O
Longe
de ser um documento histórico, das conclusons de Serge tiram-se nom poucas
liçons para o presente. Em primeiro lugar, desmitifica o poder dos serviços
de inteligência e polícias políticas. A Okhrana foi modelo de polícia
de Estado para a sua época. Por exemplo, exportou as suas técnicas a nom
poucos países. No entanto, na hora de confrontar-se com um movimento insurreccional
deixou a nu a sua total impotência.
Em segundo lugar, muitas vezes teme-se
o que nom se conhece; conhecer os fundamentos de toda a acçom repressiva
sistemática e a sua metodologia permite conhecer de quê é que devemos acautelar-nos,
mas também conhecer as impossibilidades das forças reaccionárias. Um outro
acerto importante de Serge é pôr o acento na sistematicidade da repressom
e em explicar a sua lógica interna. Isto permite advertir aos recém iniciados
sobre as atitudes conspirativas que em nada ajudam. Finalmente, achega singelas
advertências que na sua essência continuam a ser válidas para os militantes:
os conselhos a respeito dos correios bem podem ser aplicados hoje nos seus
fundamentos em relaçom com os correios electrónicos, bem como com todos
os mais.
INDICE
I. O polícia. A sua especial apresentaçom
IV. Instrutivo sobre recrutamiento e serviço de agentes provocadores
V. Umha monografia da provocaçom em Moscova (1912)
VI. Expedientes de agentes provocadores
VII. Um espectro. Umha página de história
IX. A mentalidade do provocador, a provocaçom e o partido comunista
X. A provocaçom, arma de dous gumes
XI. Os delatores russos no estrangeiro. O senhor Raymond Recouly
XII. Os gabinetes pretos e a polícia internacional
XIII. Os criptogramas. De novo o gabinete preto
XIV. Síntese informativa. O método das gráficas
XV Antropometria, filiaçom... e liquidaçom
XVI. Estudo científico do movimento revolucionário
XVII, A protecçom da pessoa do czar
XVIII. O que custa umha execuçom
XIX. Conclusom. Por quê é que resulta invencível a revoluçom
II. Experiência de posguerra: nom se deixar surpreender
I. Metralhadora, máquina de escrever, ou...?
II. A experiência de duas revoluçons
V. Lei burguesa e lei proletária
VI. Os dous sistemas. Combater os efeitos ou remontar às causas?
VII. A violência económica: por fame
VIII. A eliminaçom. Erros e abusos. Controlo
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Biblioteca Marxista em Galego
O QUE TODO REVOLUCIONÁRIO
DEVE SABER SOBRE A REPRESSOM. Víctor Serge
A vitória da revoluçom
na Rússia pujo em maos dos revolucionários todo o mecanismo da polícia política
mais moderna, mais poderosa e experimentada, forjada em mais de cinqüenta
anos de luita contra as elites de um grande povo.
Conhecer os métodos
e os procedimentos desta polícia interessa para já a todo militante: a defesa
capitalista emprega em toda a parte os mesmos meios; todas as polícias,
de resto solidárias, se assemelham.
Essa ciência da
luita revolucionária, que os russos adquirírom em mais de meio século de
esforços e sacrifícios imensos, os militantes dos países onde actualmente
se desenvolve a acçom deverám assimilá-la um lapso muito mais curto, dadas
as circunstáncias criadas pola guerra, polas vitóricas do proletariado russo
e polas derrotas do proletariado internacional: crises do capitalismo mundial,
nascimento da Internacional Comunista, desenvolvimento repentino da consciência
de classe na burguesia; fascismo, ditaduras militares, terror branco, leis
iníquas. Isto cumpre desde já. Se se tiver um bom conhecimento dos meios
de que dispom o inimigo, as perdas poderám ser menores. Resulta portanto
preciso, para um fim prático, estudar bem o instrumento principal de toda
reacçom e de toda repressom: essa máquina de afogar revoltas chamada polícia.
Nós atingimo-lo, porque a arma aperfeiçoada que forjou a autocracia para
defender a sua existência –a Okhrana (a Defensiva), ou Segurança
Geral do Império Russo–, caiu nas nossas maos.
Este estudo, para
ser realizado a fundo, o qual seria muito útil, exigiria um tempo de que
o autor nom dispom. As páginas que se seguem nom pretendem supri-lo. Bastarám,
espero, para pôr sobre aviso os camaradas e para fazer-lhes evidente umha
importante verdade que me comoveu desde a primeira visita aos arquivos da
polícia russa: a de que nom há força no mundo capaz de conter a maré revolucionária
quando esta ascende, e que todas as polícias, nom importa o seu maquiavelismo,
a sua ciência e os seus crimes, som quase totalmente impotentes.
O presente trabalho, publicado pola primeira vez no Boletim comunista de Novembro de 1921, foi completado cuidadosamente.
Os problemas teóricos e práticos que o estudo do mecanismo de um polícia
nom deixam de suscitar na mente do leitor operário, qualquer que for a sua
formaçom política, som examinados em dous novos ensaios: Os conselhos ao militante, de cuja utilidade,
nom obstante o seu evidente simplismo, a experiência nom permite duvidar,
gizam as regras primordiais da defesa operária contra a vigiláncia, a delaçom
e a provocaçom.
