O IMPERIALISMO, ETAPA SUPERIOR DO CAPITALISMO. V. I. LENINE

 

 

II.  OS BANCOS E O SEU NOVO PAPEL

 

A operaçom fundamental e inicial que os bancos realizam é a de intermediários nos pagamentos. É assim que eles convertem o capital-dinheiro inactivo em capital activo, isto é, em capital que rende lucro; reúnem toda a espécie de rendimentos em dinheiro e colocam-nos à disposiçom da classe capitalista.

 

À medida que vam aumentando as operaçons bancárias e se concentram num número reduzido de estabelecimentos, os bancos convertem-se, de modestos intermediários que eram antes, em monopolistas omnipotentes, que disponhem de quase todo o capital-dinheiro do conjunto dos capitalistas e pequenos patrons, bem como da maior parte dos meios de produçom e das fontes de matérias-primas de um ou de muitos países. Esta transformaçom dos numerosos modestos intermediários num punhado de monopolistas constitui um dos processos fundamentais da transformaçom do capitalismo em imperialismo capitalista, e por isso devemos deter-nos, em primeiro lugar, na concentraçom bancária.

 

No exercício de 1907-1908, os depósitos de todas as sociedades anónimas bancárias da Alemanha que possuíam um capital de mais de um milhom de marcos eram de 7.000 milhons de marcos; no exercício de 1912-1913 tinham subido para 9800 milhons. Um aumento de 40 % em cinco anos, com a particularidade que, desses 2.800 milhons de aumento, 2.750 milhons correspondiam a 57 bancos com um capital de mais de 10 milhons de marcos. A distribuiçom dos depósitos entre os bancos grandes e pequenos era a seguinte [1] :

 

PERCENTAGEM DE TODOS OS DEPÓSITOS

 

 

 

 

 

 

 

Nos 48 bancos

 

Nos bancos

 

Nos 9 grandes

restantes com

Nos 115 bancos

pequenos (com

 

bancos

capital superior

com capital de

menos de

 

Berlinenses

a 10 milhons

1 a 10 milhons

1  milhom)

 

 

de marcos

 

 

 

 

 

 

 

1907-1908 ........

47

32,5

16,5

4

1912-1913 ........

49

36

12

3

 

 

 

 

 

 

 

Os bancos pequenos vam sendo afastados polos grandes, nove dos quais concentram quase metade de todos os depósitos. E aqui ainda nom se tenhem em conta muitos elementos, por exemplo a transformaçom de numerosos bancos pequenos em simples sucursais dos grandes, etc., do que trataremos mais adiante.

 

Em fins de 1913, Schulze-Gaevernitz calculava os depósitos dos 9 grandes bancos berlinenses em 5.100 milhons de marcos para um total de cerca de 10.000 milhons. Tomando em consideraçom nom só os depósitos mas todo o capital bancário, esse mesmo autor escrevia: “Em fins de 1909, os nove grandes bancos berlinenses, contando com os bancos a eles ligados, controlavam 11.300 milhons de marcos, isto é, cerca de 83 % de todo o capital bancário alemám. O Banco Alemám (Deutsche Bank), que controla, contando com os bancos a ele ligados, cerca de 3.000 milhons de marcos, representa, ao lado da administraçom prussiana dos caminhos de ferro do Estado, a acumulaçom de capital mais considerável do Velho Mundo, com a particularidade de estar altamente descentralizada.” [2]

Sublinhamos a indicaçom relativa aos bancos “ligados” porque se refere a umha das características mais importantes da concentraçom capitalista moderna. Os grandes estabelecimentos, particularmente os bancos, nom só absorvem directamente os pequenos como os “incorporam”, subordinam, incluem-nos no “seu” grupo, no seu “consórcio” - segundo o termo técnico - por meio da “participaçom” no seu capital, da compra ou da troca de acçons, do sistema de créditos, etc., etc. O Prof. Liefmann consagrou todo um volumoso “trabalho” de meio milhar de páginas à descriçom das “sociedades de participaçom e financiamento” contemporáneas [3] , mas, infelizmente, acrescentando raciocínios “teóricos”, de qualidade mais que inferior a um material em bruto, freqüentemente mal digerido. Ao que conduz este sistema de “participaçom” do ponto de vista da concentraçom, mostra-o melhor do que qualquer outra a obra do Sr. Riesser, “personalidade” do mundo das finanças, acerca dos grandes bancos alemáns. Todavia, antes de examinarmos os seus dados, exporemos um exemplo concreto do sistema de “participaçom”.

