O QUE TODO REVOLUCIONÁRIO DEVE SABER SOBRE A REPRESSOM. Víctor Serge

 

VIII. Malinovsky

 

Demoremos ainda um bocadinho num caso de provocaçom dos que a história do movimento revolucionário conheceu tantos: a provocaçom de um chefe de partido. Eis a enigmática figura de Malinovsky [1] .

Umha manhá de 1918, o terrível ano que se seguiu à Revoluçom de Outubro: guerra civil, requisiçons rurais, sabotagens técnicas, complots, sublevaçom dos checos, intervençons estrangeiras, paz nojenta (segundo a definiçom de Lenine) de Brest-Litovsk, duas tentativas de assassinato contra Vladímir Ilich. Umha manhá de aquele ano, um homem apresentou-se tranquilamente ao comandannte do Smolny (Soviet de Petrogrado) e dixo-lhe:

-Som o provocador Malinovsky. Rogo-lhe que me arreste.

O humor tem lugar em toda a tragédia. Impávido, o comandante do Smolny fijo pôr na porta aquele inoportuno.

-   A mim ninguém me manda, nem é o meu trabalho arrestá-lo!

-   Entom, faga-me conduzir ao comité do partido.

E no comité reconhecerá-se com assombro o homem mais execrável, o mais deprezível do partido. Será arrestado. A sua carreira, em duas palavras, é esta:

Anverso: um adolescente difícil, três condenas por roubo. Muito dotado, muito activo, militante de diversas organizaçons, tam apreciado que em 1910 é-lhe oferecida a incorporaçom ao Comité Central do Partido Operário Social-Democrata Russo, e durante a conferência bolchevique de Praga (1912) ingressa ao CC efectivamente. Em fins do mesmo ano, é deputado bolchevique na IV Duma do Império. Em 1913, é presidente do grupo parlamentário bolchevique.

Reverso: delator da Okhrana (Ernesto, depois o Alfaiate) desde 1907. A partir de 1910, honorários de 100 rublos mensais (principesco). O ex chefe da polícia Beletsky, di: “Malinovsky era o orgulho da Segurança, que o preparava para ser um dos chefes do partido. “Fijo arrestar grupos de bolcheviques em Moscovo, Tula, etc. Entre à polícia Miliutin, Noguin, Maria Smidóvich, Staline, Sverdlov. Denuncia à Okhrana os arquivos secretos do partido. É elito na Duma com a ajuda tam discreta como eficaz da polícia...

Desmascarado, recebe do Ministério do Interior umha forte recompensa e desaparece. Sobrevém a guerra. Feito prisioneiro em combate, recomeça a sua militáncia no campo de concentraçom. Volta afinal para a Rússia, para declarar ao tribunal revolucionário: “Fagam-me fusilar!” Revela ter sofrido enormemente com a sua existência dual; nom ter comprrendido realmente a revoluçom mais do que serodiamente; ter-se deixado ganhar pola ambiçom e o espírito de aventura. Krylenko refuta despiedadamente que esta argumentaçom fosse sincera. “O aventureiro joga a sua derradeira carta!”

Umha revoluçom nom pode deter-se a decifrar enigmas psicológicos. Nom pode arriscar-se a ser vigarizada mais umha vez por um jogador turbulento e apaixonado. O tribunal revolucionário emitiu o veredito reclamado a um tempo polo acusador e o arguido. Na mesma noite, poucas horas mais tarde, Malinovsky, quando atravesseva um solitário pátio do Kremlin, recebeu subrepticiamente umha bala na nuca.

 

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IX. A mentalidade do provocador, a provocaçom e o partido comunista

 

Aqui colase-nos o problema da psicologia do provocador. Psicolgia morbosa, seguramente, mas que nom deve surpreender-nos mais do devido. Temos visto, no Instrutivo da Okhrana, que pessoas é que “trabalha” a polícia e por que meios. Umha Serova, considerada fraca de carácter, vive dificilmente, milita com valor. É arrestada. Bruscamente arrancada do seu meio, sente-se perdida. Os trabalhos forçados esperam-na, talvez a forca. Bem poderia dizer umha palavra, umha só palavra, sobre alguém que, precisamente, a magoou... Vacila. Basta-lhe um instante de cobardia; ou porventura haja cobardia de mais no fundo do ser humano. O mais terrível é que, doravante, nom poderá recusar-se a colaborar mais. Decorrido um tempo, afará-se às vantagens materiais desta odiosa situaçom, até por no segredo da sua actividade sentir-se perfeitamente segura.

Mas nom há só estes agentes secretos por cobardia: há, e som muito mais perigosos, os diletantes, aventureiros que nom acreditam em nada, a sentirem fastio polo ideal que serviam até havia pouco, agarrados polo perigo, pola intriga, pola conspiraçom, por um complicado jogo em que fam troça de todo o mundo. Podem ter talento, agir num papel quase indecifrável. Tal semelha ter sido o Malinovsky. A literatura russa que se seguiu à derrota de 1905 oferece-nos muitos casos psicológicos de umha perversom semelhante. O revolucionário ilegal –nomeadamente o terrorista— adquere um tempero no carácter, umha vontade, um valor, um amor ao perigo terríveis. Se entom, ao influxo de pequenas experiências pessoais –fracassos, decepçons, extravios intelectuais— ou pola derrota temporal do movimento, chega a perder o seu idealismo, em que pode se converter? Se de verdade for forte, fugirá à neurastenia e ao suicídio; mas também é provável que venha a se converter num aventureiro sem fé, ao qual todos os meios lhe parecerám bons para atingir os seus fins pessoais. E a provocaçom é um meio que, de ser-lhe proposto, de certeza tentará.

Todos os movimetnos de massas que abrangem milhares e milhares de homens arrastam escórias semelhantes. Nom deve assombrar-nos. A acçom de semelhantes parasitas nom tem mais do que um ínfimo poder sobre o vigor e a saúde moral do proletariado. Achamos que, quanto mais proletário for o movimento revolucionário, quer dizer, netamente, energicamente comunista, menos lhe ham ser perigosos os agentes provocadores. Existirám provavelmente enquanto houver muita social. Mas som individualidades às quais o hábito do trabalho e do pensamento colectivo, da disciplina estrita, da acçom calculada polas massas e inspirada por umha teoria científica da situaçom social, oferece escassas possibilidades de façanhas. Nada mais contrário ao aventureirismo pequeno ou grande, com efeito, do que a acçom ampla, séria, profunda e metódica de um grande partido marxista revolucionário, inclusive ilega. A ilegalidade comunista nom é a dos carbonari, a preparaçom comunista da insurreiçom nom é a dos blanquistas. Os carbonari e os blanquistas eram umha presa de conspiradores, dirigidos por alguns idealistas inteligentes e enérgicos. Um partido comunista, inclusive numericamente fraco, representa sempre, pola sua ideologia, a classe operária. Encarna a consciência de classe de centenas de milhares ou de milhons de homens. O seu papel é imenso, já que é o do cérebro de um sistema nervoso, mas inseparável das aspiraçons, das necessidades, da actividade do proletariado inteiro, de maneira que os desígnios individuais, quando nom se ajustarem às necessidades do partido, ou o que é igual, ao proletariado [2] , perdem muita da sua importáncia.

Neste senso, o partido comunista é, entre todas as organizaçons revolucionárias que a história tem produzido até hoje, a menos vulnerável aos embates da provocaçom.

 

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X. A provocaçom, arma de dous gumes

 

Alguns expedientes especiais contenhem as ofertas de serviço dirigidas à polícia. Folheei ao acaso um tomo de correspondência com o estrangeiro, onde se pode ver sucessivamente um “súbdito dinamarquês possuidor de instruçom superior” e um “estudante saído de boa família” solicitar emprego na polícia secreta da sua majestade o czar da Rússia...

As múltiplas ajudas monetárias concedidas a Serova, dam fé da atençom da polícia no que di respeito aos seus servidores, inclusive os reformados. A administraçom nom punha na lista negra mais que os agentes surpreendidos em flagrante delito de fraude ou de extorsom. Qualificados de “chantagistas”, e inscritos nas listas negras, perdiam todo o direoto ao reconhecimento do Estado.

Os outros, em troca, podiam obter tudo. Prórrogas ou dispensas do serviço militar, perdons, amnistias, favores diversos após condenas oficiais, pensons temporárias ou de viagem, tudo, inclusivamente favores do mesmo czar. Viu-se o czar conceder a velhos provocadores nomes e apelidos nobres. O apelido e o nome tinham, segundo o rito ortodoxo, valor religioso; o chefe espiritual da igreja russa infringia assim as leis da mesma religiom. Tudo era pouco para gratificar um bom delator!

