais campanhas
parlamentares na Europa Ocidental. Desse facto tira-se freqüentemente a
seguinte conclusom : "Isso é assim no vosso
país, na Rússia, mas o nosso parlamentarismo é diferente". A conclusom é
falsa. Os comunistas, os partidários da III Internacional existem em todos os
países exactamente para transformar em toda linha, em todos os aspectos da
vida, o antigo trabalho socialista, tradeunionista, sindicalista e parlamentar
num trabalho novo, comunista. Em nossas eleiçons também vimos, à vontade,
traços puramente burgueses, traços de oportunismo, praticismo vulgar, fraude
capitalista. Os comunistas da Europa Ocidental e da América devem aprender a
criar um parlamentarismo novo, incomum, nom oportunista, sem arrivismo. É
necessário que o Partido Comunista lance suas palavras de ordem; que os
verdadeiros proletários, com a ajuda da gente pobre, inorganizada e
completamente oprimida, repartam entre si e distribuam volantes, percorram as
casas dos operários, as palhoças dos proletários do campo e dos camponeses que
vivem nas aldeias longínquas (que, felizmente, existem em número muito menor na
Europa que na Rússia, e som raras na Inglaterra), entrem nas tabernas freqüentadas
polas pessoas mais simples, introduzam-se nas associaçons, sociedades e
reunions fortuitas das pessoas pobres; que falem ao povo nom de forma doutoral
(e nom muito à parlamentar), nom corram, por nada neste mundo, atrás de um
"lugarzinho" no parlamento, mas despertem em toda a parte o
pensamento, arrastem a massa, tomem a palavra da burguesia, utilizem o aparelho
por ela criado, as eleiçons por ela convocadas, seus apelos a todo o povo e
tornem conhecido deste último o bolchevismo, como nunca antes tinham tido
oportunidade de fazê-lo (sob o domínio burguês) fora do período eleitoral (sem
contar, naturalmente, os momentos de grandes greves, quando esse mesmo aparelho
de agitaçom popular funcionava em nosso país com maior intensidade ainda). Fazer
isso na Europa Ocidental e na América é muito difícil, dificílimo; mas pode e
deve ser feito, pois é totalmente impossível cumprir as tarefas do comunismo
sem trabalhar, e é preciso esforçar-se para resolver os problemas práticos,
cada vez mais variados, cada vez mais ligados a todos os aspectos da vida
social e que vam arrebatando cada vez mais à burguesia, um após outro, um
sector, umha esfera de atividade.
Nessa mesma Inglaterra é necessário também organizar
de modo novo (nom de modo socialista, mas comunista; nom de modo reformista,
mas revolucionário) o trabalho de propaganda, de agitaçom e de organizaçom no
exército e entre as naçons oprimidas e que nom gozam de plenos direitos que
formam "seu" Estado (Irlanda, as colónias). Pois todos esses sectores
da vida social, na época do imperialismo em geral e sobretudo agora, depois da
guerra, que atormentou os povos e que lhes abriu rapidamente os olhos à verdade
(a verdade de dezenas de milhons de homens terem morrido ou terem ficado
mutilados exclusivamente para decidir se seriam os bandidos ingleses ou os
bandidos alemáns que saqueariam maior número de países), todos esses sectores
da vida social saturam-se particularmente de matérias inflamáveis e dam origem
a multas causas de conflitos e de crises e à exacerbaçom da luita de classes.
Nom sabemos nem podemos saber qual das centelhas que surgem agora em grande
número por toda parte em todos os países, sob a influência da crise económica e
política mundial, poderá causar o incêndio, isto é, despertar de modo especial
as massas. Por isso, com nossos princípios novos, comunistas, devemos
empreender a "preparaçom", de todos os campos, qualquer que seja a
sua natureza, até dos mais velhos, vetustos e, aparentemente, mais estéreis,
porque em caso contrário nom estaremos à altura de nossa missom, faltar-nos-á
algumha cousa, nom dominaremos todos os tipos de armas, nom nos prepararemos
nem para vitória sobre a burguesia (que organizou a vida social em todos os
seus aspectos à moda burguesa e que agora a desorganizou também à moda
burguesa) nem para a reorganizaçom comunista de toda a vida, tarefa que
deveremos cumprir umha vez conquistada a vitória.
Depois da revoluçom proletária na Rússia e de suas
vitórias em escala internacional, inesperadas para a burguesia e os filisteus,
o mundo inteiro transformou-se e a burguesia também é outra em toda a parte. A
burguesia sente-se assustada com o "bolchevismo" e está irritada
contra ele a ponto de quase perder a cabeça; precisamente por isso, acelera, de
um lado, o desenvolvimento dos acontecimentos e, de outro, concentra a atençom
no esmagamento do bolchevismo pola força, debilitando com isso sua posiçom em
muitos outros terrenos. Os comunistas de todos os países avançados devem levar
em conta para a sua táctica essas duas circunstáncias.
