Os Conselhos
Operários
Anton Pannekoek
Abril de 1936
A classe operária
em luita tem necessidade dumha organizaçom que lhe permita compreender
e discutir, através da qual poda tomar decisons e fazê-las concretizar,
e graças à qual poda fazer conhecer as acçons que empreende
e os objectivos que se propom atingir.
Evidentemente,
isso nom significa que todas as grandes acçons e as greves gerais devam
ser dirigidas a partir de um órgao central, nem que elas devam ser
definidas numha atmosfera de disciplina militar. Tais casos podem produzir-se,
mas a maior parte das vezes as greves gerais explodem espontaneamente, num
clima de combatividade, solidariedade e paixom, para responder a algum mau
golpe do sistema capitalista ou para apoiar camaradas. Tais greves propagam-se
como um fogo na planície.
Durante a primeira Revoluçom russa, os movimentos de greve conhecêrom
umha sucessom de altos e baixos. Os que tivérom mais êxito fôrom
muitas vezes aqueles que nom tinham sido decididos antecipadamente, enquanto
que aqueles que tinham sido provocados polos comités centrais estavam
em geral votados à derrota.
Para se reunir umha força organizada, os grevistas em acçom
têm necessidade dum espaço de entendimento. Eles nom podem atacar
a poderosa organizaçom do poder capitalista se nom apresentarem, polo
seu lado, umha organizaçom fortemente estruturada, se nom formarem
um bloco sólido unindo as suas forças e desejos, se eles nom
agirem na simultaneidade. Porque quando milhares ou milhons de operários
nom formam mais que um corpo unido, eles apenas podem ser dirigidos por funcionários
que agem em seu nome. E temos visto que estes representantes se tornam entom
os donos da organizaçom e deixam de incarnar os interesses revolucionários
dos trabalhadores.
Como pode a classe operária, nas suas luitas revolucionárias,
reunir as suas forças numha poderosa organizaçom sem se atolar
no lamaçal da burocracia? Responderemos a esta questom pondo umha outra:
quando os operários se limitam a pagar as suas quotas e a obedecer
aos dirigentes, poderá-se dizer que eles luitam verdadeiramente pola
sua liberdade?
Luitar pola liberdade, nom é deixar os dirigentes decidir em seu lugar,
nem segui-los com obediência, e poder repreendê-los de vez em
quando. Bater-se pola liberdade, é participar com todos os seus meios,
é pensar e decidir por si mesmo, é tomar todas as responsabilidades
enquanto pessoa entre camaradas iguais. É evidente que pensar por si
mesmo, decidir do que é verdadeiro e do que é justo, constitui
para o trabalhador que tem o espírito fatigado polo labor quotidiano,
umha tarefa árdua e difícil, bem mais exigente que se ele se
limitar a pagar e a obedecer. Mas a única via que conduz à liberdade.
Fazer-se libertar polos outros, que fam desta libertaçom um instrumento
de domínio, é simplesmente substituir os antigos patrons por
novos.
Para atingir o seu objectivo - a liberdade - os trabalhadores deverám
poder dirigir o mundo; deverám poder utilizar as riquezas da terra
de maneira a torná-la acolhedora para todos. Eles nom poderám
fazê-lo enquanto nom souberem bater-se por si próprios.
A revoluçom
proletária nom consiste exclusivamente em destruir o poder capitalista.
Ela exige também que o conjunto da classe operária saia da sua
situaçom de dependência e ignoráncia para aceder à
independência e construir um mundo novo.
A verdadeira organizaçom de que os operários têm necessidade
no processo revolucionário é umha organizaçom na qual
cada um participa, corpo e alma, tanto na acçom como na direcçom,
na qual cada um pensa, decide e age mobilizando todas as suas faculdades -
um bloco unido de pessoas plenamente responsáveis. Os dirigentes profissionais
nom têm lugar numha tal organizaçom. Bem entendido será
necessário obedecer: cada um deverá conformar-se às decisons
para cuja formulaçom ele próprio contribuiu. Mas a totalidade
do poder concentrará-se sempre nas maos dos próprios operários.
Poderemos algumha
vez realizar umha tal organizaçom? Qual será a sua estrutura?
Nom é de todo em todo necessário definir-lhe a forma, pois a
história já a produziu: ela nasceu da prática da luita
de classes. Os comités de greve som a sua primeira expressom, o protótipo.
