Sovietes em acçom

9 de Abril de 2006

Apresentamos a primeira ediçom digital em galego-português do artigo de John Reed "Os Sovietes em acçom", numha traduçom do original inglês realizada por militantes do nosso partido. Um escrito de grande valor histórico do jornalista norte-americano, que narra em primeira pessoa, como testemunha de excepçom, o funcionamento da democracia soviética durante os primeiros anos da Revoluçom, antes da degeneraçom burocrática estalinista. Leitura especialmente recomendada.

Com esta obra, incorporamos um novo autor na nossa Biblioteca Marxista em Galego. O jornalista e militante comunista John Reed (1887-1920), testemunha directa da Revoluçom Russa, deixou plasmada na obra Dez dias que abalárom o mundo a narraçom mais viva e fidedigna da tomada do poder polos Sovietes em 1917. No prefácio da ediçom de 1919 a essa obra, Lenine escreveu:

"Com imenso interesse e igual atençom lim, até o fim, o livro Dez Dias que Abalárom o Mundo, de John Reed. Recomendo-o, sem reservas, aos trabalhadores de todos os países. É umha obra que eu gostaria de ver publicada em milhons de exemplares e traduzida para todas as línguas, pois traça um quadro vivo dos acontecimentos que tam grande importáncia tenhem para a compreensom da Revoluçom Proletária e a Ditadura do Proletariado. Nos nossos dias, essas questons som objecto de discussons generalizadas, mas antes de aceitar ou de se repetir as ideias que representam, torna-se necessário que se saiba a real significaçom do partido que vai se tomar. O livro de John Reed, indubitavelmente, ajudará a clarear o problema do movimento operário internacional."

À espera de podermos oferecer na nossa língua a principal obra do revolucionário norte-americano, apresentamos a primeira ediçom digital de "Sovietes em acçom" em galego.

Sovietes em acçom

John Reed

Primeira ediçom: Revista The Liberator, Outubro de 1918. Primeira ediçom digital em galego-português: Abril de 2006, autoria a cargo de Primeira Linha em Rede.

Entre o coro de insultos e falsidades dirigidos contra os Sovietes Russos pola imprensa capitalista, corre a voz estridente de um grito de pánico, que clama: "Nom há governo na Rússia! Nom há organizaçom entre os trabalhadores da Rússia! Aquilo nom vai correr bem! Nom vai correr bem!".

É o recurso à calúnia.

Como todo verdaeiro socialista sabe, e como quem já o vimos na Revoluçom Russa podemos testemunhar, há hoje em Moscovo e um pouco por todas as cidades e vilas da Rússia umha estrutura política altamente complexa, sustentada pola grande maioria do povo e que funcionam tam bem como nengum outro governo recém nascido nunca funcionou. Os trabalhadores da Rússia construírom, partindo das suas necessidades vitais, umha organizaçom económica que está a evoluir para uma verdadeira democracia industrial.

O Estado Soviético é baseado nos Sovietes -ou Conselhos- de trabalhadores e nos Sovietes de camponeses. Estes Conselhos -instituiçons características da Revoluçom Russa- originárom-se em 1905, quando durante a primeira greve geral dos trabalhadores, as fábricas de Petrogrado e as organizaçons operárias enviárom delegados ao Comité Central. Este Comité de Greve foi chamado Conselho de Deputados Operários. Convocou a segunda greve geral no Outono de 1905, mandou organizaçons a toda a Rússia e, por um breve lapso de tempo, foi reconhecido polo Governo Imperial como o interlocutor autorizado da classe trabalhadora revolucionária russa.

Com o fracasso da Revoluçom de 1905, os membros do Conselho fugírom ou fôrom deportados para a Sibéria. Mas este tipo de uniom foi tam surpreendentemente efectiva como órgao político que todos os partidos revolucionários incluírom um Conselho de Deputados Operários nos seus planos para um futuro levantamento.

