As Liçons de Outubro (continuaçom)

Leon Trotski.

Kislovodsk, 15 de Setembro de 1924

 

A Insurreiçom de Outubro e a "Legalidade" Soviética

Em Setembro, durante a Conferência Democrática, Lenine exigia a insurreiçom, imediatamente:

"Se queremos tratar a insurreiçom como marxistas" - escrevia ele - "quer dizer, como umha arte, devemos, simultaneamente e sem perda de tempo, organizar um estado-maior dos destacamentos insurreccionais, repartir as nossas forças, lançar nos pontos mais importantes os regimentos fiéis, cercar o teatro Alexandra, ocupar a fortaleza Pedro-e-Paulo, deter o grande estado-maior e o governo, enviar destacamentos prontos a sacrificarem-se até ao último homem (antes isso do que permitir a penetraçom do inimigo nas partes centrais da cidade) contra os alunos oficiais e a "divisom selvagem"; mobilizar os operários armados, convocá-los para a suprema batalha, ocupar o telégrafo e o telefone simultaneamente, instalar na central telefónica central o nosso estado-maior insurreccional, pô-lo em ligaçom telefónica com todas as fábricas e regimentos, com todos os pontos em que a luita armada prossiga, etc. É evidente que todo isto só é aproximativo. Contodo, vejo-me na obrigaçom de ter de provar que, actualmente, é impossível mantermo-nos fiéis ao marxismo e à revoluçom sem se tratar a insurreiçom como umha arte".

Esta maneira de encarar as cousas pressupunha a preparaçom e realizaçom da insurreiçom por interédio e sob a direcçom do Partido, devendo a vitória ser sancionada em seguida polo Congresso dos sovietes. O Comité Central nom aceitou esta proposta. A insurreiçom foi canalizada na via soviética e subordinada ao 2º Congresso dos sovietes. Esta divergência exige umha explicaçom especial; inserir-se-á depois, naturalmente, nom no quadro duma questom de princípios mas duma questom puramente técnica, embora de grande importáncia prática.

Já referimos como Lenine temia deixar escapar o momento da insurreiçom. Face às hesitaçons manifestadas polas sumidades do Partido, a agitaçom que subordinava formalmente a insurreiçom à convocaçom do 2º Congresso parecia-lhe um inadmissível atraso, umha concessom à irresoluçom e aos irresolutos, umha perca de tempo, um verdadeiro crime. A partir de fins de Setembro, Lenine insiste várias vezes neste pensamento.

"Existe umha tendência, umha corrente no C. C. e entre os dirigentes do Partido." - escrevia a 29 de Setembro - "a favor da espera polo Congresso dos Sovietes e contra a imediata tomada do poder, contra a insurreiçom, imediatamente. Essa tendência, essa corrente, tem que ser combatida". Nos começos de Outubro, Lenine declara: "É um crime contemporizar; esperar polo Congresso dos sovietes é um formalismo infantil e absurdo, é umha traiçom à revoluçom". Nas suas teses à conferência de Petrogrado, em 8 de Outubro, diz: "É preciso luitar contra as ilusons constitucionais e as esperanças no Congresso dos Sovietes, pondo de parte o propósito de esperar, a todo o custo, por ele". Finalmente, em 24 de Outubro, escreve: "É claro que qualquer atraso agora na insurreiçom, equivale à morte", e mais adiante: "A História nom perdoará um atraso a revolucionários que, podendo vencer hoje (e vencerám certamente), se arriscam a deitar todo a perder se esperam polo dia de amanhá".

Todas estas cartas, em que cada frase é forjada na bigorna da revoluçom, revestem um interesse excepcional para a caracterizaçom da Lenine e a avaliaçom do momento. O sentimento que as inspira é a indignaçom face à atitude fatalista, expectante, social-democrática, menchevique, para com a revoluçom, considerada como umha espécie de filme sem fim. Se, regra geral, o tempo é um importante factor da política, em períodos de guerra e revoluçom a sua importáncia multiplica-se. Nada nos garante que se poda deixar para amanhá o que se pode fazer hoje. Se é possível hoje lançar a revolta, abater o inimigo e tomar o poder, amanhá talvez já nom. Porém, tomar o poder é modificar o curso da história; semelhante acontecimento pode depender de um intervalo, de 24 horas? Certamente que sim. Quando se trata da insurreiçom armada, os acontecimentos medem-se, nom ao quilometro de política mas ao metro de guerra. Em certas condiçons, deixar passar algumhas semanas, alguns dias, às vezes um único dia, equivale a render a revoluçom, a capitular. nom fosse a pressom, a crítica e a desconfiança revolucionária de Lenine, o partido nom chegaria provavelmente a corrigir no momento decisivo a sua linha, até porque a resistência nas altas esferas era muito forte e o estado-maior, na guerra civil como na guerra em geral, desempenha sempre um importante papel.