Quando as greves atingem umha certa importáncia, torna-se impossível
que todos os operários participem na mesma assembleia. Escolhem portanto
os delegados que se reagrupam num comité. Este comité nom é
senom o corpo executivo dos grevistas; estando constantemente em ligaçom
com eles e devendo executar as decisons dos operários. Cada delegado
é revogável em qualquer momento e o comité nom pode nunca
tornar-se um poder independente. Desta maneira, o conjunto dos grevistas tem
assegurado ser unido na acçom conservando o privilégio das decisons.
Em regra geral, os sindicatos e os seus dirigentes encarregam-se da direcçom
dos comités.
Durante a revoluçom russa, quando as greves se desencadeavam dumha
maneira intermitente, nas fábricas, os grevistas escolhiam delegados
que se organizavam em nome de toda umha cidade, ou ainda da indústria
ou dos caminhos de ferro de toda umha província, a fim de provocar
umha unidade no combate. A sua primeira tarefa era discutir questons políticas
e assumir funçons políticas, porque as greves eram essencialmente
dirigidas contra o czarismo. Aí se discutia, em detalhe, a situaçom
presente, os interesses de todos os trabalhadores e os acontecimentos políticos.
Os delegados faziam constantemente a ponte entre a assembleia e as respectivas
fábricas. Polo seu lado, os operários participavam em assembleias
gerais nas quais discutiam as suas mesmas questons, tomavam decisons e muitas
vezes designavam novos delegados. Socialistas competentes eram escolhidos
como secretários; a sua funçom era de aconselhar servindo-se
dos seus conhecimentos mais vastos. Estes sovietes funcionavam muitas vezes
como forças políticas, espécie de governo primitivo,
cada vez que o poder czarista se encontrava paralisado e que os dirigentes
desorientados lhes deixavam o campo livre. Eles tornárom-se assim o
centro permanente da revoluçom; eram compostos polos delegados de todas
as fábricas quer elas estivessem em greve ou em funcionamento. Nom
podiam prever tornar-se algumha vez um poder independente, pois os respectivos
membros nos sovietes eram muitas vezes mudados; por vezes era o próprio
soviete que era inteiramente substituído. Sabiam por outro lado que
todo o seu poder estava nas maos dos trabalhadores; nom podiam obrigá-los
a entrar em greve e os seus apelos nom eram seguidos se nom coincidissem com
os sentimentos instintivos dos operários que sabiam espontaneamente
se estavam em situaçom de fora ou de fraqueza, se a hora era de paixom
ou de prudência. Assim o sistema dos sovietes mostrou qual era a forma
de organizaçom mais apropriada para a classe operária revolucionária.
Este modelo devia ser imediatamente adoptado em 1917; os sovietes de soldados
e de operários constituiram-se através de todo o país
e fôrom a verdadeira força motora da revoluçom.
A importáncia
revolucionária dos sovietes verificou-se de novo na Alemanha, quando
em 1918, depois da decomposiçom do exército, sovietes de operários
e de soldados fôrom criados segundo o modelo russo. Mas os operários
alemáns, que tinham sido habituados à disciplina de partido
e de sindicato e para quem os fins políticos imediatos eram modelados
a partir dos ideais sociais-democratas da república e da reforma, designárom
os seus dirigentes sindicais e líderes de partido à cabeça
destes conselhos. Eles tinham sabido bater-se e agir correctamente por si
próprios, mas tivérom pouca segurança e escolhêrom
chefes possuídos de ideais capitalistas - o que destrui sempre as cousas.
Assim, nom é surpreendente que um "congresso de conselhos"
decida abdicar em favor dum novo parlamento, cuja eleiçom devia seguir-se
o mais breve possível.
Vemos claramente como o sistema dos conselhos nom pode funcionar senom quando
se encontra em presença de umha classe operária revolucionária.