Em Março de 1917, quando o czar abdicou perante umha Rússia que bramava como um oceano, o Grande Duque Miguel rejeitou o trono e a relutante Duma (o pseudoparlamento czarista) foi forçada a tomar as rédeas do Governo, o Conselho de Deputados Operários renasceu mais umha vez. Em poucos dias, foi alargado para incluir delegados do Exército, passando a se denominar Conselho de Deputados de Operários e Soldados. Excepto Kerensky, a Duma era composta por burgueses e nom tinha qualquer ligaçom com as massas revolucionárias. A luita devia de continuar, a ordem devia ser restabalecida, a frente devia manter-se… os membros do Comité da Duma nom estavam em condiçons de levarem a cabo tais tarefas; vírom-se obrigados a chamar os representantes dos trabalhadores e soldados -por outras palavras- o Conselho. O Conselho fijo-se cargo do trabalho da revoluçom, da coordenaçom das actividades do povo, da preservaçom da ordem. Além disso, assumiu a tarefa de assegurar a revoluçom contra a traiçom da burguesia.

Desde a altura em que a Duma se viu forçada a apela ao Conselho, na Rússia existírom dous governos, e dous governos luitárom polo poder até Novembro de 1917, quando os Sovietes, sob controlo bolchevique, derrubárom a coligaçom de governo.

Havia, como dixem, Sovietes de deputados, tanto operários como soldados. Algo mais tarde, surgírom os Sovietes de Deputados Camponeses. Na maioria das cidades, os Sovietes Operários e Soldados reuniam-se conjuntamente; também convocavam juntos os seus Congressos Pan-russos. Os Sovietes de Camponeses, no entanto, eram dominado spor elementos reaccionários e nom aderírom aos operários e soldados até a revoluçom de Novembro e o estabelecimento do Governo Soviético.

O Soviete baseia-se directamente nos trabalhadores nas fábricas e nos camponeses nos campos. Ao princípio, os delegados dos Sovietes de Operários, Soldados e Camponeses, eram eleitos consoante regras que variavam segundo as necessidades e a populaçom das diferentes localidades. Nalgumhas vilas, os camponeses elegiam um delegado por cada cinqüenta eleitores. Os soldados nos quartéis tinham direito a um certo número de delegados por regimento, sem olhar à sua força; as tropas na frente, porém, elegiam os seus Sovietes de maneira diferente. Quanto aos trabalhadores nas grndes cidades, logo descobrírom que os Sovietes eram difíceis de gerir se nom se limitavam os delegados a um por cada 25.000 votantes, embora de facto os delegados representassem circunscriçons de vários tamanhos.

Até Fevereiro de 1918, qualquer pessoa podia votar nos delegados para os Sovietes. Inclusive se os burgueses tivessem organizado e solicitado representaçom nos Sovietes, iria ser-lhes concedido. Por exemplo, durante os mandatos do Governo Provisório, houvo umha representaçom burguesa no Soviete de Petrogrado -um delegado da Uniom de Profissionais, que abrangia doutores, juristas, professores, etc.

No passado Março, a Constituiçom dos Sovietes foi desenvolvida com pormenor e aplicada universalmente. Reduzia o direito de voto a:

Cidadaos de todas as Repúblicas Socialistas Soviéticas de ambos os sexos que com dezoito anos cumpridos no dia das eleiçons…

Todos aqueles que ganharem a vida através do trabalho produtivo e útil à sociedade e que forem membros dos sindicatos…

Ficavam excluídos do direito a voto: os que empregarem a força de trabalho para obterem benefício; as pessoas que viverem de mais-valias; comerciantes e agentes privados de negócios; empresários de comunidades religiosas; ex-membros da política e da gendarmeria; a antiga dinastia reinante; os deficientes mentais; os surdo-mudos; e todos os condenados por delitos menores mesquinhos e indignos.

Quanto aos camponeses, cada cem deles nas vilas elegem um representante para o Soviete do Volost; o Município. Os Sovietes dos Volost enviam delgados junto dos Sovietes do Uyezd, o condado, o qual por sua vez envia delegados junto do Soviete do Oblast, ou província, para o qual também se elegem delegados dos Sovietes de Trabalhdores das cidades.

O Soviete de Petrogrado de Deputados Operários e Soldados, que operavam quando estive na Rússia, pode servir como exemplo de como funcionam as unidades urbanas de governo num Estado Socialista.

Constava de uns 1.200 deputados, e em circustáncias normais realizava umha sessom plenária cada duas semanas. Entretanto, elegia um Comité Executivo Central de 110 membros, proporcionalmente aos partidos, e este Comité Central acrescentava por convite delegados dos comités centrais dos sindicatos dos comités das fábricas e de outras organizaçons democráticas.