Os democratas constitucionalistas russos e Kerenski
passárom dos limites quando
empreendêrom umha furiosa perseguiçom contra os bolcheviques, sobretudo desde
Abril de 1917 e, mais ainda, em junho e julho desse mesmo ano. Os milhons de
exemplares dos jornais burgueses, que gritavam em todos os tons contra os
bolcheviques, ajudárom a conseguir que
as massas valorizassem o bolchevismo, e toda a vida social, mesmo sem o
concurso da imprensa, impregnou-se de discussons sobre o bolchevismo, graças ao
"zelo" da burguesia. Os milionários de todos os países conduzem-se
actualmente de tal modo em escala internacional que lhes devemos ficar
agradecidos de todo o coraçom. Perseguem o bolchevismo com o mesmo zelo com que
o perseguiam anteriormente Kerenski e companhia e, como estes, também passam
dos limites e nos ajudam tanto quanto Kerenski. Quando a burguesia francesa
converte o bolchevismo no ponto central de sua campanha eleitoral, injuriando
por seu bolchevismo socialistas relativamente moderados ou vacilantes; quando a
burguesia norte-americana, perdendo completamente a cabeça, prende milhares e
milhares de indivíduos suspeitos de bolcheviques e cria um ambiente de pánico
propagando em toda a parte a notícia de conjuraçons bolcheviques; quando a burguesia
inglesa, a mais "Séria" do mundo, com todo seu talento e experiência
comete inacreditáveis tolices, funda riquíssimas "sociedades para a luita
contra o bolchevismo", cria umha literatura especial a seu respeito e toma
a seu serviço, para a luita contra ele, um pessoal suplementar de sábios,
agitadores e padres, devemos inclinar-nos e agradecer aos senhores
capitalistas. Trabalham para nós, ajudam-nos a interessar as massas pola
natureza e a significaçom do bolchevismo. E nom podem fazer de outro modo, porque
já fracassárom em suas tentativas de
"fazer silêncio” em torno do bolchevismo e sufocá-lo.
Mas, ao mesmo tempo, a burguesia vê no bolchevismo
quase que exclusivamente um dos seus aspectos: a insurreiçom, a violência, o
terror; por isso procura preparar-se de modo particular para opor resistência e
responder nesse terreno. É possível que em casos isolados, em alguns países,
nesses ou naqueles períodos breves, o consiga; é preciso contar com essa
possibilidade, que nada tem de temível para nós. O comunismo "brota"
literalmente de todos os aspectos da vida social, seus gemes existem
absolutamente em toda a parte, o "contágio" (para empregar a
comparaçom predileta da burguesia e da polícia burguesa e a mais
"agradável" para elas) penetrou profundamente em todos os poros do
organismo e o impregnou completamente. Caso se "feche", com
particular cuidado umha das saídas, o "contágio" encontrará outra, às
vezes a mais inesperada. A vida triunfa acima de todas as cousas. Que a
burguesia se sobressalte, irrite-se até perder a cabeça; que ultrapasse os
limites, faça tolices, vingue-se por antecipaçom dos bolcheviques e se esforce
por aniquilar (na Índia, Hungria, Alemanha, etc.) centenas, milhares, centenas
de milhares de bolcheviques de ontem ou de amanhá; ao fazer isso, procede como
procedêrom todas as classes condenadas pola história a desaparecer. Os
comunistas devem saber quê, seja como for, o futuro lhes pertence. E, por isso,
podemos (e devemos) unir, na grande luita revolucionária, o máximo de paixom à
análise mais fria e serena das furiosas convulsons da burguesia. A revoluçom
russa foi cruelmente esmagada em 1905; os bolcheviques russos fôrom derrotados
em julho de 1917; mais de 15.000 comunistas alemáns fôrom aniquilados por meio
da ardilosa provocaçom e das hábeis manobras de Scheidemann e Noske, aliados à
burguesia e aos generais monárquicos; na Pínlándia e na Hungria o terror branco
fai estragos. Em todos os casos e em todos os países, porém, o comunista
está-se temperando e cresce; suas raízes som tam profundas que as perseguiçons
nom o debilitam, nom o extenuam, mas, polo contrário, reforçam-no. Só falta
umha cousa para que marchemos rumo à vitória com mais firmeza e segurança; que
os comunistas de todos os países compreendamos em toda a parte e até o fim que
em nossa táctica é necessária a máxima noxibilidade. O que falta actualmente ao
comunismo, que cresce magnificamente, sobretudo nos países adiantados, é essa
consciência e o acerto para aplicá-la na prática.
Poderia (e deveria) ser umha liçom útil o que ocorreu
com os chefes da II Internacional, tam eruditos e tam fiéis ao socialismo como
Kautski, Otto Bauer e outros. Compreendiam perfeitamente a necessidade de umha
táctica flexível, tinham aprendido e ensinavam aos demais a dialética de Marx
(e muito do que foi feito por eles nesse terreno será sempre considerado como
umha valiosa aquisiçom da literatura socialista); mas ao aplicar essa dialética
incorrêrom num erro de tal natureza ou se mostrárom na prática tam afastados da dialética, tam incapazes de levar em
conta as rápidas modificaçons de forma e o rápido aparecimento de um conteúdo
novo nas formas antigas, que sua sorte nom é mais invejável que a de Hyndman,
Guesde e Plekhanov. A causa fundamental de seu fracasso consiste em que
"fixárom sua atençom" numa
determinada forma de crescimento do movimento operário e do socialismo,
esquecendo o caráter unilateral dessa fixaçom; tivérom medo de ver a brusca
ruptura, inevitável em virtude das circunstáncias objetivas, e continuárom repetindo as verdades simples memorizadas e
à primeira vista indiscutíveis: três é maior do que dous. Mas a política
parece-se mais com a álgebra que com a aritmética e mais ainda com as
matemáticas superiores que com as matemáticas elementares. Na realidade, todas
as formas antigas do movimento socialista adquirírom um novo conteúdo, razom
pola qual surgiu diante das cifras um sinal novo, o sinal "menos",
enquanto nossos sábios continuavam (e continuam) tratando teimosamente de
persuadir-se e de persuadir todo mundo de que "menos três" é maior
que "menos dous".
