presente trabalho é a síntese do escrito por Vítor Serge, quem após a Revoluçom de Outubro entra nos arquivos da Okhrana, a polícia de Estado do czarismo. Eram os bons tempos da III Internacional, anteriores à sua burocratizaçom.

Longe de ser um documento histórico, das conclusons de Serge tiram-se nom poucas liçons para o presente. Em primeiro lugar, desmitifica o poder dos serviços de inteligência e polícias políticas. A Okhrana foi modelo de polícia de Estado para a sua época. Por exemplo, exportou as suas técnicas a nom poucos países. No entanto, na hora de confrontar-se com um movimento insurreccional deixou a nu a sua total impotência.

Em segundo lugar, muitas vezes teme-se o que nom se conhece; conhecer os fundamentos de toda a acçom repressiva sistemática e a sua metodologia permite conhecer de quê é que devemos acautelar-nos, mas também conhecer as impossibilidades das forças reaccionárias. Um outro acerto importante de Serge é pôr o acento na sistematicidade da repressom e em explicar a sua lógica interna. Isto permite advertir aos recém iniciados sobre as atitudes conspirativas que em nada ajudam. Finalmente, achega singelas advertências que na sua essência continuam a ser válidas para os militantes: os conselhos a respeito dos correios bem podem ser aplicados hoje nos seus fundamentos em relaçom com os correios electrónicos, bem como com todos os mais.

 

INDICE

INTRODUÇOM

I. O polícia. A sua especial apresentaçom

II. A vigiláncia exterior

III. Os arcanos da provocaçom

IV. Instrutivo sobre recrutamiento e serviço de agentes provocadores

V. Umha monografia da provocaçom em Moscova (1912)

VI. Expedientes de agentes provocadores

VII. Um espectro. Umha página de história

VIII. Malinovsky

IX. A mentalidade do provocador, a provocaçom e o partido comunista

X. A provocaçom, arma de dous gumes

XI. Os delatores russos no estrangeiro. O senhor Raymond Recouly

XII. Os gabinetes pretos e a polícia internacional

XIII. Os criptogramas. De novo o gabinete preto

XIV. Síntese informativa. O método das gráficas

XV Antropometria, filiaçom... e liquidaçom

XVI. Estudo científico do movimento revolucionário

XVII, A protecçom da pessoa do czar

XVIII. O que custa umha execuçom

XIX. Conclusom. Por quê é que resulta invencível a revoluçom

E os provocadores?

-"Estará isto de acordo com as regras da conspiraçom?"

 

I. Nunca ser ingénuo

II. Experiência de posguerra: nom se deixar surpreender

III. Os limites da acçom revolucionária legal

IV. Polícias privadas

V. Conclusons

 

I. Seguir os passos

II. A correspondência e os apontamentos

O caderno

As cartas

III. Conduta geral

IV. Entre companheiros

V. Em caso de detençom

VI. Frente a juízes e polícias

VII. Talento

VIII. Umha recomendaçom fundamental

I. Metralhadora, máquina de escrever, ou...?

II. A experiência de duas revoluçons

III. O terror durou séculos

IV. De Gallifet a Mussolini

V. Lei burguesa e lei proletária

VI. Os dous sistemas. Combater os efeitos ou remontar às causas?

VII. A violência económica: por fame

VIII. A eliminaçom. Erros e abusos. Controlo

IX. Repressom e provocaçom

X. Quando é eficaz a repressom?

XI. Consciência do risco e consciência do fim.

   

 

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O QUE TODO REVOLUCIONÁRIO DEVE SABER SOBRE A REPRESSOM. Víctor Serge

 

INTRODUÇOM

 

A vitória da revoluçom na Rússia pujo em maos dos revolucionários todo o mecanismo da polícia política mais moderna, mais poderosa e experimentada, forjada em mais de cinqüenta anos de luita contra as elites de um grande povo.

Conhecer os métodos e os procedimentos desta polícia interessa para já a todo militante: a defesa capitalista emprega em toda a parte os mesmos meios; todas as polícias, de resto solidárias, se assemelham.

Essa ciência da luita revolucionária, que os russos adquirírom em mais de meio século de esforços e sacrifícios imensos, os militantes dos países onde actualmente se desenvolve a acçom deverám assimilá-la um lapso muito mais curto, dadas as circunstáncias criadas pola guerra, polas vitóricas do proletariado russo e polas derrotas do proletariado internacional: crises do capitalismo mundial, nascimento da Internacional Comunista, desenvolvimento repentino da consciência de classe na burguesia; fascismo, ditaduras militares, terror branco, leis iníquas. Isto cumpre desde já. Se se tiver um bom conhecimento dos meios de que dispom o inimigo, as perdas poderám ser menores. Resulta portanto preciso, para um fim prático, estudar bem o instrumento principal de toda reacçom e de toda repressom: essa máquina de afogar revoltas chamada polícia. Nós atingimo-lo, porque a arma aperfeiçoada que forjou a autocracia para defender a sua existência –a Okhrana (a Defensiva), ou Segurança Geral do Império Russo–, caiu nas nossas maos.

Este estudo, para ser realizado a fundo, o qual seria muito útil, exigiria um tempo de que o autor nom dispom. As páginas que se seguem nom pretendem supri-lo. Bastarám, espero, para pôr sobre aviso os camaradas e para fazer-lhes evidente umha importante verdade que me comoveu desde a primeira visita aos arquivos da polícia russa: a de que nom há força no mundo capaz de conter a maré revolucionária quando esta ascende, e que todas as polícias, nom importa o seu maquiavelismo, a sua ciência e os seus crimes, som quase totalmente impotentes.

