O IMPERIALISMO, ETAPA SUPERIOR DO CAPITALISMO. V. I. LENINE

 

 

II.  OS BANCOS E O SEU NOVO PAPEL

 

A operaçom fundamental e inicial que os bancos realizam é a de intermediários nos pagamentos. É assim que eles convertem o capital-dinheiro inactivo em capital activo, isto é, em capital que rende lucro; reúnem toda a espécie de rendimentos em dinheiro e colocam-nos à disposiçom da classe capitalista.

 

À medida que vam aumentando as operaçons bancárias e se concentram num número reduzido de estabelecimentos, os bancos convertem-se, de modestos intermediários que eram antes, em monopolistas omnipotentes, que disponhem de quase todo o capital-dinheiro do conjunto dos capitalistas e pequenos patrons, bem como da maior parte dos meios de produçom e das fontes de matérias-primas de um ou de muitos países. Esta transformaçom dos numerosos modestos intermediários num punhado de monopolistas constitui um dos processos fundamentais da transformaçom do capitalismo em imperialismo capitalista, e por isso devemos deter-nos, em primeiro lugar, na concentraçom bancária.

 

No exercício de 1907-1908, os depósitos de todas as sociedades anónimas bancárias da Alemanha que possuíam um capital de mais de um milhom de marcos eram de 7.000 milhons de marcos; no exercício de 1912-1913 tinham subido para 9800 milhons. Um aumento de 40 % em cinco anos, com a particularidade que, desses 2.800 milhons de aumento, 2.750 milhons correspondiam a 57 bancos com um capital de mais de 10 milhons de marcos. A distribuiçom dos depósitos entre os bancos grandes e pequenos era a seguinte [1] :

 

PERCENTAGEM DE TODOS OS DEPÓSITOS

 

 

 

 

 

 

 

Nos 48 bancos

 

Nos bancos

 

Nos 9 grandes

restantes com

Nos 115 bancos

pequenos (com

 

bancos

capital superior

com capital de

menos de

 

Berlinenses

a 10 milhons

1 a 10 milhons

1  milhom)

 

 

de marcos

 

 

 

 

 

 

 

1907-1908 ........

47

32,5

16,5

4

1912-1913 ........

49

36

12

3

 

 

 

 

 

 

 

Os bancos pequenos vam sendo afastados polos grandes, nove dos quais concentram quase metade de todos os depósitos. E aqui ainda nom se tenhem em conta muitos elementos, por exemplo a transformaçom de numerosos bancos pequenos em simples sucursais dos grandes, etc., do que trataremos mais adiante.

 

Em fins de 1913, Schulze-Gaevernitz calculava os depósitos dos 9 grandes bancos berlinenses em 5.100 milhons de marcos para um total de cerca de 10.000 milhons. Tomando em consideraçom nom só os depósitos mas todo o capital bancário, esse mesmo autor escrevia: “Em fins de 1909, os nove grandes bancos berlinenses, contando com os bancos a eles ligados, controlavam 11.300 milhons de marcos, isto é, cerca de 83 % de todo o capital bancário alemám. O Banco Alemám (Deutsche Bank), que controla, contando com os bancos a ele ligados, cerca de 3.000 milhons de marcos, representa, ao lado da administraçom prussiana dos caminhos de ferro do Estado, a acumulaçom de capital mais considerável do Velho Mundo, com a particularidade de estar altamente descentralizada.” [2]

Sublinhamos a indicaçom relativa aos bancos “ligados” porque se refere a umha das características mais importantes da concentraçom capitalista moderna. Os grandes estabelecimentos, particularmente os bancos, nom só absorvem directamente os pequenos como os “incorporam”, subordinam, incluem-nos no “seu” grupo, no seu “consórcio” - segundo o termo técnico - por meio da “participaçom” no seu capital, da compra ou da troca de acçons, do sistema de créditos, etc., etc. O Prof. Liefmann consagrou todo um volumoso “trabalho” de meio milhar de páginas à descriçom das “sociedades de participaçom e financiamento” contemporáneas [3] , mas, infelizmente, acrescentando raciocínios “teóricos”, de qualidade mais que inferior a um material em bruto, freqüentemente mal digerido. Ao que conduz este sistema de “participaçom” do ponto de vista da concentraçom, mostra-o melhor do que qualquer outra a obra do Sr. Riesser, “personalidade” do mundo das finanças, acerca dos grandes bancos alemáns. Todavia, antes de examinarmos os seus dados, exporemos um exemplo concreto do sistema de “participaçom”.