É preciso fazer com que os comunistas nom repitam, só
que em sentido contrário, esse mesmo erro, ou melhor, que esse mesmo erro,
cometido, só que em sentido contrário, polos comunistas "de esquerda>,
seja corrigido o mais cedo possível e curado rapidamente e com o menor
sofrimento para o organismo. Nom só o doutrinarismo de direita constitui um
erro; o de esquerda também. Naturalmente, o erro do doutrinarismo de esquerda
no comunismo é hoje em dia muito menos perigoso e grave que o de direita (isto
é, do social-chovinismo e do kautskismo); mas isso é devido apenas a que o
comunismo de esquerda é umha tendência novíssima, que acaba de nascer. Só por
isso, a doença pode ser, em certas condiçons, curada facilmente e é necessário
empreender seu tratamento com a máxima energia.
As formas antigas romperam-se, pois aconteceu de seu
novo conteúdo - antiproletário, reaccionário - adquirir um desenvolvimento
desmedido. Do ponto de vista do desenvolvimento do comunismo internacional
possuímos hoje um conteúdo tam sólido, tam forte e tam poderoso de nossa
atividade (em prol do Poder dos Soviets, em prol da ditadura do proletariado)
que pode e deve manifestar-se sob qualquer forma, tanto antiga como nova; que
pode e deve transformar, vencer, submeter todas as formas, nom só novas como
também antigas, nom para conciliar-se com estas, mas para saber convertê-las
todas, as novas e as velhas, numa arma da vitória completa e definitiva,
decisiva e irremissível do comunismo.
Os comunistas devem
consagrar todos os seus esforços para orientar o movimento operária e o
desenvolvimento social em geral no sentido do caminho mais reto e rápido para a
vitória mundial do Poder Soviético e da ditadura do proletariado. Trata-se de
umha verdade indiscutível. Mas basta dar um pequeno passo além - ainda que
pareça um passo dado na mesma direçom - para que essa verdade se transforme em
erro. Basta dizer, como dizem os comunistas de esquerda alemáns e ingleses, que
nom aceitamos senom um caminho, o caminho reto, que nom admitimos manobras,
acordos e compromissos, para que isso se torne um erro que pode causar, e em
parte já causou e continua causando, os mais sérios prejuízos ao comunismo. O
doutrinarismo de direita obstinou-se em nom admitir senom as formas antigas e
fracassou do modo mais completo por nom ter percebido o novo conteúdo. O
doutrinarismo de esquerda obstina-se em repelir incondicionalmente certas
formas antigas, sem ver que o novo conteúdo abre seu caminho através de todas
as espécies de formas e que nosso dever de comunistas consiste em dominá-las
todas, em aprender a completar umas com as outras e a substituir umas por
outras com a máxima rapidez, em adaptar a nossa táctica a qualquer modificaçom
dessa natureza, causada por umha classe que nom seja a nossa ou por esforços
que nom sejam os nossos.
A revoluçom universal, que recebeu um impulso tam
poderoso e foi acelerada com tanta intensidade polos horrores, vilezas e
abominaçons da guerra imperialista mundial e pola situaçom sem saída que esta
originou, essa revoluçom estende-se e aprofunda-se com rapidez tam
extraordinária, riqueza tam magnífica de formas sucessivas, com umha refutaçom
prática tam edificante de todo doutrinarismo, que existem todos os motivos para
acreditar que o movimento comunista internacional se curará rapidamente e por
completo da doença infantil do comunismo "de esquerda".
27 de Abril de 1920.
Enquanto as editoras de nosso país - que foi saqueado
polos imperialistas de todo o mundo em vingança pola vitória da revoluçom
proletária e que continua sendo saqueado e bloqueado, apesar de todas as
promessas feitas aos operários desses países imperialistas - organizavam a
publicaçom do meu folheto, recebemos do estrangeiro dados complementares. Sem
aspirar, absolutamente, a que meu folheto seja algo mais que breves notas de um
publicista, abordarei ligeiramente alguns pontos.
I. CISOM DOS COMUNISTAS
ALEMÁNS
A cisom dos comunistas na Alemanha é um fato. Os
"esquerdistas" ou "oposiçom de princípio" construiriam um
"Partido Comunista Operário", à parte, em contraposiçom ao
"Partido Comunista". Na Itália, polo visto, as cousas também marcham
para a cisom. Digo "pelo visto" porque disponho apenas de dous novos
números, o 7 e o 8, do jornal esquerdista II Soviet, onde se discute
abertamente a possibilidade e a necessidade da cisom, além de falar-se também
de um congresso da fraçom dos "abstencionistas" (ou boicotadores,
isto é, dos inimigos da participaçom no parlamento) que até agora pertence ao
Partido Socialista Italiano.