O presente trabalho, publicado pola primeira vez no Boletim comunista de Novembro de 1921, foi completado cuidadosamente. Os problemas teóricos e práticos que o estudo do mecanismo de um polícia nom deixam de suscitar na mente do leitor operário, qualquer que for a sua formaçom política, som examinados em dous novos ensaios: Os conselhos ao militante, de cuja utilidade, nom obstante o seu evidente simplismo, a experiência nom permite duvidar, gizam as regras primordiais da defesa operária contra a vigiláncia, a delaçom e a provocaçom.

Desde a guerra e a Revoluçom de Outubro, a classe operária nom pode conformar-se com realizar umha tarefa apenas negativa, destrutora. Abriu-se a era das guerras civis. Seja a sua actualidade algo quotidiano, ou esteja adiada “por anos”, nom é menos certo que na maioria dos partidos comunistas se apresentam desde agora as múltiplas questons da tomada do poder. A princípios de 1923, a ordem capitalista da Europa semelhava gozar de umha estabilidade capaz de descoroçoar os impacientes. No entanto, a ocupaçom “pacifista” do Ruhr, a fins de ano, fazia pairar sobre a Alemanha, tremendamente real, o espectro da revoluçom.

De outra parte, toda a acçom tendente para a destruiçom das instituiçons capitalista necessita ser complementada com umha preparaçom, embora seja teórica, da obra criadora do amanhá. “O espírito destrutor –dizia Bakunine– é ao mesmo tempo espírito criador”. Este grande pensamento, cuja interpretaçom literal, infelizmente, alucionou alguns revoltosos, acaba de se converter numha verdade prática. O mesmo espírito da luita classista leva hoje os comunistas a destruírem e a criarem simultaneamente. De igual jeito que o antimilitarismo actual precisa de ser complementado pola preparaçom do Exército Vermelho, o problema da repressom colocado pola polícia e a justiça burguesas tem um aspecto positivo de grande importáncia. Julguei conveniente defini-lo em traços grossos. Devemos conhecer os meios do inimigo; devemos conhecer também a nossa tarefa em toda a sua extensom.

 

Victor Serge, Março de 1925

 

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A OKHRANA RUSA

 

I. O polícia. A sua especial apresentaçom

 

A Okhrana sucedeu, em 1881, a famosa 3ª Secçom do Ministério do Interior. Mas nom se desenvolveu verdadeiramente até a partir de 1900, data em que foi chefiada por umha nova geraçom de gendarmes. Os velhos oficiais de gendarmaria, nomeadamente de graus superiores, julgárom contrário à honra militar dedicarem-se a determinados quefazeres policiais. A nova promoçom passou por alto aqueles escrúpulos e começou a organizar cientificamente a polícia secreta, a provocaçom, a delaçom e a traiçom nos partidos revolucionários. Dela surgirám homens eruditos e talentosos, como aquele coronel Spiridovich, quem nos deixará umha volumosa História do partido socialista-revolucionário e umha História do partido socialdemocrata.

O recrutamento, a instruçom e o treino profissional realizavam-se com cuidados muito especiais. Na Direcçom Geral, cada quem tinha a sua ficha, documento completíssimo em que mesmo se acham pormenores engraçados. Carácter, grau de escolaridade, inteligência, anos de serviço, todo está lá apontado com um entuito prático. Um oficial, por exemplo, é qualificado como “limitado” –bom para os empregos subalternos, sempre que for tratado com rigor–, e outro assinalado como “inclinado a cortejar as damas”.

Entre as muitas perguntas do questionário, saliento estas: “Conhece os estatutos e programas dos partidos? De quais?” E deparo com que o nosso amigo cortejador de damas “conhece bem as ideias socialistas-revolucionárias e anarquistas –regularmente as do partido social-democrata– e superficialmente as do Partido Socialista Polaco.”Há aqui toda umha erudiçom sabiamente escalonada. Mas continuemos o exame da mesma ficha. O nosso polícia “Seguiu o curso de história do movimento revolucionário?”, “Em quantos e em quais partidos há agentes secretos?”, Intelectuais?, Operários?. Facilmente se percebe que, para formar os seus pesquisadores, a Okhrana organizava cursos em que se estudava cada partido, as suas origens, o seu programa, os seus métodos e até a biografia dos seus militantes conhecidos.

Apontemos cá que esta gendarmaria russa, treinada para os fins mais delicados da polícia política, nom tinha nada em comum com as gendarmaria dos países da Europa ocidental. O seu equivalente tem-no nas polícias secretas de todos os estados capitalistas.

 

II. A vigiláncia exterior

 

Por princípio, toda vigiláncia é exterior. Trata-se  sempre de seguir o indivíduo, de conhecer as suas actividades a os seus movimentos, os seus contactos, e a seguir de penetrar nas suas intençons. Estes serviços também estám desenvolvidos em todas as polícias e a organizaçom russa porporciona-nos, sem qualquer dúvida, o protótipo de todos os serviços semelhantes.