 

O “grupo” do Banco Alemám é um dos mais importantes, para nom dizer o mais importante, dos grupos de grandes bancos. Para nos apercebermos dos laços principais que ligam entre si todos os bancos do grupo mencionado é necessário distinguirmos as “participaçons” de primeiro, segundo e terceiro grau, ou, o que é o mesmo, a dependência (dos bancos mais pequenos em relaçom ao Banco Alemám) de primeiro, segundo e terceiro grau. Os resultados som os seguintes [4] :

 

 

 

 

O banco Alemám

Dependência

Dependência

Dependência

participa

de 1º grau

de 2º grau

de 3º grau

 

 

 

 

permanentemente .

em 17 bancos

dos quais 9 parti-

dos quais 4 parti-

 

 

cipam noutros 34

cipam noutros 7

por tempo indeter-

 

 

 

minado ................

em 5 bancos

--------

---------

 

 

 

 

ocasionalmente .....

em 8 bancos

dos quais 5 parti-

dos quais 2 parti-

 

 

cipam noutros 14

cipam noutros 2

 

 

 

 

Total....................

em 30 bancos

dos quais 14 parti-

dos quais 6 parti-

 

 

cipam noutros 48

cipam noutros 9

 

 

 

 

Entre os oito bancos “dependentes de primeiro grau”, subordinados ao Banco Alemám “ocasionalmente”, figuram três bancos estrangeiros: um austríaco (a Sociedade Bancária - Bankverein - de Viena) e dous russos (o Banco Comercial Siberiano - Sibírski Torgóvi Bank e o Banco Russo de Comércio Externo - Rússki Bank dliá Vnéchnei Torgóvii). No total, fam parte do grupo do Banco Alemám, directa ou indirectamente, parcial ou totalmente, 87 bancos, e o capital total, próprio ou alheio, que o grupo controla calcula-se em 2 ou 3 mil milhons de marcos.

 

É evidente que um banco que se encontra à frente de um tal grupo e que se pom de acordo com meia dúzia de outros bancos, quase tam importantes como ele, para operaçons financeiras particularmente volumosas e lucrativas, tais como os empréstimos públicos, deixou já de ser um “intermediário”) para se converter na aliança de um punhado de monopolistas.

 

Os dados seguintes de Riesser, que citamos de forma abreviada, mostram a rapidez com que, em fins do século XIX e princípios do século XX, se efectuou a concentraçom bancária na Alemanha:

 

SEIS GRANDES BANCOS BERLINENSES TINHAM

                                                                                                       

 

Sucursais

Caixas de

Participaçons

Total

Anos

na

depósito e casas

constantes em

dos

 

Alemanha

de cámbio

sociedades anónimas

estabelecimentos

 

 

 

bancárias alemás

 

 

 

 

 

 

1895 ..................

  16

  14

 1

 42

1900 ..................

  21

  40

 8

 80

1911 ..................

104

276

63

450

 

 

 

 

 

 

Estes dados permitem ver a rapidez com que cresce a apertada rede de canais que abarca todo o país, centraliza todos os capitais e rendimentos em dinheiro, converte milhares e milhares de empresas dispersas numha empresa capitalista única, nacional a princípio e mundial depois. A “descentralizaçom” de que, na passagem que referimos acima, falava Schulze-Gaevernitz em nome da economia política burguesa dos nossos dias, consiste, na realidade, na subordinaçom a um centro único de um número cada vez maior de unidades económicas que antes eram relativamente “independentes”, ou, para sermos mais exactos, eram localmente limitadas. Trata-se pois, com efeito, de umha centralizaçom, de um reforço do papel, da importáncia e do poder dos gigantes monopolistas.

 

Nos países capitalistas mais velhos, a referida “rede bancária” é ainda mais apertada. Na Inglaterra, com a Irlanda, em 1910 o número de sucursais de todos os bancos era de 7.151. Quatro grandes bancos tinham mais de 400 sucursais cada um (de 447 a 689); seguiam-se outros quatro, com mais de 200, e 11 com mais de 100.

 

Em França, os três bancos mais importantes, o Crédit Lyonnais, o Comptoir National e a Société Générale ampliárom as suas operaçons e a rede das suas sucursais do seguinte modo [5] :

 

 

 

 

 

 

 

 Número de sucursais

Capitais (em milhons

 

                     e de caixas

            de francos)

 

 

 

 

 

 

 

Província

Paris

Total

Próprios

Alheios

 

 

 

 

 

 

1870 .......

    47

  17

    64

200

  427

1890 .......

  192

  66

  258

265

1245

1909 .......

1033

196

1229

887

4363

 

 

 

 

 

 

 

Para caracterizar as “relaçons” de um grande banco moderno, Riesser fornece dados sobre o número de cartas enviadas e recebidas pola Sociedade de Desconto (Disconto-Gesellschaft), um dos bancos mais importantes da Alemanha e de todo o mundo (o seu capital ascendia em 1914 a 300 milhons de marcos):

 

 

 

 

          Número de cartas

 

Recebidas

Expedidas

 

 

 

1852 ..........................