Enquanto os operários nom tiverem a intençom de prosseguir a
revoluçom, nom devem criar sovietes. Se os operários nom som
suficientemente avançados para descobrir a via da revoluçom,
se se contentam em ver os seus dirigentes encarregarem-se de todos os discursos,
meditaçons e negociaçons visando a obtençom de reformas
no interior do sistema capitalista, os parlamentos, os partidos e os congressos
sindicais - ainda chamados parlamentos operários porque eles funcionam
segundo o mesmo principio - lhes bastam amplamente. Polo contrário,
eles ponhem todas as suas energias ao serviço da revoluçom,
se participam com entusiasmo e paixom em todos os acontecimentos, se pensam
e decidem, por eles próprios todos os detalhes da luita porque ela
será obra deles, neste caso, os conselhos operários som a forma
de organizaçom de que têm necessidade.
Isto implica igualmente que os conselhos operários nom podem ser constituídos
por grupos revolucionários. Estes últimos nom podem senom propagar
essa ideia, explicando aos seus camaradas operários que a classe operária
em luita se deve organizar em conselhos surge com a primeira acçom
de carácter revolucionário; a sua importáncia e funçons
cresce à medida que se desenvolve a revoluçom. Num primeiro
tempo, eles podem nom passar de simples comissons de greve, constituídas
para luitar contra os dirigentes sindicalistas, sempre que as greves ultrapassam
as intençons destes últimos e os grevistas recusam acompanhá-los
por mais tempo.
As funçons
dessas comissons tomam mais amplitude com as greves gerais. Os delegados de
todas as fábricas som entom encarregados de discutir e decidir sobre
todas as condiçons de luita; eles devem tentar transformar as forças
combativas dos operários em acçons reflectidas, e ver como elas
poderám reagir contra as medidas governamentais, as tomadas polo Exército
e as cliques capitalistas. Durante a greve, as decisons serám tomadas
polos próprios operários. Todas as opinions, vontades, disponibilidades
e hesitaçons das massas nom fam mais que um todo no interior da organizaçom
conselhista. Esta torna-se o símbolo, o intérprete do poder
dos trabalhadores; mas também nom é mais do que o porta-voz
que pode ser revogado a todo o momento. De organizaçom ilegal da sociedade
capitalista, ela torna-se umha verdadeira força, a qual o governo passa
desde entom a ter em conta.
A partir do momento em que o movimento revolucionário adquire um poder
tal que o governo fica seriamente afectado, os conselhos operários
tornam-se órgaos políticos. Numha revoluçom política,
eles encarnam o poder operário e devem tomar todas as medidas necessárias
para enfraquecer e vencer o adversário. Tal como umha potência
em guerra, têm de montar guarda no conjunto do país, a fim de
nom perder de vista os esforços levados a cabo pola classe capitalista
para reunir as suas forças e vencer os trabalhadores. Eles devem, por
outro lado, ocupar-se de certos negócios públicos que eram antes
geridos polos Estado: a saúde e a segurança pública,
assim como o curso interrompido da vida social. Eles têm por fim, de
tomar nas maos a produçom, o que representa a tarefa mais importante
e árdua da classe operária em situaçom revolucionária.
Nengumha revoluçom
social começou como umha simples mudança de dirigentes políticos
que, depois de ter conquistado o poder, procedem às mudanças
sociais necessárias com o auxílio de novas leis. A classe em
ascensom sempre construiu, antes e durante a luita, as novas organizaçons
que emergírom das antigas como rebentos de um tronco morto. Durante
a revoluçom francesa, a nova classe capitalista, os cidadaos, os homens
de negócios e os artesaos construíram, em cada cidade e aldeia,
assembleias comunais e tribunais, ilegais na época, e que nom faziam
outra cousa que usurpar as funçons dos funcionários reais, tornados
impotentes. E enquanto que em Paris os delegados dessas assembleias elaboravam
a nova constituiçom, os cidadaos através de todo o país
faziam a verdadeira constituiçom promovendo reunions políticas
e construindo organizaçons políticas que deveriam, posteriormente,
ser legalizadas.
Do mesmo modo,
na revoluçom proletária, a nova classe ascendente deve criar
as suas novas formas de organizaçom que, pouco a pouco, ao longo do
processo revolucionário, virám tomar o lugar da antiga organizaçom
política estatal. Enquanto que nova forma de organizaçom política,
o conselho operário toma finalmente o lugar do parlamentarismo, forma
política do regime capitalista.
Teóricos capitalistas e sociais-democratas pensam ver na democracia
parlamentar o perfeito modelo da democracia, conforme aos princípios
da justiça e da igualdade. Na realidade, nom se trata senom de umha
maneira de mascarar a dominaçom capitalista que se ri de toda a justiça
e de toda a igualdade. Somente o sistema conselhista constitui a verdadeira
democracia operária.
