O IMPERIALISMO, ETAPA SUPERIOR DO CAPITALISMO. V. I. LENINE

 

III. O  CAPITAL FINANCEIRO E A OLIGARQUIA FINANCEIRA

 

“Umha parte cada vez maior do capital industrial - escreve Hilferding - nom pertence aos industriais que o utilizam. Podem dispor do capital unicamente por intermédio do banco, que representa, para eles, os proprietários desse capital. Por outro lado, o banco também se vê obrigado a fixar na indústria umha parte cada vez maior do seu capital. Graças a isto, converte-se, em proporçons crescentes, em capitalista industrial. Este capital bancário - por conseguinte capital sob a forma de dinheiro -, que por esse processo se transforma de facto em capital industrial, é aquilo a que chamo capital financeiro.” “Capital financeiro é o capital que se encontra à disposiçom dos bancos e que os industriais utilizam.” [1]

 

Esta definiçom nom é completa porque nom indica um dos aspectos mais importantes: o aumento da concentraçom da produçom e do capital em grau tam elevado que conduz, e tem conduzido, ao monopólio. Mas em toda a exposiçom de Hilferding em geral, e em particular nos capítulos que precedem aquele de onde retiramos esta definiçom, sublinha-se o papel dos monopólios capitalistas.

 

Concentraçom da produçom; monopólios que resultam da mesma; fusom ou junçom dos bancos com a indústria: tal é a história do aparecimento do capital financeiro e daquilo que este conceito encerra.

 

Descreveremos agora como a “gestám” dos monopólios capitalistas se transforma inevitavelmente, nas condiçons gerais da produçom mercantil e da propriedade privada, na dominaçom da oligarquia financeira. Assinalemos que as figuras representativas da ciência burguesa alemá - e nom só da alemá -, tais como Riesser, Schulze-Gaevernitz, Liefmann, etc., som todas apologistas do imperialismo e do capital financeiro. Nom pomm a descoberto, antes dissimulam e embelezam, o “mecanismo” da formaçom das oligarquias, os seus processos, a importáncia dos seus rendimentos “lícitos e ilícitos”, as suas relaçons com os parlamentos, etc., etc. Fogem às “questons malditas” por meio de frases altissonantes e obscuras, e de apelos ao “sentido da responsabilidade” dos directores dos bancos; por meio de elogios ao “sentimento do dever” dos funcionários prussianos, por meio da análise séria e pormenorizada de projectos de lei nada sérios sobre a “inspeçom” e a “regulamentaçom”; por meio de infantis jogos teóricos, tais como a seguinte definiçom “científica” a que chegou o professor Liefinann: “... o comércio é umha actividade profissional destinada a reunir bens, conservá-los e pô-los à disposiçom” [2] (em itálico e em negro na obra do professor)... Daqui resulta que o comércio existia entre os homens primitivos, que nom conheciam ainda a troca, e que também existirá na sociedade socialista!

 

Mas os monstruosos factos relativos à monstruosa dominaçom da oligarquia financeira som tam evidentes que em todos os países capitalistas - na América, na França, na Alemanha - surgiu umha literatura que, embora adotando o ponto de vista burguês, traça um quadro aproximadamente exacto, e fai umha crítica - pequeno-burguesa, naturalmente - da oligarquia financeira.

 

Há que dedicar umha atençom primordial ao “cisterna de participaçom”, do qual já falamos acima sucintamente. Eis como expom a essência do assunto o economista alemám Heymann, que foi um dos primeiros, se nom o primeiro, a prestar-lhe atençom:

 

“O dirigente controla a sociedade fundamental (literalmente, a “sociedade-mae”); esta, por sua vez, exerce o domínio sobre as sociedades que dependem dela (“sociedades-filhas”); estas últimas, sobre as “sociedades-netas”, etc. É possível, deste modo, sem possuir um capital muito grande, dominar ramos gigantescos da produçom. Com efeito, se a posse de 50% do capital é sempre suficiente para controlar umha sociedade anónima, basta que o dirigente possua apenas 1 milhom para estar em condiçons de controlar 8 milhons do capital das “sociedades-netas”. E se este “entrelaçamento” vai ainda mais longe, com 1 milhom podem-se controlar 16 milhons, 32 milhons, etc... [3]

 