Junto ao Soviete da Grande Cidade, existiam ainda os Rayon, ou Sovietes de Distrito. Eram compostos de deputados eleitos para o Soviete da cidade por cada distrito e administravam a sua zona da cidade. Naturalmente, nalguns distritos nom havia fábricas e, portanto, também nom havia representaçom desses distritos, nem no Soviete da cidade nem no Soviete de distrito. Mas o sistema soviético é extraordinariamente flexível e, se os cozinheiros e os empregados de mesa ou balcom, ou os lixeiros, ou os porteiros, ou os motoristas desse distrito se organizavam e solicitavam representaçom, eram-lhes concedidos delegados.

As eleiçons dos delegados baseiam-se na representaçom proporcional, o que significa que os partidos políticos estám representados em proporçom exacta ao número total de votantes da cidade. E som os partidos políticos e os programas que se votam, nom os candidatos. Os candidatos som eleitos polos comités centrais dos partidos políticos, que podem substituí-los por outros membros do partido. Além disso, os delegados nom som eleitos por um prazo de tempo determinado, podendo ser revogados a qualquer momento.

Nunca antes foi criado um corpo político mais sensível e perceptivo à vontade popular.

Isto era necessário, pois nos períodos revolucionários a vontade popular muda com grande rapidez. Por exemplo, durante a primeira semana de Dezembro de 1917, houvo desfiles e manifestaçons em favor da Assembleia Constituinte -quer dizer, contra o poder soviético. Um desses desfiles foi tiroteado por algum Guarda Vermelho irresponsável e várias pessoas morrêrom. A reacçom a essa estúpida violência foi imediata. Mais de umha dúzia de deputados bolcheviques fôrom cessados e substituídos por mencheviques. Passárom três semanas antes de que o sentimento popular se tranquilizasse e os mencheviques fossem substituídos um por um, novamente, polos bolcheviques.

Ao menos duas vezes por ano som eleitos delegados de toda a Rússia para o Congresso de Sovietes Pan-russo. Teoricamente, estes delegados som elelitos por designaçom popular directa; nas províncias, um por cada 125.000 votantes; nas cidades, um por cada 25.000; no entanto, na prática, som normalmente eleitos polos Sovietes provinciais e urbanos. Pode convocar-se umha sessom extraordinária do congresso a qualquer momento, por iniciativa do Comité Central Executivo Pan-russo, ou a pedido de Sovietes que representarem um terço da populaçom trabalhadora da Rússia.

Este órgao, formado por uns 2.000 delegados, reúne-se na capital em forma de grande Soviete e decide sobre os assuntos essenciais da política nacional. Elege um Comité Central Executivo, como o comité Central do Soviete de Petrogrado, que convida os delegados dos comités centrais de todas as organizaçons democráticas.

Este Comité Central Executivo dos Sovietes Pan-russo aumentado, é o parlamento da República Russa. É formado por umhas 350 pessoas. Entre os Congressos Pan-russos é a autoridade suprema, mas nom deve agir à margem das linhas ditadas polo último Congresso e é absolutamente responsável por todos os seus actos perante o seguinte Congresso.

Por exemplo, o Comité Central Executivo pode, e já o fijo, ordenar a assinatura do tratado de paz com a Alemanha. Mas nom pudo fazer com que esse tratado vinculasse a Rússia. Apenas o Congresso Pan-russo tem poder para ratificar o tratado.

O Comité Executivo Central elege entre os seus membros onze delegados como presidentes de comités a cargo dos diferentes departamentos do governo, no lugar dos ministros. Estes delegados podem ser destituídos a todo momento. Som absolutamente responsáveis perante o Comité Central Executivo. Os delegados elegem um presidente. Desde que se constituiu o Governo Soviético, este presidente -ou primeiro ministro- é Nicoalai Lenine. Se a sua direcçom fosse insatisfatória, Lenine poderia ser destituído a todo momento pola delegaçom das massas do povo russo ou no prazo de umhas poucas semanas polo próprio povo russo directamente.