     6 135

  6 292

1870 ..........................

 858 000

 87 513

1900 ..........................

 533 102

626 043

 

 

 

 

No grande banco parisiense Crédit Lyonnais, o número de contas correntes, que em 1875 era de 28.535, passou em 1912 [6] para 633.539.

 

Estes simples números mostram, talvez com maior evidência do que longos raciocínios, como a concentraçom do capital e o aumento do movimento dos bancos modificam radicalmente a importáncia destes últimos. Os capitalistas dispersos acabam por constituir um capitalista coletivo. Ao movimentar contas correntes de vários capitalistas, o banco realiza, aparentemente, umha operaçom puramente técnica, unicamente auxiliar. Mas quando esta operaçom cresce até atingir proporçons gigantescas, resulta que um punhado de monopolistas subordina as operaçons comerciais e industriais de toda a sociedade capitalista, colocando-se em condiçons - por meio das suas relaçons bancárias, das contas correntes e de outras operaçons financeiras -, primeiro de conhecer com exactidom a situaçom dos diferentes capitalistas, depois de controlá-los, exercer influência sobre eles mediante a ampliaçom ou a restriçom do crédito, facilitando-o ou dificultando-o, e, finalmente, de decidir inteiramente sobre o seu destino, determinar a sua rendibilidade, privá-los de capital ou permitir-lhes aumentá-lo rapidamente e em grandes proporçons, etc.

 

Acabamos de mencionar o capital de 300 milhons de marcos da Sociedade de Desconto de Berlim. Este aumento de capital da referida sociedade foi um dos episódios da luita pola hegemonia entre os dous bancos berlinenses mais importantes: o Banco Alemám e a Sociedade de Desconto. Em 1870, o primeiro, que entom acabava de aparecer em cena, tinha um capital de 15 milhons, enquanto o do segundo se elevava a 30 milhons. Em 1908, o primeiro tinha um capital de 200 milhons; o do segundo era de 170 milhons. Em 1914, o primeiro elevou o seu capital para 250 milhons; o segundo, mediante a fusom com outro banco importantíssimo, a Aliança Bancária Schaffhausen, passou o seu para 300 milhons. E, naturalmente, esta luita pola hegemonia decorre paralelamente aos “acordos”, cada vez mais freqüentes e mais sólidos, entre os dous bancos. Eis as conclusons a que este desenvolvimento dos bancos leva alguns especialistas em questons bancárias que examinam os problemas económicos de um ponto de vista que nunca ultrapassa os limites do reformismo burguês mais moderado e circunspecto:

 

“Os restantes bancos seguirám o mesmo caminho - dizia a revista alemá Die Bank a propósito da elevaçom do capital da Sociedade de Desconto para 300 milhons - e as trezentas pessoas que no momento actual regem os destinos económicos da Alemanha verám-se reduzidas, com o tempo, a 50, 25 ou menos ainda. Nom há que esperar que o movimento moderno de concentraçom fique circunscrito aos bancos. As estreitas relaçons entre diferentes bancos conduzem também naturalmente à aproximaçom entre os sindicatos de industriais que estes bancos protegem ... Um belo dia acordaremos e perante os nossos olhos espantados nom haverá mais do que trusts, encontraremo-nos na necessidade de substituir os monopólios privados polos monopólios de Estado. Contudo, na realidade, nada teremos de que censurar-nos, a nom ser o facto de termos deixado que a marcha das cousas decorresse livremente, um pouco acelerada polo uso das caçons.“ [7]

 

Eis um exemplo da impotência do jornalismo burguês, do qual a ciência burguesa se distingue apenas por umha menor franqueza e pela- tendência para ocultar o fundo das cousas, para esconder o bosque atrás das árvores. “Espantar-se” com as conseqüências da concentraçom, “fazer censuras” ao governo da Alemanha capitalista ou à “sociedade” capitalista (“nós”), temer a “aceleraçom” da concentraçom provocada pola introduçom das acçons, do mesmo modo que um especialista alemám “em cartéis”, Tschierschky, teme os trusts americanos e “prefere” os cartéis alemáns, porque, segundo ele, nom som tam susceptíveis “de acelerar, de forma tam excessiva como os trusts, o progresso técnico e económico” [8] , nom será tudo isto prova de impotência?

 

Mas os factos som factos. Na Alemanha nom há trusts, há “apenas” cartéis, mas o país é dirigido quando muito por 300 magnatas do capital, e o seu número diminui incessantemente. Os bancos, em todo o caso, em todos os países capitalistas, qualquer que seja a diferença entre as legislaçons bancárias, intensificam e tomam muitas vezes mais rápido o processo de concentraçom do capital e de constituiçom de monopólios.