Com efeito, a experiência demonstra que basta possuir 40% das acçons para dirigir os negócios de umha sociedade anónima [4] , pois umha certa parte dos pequenos acionistas, que se encontram dispersos, nom tem na prática possibilidade algumha de assistir às assembleias gerais, etc. A “democratizaçom”, da posse das acçons, de que os sofistas burgueses e os pretensos “sociais-democratas” oportunistas espêrom (ou dizem que esperam) a “democratizaçom do capital”, o aumento do papel e importáncia da pequena produçom, etc., é na realidade um dos meios de reforçar o poder da oligarquia financeira. Por isso, entre outras cousas, nos países capitalistas mais adiantados ou mais velhos e “experimentados”, as leis autorizam a emissom de acçons mais pequenas. Na Alemanha, a lei nom permite acçons de menos de 1000 marcos, e os magnatas financeiros do país lançam os olhos com inveja para Inglaterra, onde a lei consente acçons até 1 libra esterlina (quer dizer, 20 marcos, ou cerca de 10 rublos). Siemens, um dos industriais e “reis financeiros” mais poderosos da Alemanha, declarou em 7 de junho de 1900, no Reichtag, que “a acçom de 1 libra esterlina é a base do imperialismo británico” [5] . Este negociante tem umha concepçom consideravelmente mais profunda, mais “marxista”, do que é o imperialismo do que certo escritor indecoroso que se considera fundador do marxismo russo366 e supom que o imperialismo é um defeito próprio de um povo determinado ...

 

Mas o “sistema de participaçom” nom só serve para aumentar em proporçons gigantescas o poderio dos monopolistas, como, além disso, permite levar a cabo impunemente toda a espécie de negócios escuros e sujos e roubar o público, pois os dirigentes das “sociedades-maes”, formalmente, segundo a lei, nom respondem pola “sociedade-filha”, que é considerada “independente” e através da qual se pode “fazer passar” tudo. Eis um exemplo tirado da revista alemá Die Bank, no seu número de Maio de 1914:

 

“A Sociedade Anónima de Aço para Molas, de Cassel, era considerada há uns anos como umha das empresas mais lucrativas da Alemanha. Em conseqüência da má administraçom, os dividendos descêrom de 15 % para 0 %. Segundo se pudo comprovar depois, a administraçom, sem informar os acionistas, tinha feito um empréstimo de 6 milhons de marcos a umha das suas 'sociedades-filhas', a Hassia, cujo capital nominal era apenas de algumhas centenas de milhares de marcos. Esse empréstimo, quase três vezes superior ao capital em acçons da 'sociedade-mae', nom figurava no balanço desta: juridicamente, tal silêncio estava perfeitamente de acordo com a lei e pudo durar dous anos inteiros, pois nom infringia nem um único artigo da legislaçom comercial. O presidente do conselho de administraçom, a quem nessa qualidade incumbia a responsabilidade de assinar os balanços falsos, era e continua a ser presidente da Cámara de Comércio de Cassei. Os acionistas só se inteirárom desse empréstimo à Hassia muito tempo depois, quando se verificou que o mesmo tinha sido um erro... “ (o autor deveria ter posto esta palavra entre aspas) ... “e quando as acçons do 'aço para molas', por aqueles que tinham conhecimento disto se começarem a desfazer delas, diminuíram o seu valor em aproximadamente 100 % ...

 

“Este exemplo típico de malabarismo nos balanços, o mais comum nas sociedades anónimas, explica-nos por que motivo os seus conselhos de administraçom empreendem negócios arriscados com muito mais facilidade do que os particulares. A técnica moderna de elaboraçom dos balanços nom só lhes oferece a possibilidade de ocultar a operaçom arriscada ao acionista médio como permite mesmo aos principais interessados livrarem-se da responsabilidade mediante a venda oportuna das suas acçons no caso de a experiência fracassar, ao passo que o negociante particular arrisca a sua pele em tudo quanto fai.

 

“Os balanços de muitas sociedades anónimas parecem-se com os palimpsestos da Idade Média, dos quais era preciso apagar o que estava escrito para se descobrir sinais que tinham sido escritos por baixo e que representavam o conteúdo real do documento.” (O palimpsesto era um pergaminho do qual o texto primitivo tinha sido apagado para escrever de novo.)