Mas, ao mesmo tempo, a preparaçom da insurreiçom a coberto da preparaçom do 2.º Congresso dos Sovietes e a palavra de ordem da defesa deste congresso, conferiam-nos evidentemente inestimáveis vantagens. Depois de termos anulado, na qualidade de Soviete de Petrogrado, a ordem de Kerensky a respeito do envio para a frente de dous terços da guarniçom, instaurava-se efectivamente o estado de insurreiçom armada. Lenine, que na altura se encontrava ausente de Petrogrado, nom avaliou o facto em toda a sua importáncia. Se bem me lembro, nom se referiu a ele nas suas cartas da altura. Todavia, o desenlace da insurreiçom de 25 de Outubro pré-determinara-se já, polo menos em três quartas partes, no momento em que, opondo-nos ao afastamento da guarniçom de Petrogrado, criámos o Comité Militar Revolucionário (7 de Outubro), nomeamos os nossos comissários para todas as unidades e instituiçons militares e, por isso mesmo isolamos completamente, nom só o estado-maior da circunscriçom militar de Petrogrado, mas também o governo. Tratava-se, em suma, de umha insurreiçom armada (embora sem derramamento de sangue) dos regimentos de Petrogrado_ contra o Governo Provisório, dirigida polo Comité Militar Revolucionário e sob a palavra de ordem da preparaçom para a defesa do 2.º Congresso dos Sovietes, que devia resolver a questom do poder. Por nom lhe ser possível, do seu refúgio, conhecer a viragem radical que se produzira, nom só no estado de espírito, mas também nas ligaçons orgánicas de toda a hierarquia militar, após o levantamento "pacífico" da guarniçom da capital em meados de Outubro, Lenine aconselhou a lançar a insurreiçom a partir de Moscovo, onde, na sua opiniom, se podia garantir a vitória sem derramamento de sangue. A partir do mome1nto em que, por ordem do Comité Militar Revolucionário, os batalhons se recusárom a abandonar a cidade, estava-se perante umha insurreiçom vitoriosa na capital, que os derradeiros farrapos do Estado democrático burguês mal disfarçavam. A insurreiçom de 25 de Outubro tivo só um carácter complementar. Por isso foi tam indolor. Em Moscovo, polo contrário, embora já se tivesse instaurado o poder do Conselho dos Comissários do Povo, a luita foi muito mais longa e sangrenta. Se tivesse começado em Moscovo, antes do golpe de força de Petrogrado, a insurreiçom ainda teria sido, evidentemente, de mais longa duraçom e o seu êxito muito duvidoso. Ora, umha derrota em Moscovo teria umha grave repercussom em Petrogrado. Se é certo que, mesmo com plano de Lenine, a vitória nom se tornava impossível, a via tomada polos acontecimentos revelou-se, contodo, muito mais econômica e vantajosa, garantindo mais completamente a vitória.

Só porque a insurreiçom armada, "silenciosa", quase "legal" - polo menos em Petrogrado - era já um facto consumado (senom em nove décimos polo menos em três quartos), é que nos foi possível fazer coincidir mais ou menos exactamente a tomada do poder com o momento da convocaçom do 2.º Congresso dos Sovietes. Esta insurreiçom era "legal" no sentido de surgir das concessons "normais" da dualidade de poder. Já tinha acontecido muitas vezes, mesmo quando estava nas maos dos conciliadores o soviete de Petrogrado controlar ou modificar as decisons do governo. Era umha forma de se deixar enquadrar na constituiçom do regime conhecido polo nome de kerenskismo. Nós, bolcheviques, quando obtivemos a maioria no soviete de Petrogrado, nada mais figemos do que prolongar e acentuar os métodos de dualidade do poder. Encarregamo-nos de controlar e rever a ordem de envio da guarniçom para a frente. Precisamente por isso, cobrimos a insurreiçom efectiva da guarniçom de Petrogrado com as tradiçons e procedimentos da dualidade do poder. Além disso, unindo, na agitaçom que fazíamos, a questom do poder e a convocaçom do 2.º Congresso dos Sovietes, desenvolvemos e aprofundamos as tradiçons desta dualidade, preparando o quadro da legalidade sovietista para a insurreiçom bolchevique em toda a Rússia. nom alimentávamos as ilusons constitucionais sovietistas das massas, porque, sob a palavra de ordem de luita polo 2.º Congresso, conquistávamos para a nossa causa, agrupando-as, as forças do exército revolucionário. Simultaneamente e muito mais do que era de esperar, conseguimos atrair os nossos inimigos, os conciliadores, para a armadilha da legalidade sovietista. Politicamente, é sempre perigoso o recurso a ardis, sobretudo em épocas revolucionárias, pois além de ser difícil enganar o inimigo, corre-se o risco de induzir em erro as massas que nos seguem. O nosso "ardil" foi um êxito completo, nom por ser umha invençom artificial de um estratega engenhoso, desejando evitar a guerra civil, mas por resultar naturalmente da decomposiçom do regime conciliador e das suas flagrantes contradiçons. O Governo Provisório queria desfazer-se da guarniçom. Os soldados nom queriam ir para a frente. Dando a este sentimento natural umha expressom política, um objectivo revolucionário e umha cobertura "legal", garantimos a unidade no seio da guarniçom, ligando-a estreitamente aos operários de Petrogrado. Na sua situaçom desesperada e caótica, os nossos inimigos tinham, polo contrário, tendência para considerar a legalidade sovietista como moeda segura. Queriam ser enganados, polo que lhes demos todas as possibilidades disso.

Urna luita pola legalidade sovietista prosseguia entre nós e os conciliadores. Para as massas, a fonte do poder estava nos Sovietes. Deles saíram Kerenski, Tseretelli e Skobelev. Também nós estávamos estreitamente ligados aos Sovietes, mas pola palavra de ordem fundamental: todo o poder aos Sovietes. A burguesia defendia a sua filiaçom na Duma do Império; os conciliadores, embora defendessem a sua nos Sovietes, pretendiam reduzir o seu papel à insignificáncia. Quanto a nós, provenientes dos Sovietes, o que nos interessava era transmitir-lhes o poder. nom podendo romper ainda os 1aços com os Sovietes, os conciliadores apressavam-se a estabelecer umha ponte entre a legalidade sovietista e o parlamentarismo. Convocaram, para o efeito, a Conferência Democrática, criando o pré-Parlamento. Fosse como fosse, a participaçom dos Sovietes no pré-Parlamento sancionava a sua acçom. Os conciliadores esforçavam-se por surpreender a revoluçom com o engodo de legalidade sovietista, canalizando-a no parlamentarismo burguês.