 

O “grupo” do Banco Alemám é um dos mais importantes, para nom dizer o mais importante, dos grupos de grandes bancos. Para nos apercebermos dos laços principais que ligam entre si todos os bancos do grupo mencionado é necessário distinguirmos as “participaçons” de primeiro, segundo e terceiro grau, ou, o que é o mesmo, a dependência (dos bancos mais pequenos em relaçom ao Banco Alemám) de primeiro, segundo e terceiro grau. Os resultados som os seguintes [4] :

 

 

 

 

O banco Alemám

Dependência

Dependência

Dependência

participa

de 1º grau

de 2º grau

de 3º grau

 

 

 

 

permanentemente .

em 17 bancos

dos quais 9 parti-

dos quais 4 parti-

 

 

cipam noutros 34

cipam noutros 7

por tempo indeter-

 

 

 

minado ................

em 5 bancos

--------

---------

 

 

 

 

ocasionalmente .....

em 8 bancos

dos quais 5 parti-

dos quais 2 parti-

 

 

cipam noutros 14

cipam noutros 2

 

 

 

 

Total....................

em 30 bancos

dos quais 14 parti-

dos quais 6 parti-

 

 

cipam noutros 48

cipam noutros 9

 

 

 

 

Entre os oito bancos “dependentes de primeiro grau”, subordinados ao Banco Alemám “ocasionalmente”, figuram três bancos estrangeiros: um austríaco (a Sociedade Bancária - Bankverein - de Viena) e dous russos (o Banco Comercial Siberiano - Sibírski Torgóvi Bank e o Banco Russo de Comércio Externo - Rússki Bank dliá Vnéchnei Torgóvii). No total, fam parte do grupo do Banco Alemám, directa ou indirectamente, parcial ou totalmente, 87 bancos, e o capital total, próprio ou alheio, que o grupo controla calcula-se em 2 ou 3 mil milhons de marcos.

 

É evidente que um banco que se encontra à frente de um tal grupo e que se pom de acordo com meia dúzia de outros bancos, quase tam importantes como ele, para operaçons financeiras particularmente volumosas e lucrativas, tais como os empréstimos públicos, deixou já de ser um “intermediário”) para se converter na aliança de um punhado de monopolistas.

 

Os dados seguintes de Riesser, que citamos de forma abreviada, mostram a rapidez com que, em fins do século XIX e princípios do século XX, se efectuou a concentraçom bancária na Alemanha:

 

SEIS GRANDES BANCOS BERLINENSES TINHAM

                                                                                                       

 

Sucursais

Caixas de

Participaçons

Total

Anos

na

depósito e casas

constantes em

dos

 

Alemanha

de cámbio

sociedades anónimas

estabelecimentos

 

 

 

bancárias alemás

 

 

 

 

 

 

1895 ..................

  16

  14

 1

 42

1900 ..................

  21

  40

 8

 80

1911 ..................

104

276

63

450

 

 

 

 

 

 

Estes dados permitem ver a rapidez com que cresce a apertada rede de canais que abarca todo o país, centraliza todos os capitais e rendimentos em dinheiro, converte milhares e milhares de empresas dispersas numha empresa capitalista única, nacional a princípio e mundial depois. A “descentralizaçom” de que, na passagem que referimos acima, falava Schulze-Gaevernitz em nome da economia política burguesa dos nossos dias, consiste, na realidade, na subordinaçom a um centro único de um número cada vez maior de unidades económicas que antes eram relativamente “independentes”, ou, para sermos mais exactos, eram localmente limitadas. Trata-se pois, com efeito, de umha centralizaçom, de um reforço do papel, da importáncia e do poder dos gigantes monopolistas.