Os agentes russos (de vigiláncia exterior) pertenciam, igual que os “agentes secretos”, na realidade delatores e provocadores, à Okhrana ou Segurança Política. Faziam parte do serviço de investigaçons, que somente podia deter alguém por um mês; em geral, o serviço de investigaçons costumava passar os seus detidos à Direcçom da gendarmaria, a qual continuava a instruçom.

O serviço de vigiláncia exterior era o mais singelo. Os seus abundantes agentes, dos quais possuímos as fotografias de identidade, pagos com 50 rublos por mês, tinham por única tarefa espiar a pessoa que lhes era indicada de hora en hora, de dia e de noite, sem qualquer interrupçom. Nom deviam saber, de partida, nem o seu nome nem o fim de tal espionagem, sem dúvida para precaver qualquer torpeza ou umha traiçom. A pessoa vigiada recebia umha alcunha: o Loiro, A Patroa, Vladímir, o Cocheiro, etc. Topamos estas alcunhas encabeçando informes diários, em volumosos in-fólios, que continham os informes consignados polos agentes. Os informes som de umha minuciosa exactidom e nom devem conter lacunas. O texto acha-se redigido mais ou menos como se segue:

Em 17 de Abril, às 9.54 horas da manhá, a Ama saiu da sua casa, pujo duas cartas no marco do correio da esquina da rua Pushkin; entrou em vários armazéns do bulevar X; entrou às 10.30 no número 30 da rua Z, saiu às 11 e 20, etc.

Nos casos mais sérios, dous agentes espiavam a mesma pessoa sem se conhecerem, sendo confrontados e complementados os seus informes.

Estes informes diários eram remetidos à gendarmaraia para serem analisados por especialistas. Estes funcionários pesquisadores de cámara de umha perigosa perspicácia, elaboravam quadros sinópticos para resunir as actividades e os movimentos da pessoa, o número das suas visitas, a sua regularidade, duraçom, etc.;em certas partes, estes esquemas permitiam valorizar a importáncia das relaçons de um militante e a sua provável influência.

O polícia Zubátov, quem contra 1905 tratou de poderar-se do movimento operário dos grandes centros, criando neles sindicatos, levou a espionagem ao seu mais alto grau de perfeiçom. As suas brigadas especiais podiam seguir um homem por toda a Rússia, inclusive por toda a Europa, deslocando-se atrás dele de cidade em cidade ou de país em país. Os agentes secretos, de resto, nom deviam poupar gastos. O cartom de viáticos de um deles, relativo ao mês de Janeiro de 1905, mostra-nos umha cifra de despesas gerais que se elevava a 637.350 rublos. Para imaginarmos a quantidade do crédito de que gozava um simples delator, bastará com lembrarmos que, por esta época, um estudante vivia facilmente com 25 rublos por mês. Contra 1911, aparece o costume de enviar agentes secretos ao estrangeiro para vigiar os emigrados e para ligar com as polícias europeias. Os delatores da sua majestade imperial estivérom à vontade em todas as capitais do mundo.

A Okhrana tinha a particular missom de procurar e vigiar constantemente determinados revolucionários, considerados como os mais perigosos, nomeadamente os terroristas ou os membros do partido socialista-revolucionário que praticavam o terrorismo. Os seus agentes deviam levar sempre consigo colecçons de fotografias formadas por 50 a 70 retratos, entre os quais, ao chou, reconhecemos Savinkov, o defunto Nathanson, Argunov, Avkséntiev (ai!), Karein, Ovsiánikov, Vera Figner, Pechkova (a senhora Gorki), Fabrikant. Também estavm à sua disposiçom reproduçons do retrato de Marx, pois a presença deste retrato num quarto ou num livro constituía um indício.

Um detalhe porreiro: a vigiláncia exterior nom se exercia somente sobre os inimigos do antigo regime. Temos no nosso poder agendas que testemunham que as actividades e os movimentos dos ministros do império nom escapavam à vigiláncia da polícia. Umha Agenda de controlo das conversas telefónicas do Ministério de Guerra, em 1916, mostra-nos, por exemplo, quantas vezes por dia diferentes personagens da corte perguntárom pola precária saúde da senhora Sujomlinov!

 

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III. Os arcanos da provocaçom

 

Os mecanismos mais importantes da polícia russa era seguramente a sua “agência secreta”, nome decente do serviço de provocaçom, cujas origens remontam para as primeiras luitas revolucionárias e que adquiriu um desenvolvimento extraordinário após a revoluçom de 1905.

Polícias (ditos oficiais de gendarmaria) preparados especialmente, instruídos e seleccionados, ocupavam-se do recrutamento dos agentes provocadores. Os seus maiores ou menores êxitos nesse domínio eram tomados em conta para qualificá-los e fazê-los ascender. Precisos instrutivos estabeleciam até os menores detalhes das suas relaçons com os colaboradores secretos. Especialistas altamente retribuídos reuniam, afinal, todas as informaçons proporcionadas polos provocadores, estudavam-nas, ordenavam-nas e arquivavam-nas em expedientes.