Todavia também nós estávamos interessados em utilizar a legalidade sovietista. No final da Conferência Democrática, arrancamos aos conciliadores o consentimento para a convocaçom do 2.º Congresso dos Sovietes. Este congresso deixou-os extremamente perplexos: com efeito, nom podiam opor-se à sua convocaçom sem romper com a legalidade sovietista; por outro lado, compreendiam perfeitamente que este congresso, pola sua composiçom, nada de bom lhes prometia. Precisamente por isso é que apelávamos tanto mais instantemente para que fosse realizado, enquanto senhor dos destinos do país, convidando, em toda a nossa propaganda, a apoiá-lo e protegê-lo dos inevitáveis ataques da contra-revoluçom. Se é certo que os conciliadores nos apanhárom na ratoeira da legalidade sovietista com o pré-Parlamento saído dos Sovietes, por sua vez, através do 2.0 Congresso dos Sovietes, encurralamo-las nessa mesma legalidade. umha cousa era organizar umha insurreiçom armada sob a palavra de ordem da tomada do poder polo partido, outra, muito diferente, preparar e depois realizar a insurreiçom, invocando a necessidade de defender os direitos do Congresso dos Sovietes.

Assim, se bem que quigéssemos fazer coincidir a tomada do poder com o 2.º Congresso dos Sovietes, de modo nengum tivemos a esperança ingênua de que este, por si só, pudesse resolver a questom do poder. Este fetichismo da forma sovietista era-nos completamente alheio. No domínio da política, da organizaçom e da técnica militar, o trabalho necessário à conquista do poder ocupáva-nos activamente. Contodo, procedíamos legalmente quando nos referíamos ao próximo congresso que devia decidir a questom do poder.

Lançando a ofensiva em toda a linha, dávamos mostras de nos defender. Polo contrário, se se quigesse defender seriamente, o Governo Provisório deveria proibir a convocaçom do Congresso dos sovietes, dando, por isso mesmo, pretexto à parte adverso para a insurreiçom armada (para o Congresso era o pretexto mais vantajoso). Além disso, nom só púnhamos o Governo Provisório numha situaçom política desvantajosa, mas entorpecíamos também a confiança que nele muitos depositavam.

Os membros do governo acreditavam sincera-mente tratarmos do parlamentarismo sovietista, de um novo Congresso em que seria adoptada umha nova resoluçom sobre o poder no espírito das dos sovietes de Petrogrado e Moscovo, depois do que, referindo-se ao pré-Parlamento e à próxima Assembleia Constituinte, o governo deixara de nos venerar, colocando-nos numha situaçom ridícula. Era assim que os pequenos burgueses mais razoáveis pensavam, como prova incontestavelmente o testemunho de Kerensky.

Este conta nas suas memórias a discussom tempestuosa que tivo com Dan e outros na noite de 24 para 25 de Outubro, a propósito da insurreiçom que já se desenvolvia profundamente.

"Logo de início Dan declarou-me" - conta Kerensky - "estarem muito melhor informados que eu, polo que exagerava os acontecimentos sob a influência das comunicaçons do meu estado-maior reacionário. Garantiu-me depois que a resoluçom da maioria do soviete, desagradável "para o amor-próprio do governo", contribuiria indiscutivelmente para umha viragem favorável no estado de espírito das massas cujo efeito se fazia sentir já, e que a influência da propaganda bolchevique "decairia agora rapidamente".

"Por outro lado, na sua opiniom, nas conversaçons com os chefes da maioria sovietista, os bolcheviques declarárom estar prontos a "submeter-se à vontade da maioria dos sovietes", dispondo-se a tomar "de amanhá em diante" todas as medidas para abafar a insurreiçom que "deflagrara contra a sua vontade e sem a sua sançom". Em conclusom, Dan lembrou que, "de amanhá em diante" (sempre o dia de amanhá), os bolcheviques dissolveriam o seu estado-maior militar, declarando que todas as medidas por mim tomadas para reprimir a insurreiçom só contribuiriam para "exasperar" as massas e que a minha "intromissom" só servia para "impedir os representantes da maioria dos sovietes de conseguirem a liquidaçom da insurreiçom nas suas conversaçons com os bolcheviques".

"Ora, na altura em que Dan me fazia esta notável comunicaçom, os destacamentos da guarda vermelha iam ocupando sucessiva-mente os edifícios governamentais. E, quase imediatamente após a saída de Dan e dos seus camaradas do Palácio de Inverno, o ministro dos Cultos, Kartachev, de volta da sessom do Governo Provisório, foi detido na Míllionnaia e conduzido ao Smolni, aonde Dan regressara para prosseguir as entrevistas com os bolcheviques. Há que reconhecer que os bolcheviques agiram entom com grande energia e completa habilidade. numha altura em que a insurreiçom estava no auge e as "tropas vermelhas" operavam por toda a cidade, alguns dos chefes bolcheviques especializados na tarefa esforçavam-se (nom sem êxito) por lograr os representantes da "democracia revolucionária". Esses finórios passárom toda a noite numha discussom interminável sobre as diversas fórmulas que deviam pretensamente servir de base a umha reconciliaçom e liquidaçom da insurreiçom. Com este método nas "conversaçons", os bolcheviques ganhárom um tempo extremamente precioso. As forças combativas dos s. - r. e mencheviques nom foram mobilizadas a tempo. Isso é que era preciso demonstrar!" (A. Kerenski, De longe).

Com efeito, isso é que era preciso demonstrar! Como se vê, os conciliadores deixaram-se completamente apanhar na ratoeira da legalidade sovietista. A suposiçom de Kerenski, segundo a qual os bolcheviques especializados nesta missom induziram em erro os mencheviques e os s. - r. a respeito da próxima liquidaçom da insurreiçom, é falsa. Na realidade, só tomárom parte nas conversaçons os bolcheviques que verdadeiramente queriam a liquidaçom da insurreiçom e a constituiçom dum governo socialista com base num acordo entre os partidos. Objectivamente, porém, estes parlamentares prestárom à insurreiçom um certo serviço, alimentando com as suas as ilusons do inimigo. Mas só porque o Partido, apesar dos seus conselhos e avisos, com umha infatigável energia, prosseguia e consumava a insurreiçom, puderam prestar à revoluçom esse serviço.