Há receio de que a cisom dos
"esquerdistas", antiparlamentaristas (e em parte também
antipolíticos, inimigos do partido político e do trabalho nos sindicatos),
converta-se num fenómeno internacional, como a cisom dos "centristas"
(ou kautskistas, longuetistas, "independentes", etc.). Assim seja.
Afinal de contas, a cisom é melhor que a confusom, que impede o desenvolvimento
ideológico, teórico e revolucionário do Partido e seu amadurecimento, assim
como seu trabalho prático unitário, verdadeiramente organizado, que realmente
prepare a ditadura do proletariado.,
Que os "esquerdistas" provem o acerto de
sua linha na prática, em ámbito nacional e internacional, que tentem preparar
(e depois realizar) a ditadura do proletariado sem um partido rigorosamente
centralizado, dotado de umha disciplina férrea, sem saber dominar todas as
esferas, ramos e variedades do trabalho político e cultural. A experiência
prática os ensinará com rapidez.
É preciso fazer todos os esforços necessários para
que a cisom dos "esquerdistas" nom dificulte, ou dificulte o mínimo
possível, a fusom num só partido, necessária e inevitável num futuro próximo,
de todos os participantes do movimento operário que defendem sincera e
honradamente o Poder Soviético e a ditadura do proletariado. Para os
bolcheviques da Rússia foi umha felicidade singular disporem de 15 anos para
luitar de modo sistemático e até o fim tanto contra os mencheviques (isto é, os
oportunistas e os "centristas") como contra os "esquerdistas"
muito antes da luita directa das massas pola ditadura do proletariado. Esse
mesmo trabalho tem que ser feito agora na Europa e na América em ritmo de
"marcha forçada". Algumhas pessoas, sobretudo as que figuram entre os
frustrados candidatos a chefe, podem insistir durante muito tempo em seus erros
(se lhes, faltam disciplina proletária e "honradez consigo mesmo");
mas as massas operárias, quando chegar a hora, unirám-se fácil e rapidamente e
unirám todos os comunistas sinceros num só partido, capaz de instaurar o regime
soviético e a ditadura do proletariado*.
___________
* No que concerne à futura fusom dos comunistas de
"esquerda", dos antiparlamentaristas, com os comunistas em geral
acrescentarei o seguinte: na medida em que pude conhecer os jornais dos
comunistas "de esquerda" e dos comunistas em geral da Alemanha, os
primeiros levam a vantagem de saber efectuar melhor a agitaçom entre as massas.
Algo semelhante observei várias vezes - ainda que em menores proporçons e em
organizaçons locais isoladas, e nom em todo o pais - na história do Partido
Bolchevique. Em 1907-1908, por exemplo, os bolcheviques "de esquerda"
realizavam às vezes e em alguns lugares seu trabalho de agitaçom entre as
massas com maior êxito que nós. Isso explica-se, em parte, por ser mais fácil
aproximar-se das massas com a táctica da negaçom "pura e simples"
numa situaçom revolucionária, ou quando ainda estám bem vivas as lembranças da
revoluçom. Isso, contudo, nom chega a ser um argumento em favor de semelhante
táctica. Em todo caso, nom há a menor dúvida de que um Partido Comunista que
queira ser realmente a vanguarda, o destacamento avançado da classe
revolucionária, do proletariado, e que deseje, além disso aprender a dirigir a
grande massa nom só proletária, como também nom proletária, a massa trabalhadora
e explorada, tem obrigaçom de saber fazer propaganda, organizar e agitar da
maneira mais acessível, compreensível, clara e viva tanto na "praça"
urbana, Abril, como nas aldeias. (Nota do autor)
II. OS COMUNISTAS
E OS INDEPENDENTES NA ALEMANHA
No folheto expressei a opiniom de que o compromisso
entre os comunistas e a ala esquerda dos independentes é necessário e útil para
o comunismo, mas que nom é fácil realizá-lo. Os exemplares dos jornais que
recebi depois confirmam ambas as cousas. No n.º. 32 de Bandeira Vermelha, órgao
do C.C. do Partido Comunista da Alemanha (Die Rote Fahne, Zentralorgan der
Kommun. Partei Deutschlands, Spartacusbund - Uniom de Espartaco - de 26 de
Março de 1920), foi publicada umha "declaraçom" do referido C.C.
sobre o "putch" (conspiraçom, golpe) de Kapp-Lüttwitz[1]
e sobre o "governo socialista". Essa declaraçom é absolutamente justa
tanto na premissa fundamental quanto na conclusom prática. A premissa
fundamental consiste em que, actualmente, nom há "base objetiva" para
a ditadura do proletariado, porquanto a "maioria dos operários
urbanos" apóia os independentes. Conclusom: promessa de "oposiçom
leal" ao governo "socialista (isto é, renúncia de preparar sua
"derrubada através da violência") excluindo-se os partidos
burgueses-capitalistas".