A principal funçom dos Sovietes é a defesa e consolidaçom da revoluçom. Exprimem a vontade política das massas nom apenas nos Congressos Pan-russos, onde a sua autoridade é quase suprema. Esta centralizaçom existe porque os Sovietes locais criam o governo central e nom o Governo central os Sovietes locais. Apesar da autonomia local, porém, os decretos do Comité Central Executivo e as ordens dos delegados som válidos para todo o país, porque na República soviética nom há interesses sectoriais privados que servir, e a causa da Revoluçom é em toda a parte a mesma.

Observadores mal informados, a maioria deles da intelligentsia de classe média, costumam dizer que som a favor dos Sovietes, mas contra os bolcheviques. Isto é um absurdo. Os Sovietes som os órgaos de representaçom mais perfeita da classe trabalhadora, isso é verdade, mas som também as armas da ditadura do proletariado, a que todos os partidos anti-bolcheviques se oponhem encarniçadamente. Assim, a disposiçom da gente a aderir à política da ditadura do proletariado nom só se mede polos membros do partido bolchevique -partido comunista, como agora se chama-, senom como também polo crescimento e actividade dos Sovietes locais da Rússia.

O exemplo mais notável disto achamo-lo entre os camponeses, que nom tomárom a direcçom da Revoluçom, e cujo primeiro e quase exclusivo interesse nela foi a confiscaçom das grandes quintas. Os Sovietes de Deputados Camponeses nom tinham ao iníci9o praticamente outra funçom que a soluçom do problema da terra. Foi o fracasso na soluçom deste problema que levou a atençom da grande massa de camponeses para as razons sociais que havia por trás deste fracassso -isto, unido à propaganda contínua da ala esquerda dos partidos revolucionários Socialistas e Bolcheviques, e à volta às vilas dos soldados revolucionários.


O partido tradicional dos camponeses é o Partido Socialista Revolucionário. A grande massa inerte de camponeses cujo único interesse era a sua terra e que nunca tivera força luitadora nem iniciativa política, ao início rejeitou ter qualquer cousa a ver com os Sovietes. Todavia, aqueles camponeses que participárom nos Sovietes, logo acordárom para a ideia da ditadura do proletariado. E quase invariavelmente entrárom e convertêrom-se em aderentes do Governo soviético.

No Comissariado da Agricultura de Petrogrado há um mapa da Rússia, salpicado de alfinetes vermelhos. Cada um desses alfinetes representa um Soviete de Deputados Camponeses. A primeira vez que vim o mapa, fixado no velho quartel geral dos Sovietes de Camponeses em Fontanka, os pontos vermelhos alastravam disseminados polo vasto país, e o seu número nom aumentava. Nos primeiros oito meses da revoluçom, havia volosts, uyezds, províncias inteiras, de facto, onde apenas umha ou duas grandes cidades e talvez umhas quantas vilas dispersas tinham um Soviete de camponeses. No entanto, depois da revoluçom de Novembro, podias ver a Rússia toda ficar vermelha perante os teus olhos, à medida que vila após vila, condado após condado, província após província, se erguia e formava o seu Conselho de Camponeses.

Na altura da insurreiçom bolchevique, poderia ter sido eleita umha Assembleia Constituinte com umha maioria anti-soviética. Um mês depois, isto teria sido impossível. Eu vim três Convençons Pan-russas de Camponeses em Petrogrado. Os delegados chegavam -a grande maioria deles revolucionários socialistas da ala direita. Começava a -e sempre eram sessons violentas- sob a presença de Avksentiev ou Peshekhanov. Em poucos dias, iriam inclinar-se para a esquerda até serem dominados por pseudo-radicais como Tchernov. Poridonova seria eleita presidenta. Entom, a minoria conservadora viria a cindir-se e montar umha convençom alternativa que, em poucos dias, acabaria no nada. E a maioria enviaria delegados para aderirem aos Sovietes em Smolny. Isto aconteceu em cada ocasiom.

Nunca vou esquecer a Conferência de Camponeses que tivo lugar no fim de Novembro e como Tchernov luitou polo controlo e o perdeu, e essa maravilhosa coluna de proletários grisalhos por causa do pó, que marchava para Smolny através das ruas nevadas, a cantar, com as suas bandeiras vermelho-sangue a ondearem ao vento gelado. Era noite fecha nas escadarias de Smolny, centenas de homens trabalhadores estavam à espera de receberem os seus irmaos camponeses e, abaixo da luz ténue, as duas massas, umha a descer e a outra a ascender, fundírom-se rapidamente e abraçárom-se, e choravam, e batiam palmas.