 

“Os bancos criam, à escala social, a forma, mas nada mais que a forma, de umha contabilidade geral e de umha distribuiçom geral dos meios de produçom” - escrevia Marx, há meio século, em O Capital (trad. rus., t. III, parte II, p. 144). Os dados que reproduzimos, referentes ao aumento do capital bancário, do número de escritórios e sucursais dos bancos mais importantes e suas contas correntes, etc., mostram-nos concretamente essa  “contabilidade geral” de toda a classe capitalista, e nom só capitalista, pois os bancos recolhem, ainda que apenas temporariamente, os rendimentos em dinheiro de todo o género, tanto dos pequenos patrons como dos empregados, e de umha reduzida camada superior dos operários. A “distribuiçom geral dos meios de produçom”: eis o que surge, do ponto de vista formal, dos bancos modernos, os mais importantes dos quais, 3 a 6 em França e 6 a 8 na Alemanha, dispomm de milhares e milhares de milhons. Mas, polo seu conteúdo, essa distribuiçom dos meios de produçom nom é de modo nengum “geral”, mas privada, isto é, conforme aos interesses do grande capital, e em primeiro lugar do maior, do capital monopolista, que atua em condiçons tais que a massa da populaçom passa fome e em que todo o desenvolvimento da agricultura se atrasa irremediavelmente em relaçom à indústria, umha parte da qual, a “indústria pesada”, recebe um tributo de todos os restantes ramos industriais.

 

Quanto à socializaçom da economia capitalista, começam a competir com os bancos as caixas económicas e as estaçons de correios, que som mais “descentralizadas”, isto é, que estendem a sua influência a um número maior de localidades, a um número maior de lugares distantes, a sectores mais vastos da populaçom. Eis os dados recolhidos por umha comissom americana encarregada de investigar o aumento comparado dos depósitos nos bancos e nas caixas económicas [9] :

 

DEPÓSITOS (EM MILHARES DE MILHONS DE MARCOS)

 

 

            Inglaterra

            França

 

Alemanha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anos

Nos

Nas

Nos

Nas

Nos

Nas

Nas

 

bancos

caixas

bancos

caixas

bancos

sociedades

caixas

 

 

económicas

 

económicas

 

de crédito

económicas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1880 ............

 8,4

1,6

?

0,9

0,5

0,4

 2,6

1888 ............

12,4

2,0

1,5

2,1

1,1

0,4

 4,5

1908 ............

23,2

4,2

3,7

4,2

7,1

2,2

13,9

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As caixas económicas, que pagam 4% e 4 1/4% aos depositantes, vem-se obrigadas a procurar umha colocaçom “lucrativa” para os seus capitais, a lançar-se em operaçons de desconto de letras, de hipotecas e outras. As fronteiras existentes entre os bancos e as caixas económicas “vam desaparecendo cada vez mais”. As Cámaras de Comércio de Bochum e de Erfurt, por exemplo, exigem que se “proíbam”, às caixas as operaçons “puramente” bancárias, tais como o desconto de letras; exigem a limitaçom da actividade “bancária” das estaçons de correios [10] . Os magnatas bancários parecem temer que o monopólio de Estado os atinja por esse caminho, quando menos esperem. Mas, naturalmente, esse temor nom ultrapassa os limites da concorrência entre dous chefes de serviço num mesmo escritório, porque por um lado som, ao fim e ao cabo, esses mesmos magnatas do capital bancário que dispomm de facto dos milhares de milhons concentrados nas caixas económicas; e, por outro lado, o monopólio de Estado na sociedade capitalista nom é mais do que umha maneira de aumentar e assegurar os rendimentos dos milionários que correm o risco de falir num ou noutro ramo da indústria.

 

A substituiçom do velho capitalismo, no qual reina a livre concorrência, polo novo capitalismo, no qual domina o monopólio, é expressa, entre outras cousas, pola diminuiçom da importáncia da Bolsa. “Há já algum tempo - di a revista Ide Bank - que a Bolsa deixou de ser o intermediário indispensável da circulaçom que era dantes, quando os bancos nom podiam ainda colocar a maior parte das emissons nos seus clientes. [11]

 