A táctica, sem dúvida algumha, é justa no
fundamental. Mas, se nom é necessário que nos detenhamos em pequenas
inexactidons de fórmula, é impossível, por outro lado, deixar de assinalar que
nom se pode chamar de "socialista" (numa declaraçom oficial do
Partido Comunista) um governo de social-traidores; que nom se pode falar de
exclusom "dos partidos burgueses-capitalistas", quando os partidos
dos Scheidemann e dos senhores Kautski-Críspien som pequeno-burgueses-democráticos;
que nom se pode escrever cousas como o parágrafo 4 da declaraçom, que diz:
"... Para continuar ganhando as massas
proletárias para o comunismo tem enorme importáncia, quanto ao desenvolvimento
da ditadura do proletariado, umha situaçom em que a liberdade política possa
ser utilizada de modo ilimitado e a democracia burguesa nom possa actuar como
ditadura do capital..."
Tal situaçom é impossível. Os chefes
pequeno-burgueses, os Henderson (Scheidemann) o os Snowden (Críspien) alemáns
nom vam além, nem podem ir, dos limites da democracia burguesa, que, por sua
vez, nom pode deixar de ser a ditadura do capital. Do ponto de vista dos
resultados práticos propostos com absoluta clareza polo C.C. do Partido
Comunista, essas cousas de modo algum deveriam ter sido escritas, erradas por
principio e prejudiciais politicamente. Teria sido suficiente dizer (caso se
quer dar demonstraçons de cortesia parlamentar): enquanto a maioria dos
operários urbanos seguir os independentes, nós, os comunistas, nom podemos
impedir que esses operários se libertem de suas últimas ilusons
democrático-pequeno-burguesas (ou seja, também
"burguesas-capitalistas") com a experiência de "seu"
governo. Isso basta para justificar o compromisso, que é realmente necessário e
que deve consistir em renunciar durante certo tempo às tentativas de derrubada
pola força de um governo que conta com a confiança da maioria dos operários
urbanos. No que concerne à agitaçom diária entre as massas, que dispensa a
cortesia oficial, parlamentar, poderia-se, naturalmente, acrescentar: deixemos
que miseráveis como os Scheidemann e filisteus como os Kautski-Crispien
demonstrem com seus atos até que ponto enganam os operários e a si próprios;
seu governo "puro" realizará com "mais pureza que ninguém"
o trabalho de "limpar" as cavalariças dos Augias do socialismo, do
social-democratismo. e demais variaçons da social-traiçào.
A verdadeira natureza dos atuais chefes do
"Partido Social-democrata Independente da Alemanha" (desses chefes de
quem se di, fugindo à verdade, que já perdêrom toda a influência e que, na
realidade, ainda som mais perigosos para o proletariado que os
social-democratas húngaros, que se denominavam comunistas e prometiam
"apoiar" a ditadura do proletariado) manifestou-se mais de umha vez durante
a korniloviada alemá, isto é durante o "putch" dos senhores Kapp e
Lüttwitz*. Exemplo disto, pequeno mas eloqüente, nos é dado polos artigos de
Karl Kautski - Os minutos decisivos (Entscheidende Stunden), publicado em
Freiheit (A Liberdade, órgao dos independentes) aos 30 de Março de 1920 - e de
Arthur Crispien - Sobre a situaçom política, no mesmo jornal, n.º. 14 de Abril
de 1920. Estes senhores carecem totalmente da capacidade de pensar e
.raciocinar como revolucionários. Som uns choramingas democratas pequeno-burgueses,
mil vezes mais, perigosos para o proletariado declarando-se partidários do
Poder Soviético e da ditadura do proletariado, pois, de fato, cometerám
inevitavelmente umha traiçom em cada momento difícil e perigoso...
"sinceramente", convencidos de que ajudam o proletariado! Também os
social-democratas húngaros, que se baptizárom
de comunistas, queriam "ajudar" o proletariado quando, por
covardia e baixeza, considerárom
desesperada a situaçom do Poder Soviético na Hungria e se
lamuriárom diante dos agentes dos
capitalistas da Entente e seus verdugos.
__________________
* Isso foi explicado, diga-se de passagem, com
extraordinária clareza, concreçom e exactidom, à maneira marxista, polo
excelente órgao do Partido Comunista Austríaco Bandeira Vermelha em seus n.ºs
de 28 e 30 de Março de 1920 (Die Rote Fahne, Wien 1920, n.ºs 226 und 267; L.
L.: Ein neuer Abschnitt der deutschen Revolution). (L.L.: umha nova etapa da
revoluçom alemá). (Nota da Redaçom)
III. TURATI E
COMPANHIA NA ITÁLIA
Os números do jornal italiano II Soviet a que me
referi confirmam tudo que eu dixo no folheto a respeito do erro do Partido
Socialista Italiano, que tolera em suas fileiras membros desse tipo e,
inclusive, um grupo de parlamentares dessa espécie. Mais ainda o confirma umha
testemunha desinteressada, o correspondente em Roma do jornal liberal burguês
The Manchester Guardian (Inglaterra), que no número de 12 de Março de 1920
publicou umha entrevista sua com Turati.