Os Sovietes podem aprovar decretos que suponham mudanças económicas fundamentais, mas devem ser levadas a cabo polas próprias organizaçons populares locais.

A confiscaçom e distribuiçom da terra, por exemplo, foi deixada em maos dos Comités da Terra dos camponeses. Estes Comités da Terra fôrom eleitos polos camponeses a proposta do Príncipe Lvov, o primeiro chefe do Governo provisório. No que di respeito à questom da terra, foi intevitável chegar a um acordo, segundo o qual, as grandes quintas deviam ser fraccionadas e distribuídas entre os camponeses. O Príncipe Lvov pediu aos componeses para elegerem Comités de Terra, que nom só deviam determinar as suas próprias necessidades agrícolas, como também medir e apreçar as grandes quintas. Mas quando estes Comités da Terra tentárom funcionar, os proprietários tinham-nos detido.

Quando os Sovietes tomárom o poder, a primeira acçom deles foi promulgar o Decreto da Terra. Este Decreto nom era nem um projecto bolchevique, mas o programa da ala direita (ou moderada) do Partido Socialista Revolucionário, desenvolvido a partir de várias centenas de pedidos de camponeses. O decreto aboliu de vez os diplomas privados da terra ou recursos naturais da Rússia e deixou aos Comités da Terra a tarefa de distribuir a terra entre os camponeses, até a Assembleia Constituinte resolver finalmente a questom.

Após a dissoluçom da Assembleia Constituinte, o decreto tornou-se definitivo.

Para além destas poucas proposiçons gerais e de umha secçom estabelecida para a emigraçom da populaçom excedente em núcleos vicinais superpovoados, os pormenores da confiscaçom e a distribuiçom ficárom por completo de conta dos Comités Locais da Terra. Kalagayev, o primeiro Comissário da Agricultura, elaborou um pormenorizado conjunto de regras para guiar os camponeses na acçom deles. Mas Lenine, num discurso perante o Comité Central Executivo, persuadiu o governo para que deixasse os camponeses levar o assunto de umha maneira revolucionária, aconselhando unicamente aos camponeses pobres que se organizassem contra os camponeses ricos ("Deixai que dez camponeses pobres fagam frente a cada camponês rico", dixo Lenine).

É claro que nengum camponês podia possuir a terra dele; contodo, podia era tomar conta do que a terra lhe oferecia e tratá-lo como propriedade privada. Mas a política do Governo, através do Comité Local da Terra, é desencorajar esta tendência. Os camponeses que quigerem converter-se em proprietários podem fazê-lo, mas nom som ajudados polo Governo. Ao invés, aos camponeses que cultivarem cooperativamente som-lhes entregados créditos, sementes, ferramentas e formaçom em técnicas modernas.

Adscritos aos Comités da Terra, há peritos em agricultura e silvicultura. Para coordenare as práticas dos Comités Locais, som eleitos dentre eles um órgao central, conhecido como o Comité Principal da Terra, que se encontra na capital, em estreito contacto com o Comissariado da Agricultura.

Quando a Revoluçom de Março começou, os proprietários e administradores de muitas centrais industriais, ou as deixárom ou fôrom expulsos polos trabalhadores. Nas fábricas do Governo, onde o trabalho tinha estado muito tempo a mercé de burocratas irresponsáveis designados polo czar, deu-se esta situaçom de maneira especial.

Sem directores, encarregados e em muitos casos engenheiros e contabilistas, os trabalhadores encontravam-se confrontados à alternativa de continuarem a trabalhar ou morre à fame. Foi eleito um comité, com um delegado de cada "secçom" ou departamento, este comité tentou dirigir a fábrica. No início, com certeza, este pareceu um plano sem qualquer futuro. As funçons dos diferentes departamentos podiam ser coordenados desta maneira, mas a falta de formaçom técnica por parte dos trabalhadores produziu alguns resultados grotescos.

Afinal, realizou-se a reuniom do comité numha das fábricas, onde um trabalhador se levantou e dixo: "Camaradas, porque é que nos preocupamos? A questom dos técnicos peritos nom é difícil. Lembrai que o chefe nom era um técnico perito; o chefe nom sabia engenharia, química ou contabilidade. O único que fazia era possuir. Quando queria ajuda técnica, contratava homens que lha proporcionavam. Bem, agora nós é que somos os chefes. Contratemos engenheiros, contabilistas, etc, que trabalhem para nós!.