Era preciso um excepcional concurso de circunstáncias, grandes e pequenas, para o êxito desta larga manobra envolvente. Era preciso, acima de tudo, um exército que já nom quigesse bater-se. No momento da revoluçom, se nom dispuséssemos de um exército camponês de vários milhares de homens, vencido e descontente, todo o seu desenvolvimento revolucionário assumiria um aspecto muito diferente, em particular no primeiro período, de Fevereiro a Outubro, inclusive. Só nestas condiçons era possível realizar exitosamente com a guarniçom de Petrogrado a experiência que pré-determinava a vitória de Outubro. nom se pode pretender erigir em lei a combinaçom especial duma insurreiçom tranqüila, quase despercebida, com a defesa da legalidade sovietista contra os kornilovianos. Muito polo contrário, pode-se afirmar com segurança que esta experiência em parte algumha jamais se repetirá da mesma forma. Porém, é necessário estudá-la cuidadosamente. Este estudo alargará o horizonte de cada revolucionário, revelando4he a diversidade dos métodos e meios susceptíveis de serem postos em acçom, na condiçom de que se fixe um objectivo claro e se tenha umha nítida ideia da situaçom e da vontade de travar a luita até ao fim.

Em Moscovo a insurreiçom foi muito mais prolongada, causando mais vítimas. E isto porque a guarniçom de Moscovo nom fora submetida, como a de Petrogrado, a umha preparaçom revolucionária (envio dos batalhons para a frente).

A insurreiçom armada - repetimos - efectuou-se por duas vezes em Petrogrado: na primeira quinzena de Outubro, quando os regimentos se recusárom a cumprir as ordens do comando, submetendo-se à decisom do soviete que correspondia inteiramente ao seu estado de espírito; e em 25 de Outubro, quando já só bastava umha pequena insurreiçom complementar para derrubar o governo de Fevereiro. Em Moscovo a insurreiçom efectuou-se de umha só vez. Esta provavelmente a principal razom por que se prolongou. Mas há ainda umha outra: umha certa irresoluçom por parte da direçom. Passou-se, por várias vezes, das operaçons militares às conversaçons, voltando-se a seguir à luita armada. Se as hesitaçons da direcçom - sentidas perfeitamente polas tropas - som, regra geral, politicamente prejudiciais, durante umha insurreiçom tornam-se mortalmente perigosas. Neste momento, muito embora tivesse já perdido confiança nas suas próprias forças, a classe dominante detinha ainda o aparelho governamental. À classe revolucionária incumbia a tarefa de conquistar o aparelho estatal, para o que lhe era necessário confiar nas suas próprias forças. A partir do momento em que arrastou os trabalhadores na esteira da insurreiçom, o Partido tivo que retirar daí todas as conseqüências necessárias. Na insurreiçom, tal corno na guerra - e muito menos no primeiro caso - nom se podem tolerar hesitaçons ou perdas de tempo. Marcar passo, tergiversar, ainda que por algumhas horas, restitui parcialmente aos dirigentes a confiança em si próprios, retirando aos insurrectos parte da sua certeza. Ora, esta confiança, esta certeza, determinando a correlaçom das forças, decide o desenlace da insurreiçom. Este é o ángulo do qual é necessário estudar, par e passo, o andamento das operaçons militares em Moscovo, na sua combinaçom com a direcçom política.

Seria extremamente importante assinalar ainda alguns dos pontos em que a guerra civil decorreu sob condiçons especiais (por exemplo, quando se complexificava com o elemento nacional). Um tal estudo, baseando-se no exame minucioso dos factos, é de natureza a enriquecer consideravelmente a nossa concepçom do mecanismo da guerra civil e, por isso mesmo, a facilitar a elaboraçom de determinados métodos, regras, processos, com um carácter suficientemente geral para puderem ser introduzidos numha espécie de estatuto da guerra civil. A verdade é que o desenlace em Petrogrado determinava numha larga medida a guerra civil na província, embora se revelando morosa em Moscovo. A revoluçom de Fevereiro danificara consideravelmente o antigo aparelho -herança que o Governo Provisório era incapaz de renovar e consolidar. Por conseguinte, entre Fevereiro e Outubro o aparelho estatal só funcionava pola inércia burocrática. A província habituara-se se orientar por Petrogrado: figera-o em Fevereiro, voltando a fazê-lo em Outubro. A nossa grande vantagem estava em prepararmos o derrube dum regime que ainda nom tivera tempo de se formar. A extrema instabilidade do aparelho estatal de Fevereiro e a falta de confiança em si mesmo facilitárom singularmente o nosso trabalho, mantendo a certeza das massas revolucionárias e do próprio Partido.