A provocaçom acabou por converter-se em toda umha instituiçom. A cifra completa de pessoas que ao longo de vinte anos de movimento revolucionário rendêrom serviços à polícia pode variar entre os 35 e os 40 mil. Estima-se que a metade deles, mais ou menos, foi desmascarada. Alguns milhares de antigos delatores e provocadores sobrevivem ainda hoje impunemente na mesma Rússia, pois a sua identificaçom ainda nom foi possível. Entre esta multidom havia homens de valor e inclusive alguns que desempenhárom um papel importante no movimento revolucionário.

À cabeça do partido socialista-revolucionário e da sua organizaçom de choque, achava-se, por volta de 1909, o engenheiro Evno Azev, quem, a partir de 1890, assinava com o seu nome os informes da polícia. Azev foi um dos organizadores da execuçom do grande duque Sérgio, da do ministro Plehve e de muitos outros. Era ele quem dirigia, antes de enviá-los à morte, heróis tais como Kaliáev e Egor Sazónov [3] .

No Comité Central bolchevique, encabeçando a sua fracçom na Duma, achava-se, como vimos, o agente secreto Malinovsky.

A provocaçom, ao atingir semelhante dimensom, convertia-se também num perigo para o regime que servia e sobretudo para os homens desse regime. Sabe-se, por exemplo, que um dos mais altos funcionários do Ministério do Interior, o polícia Rachkovsky, conheceu e aprovou os projectos de execuçom de Plehve e do grande duque Sérgio. Stolypin [4] , perfeitamente inteirado dos casos, fazia-se acompanhar nas suas saídas polo chefe da polícia Guerásimov, umha vez que julgava a sua presença como umha garantia contra os atentados cometidos por instigaçom dos provocadores. Stolypin foi, porém, morto polo anarquista Bagrof, que tinha pertencido à polícia.

A provocaçom, apesar de tudo, prosperava ainda no momento de a revoluçom estalar. Os agentes provocadores recebêrom a sua derradeira mensalidade em finais de Fevereiro de 1917, umha semana antes da derrocada da autocracia.

Revolucionários abnegados vírom-se tentados a servir-se da provocaçom. Petrov, socialista-revolucionário, quem deixara umhas memórias de um intenso dramatismo, entrou à Okhrana para combatê-la melhor. Feito prisioneiro e tendo experimentado um primeiro rejeitamento por parte do director da polícia, finge ter dado em doido para conseguir ser enviado para um assilo donde a evasom fosse possível, logrando tal, e volta, já livre, para oferecer os seus serviços. Mas –convencido logo de que tinha chegado longe de mais e de que atraiçoava ao seu pesar, Petrov suicida-se depois de ter executado o coronel Kárpov (1909).

O maximalista [5] Salomom Ryss (Mortimer), organizador de um grupo terrorista extremamente audaz (1906-07), chega a zombar da Segurança, da qual se tinha convertido em colaborador secreto. O caso de Salomom Ryss constitui umha excepçom digna de ser mencionada, quase que inacreditável, que nom se explicaria mais que polos muito particulares hábitos da Okhrana após a revoluçom de 1905. Por via de regra, é impossível zombar da polícia; é impossível para um revolucionário penetrar nos seus segredos. O agente secreto de mais confiança nom tem relaçom mais do que com um ou dous polícias, dos quais nada se pode tirar, mas aos quais, no entanto, som úteis até as menores palavras e incluso as mentiras que se lhes digam, que som esclarecidas no mesmo dia [6] .

O desenvolvimento da provocaçom, de outra parte, induziu por vezes a Okhrana para tecer complicadas intrigas em que amiúde nom pudo dizer a última palavra. Foi assim que, em 1907, tornou necessário para os seus desígnios fazer com que o mesmo Ryss se evadisse. Para tal, o director da polícia nom duvida em chegar mesmo ao crime. Cumprindo instruçons, dous gendarmes organizárom a fugida do revolucinário. O inquérito judiciário, torpemente conduzido, revelou a sua participaçom. Levados a conselho de guerra e degradados oficialmente polos seus superiores, fôrom condenados a trabalhos forçados.

 

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XI. Os delatores russos no estrangeiro. O senhor Raymond Recouly

 

Naturalmente, as ramificaçons da Okhrana estendiam-se até o estrangeiro. Os seus arquivos incluiam informaçons relativas à grande quantidade de pessoas que moravam naquela altura para além das fronteiras do Império e que inclusive nunca tinham estado na Rússia. Recém chegado à Rússia pola primeira vez em 1919, topei umha série de cadastros sobre a minha pessoa. A polícia russa seguia com a maior atençom as actividades dos revolucionários no estrangeiros. No que di respeito aos anarquistas russos Troianovsky e Kirichek, capturados durante a guerra de Paris, topei volumosos expedientes. A resenha dos interrogatórios decorridos no Palácio de Justiça de Paris, estava completa. De resto, russos ou estrangeiros, os anarquistas estavam totalmente vigiados em toda a parte, a cargo da Okhrana, que para tal objectivo mantinha umha correspondência constante com os serviços de segurança de Londres, Roma, Berlim, etc.

Em todas as capitais importantes morava permanentemente um chefe de polícia russo. Durante a guerra, M. Krassílnikov, oficialmente conselheiro da Ambaixada, desempenhava este delicado posto em Paris.

No momento de estalar a revoluçom na Rússia, uns quinze agentes provocadores trabalhavam em Paris entre so diferentes grupos de emigrados russos. Aquando o derradeiro embaixador do derradeiro czar tivo de entregar a legaçom para um sucessor nomeado polo governo provisório, umha comissom integrada por altos personagens da colónia de emigrados em Paris encarregou-se de estudar os papéis do senhor Krassílnikov. Sem dificuldade, identificárom os agentes secretos. Achárom, entre outras surpresas, que um membro da imprensa francesa, patriota de bom tom, aparecia na rue de Grenelle em qualidade de delator e espiom. Tratava-se do senhor Raymond Recouly, redactor naquela altura do Le Fígaro, onde se ocupava da política exterior. Na sua oculta colaboraçom com o senhor Krassílnikov, Recouly, seguindo os imperativos assinalados aos confidentes, trocara o seu nome polo pseudónimo pouco literário de Ratmir. Ofício de cam, nome de cam.

Ratmir informava a Okhrana sobre os seus colegas da imprensa francesa. No Le Fígaro e outros lugares levava a política da Okhrana. Recebeia 500 francos por mês. As suas actividades som notórias. Acham-se completas, impresas, polos vistos desde 1918, em Paris, num volumoso informe do senhor Agafonov, membmro da comissom pesquisadora dos emigrados parisinos em torno da provocaçom russa em França. Os membros desta comissom –alguns deles devem morar ainda em Paris, nom esquecêrom, por certo, o Ratmir-Recouly. De outra parte, René Marchand publicou, em 1924, em L’Humanité, as provas tiradas de arquivos da Okhrana de Petrogrado, sobre a actividade policial do senhor Recouly. Este senhor limitou-se a lançar um desmentido que ninguém acreditou; nem foi repelido polos seus colegas [7] . E isto é explicável. O seu caso, dada a corrupçom da imprensa por parte dos governos estrangeiros, é correntíssimo.

 

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XII. Os gabinetes pretos e a polícia internacional

 

Krassílnikov também tinha às suas ordens toda umha equipa de detectives, delatores, imprecisos assalariados que tratavam dos trabalhos menores, tais como a vigiláncia da correspondência dos revolucionários (gabinetes pretos privados, etc.).

Em 1913-14 (e nom creio que até a revoluçom sofresse modificaçons de relevo), a agência secreta da Okhrana em França era dirigida praticamente por certo Bittard-Monin, quem recebia 1000 francos mensais. Dos recibos que por honorários assinavam os seus agentes tomei os nomes destes e os seus lugares de residência. A sua publicaçom talvez nom seja excessivamente útil. Ei-los:

Agentes secretos da polícia no estrangeiro, sitos sob a direcçom de Bittard-Monin (Paris): E. Invernitzi (Calvi, Córsega), Henri Durin (Génova), Sambaine (Paris), A. o R. Sauvard (Cannes), Vogt (Menton), Berthold (Paris), Fon­taine (Cap Martin), Henri Neuhaus (Cap Martin), Vincení Vizardelli (Grenoble), Barthes (Sam Re­mo), Ch. Delangle (Sam Remo), Georges Cousso­net (Cap Martin), O. Rougeaux (Menton), E. Levéque (Cap Martin), Fontana (Cap Martin), Artur Frumento (Alassis), Sustrov o Surjánov y David (Paris), Dussosois (Cap Martin), R. Gottlieb (Nice), Roselli (Zurique), señora G. Richard (Paris), Jean Abersoid (Londres), J. Bint (Cannes), -Karl Voltz (Berlim), meninha Drouchot, senhora Tiercelin, senhora Fagon, Jollivet, Rivet.