Desde a guerra e a Revoluçom de Outubro,
a classe operária nom pode conformar-se com realizar umha tarefa apenas
negativa, destrutora. Abriu-se a era das guerras civis. Seja a sua actualidade
algo quotidiano, ou esteja adiada “por anos”, nom é menos certo que na maioria dos partidos comunistas se apresentam
desde agora as múltiplas questons da tomada do poder. A princípios de 1923,
a ordem capitalista da Europa semelhava gozar de umha estabilidade capaz
de descoroçoar os impacientes. No entanto, a ocupaçom “pacifista” do Ruhr,
a fins de ano, fazia pairar sobre a Alemanha, tremendamente real, o espectro
da revoluçom.
De outra parte,
toda a acçom tendente para a destruiçom das instituiçons capitalista necessita
ser complementada com umha preparaçom, embora seja teórica, da obra criadora
do amanhá. “O espírito destrutor –dizia Bakunine– é ao mesmo tempo
espírito criador”. Este grande pensamento, cuja interpretaçom literal,
infelizmente, alucionou alguns revoltosos, acaba de se converter numha verdade
prática. O mesmo espírito da luita classista leva hoje os comunistas a destruírem
e a criarem simultaneamente. De igual jeito que o antimilitarismo actual
precisa de ser complementado pola preparaçom do Exército Vermelho, o problema
da repressom colocado pola polícia e a justiça burguesas tem um aspecto
positivo de grande importáncia. Julguei conveniente defini-lo em traços
grossos. Devemos conhecer os meios do inimigo; devemos conhecer também a
nossa tarefa em toda a sua extensom.
Victor Serge,
Março de 1925
A Okhrana sucedeu, em 1881, a famosa 3ª Secçom do Ministério do Interior. Mas
nom se desenvolveu verdadeiramente até a partir de 1900, data em que foi
chefiada por umha nova geraçom de gendarmes. Os velhos oficiais de gendarmaria,
nomeadamente de graus superiores, julgárom contrário à honra militar dedicarem-se
a determinados quefazeres policiais. A nova promoçom passou por alto aqueles
escrúpulos e começou a organizar cientificamente a polícia secreta, a provocaçom,
a delaçom e a traiçom nos partidos revolucionários. Dela surgirám homens
eruditos e talentosos, como aquele coronel Spiridovich, quem nos deixará
umha volumosa História do partido
socialista-revolucionário e umha História do partido socialdemocrata.
O recrutamento,
a instruçom e o treino profissional realizavam-se com cuidados muito especiais.
Na Direcçom Geral, cada quem tinha a sua ficha, documento completíssimo
em que mesmo se acham pormenores engraçados. Carácter, grau de escolaridade,
inteligência, anos de serviço, todo está lá apontado com um entuito prático.
Um oficial, por exemplo, é qualificado como “limitado” –bom para os empregos
subalternos, sempre que for tratado com rigor–, e outro assinalado como
“inclinado a cortejar as damas”.
Entre as muitas
perguntas do questionário, saliento estas: “Conhece os estatutos e programas
dos partidos? De quais?” E deparo com que o nosso amigo cortejador de damas
“conhece bem as ideias socialistas-revolucionárias e anarquistas –regularmente
as do partido social-democrata– e superficialmente as do Partido Socialista
Polaco.”Há aqui toda umha erudiçom sabiamente escalonada. Mas continuemos
o exame da mesma ficha. O nosso polícia “Seguiu o curso de história do movimento
revolucionário?”, “Em quantos e em quais partidos há agentes secretos?”,
Intelectuais?, Operários?. Facilmente se percebe que, para formar os seus
pesquisadores, a Okhrana organizava
cursos em que se estudava cada partido, as suas origens, o seu programa,
os seus métodos e até a biografia dos seus militantes conhecidos.
Apontemos cá que esta gendarmaria russa, treinada para os fins mais delicados
da polícia política, nom tinha nada em comum com as gendarmaria dos países
da Europa ocidental. O seu equivalente tem-no nas polícias secretas de todos
os estados capitalistas.
Por princípio, toda vigiláncia é exterior. Trata-se sempre de seguir o indivíduo, de conhecer as
suas actividades a os seus movimentos, os seus contactos, e a seguir de
penetrar nas suas intençons. Estes serviços também estám desenvolvidos em
todas as polícias e a organizaçom russa porporciona-nos, sem qualquer dúvida,
o protótipo de todos os serviços semelhantes.
Os agentes russos
(de vigiláncia exterior) pertenciam, igual que os “agentes secretos”, na
realidade delatores e provocadores, à Okhrana
ou Segurança Política. Faziam parte do serviço de investigaçons, que somente
podia deter alguém por um mês; em geral, o serviço de investigaçons costumava
passar os seus detidos à Direcçom da gendarmaria, a qual continuava a instruçom.