Na Alemanha e na Áustria, depois de 09 de Novembro de 1918, houvo umha situaçom análoga. Nesse caso, porém, foi a própria social-democracia a colmatar as fendas do aparelho estatal, ajudando ao restabelecimento do regime burguês republicano que, apesar de ainda hoje nom poder ser considerado modelo de estabilidade, conta já no entanto com seis anos de existência. Quanto aos outros países capitalistas, esses nom gozarám desta vantagem, quer dizer, desta proximidade entre a revoluçom burguesa e a proletária. Há já muito tempo que realizárom a sua revoluçom de Fevereiro. É certo que na Inglaterra ha ainda bastantes sobrevivências feudais; mas seria impróprio falar de umha revoluçom burguesa independente na Inglaterra. Logo que tenha conquistado o poder, o proletariado inglês, com a primeira vassourada que der, livrará o país da monarquia, dos lords, etc. A revoluçom proletária no Ocidente ver-se-á a braços com um Estado burguês completamente formado. Q que nom quer dizer que depare com um aparelho estável, dado que a própria possibilidade de insurreiçom proletária pressupom umha desagregaçom do Estado capitalista, bastante adiantada. Se entre nós a revoluçom de Outubro foi umha luita contra um aparelho estatal que ainda nom tivera tempo de se formar desde Fevereiro, nos outros países a insurreiçom terá contra si um aparelho estatal em estado de progressivo desmembramento. Regra geral é de supor que, tal como dissemos no IV Congresso da I.C., a resistência da burguesia nos antigos países capitalistas será muito mais forte do que entre nós; o proletariado a lançará a vitória mais dificilmente; em contrapartida, a conquista do poder garantir-lhe-á umha situaçom muito mais firme e estável do que a nossa logo após Outubro. Entre n6s, a guerra civil só se desenvolveu verdadeiramente depois da tomada do poder polo proletariado nos principais centros urbanos e industriais, preenchendo os três primeiros anos de existência do poder sovietista. Há muitas razons para que o proletariado tenha mais dificuldade em conquistar o poder na Europa central e ocidental; em contrapartida, depois da tomada do poder, ficará com os braços muito mais livres do que nós. É evidente que estas conjunturas só podem ter um carácter condicional. O desenlace dos acontecimentos dependerá, numha larga medida, da ordem segundo a qual a revoluçom se processar nos diferentes países da Europa, das possibilidades de intervençom militar e da força econômica e militar da Uniom Soviética nesse momento. Seja como for, a eventualidade muito provável de a conquista do poder vir a chocar-se com umha resistência das classes dominantes na Europa e na América, muito mais séria, muito mais implacável e reflectida do que entre nós, obriga-nos a considerar a insurreiçom armada e a guerra civil em geral, como umha arte.

 

Sovietes e Partido na Revoluçom Proletária

Os sovietes dos deputados operários surgiram entre nós em 1905 e 1917, a partir do próprio movimento, como forma de organizaçom natural a certo nível da luita. Mas os jovens partidos europeus que aceitárom os sovietes mais ou menos como "doutrina" e "princípio", estám sempre expostos ao perigo de umha concepçom fetichista dos sovietes, considerados como factores autônomos da revoluçom. Com efeito, apesar da imensa vantagem que apresentam como organizaçom de luita polo poder, é perfeitamente possível que a insurreiçom se desenvolva com base noutra forma de organizaçom (comitês de usinas, sindicatos) e os sovietes sujam apenas como órgao do poder no momento da insurreiçom ou mesmo depois da vitória.

Muito elucidativa, deste ponto de vista, é a luita em que Lenine se empenhou depois das jornadas de Julho contra o fetichismo sovietista. umha vez que os sovietes s.-r. e mencheviques se tinham tornado em Julho organizaçons que incitavam abertamente à ofensiva os soldados e perseguiam os bolcheviques, o movimento revolucionário das massas operárias podia e devia procurar outras vias. Lenine indicou os comitês de fábrica como organizaçom da luita polo poder. O movimento teria muito provavelmente tomado essa direcçom se nom fosse a insurreiçom de Kornilov que obrigou os sovietes conciliadores a defender-se a si mesmos e permitiu aos bolcheviques insuflar-lhes de novo o espírito revolucionário, ligando-os estreitamente às massas por intermédio da sua esquerda, quer dizei>dos bolcheviques.

Tal como a recente experiência da Alemanha demonstrou, esta questom reveste umha enorme importáncia internacional. Neste país, os sovietes foram por várias vezes construídos como órgaos da insurreiçom, como órgaos do poder, sem o deter, O resultado foi que em 1923 o movimento das massas proletárias e semi-proletárias começou a agrupar-se à volta dos comitês de fábrica, que no fundo preenchiam as mesmas funçons que incumbiam entre nós aos sovietes no período que precedeu a luita directa polo poder. No entanto, em Agosto e Setembro, alguns camaradas propuseram proceder-se imediatamente à criaçom de sovietes na Alemanha. Depois de longos e ardentes debates a proposta foi repelida, e com razom. Como os comitês de fábrica já se tinham tornado efectivamente pontos de concentraçom das massas revolucionárias, os sovietes desempenhariam no período preparatório um papel paralelo ao dos comitês de fábrica, nom sendo senom umha forma sem conteúdo. Nada mais fariam do que desviar o pensamento das tarefas materiais da insurreiçom (exército, polícia, centúrias, caminhos de ferro, etc.) reportando-os a umha forma de organizaçom autônoma. Por outro lado, a criaçom dos sovietes como tais, antes da insurreiçom, teria sido como que urna proclamaçom de guerra sem efeito. O governo, obrigado a tolerar os comitês de fábrica por reunirem massas consideráveis à sua volta, fustigaria os primeiros sovietes enquanto órgao oficial que procurava conquistar o poder. Os comunistas ver-se-iam obrigados a assumir a defesa dos sovietes enquanto organizaçom. A luita decisiva nom visaria a tomada ou defesa de posiçons materiais, nom se desenrolando no momento, por nós escolhido, em que a insurreiçom decorreria necessariamente do movimento das massas; teria, sim, rebentado por causa de umha forma de organizaçom, os sovietes, no momento escolhido polo inimigo. Ora, é evidente que todo o trabalho preparatório da insurreiçom podia ser subordinado com toda a eficiência à forma de organizaçom dos comitês de fábrica que já tinham tido tempo de se tornar organizaçons de massas, continuando a aumentar e a fortificar-se, e davam carta branca ao Partido em relaçom à fixaçom da data da insurreiçom. Evidentemente que os sovietes, numha certa etapa, teriam que surgir. Nas condiçons que acabamos de indicar, é duvidoso que tivessem surgido no auge da luita como órgaos directos da insurreiçom, pois daí poderia resultar umha dualidade de direcçom revolucionária no momento crítico. nom é preciso mudar de cavalo quando se atravessa umha torrente, di um provérbio inglês. É possível que, depois da vitória nas principais cidades, os sovietes começassem a aparecer em todos os pontos do país. Em todo o caso, a insurreiçom vitoriosa provocaria necessariamente a criaçom dos sovietes como órgaos do poder.