A democracia
parlamentar é umha democracia abjecta. O povo nom pode escolher os
seus delegados e votar senom umha vez todos os quatro ou cinco anos; e que
ele se livre de nom escolher o homem conveniente! Os eleitores só poderám
exercer o seu poder no momento do voto; o resto do tempo, eles som impotentes.
Os delegados designados tornam-se os dirigentes do povo; decretam as leis,
formam os governos, e ao povo compete apenas obedecer. Em regra geral, a máquina
eleitoral está concebida de tal forma que apenas os grandes partidos
capitalistas, poderosamente equipados, têm possibilidades de ganhar.
É muito raro que grupos de verdadeiros opositores do regime obtenham
quaisquer lugares.
Com o sistema dos sovietes; cada delegado pode ser revogado a qualquer momento.
Os operários nom estám, apenas e constantemente, em contacto
com os seus delegados, participando nas discussons e decisons; estes nom passam
de porta-vozes temporários das assembleias conselhistas. Os políticos
capitalistas gostam de denunciar a funçom "desprovida de caracter"
do delegado que é por vezes obrigado a emitir opinions que nom som
as suas. Eles esquecem que é precisamente porque nom existem delegados
perenes que apenas som designados para esse posto indivíduos cujas
opinions som conformes às dos trabalhadores.
A repressom parlamentar
parte do princípio que o delegado ao parlamento deve agir e votar segundo
a sua própria consciência e convicçom. Se lhe acontece
pedir opiniom aos seus eleitores, é unicamente porque ele pretende
dar imagem de prudente. Incumbe a ele e nom ao povo a responsabilidade das
decisons. O sistema dos sovietes funciona por um princípio inverso:
os delegados limitam-se a exprimir as opinions dos trabalhadores.
As eleiçons parlamentares agrupam os cidadaos segundo a sua circunscriçom
eleitoral - quer dizer, segundo os seus locais de habitaçom. Assim,
indivíduos de profissons ou classes diferentes e que apenas têm
em comum o facto de serem vizinhos, som reunidos artificialmente num grupo
e representados por um único delegado.
Nos conselhos, os operários som representados nos seus grupos de origem,
segundo fábrica, oficina ou complexo industrial em que trabalham. Os
operários de umha fábrica constituem umha unidade de produçom;
formam um todo a partir do seu trabalho colectivo. Em período revolucionário,
encontram-se, portanto, imediatamente em contacto para trocar os seus pontos
de vista: vivem nas mesmas condiçons e possuem interesses comuns. Devem
agir concertadamente; cabe-lhes decidir se a fábrica, enquanto unidade,
deve estar em greve ou em funcionamento. A organizaçom e a delegaçom
dos trabalhadores nas fábricas e oficinas é portanto a única
forma possível.
Os conselhos som, ao mesmo tempo, a garantia da subida do comunismo no processo
revolucionário. A sociedade é fundada na produçom, ou,
mais correctamente, a produçom é a própria essência
da sociedade, e por conseqüência, a marcha da produçom determina
a marcha da sociedade. As fábricas som unidades de trabalho, células
que constituem a sociedade. A principal tarefa dos organismos políticos
(organismos dos quais depende a marcha da sociedade) está estreitamente
ligada ao trabalho produtivo da sociedade. Por conseqüência, os
trabalhadores nos seus conselhos discutem essas questons e escolhem os seus
delegados nas suas unidades de produçom.
Contodo nom seria
exacto dizer que o parlamentarismo, forma política do capitalismo,
nom está baseado na produçom. De facto a organizaçom
política é sempre modelada segundo o carácter da produçom,
base da sociedade. A representaçom parlamentar que se decide em funçom
do lugar de habitaçom pertence ao sistema da pequena produçom
capitalista, na qual cada homem é suposto possuir a sua pequena empresa.
Nesse caso, existe umha relaçom entre todos os homens de negócios
da circunscriçom: eles comerceiam entre eles, vivem como vizinhos,
conhecem-se uns aos outros, e por conseqüência designam um delegado
parlamentar. Vimos já que esse sistema se revelou o melhor para representar
os interesses de classe no interior do capitalismo.