 

“O meio mais simples e por isso mais vulgarmente utilizado para tornar um balanço indecifrável consiste em dividir umha empresa em várias partes por meio da criaçom de filiais ou a incorporaçom de estabelecimentos do mesmo género. As vantagens deste sistema, do ponto de vista dos diversos fins - legais e ilegais -, som tam evidentes que na actualidade as grandes sociedades que nom o adoptárom constituem umha verdadeira excepçom.” [6]

 

Como exemplo de empresa monopolista de grande importáncia que aplica, em grande escala, o referido sistema, o autor cita a famosa Sociedade Geral de Electricidade (AEG, da qual voltaremos a falar mais adiante). Em 1912 calculava-se que esta sociedade participava noutras 175 a 200, dominando-as, é claro, e controlando assim um capital total de cerca de 1.500 milhons de marcos [7] .

 

Nengumha regra de controlo, de publicaçom de balanços, de estabelecimento de esquemas precisos para os mesmos, de instituiçom de inspeçom, etc., com que os professores e funcionários bem intencionados, isto é, que tenhem a boa intençom de defender e embelezar o capitalismo, distraem a atençom do público, pode ter, neste aspeto, a menor importáncia, pois que a propriedade privada é sagrada, e ninguém pode proibir comprar, vender, permutar, hipotecar acçons, etc.

 

Podem-se avaliar as proporçons que o “sistema de participaçom” alcançou nos grandes bancos russos polos dados fornecidos por E. Agahd, que durante quinze anos foi empregado do Banco Russo-Chinês e que em Maio de 1914 publicou umha obra com o título, nom de todo exacto, Os Grandes Bancos e o Mercado Mundial [8] . O autor divide os grandes bancos russos em dous grupos fundamentais: a) os que funcionam segundo o “sistema de participaçom” e b) os “independentes” entendendo, contudo, arbitrariamente por “ independência” a independência em relaçom aos bancos estrangeiros. O autor divide o primeiro grupo em três subgrupos: 1) participaçom alemá, 2) inglesa e 3) francesa, referindo-se à “participaçom” e ao domínio dos grandes bancos estrangeiros da naçom em causa. Divide os capitais dos bancos em capitais de investimento “produtivo” (no comércio e na indústria) e de investimento “especulactivo”, (nas operaçons bolsistas e financeiras), supondo, de acordo com o ponto de vista pequeno-burguês reformista que lhe é próprio, que é possível sob o capitalismo separar a primeira forma de investimento da segunda e suprimir esta última.

 

Os dados do autor som os seguintes:

 

ACTIVO DOS BANCOS

(Segundo os balanços de Outubro-Novembro de 1913)

(Em milhons de rublos)

 

              Capitais investidos

 

 

 

 

Grupos de bancos russos

Produti-

Especula-

Total

 

vamente

tivamente

 

 

 

 

 

a1) 4 bancos: Comercial Siberiano, Russo, Internacional, de Desconto..........

  413,7

   859,1

1272,8

a2) 2 bancos: Comercial e Industrial, Russo-Inglês ........................................

 239,3

   169,1

  408,4

a3) 5 bancos: Russo-Asiático, Privado de som Petersburgo, Azov-Don,

 

 

 

      Uniom de Moscovo, Russo-Francês de Comércio .....................................

  711,8

  661,2

 1373,0

     (11 bancos) Total ................................................................................ A) =

1364,8

1689,4

 3054,2

b)  8 bancos: Comerciantes de Moscovo, Volga-Kama, Junker & C.ª,

 

 

 

Comercial som Petersburgo (ant. Wawelberg), de Mosco (ant. Riabut -

 

 

 

     chinski), de Desconto de Moscovo, Banco Comercial de Moscovo e

 

 

 

     Privado de Moscovo  ..................................................................................

  504,2

 391,1

 895,3

     (19 bancos) Total ........................................................................................

1869,0

2080,5

3949,5

 

Estes dados mostram que, do total aproximado de 4.000 milhons de rublos que constituem o capital “ activo” dos grandes bancos, mais de 3/4, mais de 3.000 milhons, correspondem a bancos que, no fundo, som filiais dos bancos estrangeiros, em primeiro lugar dos parisienses (o famoso trio bancário Uniom Parisiense, Banco de Paris e Países Baixos e Sociedade Geral ) e dos berlinenses (particularmente o Banco Alemám e a Sociedade de Desconto). dous dos bancos russos mais importantes, o Russo (Banco Russo de Comércio Externo) e o Internacional (Banco Comercial Internacional de som Petersburgo), aumentárom os seus capitais, no período compreendido entre 1906 e 1912, de 44 para 98 milhons de rublos, e os fundos de reserva de 15 para 39 milhons, “trabalhando em 3/4 com capitais alemáns”; o primeiro banco pertence ao “consórcio” do Banco Alemám de Berlim; o segundo pertence à Sociedade de Desconto, da mesma capital. Ao bom Agahd indigna-o profundamente que os bancos berlinenses tenham nas suas maos a maioria das acçons, e que, em conseqüência disso, os acionistas russos sejam impotentes. E, naturalmente, o país que exporta capitais fica com a nata: por exemplo, o Banco Alemám de Berlim, encarregado de vender nesta cidade as acçons do Banco Comercial Siberiano, guardou durante um ano as referidas acçons em carteira, e depois vendeu-as a 193%, quer dizer, quase o dobro, “obtendo” deste modo um lucro de cerca de 6 milhons de rublos, que Hilferding qualifica de “lucro de constituiçom”.