Nom nos esqueçamos que, entre nós, os sovietes surgiram já na etapa "democrática" da revoluçom, sendo entom legalizados de qualquer forma; em seguida herdamo-los e utilizamo-los. O mesmo nom sucederá nas revoluçons proletárias do Ocidente. Nessas, os sovietes criarám-se, na maioria dos casos, por apelo dos comunistas, tornando-se em seguida órgaos directos da insurreiçom proletária. É evidentemente possível que a desorganizaçom do aparelho estatal burguês se torne muito forte antes da conquista do poder polo Pro1etariado o que permitiria criar sovietes como órgaos declarados da preparaçom da insurreiçom. Mas é muito pouco provável que esta seja a regra geral. Na maior parte dos casos só nos últimos dias se conseguem criar os sovietes, como órgaos directos da massa pronta a insurgir-se. Finalmente, é também muito possível que os sovietes surjam após o momento crítico da insurreiçom e até depois da sua vitória, como órgaos do novo poder. É preciso encarar constantemente todas estas eventualidades de modo a nom cair no fetichismo de organizaçom e nom transformar os sovietes, de forma de luita flexível e vital, em "princípio" de organizaçom, introduzido no movimento do exterior e entravando o seu desenvolvimento regular.

Declarou-se recentemente na nossa Imprensa desconhecermos por que porta entraria a revoluçom proletária na Inglaterra: se polo partido comunista, se polos sindicatos. Decidir é impossível. Esta maneira de pôr a questom, que pretende atingir a envergadura histórica, é radicalrnente falsa e muito perigosa, pois oculta a principal liçom dos últimos anos. Se nom houvo nenguma revoluçom vitoriosa no fim da juerra, foi por nom haver um partido. Esta constataçom aplica-se a toda a Europa. Seguindo par e passo o movimento revolucionário nos diferentes países, poder-se-á verificar a sua Justeza. No que di respeito a Alemanha, se a massa fosse dirigida polo Partido tal como se impunha, é claro que a revoluçom em 1918 e 1919 poderia vir a triunfar. Em 1917, o exemplo da Finlándia mostrou-nos que o movimento revolucionário se desenvolvia em condiçons excepcionalmente favoráveis, a coberto e com a ajuda militar directa da Rússia revolucionária. Mas a maioria da direcçom do Partido finlandês, sendo como era social-democrata, votou à derrota a revoluçom. nom menos claramente sobressai esta liçom da experiência da Hungria. Neste país os comunistas, aliados aos social-democratas de esquerda, embora nom tendo conquistado o poder, receberam-no das maos da burguesia apavorada. A revoluçom húngara, vitoriosa sem combate nem vitória, viu-se privada de umha direcçom combativa desde o início, O Partido comunista fundiu-se com o Partido social-democrático, demonstrando com isso nem mesmo ser verdadeiramente comunista e por conseguinte incapaz de conservar o poder que obtivera tam facilmente, apesar do espírito combativo dos proletários húngaros. A. revoluçom proletária nom pode triunfar sem o Partido, contra o Partido ou através dum sucedáneo dele. Este é o principal ensinamento dos últimos dez anos. Ë certo que os sindicatos ingleses podem tornar-se umha poderosa alavanca da revoluçom proletária; em certas condiçons e durante um determinado período, poderám até, por exemplo, substituir os Sovietes operários. Mas, sem o apoio do Partido comunista e, com mais forte razom, contra ele, nom serám capazes disso; só se a propaganda comunista se tornar preponderante no seu seio é que poderám desempenhar esse papel. Pagamos demasiado caro esta liçom sobre o papel e importáncia do Partido, para nom a termos retido integralmente.

Nas revoluçons burguesas, a consciência, a preparaçom e o método desempenhárom um papel muito menos relevante do que som chamados a desempenhar e desempenhárom já nas revoluçons do proletariado. A força motriz da revoluçom burguesa foi também a massa, mas muito menos consciente e organizada do que nos nossos dias. A direcçom pertencia as diferentes fracçons da burguesia, que dispunha da riqueza, da instruçom e da organizaçom (municipalidades, universidades, imprensa, etc.). A monarquia burocrática defendeu-se empiricamente, agindo completamente ao acaso. A burguesia escolheu o momento favorável em que pudesse, explorando o movimento das massas populares, lançar todo o seu peso social no prato da balança e conquistar o poder. Porém, na revoluçom proletária, o proletariado é nom só a principal força combativa, mas também, na pessoa da sua vanguarda, a força dirigente. Só o partido do proletariado pode desempenhar na revoluçom proletária o papel que o poderio da burguesia, a sua instruçom, as suas municipalidades e universidades desempenhárom na revoluçom burguesa. O seu papel é tanto maior quanto mais formidavelmente recrudesceu a consciência de classe do seu inimigo. Ao longo de séculos de dominaçom, a burguesia elaborou umha escola política incomparavelmente superior à da antiga monarquia burocrática. Se o parlamentarismo foi, até certo ponto, para o proletariado, umha escola de preparaçom para a revoluçom ainda foi mais umha escola de estratégia contra-revolucionária para a burguesia. Como prova, basta indicar que foi polo parlamentarismo que a burguesia educou a social-democracia, hoje em dia a mais poderosa proteçom da propriedade individual. Tal como as primeiras experiências provaram, a época da revoluçom social na Europa será umha época de batalhas, nom só implacáveis, mas também calculadas, muito mais calculadas do que entre nós, em 1917.

Impom-se-nos, por isso, abordar as questons da guerra civil e, em particular, da insurreiçom, de forma diferente da actual. Na esteira de Lenine, repetimos freqüentemente as palavras de Marx: "A insurreiçom é umha arte". Porém, se nom se estudarem os elementos essenciais da arte da guerra civil com base na vasta experiência acumulada durante os últimos anos, tal pensamento nada mais será do que umha frase vazia. É preciso declarar abertamente que a nossa indiferença polas questons da insurreiçom armada é testemunho da força considerável que a tradiçom Social-democrática conserva no nosso seio. O partido que considerar superficialmente as questons da guerra civil na esperança de que todo se combine por si só no momento necessário, sofrerá com toda a certeza umha derrota. É preciso estudar colectivamente e assimilar a experiência das batalhas proletárias desde 1917.