“‘Todo o banco é umha Bolsa'. Este aforismo moderno é tanto mais exacto quanto maior é o banco, quanto maiores som os êxitos da concentraçom nos negócios bancários. [12]   “Se anteriormente, nos anos 70, a Bolsa, com os seus excessos de juventude” (alusom “delicada” ao craque bolsista de 1873, aos escándalos gründeristas, etc.) “abriu a época da industrializaçom da Alemanha, no momento actual os bancos e a indústria 'podem arranjar as cousas por si mesmos'. A dominaçom dos nossos grandes bancos sobre a Bolsa ... nom é outra cousa senom a expressom do Estado industrial alemám completamente organizado. Se restringirmos deste modo o campo de acçom das leis económicas, que funcionam automaticamente, e dilatarmos extraordinariamente o da regulaçom consciente através dos bancos, aumenta, em relaçom com isso, em proporçons gigantescas a responsabilidade que, quanto à economia nacional, recai sobre umas poucas cabeças dirigentes”- di o Prof. alemám Schulze-Gaevernitz [13] , esse apologista do imperialismo alemám, que é umha autoridade entre os imperialistas de todos os países, e que se esforça por dissimular um “pequeno pormenor”: que essa “regulaçom consciente” através dos bancos consiste na espoliaçom do público por meia dúzia de monopolistas “completamente organizados”. O que o professor burguês se propom nom é pôr a descoberto todo o mecanismo, nom é desmascarar todas as artimanhas dos monopolistas bancários, mas embelezá-las.

 

Do mesmo modo, Riesser, economista ainda mais autorizado e “personalidade” do mundo da Banca, evita a questom com frases que nada dizem, falando de factos que é impossível negar: “A Bolsa vai perdendo cada dia mais a qualidade, absolutamente indispensável para toda a economia e para a circulaçom dos valores, de ser nom só o instrumento mais fiel de avaliaçom, mas também um regulador quase automático dos movimentos económicos que convergem para ela. [14]

 

Por outras palavras: o velho capitalismo, o capitalismo da livre concorrência, com o seu regulador absolutamente indispensável, a Bolsa, passa à história. Em seu lugar apareceu o novo capitalismo, que tem os traços evidentes de um fenómeno de transiçom, que representa umha mistura da livre concorrência com o monopólio. Surge a pergunta: em que desemboca a “transiçom” do capitalismo moderno? Mas os homens de ciência burgueses tenhem medo de a formular.

 

“Há trinta anos, os empresários que competiam livremente entre, si realizavam 9/10 da actividade económica que nom pertence à esfera do trabalho físico dos 'operários'. Na actualidade, som os funcionários que realizam os 9/10 desse trabalho intelectual na economia. Os bancos encontram-se à frente desta evoluçom.” [15] Esta confissom de Schulze-Gaevernitz conduz novamente ao problema de saber onde desemboca esta transiçom do capitalismo moderno, do capitalismo na sua fase imperialista.

 

Entre o reduzido número de bancos que, em conseqüência do processo de concentraçom, ficam à frente de toda a economia capitalista, verifica-se e acentua-se cada vez mais, como é natural, a tendência para chegar a um acordo monopolista, ao trust dos bancos. Nos Estados Unidos, nom som nove, mas dous grandes bancos, dos multimilionários Rockefeller e Morgan, que dominam um capital de 11.000 milhons de marcos [16] . Na Alemanha, a absorçom a que anteriormente aludimos da Aliança Bancária Schaffhausen pola Sociedade de Desconto levou o jornal de Frankfurt, que defende os interesses bolsistas, a fazer as seguintes reflexons:

 

“O aumento da concentraçom dos bancos restringe o círculo de instituiçons a que nos podemos dirigir em busca de crédito, com o que aumenta a dependência da grande indústria relativamente a um reduzido número de grupos bancários. Como resultado da estreita relaçom entre a indústria e o mundo financeiro, a liberdade de movimentos das sociedades industriais que necessitam do capital bancário vê-se assim restringida. Por isso, a grande indústria assiste com certa perplexidade à trustificaçom (unificaçom ou transformaçom em trusts) dos bancos, cada vez mais intensa; com efeito, tem-se podido observar com freqüência o germe de acordos realizados entre consórcios de grandes bancos, acordos cuja finalidade é limitar a concorrência. [17]

 

Verifica-se mais umha vez que a última palavra no desenvolvimento dos bancos é o monopólio.

 

Quanto à estreita relaçom existente entre os bancos e a indústria, é precisamente nesta esfera que se manifesta, talvez com mais evidência do que em qualquer outro lado, o novo papel dos bancos. Se o banco desconta as letras de um empresário, abre-lhe conta corrente, etc., essas operaçons, consideradas isoladamente, nom diminuem em nada a independência do referido empresário, e o banco nom passa de um modesto intermediário. Mas se essas operaçons se tornam cada vez mais freqüentes e mais firmes, se o banco “reúne” nas suas maos capitais imensos, se as contas correntes de umha empresa permitem ao banco - e é assim que acontece - conhecer, de modo cada vez mais pormenorizado e completo, a situaçom económica do seu cliente, o resultado é umha dependência cada vez mais completa do capitalista industrial em relaçom ao banco.