O serviço de vigiláncia
exterior era o mais singelo. Os seus abundantes agentes, dos quais possuímos
as fotografias de identidade, pagos com 50 rublos por mês, tinham por única
tarefa espiar a pessoa que lhes era indicada de hora en hora, de dia e de
noite, sem qualquer interrupçom. Nom deviam saber, de partida, nem o seu
nome nem o fim de tal espionagem, sem dúvida para precaver qualquer torpeza
ou umha traiçom. A pessoa vigiada recebia umha alcunha: o Loiro, A Patroa, Vladímir, o Cocheiro, etc. Topamos estas alcunhas
encabeçando informes diários, em volumosos in-fólios, que continham os informes
consignados polos agentes. Os informes som de umha minuciosa exactidom e
nom devem conter lacunas. O texto acha-se redigido mais ou menos como se
segue:
Em 17 de Abril, às 9.54 horas da manhá, a Ama saiu da
sua casa, pujo duas cartas no marco do correio da esquina da rua Pushkin;
entrou em vários armazéns do bulevar X; entrou às 10.30 no número 30 da
rua Z, saiu às 11 e 20, etc.
Nos casos mais
sérios, dous agentes espiavam a mesma pessoa sem se conhecerem, sendo confrontados e complementados os seus informes.
Estes informes
diários eram remetidos à gendarmaraia para serem analisados por especialistas.
Estes funcionários pesquisadores de cámara de umha perigosa perspicácia,
elaboravam quadros sinópticos para resunir as actividades e os movimentos
da pessoa, o número das suas visitas, a sua regularidade, duraçom, etc.;em
certas partes, estes esquemas permitiam valorizar a importáncia das relaçons
de um militante e a sua provável influência.
O polícia Zubátov,
quem contra 1905 tratou de poderar-se do movimento operário dos grandes
centros, criando neles sindicatos, levou a espionagem ao seu mais alto grau
de perfeiçom. As suas brigadas especiais podiam seguir um homem por toda
a Rússia, inclusive por toda a Europa, deslocando-se atrás dele de cidade
em cidade ou de país em país. Os agentes secretos, de resto, nom deviam
poupar gastos. O cartom de viáticos de um deles, relativo ao mês de Janeiro
de 1905, mostra-nos umha cifra de despesas gerais que se elevava a 637.350
rublos. Para imaginarmos a quantidade do crédito de que gozava um simples
delator, bastará com lembrarmos que, por esta época, um estudante vivia
facilmente com 25 rublos por mês. Contra 1911, aparece o costume de enviar
agentes secretos ao estrangeiro para vigiar os emigrados e para ligar com
as polícias europeias. Os delatores da sua majestade imperial estivérom
à vontade em todas as capitais do mundo.
A Okhrana tinha a particular missom de procurar
e vigiar constantemente determinados revolucionários, considerados como
os mais perigosos, nomeadamente os terroristas ou os membros do partido
socialista-revolucionário que praticavam o terrorismo. Os seus agentes deviam
levar sempre consigo colecçons de fotografias formadas por 50 a 70 retratos,
entre os quais, ao chou, reconhecemos Savinkov, o defunto Nathanson, Argunov,
Avkséntiev (ai!), Karein, Ovsiánikov, Vera Figner, Pechkova (a senhora Gorki),
Fabrikant. Também estavm à sua disposiçom reproduçons do retrato de Marx,
pois a presença deste retrato num quarto ou num livro constituía um indício.
Um detalhe porreiro:
a vigiláncia exterior nom se exercia somente sobre os inimigos do antigo
regime. Temos no nosso poder agendas que testemunham que as actividades
e os movimentos dos ministros do império nom escapavam à vigiláncia da polícia.
Umha Agenda de controlo das conversas
telefónicas do Ministério de Guerra, em 1916, mostra-nos, por exemplo,
quantas vezes por dia diferentes personagens da corte perguntárom pola precária
saúde da senhora Sujomlinov!
Os mecanismos
mais importantes da polícia russa era seguramente a sua “agência secreta”,
nome decente do serviço de provocaçom, cujas origens remontam para as primeiras
luitas revolucionárias e que adquiriu um desenvolvimento extraordinário
após a revoluçom de 1905.
Polícias (ditos
oficiais de gendarmaria) preparados especialmente, instruídos e seleccionados,
ocupavam-se do recrutamento dos agentes provocadores. Os seus maiores ou
menores êxitos nesse domínio eram tomados em conta para qualificá-los e
fazê-los ascender. Precisos instrutivos estabeleciam até os menores detalhes
das suas relaçons com os colaboradores secretos. Especialistas altamente
retribuídos reuniam, afinal, todas as informaçons proporcionadas polos provocadores,
estudavam-nas, ordenavam-nas e arquivavam-nas em expedientes.
Nos prédios da
Okhrana (Fontanka 16, Petrogrado) havia
um quarto secreto ao qual só entravam o director da polícia e o funcionário
encarregado de classificar as peças. Era o local da agência secreta. Continha
fundamentalmente a prateleira com as fichas dos provocadores, em que topamos
mais de 35.000 nomes. Na maioria dos casos, o nome do “agente secreto” achava-se
substituído por um pseudónimo por motivos de precauçom, o qual motivou que
a identificaçom de muitos destes miseráveis, ao cair os expedientes completos,
depois do triunfo da revoluçom, em maos dos camaradas, fosse particularmente
difícil. O nome do provocador nom devia ser conhecido mais que polo director
da Okhrana e polo oficial encarregado
de manter com ele relaçons permanentes. Os mesmos recibos que os provocadores
assinavam cada fim de mês, cobrados tam normal e pacificamente como os recibos
dos restantes funcionários, por somas que iam de 3, 10, 15 rublos mensais
até 150 ou 200 como máximo, nom contenhem polo regular mais do que um pseudónimo.