A história dos agrupamentos do Partido em 1917, esboçada mais atrás, representa igualmente umha parte essencial da experiência da guerra civil, assumindo umha importáncia directa para a política da Internacional Comunista. Já dissemos, mas voltamos a dizer: o estudo das nossas divergências nom pode nem deve ser considerado, de maneira nenguma, como dirigido contra os camaradas que defenderam entom umha política errada. Mas, por outro lado, seria inadmissível riscar o capítulo mais importante da história do Partido, só porque todos os seus membros nom andavam entom a par da revoluçom do proletariado. O Partido pode e deve conhecer todo o seu passado para o apreciar convenientemente e pôr as cousas nos seus devidos lugares. A tradiçom dum partido revolucionário nom é feita de reticências, mas de clareza política.

A história garantiu ao nosso Partido incomparáveis vantagens revolucionárias. Tradiçons de luita heróica contra o czarismo, hábitos, processos revolucionários ligados às condiçons de acçom clandestina, elaboraçom teórica da experiência, revolucionária de toda a humanidade, luita contra o menchevismo, contra a corrente dos narodniki, contra o conciliacionismo, experiência da Revoluçom de 1905, elaboraçom teórica desta experiência durante os anos da contra-revoluçom, exame dos problemas do movimento operário internacional do ponto de vista das liçons de 1905: eis o que, no conjunto, deu ao nosso Partido umha têmpera excepcional, umha superior clarividência, umha envergadura revolucionária sem paralelo. E, contodo, no momento da acçom decisiva, formou-se neste partido tam bem preparado, ou melhor, nas suas esferas dirigentes, um grupo de antigos bolcheviques, revolucionários experientes, que se opôs violentamente ao golpe de força proletário e assumiu em todas as questons essenciais, durante o período mais critico da revoluçom - de Fevereiro de 1917 a Fevereiro de 1918 - umha posiçom social-democrática. Foi preciso a excepcional influência de Lenine no Partido para preservar este e a revoluçom das funestas conseqüências de tal estado de cousas. Eis o que nunca se deverá esquecer se quisermos que os Partidos comunistas dos outros países aprendam algumha cousa na nossa escola. A questom da selecçom do pessoal dirigente tem umha importáncia excepcional para os Partidos da Europa Ocidental. É o que demonstra, entre outras, a experiência do fracasso de Outubro de 1923 na Alemanha. Mas esta selecçom deve efectuar-se de acordo com o princípio da acçom revolucionária... Dispusemos de bastantes ocasions na Alemanha para pôr à prova o valor dos dirigentes do Partido no momento das luitas directas. Sem esta prova, todos os outros critérios nom poderiam ser considerados seguros. Ao longo dos últimos anos, a França tivo muito menos convulsons revolucionárias, mesmo que limitadas. Houvo contodo algumhas explosons ligeiras de guerra civil quando o Comitê Directivo do Partido e os dirigentes sindicais tiveram que reagir face a questons urgentes e importantes (por exemplo: o meeting sangrento de 11 de Janeiro de 1924). O estudo atento de episódios deste gênero fornece-nos dados inestimáveis que permitem apreciar o valor da direcçom do Partido e a conduta dos seus chefes e diferentes órgaos. nom tomar em consideraçom estes dados para a selecçom dos homens, é caminhar inevitavelmente para a derrota, pois que, sem direcçom perspicaz, resoluta e corajosa do Partido, a vitória da revoluçom proletária é impossível.

Qualquer partido, mesmo o mais revolucionário, elabora inevitavelmente o seu conservadorismo de organizaçom: caso contrário, nom alcançaria a estabilidade necessária. Mas, no caso em questom, todo depende do grau. Num partido revolucionário a dose necessária de conservadorismo deve combinar-se com umha total libertaçom de rotina, flexibilidade de orientaçom e audácia actuante. Estas qualidades verificam-se melhor nas viragens históricas. Lenine - vimo-lo mais atrás - dizia que quando sobrevinha umha mudança brusca na situaçom e, portanto nas tarefas, os partidos, mesmo os mais revolucionários, continuavam na maior parte dos casos a seguir a sua linha anterior, tornando-se ou ameaçando tornar-se, por isso mesmo, um travom para o desenvolvimento revolucionário. O conservadorismo do Partido, tal como a sua iniciativa revolucionária, encontram nos órgaos da direcçom a sua expressom mais concentrada. Ora, os Partidos comunistas europeus tenhem ainda que efectuar a sua mais brusca viragem: aquela em que passarám do trabalho preparatório à tomada do poder. É a que mais qualidades exige, mais responsabilidades impom e a mais perigosa. Deixar escapar tal momento é o maior desastre de que o Partido pode ser vitima.