Três pessoas tinham umha pensom da agência russa de Paris. A viúva Farse (ou Farsa?), a viúva Rigo (ou Rigault?) e N. N. Chachnikov.

A presença temporária de numerosos agentes em Cap Martin ou noutras localidades de menor importáncia explica-se pola necessidade de delaçons. Todos estes agentes nom tinham dificuldade em se deslocarem.

Tinham conseguido organizar na Europa toda um maravilhoso gabinete preto e privado. Em Petrogrado possuímos maços de cópias de cartas trocadas entre Paris e Nice, Roma e Genebra, Berlim e Londres, etc. Toda a correspondência de Savinkov e de Chernov, no momento em que ambos moravam em França, foi conservada nos arquivos da polícia de Petrogrado. Correspondência entre Haase e Dan [8] também foi interceptada, como muitas outras. Como? O empregado de guarda, o carteiro ou simplesmente um empregado dos correios, sem dúvida retribuidos generosamente, retinham durante algumhas horas, o tempo preciso para copiá-las, as cartas dirigidas às pessoas vigiadas. As cópias faziam-nas amiúde pessoas que nom conheciam a língua empregada polos autores das cartas; torpezas, de resto insignificantes, assim o evidenciam. Traziam também copiado o carimbo de expediçom e o endereço. Eram remetidas a Petrogrado com a maior rapidez.

Naturalmente, a polícia russa no estrangeiro colaborava com as polícias locais [9] . Enqunto os agentes provocadores, desconhecidos por todos, faziam o seu papel de revolucionários, à sua volta operavam os detectives de Krassílnikov, ignorados oficialmente, mas na verdade encorajados e ajudados. Pormenores típicos mostram de que natureza é que era a ajuda que lhes emprestavam as autoridades francesas. O agente Francesco Leone, que tinha estado em relaçons com Búrtzev [10] , tinha consentido entregar-lhe por dinheiro alguns segredos do senhor Bittard-Monin. O seu colega, Fontana, de quem figera roubar a fotografia, fere-o de umha bengalada num café perto da Gare de Lyon (Paris, 28 de Junho de 1913). Detido o agressor e tendo-se-lhe topado dous cartons de agente da Segurança francesa e um revólver, foi enviado à esquadra sob a quádrupla acusaçom de “usurpaçom de funçons, posse de armas proibidas, golpes e feridas e ameaças de morte”. Vinte e quatro horas depois era deixado em liberdade por intervençom de Krassílnikov, após ter-se desmentido oficialmente a sua qualidade de agente da Segurança russa. Quanto ao indiscreto Leone, a Embaixada russa obtivo a sua expulsom de França. Umha carta de Krassílnikov  relata ao director da Segurança todos estes incidentes e pom-no ao corrente das gestons empreendidas para fazer expulsar o Búrtzev de Itália.

Noutra carta, o mesmo Krassílnikov informa a Okhrana que umha interpelaçom socialista sobre as manobras da polícia russa, em que aparecia envolvido, “nom é já para temer por parte das autoridades francesas. Os parlamentares socialistas tenhem outras ocupaçons nestes momentos”. [11]

 

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XIII. Os criptogramas. De novo o gabinete preto

 

Mas, e se os revolucionários empregavam chaves nas suas cartas?

Entom, a Okhrana encomendava a um pesquisador genial que decifrasse a mensagem. E se me certificar que nunca falhou. Este perito excepcional, nomeado Zybin, tinha conquistado tal reputaçom de infalibilidade, que durante a revoluçom de Março... foi poupado. Passou ao serviço do novo governo, que o empregou, acho eu, em contraespionagem.

As mais diversas chaves, segundo parece, podem ser decifradas. Se se empregarem combinaçom geométricas ou aritméticas, o cálculo de possibilidades pode oferecer alguns indícios. Basta um ponto de partida, a menor chave, para decifrar umha mensagem. Para trocar cartas, alguns camaradas serviam-se –di-se-me— de certos livros em que tinham acordado marcar certas páginas. Bom psicologista, Zybin achava os livros e as páginas. “As chaves baseadas em textos de escritores conhecidos, em modelos achegados por manuais das organizaçons revolucionárias, na disposiçom vertical de nomes ou divisas”, nom valem nada, escreve o ex polícia M. E. Bakai [12] . As chaves das organizaçons centrais som as mais freqüentemente denunciadas polos provocadores ou decifradas a longo prazo, depois de um trabalho minucioso. Bakai julga como as melhores chaves de uso corrente aquelas que podem proceder de textos impressos pouco conhecidos. Zybin figera-se com umha colecçom de gavetas e ficheiros onde se podia achar instantaneamente o nome de todas as cidades da Rússia onde, por exemplo, há certa rua Sam Alexandre; o nome de todas as cidades onde havia estas ou aquelas fábricas ou escolas; as alcunhas e pseudónimos de todas as pessoas suspeitas que moravam no Império, etc. Possuia listagens alfabéticas de estudantes, de marinheiros, de oficiais, etc. Achava-se numha carta, muita inocente em aparência, estas simples palavras: “O Moreninho doi nesta noite à rua Maio”, e mais à frente umha frase relativa a um “estudante de medicina”. Bastava deitar mao a algumhas gavetas para saber se o Moreninho já tinha sido cadastrado, e em que cidade que possuísse umha faculdade de medicina é que havia umha rua Maior. Três ou quatro indícios semelhantes eram já umha hipótese digna de se considerar.

Em toda a correspondência vigiada ou incautada, as menores alusons a determinada pessoa eram trasladadas a fichas,em que certo números remetiam para o texto das cartas. Arquivos inteiros estavam cheios de cartas semelhantes. Três cartas totalmente correntes, provenientes de três militantes espalhados numha regiom e que figeram alusom incidental a um quarto, podiam delatá-lo perfeitamente.

Sublinhemo-lo: o controlo da correspondência por parte dos gabinetes pretos cuja existência é rigorosa e tradicionalmente negada pola polícia, mas sem os quais nom existiria polícia, é de grande importáncia. O correio das pessoas conhecidas ou suspeitas é vigiado por princípio; depois, umha substracçom, praticada ao acaso, intercepta as cartas que levam por fora “entregar a”, aquelas cujos caracteres semelham representar algo acordado, aquelas com algumha palavra que, de algumha maneira, dá nas vistas. A abertura de cartas ao acaso proporciona umha documentaçom tam útil como o controlo da correspondência dos militantes bem conhecidos. Estes, com efeito, tratm de escrever com prudência (embora a única prudência real, a única efectiva, seja nom tratar por carta assuntos relativos à acçom nem sequer indirectamente), enquanto o comum dos membros do partido –os desconhecidos— se esquece das precauçons mais elementares.

A Okhrana fazia três cópias das cartas interessantes: umha para a morada da censura, umha outra para a morada da Segurança Geral e umha terceira dirigida à polícia local. A carta chegava ao seu destinatário. Em certos casos –por exemplo, em aqueles em que se figera revelar quimicamente umha tinta simpática— a polícia guardava o original e fazia chegar ao destinatário umha cópia perfeitamente imitada, obra de certo perito que era todo um virtuoso.

Para abrir cartas, seguiam-se procedimentos que variavam segundo a manha dos funcionários: descolá-las com vapor, descolar selos lacrados –que aginha eram repostos, com umha lámina de barbear quente, etc. O mais habitualm é que os cantos do envelope nom estejam bem colados. Introduz-se entom pola abertura um aparelho feito de umha varinha metálica, à volta da qual se enrola suavemente a carta, que assim resulta fácil de tirar e de retornar ao envelope sem abri-lo.

As cartas interceptadas nunca eram consignadas à justiça, por forma a nom deitar a menor luz, nem sequer indirecta, sobre o trabalho do gabinete preto. Eram utilizadas na confecçom de informes policiais.

O gabinete de cifrado nom tratava mais que das chaves dos revolucionários. Também coleccionava fotografias de chaves diplomáticas das grandes potências.

 

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XIV. Síntese informativa. O método das gráficas

 

Até agora, nom examinamos mais do que os mecanismos de observaçom da Segurança russa. Os seus procedimentos som de algumha maneira analíticos. Investiga-se, indaga-se, regista-se. Trate-se de umha organizaçom ou de um militante, os métodos som os mesmos. Ao cabo de certo tempo –que pode ser curtíssimo— a Segurança dispom de certo tipo de dados sobre o adversário:

1)                       Os da vigiláncia exterior, cujos resultados se resumem em quadros sinópticos, esclarecem as suas actividades e os seus movimentos, os seus hábitos, as suas relaçons, o seu meio, etc.;

2)                       Os da agência secreta ou os informantes, que declaram sobre as suas ideias, intençons, trabalhos, actividade clandestina;

3)                       O que se pode obter da leitura atenta de jornais e publicaçons revolucionárias;

4)                       Os da sua correspondência, ou de correspondência de terceiros com ele, completam o assunto.