Nas fábricas estatais, o problema era comparativamente simples, porque a Revoluçom destituiu automaticamente o "chefe" e realmente nunca o substituiu por um outro. Mas quando os Comités de Delegados de Fábrica se estendêrom às fábricas de propriedade privada, fôrom duramente combatidos polos proprietários das fábricas, a maioria dos quais estavam a estabelecer contactos com os sindicatos.

Nas fábricas privadas, aliás, os comités de delegados eram produto da necessidade. Logo a seguir aos três primeiros meses da Revoluçom, durante os quais a classe média e as organizaçons proletárias trabalhárom juntas numha harmonia utópica, os capitalistas industriais começárom a temer o poder crescente e a ambiçom das organizaçons trabalhadoras -tal como os proprietários no campo temiam o Comité da Terra e os oficiais os Comités de Soldados e os Sovietes. Durante aproximadamente a primeira parte de Junho, começou a campanha mais ou menos consciente de toda a burguesia para deter a Revoluçom e descompor as organizaçons democráticas. A começar polos Comités de Delegados de Fábrica, os proprietários industriais projectava verrer todo, incluídos os Sovietes. O Exército estava desorganizado, eram desviadas subministraçons, muniçons e comida, e eram entregadas posiçons reais aos alemáns, como Riga; no campo, persuadiu-se os camponeses para que guardassem o grao e provocassem confusons que dérom aos cossacos umha escusa para "restaurarem a paz"; e a indústria. Mais importante do que todo o restante, a maquinaria e o próprio funcionamento das fábricas fôrom sabotadas, o transporte ainda mais destroçado e as minas de carvom e metal e as fontes de matérias primas extremamente danificadas. Nom fôrom poupados esforços para fechar as fábricas e render os trabalhadores, para que voltassem a submeter-se ao velho regime industrial.

Os trabalhadores vírom-se forçados a resistir a isto. O Comité de Delegados de Fábrica reagiu e tomou o comando. Por certo, ao princípio, os trabalhadores russos cometêrom absurdos erros, como se tem dito a todo o mundo umha e outra vez. Pediam ordenados impossíveis, tentárom levar a cabo processos de manufactura tecnicamente complicados sem experiência avondo, nalguns casos até pedírom ao chefe para voltar sob as próprias condiçons que ele impugesse. Mas tais cassos som umha ínfima minoira; na maoria das factorias eram o bastantes engenhosos para serem capazes de levarem a indústria sem os chefes.

Os proprietários tentárom falsificar os livros, ocultar pedidos; o Comité de Delegados de Fábrica viu-se obrigado a encontrar formas de controlo dos livros. Os proprietários tentárom roubar peças das máquinas sem permissom. Quando a fábrica ia fechar por falta de combustível, matérias primas ou pedidos, o Comité de Delegados de Fábrica tinha que enviar homens através de meia Rússia às minas, ou ao Cáucaso por óleo, ou à Crimeia por algodom; e os trabalhadores tinham de enviar delegados para venderem o produto. Durante a paralisaçom dos caminhos de ferro, os agentes do comité tivérom de chegar a um acordo com o Sindicato dos Ferroviários para o transporte de cargas. Para o defender contra o gresvistas, o Comité tivo de assumir a funço de contratar e relevar trabalhadores.

Assim, o Comité de Delegados de Fábrica foi umha criaçom da anarquia russa, forçada pola necessidade de aprender como aprender a dirigir a indústria, para que, quando chegasse o momento, os trabalhadores russos pudessem assumir o controlo real com poucas fricçons. Como exemplo da forma em que as massas trabalhadoras juntas, está o assunto das 200.000 cargas de carvom, que fôrom levadas das carvoeiras da frota de combate báltica em Dezembro e trasladadas polos Comités de Marinos para manter em andamento as fábricas de Petrogrado durante a carestia do carvom.

A Factoria Obukbov era umha central de aceiro que fabrivaca subministraçons para a Armada. O presidente do Comité de Obukhov era um russo-americano, de nome Patrovsky, bem conhecido aqui como anarquista. Um dia, o encarregado do departamento de torpedos dixo a Petrovsky que o Departamento tinha de fechar, devido à impossibilidade de serem obtidos certos pequenos tubos usados por umha fábrica da outra margem do rio, cuja produçom se tinha contratado para dali a três meses. O fechamento do Departamento de torpedos significava que 400 homens ficavam sem emprego.