"O Sr. Turati - di o correspondente – é de
opiniom que o perigo revolucionário nom é tam grande que possa suscitar temores
na Itália. Os maximalistas jogam com o fogo das teorias soviéticas
exclusivamente para manter as massas em estado de tensom e excitaçom. Essas
teorias som, contudo, noçons puramente fantasistas, programas imaturos, que nom
servem para ser usados na prática. Servem apenas para manter as classes
trabalhadoras em estado de expectativa. Essa gente que as emprega como isca
para deslumbrar os proletários, vê-se obrigada a enfrentar umha luita cotidiana
para conquistar algumhas melhorias económicas, muitas vezes insignificantes, a
fim de adiar o momento em que as classes trabalhadoras irám perder as ilusons e
a fé em seus mitos queridos. Dai esse grande surto de greves de todas as grandezas
e a qualquer pretexto, inclusive as últimas nos Correios e nas ferrovias, que
tornam ainda mais grave a situaçom, já difícil em si. O país está excitado
polas dificuldades provenientes de seu problema adriático, sente-se esmagado
por sua dívida externa e por sua desmedida emissom de papel-moeda, e, contudo,
ainda está muito longe de compreender a necessidade de assimilar a disciplina
no trabalho, único fator capaz de restabelecer a ordem e a prosperidade.. -
" Está claro como a luz do dia que o correspondente inglês deu liberdade à
sua pena e dixo umha verdade que, provavelmente, o próprio Turati. E seus
defensores, cúmplices e inspiradores burgueses na Itália ocultam e procuram
embelezar. Essa verdade consiste em que as ideias e o trabalho político dos
senhores Turatí, Treves, Modigliani, Dugoni e Cia. som exactamente como o
correspondente inglês esboça.. Isso é umha autêntica social-traiçom. Como é
significativa a simples defesa da ordem e da disciplina para os operários que
vivem na escravidom assalariada, que trabalham para o enriquecimento dos
capitalistas ! Como som bem conhecidos por nós, russos, todos esses discursos
mencheviques ! Como é valiosa a confissom de que as massas estám a favor do
Poder Soviético ! Como é estúpida e vulgarmente burguesa a sua incompreensom do
papel revolucionário das greves que crescem espontaneamente ! Sim, sem dúvida,
o correspondente inglês do jornal liberal burguês prestou um mal serviço aos
senhores, Turati & Cia. e confirmou de modo excelente o quanto som justas
as exigências do camarada Bordiga e seus amigos do I1 Soviet, que reclamam do
Partido Socialista Italiano, se este quer realmente estar a favor da III
Internacional, a expulsom de suas fileiras, cobrindo-os de opróbrio, dos
senhores Turati & Cia. e sua transformaçom num Partido Comunista autêntico,
tanto por seu nome quanto por seus atos.
IV. CONCLUSONS
ERRADAS DE PREMISSAS JUSTAS
De sua justa crítica aos senhores Turati & Cia.,
porém, o camarada Bordiga e seus amigos "esquerdistas" tírom a
conclusom falsa de que é prejudicial em geral participar do parlamento. Os
"esquerdistas", nom podem, nem de longe, apresentar argumentos sérios
em defesa dessa opiniom. Simplesmente desconhecem (ou tratam de esquecer) os
exemplos internacionais de utilizaçom verdadeiramente revolucionária e
comunista dos parlamentos burgueses, indiscutivelmente proveitosa para preparar
a revoluçom proletária. Simplesmente nom imaginam umha forma "nova"
de utilizaçom do parlamentarismo e esbravejam, repetindo-se até o infinito,
contra a utilizaçom "antiga", nom bolchevique.
Nisso, precisamente, reside seu erro básico. Nom só
no terreno do parlamentarismo, mas em todos os terrenos da atividade humana,. o
comunismo deve apresentar (e nom, poderá fazê-lo sem um trabalho prolongado,
persistente e tenaz) algum princípio novo, que rompa de modo radical com as
tradiçons da II Internacional (conservando e desenvolvendo ao mesmo tempo tudo
que esta apresentou de bom).
Tomemos, por exemplo, o trabalho de imprensa. Os
jornais, folhetos e manifestos. cumprem umha funçom necessária de propaganda,
agitaçom e organizaçom. Nom pode haver um movimento de massas em nengum país,
por menos civilizado. que ele seja, sem um aparelho de imprensa. E nem os
gritos contra os "chefes", assim como os juramentos de resguardar a
pureza das massas. contra a influência dos chefes, podem eliminar a necessidade
de utilizar-se nesse trabalho pessoas procedentes dos meios intelectuais
burgueses, ou podem livrar-nos da atmosfera e do ambiente democrático-burgueses,
"de propriedade privada", em que se realiza esse trabalho sob o
regime capitalista. Passados já dous anos e meio depois da derrubada da
burguesia e da conquista do Poder político polo proletariado ainda sentimos em
torno de nós essa atmosfera, esse ambiente de relaçom de propriedade privada,
democrático-burguesas, de massas (camponesas, artesás).
0 parlamentarismo é umha forma de trabalho; o
jornalismo é outra. O conteúdo pode ser comunista em ambas, e deve sê-lo, se os
que trabalham num e noutro sector som verdadeiros comunistas, verdadeiros
membros do partido proletário, de massas. Mas, tanto numa como noutra - e em
qualquer esfera de trabalho no capitalismo e no período de transiçom do
capitalismo para o socialismo - é impossível evitar as dificuldades e as
tarefas originais que o proletariado deve vencer e resolver para utilizar em
seu benefício pessoas que procedem de meios burgueses, para alcançar a vitória
sobre os preconceitos e a influência dos intelectuais burgueses, para debilitar
a resistência do ambiente pequeno-burguês (e, posteriormente, para
transformá-lo por completo).