O grau de precisom das informaçons conseguidas polos agentes secretos era, naturalmente, variável. A impressom geral que dam os expedientes é, no entanto, de umha exactidom muito grande, nomeadamente os que dim respeito a organizaçons solidamente estabelecidas. Os expedientes policiais contenhem informaçom verbal muito detalhada de cada reuniom secreta, resumos de cada discurso importante, exemplares de cada publicaçom clandestina, mesmo multicopiados [13] .

Temos já a Segurança em posse de informaçom abundante. O trabalho de observaçom e análise está feito. Segundo o método científico, deve seguir-se entom um trabalho de classificaçom e de síntese.

Os seus resultados expressarám-se em gráficas. Vamos despregar umha.

Títulos: Relaçons de Boris Savinkov. Este quadro, de 40 cm de alto por 70 cm de comprimento, resume, de maneira que se poda abranger de umha olhadela, todos os dados obtidos sobre as relaçons do terrorista.

Ao centro, um rectángulo, em forma de cartom de visita, com o seu nome escrito à mao. Deste rectángulo irradiam linhas que o ligam a pequenos círculos de cor. Via de regra, estes som por seu turno centros donde parte outras linhas que os ligam a outros círculos. E assim por diante. As relaçons, inclusive indirectas, de um homem, podem deste jeito ser captadas ao momento, qualquer que for o nome dos intermediários, conscientes ou nom, que os relacionam com umha dada pessoa. No quadro de relaçons de Savinkov, os círculos vermelhos, que representam as suas relaçons de “luita”, dividem-se em três grupos de nove, oito e seis pessoas, todas consignadas com os seus nomes e apelidos. Os círculos verdes é que representam pessoas com quem tivo ou tem relaçons directas, políticas ou de outro género: aparecem 37; os círculos amarelos representam parentes (som 9); os círculos cor café indicam pessoas relacionadas com os seus amigos e conhecidos... Tudo isto em Petrogrado. Outros signos representam as suas relaçons com Kiev. Leamos, por exemplo: B. S. Conhecia Varvara Eduárdovna Varsovskaya, quem conhecia por sua vez 12 pessoas em Petrogrado (nomes, apelidos, etc.) e 5 em Kiev. Bem pode resultar que B. S. nom soubesse nada destas 12 pessoas e destas 5 pessoas. Mas a polícia conhecia melhor do que ele próprio a que novelos era que levavam os fios!

Trata-se de umha organizaçom? Tomemos umha série de quadros de estudo, evidentemente resenhas, de umha organizaçom socialista-revolucionária do governo de Vilna. Os círculos vermelhos formam, aqui e acolá, espécies de constelaçons: entre eles, as linhas entrecruzam-se estranhamente. Decifremos: Vilna. Um círculo vermelho: Ivanov, chamado O Gelo, rua, número, profissom. Umha seta refere-o a Pável (iguais dados). E algumhas setas indicam-nos que em 23 de Fevereiro (de 16 a 17 horas), em 27 (às 21 horas) e em 28 (às 16 horas). Ivanov visitou Pável. Umha outra seta refere-o a Marfa, que o visitou em 27 ao meio-dia. Assim por diante, estas linhas confundem-se como os passos na rua. Este quadro permite seguir, hora por hora, a actividade de umha organizaçom.

 

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XV. Antropometria, filiaçom... e liquidaçom

 

Mencionemos aqui um meio acessório, muito útil, de que a Segurança dispunha: a antropometria (o bertillonnage, do nome do senhor Bertillon, quem inventara o sistema), valiosíssima para os serviços de identificaçom judiciária. De toda a pessoa arrestada fai-se um cadastro antropométrico: é fotografada de diferentes ángulos, frontalmente, de perfil, de pé, sentada; medida com ajuda de instrumentos de precisom (forma e dimensom do cránio, do antebraço, do pé, da mao, etc.), examinada por especialistas que ratificam a sua filiaçom científica (forma do nariz e da orelha, matiz dos olhos, cicatrizes e sinais no corpo). Tomam-se-lhe as impressons digitais: o estudo das mais mínimas sinuosidades da epiderme poderá servir para os fins de estabelecer a sua identidade, quase que indefectivelmente, servindo-se de umha impressom digital, deixada num copo ou no puxador de umha fechadura. Em todas as pesquisas judiciárias, os cadastros antropométricos, classificados por índices característicos, achegam o seu cúmulo de informaçons.

Os mais ínfimos sinais podem ser perigosos. A conformaçom da orelha, o matiz das meninhas do olho, a forma do nariz, podem ser observadas na rua sem dar nas vistas. Estes dados bastarám aginha ao polícia perito para identificar o homem, a despeito das mudanças que tenha feito no seu físico. Umhas letras convencionais transmitirám por telegrama umha filiaçom científica.

Já os principais militantes som perfeitamente conhecidos. A polícia está muito bem inteirada da organizaçom no seu conjutno. Só resta fazer umha síntese, desta vez, em concreto. Fagamos algo formoso e formal! E fam-no. Estes som os quadros e as cores, cuidadosos como trabalhos de arquitectos, artísticos. Os signos som explicados com legendas. Este é um Esquema de organizaçom do partido socialista-revolucionário, que nem os mesmos membros do Comité Central possuem; ou o quadro de organizaçom do Partido Socialista Polaco, do Bund judeu, da propaganda nas fábricas de Petrogrado, etc. Todos os partidos, todos os grupos som estudados a fundo.

Nada platonicamente, por certo! Cá estamos perto da meta. Um elegante desenho mostra-nos o “projecto de liquidaçom da organizaçom social-democrata de Riga”. No topo do Comité Central (4 nomes) e a comissom de propaganda (2 nomes); abaixo, o comité de Riga, em relaçom com 5 grupos, do qual dependem 26 subgrupos. Ao tudo, 76 nomes de pessoas para umha trintena de organizaçons. Nom resta mais do que deitar a luva a todo o mundo numha só rusga para extirpar completamente a organizaçom social-democrata de Riga.

 

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XVI. Estudo científico do movimento revolucionário

 

Terminando o trabalho, os seus autores sentem um legítimo orgulho por conservarem a sua memória. Editam quase com luxo um álbum de fotografias de membros da organizaçom liquidada. Tenho na minha frente um álbum consagrado à liquidaçom do grupo anarquista-comunista “Os Comuneiros”, pola polícia de Moscovo, em Agosto de 1910. quatro láminas mostram o armamento e a equipa do grupo: seguem-se 18 retratos acompanhados de dados biográficos.

Os materiais, informes, expedientes, gráficas, etc., que até este momento tinham sido utilizado com um intuito prático, imediato, vam ser empregues a partir de agora com um espírito de certa forma científico.

Cada ano, publicava-se um volume a cargo da Okhrana e exclusivamente para os seus funcionários, o qual contém umha completa embora sucinta exposiçom dos principais casos e informes sobre a situaçom actual do movimento revolucionário.

Volumosos tratados fôrom escritos sobre o movimento revolucionário para instruir as jovens geraçons de gendarmes. De cada partido lê-se a sua história (origem e desenvolvimento), um resumo das suas ideias e programas, umha série de desenhos acompanhados de textos explicativos que proporcionam o esquema da sua organizaçom, as resoluçons das suas assembleias e dados dos seus militantes mais conhecidos. Em resumo, umha monografia breve e completa. A história do movimento anarquista da Rússia será, por exemplo, extraordinariamente difícil de reconstruir por caus ada dispersom de homens e grupos, das perdas inauditas que sofrera esse movimento durante a revoluçom e finalmente da sua ulterior desintegraçom. No entanto, temos a sorte de topar, nos arquivos da polícia, um pequeno e excelente volume, detalhadíssimo, onde se acha resumida esta história. Bastará acrescentar algumhas notas e um curto prefácio para entregar ao público um livro do maior interesse.

Sobre os grandes partidos, a Okhrana publicou conscienciosos trabalhos, alguns dos quais seriam dignos de reimprimir-se e que, em conjunto, servirám algumha vez. Sobre o movimento sionista judeu, 156 páginas em grande formato, informe dirigido à direcçom da polícia. A actividade da social-democracia durante a guerra, 102 páginas. Situaçom do partido socialista-revolucionário em 1908, etc. Som alguns dos títulos escolhidos ao acaso dentre os folhetos saídos dos prelos da polícia imperial.

O Departamento da Polícia também editava folhas periódicas de informaçom, para uso dos funcionários superiores.