Nos prédios da Okhrana (Fontanka 16, Petrogrado) havia um quarto secreto ao qual só entravam o director da polícia e o funcionário encarregado de classificar as peças. Era o local da agência secreta. Continha fundamentalmente a prateleira com as fichas dos provocadores, em que topamos mais de 35.000 nomes. Na maioria dos casos, o nome do “agente secreto” achava-se substituído por um pseudónimo por motivos de precauçom, o qual motivou que a identificaçom de muitos destes miseráveis, ao cair os expedientes completos, depois do triunfo da revoluçom, em maos dos camaradas, fosse particularmente difícil. O nome do provocador nom devia ser conhecido mais que polo director da Okhrana e polo oficial encarregado de manter com ele relaçons permanentes. Os mesmos recibos que os provocadores assinavam cada fim de mês, cobrados tam normal e pacificamente como os recibos dos restantes funcionários, por somas que iam de 3, 10, 15 rublos mensais até 150 ou 200 como máximo, nom contenhem polo regular mais do que um pseudónimo. Mas a administraçom, desconfiando dos seus agentes e zelosa de que os oficiais de gendarmaria nom inventassem colaboradores imaginários, procedia muito freqüentemente a minuciosas pesquisas para revisar os diferentes ramos da organizaçom. Um inspector provisto de largos poderes investigava pessoalmente os colaboradores secretos, entrevistava-os à livre escolha e despedia-os ou aumentava-lhes o soldo. Acrescentemos que os seus informes eram cuidadosamente verificados –tanto quanto era possível– uns mediante outros.

 

IV. Instrutivo sobre recrutamento e serviço de agentes provocadores

 

Vejamos a seguir um documento que podemos considerar como o abecê da provocaçom. Trata-se do Instrutivo relativo à agência secreta. Folheto de 27 páginas mecanografadas em pequeno formato. O nosso exemplar (o número 35), trai, aliás, na parte superior estas três advertências: “Muito secreto”, “Uso confidencial”, “Secreto profissional”. Que insistência em recomendar mistério! Aginha se há de compreender porquê.

Este documento, que denotava conhecimentos psicológicos e práticos, espírito meticulosamente previsor, umha muito curiosa mistura de cinismo e de hipocrisia moral oficial, há de insteressar um dia aos psicólogos. Começa com indicaçons gerais:

A Segurança Política deve tender para destruir o movimento revolucionário no momento da sua maior actividade e nom desviar o seu trabalho dedicando-se a empresas menores.

De maneira que o princípio é: deixar desenvolver o movimento para a seguir liquidá-lo melhor.

Os agentes secretos receberám um trato fixo, proporcional aos serviços emprestados.

A segurança debe:

Evitar com o maior cuidado entregar os seus colaboradores. Com esse fim, nom detê-los nem deixá-los em liberdade mais do que quando outros membros de igual importáncia pertencentes à mesma organizaçom revolucionária puderem ser detidos ou libertados.

A Segurança deve:

Facilitar aos seus colaboradores que ganhem a confiança dos milintantes.

Continua um capítulo dedicado ao recrutamento.

O recrutamento de agentes secretos deve ser a constante preocupaçom do director de Investigaçons e dos seus colaboradores. Nom devem desaproveitar nengumha oportunidade, embora apresente poucas hipóteses de conseguir agentes...

Esta tarefa é extremamente delicada. Cumpre, para poder efectivá-la, ligar com os detidos políticos...

Deverám ser considerados como propensos a ingressar no serviço os revolucionários fracos de carácter, os agravados polo partido, os que viverem na miséria, os evadidos de lugares de deportaçom ou os pendentes de ser deportados.

O Instrutivo recomenda estudar “com cuidado” as fraquezas do indivíduo e aproveitá-las; conversar com os seus amigos e parentes, etc.; multiplicar “constantemente os contactos com os operários, com as testemunhas, com os pais, etc., sem nunca perder de vista o objectivo...”.

Estranha duplicidade da alma humana! Traduzo literalmente três desconcertantes linhas:

Podemos utilizar os serviços de revolucionários que se acharem na miséria que, sem renunciarem às suas convicçons, aceitarem entregar informaçons por necessidade...

Entom, havia-os? Mas continuemos.

Colocar delatores junto dos detidos é umha excelente utilidade.

Cuando umha pessoa semelhar madura para entrar no serviço –quer dizer, quando se tratar, por exemplo, de um revolucionário moralmente destruído, atribulado, desorientado porventura polos seus próprios fracassos–, deverám acrescentar-se à sua causa outras acusaçons piores para tê-lo melhor agarrado.

Capturar todo o grupo a que pertence e conduzir a pessoa em questom perante o director da polícia; ter motivos graves para o acusar, reservando no entanto a hipótese de o libertar ao mesmo tempo que os outros revolucionários encarcerados, sem provocar barulho.

Interrogar a pessoa numha entrevista pessoal. Tirar vantagem, para convencê-lo, de disputas entre os grupos, de erros de militantes, de cousas que firam o seu amor próprio.

Enxerga-se, a ler estas linhas, o polícia paternal que tem piedade da sorte da sorte da sua vítima:

Claro, enquanto você irá a trabalhos forçados polas suas ideias, o seu camarada X, quem lhas fijo boas, viverá de medo graças a você. O que quer? Justos pagam por pecadores!

Isto pode resultar se se tratar de um fraco, ou de alguém sobre quem pesam anos de deportaçom...

Tanto quanto for possível, ter muitos colaboradores em cada organizaçom.

A  Segurança deve ser a que dirija os seus colaboradores e nom ser dirigida por eles.

Os agentes secretos nom deverám conhecer nunca as informaçons proporcionadas polos seus colegas.

E eis um fragmento que Maquiavelo nom teria desaprovado:

Um colaborador nosso que trabalha em postos de segunda numha organizaçom revolucionária pode ascender nesta com apenas serem arrestados militantes de maior importáncia.