 

O autor calcula em 8.235 milhons de rublos, isto é, quase 8 '/4 milhares de milhons, a “potência” total dos bancos petersburgueses mais importantes. Quanto à “participaçom” ou, melhor dizendo, ao domínio dos bancos estrangeiros, estabelece-o nas proporçons seguintes: bancos franceses, 55%; ingleses, 10%; alemáns, 35%. Deste total, isto é, dos 8.235 milhons, 3.687 milhons de capital activo, ou seja, mais de 40%, correspondem, segundo os cálculos do autor, aos sindicatos Prodúgol e Prodamet [9] e aos sindicatos do petróleo, da metalurgia e do cimento. Por conseguinte, a fusom do capital bancário e industrial, derivada da constituiçom dos monopólios capitalistas, deu também na Rússia passos gigantescos.

 

O capital financeiro, concentrado em muito poucas maos e gozando do monopólio efectivo, obtém um lucro enorme, que aumenta sem cessar com a constituiçom de sociedades, emissom de valores, empréstimos do Estado, etc., consolidando a dominaçom da oligarquia financeira e impondo a toda a sociedade um tributo em proveito dos monopolistas. Eis um dos exemplos dos métodos de “administraçom” dos trusts americanos, citado por Hilferding: em 1887, Havemeyer constituiu o trust do açúcar mediante a fusom de 15 pequenas companhias, cujo capital total era de 6.500.000 dólares. Mas o capital do trust, “aguado”, segundo a expressom americana, fixou-se em 50 milhons de dólares. A “recapitalizaçom” tinha em conta de antemao os futuros lucros monopolistas, do mesmo modo que o trust do aço - também na América - tem em conta os futuros lucros monopolistas ao adquirir cada vez mais jazigos de minério de ferro. E, com efeito, o trust do açúcar fixou preços de monopólio e recebeu lucros tais que pudo pagar um dividendo de 10 % ao capital sete vezes “aguado”, quer dizer, quase 70 % sobre o capital efectivamente investido no momento da constituiçom do trust! Em 1909, o seu capital era de 90 milhons de dólares. Em vinte e dous anos o capital foi mais do que decuplicado.

 

Em França, a dominaçom da “oligarquia financeira” (Contra a Oligarquia Financeira em França é o título do conhecido livro de Lysis, cuja quinta ediçom apareceu em 1908) adotou umha forma apenas um pouco diferente. Os quatro bancos mais importantes gozam nom do monopólio relativo, mas “do monopólio absoluto” na emissom de valores. De fato, trata-se de um “trust dos grandes bancos”. E o monopólio garante lucros monopolistas das emissons. Ao fazerem-se os empréstimos, o país que os negoceia nom recebe habitualmente mais de 90 % do total: os restantes 10 % vam parar aos bancos e demais intermediários. O lucro dos bancos no empréstimo russo-chinês de 400 milhons de francos foi de 8%; no russo (1904) de 800 milhons, foi de 10%; no marroquino (1904) de 62,5 milhons, foi de 18,75%. O capitalismo, que iniciou o seu desenvolvimento com o pequeno capital usurário, chega ao fim deste desenvolvimento com um capital usurário gigantesco. “Os franceses som os usurários da Europa” - di Lysis. Todas as condiçons da vida económica sofrem umha modificaçom profunda em conseqüência desta degeneraçom do capitalismo. Num estado de estagnaçom da populaçom, da indústria, do comércio e dos transportes marítimos, o “país” pode enriquecer por meio das operaçons usurárias. “Cinqüenta pessoas, que representam um capital de 8 milhons de francos, podem dispor de dous mil milhons colocados em quatro bancos.” O sistema de “participaçom” que já conhecemos conduz às mesmas conseqüências: um dos bancos mais importantes, a Sociedade Geral (Société Générale), emitiu 64.000 obrigaçons da sociedade-filha, as Refinarias de Açúcar do Egipto. O curso da emissom era de 150%, quer dizer, o banco embolsava um lucro de 50 cêntimos por cada franco. Os dividendos da referida sociedade revelaram-se fictícios, o “público” perdeu de 90 a 100 milhons de francos; “um dos directores da Sociedade Geral era membro do conselho de administraçom das Refinarias”. Nada tem de surpreendente que o autor se veja obrigado a chegar à seguinte conclusom: “A República francesa é umha monarquia financeira”; a omnipotência da oligarquia financeira é absoluta, domina a imprensa e o governo” [10] .