Nom vimos, por acaso, em todos os países, até a
guerra de 1914-1918, umha extraordinária abundáncia de exemplos de anarquistas,
sindicalistas e demais elementos muito "esquerdistas" que fulminavam
o parlamentarismo, que zombavam dos parlamentares socialistas eivados de
vulgaridade burguesa, fustigavam seu arrivismo, etc., etc.,. e faziam a mesma
carreira burguesa através do jornalismo, através do trabalho nos sindicatos?
Acaso nom som típicos os exemplos dos senhores Jouhaux e Merrheim, para só
falarmos na França ?
A infantilidade de "negar" a participaçom
no parlamentarismo consiste, exactamente, em que com esse método tam
"simples", "fácil" e pseudo-revolucionário querem
"resolver" a difícil tarefa de luitar contra as influências
democrático-burguesas no seio do movimento operário e, na realidade, a única
cousa que fazem é fugir de sua própria sombra, fechar os olhos diante das
dificuldades e desembaraçar-se delas apenas com palavras. Nom há dúvida de que
o arrivismo mais desavergonhado, a utilizaçom burguesa dos postos no
parlamento, a gritante deformaçom reformista da acçom parlamentar e a vulgar
rotina pequeno-burguesa som traços peculiares, habituais e predominantes, engendrados
polo capitalismo em toda a parte, e nom só fora como também dentro do movimento
operário. Mas o capitalismo e o ambiente burguês por ele criado (e que mesmo
depois da derrubada da burguesia só desaparece muito lentamente, porquanto o
campesinato fai a burguesia renascer incessantemente) engendram inevitavelmente
em todas as esferas do trabalho e da vida, no fundo, o mesmo arrivismo burguês,
o mesmo chovinismo nacional, a mesma vulgaridade pequeno-burgues, etc., com
insignificantes variaçons de forma.
Imaginais ser, caros boicotadores e
antiparlamentaristas, "terrivelmente revolucionários", mas, na
realidade, vos assustastes diante das dificuldades relativamente pequenas da
luita contra a influências burguesas no movimento operário; no entanto, a vossa
vitória, isto é, a derrubada da burguesia e a conquista do Poder político polo
proletariado criará essas mesmas dificuldades em proporçons maiores,
incomensuravelmente maiores. Vós vos assustastes como crianças com a pequena
dificuldade que amanhá e depois de amanhá tereis, de qualquer maneira, de
aprender, e aprender completamente, a vencer as mesmas dificuldades, em
proporçons imensamente mais consideráveis.
Sob o Poder Soviético, tratarám de penetrar ainda
mais no vosso – e no nosso – partido proletário elementos procedentes da
intelectualidade burguesa. Penetrarám também nos Soviets, nos tribunais e no
aparelho administrativo, pois é impossível construir o comunismo com outra
cousa que nom seja o material humano prolongada, nas bases da ditadura do
proletariado, os próprios proletários, que nom se libertam de seus preconceitos
pequeno-burgueses de repente, por milagre, por obra e graça do espírito santo,
ou polo efeito mágico de umha palavra de ordem, de umha resoluçom ou um
decreto, mais sim exclusivamente através de umha luita de massas longa e
difícil contra a influência das ideias pequeno-burguesas entre as massas. Sob o
Poder Soviético, essas mesmas tarefas que o antiparlamentarista afasta agora
com um gesto cheio de orgulho, altivez, leviandade e infantilidade, essas
mesmas tarefas ressurgirám dentro dos Soviets, dentro da administraçom
soviética, entre os "procuradores" soviéticos (eliminamos na Rússia,
e fizemos bem em eliminar, a advocacia burguesa, e entretanto ela renasce entre
nós sob o disfarce dos "procuradores"[2]
"soviéticos"). Entre os engenheiros soviéticos, os advogados
soviéticos e os operários privilegiados (isto é, os de mais alta qualificaçom e
melhor colocados) nas fábricas soviéticas vemos renascer de modo constante
absolutamente todos os aspectos negativos próprios do parlamentarismo burguês,
e só através de umha luita renovada, incansável, longa e tenaz do espírito de
organizaçom e disciplina proletárias vamos vencendo - a pouco e pouco - este
mal.
É claro que sob o domínio da burguesia é muito
"difícil" vencer os costumes burgueses no próprio partido, isto é, no
partido operário: é "difícil" expulsar do partido os chefes
parlamentaristas acostumados com os preconceitos burgueses e por eles
irremediavelmente corrompidos; é "difícil" submeter à disciplina
proletária o número absolutamente necessário (mesmo que numa quantidade bem
limitada) de pessoas que procedem da burguesia; é "difícil" criar no
parlamento burguês umha fraçom comunista plenamente digna da classe operária; é
"difícil" conseguir que os parlamentares comunistas nom se deixem
levar polas frivolidades parlamentaristas dos burgueses, e que se entreguem ao
mais que essencial trabalho de propaganda, agitaçom e organizaçom das massas.