Por outro lado,
vimos claramente hoje porque os delegados parlamentares deviam tomar o poder
político. A sua tarefa política nom passava de umha parte ínfima
da obra da sociedade. A mais importante, o trabalho produtivo, incumbia a
todos os produtores separados, cidadaos como homens de negócios; ela
exigia quase sempre toda a sua energia e cuidados. Logo que cada indivíduo
se ocupava dos seus pequenos negócios, a sociedade portava-se bem.
As leis gerais, condiçons necessárias mas de fraco alcance,
podiam ser deixadas a cargo de um grupo (ou profissom) especializado, os políticos.
O inverso é verdadeiro no que respeita à produçom comunista.
O trabalho produtivo colectivo torna-se tarefa de toda a sociedade, diz respeito
a todos os trabalhadores. Toda a energia e cuidados nom estám ao serviço
de trabalhos pessoais, mas da obra colectiva da sociedade. Quanto aos regulamentos
que regem essa obra colectiva, eles nom podem ser deixados entre as maos de
grupos especializados; porque dependem do interesse vital do conjunto dos
trabalhadores.
Existe umha outra
diferença entre os sistemas parlamentar e conselhista. A democracia
parlamentar concede um voto a cada homem adulto - e por vezes a cada mulher
- invocando o direito supremo e inviolável de todo o indivíduo
pertencer à raça humana - como dizem tam bem os discursos cerimoniais.
Nos sovietes, polo contrário, apenas os trabalhadores estám
representados. Pode-se concluir daqui que o sistema conselhista nom é
realmente democrático pois que exclui as outra classes da sociedade?
A organizaçom conselhista incarna a ditadura do proletariado. Há
mais de meio século, Marx e Engels explicárom como a revoluçom
social devia conduzir à ditadura do proletariado, e como essa nova
expressom política era indispensável à introduçom
de modificaçons necessárias na sociedade. Os socialistas que
apenas pensam em termos de representaçom parlamentar procurárom
desculpar ou criticar essa infracçom à democracia e injustiça
que consiste, segundo eles, em recusar o direito de voto a certas pessoas
sob o pretexto que elas pertencem a classes diferentes. Podemos ver hoje como
o processo de luita de classes engendram naturalmente órgaos dessa
ditadura: os sovietes.
Nada há
de injusto em que os conselhos, órgaos de luita de umha classe operária
revolucionária, nom compreenda representantes da classe inimiga. Numha
sociedade comunista nascente nom há lugar para os capitalistas; eles
devem desaparecer e desaparecerám. Quem quer que participe no trabalho
colectivo é membro de umha colectividade e participa nas decisons.
O que resta dos antigos exploradores e ladrons nom tem voto no controlo da
produçom.
Existem outras
classes da sociedade que nom podem nem ser assimiladas aos trabalhadores nem
aos capitalistas. Som os pequenos lavradores, artesaos independentes, os intelectuais.
Nas luitas revolucionárias, eles oscilam entre a direita e a esquerda,
mas no conjunto eles nom som verdadeiramente importantes porque têm
pouco poder. Som essencialmente as suas formas de organizaçom e objectivos
que som diferentes. A tarefa da classe operária em luita será
aliciá-los ou neutralizá-los - se isso é possível
sem se desviar dos seus verdadeiros fins - ou ainda, se necessário,
combatê-los resolutamente; ela deverá decidir da melhor maneira
de os tratar, com firmeza mas também com equidade. Na medida em que
o seu trabalho é útil e necessário, eles encontrará
o seu lugar no sistema de produçom e poderám, assim, exercer
a sua influência a partir do princípio que todo o trabalhador
tem um voto no controlo do trabalho.
Engels tinha
escrito que o Estado desaparecerá com a revoluçom proletária;
que o governo dos homens sucederia a administraçom das cousas. Nessa
época nom era ainda possível encarar claramente como a classe
tomaria o poder. Mas temos hoje a prova da justiça desse ponto de vista.
No processo revolucionário, o antigo poder estatal será destruído
e os órgaos que virám tomar o seu lugar, os conselhos operários,
terám certamente durante algum tempo ainda poderes políticos
importantes a fim de combater os vestígios do sistema capitalista.
Contodo, a sua funçom política reduzirá-se gradualmente
a umha simples funçom económica: a organizaçom do processo
de produçom colectiva dos bens necessários à sociedade.
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