Para uso do czar, confeccionava-se, em exemplar único, umha espécie de revista manuscrita que aparecia de dez a quinze vezes por ano, em que os mais mínimos incidentes do movimento revolucionário, capturas isoladas, pesquisas bem sucedidas, repressons, eram registados. Nicolau II sabia-o tudo, Nicolau II nom desdenhava as informaçons obtidas polos gabinetes pretos. Os informes estám amiúde apontados pola sua mao.

A Okhrana nom vigiava somente os inimigos da autocracia. Considerava-se bom ter na mao os amigos, e sobretudo saber o que pensavam. O gabinete preto estudava muito especialmente as cartas dos altos cargos funcionariais, conselheiros do Estado, ministros, cortesaos, generais, etc. Os trechos com interesse destas cartas, ordenados por temas e datas, formavam cada semestre um grosso volume mecanografado que liam apenas dous ou três personagens poderosos. A general Z escreve à princesa T... que desaprova a nomeaçom de M. Certo personagem do Conselho Imperial que fai burla do ministro... nos salons. Isto é apontado. Um ministro comenta ao seu jeito umha proposta de lei, um decesso, um discurso, copiado, apontado, a título de “informaçons sobre a opiniom pública”.

 

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XVII. A protecçom da pessoa do czar

 

A protecçom da sacra pessoa do czar exigia um mecanismo especial. Lim umha trintena de folhetos consagrados à forma de preparar as viagens da sua magestade imperial por terra, por água, por caminho de ferro, de automóvel, no interior, nas ruas, nos campos. Inúmeras regras presidem a organizaçom de cada deslocamento do soberano. Incluso quando durante umha solenidade deve atravessar certas ruas, estuda-se o seu percurso casa por casa, janela por janela, a maneira de saber exactamente que pessoas moram ao longo do percurso e quem os visitam. Planos de todas as casas, de todas as ruas por onde passará o cortejo, som levantados; desenhos das fachadas e com o número de andares, bem como os nomes dos inquilinos, facilitam os aprestos.

Por várias vezes, porém, a vida de Nicolau II estivo em maos dos terroristas, circunstáncias fortuitas é que o salvárom. Nom a Okhrana.

 

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XVIII. O que custa umha execuçom

 

Entre a papelada da polícia czarista abundam os mais tristes documentos humanos, como já vimos. Embora um bocado fora de tema, acho que devemos consagrar algumhas linhas a umha série de simples recibos de somas miúdas de dinheiro, topadas ao pé de um expediente. Nomeadamente por estes papelzinhos costumarem aparecer após a “liquidaçom” de grupos revolucionários, a engordar ou a pôr fecho aos expedientes já por si volumosos pola vigiláncia e a delaçom. A maneira de epílogo...

Estes documentos mostram-nos quanto é que custava à polícia czarista umha execuçom. Som os recibos assinados por todos aqueles que, directa ou indirectamente, coloboravam com o carrasco,

Despesas da execuçom dos irmaos Modal e Djavat Mustafá Ogli, condenados polo tribunal militar do Cáucaso.

Rublos

Transporte dos condenados da fortaleza de Metek à prisom, aos carroceiros          4

Outras despesas 4

Por ter cavado e tapado duas valas (seis sepulteiros assinam cada um um recibo de dous rublos    12

Por ter armado o patíbulo 4

Por vigiar o trabalho         8

Despesas de viagem de um crego (e regresso)      2

Ao médico, polo certificado de defunçom  2

Ao carrasco                                   50

Despesas de viagem do carrasco    2

Resumindo, nom é caro. O padre e o médico sobretudo, som modestos. O sacerdócio de um e a profissom do outro implicam devoçom pola humanidade, nom é?

Nesta altura pensamos que aqui deveríamos iniciar um capítulo intitulado: “A tortura”. Todas as polícias fam uso mais ou menos freqüente do “interrogatório” medieval. Nos EEUU pratica-se o terrível “3º interrogatório”. Na maioria dos países da Europa, a tortura tem-se generalizado após o recrudescimento da luita de classes a partir da guerra. A Siguranza romena, a Defensa polaca, as polícias alemá, italiana, jugoslava, espanhola, búlgara –algumha nos escapa decerto—usam-na com freqüência. A Okhrana russa tinha-as precedido neste caminho, ainda que com certa moderaçom. Embora se dem casos, inclusive numerosos, de castigos corporais –o knut (chicote) nalgumhas prisons, o tratamento impligindo aos seus prisioneiros pola polícia russa antes da revoluçom de 1905 semelha ter sido mais humano do que o que se impinge hoje, em caso de arresto, aos militantes operários de umha dúzia de países da Europa. Após 1905, a Okhrana possuia cámaras de tortura em Varsóvia, Riga, Odessa e, polos vistos, na maioria dos grandes centros urbanos.

 

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XIX. Conclusom. Por quê é que resulta invencível a revoluçom

 

A polícia devia vê-lo tudo, percebê-lo tudo, sabê-lo tudo, podê-lo tudo. O poder e a perfeiçom do seu aparelho semelhava ainda mais terrível porquanto achava recursos insuspeitos nos baixos fundos da alma humana.

Porém, nom pudo impedir nada. Durante meio século defendeu inutilmente a autocracia contra a revoluçom, que cada ano tornava mais forte.

De outra parte, seria errado deixar-se impressionar polo mecanismo aparentemente perfeito da Segurança imperial. É certo que à sua frente se achavam alguns homens inteligentes, alguns técnicos de grande valor profissional; mas toda a maquinaria repousava sobre o trabalho de umha caterva de funcionários ignorantes. Nos informes melhor confeccionados topam-se os mais divertidos disparates. O dinheiro oleava todas as engrenagens da enorme máquina; o ganho é um forte estímulo, mas ineficaz. Nada de grande se fai sem nobre desinteresse. E a autocracia só tinha defensores interessados no seu proveito.

Se após a derrubada de 26 de Março de 1919, ainda fosse necessário demonstrar, com factos tomados da história da Revoluçom Russa, a vaidade dos esforços do director do Departamento da Polícia, podemos citar multidom de argumentos como o que nos oferece o ex-polícia M. E. Bakai, em 1906, após a repressom da primeira revoluçom, quando o chefe da polícia Trusévich reorganizou a Okhrana. As organizaçons revolucionárias de Varsóvia, nomeadamente as do Partido Socialista Polaco [14] , “suprimírom durante o ano 20 militares, 7 gendarmes, 56 polícias, e ferírom 92; em resumo, pugérom fora de combate 179 agentes da autoridade. Destruírom, aliás, 149 expêndios de álcool da administraçom. Na preparaçom destas acçons participárom centenas de homens que na maioria dos casos continuárom ignorados pola polícia”. M. E. Bakai repara que, nos períodos de auge da revoluçom, os agentes provocadores freqüentemente faziam mutis; mas reapareciam quando ascendia a reacçom. Igual que os corvos nos campos de batalha.

Em 1917, a autocracia ruiu sem que as legions de delatores, provocadores, gendarmes, carrascos, guardas municipais, cosacos, juízes, generais, popes, pudessem desviear o curso inflexível da história. Os informes da Okhrana redigidos polo general Globachev verificam a proximidade da revoluçom e prodigam ao czar advertências inúteis. O mesmo que os mais sábios médicos chamados para assistirem a um moribundo nom podem mais do que constatar, minuto a minuto, os progressos da doença, os omniscientes polícias do Império viam impotentes como o mundo czarista se dirigia para o abismo...

Porque a revoluçom era conseqüência de causas económicas, psicológicas, morais, situadas para além deles e fora do seu alcance. Estavam condenados a resistir inutilmente e a sucumbir. Porque é a eterna ilusom dos governantes acreditar que podem anular os efeitos sem considerarem as causas, legislar contra a anarquia ou contra o sindicalismo (como nos Estados Unidos), contra o socialismo (como Bismarck fijo na Alemanha), contra o comunismo, como se fai hoje um pocado por toda a parte.

Na verdade, a polícia russa viu-se desbordada. A simpatia instintiva ou consciente da imensa maioria da populaçom estivo com os inimigos do antigo regime. O martírio quotidiano destes suscitava a adesom de alguns e a admiraçom do grande número. Sobre este velho povo cristao exercia umha influênica irresistível a vida dos apóstolos dos propagandistas que, renunciando ao bem-estar e à segurança, defrontavam, para levar o novo evangelho aos miseráveis, a prisom, o exílio siberiano e a morte mesma. Voltavam a ser “o sal da terra”: eram os melhores, os únicos portadores de umha imensa esperança e por isso eram perseguidos.