Manter o absoluto segredo da provocaçom é, naturalmente, um dos maiores cuidados da polícia.

O agente jura guardar segredo absoluto; ao entrar no serviço nom deve modificar em nada os seus costumes habituais.

Os relacionamentos com ele som rodeadas de preocupaçons dificilmente superáveis. Podem ser atribuídas entrevistas a colaboradores dignos de toda a confiança. Terám lugar em apartamentos clandestinos, compostos por várias peças que nom tenham comunicaçom directa entre si, onde, em caso de necessidade, se poda isolar diferentes visitantes. O encarregado da casa deve ser um empregado civil. Nunca poderá receber visistas  pessoais. Também nom deverá conhecer os agentes secretos nem falar-lhes. Estará na obriga de abrir pessoalmente, verificando que antes da sua saída nom haja ninguém nas escadas. As entrevistas terám lugar em quartos fechados. Nom deverám descuidar-se papéis comprometedores. Terá-se cuidado de nom sentar nengum visitante perto de janelas ou espelhos. À mínima suspeita, mudar de apartamento.

O provocador nom poderá, em nengum caso, apresentar-se na Segurança. Nom poderá empreender nengumha missom de importáncia sem o consentimento do seu chefe.

Os contactos fam-se por meio de senhas convenidas com antecedência. A correspondência remeterá-se a endereços convencionais.

As cartas dos colaboradores secretos devem estar escritas com escrita irreconhecível e nom conterám mais do que expressons correntes. Servir-se de papel e de envelopes que estejam de acordo com o nível social do destinatário. Empregar tinta simpática. O colaborador deposita ele próprio as suas cartas. Quando as recebe, está obrigado a queimá-las após tê-las lido. Os endereços convencionais nom devem anotar-se nunca.

Um problema grave era o de liberar um agente secreto arrestado entre os que ele entregara. A este respeito, o instrutivo nom recomenda empregar o recurso da evasom, pois:

As evasons chamam a atençom dos revolucionários. Previamente à liquidaçom de qualquer organizaçom, consultar os agentes secretos em torno das pessoas que deverám deixar-se em liberdade, por forma a nom atraiçoar os nossos meios de informaçom.

 

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V. Umha monografia da provocaçom em Moscovo (1912)

 

Umha outra peça escolhida nos arquivos da provocaçom ajudará-nos a abranger a extensom que esta atinge. Trata-se de umha espécie de monografia da provocaçom em Moscovo, em 1912. É o informe de um alto funcionário, o senhor Vissariánov, quem tinha sido comissionado naquele ano para fazer umha viagem de inspecçom à agência secreta de Moscovo.

O senhor Vissariánov cumpriu a sua missom de 1º de Abril a 22 do mesmo mês. O seu informe constitui um grosso caderno mecanografado. Consagra a cada provocador, assinalado, é claro, polo seu seudónimo, umha notícia pormenorizadíssima. Há algumhas bem curiosas.

Em 6 de Abril de 1912, havia em Moscovo 55 agentes provocadores oficialmente em funçons. Repartiam-se como se segue:

Socialistas revolucionários, 17; social-democra­tas, 20; anarquistas, 3; estudantes (movimento das escolas), 11; instituiçons filantrópicas, etc., 2; sociedades científicas, 1; zemstvos, 1. Aliás, "a agência secreta de Moscovo controla também a imprensa, os outubristas (partido K. D. constitucional-democrático), os agentes de Búrtzev, os arménios, a extrema direita e os jesuitas".

Os colaboradores eram caracterizados em relatórios bastantes concisos.

Partido Social-demócrata. Fracçom bolchevique. Portnói (o Alfaiate), torneiro em madeira, inteli­gente. Em serviço desde 1910. Recebe 100 rublos por mês. Colaborador muito bem informa­do. Será candidato à Duma. Participou na conferência bolchevique de Praga. De 5 militan­tes enviados desde a Rússia a esta conferência, 3 fôrom detidos...

De resto, no que à conferência bolchevique de Praga di respeito, o nosso alto funcionário de polícia congratulava-se polos resultados atingidos polos agentes secretos. Alguns conseguiram infiltrar-se no Comité Central, e um deles, um delator, foi comssionado polo partido para introduzir literatura na Rússia. “Assim temos todo o aparelho de propaganda”, verifica o nosso polícia.

Aquí é que se impom um parêntese. Sim, eles tinham nas maos, nesse momento, o aparelho de propaganda bolchevique. Mas, a eficácia desta propaganda diminuiu? A palabra escrita de Lenine perdeu algo do seu valor ao ter passado para as maos dos delatores? A palabra revolucionária tem a sua força em si própria, apenas precisa de ser escuitada. Nom importa quem a transmitir. O êxito da Okhrana teria sido verdadeiramente decisivo se tivesse conseguido impedir as organizaçons bolcheviques de acederem à literatura procedente do estrangeiro. Mas nom podia fazê-lo mais do que em certa medida, a risco de desmarscarar os seus quadros.