 

Simultaneamente, desenvolve-se, por assim dizer, a uniom pessoal dos bancos com as maiores empresas industriais e comerciais, a fusom de uns com as outras mediante a posse das acçons, mediante a participaçom dos directores dos bancos nos conselhos de supervisom (ou de administraçom) das empresas industriais e comerciais, e vice-versa. O economista alemám Jeidels reuniu dados extremamente minuciosos sobre esta forma de concentraçom dos capitais e das empresas. Os seis maiores bancos berlinenses estavam representados, através dos seus directores, em 344 sociedades industriais, e, através dos membros dos seus conselhos de administraçom, noutras 407, ou seja, num total de 751 sociedades. Em 289 sociedades tinham dous dos seus membros nos conselhos de administraçom ou ocupavam a presidência dos mesmos. Entre essas sociedades comerciais e industriais encontramos os ramos industriais mais diversos: companhias de seguros, vias de comunicaçom, restaurantes, teatros, indústria de objectos artísticos, etc. Por outro lado, nos conselhos de administraçom desses seis bancos havia (em 1910) 51 grandes industriais, e entre eles o director da firma Krupp, o da gigantesca companhia de navegaçom Hapag (Hamburg-Amerika), etc., etc. Cada um dos seis bancos, de 1895 a 1910, participou na emissom de acçons e obrigaçons de várias centenas de sociedades industriais, cujo número passou de 281 para 419 [18] .

 

A “uniom pessoal” dos bancos com a indústria completa-se com a “uniom pessoal”, de umas e outras sociedades com o governo. “Lugares nos conselhos de administraçom - escreve Jeidels - som confiados voluntariamente a personalidades de renome, bem como a antigos funcionários do Estado, os quais podem facilitar (!!) em grau considerável as relaçons com as autoridades”... “No conselho de administraçom de um banco importante encontramos geralmente algum membro do Parlamento ou da vereaçom de Berlim.

 

Por conseguinte, os grandes monopólios capitalistas vam surgindo e desenvolvendo-se, por assim dizer, aperfeiçoando-se a todo o vapor, seguindo todos os caminhos “naturais” e “sobrenaturais”. Estabelece-se sistematicamente umha determinada divisom do trabalho entre várias centenas de reis financeiros da sociedade capitalista actual:

 

“Paralelamente a este alargamento do campo de acçom dos diversos grandes industriais” (que entram nos conselhos de administraçom dos bancos, etc.)  “e ao facto de se confiar aos directores dos bancos de província unicamente a administraçom de umha zona industrial determinada, produz-se um certo aumento da especializaçom dos dirigentes dos grandes bancos. Tal especializaçom, falando em geral, só é concebível no caso de toda a empresa bancária, e particularmente as suas relaçons industriais, serem de grandes proporçons. Esta divisom do trabalho efectua-se em dous sentidos: por um lado, ás relaçons com a indústria no seu conjunto confiam-se, como ocupaçom especial, a um dos directores; por outro lado, cada director encarrega-se do controlo de empresas separadas ou de grupos de empresas afins pola produçom ou polos interesses”. ... (O capitalismo está já em condiçons de exercer o controlo organizado das empresas separadas)... “A especialidade de um é a indústria alemá, ou mesmo simplesmente a da Alemanha Ocidental” (que é a parte mais industrial do país), “a de outros, as relaçons com outros Estados e com as indústrias do estrangeiro, os. relatórios sobre a personalidade dos industriais, etc., sobre as questons da Bolsa, etc. Além disso, cada um dos directores de banco fica freqüentemente encarregado de umha zona ou de um ramo especial da indústria; um dedica-se principalmente aos conselhos de administraçom das sociedades eléctricas, outro às fabricas de produtos químicos, de cerveja ou de açúcar, um terceiro a um certo número de empresas separadas, figurando paralelamente no conselho de administraçom de sociedades de seguros ... numha palavra, é indubitável que, nos grandes bancos, à medida que aumenta o volume e a variedade das suas operaçons, estabelece-se umha divisom do trabalho cada vez maior entre os directores, com o fim (que conseguem) de os elevar um pouco, por assim dizer, acima dos negócios puramente bancários, de os tornar mais aptos para julgarem, mais competentes nos problemas gerais da indústria e nos problemas especiais dos seus diversos ramos, com o objectivo de os preparar para a sua actividade no sector industrial da esfera de influência do banco. Este sistema dos bancos é completado pola tendência que neles se observa de serem eleitos para os seus conselhos de administraçom pessoas que conheçam bem a indústria, empresários, antigos funcionários, particularmente os que vêm dos departamentos de caminhos de ferro, minas”, etc. [19]

 

Na Banca francesa encontramos instituiçons semelhantes, apenas sob umha forma um pouco diferente. Por exemplo, um dos três grandes bancos franceses, o Crédit Lyonnais, tem montada umha “seçom especial destinada a recolher informaçons financeiras” (service des études financières). Na referida seçom trabalham permanentemente mais de 50 engenheiros, especialistas de estatística, economistas, advogados, etc. Custa anualmente entre 600.000 e 700.000 francos. A seçom encontra-se por sua vez dividida em oito subsecçons: umha recolhe dados sobre empresas industriais, outra estuda a estatística geral, a terceira as companhias ferroviárias e de navegaçom, a quarta os fundos, a quinta os relatórios financeiros, etc... [20]