Nom há dúvida de que tudo isso é "difícil; foi difícil na Rússia e é
incomparavelmente mais difícil na Europa Ocidental e na América, onde a
burguesia, as tradiçons democrático-burguesas, etc., som muito mais fortes.
Mas todas essas "dificuldades"som, na
verdade, pueris se as compararmos com as tarefas exactamente da mesma espécie
que o proletariado terá de resolver inevitavelmente para triunfar, durante a
revoluçom proletária e depois de tomar o Poder. Em comparaçom com estes
problemas, verdadeiramente gigantescos, que surgirám sob a ditadura do
proletariado – quando será preciso reeducar milhons de camponeses e pequenos
proprietários, centenas de milhares de empregados, funcionários e intelectuais
burgueses, para subordiná-los todos ao Estado proletário e extirpar-lhes os
hábitos e tradiçons burgueses – tornar-se de umha facilidade infantil criar sob
o domínio da burguesia umha fraçom autenticamente comunista do verdadeiro
partido proletário no parlamento burguês.
Se os camaradas "esquerdistas"e
antiparlametares nom aprendêrom agora a vencer umha dificuldade que é até
pequena, pode-se dizer com segurança que ou nom estarám em condiçons de
instaurar a ditadura do proletariado, nom poderám subordinar e transformar em
grande escala os intelectuais e instituiçons burgueses, ou serám obrigados a terminar
de aprender a toda velocidade, pressa que os fará causar grandes danos à causa
proletária, cometer maior número de erros que os que comumente cometeriam, dar
mostras de debilidade e incapacidade acima do normal, etc., etc.
Enquanto a burguesia nom for derrubada - e, depois de
sua queda, enquanto nom desaparecerem totalmente a pequena economia e a pequena
produçom mercantil - o ambiente burguês, os hábitos de propriedade privada e as
tradiçons pequeno-burguesas prejudicarám o trabalho do proletariado tanto
dentro como fora do movimento operário, nom só na atividade parlamentar, como,
inevitavelmente, em todas e em cada umha das esferas da atividade social, em
todos os sectores culturais e políticos, sem exceçom. E constitui um erro
profundíssimo, polo qual inapelavelmente se deverá pagar mais tarde, procurar
livrar-se ou esquivar-se de umha das tarefas desagradáveis ou das dificuldades
surgidas numa das esferas de trabalho. É preciso aprender, e aprender
plenamente, a dominar todos os aspectos da atividade e do trabalho, sem
nengumha exceçom, a vencer em toda a parte todas as dificuldades e todos os
costumes, tradiçons e hábitos burgueses. Qualquer outra maneira de encarar a
questom é totalmente despida de seriedade, é infantil.
12 de Maio de 1920
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Na ediçom russa desse livro apresentei com certa
inexactidom a conduta do Partido Comunista Holandês em seu conjunto, no terreno
da política revolucionária mundial. Por isso, aproveito a oportunidade para
publicar a carta abaixo transcrita, carta de nossos camaradas holandeses sobre
este problema. Além disso, aproveito também para corrigir a expressom
"tribunistas holandeses" que empreguei no texto russo,
substituindo-a, polas palavras "alguns membros do Partido Comunista Holandês".
I. Lenine
Moscovo, 30 de junho de 1920
Querido camarada Lenine:
Graças à sua amabilidade, os membros da delegaçom
holandesa ao II Congresso da Internacional Comunista tivemos a possibilidade de
ler seu livro A Doença Infantil do "Esquerdismo" no Comunismo, antes
de ser ele publicado nos idiomas da Europa Ocidental. Nesse livro você ressalta
várias vezes a sua desaprovaçom do papel desempenhado por alguns membros do
Partido Comunista Holandês na política internacional,
Devemos protestar, contudo, contra o facto de você
atribuir ao Partido Comunista a responsabilidade polos atos desses membros, o
que é extremamente inexacto. Além disso, é injusto, pois esses membros do
Partido Comunista Holandês participam muito pouco, ou nom participam
absolutamente, da atividade cotidiana do Partido; procuram também, directa ou
indirectamente, aplicar no Partido Comunista as palavras de ordem
oposicionistas, contra as quais o Partido Comunista Holandes e todos os seus
órgaos empenharam-se e empenham-se até hoje na mais enérgica luta.
Saudaçons fraternais
(em nome da delegaçom holandesa)
D. I. Wijnkoop
[1] Lenine refere-se ao golpe de Estado monárquico-militar na Alemanha, ao chamado "putch de Kapp", efetuado pola reaccionária camarilha militar alemá sob a direçom de Kapp. Os conspiradores preparárom o golpe de Estado em evidente conivência com o Governo social-demócrata. A 13 de Março de 1920 os golpistas deslocárom unidades militares para Berlim e, nom encontrando resistência do Governo, declararam-no derrubado e formárom um novo governo. Os operários berlinenses respondêrom ao golpe de Estado com a greve geral. O Governo Kapp caiu em virtude da pressom operária, retornando ao Poder os social-democratas, que seguírom umha política. de repressom aos operários. - pág. 128
[2] "Procuradores"
"Soviéticos": colégios de procuradores criados em Fevereiro de 1918,
junto aos Soviets de deputados operários, soldados, camponeses e cossacos. Em
outubro de 1920 esses colégios fôrom suprimidos. - pág. 134
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