 

VI. Expedientes de agentes provocadores

 

O que é que é um agente provocador? Possuímos milhares de expedientes onde adhamos umha documentaçom abundante sobre as pessoas e as actividades destes miseráveis. Demos umha olhadela em alguns:

Expediente 378. Júlia Oréstovna Serova (de alcunha Pravdivy [a Verídica] e Uliánova). A umha pregunta do ministro sobre a folha de serviço desta colaboradora despedida (por estar “queimada”), o director da polícia responde enumerando os seus excelentes trabalhos. A carta tem quatro longas páginas. Eu resumo-a, masa em termos quase que textuais:

Julia Oréstovna Serova foi empregada, de Setembro de 1907 a 1910, na vigiláncia das organizaçons social-democratas. Ocupava postos relativamente importantes no partido, e por isso pudo render-nos grandes serviços, quer em Petersburgo, quer em províncias. Toda umha série de arrestos foi conseguida graças às suas informaçons.

Em Setembro de 1907 fijo arrestar o deputado da Duma, Sergio Saltykov.

Em finais de Abril de 1908 fijo arrestar 4 militantes: Rikov, Noguin, Gregório e Kamenev.

Em 9 de Março de 1908, fijo arrestar umha assembleia completa do partido.

Em outono de 1908, fijo arrestar o membro do Comité Central Inocente Dubrobsky.

Em Fevereiro de 1909, fijo comisar os materiais de umha oficina tipográfica clandestina e tomar o gabinete de passaportes do partido.

Em 1º de Março de 1905, fijo arrestar todo o Comité de Petersburgo.

Contribuiu, aliás, para arrestar um bando de expropriadores (Maio de 1907), para comisar remessas de literatura e especiamente o transporte de literatura ilegal por Vilna. Em 1908, tivo-nos ao tanto de todas as reunions do Comité Central e indicou a composiçom dos comités. Em 1909, participou numha conferência do partido no estrangeiro, da qual nos informou. Em 1909, controlou as actividades de Aléxis Ríkov.

Essa era a sua bela folha de serviços. Mas a Serova terminou por “queimar-se”. O seu marido, deputado da Duma, declarou nos diários da capital que já nom a considerava a sua mulher. Isto foi conpreendido. Como já nom podia emprestar serviços, os seus superiores hierárquicos agradecêrom-lhe a colaboraçom. Caiu na miséria. O expediente está cheio de cartas que remetia para o director da Segurança: protestos de fidelidade, recordaçons dos serviços emprestados, pedidos de ajuda.

Nom conheço nada mais aflitivo do que estas cartas escritas com letra nervosa e apertada de intelectual. A “provocadora desocupada”, como ela própria se qualificada em algum lugar, semelha encurralada, fustigada pola miséria, numha total desintegraçom moral. Cumpre subsistir. Nom sabe fazer nada com as maos. O seu desleixo interior impede-lhe achar umha soluçom, um trabalho simples e razoável.

Em 16 de Agosto de 1912, escreve para o director da polícia:

Os meus filhos, dos quais o primogénito tem 5 anos, carecem de roupas e de sapatos. Carecemos de mobília. Eu estou mal vestida de mais para poder topar um emprego. Se o senhor nom me der auxílio, verei-me abocada ao suicídio...

Concedemo-lhe 150 rublos.

Em 17 de Setembro, noutra carta, à qual se junta umha missiva para o seu marido, que o director da polícia decide enviar polos correios:

O senhor vai ver, na última carta que escrevo para o meu marido, que em vésperas de acabar com a minha vida ainda nego ter servido à polícia. Decidim acabar. Nom é comédia, nem efectismo. Já nom me sinto capaz de recomeçar a vida.

No entanto, a Serova nom se matará ainda. Alguns dias mais tarde denuncia um anciao senhor que esconde armas. AS cartas formam um grosso volume. Eis umha, comovedora: umhas poucas linhas de despedida para o homem que fora seu marido.

Com freqüência tenho sido culpável a respeito de ti. Inclusive até agora nom che tinha escrito. Mas esquece o mau e lembra só a nossa vida em comum, o nosso trabalho em comum, e perdoa-me. Deixo a vida. Estou cansada. Sinto que muitas cousas rompêrom dentro de mim. Nom poderia maldizer ninguém; mas, raios partam os ¡camaradas”!

Onde começa, nestas cartas, a sinceridade? Onde é que acaba o fingimento? Nom se sabe. Estamos à frente de umha alma complexa, malvada, dolorosa, suja, prostituída, despida.

No entanto, a Segurança nom foi surda aos seus chamados. Cada umha das cartas da Serova leva no verso a resoluçom do director, manuscrita polo chefe de serviços: “Enviem-se-lhe 250 rublos”, “Destinem-se-lhe 50 rublos”. A velha colaboradora anuncia a morte de um dos seus filhos. “Verifique-se”, escreve o director. Logo a seguir, pedirá que se lhe facilite umha máquina de escrever para aprender mecanografia. A Segurança nom tem máquinas disponíveis. Afinal, as suas cartas tornam mais e mais prementes.

Em nome dos meus filhos –escreve em 14 de Dezembro— escrevo-lhe com báguas e sangue. Conceda-me um derradeiro socorro de 300 rublos. Com isso bastará-me.

Concede-se-lhe, em troca de que deixe Petrogrado. Ao todo, em 1911, a Serova recebe 743 rublos em três remessas; em 1912, 788 rubos em seis remessas. Naquela altura, isto era considerável.