 

Os lucros excepcionais proporcionados pola emissom de valores, como umha das operaçons principais do capital financeiro, contribuem muito para o desenvolvimento e consolidaçom da oligarquia financeira. “No interior do país nom há nengum negócio que dê, nem aproximadamente, um lucro tam elevado como servir de intermediário para a emissom de empréstimos estrangeiros” - di a revista alemá Die Bank [11] .

 

"Nom há nengumha operaçom bancária que produza lucros tam elevados como as emissons.” Na emissom de valores das empresas industriais, segundo os dados de O Economista Alemám, o lucro médio anual foi o seguinte:

 

1895 . . . . . . . . . . . . . . . 38,6%         1898 . . . . . . . . . . . . . . . 67,7%

1896 . . . . . . . . . . . . . . . 36,1%         1899 . . . . . . . . . . . . . . . 66,9%

1897 . . . . . . . . . . . . . . . 66,7%         1900 . . . . . . . . . . . . . . . 55,2%

 

“Em dez anos, de 1891 a 1900, a emissom de valores industriais alemáns produziu um lucro de mais de 1.000 milhons.” [12]

 

Se os lucros do capital financeiro som desmedidos durante os períodos de ascenso industrial, durante os períodos de depressom arruínam-se as pequenas empresas e as empresas pouco fortes, enquanto os grandes bancos “participam” na aquisiçom das mesmas a baixo preço, ou no seu lucractivo “saneamento” e “ reorganizaçom”. Ao efectuar-se o “saneamento” das empresas deficitárias, “o capital em acçons sofre umha baixa, isto é, os lucros som distribuídos sobre um capital menor, e calculam-se depois com base nesse capital. Ou, se a rendibilidade fica reduzida a zero, incorpora-se novo capital que, ao unir-se com o capital velho, menos lucractivo, produz já um lucro suficiente. Convém dizer - acrescenta Hilferding - que todos esses saneamentos e reorganizaçons tenhem umha dupla importáncia para os bancos: primeiro como operaçom lucrativa, e segundo como ocasiom propícia para colocar sob a sua dependência essas sociedades necessitadas” [13] .

 

Eis um exemplo: o da sociedade anónima mineira Union, de Dortmund, fundada em 1872. Foi emitido um capital em acçons de cerca de 40 milhons de marcos, e, quando no primeiro ano se recebeu um dividendo de 12%, o curso elevou-se até 170%. O capital financeiro ficou com a nata, embolsando a bagatela de uns 28 milhons de marcos. O papel principal na fundaçom da referida sociedade foi desempenhado por esse mesmo grande banco alemám, a Sociedade de Desconto, que, sem contratempos, alcançou um capital de 300 milhons. Os dividendos da Umon descêrom depois até desaparecerem. Os acionistas tivérom de aceder a liquidar umha parte do capital, isto é, a sacrificar umha parte para nom perderem tudo. Como resultado de umha série de “saneamentos”, desaparecêrom dos livros da sociedade Union, no decurso de trinta anos, mais de 73 milhons de marcos. “Actualmente, os acionistas fundadores dessa sociedade tenhem nas suas maos apenas 5 % do valor nominal das suas acçons” [14] ; e em cada novo “saneamento” os bancos continuárom a “ganhar algumha coisa”.