Mas a administraçom, desconfiando dos seus agentes e zelosa de que os oficiais
de gendarmaria nom inventassem colaboradores imaginários, procedia muito
freqüentemente a minuciosas pesquisas para revisar os diferentes ramos da
organizaçom. Um inspector provisto de largos poderes investigava pessoalmente
os colaboradores secretos, entrevistava-os à livre escolha e despedia-os
ou aumentava-lhes o soldo. Acrescentemos que os seus informes eram cuidadosamente
verificados –tanto quanto era possível– uns mediante outros.
Vejamos a seguir
um documento que podemos considerar como o abecê da provocaçom. Trata-se
do Instrutivo relativo à agência secreta. Folheto de 27 páginas mecanografadas
em pequeno formato. O nosso exemplar (o número 35), trai, aliás, na parte
superior estas três advertências: “Muito secreto”, “Uso confidencial”, “Secreto
profissional”. Que insistência em recomendar mistério! Aginha se há de compreender
porquê.
Este documento,
que denotava conhecimentos psicológicos e práticos, espírito meticulosamente
previsor, umha muito curiosa mistura de cinismo e de hipocrisia moral oficial,
há de insteressar um dia aos psicólogos. Começa com indicaçons gerais:
A Segurança Política deve tender para
destruir o movimento revolucionário no momento da sua maior actividade e
nom desviar o seu trabalho dedicando-se a empresas menores.
De maneira que
o princípio é: deixar desenvolver o movimento para a seguir liquidá-lo melhor.
Os agentes secretos receberám um trato
fixo, proporcional aos serviços emprestados.
A segurança debe:
Evitar com o maior cuidado entregar
os seus colaboradores. Com esse fim, nom detê-los nem deixá-los em liberdade
mais do que quando outros membros de igual importáncia pertencentes à mesma
organizaçom revolucionária puderem ser detidos ou libertados.
A Segurança deve:
Facilitar aos seus colaboradores que ganhem a confiança
dos milintantes.
Continua um capítulo
dedicado ao recrutamento.
O recrutamento de agentes secretos deve ser a constante
preocupaçom do director de Investigaçons e dos seus colaboradores. Nom devem
desaproveitar nengumha oportunidade, embora apresente poucas hipóteses de
conseguir agentes...
Esta tarefa é extremamente delicada. Cumpre, para
poder efectivá-la, ligar com os detidos políticos...
Deverám ser considerados como propensos a ingressar
no serviço os revolucionários fracos de carácter, os agravados polo partido,
os que viverem na miséria, os evadidos de lugares de deportaçom ou os pendentes
de ser deportados.
O Instrutivo recomenda estudar “com cuidado”
as fraquezas do indivíduo e aproveitá-las; conversar com os seus amigos
e parentes, etc.; multiplicar “constantemente os contactos com os operários,
com as testemunhas, com os pais, etc., sem nunca perder de vista o objectivo...”.
Estranha duplicidade
da alma humana! Traduzo literalmente três desconcertantes linhas:
Podemos utilizar os serviços de revolucionários que
se acharem na miséria que, sem renunciarem às suas convicçons, aceitarem
entregar informaçons por necessidade...
Entom, havia-os?
Mas continuemos.
Colocar delatores
junto dos detidos é umha excelente utilidade.
Cuando umha pessoa semelhar madura para entrar no
serviço –quer dizer, quando se tratar, por exemplo, de um revolucionário
moralmente destruído, atribulado, desorientado porventura polos seus próprios
fracassos–, deverám acrescentar-se à sua causa outras acusaçons piores para
tê-lo melhor agarrado.
Capturar todo o grupo a que pertence e conduzir a
pessoa em questom perante o director da polícia; ter motivos graves para
o acusar, reservando no entanto a hipótese de o libertar ao mesmo tempo
que os outros revolucionários encarcerados, sem provocar barulho.
Interrogar a pessoa numha entrevista pessoal. Tirar
vantagem, para convencê-lo, de disputas entre os grupos, de erros de militantes,
de cousas que firam o seu amor próprio.
Enxerga-se, a
ler estas linhas, o polícia paternal que tem piedade da sorte da sorte da
sua vítima:
Claro, enquanto você irá a trabalhos forçados polas
suas ideias, o seu camarada X, quem lhas fijo boas, viverá de medo graças
a você. O que quer? Justos pagam por pecadores!
Isto pode resultar se se tratar de um fraco, ou de
alguém sobre quem pesam anos de deportaçom...
Tanto quanto for possível, ter muitos colaboradores
em cada organizaçom.
A Segurança
deve ser a que dirija os seus colaboradores e nom ser dirigida por eles.
Os agentes secretos nom deverám conhecer nunca as
informaçons proporcionadas polos seus colegas.
E eis um fragmento
que Maquiavelo nom teria desaprovado:
Um colaborador nosso que trabalha em postos de segunda
numha organizaçom revolucionária pode ascender nesta com apenas serem arrestados
militantes de maior importáncia.
Manter o absoluto segredo da provocaçom é, naturalmente,
um dos maiores cuidados da polícia.
O agente jura guardar segredo absoluto; ao entrar
no serviço nom deve modificar em nada os seus costumes habituais.