Tinham do seu lado só a força moral, a das ideias e os sentimentos. A autocracia já nom era um princípio vivo. Ninguém acreditava já na sua necessidade, carecia de ideólogos. A religiom mesma, por boca dos seus pensadores mais sinceros, condenava aquele regime que apenas repousava no emprego sistemático da violência. Os maiores cristaos da Rússia moderna, dujobortzi e tolstosianos, eram anarquistas. Mas umha sociedade que já nom repousava em ideias vivas, aquela em que os princípios fundamentais estám mortos, sobrevive, como muito, pola força da inércia.

Mas na sociedade russa dos últimos anos do antigo regime, as ideias novas –subersivas— tinham conseguido umha força sem contrapeso. Todo o que na classe operária, na pequena burguesia, no exército e na marinha, nas profissons liberais pensava e obrava, era revolucionário, quer dizer, “socialista” de algum jeito. Nom existia umha mediana burguesia satisfeita, como nos países da Europa ocidental. O antigo regime nom era defendido mais que polo clero, a nobreza cortesá, os financeiros, alguns políticos, em resumo, por umha aristocracia ínfima. As ideias revolucionárias achavam terreno favorável em toda a parte. Durante muito tempo, a nobreza e a burguesia entregárom à revoluçom os seus melhores filhos. Quando um militante se ocultava, topava numerosas ajudas espontáneas, desinteressadas, devotas. Quando um revolucionário era arrestado achava cada vez mais freqüentemente que os soldados encarregados de conduzi-lo simpatizavam com ele e entre os carcereiros quase houvo “camaradas”. Tam certo era isto, que na maioria das prisons resultava fácil comunicar clandestinamente com o exterior. Esta simpatia também facilitava as evasons. Guerchuni, condenado à morte e transferido de umha prisom para outra, encontrou gendarmes que eram “amigos”. Búrtzev, na sua luita contra a provocaçom, achou outrora preciosa colaboraçom num alto funcionário do Ministério do Interior, o senhor Lopujin, por acaso um homem honesto, e um velho polícia, Bakai. Eu conhecim um revolucionário que tinha sido vigiante numha prisom. Os casos de “vigiantes” convertidos polos detidos nom eram raros... quanto ao estado de espírito dos elementos mais atrasados da populaçom –do ponto de vista revolucionário— estes factos som sintomáticos.

E estas nom som mais do que causas aparentes, superficiais, superpostas a outras mais profundas. O poder das ideias, a força moral, a organizaçom e a mentalidade revolucionária nom eram mais do que os resultados de umha situaçom económica cujo desenvolvimento enveredava para a revoluçom. A autocracia russa encarnava o poder de umha aristocracia de grandes terratenentes e de umha oligarquia financeira, submetida a influências estrangeiras estorvadas, de resto, por instituiçons pouco propícias para o desenvolvimento da burguesia. Pouco numerosa, desprovista de influência política, descontenta, a classe média urgana dava os seus filhos, juventude estudantil, intelectuais, para a revoluçom, para umha revoluçom liberal, percebe-se, pois nom queria ver subir o mujik e o operário. A grande burguesia industrial, comerciante, financeira, desejava umha monarquia constitucional “à inglesa” em que, naturalmente, exerceria o poder. Abafada polos impostos, presa nos tempos de paz, na época de prosperidade europeia, de fames periódicas, desmoralizada polo monopólio do vodka, explorada brutalmente por popes, polícias, burocratas e grandes proprietários, a massa rural acolhia com fervor, depois de mais de meios século, os chamados dos revolucionários. “Camponês, toma posse da terra!”. E como esta massa proporcionava ao exército a imensa mamioria dos seus efectivso, a carne de canhom de Lyaoyang e Mukden, assim como os carrascos de todas as sublevaçons, o exército, trabalhado polas organizaçons militares dos partidos clandestinos, esse exército mantido na obediência polos conselhos de guerra e polo “governo do soco no focinho” bulia de amargura. Umha classe operária ainda jovem, multiplicada tam rapidamente como se desenvolvia a indústria capitalista, privada do elementar dereito de fakar os seus idiomas próprios, de consciência, de organizaçom de imprensa (direitos que eram desconhecidos polo antigo regime russo), ignorante dos enganos do regime parlamentar, a viver em cortelhos, a receber salários baixos, submetida ao polícia arbitrário, em resumo, colocada face as novas realidades da luita de classes, tomava mais clara consciência dos seus interesses cada dia que se passava. Trinta nacionalidades alógenas, ou vencidas polo Império, privadas do elementar direito a falar as suas línguas, colocadas na impossibilidade de ter umha cultura nacional, russificadas a chicotadas, nom eram mantidas sob o jugo mais que por constantes medidas repressivas. Na Polónia, na Finlándia, na Ucránia, nos países bálticos, no Cáucaso, gestavam-se revoluçons nacionais, prestes a aliarem-se com a revoluçom agrária, a insurreiçom operária, a revoluçom burguesa... A questom judia surgia por todo o lado.

No topo do poder, umha dinastia degenerada rodeada de imbecis. O cabeleireiro Filipe cuidava tratava mediante hipnotismo da saúde vacilante do suposto herdeiro. Rasputim tirava e punha ministros desde as suas estáncias privadas. Os generais roubavam ao exército, os grandes dignatários saqueavam o Estado. Enter este poder e a naçom, umha burocracia, inúmera, que vivia principalmente do suborno.

No seio das massas, as organizaçons revolucionárias, amplas e disciplinadas, activas constantemente, possuidoras tanto de umha vasta experiência quanto do prestígio e do apoio de umha magnífica tradiçom... Tais eram as forças profundas que trabalhavam pola revoluçom. E contra elas, na vá esperança de impedir a avalancha, a Okhrana tensava os seus fracos arames farpados!

Nesta deplorável situaçom, a polícia agia sabiamente. Bom. Conseguia, vamos lá dizer, “liquidar” a organizaçom social-democrata de Riga. Setenta capturas decapitavam o movimento na zona. Imaginemos por um momento umha liquidaçom total. Ninguém fugiu. E a seguir?

Para já, estas setenta capturas nom deixavam de ser advertidas. Cada um dos militantes estava em relaçom com polo menos umha dúzia de pessoas. Setecentas pessoas, quando menos, achavam-se repentinamente encaradas com este facto brutal: a captura de gente honesta e corajosa, cujo crime consistia em querer o bem comum... O processo, as condenas, os dramas privados que implicam, provocavam umha explosom de simpatia e interesse polos revolucionários. Se algum deles atingia fazer ouvir umha voz enérgica desde o banco dos argüidos, pode dizer-se com certeza que a organizaçom, ao conjuro desta voz, renascia das suas cinzas. Era questom de tempo.

De outra parte, o quê fazer com o setenta militantes presos? Nom se podia mais do que fechá-los durante longo tempo ou deportá-los às regions desertas da Sibéria. Bem. Na prisom –ou na Sibéria— acham camaradas, mestres e alunos. Os ócios obrigatórios som dedicados ao estudo, à formaçom teórica das suas ideias. Sofrendo em comum endurecem-se, adquerem tempero, apaixonam-se. Tarde ou cedo, evadidos, amnistiados –graças às greves gerais— ou libertados provisoriamente, reintegram-se na vida social como revolucionários “veteranos” ou “ilegais”, agora muito mais fortes do que nunca. Nom todos, é claro. Alguns ham de morrer no caminho; dolorosa selecçom que tem a sua virtude. E o recordo dos amigos desaparecidos tornará intransigentes os que sobrevivam...

Enfim, numha liquidaçom nunca é total. As preocupaçons dos revolucionários preservarám alguns. Os mesmos interesses da provocaçom exigem serem deixados alguns presos em liberdade. E a má sorte incide no mesmo sentido. Os “fugidos”, embora metidos em situaçons difíceis, acham-se em capacitados para aproveitarem as circunstáncias favoráveis do meio...

A repressom nom se vale, em definitivo, mais que do medo. Mas, basta o medo para anular as necessidades, o anelo de justiça, a inteligência, a razom, o idealismo, todas aquelas forças revolucionárias que exprimem a pujança formidável e profunda dos factores económicos de umha revoluçom? Valendo-se da intimidaçom, os reaccionários esquecem que causárom mais indignaçom, mais ódios, mais sede de martírio do que temor verdadeiro. Nom intimidam mais do que os fracos: exasperam os melhores e temperam a resoluçom dos mais fortes.

 

E os provocadores?

 

Ao primeiro olhar, podem causar ao movimento revolucioniário prejuízos terríveis. Mas, de verdade é assim?

Graças ao seu concurso, a polícia pode, decerto, multiplicar as capturas e as “liquidaçons” de grupos. Em determinadas circunstáncias, pode contrarrestar os mais profundos planos políticos. Pode acabar com militantes valiosos. Os provocadores tenhem sido amiúde provedores directos do carrasco. Todo isso é terrível, certamente. Mas também nom é menos certo que a provocaçom nunca pode anular mais do que indivíduos ou grupos e que é quase impotente contra o movimento revolucionário no seu conjunto.