A seguir de um derradeiro socorro enviado em Fevereiro de 1914, a Serva recebe um pequeno emprego na administraçom dos caminhos de ferro. Aginha há de perdê-lo por vigarizar pequenas quantidades de dinheiro aos seus companheiros de trabalho. Aponta-se no seu expediente: “culpada por extorsom”. Já nom merece nengumha confiança”. Sob o nome de Petrova consegue, no entanto, entrar ao serviço da polícia do caminhos de ferro onde, descoberta, é despedida. Em 1915 ainda solicita um emprego como delatora. Em 28 de Janeiro de 1917, em vésperas da revoluçom, esta anciá secretária de um comité revolucionário escrevia à “Sua excelência, o senhor Director da Polícia”, lembrava-lhe os seus bons e leais serviços e propunha-lhe informá-lo da actividade do partido social-democrata, em que podia fazer entrar o seu segundo marido.

Em vésperas dos grandes acontecimentos que se sentem vir, sofro por nom poder ser-vos de utilidade.

Expediente 383. Osipov, Nicolái Nicoláievich Veretsky, filho de um pope [1] . Estudante. Colaborador secreto desde 1903, para vigiar a organizaçom social-democrata e a juventude das escolas de Pavlograd.

Enviado a Petersburgo polo partido em 1905, com a missom de introduzir armas na Finlándia, apresenta-se imediatamente à direcçom da polícia para receber instruçons.

Ao suspeitar dele os seus companheiros, é arrestado, fica 3 meses na secçom secreta da Okhrana e consegue ser enviado ao estrangeiros com o fim de se “reabilitar aos olhos dos militantes”.

Cito textualmente a conclusom de um informe:

Veretsky semelha ser um homem inteligente e culto, de umha grande modéstia, consciencioso e honesto; digamos em eu favor que a maior parte dos seus honorários (150 rublos) os dedica aos seus anciaos pais.

Em 1915, este excelente jovem retira-se do serviço e recebe ainda doze ordenados mensais de 75 rublos.

Expediente 317. O Doente. Vladímir Ivánovich Lorberg. Operário. Escreve torpemente. Trabalha numha fábrica e recebe 10 rublos por mês. Um proletário da provocaçom.

Expediente 81. Serguéi Vasilievich Práotsev, filho de um membro da Nardnaia Volia, gava-se de ter crescido num meio revolucionário e de possuir vastos e úteis relacionamentos.

Possuímos milhares de expedientes semelhantes.

Porque a baixeza e miséria de certas almas humanas som insondáveis.

Ainda nom nos temos ocupado dos expedientes de dous colaboradores secretos cujos nomes diremos. Devem, no entanto, ser ser mencionados aqui como casos típicos: um intelectual valioso, um tribuno.

Stanislaw Brozozowski, escritor polaco de aprecíavel talento, respeitado pola juventude, autor de ensaios críticos sobre Kant, Zola, Mijailovsky, Avenarius, “heraldo do socialismo, no qual via a mais profunda síntese do espírito humano e do que quereria fazer um sistema filosófico que abrangesse a natureza e a sociedade” (Naprzod, 5 de Maio de 1908), autor do romance revolucionário A chama, recrutado pola Okhrana de Varsóvia polos seus relacionamentos com os meios revolucionários e “progressistas”, com honorários mensais de 150 rublos.

O pope Gapón, alma de todo o movimento operário de Petersburgo e Moscovo antes da revoluçom de 1905; organizador da manifestaçom operária de Janeiro de 1905, ensangrentada sob as janelas do Palácio de Inverno polas descargas de fusilaria dirgidas sobre umha multidom suplicante encabeçada por dous padres que portavam em alto o retrato do czar; o pope Gapón, verdadeira encarnaçom de um momento da Revoluçom Russa, acabou por vender-se à Okhrana e, convito do delito de provocaçom, foi enforcado polo socialista-revolucionário Ruthemberg.

 

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VII. Um espectro. Umha página de história

 

Ainda hoje, estám longe de terem sido identificados todos os agentes provocadores da Okhrana cujos expedientes possuímos.

Nom se passa um mês sem que os tribunais revolucionáiros da Uniom Soviética julguem alguns destes homens. Som encontrados, identificados por acaso. Em 1924, um miserável apareceu ante nós, voltando de um passado de cinqüenta anos, como num acesso de náusea, e era um perfeito espectro. Este espectro evocava umha página de história, e intercalamo-la aqui apenas para projectar nestas páginas de lama um bocado da luz do heroísmo revolucionário.

Este agente provocador tinha rendido 37 anos dos bons serviços (de 1880 a 1917) e, já anciao encanecido, safou-se durante sete anos das pesquisas da Cheka.

Por volta de 1879, o estudante de 20 anos Okladsky, revolucionário desde os 15, membro do partido da Narodnaia Volia [A Vontade do Povo], terrorista, perparou com Jeliabov um atentado contra o czar Alexandre II. O comboio imperial devia saltar. Passou sobre as minas sem estorvo. O aparelho infernal funcionou. Acidente fortuito? Tal se julgou. Porém, 16 revolucionários, entre eles Okladsky, devêrom responder polo “crime”. Okladsky foi condenado à morte. Começava a sua brilhante carreira? Tinha começado já? A clemência do imperador condece-lhe a vida, em troca da prisom perpétua.