Os relacionamentos com ele som rodeadas de preocupaçons
dificilmente superáveis. Podem ser atribuídas entrevistas a colaboradores
dignos de toda a confiança. Terám lugar em apartamentos clandestinos, compostos
por várias peças que nom tenham comunicaçom directa entre si, onde, em caso
de necessidade, se poda isolar diferentes visitantes. O encarregado da casa
deve ser um empregado civil. Nunca poderá receber visistas
pessoais. Também nom deverá conhecer os agentes secretos nem falar-lhes.
Estará na obriga de abrir pessoalmente, verificando que antes da sua saída
nom haja ninguém nas escadas. As entrevistas terám lugar em quartos fechados.
Nom deverám descuidar-se papéis comprometedores. Terá-se cuidado de nom
sentar nengum visitante perto de janelas ou espelhos. À mínima suspeita,
mudar de apartamento.
O provocador nom poderá, em nengum caso, apresentar-se
na Segurança. Nom poderá empreender nengumha missom de importáncia sem o
consentimento do seu chefe.
Os contactos fam-se por meio de senhas convenidas
com antecedência. A correspondência remeterá-se a endereços convencionais.
As cartas dos colaboradores secretos devem estar escritas
com escrita irreconhecível e nom conterám mais do que expressons correntes.
Servir-se de papel e de envelopes que estejam de acordo com o nível social
do destinatário. Empregar tinta simpática. O colaborador deposita ele próprio
as suas cartas. Quando as recebe, está obrigado a queimá-las após tê-las
lido. Os endereços convencionais nom devem anotar-se nunca.
Um problema grave
era o de liberar um agente secreto arrestado entre os que ele entregara.
A este respeito, o instrutivo nom recomenda empregar o recurso da evasom,
pois:
As evasons chamam a atençom dos revolucionários. Previamente
à liquidaçom de qualquer organizaçom, consultar os agentes secretos em torno
das pessoas que deverám deixar-se em liberdade, por forma a nom atraiçoar
os nossos meios de informaçom.
Umha outra peça
escolhida nos arquivos da provocaçom ajudará-nos a abranger a extensom que
esta atinge. Trata-se de umha espécie de monografia da provocaçom em Moscovo,
em 1912. É o informe de um alto funcionário, o senhor Vissariánov, quem
tinha sido comissionado naquele ano para fazer umha viagem de inspecçom
à agência secreta de Moscovo.
O senhor Vissariánov
cumpriu a sua missom de 1º de Abril a 22 do mesmo mês. O seu informe constitui
um grosso caderno mecanografado. Consagra a cada provocador, assinalado,
é claro, polo seu seudónimo, umha notícia pormenorizadíssima. Há algumhas
bem curiosas.
Em 6 de Abril
de 1912, havia em Moscovo 55 agentes provocadores oficialmente em funçons.
Repartiam-se como se segue:
Socialistas revolucionários,
17; social-democratas, 20; anarquistas, 3; estudantes (movimento das escolas),
11; instituiçons filantrópicas, etc., 2; sociedades científicas, 1; zemstvos,
1. Aliás, "a agência secreta de Moscovo controla também a imprensa,
os outubristas (partido K. D. constitucional-democrático), os agentes de
Búrtzev, os arménios, a extrema direita e os jesuitas".
Os colaboradores
eram caracterizados em relatórios bastantes concisos.
Partido Social-demócrata. Fracçom bolchevique. Portnói
(o Alfaiate), torneiro em madeira, inteligente. Em serviço desde 1910.
Recebe 100 rublos por mês. Colaborador muito bem informado. Será candidato
à Duma. Participou na conferência bolchevique de Praga. De 5 militantes
enviados desde a Rússia a esta conferência, 3 fôrom detidos...
De resto, no que
à conferência bolchevique de Praga di respeito, o nosso alto funcionário
de polícia congratulava-se polos resultados atingidos polos agentes secretos.
Alguns conseguiram infiltrar-se no Comité Central, e um deles, um delator,
foi comssionado polo partido para introduzir literatura na Rússia. “Assim
temos todo o aparelho de propaganda”, verifica o nosso polícia.
Aquí é que se
impom um parêntese. Sim, eles tinham nas maos, nesse momento, o aparelho
de propaganda bolchevique. Mas, a eficácia desta propaganda diminuiu? A
palabra escrita de Lenine perdeu algo do seu valor ao ter passado para as
maos dos delatores? A palabra revolucionária tem a sua força em si própria,
apenas precisa de ser escuitada. Nom importa quem a transmitir. O êxito
da Okhrana teria sido verdadeiramente decisivo se tivesse conseguido
impedir as organizaçons bolcheviques de acederem à literatura procedente
do estrangeiro. Mas nom podia fazê-lo mais do que em certa medida,
a risco de desmarscarar os seus quadros.
O que é que é um agente provocador? Possuímos milhares
de expedientes onde adhamos umha documentaçom abundante sobre as pessoas
e as actividades destes miseráveis. Demos umha olhadela em alguns:
Expediente 378.
Júlia Oréstovna Serova (de alcunha Pravdivy [a Verídica] e Uliánova).