A experiência das batalhas dos últimos anos na Europa e principalmente na Alemanha, considerada á luz da nossa própria experiência, mostra-nos que há duas categorias de chefes com tendência a empurrar para trás o Partido na altura de dar em frente o maior salto. Uns som levados a ver principalmente as dificuldades e os obstáculos, apreciando cada situaçom com o "parti pris", inconsciente por vezes, de se furtar a acçom. Para esses o marxismo torna-se um método utilizado para motivar a impossibilidade de acçom revolucionária, Os mencheviques russos representavam os espécimes mais característicos deste tipo de chefes. Este nom se limita, porém, ao menchevismo, revelando-se no momento mais crítico no interior do partido mais revolucionário e no seio de militantes que ocupam os postos mais elevados. Os representantes da outra categoria som agitadores superficiais. Enquanto nom forem de encontro aos obstáculos, nom os vêem. Quando chega o momento da acçom decisiva, o hábito que tenhem de iludir as dificuldades reais jogando com as palavras, o seu extremo optimismo em todas as questons, transforma-se inevitavelmente em impotência e pessimismo. Para o primeiro tipo, para o revolucionário mesquinho, amolador ambulante, as dificuldades da tomada do poder nada mais som do que a acumulaçom e multiplicaçom de todas as dificuldades que está habituado a ver no caminho. Para o segundo tipo, o optimista superficial, as dificuldades da acçom revolucionária surgem sempre subitamente. No período de preparaçom, a conduta destes dous homens é diferente: um mostra-se como que um céptico com quem é impossível firmemente contar do ponto de vista revolucionário; em contrapartida, o outro pode parecer um revolucionário ardente. Mas no momento decisivo ambos andam de maos dadas, insurgindo-se contra a insurreiçom. Contodo, só na medida em que torna capaz o Partido, e sobretudo os seus órgaos dirigentes, de determinar o momento da insurreiçom e de a dirigir, é que todo o trabalho de preparaçom tem valor. Porque a tarefa do Partido comunista é conquistar o poder a fim de proceder à refundiçom da sociedade.

Nos últimos tempos, tem-se falado e escrito freqüentemente sobre a necessidade de bolchevizaçom da Internacional Comunista. É umha tarefa urgente, indispensável, cuja necessidade se faz sentir mais imperiosamente ainda depois das terríveis liçons que nos foram dadas na Bulgária e na Alemanha, o ano passado. O bolchevismo nom é umha doutrina (quer dizer, nom tam-somente umha doutrina), mas um sistema de educaçom revolucionária para a realizaçom da revoluçom proletária. O que é bolchevisar os Partidos comunistas? É educá-los, seleccionar no seu seio pessoal dirigente que nom fuja no momento da sua revoluçom de Outubro.

 

Duas Palavras Sobre Este Livro

A primeira fase da revoluçom "democrática" vai da Revoluçom de Fevereiro à crise de Abril e à sua soluçom, a 06 de Maio, com a criaçom dum governo de coligaçom no qual participavam os mencheviques e os narodnikis. Por só ter chegado a Petrogrado a 5 de Maio, na véspera da constituiçom do governo de coligaçom, o autor da presente obra nom participou nos acontecimentos desta primeira fase. A primeira etapa da revoluçom e as suas perspectivas som assinaladas nos artigos escritos na América. Em todo o que contêm de essencial, suponho que estes artigos estám de acordo com a análise da Revoluçom feita por Lenine nas suas Cartas de longe.

Logo que cheguei a Petrogrado, trabalhei em conformidade absoluta com o Comitê Central dos bolcheviques. Escusado será dizer que apoiei totalmente a teoria de Lenine sobre a conquista do poder polo proletariado. No que di respeito ao campesinato, nom tive nem por sombras nenguma divergência com Lenine, que terminava entom a primeira etapa da sua luita contra os bolcheviques de direita, arvorando a palavra de ordem da "Ditadura democrática do proletariado e do campesinato". Até á minha adesom formal ao partido, participei na elaboraçom duma série de decisons e documentos, selados polo Partido. O único motivo que me fijo diferir por três meses a minha adesom ao Partido foi o desejo de acelerar a fusom dos bolcheviques com os melhores elementos da organizaçom intersectorialista e, de maneira geral, com os internacionalistas revolucionários. Prossegui esta política com a total aprovaçom de Lenine.

A redacçom desta obra chamou-me a atençom para umha frase num dos meus artigos dessa época em favor da unificaçom, na qual fazia notar o "estreito espírito de circulo" dos bolcheviques, em matéria de organizaçom. Certamente que pensadores profundos como Sorine nom deixarám de ligar directamente esta frase às divergências sobre o 1.º parágrafo dos estatutos. Agora que reconheci, verbal e efectivamente, os meus erros em matéria de organizaçom, nom acho necessário empenhar-me numha discussom sobre o assunto. Até o leitor menos avisado, encontrará nas condiçons concretas do momento umha explicaçom muito mais simples e directa para a expressom precipitada. Muitos operários intersectorialistas mantinham-se ainda numha desconfiança muito grande a respeito da política de organizaçom do Comitê de Petrogrado. Foi a isso que repliquei no meu artigo:

"O espírito de círculo, herança do passado, ainda existe; mas, para que diminua, os intersectorialistas devem deixar de prosseguir umha existência isolada, à parte."

A minha "proposta" puramente polémica, no 1º Congresso dos Sovietes, de formar um governo com umha dúzia de Piechekhanov foi interpretada - penso que por Sukhanov - como manifestativa duma inclinaçom pessoal por Piechekhanov e, simultaneamente, como umha táctica diferente da de Lenine. Evidentemente que isso é um absurdo. Quando exigi que os Sovietes, dirigidos polos mencheviques e socialistas-revolucionários, tomassem o poder, o nosso Partido "exigia" por isso mesmo um ministério composto por pessoas como Piechekhanov, Tchernov e Dan; qualquer deles podia servir para facilitar a transmissom do poder, da burguesia para o proletariado. Talvez Piechekhanov conhecesse um pouco mais de estatística e desse a impressom dum homem um pouco mais prático do que Tseretelli ou Tchernov. umha dúzia de Piechekhanov seria um governo composto por vulgares representantes da democracia pequeno-burguesa, em vez da coligaçom. Quando as massas de Som Petersburgo, dirigidas polo Partido, arvorárom a palavra de ordem: "Abaixo os dez ministros capitalistas - exigiam por isso mesmo que os mencheviques e os narodnikis ocupassem os lugares destes. "Livrem-se dos cadetes e tomem o poder, Senhores democratas burgueses; ponham no governo doze Piechekhanov, que prometemos expulsar-vos o mais "pacificamente" possível, quando chegar a hora. E nom tarda muito que soe. nom cabe falar aqui duma linha especial; a minha linha era a que Lenine por varias vezes formulara...

Kislovodsk, 15 de Setembro de 1924.

 

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