Vimos como um agente provocador se encarregava de fazer entrar na Rússia (em 1912) propaganda bolchevique; como um outro (Malinovsky) pronunciava na Duma discursos redigidos por Lenine; como um terceiro organizava a execuçom de Plehve. No primeiro caso, o nosso malandro pode entregar à polícia umha quantidade considerável de literatura; no entanto, nom pode, a risco de se queimar de imediato, entregar toda a literatura, inclusive nom poderá mais que entregar umha quantidade muito restrita. Boa ou mamente contribui, pois, à sua difusom. Se um folheto propagandístico for divulgado por um agente secreto ou por um devoto militante, os resultados som sempre os mesmos: o essencial é que seja lido. Se a execuçom de Plehve foi arranjada por Azev ou por Savinkov, nom devemos importar-nos com sabê-lo. Ainda se fosse o resultado da luita entre as camarilhas da polícia, tampouco. O importante é que Plehve desapareça. Os interesses da revoluçom neste caso som muito mais importantes do que os maquiavelismos ínfimos e infames da Okhrana. Quando o agente secreto Malinovsky fai ouvir na Duma a voz de Lenine, o ministro do Interior fazia mal em alegrar-se polo êxito do seu agente a soldo. A importáncia que a palavra de Lenine tem para o país nom pode ser comparada com a que poda ter a voz de um miserável. De jeito que se pode, acho eu, dar do agente provocador duas definiçons que se compensam, mas das quais a segunda é mais significativa.

1) O agente provocador é um falso revolucionário;

2) O agente provocador é um polícia que, sem querer, serve à revoluçom.

Aparenta que a serve. Mas em semelhante ofício om existem as aparências. Propaganda, combate, terrorismo, tudo é realidade. Nom se milita a médias ou superficialmente.

Os miseráveis que num momento de cobardia se precipitárom nessa lama, pagárom-no. Recentemente, Máximo Gorki publicou nas suas Consideraçons retrospectivas a curiosa carta de um agente provocadore. O homem escrevia mais ou menos isto: “Eu estava consciente da minha infámia, mas também sabia que ela nom podia retardar nem um segundo o triunfo da revoluçom.”

O certo é que a provocaçom torna mais acirrada a luita. Incita o terrorismo, inclusive um terrorismo que os revolucionários prefeririam abster-se de realizar. O que fazer, com efeito, a um traidor? Ninguém pensaria na ideia de perdoá-lo. No duelo entre a polícia e os revolucionários, a provocaçom acrescenta um elemento de intriga, de sofrimento, de ódio, de monosprezo. É mais perigosa para a revoluçom do que a polícia? Eu acho o contrário. Doutros pontos de vista, a provocaçom e a polícia tenhem um interesse imediato em que sempre esteja ameaçado aquilo que é a razom de ser do movimento revolucionário. Em caso de necessidade, antes de renunciar a umha segunda fonte de benefícios, tecem complots eles próprios; é algo já visto. Neste caso, o interesse da polícia está totalmente em contradiçom com o do regime que tem por missom defender. As argalhadas de provocadores de certa envergadura podem ser perigosos mesmo para o próprio Estado. Azev organizaou um atentado contra o czar, atentado que se frustrou unicamente por circunstáncias totalmente fortuitas e imprevistas (o desfalecimento de um dos revolucionários). Nesse instante, o interesse pessoal de Azev –o qual lhe era mais caro, sem dúvida, do que a segurança do Império—exigia umha acçom de muito ruído; pesava sobre ele, no partido socialista-revolucionário, umha suspeita que punha em perigo a sua vida. De outra parte, existiu a dúvida de se os atentados que ele tinha feito possíveis nom serviam os desígnios de algum Fouché. É possível. Mas intrigas semelhantes entre os que detenhem o poder só revelam a gangrena de um regime e contribuem nom pouco para a sua queda.

A provocaçom é muito mais perigosa pola desconfiança que sementa entre os revolucionários. Logo que alguns traidores fôrom desmascarados, a confiança desaparece do seio das organizaçons. É terrível, porque a confiança no partido é a base de toda a força revolucionária. Murmuram-se acusaçons, a seguir dim-se em alta voz, geralmente nom se podem esclarecer. Daí resultam males em certo sentido piores do que os que poderia ocasionar a mesma provocaçom. Há que lembrar certos casos lamentáveis: Barbés acusou o heróico Blanqui e Blanqui, apesar dos seus quarenta anos de reclusom, apesar de toda a sua vida exemplar, da sua vida indomável, nunca pudo tirar de acima a infame calúnia. Bakunin também foi acusado. E o quê diremos de vítimas menos conhecidas –e nom por isso menos danadas pola calúnia—: Girier-Lorion, anarquista, é acusado de provocaçom polo deputado “socialista” Delory; para sacudir esta intolerável suspeita, dispara sobre os agentes e morre no presídio. Semelhante resultado tivo o fim de outro valente, anarquista também, na Bélgica: Hartenstein-Sokolov (Processo de Gante, em 1909), a quem toda a imprensa socialista enlamou inobremente e que morreu na prisom... É tradicional: os inimigos da acçom, os cobardes, os cómodos, os oportunistas, gostosos tomam a sua artilharia dos esgotos! A suspeita e a calúnia servem-lhes para desacreditar revolucionários. E assim há de continuar a ser.

Este mal, a suspeita e a desconfiança entre nós, só pode ser limitado e isolado com um grande esforço de vontade. Deve-se impedir –e esta é condiçom prévia de toda luita vitoriosa contra a verdadeira provocaçom, que ao acusar caluniosamente que um militante “fai o jogo”— que ninguém seja acusado à toa, e impedir, aliás, que umha acusaçom formulada contra um revolucionário seja simplesmente aceitada sem discussom. Cada vez que um homem seja sequer rabunhado por umha suspeita, um júri formado por camaradas deverá determinar se se trata de umha acusaçom fundada ou de umha calúnia. Som simples regras que se deverám ter em conta com inflexível rigor se se quiger preservar a saúde moral das organizaçons revolucionárias.

E, de resto, embora fosse perigoso para os indivíduos, nom se deverám sobreestimar as forças do agente provocador: em grande medida, depende também de cada militante se defender eficazmente.

Os revolucionários russos, na sua longa luita contra a polícia do antigo regime, atingiram um conhecimento prático e seguro dos procedimentos e métodos da polícia. Se ela era forte, eles eram mais. Qualquer que for a perfeiçom das gráficas elaboradas polos especialistas da Okhrana sobre a actividade de umha dada organizaçom, pode-se ter certeza de antemao do aparecimento de lacunas. Dificilmente –dizíamos— será completa a “liquidaçom” de um grupo, porque a força de precauçons, sempre escapará algum. Na tam laboriosa gráfica das relaçons de B. Savinkov faltam, por certo, alguns nomes; e por acaso os mais importantes. Os militantes russos julgavam, com efeito, que a acçom clandestina (ilegal) está sujeita a leis inflexíveis. A cada instante perguntavam-se:

  -"Estará isto de acordo com as regras da conspiraçom?” [15]

O código da conspiraçom tivo na Rússia, entre os grandes inimigos da autocracia e do capital, teóricos e práicos destacados. Estudá-lo a fundo seria de grande utilidade. Deve conter as regras mais singelas, precisamente aquelas que, por causa da sua singeleza, som amiúde esquecidas.

Graças a esta ciência da conspiraçom, os revolucionários pudérom viver ilegalmente nas capitais russas durante meses e anos. Eram capazes de se converterem, segundo o exigisse o caso, em comerciantes viageiros, em cocheiros, em “estrangeiros endinheirados”, em serventes, etc. Em todos estes casos era indispensável que dominassem os seus papéis. Para voar o Palácio de Inverno, o operário Stepan Jalturin estudou durante semanas a vida dos operários que trabalhavam regularmente no palácio [16] . Kaliáev, para vigiar Plehve em Petrogrado, fijo-se cocheiro. Lenen e Zinóviev, encurralados pola polícia de Kerensky, conseguírom refugiar-se em Petrogrado e somente saíam maquilhados. Lenine foi operário fabril.

A acçom ilegal, no longo prazo, acaba por criar hábitos e umha mentalidade que se pode considerar como a melhor garantia contra os métodos policíacos. Que polícias talentosos, que malandros hábeis poderám comparar-se com os revolucionários seguros de si próprios, circunspectos, reflexivos e corajosos que obedecem umha palavra de ordem comum?