A umha pregunta do ministro sobre a folha de serviço desta colaboradora
despedida (por estar “queimada”), o director da polícia responde enumerando
os seus excelentes trabalhos. A carta tem quatro longas páginas. Eu resumo-a,
masa em termos quase que textuais:
Julia Oréstovna
Serova foi empregada, de Setembro de 1907 a 1910, na vigiláncia das organizaçons
social-democratas. Ocupava postos relativamente importantes no partido,
e por isso pudo render-nos grandes serviços, quer em Petersburgo, quer em
províncias. Toda umha série de arrestos foi conseguida graças às suas informaçons.
Em Setembro de
1907 fijo arrestar o deputado da Duma, Sergio Saltykov.
Em finais de Abril
de 1908 fijo arrestar 4 militantes: Rikov, Noguin, Gregório e Kamenev.
Em 9 de Março
de 1908, fijo arrestar umha assembleia completa do partido.
Em outono de 1908,
fijo arrestar o membro do Comité Central Inocente Dubrobsky.
Em Fevereiro de
1909, fijo comisar os materiais de umha oficina tipográfica clandestina
e tomar o gabinete de passaportes do partido.
Em 1º de Março
de 1905, fijo arrestar todo o Comité de Petersburgo.
Contribuiu, aliás,
para arrestar um bando de expropriadores (Maio de 1907), para comisar remessas
de literatura e especiamente o transporte de literatura ilegal por Vilna.
Em 1908, tivo-nos ao tanto de todas as reunions do Comité Central e indicou
a composiçom dos comités. Em 1909, participou numha conferência do partido
no estrangeiro, da qual nos informou. Em 1909, controlou as actividades
de Aléxis Ríkov.
Essa era a sua
bela folha de serviços. Mas a Serova terminou por “queimar-se”. O seu marido,
deputado da Duma, declarou nos diários da capital que já nom a considerava
a sua mulher. Isto foi conpreendido. Como já nom podia emprestar serviços,
os seus superiores hierárquicos agradecêrom-lhe a colaboraçom. Caiu na miséria.
O expediente está cheio de cartas que remetia para o director da Segurança:
protestos de fidelidade, recordaçons dos serviços emprestados, pedidos de
ajuda.
Nom conheço nada
mais aflitivo do que estas cartas escritas com letra nervosa e apertada
de intelectual. A “provocadora desocupada”, como ela própria se qualificada
em algum lugar, semelha encurralada, fustigada pola miséria, numha total
desintegraçom moral. Cumpre subsistir. Nom sabe fazer nada com as maos.
O seu desleixo interior impede-lhe achar umha soluçom, um trabalho simples
e razoável.
Em 16 de Agosto
de 1912, escreve para o director da polícia:
Os meus filhos,
dos quais o primogénito tem 5 anos, carecem de roupas e de sapatos. Carecemos
de mobília. Eu estou mal vestida de mais para poder topar um emprego. Se
o senhor nom me der auxílio, verei-me abocada ao suicídio...
Concedemo-lhe
150 rublos.
Em 17 de Setembro,
noutra carta, à qual se junta umha missiva para o seu marido, que o director
da polícia decide enviar polos correios:
O senhor vai ver,
na última carta que escrevo para o meu marido, que em vésperas de acabar
com a minha vida ainda nego ter servido à polícia. Decidim acabar. Nom é
comédia, nem efectismo. Já nom me sinto capaz de recomeçar a vida.
No entanto, a
Serova nom se matará ainda. Alguns dias mais tarde denuncia um anciao senhor
que esconde armas. AS cartas formam um grosso
volume. Eis umha, comovedora: umhas poucas
linhas de despedida para o homem que fora seu marido.
Onde começa, nestas
cartas, a sinceridade? Onde é que acaba o fingimento? Nom se sabe. Estamos
à frente de umha alma complexa, malvada, dolorosa, suja, prostituída, despida.
No entanto, a
Segurança nom foi surda aos seus chamados. Cada umha das cartas da Serova
leva no verso a resoluçom do director, manuscrita polo chefe de serviços:
“Enviem-se-lhe 250 rublos”, “Destinem-se-lhe 50 rublos”. A velha colaboradora
anuncia a morte de um dos seus filhos. “Verifique-se”, escreve o director.
Logo a seguir, pedirá que se lhe facilite umha máquina de escrever para
aprender mecanografia. A Segurança nom tem máquinas disponíveis. Afinal,
as suas cartas tornam mais e mais prementes.
Em nome dos meus
filhos –escreve em 14 de Dezembro— escrevo-lhe com báguas e
sangue. Conceda-me um derradeiro socorro de 300 rublos. Com isso bastará-me.
Concede-se-lhe,
em troca de que deixe Petrogrado. Ao todo, em 1911, a Serova recebe 743
rublos em três remessas; em 1912, 788 rubos em seis remessas. Naquela altura,
isto era considerável.
A seguir de um
derradeiro socorro enviado em Fevereiro de 1914, a Serva recebe um pequeno
emprego na administraçom dos caminhos de ferro. Aginha há de perdê-lo por
vigarizar pequenas quantidades de dinheiro aos seus companheiros de trabalho.
Aponta-se no seu expediente: “culpada por extorsom”. Já nom merece nengumha
confiança”. Sob o nome de Petrova consegue, no entanto, entrar ao serviço
da polícia do caminhos de ferro onde, descoberta, é despedida. Em 1915 ainda
solicita um emprego como delatora. Em 28 de Janeiro de 1917, em vésperas
da revoluçom, esta anciá secretária de um comité revolucionário escrevia
à “Sua excelência, o senhor Director da Polícia”, lembrava-lhe os seus bons
e leais serviços e propunha-lhe informá-lo da actividade do partido social-democrata,
em que podia fazer entrar o seu segundo marido.