 

Nos países capitalistas mais velhos, a referida “rede bancária” é ainda mais apertada. Na Inglaterra, com a Irlanda, em 1910 o número de sucursais de todos os bancos era de 7.151. Quatro grandes bancos tinham mais de 400 sucursais cada um (de 447 a 689); seguiam-se outros quatro, com mais de 200, e 11 com mais de 100.

 

Em França, os três bancos mais importantes, o Crédit Lyonnais, o Comptoir National e a Société Générale ampliárom as suas operaçons e a rede das suas sucursais do seguinte modo [5] :

 

 

 

 

 

 

 

 Número de sucursais

Capitais (em milhons

 

                     e de caixas

            de francos)

 

 

 

 

 

 

 

Província

Paris

Total

Próprios

Alheios

 

 

 

 

 

 

1870 .......

    47

  17

    64

200

  427

1890 .......

  192

  66

  258

265

1245

1909 .......

1033

196

1229

887

4363

 

 

 

 

 

 

 

Para caracterizar as “relaçons” de um grande banco moderno, Riesser fornece dados sobre o número de cartas enviadas e recebidas pola Sociedade de Desconto (Disconto-Gesellschaft), um dos bancos mais importantes da Alemanha e de todo o mundo (o seu capital ascendia em 1914 a 300 milhons de marcos):

 

 

 

 

          Número de cartas

 

Recebidas

Expedidas

 

 

 

1852 ..........................

     6 135

  6 292

1870 ..........................

 858 000

 87 513

1900 ..........................

 533 102

626 043

 

 

 

 

No grande banco parisiense Crédit Lyonnais, o número de contas correntes, que em 1875 era de 28.535, passou em 1912 [6] para 633.539.

 

Estes simples números mostram, talvez com maior evidência do que longos raciocínios, como a concentraçom do capital e o aumento do movimento dos bancos modificam radicalmente a importáncia destes últimos. Os capitalistas dispersos acabam por constituir um capitalista coletivo. Ao movimentar contas correntes de vários capitalistas, o banco realiza, aparentemente, umha operaçom puramente técnica, unicamente auxiliar. Mas quando esta operaçom cresce até atingir proporçons gigantescas, resulta que um punhado de monopolistas subordina as operaçons comerciais e industriais de toda a sociedade capitalista, colocando-se em condiçons - por meio das suas relaçons bancárias, das contas correntes e de outras operaçons financeiras -, primeiro de conhecer com exactidom a situaçom dos diferentes capitalistas, depois de controlá-los, exercer influência sobre eles mediante a ampliaçom ou a restriçom do crédito, facilitando-o ou dificultando-o, e, finalmente, de decidir inteiramente sobre o seu destino, determinar a sua rendibilidade, privá-los de capital ou permitir-lhes aumentá-lo rapidamente e em grandes proporçons, etc.

 

Acabamos de mencionar o capital de 300 milhons de marcos da Sociedade de Desconto de Berlim. Este aumento de capital da referida sociedade foi um dos episódios da luita pola hegemonia entre os dous bancos berlinenses mais importantes: o Banco Alemám e a Sociedade de Desconto. Em 1870, o primeiro, que entom acabava de aparecer em cena, tinha um capital de 15 milhons, enquanto o do segundo se elevava a 30 milhons. Em 1908, o primeiro tinha um capital de 200 milhons; o do segundo era de 170 milhons. Em 1914, o primeiro elevou o seu capital para 250 milhons; o segundo, mediante a fusom com outro banco importantíssimo, a Aliança Bancária Schaffhausen, passou o seu para 300 milhons. E, naturalmente, esta luita pola hegemonia decorre paralelamente aos “acordos”, cada vez mais freqüentes e mais sólidos, entre os dous bancos. Eis as conclusons a que este desenvolvimento dos bancos leva alguns especialistas em questons bancárias que examinam os problemas económicos de um ponto de vista que nunca ultrapassa os limites do reformismo burguês mais moderado e circunspecto:

 

“Os restantes bancos seguirám o mesmo caminho - dizia a revista alemá Die Bank a propósito da elevaçom do capital da Sociedade de Desconto para 300 milhons - e as trezentas pessoas que no momento actual regem os destinos económicos da A