- "Conseguirei os tubos"- dixo Petrovsky.
Foi directo à fábrica, onde em vez de procurar o director, dirigiu-se ao presidente do Comité de Delegados de Fábrica local.

"Camarada", dixo, "se nom tivermos tubos em dous dias, o nosso departamento de torpedos terá de fechar e 400 dos rapazes vam ficar sem emprego".

O presidente pediu os seus livros e descobriu que três factorias privadas próximas tinham encarregado vários milhares de tubos. Ele e Petrovsky visitárom imediatamente estas três factorias e chamárom os presidentes dos seus Comités de Delegados de Fábrica. Em duas das fábrias precisavam dos tubos imediatamente; e ao dia seguinte, entregárom-se os tubos à Fábrica Obukhov, e o Departamento de torpedos nom fechou.

Em Novgorod, havia umha fábrica têxtil. Ao explodir a Revoluçom, o proprietário dixo a si próprio: "temos sarilhos. Nom vamos obter lucros enquanto esta revoluçom continuar. Vamos fechar o negócio até a cousa acabar".

Assim, fecho a fábrica e ele, os empregados dos escritórios, os químicos, engenheiros e o director, apanhárom o comboio para Petrogrado. No dia seguinte, os trabalhadores abrírom a fábrica. Mas esses trabalhadores se calhar eram um bocado mais ignorantes do que a maioria dos trabalhadores. Nom sabiam nada de processos técnicos de manufactura, nem sobre contabilidade, quantidade de combustível e matérias primas armazenada, prontas para a manufactura de tecidos de algodom.

Nom sabendo que tinha de ser feito com o tecido de algodom umha vez fabricado, primeiro arranjárom quantidade suficiente para as próprias famílias. Depois, como alguns teares estavam estragados, enviárom um delegado a um atelier de maquinaria próximo, para propor a entrega de tecido em troca de assistência técnica. Feito isto, chegárom a um acordo com a cooperativa local, para proporcionar roupa em troca de comida. Levárom inclusive do troco ao extremo de trocarem peças de tecido por combustível com os mineiros de carvom de Jarkov, e por transporte com o Sindicato de Ferroviários.

Mas afinal saturárom o mercado local de tecidos de algodoom e entom deparárom com umha procura que o tecido nom conseguia atender -o aluguer. Isto acontecia nos dias do Governo Provisório, quando ainda existiam proprietários. O aluguer tinha de ser pago em dinheiro. Entom resolvêrom carregar um comboio de tecido e enviárom-no, a cargo de um delgado, a Moscovo. O delegado deixou o comboio na estaçom e percorreu a rua. Entrou numha alfaiataria e perguntou se o alfaiate necessitava tecido.

- "Quanta?"- perguntou o Sastre.

- "Um combio"- respondeu o delegado.

- "A que preço?"

- "Nom sei"- Quanto é que pagas normalmente polo tecido?".

O alfaiate conseguiu o tecido quase de graça e o delegado, que nunca tinha visto tanto dinheiro junto, voltou a Novgorod enormemente contente.

Assim era como na Rússia toda os trabalhadores estavam a adquirir a formaçom necessária nos fundamentos da produçom industrial e inclusive a distribuiçom, para que quando chegasse a Revoluçom de Novembro pudessem ocupar os seus postos na organizaçom do controlo operário.

Em Junho de 1917, decorreu a primeira reuniom de Comités de Delegados. Neste momento, os comités quase nom se estenderam fora de Petrogrado. Foi umha reuniom notável, formada polos delegados da actual base, a maioria deles bolcheviques, alguns anarco-sindicalistas; e a sua razom de ser era o protesto contra as tácticas dos sindicatos. No mundo político dos bolcheviques, repetiam que nengum socialista tinha direito a participar num governo de coligaçom com a burguesia. A própria reuniom de delegados de comités adoptou a posiçom de ter a mesma atitude com a indústria.