Em vésperas dos
grandes acontecimentos que se sentem vir, sofro por nom poder ser-vos de
utilidade.
Expediente 383.
Osipov, Nicolái Nicoláievich Veretsky, filho de um pope
[1]
. Estudante. Colaborador secreto desde 1903, para vigiar
a organizaçom social-democrata e a juventude das escolas de Pavlograd.
Enviado a Petersburgo
polo partido em 1905, com a missom de introduzir armas na Finlándia, apresenta-se
imediatamente à direcçom da polícia para receber instruçons.
Ao suspeitar dele
os seus companheiros, é arrestado, fica 3 meses na secçom secreta da Okhrana
e consegue ser enviado ao estrangeiros com o fim de se “reabilitar aos olhos
dos militantes”.
Cito textualmente
a conclusom de um informe:
Veretsky semelha
ser um homem inteligente e culto, de umha grande modéstia, consciencioso
e honesto; digamos em eu favor que a maior parte dos seus honorários (150
rublos) os dedica aos seus anciaos pais.
Em 1915, este
excelente jovem retira-se do serviço e recebe ainda doze ordenados mensais
de 75 rublos.
Expediente 317.
O Doente. Vladímir Ivánovich Lorberg. Operário. Escreve torpemente. Trabalha numha fábrica
e recebe 10 rublos por mês. Um proletário da provocaçom.
Expediente 81. Serguéi Vasilievich Práotsev, filho
de um membro da Nardnaia Volia, gava-se de ter crescido num meio
revolucionário e de possuir vastos e úteis relacionamentos.
Possuímos milhares
de expedientes semelhantes.
Porque a baixeza
e miséria de certas almas humanas som insondáveis.
Ainda nom nos
temos ocupado dos expedientes de dous colaboradores secretos cujos nomes
diremos. Devem, no entanto, ser ser mencionados aqui como casos típicos:
um intelectual valioso, um tribuno.
Stanislaw Brozozowski,
escritor polaco de aprecíavel talento, respeitado pola juventude, autor
de ensaios críticos sobre Kant, Zola, Mijailovsky, Avenarius, “heraldo do
socialismo, no qual via a mais profunda síntese do espírito humano e do
que quereria fazer um sistema filosófico que abrangesse a natureza e a sociedade”
(Naprzod, 5 de Maio de 1908), autor do romance revolucionário A chama,
recrutado pola Okhrana de Varsóvia polos seus relacionamentos com
os meios revolucionários e “progressistas”, com honorários mensais de 150
rublos.
O pope Gapón,
alma de todo o movimento operário de Petersburgo e Moscovo antes da revoluçom
de 1905; organizador da manifestaçom operária de Janeiro de 1905, ensangrentada
sob as janelas do Palácio de Inverno polas descargas de fusilaria dirgidas
sobre umha multidom suplicante encabeçada por dous padres que portavam em
alto o retrato do czar; o pope Gapón, verdadeira encarnaçom de um momento
da Revoluçom Russa, acabou por vender-se à Okhrana e, convito do
delito de provocaçom, foi enforcado polo socialista-revolucionário Ruthemberg.
Ainda hoje, estám
longe de terem sido identificados todos os agentes provocadores da Okhrana
cujos expedientes possuímos.
Nom se passa um
mês sem que os tribunais revolucionáiros da Uniom Soviética julguem alguns
destes homens. Som encontrados, identificados por acaso. Em 1924, um miserável
apareceu ante nós, voltando de um passado de cinqüenta anos, como num acesso
de náusea, e era um perfeito espectro. Este espectro evocava umha página
de história, e intercalamo-la aqui apenas para projectar nestas páginas
de lama um bocado da luz do heroísmo revolucionário.
Este agente provocador
tinha rendido 37 anos dos bons serviços (de 1880 a 1917) e, já anciao encanecido,
safou-se durante sete anos das pesquisas da Cheka.
Por volta de 1879,
o estudante de 20 anos Okladsky, revolucionário desde os 15, membro do partido
da Narodnaia Volia [A Vontade do Povo], terrorista, perparou com
Jeliabov um atentado contra o czar Alexandre II. O comboio imperial devia
saltar. Passou sobre as minas sem estorvo. O aparelho infernal funcionou.
Acidente fortuito? Tal se julgou. Porém, 16 revolucionários, entre eles
Okladsky, devêrom responder polo “crime”. Okladsky foi condenado à morte.
Começava a sua brilhante carreira? Tinha começado já? A clemência do imperador
condece-lhe a vida, em troca da prisom perpétua.
Aí começa, em todo o caso, a série
de inaprecíaveis serviços que Okladsky haveria de render à polícia do czar.
Na longa listagem de revolucionários que entregará, há quatro dos nomes
mais formosos da nossa história. Baránnikov, Jeliabov, Trigoni,
Vera Figner. Desses quatro, a única que sobrevive
é Vera Nicoláievna Figner. Passou vinte anos na fortaleza de Schulusselburg.