 

Daqui resulta, por um lado, umha fusom cada vez maior ou, segundo a acertada expressom de N. I. Bukhárine, a junçom dos capitais bancário e industrial, e, por outro, a transformaçom dos bancos em instituiçons com um verdadeiro “caracter universal.”  Julgamos necessário reproduzir os termos exactos que a este respeito emprega Jeidels, o escritor que melhor estudou o problema:

 

“Como resultado do exame das relaçons industriais no seu conjunto surge o caracter universal dos estabelecimentos financeiros que trabalham para a indústria. Contrariamente a outras formas de bancos, contrariamente às exigências formuladas por vezes na literatura, de que os bancos devem especializar-se numha esfera determinada de negócios ou num ramo industrial determinado a fim de pisarem terreno firme, os grandes bancos tendem para que as suas relaçons com os estabelecimentos industriais sejam o mais variadas possível, tanto do ponto de vista do lugar como do ponto de vista do género de produçom: procuram eliminar a distribuiçom desigual do capital entre as diferentes zonas ou ramos da indústria, desigualdade que encontra a sua explicaçom na história de diferentes estabelecimentos”. "Uma tendência consiste em converter as relaçons com a indústria num fenómeno de ordem geral; outra em torná-las sólidas e intensivas; ambas se encontram realizadas nos seis grandes bancos nom de forma completa, mas lá em proporçons consideráveis e num grau igual.”

 

Nos meios comerciais e industriais ouvem-se com freqüência lamentaçons contra o “terrorismo” dos bancos. E nada tem de surpreendente que essas lamentaçons surjam quando os grandes bancos “mandam” da maneira que nos mostra o exemplo seguinte. Em 19 de Novembro de 1901, um dos bancos berlinenses chamados bancos d (o nome dos quatro bancos mais importantes começa pola letra d) dirigiu ao conselho de administraçom do Sindicato do Cimento da Alemanha do Noroeste e do Centro a seguinte carta: “Segundo a nota que tomárom pública em 18 do corrente no jornal tal, parece que devemos admitir a eventualidade de a assembleia geral do vosso sindicato, a celebrar em 30 do corrente, adoptar resoluçons susceptíveis de determinarem na vossa empresa modificaçons que nom podemos aceitar. Por isso, lamentamos profundamente ver-nos obrigados a retirar-vos o crédito de que até agora gozavam ... Porém, se a referida assembleia geral nom tomar resoluçons inaceitáveis para nós, e se nos derem garantias a este respeito para o futuro, estamos dispostos a entabular negociaçons com vista a abrir um novo crédito.” [21]

 

Em essência, trata-se das mesmas lamentaçons do pequeno capital relativamente ao jugo do grande, com a diferença de, neste caso, a categoria de “pequeno” capital corresponder a todo um sindicato! A velha luita entre o pequeno e o grande capital reproduz-se num grau de desenvolvimento novo e incomensuravelmente mais elevado. É compreensível que, dispondo de milhares de milhons, os grandes bancos podem também apressar o progresso técnico utilizando meios incomparavelmente superiores aos anteriores. Os bancos criam, por exemplo, sociedades especiais de investigaçom técnica, de cujos resultados só aproveitam, naturalmente, as empresas industriais “amigas”. Entre elas figuram a Sociedade para o Estudo do Problema dos Caminhos de ferro Eléctricos, o Gabinete Central de Investigaçons Científicas e Técnicas, etc.

 

Os próprios dirigentes dos grandes bancos nom podem deixar de ver que estám a aparecer novas condiçons na economia nacional, mas som impotentes perante as mesmas:

 

“Quem tiver observado durante os últimos anos - di Jeideis - as mudanças de directores e membros dos conselhos de administraçom dos grandes bancos, nom terá podido deixar de se aperceber de que o poder passa paulatinamente para as maos dos que pensam que o objectivo necessário, e cada vez mais vital, dos grandes bancos consiste em intervir activamente no desenvolvimento geral da indústria; entre eles e os velhos directores dos bancos surgem, por tal motivo, divergências no campo profissional, e freqüentemente no campo pessoal. Trata-se, no fundo, de saber se essa ingerência no processo industrial da produçom nom prejudica os bancos, na sua qualidade de instituiçons de crédito, se os princípios firmes e o lucro seguro nom som sacrificados a umha actividade que nom tem nada de comum com o papel de intermediário para a concessom de créditos, e que coloca os bancos num terreno em que se encontram ainda mais expostos do que antes ao domínio cego da conjuntura industrial. Assim afirmam muitos dos velhos directores, de bancos, enquanto a maioria dos jovens considera a intervençom activa nos problemas da indústria como umha necessidade semelhante à que fijo  nascer, juntamente com a grande indústria moderna, os grandes bancos e a banca industrial moderna. A única cousa em que as duas partes estám de acordo é em que nom existem princípios firmes nem fins concretos para a nova actividade dos grandes bancos.- [22]