 

Umha das operaçons particularmente lucrativas do capital financeiro é também a especulaçom com terrenos situados nos subúrbios das grandes cidades que crescem rapidamente. O monopólio dos bancos funde-se neste caso com o monopólio da renda da terra e com o monopólio das vias de comunicaçom, pois o aumento dos preços de terrenos, a possibilidade de os vender vantajosamente por parcelas, etc., dependem principalmente das boas vias de comunicaçom com a parte central da cidade, as quais se encontram nas maos de grandes companhias, ligadas a esses mesmos bancos mediante o sistema de participaçom e da distribuiçom dos cargos directivos. Resulta de tudo isso o que o autor alemám L. Eschwege, colaborador da revista Die Bank, que estudou especialmente as operaçons de venda e hipoteca de terrenos, qualifica de “pántano”: a desenfreada especulaçom com os terrenos dos subúrbios das cidades, as falências das empresas de construçom, como, por exemplo, a firma berlinense Boswau & Knauer, que tinha embolsado umha quantia tam elevada como 100 milhons de marcos por intermédio do banco “mais importante e respeitável”, o Banco Alemám (Deutsche Bank), que, naturalmente, actuava segundo o sistema de “participaçom”, isto é, em segredo, na sombra, e livrou-se da situaçom perdendo “apenas” 12 milhons de marcos; depois, a ruína dos pequenos patrons e dos operários, que nom recebem nem um centavo das fictícias empresas de construçom; as negociatas fraudulentas com a “honrada” polícia berlinense e com a administraçom urbana para ganhar o controlo do serviço de informaçom sobre os terrenos e das autorizaçons do município para construir, etc., etc. [15]

 

Os “costumes americanos”, de que tam hipocritamente se lamentam os professores europeus e os burgueses bem intencionados, converteram-se, na época do capital financeiro, em costumes de literalmente toda a cidade importante de qualquer país.

 

Em Berlim, em princípios de 1914, falava-se da fundaçom de um “trust dos transportes”, isto é, de umha “comunidade de interesses” das três empresas berlinenses de transportes: os caminhos de ferro eléctricos urbanos, a sociedade de carros eléctricos e a de autocarros. “Que este propósito existe - di a revista Die Bank - já o sabíamos desde que se tornou do domínio público que a maioria das acçons da sociedade de autocarros tinha sido adquirida polas outras duas sociedades de transportes ... Podemos acreditar inteiramente nos que visam esse objectivo quando afirmam que, mediante a regulaçom uniforme dos transportes, tenhem a esperança de obter economias, de umha parte das quais, no fim de contas, o público poderia beneficiar. Mas a questom complica-se em virtude de, por detrás desse trust dos transportes em formaçom, estarem os bancos, que, se quiserem, podem subordinar as vias de comunicaçom que monopolizam aos interesses do seu tráfico de terrenos. Para nos convencermos do bom fundamento desta suposiçom basta recordar que, ao ser fundada a sociedade dos caminhos de ferro, eléctricos urbanos, já se encontravam ligados a ela os interesses do grande banco que patrocinou esse empreendimento. Isto é: os interesses da referida empresa de transportes entrelaçavam-se com os do tráfico de terrenos. O cerne da questom era que a linha oriental da referida via férrea devia passar por terrenos que mais tarde, quando a construçom da via férrea já estava assegurada, o banco vendeu com enorme lucro para si e para algumhas pessoas que intervinhérom no negócio. [16]

 

O monopólio, umha vez que foi constituído e controla milhares de milhons, penetra de maneira absolutamente inevitável em todos os aspectos da vida social, independentemente do regime político e de qualquer outra “particularidade”. Nas publicaçons alemás sobre economia som habituais os elogios servis à honradez dos funcionários prussianos e as alusons ao Panamá francês367 ou à venalidade política americana. Mas o facto é que até as publicaçons burguesas consagradas aos assuntos bancários da Alemanha se vem constantemente obrigadas a sair dos limites das operaçons puramente bancárias e a escrever, por exemplo, sobre a ,aspiraçom para entrar nos bancos”, a propósito dos casos, cada vez mais freqüentes, de funcionários que passam para o serviço destes. “Que se pode dizer da incorruptibilidade do funcionário do Estado cuja secreta aspiraçom consiste em encontrar umha sinecura na Behrenstrasse?” [17] (rua de Berlim onde se encontra a sede do Banco Alemám). Alfred Lansburgh, director da revista Die Bank, escreveu em 1909 um artigo intitulado “A Significaçom Económica do Bizantinismo”, a propósito, entre outras cousas, da viagem de Guilherme II à Palestina e do “resultado directo dessa viagem, a construçom do caminho de ferro de Bagdad, essa fatal 'grande obra do espírito empreendedor alemám', que é mais culpada do nosso 'cerco' do que todos os nossos pecados políticos juntos” [18] (por “cerco” entende-se a política de Eduardo VII, que visava isolar a Alemanha e rodeá-la de umha aliança imperialista anti-alemá). Eschwege, colaborador dessa mesma revista e referido mais acima, escreveu em 1911 um artigo intitulado “A Plutocracia e os Funcionários”, no qual denunciava, por exemplo, o caso do funcionário alemám Volker, que era membro da comissom de cartéis e se distinguia pola sua energia, mas pouco tempo depois ocupou um cargo lucractivo no cartel mais importante, o sindicato do aço. Os casos desse género, que nom som de modo nengum excepcionais, obrigárom esse mesmo escritor burguês a reconhecer que “a liberdade económica garantida pola Constituiçom alemá se converteu, em muitas esferas da vida económica, numha frase sem sentido” e que, com a dominaçom a que chegou a plutocracia, “nem a liberdade política mais ampla nos pode salvar de nos convertermos num povo de homens privados de liberdade” [19] .