Aí começa, em todo o caso, a série de inaprecíaveis serviços que Okladsky haveria de render à polícia do czar. Na longa listagem de revolucionários que entregará, há quatro dos nomes mais formosos da nossa história. Baránnikov, Jeliabov, Trigoni, Vera Figner. Desses quatro, a única que sobrevive é Vera Nicoláievna Figner. Passou vinte anos na fortaleza de Schulusselburg. Baránnikov morreu. Trigoni, depois de ter sofrido vinte anos em Schlusselburg e passado quatro de exílio em Shajalin, viu antes de morrer, em 1917, o derrubamento da autocracia. Jeliabov morreu no patíbulo.

Estes valentes pertenciam à Narodnaia Volia, primeiro partido revolucionário russo que, antes do nascimento do movimento proletário, tinha declarado a guerra à autocracia. O seu programa propunha umha revoluçom liberal, cujo cumprimento teria significado para a Rússia um progresso imenso. Numha época em que nengumha outra acçom era possível, serviu-se do terrorismo, golpeando sem cessar o czarismo enlouquecido por momentos, e decapitado em 1º de Março de 1881. Na luita desta presa de heróis contra toda a velha sociedade poderosamente armada criárom-se os costumes, as tradiçons, as mentalidades que, perpetuadas polo proletariado, haveriam de temperar numerosas geraçons para a vitória de Outubro de 1917. De todos estes heróis, Alexandr Jeliabov foi porventura o maior, e rendeu sem dúvida os maiores serviços ao partido que tinha contribuido para fundar. Denunciado por Okladsky, é detido em 27 de Fevereiro de 1881, num departamento da perspectiva Nevsky, em companhia de um jovem advogado de Odessa, Triboni, membro também do misterioso Comité Executivo da Narodnaia Volia. Dous dias mais tarde, as bombas do partido despedaçavam Alexandro II numha rua de Sam Petersburgo. No seguinte dia, as autoridades judiciárias recebiam de Jeliabov umha carta assombrosa, desde a prisom de Pedro e Paulo. Rara vez juízes e monarca recebiam pancada semelhante. Rara vez qualquer chefe do partido saberia cumprir com tal firmeza os seu derradeiro dever. A carta dizia:

Se o novo soberano, recebendo o cetro de maos da revoluçom, projecta ter consideraçom polos regicidas ao antigo modo; se projecta executar Rissakov, seria umha irritante injustiça conceder-me a vida a mim, que por tantas vezes tenho atentado contra a vida de Alexandre II e a quem só um azar impediu participar na sua execuçom. Sinto-me muito inquieto pensando que o governo poderia condere maior preço à justiça formal do que à justiça real e enfeitar a coroa do novo mocarca com o cadáver de um jovem herói, somente por causa da falta de provas formais contra mim que som um veterano da revoluçom.

Com todas as forças da minha alma protesto contra esta iniquidade.

Só a cobardia do governo poderia explicar que nom se levantasse duas forcas em lugar de umha.

O novo czar Alexandre III fijo alçar sei forcas para os regicidas. O derradeiro momento, umha jovem, Jesy Helfman, que estava grávida, foi perdoada. Jeliabov morreu junto da sua companheira Sofia Peróvskaya, junto de Rissakov (que tinha optado pola defecçom inutilmente), junto de Mijailov e junto do químico Kibalchich. Mijailov sofreu três vezes o suplício. Duas vezes, a corda do carrasco rompeu. Duas vezes caiu Mijailov, coberto polo seus sudário e encapuzado, para erguer-se por si próprio.

O provocador Okladsky, entretanto, continuava os seus serviços. Entre a generosa juventude que incansavelmente “ia ao povo”, à pobreza, à prisom, ao exílio, à morte para abrir o caminho da revoluçom, era fácil dar pancadas ocultas! Logo que chegou a Kiev, Okladsky entrega a Vera Nikoláievana Figner ao polícia Sudeikin. Mais tarde erve Tbilise como um profissional da traiçom, perito na arte de se relacionar com os melhores homens, de receber as esperadas gratificaçons.

Em 1889, a Segurança imperial chama-o a Sam Petersburgo. O ministro Durnovo, purificando Okladsky de todo o passado indigno, converte-o no “honorável cidadao” Petrovsky, sempre revolucionário, é claro, e confidente de revolucionários. Haveria de continuar “em actividade” até a revoluçom de Março de 1917. até 1924, conseguiu fazer-se passar por um pacífico habitante de Petrogrado. Mais tarde, fechado em Leninegrado, na mesma prisom onde muitas das suas vítimas esperárom a morte, aceitou escrever a confissom da sua vida até o ano 1890.

Para além dessa data, o velho agente provocador nom quijo dizer palavra. Nom consentiu em falar de um passado do qual quase que ninguém dos revolucionários sobrevivia, mas que ele povoou mortos e mártires.

O tribunal revolucionário de Leninegrade julga Okladsky na primeira quinzena de Janeiro de 1925. a revoluçom nom se vinga. Este espectro pertencia a um passado remoto de mais e morto de mais. O processo, dirigido por veteranos da revoluçom, semelhava um debate científico de história e de psicologia. Era o estudo do mais lastimoso dos documentos humanos. Okladsky foi condenado a dez anos de prisom.

 

 



NOTAS

 

[1] Pope: sacerdote ortodoxo russo. (Nota da Abrente Editora).

 

 

VIII. MALINOVSKY

 

 

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O que todo revolucionário deve saber sobre a repressom

Título original: Ce que tout révolutionnaire soit savoir sur la répression (1925)

Victor Serge

Abrente Editora

Compostela, Junho de 2002