Baránnikov morreu. Trigoni, depois de ter sofrido vinte anos em Schlusselburg
e passado quatro de exílio em Shajalin, viu antes de morrer, em 1917, o
derrubamento da autocracia. Jeliabov morreu no patíbulo.
Estes valentes
pertenciam à Narodnaia Volia, primeiro partido revolucionário russo
que, antes do nascimento do movimento proletário, tinha declarado a guerra
à autocracia. O seu programa propunha umha revoluçom liberal, cujo cumprimento
teria significado para a Rússia um progresso imenso. Numha época em que
nengumha outra acçom era possível, serviu-se do terrorismo, golpeando sem
cessar o czarismo enlouquecido por momentos, e decapitado em 1º de Março
de 1881. Na luita desta presa de heróis contra toda a velha sociedade poderosamente
armada criárom-se os costumes, as tradiçons, as mentalidades que, perpetuadas
polo proletariado, haveriam de temperar numerosas geraçons para a vitória
de Outubro de 1917. De todos estes heróis, Alexandr Jeliabov foi porventura
o maior, e rendeu sem dúvida os maiores serviços ao partido que tinha contribuido
para fundar. Denunciado por Okladsky, é detido em 27 de Fevereiro de 1881,
num departamento da perspectiva Nevsky, em companhia de um jovem advogado
de Odessa, Triboni, membro também do misterioso Comité Executivo da Narodnaia
Volia. Dous dias mais tarde, as bombas do partido despedaçavam Alexandro
II numha rua de Sam Petersburgo. No seguinte dia, as autoridades judiciárias
recebiam de Jeliabov umha carta assombrosa, desde a prisom de Pedro e Paulo.
Rara vez juízes e monarca recebiam pancada semelhante. Rara vez qualquer
chefe do partido saberia cumprir com tal firmeza os seu derradeiro dever.
A carta dizia:
Se o novo soberano,
recebendo o cetro de maos da revoluçom, projecta ter consideraçom polos
regicidas ao antigo modo; se projecta executar Rissakov, seria umha irritante
injustiça conceder-me a vida a mim, que por tantas vezes tenho atentado
contra a vida de Alexandre II e a quem só um azar impediu participar na
sua execuçom. Sinto-me muito inquieto pensando que o governo poderia condere
maior preço à justiça formal do que à justiça real e enfeitar a coroa do
novo mocarca com o cadáver de um jovem herói, somente por causa da falta
de provas formais contra mim que som um veterano da revoluçom.
Com todas as forças
da minha alma protesto contra esta iniquidade.
Só a cobardia
do governo poderia explicar que nom se levantasse duas forcas em lugar de
umha.
O novo czar Alexandre
III fijo alçar sei forcas para os regicidas. O derradeiro momento, umha
jovem, Jesy Helfman, que estava grávida, foi perdoada. Jeliabov morreu junto
da sua companheira Sofia Peróvskaya, junto de Rissakov (que tinha optado
pola defecçom inutilmente), junto de Mijailov e junto do químico Kibalchich.
Mijailov sofreu três vezes o suplício. Duas vezes, a corda do carrasco rompeu.
Duas vezes caiu Mijailov, coberto polo seus sudário e encapuzado, para erguer-se
por si próprio.
O provocador Okladsky,
entretanto, continuava os seus serviços. Entre a generosa juventude que
incansavelmente “ia ao povo”, à pobreza, à prisom, ao exílio, à morte para
abrir o caminho da revoluçom, era fácil dar pancadas ocultas! Logo que chegou
a Kiev, Okladsky entrega a Vera Nikoláievana Figner ao polícia Sudeikin.
Mais tarde erve Tbilise como um profissional da traiçom, perito na arte
de se relacionar com os melhores homens, de receber as esperadas gratificaçons.
Em 1889, a Segurança
imperial chama-o a Sam Petersburgo. O ministro Durnovo, purificando Okladsky
de todo o passado indigno, converte-o no “honorável cidadao” Petrovsky,
sempre revolucionário, é claro, e confidente de revolucionários. Haveria
de continuar “em actividade” até a revoluçom de Março de 1917. até 1924,
conseguiu fazer-se passar por um pacífico habitante de Petrogrado. Mais
tarde, fechado em Leninegrado, na mesma prisom onde muitas das suas vítimas
esperárom a morte, aceitou escrever a confissom da sua vida até o ano 1890.
Para além dessa
data, o velho agente provocador nom quijo dizer palavra. Nom consentiu em
falar de um passado do qual quase que ninguém dos revolucionários sobrevivia,
mas que ele povoou mortos e mártires.
O tribunal revolucionário
de Leninegrade julga Okladsky na primeira quinzena de Janeiro de 1925. a
revoluçom nom se vinga. Este espectro pertencia a um passado remoto de mais
e morto de mais. O processo, dirigido por veteranos da revoluçom, semelhava
um debate científico de história e de psicologia. Era o estudo do mais lastimoso
dos documentos humanos. Okladsky foi condenado a dez anos de prisom.
[1]
Pope: sacerdote
ortodoxo russo. (Nota da Abrente Editora).
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O que todo revolucionário deve saber sobre a repressom
Título original: Ce que tout révolutionnaire soit savoir sur la répression (1925)
Victor Serge
Abrente Editora
Compostela, Junho de 2002