Qualquer que for a perfeiçom dos métodos empregues para vigiar os revolucionários, nom encontrará sempre nos movimentos e nas acçons destes umha incógnita irredutível? Nom aparecerá sempre, nas equaçons mais cuidadosamente elaboradas polo inimigo, um enorme e temível X? Que traidor, delator ou pesquisador sagaz decifrará a inteligência revolucionária? Quem é que medirá o poder da vontade revolucionária?

Quando se tem a favor as leis da história, os interesses do futuro, os requerimentos económicos e morais que conduzem à revoluçom, quando se sabe com certeza o que se quer, e quais som as armas próprias e as do inimigo; quando se elegeu a acçom ilegal; quando há confiança em um mesmo e só se trabalha com aqueles nos quais se tem confiança; quando se sabe que a obra revolucionária exige sacrifícios e que toda devota semente frutificará centuplicada, emtom é-se invencível.

A prova é que os milhares de expedientes da Okhrana, os milhons de cadastros do serviço de informaçom, as maravilhosas fráficas dos seus técnicos, as obras dos seus cientistas, todo este magnífico arsenal está agora em maos dos comunistas russos. Os polícias, um dia de distúrbios, fugírom entre os berros das massas; os que fôrom apanhados polo pescoço acabárom deitados de vez nos canais de Petrogrado; na sua maioria, os funcionários da Okhrana fôrom fusilados [17] . Todos os provocadores que pudérom ser indentificados corrêrom o mesmo azar. E um dia, um pouco por ilustrar os camaradas estrangeiros, reunimos numha espécie de museu certo número de peças particularmente curiosas, tomadas dos arquivos secretos da Segurança do Império... A nossa exposiçom realizou-se numha das salas mais belas do Palácio de Inverno; os visitantes podiam dar umha vista de olhos, junto de umha janela situada entre duas colunas de malaquite, o livro de registo da fortaleza de Pedro e de Paulo, a tenebrosa Bastilha do czar, sobre cujos velhos torreons se via, da outra margem do Neva, ondear a bandeira vermelha.

 

 



NOTAS

 

[1] Os socialistas-revolucionários da boa época do partido tivérom Azev, cuja actividade foi talvez mais ampla e singular ainda do que nos tempos de Malinovsky. Consulte-se ao respeito o livro de Jean Longet, Terroristes et policiers.

[2] Polo contrário, as iniciativas individuais ou colectivas acordes com as necessidades e as aspiraçons do partido –quer dizer, do proletariado— adquerem aí a sua máxima eficácia.

[3] I. Kaliáev executou, por ordem do partido socialista revolucionário, o grande duque Sérgio (Moscovo, 1905), e foi enforcado. Egor Sazónov executou, por sua vez, no mesmo ano, em Sam Petersburgo, o presidente do conselho Plehve. Condenado à morte, perdoado, enviado a trabalhos forçados, amnistiado, suicidou-se no cárcere de Akatuí, poucos meses antes de concluir a sua condena, para protestar polo maltratao que recebiam os seus companheiros detidos. Estes dous homens de grande beleza moral, deixárom na Rússia um profundo recordo.

[4] Stolypin, chefe de governo do czar no período de reacçom implacável que se seguiu à revoluçom de 1905, dedicou-se a consolidar o regime por meio de umha repressom sistemática e de reformas agrárias.

[5] Pouco numerosos, os maximalistas, dissidentes do partido socialista-revolucionário, aos quais reprochavam a corrupçom dos seus chefes e a ideologia oportunista, fôrom principalmente, embora com teorias tam radicais como fantasiosas, terroristas intrépidos. Ainda existe umha presa deles, enredada com os socialistas-revolucionários de esquerda.

[6] Salomón Ryss pagaraia cara a sua audácia. Arrestado no sul da Rússia, depois de algumhas acçons arriscadas,tivo que se defender, frente aos juízes, da terrível suspeita dos seus companheiros de luita, rejeitou “reemprender o serviço” na Okhrana e, condenado à morte, morreu como revolucionário.

[7] O senhor Raymond Recouly destila ainda nos jornais burgueses o seu esclarecido patriotismo... O dinheiro nom tem cheiro.

[8] Haase, líder da social-democracia alemá, morto em 1919 por um tolo; Dan, menchevique russo.

[9] A colaboraçom estreita é quase que a regra entre as polícias dos Estados capitalistas, de jeito que em certo senso poderia-se falar em polícia internaiconal. No relativo aos inícios da colaboraçom entre a Okhrana czarista e a Segurança da III República francesa, acharám-se curiosas e pormenorizadas páginas num velho livro de Ernest Daudet, Histoire diplomatique de l'alliance franco-russe, 1894. Aí verá-se como os senhores Freyssinet, Ribot, Constant, na altura ministros, combinam com o embaixador da Rússia, Morenheim, a detençom de um grupo de nihilistas, organizado, de resto, polo delator Landesen (quem, mais tarde, sob o nome de Harting, fijo carreira de diplomata em França, recebendo a Legiom de Honra). Um outro livro, nom menos esquecido, L'alliance franco-russe, de Jules Hansen, confirma esta versom. Afinal, o antigo chefe da Segurança, Goron, relata nas suas memórias que o prefeito de Paris pediu ao chfe da polícia russa em Paris (Rachkovsky) a colaboraçom dos seus agentes para o controlo de certos emigrados (citado por V. Búrtzev). Apontemos estas confissons, apesar da sua velhice: estám assinadas por homens dos quais nom cabe a suspeita de quererem caluniar o governo francês. Refiramo-nos aos factos muito mais recentes que, infelizmente, nom tivérom a resonáncia que deveriam nem sequer na imprensa operária. Em Fevereiro de 1922, Nicolau Fort, um dos supostos assassinos do ministro espanhol Dato e da sua companheira Joaquina Concepción, foi entregue pola polícia alemá à polícia espanhola, por meio da polícia francesa. A transferência dos extraditados realiza-se no maior dos segredos. O governo espanhol pagou à polícia berlinesa umha quantiosa soma. Em 1925, durante o governo Henriot, a gendarmeria e a polícia francesas rejeitavam em diversas oportunidades, na fronteira dos Pireneus, os operários espanhóis encurralados pola polícia de Primo de Rivera.

[10] Publicista, liberal, Vladímir Búrtzev consagrou-se à história do movimento revolucionário e à luita contra a provocaçom policial. Desmascarou os provocadores Azev, harting-Landesen e a outros muitos. Preconizou o terrorismo individual contra o antigo regime. Após a queda do czarismo, evoluiu rapidamente, como a maioria dos socialistas-revolucionários, os seus companheiros de luita, em direcçom à contrarrevoluçom. Amigo e colaborador de G. Hervé, partidário da intervençom na Rússia, converterá-se em agente de propaganda de Denikin, Kolchak, Wrangel, em Paris.

[11] Toda a correspondência deste personagem e dos seus chefes é altamente edificante. Vemos o director da Segurança de Petersburgo assegurar ao senhor Krassílnikov que as autoridades russas desmentirám, em todas as circunstáncias, o seu papel da polícia russa; vemos este estranho conselheiro diplomático título oficial— maquinar, para burlar os inquéritos de Búrtzev, umha intriga prodigiosamente complicada. Um ex agente da Segurança russa no estrangeiro, Jollivet, entra em relaçom com Búrtzev, fai-lhe revelaçons e encarrega-se de vigiar umha pessoa suspeita de provocaçom, mas na verdade vigia o próprio Búrtzev, de quem informa à Okhrana. Delaçom e traiçom em terceiro grau! Um labirinto.

[12] Byloé, Le passé, Paris, 1908.

[13] O expediente de vigiláncia das organizaçons social-democratas, somente para o ano 1912, incluía 250 grossos volumes.

[14] Convertido mais tarde em patriota, governamental e policial. O partido de Pilsudski.

[15] Konspirativno?

[16] O carpinteiro Stepán Jalturin, fundador em 1878 da Uniom Setentrional de Operários Russos, foi um dos verdadeiros precursores do movimento operário russo. Adiantando-se um quarto de século ao seu tempo, concebeu a revoluçom como realizável através da greve geral. Colocado como carpinterio entre o pessoal operário do Palácio de Inverno, dormiu longo tempo sobre um colchom que a pouco e pouco foi enchendo de dinamita... Alexandre II escapou à explosom de 5 de Fevereiro de 1880. Jaulturin foi enforcado dous anos mais tarde, depois de ter executado o procurador Srélnikov, de Kiev. Tinha sido obrigado ao terrorismo por causa da provocaçom policial que assolou a sua agrupaçom operária. É um dos maiores e mais nobres vultos da história da Revoluçom Russa.

[17] A república democrática de Kerensky acreditou poder protegê-los, conseguindo alguns passar ao estrangeiro.

 

 

2.  O PROBLEMA DA ILEGALIDADE

 

 

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