 

No que se refere à Rússia, limitaremo-nos a um só exemplo: há alguns anos, todos os jornais dêrom a notícia de que Davídov, director do Departamento de Crédito, abandonava o seu lugar nesse organismo do Estado para entrar ao serviço de um banco importante, com um vencimento que, ao fim de alguns anos, deveria representar, segundo o contrato, umha soma de mais de 1 milhom de rublos. O Departamento de Crédito é umha instituiçom destinada a “unificar a actividade de todos os estabelecimentos de crédito do Estado” e que fornece subsídios aos bancos da capital no valor de 800 a 1.000 milhons de rublos [20] .

 

É próprio do capitalismo em geral separar a propriedade do capital da sua aplicaçom à produçom, separar o capital-dinheiro do industrial ou produtivo, separar o rentier, que vive apenas dos rendimentos provenientes do capital-dinheiro, do empresário e de todas as pessoas que participam directamente na gestám do capital. O imperialismo, ou domínio do capital financeiro, é o capitalismo no seu grau superior, em que essa separaçom adquire proporçons imensas. O predomínio do capital financeiro sobre todas as demais formas do capital implica o predomínio do rentier e da oligarquia financeira, a situaçom destacada de uns quantos Estados de “poder” financeiro em relaçom a todos os restantes. O volume deste processo dom-no-lo a conhecer os dados estatísticos das emissons de toda a espécie de valores.

 

No Boletim do Instituto Internacional de Estatística, A. Neymarck [21] publicou os dados mais pormenorizados, completos e susceptíveis de comparaçom sobre as emissons em todo o mundo, dados que depois fôrom reproduzidos muitas vezes parcialmente nas publicaçons económicas. Eis os dados correspondentes a quatro decénios:

 

TOTAL DAS EMISSONS EM MILHARES DE MILHONS DE FRANCOS EM CADA DEZ ANOS

 

1871-1880 ....................................................            76,1

1881-1890 ....................................................            64,5

1891-1900 ....................................................     100,4

1901-1910 ...................................................      197,8

 

Na década de 1870 o total das emissons aparece elevado em todo o mundo, particularmente polos empréstimos, em relaçom com a guerra franco-prussiana e com a Gründerzeit que se lhe seguiu na Alemanha. Em geral, o aumento é relativamente lento, durante os três últimos decénios do século XIX, e só no primeiro decénio do século XX atinge grandes proporçons, quase duplicando em dez anos. Os começos do século XX constituem pois umha época de viragem, nom só do ponto de vista do crescimento dos monopólios (cartéis, sindicatos, trusts), de que já falamos, mas também do ponto de vista do crescimento do capital financeiro.

 

O total de valores emitidos no mundo era em 1910, segundo os cálculos de Neymarck, de uns 815 mil milhons de francos. Deduzindo aproximativamente as duplicaçons, o número desce para 575 ou 600 mil milhons. Eis a distribuiçom por países (com base no número de 600 mil milhons):

 

TOTAL DOS VALORES EM 1910

 

(Em milhares de milhons de francos)

 

Inglaterra ...........................

142

 

 

Holanda .......................

12,5

Estados Unidos ................

132

479

 

Bélgica .........................

7,5

França ................................

110

 

 

Espanha .......................

7,5

Alemanha ..........................

95

 

 

Suíça .............................

6,25

Rússia ................................

31

 

 

Dinamarca ....................

3,75

Áustria-Hungria ...............

24

 

 

Suécia, Noruega,

 

Itália ..................................

14

 

 

Roménia, etc. ................

2,5

Japom .................................

12

 

 

 

 

 

 

 

 

Total .............................