Por outras palavras, os empresários e os trabalhadores nom tenhem nengum interesse em comum; nengum trabalhador com consciência de classe pode ser membro de umha mesa de arbitragem ou conciliaçom, salvo para fazer saber aos empresários as reivindicaçons dos trabalhadores. A produçom industrial tem de ser absolutamente controlada polos trabalhadores.

Num primeiro momento, os sindicatos luitárom encarniçadamente contra os Comités de Fábrica. Mas os Comités, que estavam em posiçom de assumirem o controlo da indústria, consolidárom e estendêrom o seu poder com facilidade. Muitos trabalhadores podiam nom ver a necessidade de se sindicarem, mas todos viam a necessidade de participarem nas eleiçons do comité que controlava os seus trabalhos de forma imediata. De outra parte, os comités de Delegados reconheciam o valor dos sindicatos; nengum trabalhador novo era emrpegadose nom pudesse mostrar um cartom de sindicato; eram os Comités de Delegados que aplicavam localmente os regulamentos dos diferentes sindicatos. Neste momento, os sindicatos e os Comités de Fábrica trabalhavam em perfeita harmonia cada um no ámbito que lhe era próprio.

A propriedade privada da indústria nom está ainda abolida na Rússia. Em muitas fábricas, o proprietário ainda mantém o título, e é-lhe permitido certo lucro limitado no seu investimento, com a condiçom de que trabalhe polo êxito e o aumento da extensom da empresa; mas foi-lhe retirado o controlo. Aquelas indústrias cujos proprietários tentam fechar a porta aos seus trabalhadores, ou pola fraude ou a força tentam obstaculizar as operaçons da factoria, som imediatamente confiscadas polos trabalhadores. As condiçons, as horas e salários de todas as indústriass, de propriedade privada ou estatal, som uniformes.

A razom para esta sobrevivência de um semi-capitalismo num Estado proletário residem no passado da vida económica da Rússia, o Estado capitalista altamente organizado à volta e a necessidade de produçom industrial imediata na Rússia, para combater a pressom da indústria estrangeira.

O agente por que o Estado controla a indústria, tanto trabalho como a produçom chama-se Conselho de Controlo de Trabalhadores. Este órgao central, localizado na capital, é composto por delegados eleitos dos Conselhos do Controlo dos Operários Locais, os quais som formados por membros de Comités de Delegados de Fábricas, delegados sindicais profissionais e engenheiros técnicos e peritos. Um Comité Executivo Central dirige os assuntos de cada localidade, composto por trabalhadores comuns, mas a maioria trabalhadores de outros distritos, para as suas decisons ficarem livres de qualquer interesse sectorial. Os conselhos locais recomendam ao Conselho Par-russo a confiscaçom das fábricas, informam sobre as necessidades de combustível, matérias primas, transporte e trabalhos nos seus distritos, e ajudam os trabalhadores na aprendizagem para dirigirem as diferentes indústrias. O Conselho Pan-russo tem autoridade para confiscar factorias e igualar recursos económicos das diferentes localidades…

Se nom tivesse sido polas organizaçons democráticas que existiam já antes da Revoluçom, nom há dúvida que a Revoluçom Russa teria estagnado há muito tempo.

A organizaçom comercial ordinária de distribuiçom tinha sido totalmente destroçada. Apenas as sociedades cooperativas de consumidores conseguiam alimentar o povo, e o seu sistema foi adoptado há tempo polas Cámaras Municipais, e inclusive polo Governo.

Antes da Revoluçom havia mais de vinte milhons de membros em sociedades cooperativas na Rússia. Esta é umha forma muito natural para os russos, polo seu parecido com a primitiva cooperaçom da vida rural da Rússia durante séculos.

Na fábrica Putilov, onde estám empregados mais de 40.000 trabalhadores, a sociedade cooperativa alimentou, albergou e incluso visitou mais de 100.000 pessoas, proveendo-se do vestido em Inglaterra.

É este o carácter dos russos, que esquece a gente que julga que a Rússia nom pode ter nengum governo porque nom há força central; e cuja imagem mental da Rússia é um comité servil em Moscovo, dominado por Lenine, Trotsky, e mantido por mercenários da Guarda Vermelha.

Antes é certo o contrário. As organizaçons que descrevim reproduzem-se em quase todas as comunidades da Rússia. E se umha parte considerável da Rússia se opugesse seriamente ao Governo soviético, os Sovietes nom durariam nem umha hora.


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