 

O velho capitalismo caducou. O novo constitui umha etapa de transiçom para algo diferente. Encontrar “princípios firmes e fins concretos” para a “conciliaçom” do monopólio com a livre concorrência é, naturalmente, umha tentativa votada ao fracasso. As confissons dos homens práticos ressoam de maneira muito diferente dos elogios do capitalismo “organizado”, entoados, polos seus apologistas oficiais, tais como Schulze-Gaevernitz, Liefmann e outros “teóricos” do mesmo estilo.

 

Jeidels dá-nos umha resposta bastante exacta ao importante problema de saber em que período se situam, com precisom, os começos da “nova actividade” dos grandes bancos:

 

“As relaçons entre as empresas industriais, com o seu novo conteúdo, as suas novas formas e os seus novos órgoms, quer dizer, os grandes bancos organizados de um modo ao mesmo tempo centralizado e descentralizado, nom se estabelecem talvez, como fenómeno característico da economia nacional, antes do último decénio do século XIX; em certo sentido, pode-se mesmo tomar como ponto de partida o ano de 1897, com as suas grandes 'fusons' de empresas, que implantárom pola primeira vez a nova forma de organizaçom descentralizada, de acordo com a política industrial dos bancos. Este ponto de partida pode talvez remontar mesmo a um período mais recente, pois só a crise de 1900 acelerou em proporçons gigantescas o processo de concentraçom, tanto da indústria como da banca, consolidou, converteu pola primeira vez as relaçons com a indústria num verdadeiro monopólio dos grandes bancos e deu a essas relaçons um carácter incomparavelmente mais estreito e mais intenso” [23] .

 

O século XX assinala, pois, o ponto de viragem do velho capitalismo para o novo, da dominaçom do capital em geral para a dominaçom do capital financeiro.

 

III. O  CAPITAL FINANCEIRO E A OLIGARQUIA FINANCEIRA

 

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NOTAS



[1] Alfred Lansburgh, Fünf jahre d. Bankwesen -, Die Bank, 1913, n." 8, S. 728.

[2] SchuIze-Caevernitz, - Die deutsche Kredábank -, em Grundriss der Sozialokonomik, Tüb. 1915, S. 12 e 137.

[3] R. Liefrnann, Beteifiguns - und FinanzierungsgeselIschaften. Eine Studie über den modernen Kapitafismus und das Effiektesen, 1. Aufl, jena, 1909, S. 212.

[4] Alfred Lansburgh, - Das Beteiligungssystem im deunchen Bankwesen -, Die Bank, 1901, I,S.500.

[5] Eugen Kaufmann, Das franzosische Bankwesen, Tüb., 1911, S. 356, 362.

[6] Jean Lescure, L’épargne en France, P., 1914, p. 52.

[7] Alfred Lansburgh, “Dic Bank mit den 300 Milhonen”, Die Bank, 1914, 1, S. 426.

[8] S. Tschierschky, Ob. cit., S. 128.

[9] Dados da National Monetary Commission, americana, em Die Bank, 1910, 2, S. 1200.

[10] Relatório da National Monetary Commission, americana, em Die Bank, 1913, S. 811, 1022; 1914, S. 713.

[11] Die Bank, 1914, 1, S. 316

[12] Dr. Oscar Stiffich, Geld-und Bankwesen, Berlin, 1907, S. 169.

[13] SchuIze-Gaevernitz, “Die deutsche Krediffiank”, em Grundriss der Sozialokonomik, Tüb., 1915, S. 101.

[14] Riesser, Ob. cit, 4ª ed., S. 629.

[15] SchuIze-Gaevernitz. “Die deunche Kreditbank, em Grundriss der Sozialokonomik, Tüb., 1915, S. 151.

[16] Die Bank, 1912, 1, S. 435.

[17] Citado por SchuIze-Caevernitz em Grdr. d. S. - Ök, S. 155.

[18] Jeidels e Riesser, Ob. cit.

[19] Jeidels. Ob. cit., S. 156-157.

[20] Artigo de Eugen Kaufmann sobre os bancos franceses, em Die Bank, 1909,2, S. 851 e segs.

[21] Dr. Oscar Stillich, Geld und Bakwesen, Berlin 1907, S. 147.

[22] Jeidels. Ob. cit., S. 183-194.

[23] Jeidels. Ob. cit,, S. 181.