600

 

Destes dados vê-se imediatamente com que força se destacam os quatro países capitalistas mais ricos, que dispomm aproximadamente de 100 a 150 mil milhons de francos em valores. Desses quatro, dous - Inglaterra e França som os países capitalistas mais velhos e, como veremos, os mais ricos em colónias; os outros dous - os Estados Unidos e a Alemanha - som países capitalistas avançados pola rapidez de desenvolvimento e polo grau de difusom dos monopólios capitalistas na produçom. Os quatro juntos tenhem 479 mil milhons de francos, isto é, cerca de 80 % do capital financeiro mundial. Quase todo o resto do mundo exerce, de umha forma ou de outra, funçons de devedor e tributário desses países, banqueiros internacionais, desses quatro “pilares” do capital financeiro mundial.

 

Convém determo-nos particularmente no papel que desempenha a exportaçom de capital na criaçom da rede internacional de dependências e de relaçons do capital financeiro.

 

Voltar ao Índice

 

 

IV. A EXPORTAÇOM DE CAPITAL

 

O que caracterizava o velho capitalismo, no qual dominava plenamente a livre concorrência, era a exportaçom de mercadorias. O que caracteriza o capitalismo moderno, no qual impera o monopólio, é a exportaçom de capital.

 

O capitalismo é a produçom de mercadorias no grau superior do seu desenvolvimento, quando até a força de trabalho se transforma em mercadoria. O desenvolvimento da troca, tanto no interior como, em especial, no campo internacional, é um traço distintivo e característico do capitalismo. O desenvolvimento desigual, por saltos, das diferentes empresas e ramos da indústria e dos diferentes países é inevitável sob o capitalismo. Inglaterra é a primeira que se transforma em país capitalista, e em meados do século XIX, ao implantar o livre cámbio, pretendeu ser a “oficina de todo o mundo”, o fornecedor de artigos manufacturados para todos os países, os quais deviam fornecer-lhe, em contrapartida, matérias-primas. Mas este monopólio da Inglaterra enfraqueceu já no último quartel do século XIX, pois alguns outros países, defendendo-se por meio de direitos alfandegários “proteccionistas”, tinham-se transformado em Estados capitalistas independentes. No limiar do século XX assistimos à formaçom de monopólios de outro género: primeiro, unions monopolistas de capitalistas em todos os países de capitalismo desenvolvido; segundo, situaçom monopolista de uns poucos países riquíssimos, nos quais a acumulaçom do capital tinha alcançado proporçons gigantescas. Constituiu-se um enorme “excedente de capital” nos países avançados.

 

Naturalmente, se o capitalismo tivesse podido desenvolver a agricultura, que hoje em dia se encontra em toda a parte enormemente atrasada em relaçom à indústria; se tivesse podido elevar o nível de vida das massas da populaçom, a qual continua a arrastar, apesar do vertiginoso progresso da técnica, umha vida de subalimentaçom e de miséria, nom haveria motivo para falar de um excedente de capital. Este “argumento” é constantemente avançado polos críticos pequeno-burgueses do capitalismo. Mas entom o capitalismo deixaria de ser capitalismo, pois o desenvolvimento desigual e a subalimentaçom das massas som as condiçons e as premissas básicas, inevitáveis, deste modo de produçom. Enquanto o capitalismo for capitalismo, o excedente de capital nom é consagrado à elevaçom do nível de vida das massas do país, pois significaria a diminuiçom dos lucros dos capitalistas, mas ao aumento desses lucros através da exportaçom de capitais para o estrangeiro, para os países atrasados. Nestes países atrasados o lucro é em geral elevado, pois os capitais som escassos, o preço da terra e os salários relativamente baixos, e as matérias-primas baratas. A possibilidade da exportaçom de capitais é determinada polo facto de umha série de países atrasados terem sido já incorporados na circulaçom do capitalismo mundial, terem sido construídas as principais vias férreas ou iniciada a sua construçom, terem sido asseguradas as condiçons elementares para o desenvolvimento da indústria, etc. A necessidade da exportaçom de capitais obedece ao facto de que em alguns países o capitalismo “amadureceu excessivamente” e o capital (dado o insuficiente desenvolvimento da agricultura e a miséria das massas) carece de campo para a sua colocaçom “lucrativa”.

 

Eis dados aproximados sobre o volume dos capitais investidos no estrangeiro polos três países mais importantes [22] :

 

CAPITAL INVESTIDO NO ESTRANGEIRO

 

(Em milhares de milhons de francos)

 

Anos

Inglaterra

França

Alemanha

 

 

 

 

1862 .....................

3,6

--

--