O QUE TODO REVOLUCIONÁRIO DEVE SABER
SOBRE A REPRESSOM.
Víctor Serge
Demoremos ainda
um bocadinho num caso de provocaçom dos que a história do movimento revolucionário
conheceu tantos: a provocaçom de um chefe de partido. Eis a enigmática figura
de Malinovsky
[1]
.
Umha manhá de
1918, o terrível ano que se seguiu à Revoluçom de Outubro: guerra civil,
requisiçons rurais, sabotagens técnicas, complots, sublevaçom dos checos,
intervençons estrangeiras, paz nojenta (segundo a definiçom de Lenine) de
Brest-Litovsk, duas tentativas de assassinato contra Vladímir Ilich. Umha
manhá de aquele ano, um homem apresentou-se tranquilamente ao comandannte
do Smolny (Soviet de Petrogrado) e dixo-lhe:
-Som o provocador
Malinovsky. Rogo-lhe que me arreste.
O humor tem lugar
em toda a tragédia. Impávido, o comandante do Smolny fijo pôr na porta aquele
inoportuno.
-
A mim ninguém me manda, nem é o meu trabalho arrestá-lo!
-
Entom, faga-me conduzir ao comité do partido.
E no comité reconhecerá-se
com assombro o homem mais execrável, o mais deprezível do partido. Será
arrestado. A sua carreira, em duas palavras, é esta:
Anverso: um adolescente
difícil, três condenas por roubo. Muito dotado, muito activo, militante
de diversas organizaçons, tam apreciado que em 1910 é-lhe oferecida a incorporaçom
ao Comité Central do Partido Operário Social-Democrata Russo, e durante
a conferência bolchevique de Praga (1912) ingressa ao CC efectivamente.
Em fins do mesmo ano, é deputado bolchevique
na IV Duma do Império. Em 1913, é presidente do grupo parlamentário bolchevique.
Reverso: delator
da Okhrana (Ernesto, depois o Alfaiate) desde 1907. A partir
de 1910, honorários de 100 rublos mensais (principesco). O ex chefe da polícia
Beletsky, di: “Malinovsky era o orgulho da Segurança, que o preparava para
ser um dos chefes do partido. “Fijo arrestar grupos de bolcheviques em Moscovo,
Tula, etc. Entre à polícia Miliutin, Noguin, Maria Smidóvich, Staline, Sverdlov.
Denuncia à Okhrana os arquivos secretos do partido. É elito na Duma
com a ajuda tam discreta como eficaz da polícia...
Desmascarado,
recebe do Ministério do Interior umha forte recompensa e desaparece. Sobrevém
a guerra. Feito prisioneiro em combate, recomeça a sua militáncia no campo
de concentraçom. Volta afinal para a Rússia, para declarar ao tribunal revolucionário:
“Fagam-me fusilar!” Revela ter sofrido enormemente com a sua existência
dual; nom ter comprrendido realmente a revoluçom mais do que serodiamente;
ter-se deixado ganhar pola ambiçom e o espírito de aventura. Krylenko refuta
despiedadamente que esta argumentaçom fosse sincera. “O aventureiro joga
a sua derradeira carta!”
Umha revoluçom
nom pode deter-se a decifrar enigmas psicológicos. Nom pode arriscar-se
a ser vigarizada mais umha vez por um jogador turbulento e apaixonado. O
tribunal revolucionário emitiu o veredito reclamado a um tempo polo acusador
e o arguido. Na mesma noite, poucas horas mais tarde, Malinovsky, quando
atravesseva um solitário pátio do Kremlin, recebeu subrepticiamente umha
bala na nuca.
Aqui colase-nos o problema da psicologia do provocador.
Psicolgia morbosa, seguramente, mas que nom deve surpreender-nos mais do
devido. Temos visto, no Instrutivo da Okhrana, que pessoas
é que “trabalha” a polícia e por que meios. Umha Serova, considerada fraca
de carácter, vive dificilmente, milita com valor. É arrestada. Bruscamente
arrancada do seu meio, sente-se perdida. Os trabalhos forçados esperam-na,
talvez a forca. Bem poderia dizer umha palavra, umha só palavra, sobre alguém
que, precisamente, a magoou... Vacila. Basta-lhe um instante de cobardia;
ou porventura haja cobardia de mais no fundo do ser humano. O mais terrível
é que, doravante, nom poderá recusar-se a colaborar mais. Decorrido
um tempo, afará-se às vantagens materiais desta odiosa situaçom, até por
no segredo da sua actividade sentir-se perfeitamente segura.
Mas nom há só
estes agentes secretos por cobardia: há, e som muito mais perigosos, os
diletantes, aventureiros que nom acreditam em nada, a sentirem fastio polo
ideal que serviam até havia pouco, agarrados polo perigo, pola intriga,
pola conspiraçom, por um complicado jogo em que fam troça de todo o mundo.
Podem ter talento, agir num papel quase indecifrável. Tal semelha ter sido
o Malinovsky. A literatura russa que se seguiu à derrota de 1905 oferece-nos
muitos casos psicológicos de umha perversom semelhante. O revolucionário
ilegal –nomeadamente o terrorista— adquere um tempero no carácter, umha
vontade, um valor, um amor ao perigo terríveis. Se entom, ao influxo de
pequenas experiências pessoais –fracassos, decepçons, extravios intelectuais—
ou pola derrota temporal do movimento, chega a perder o seu idealismo,
em que pode se converter? Se de verdade for forte, fugirá à neurastenia
e ao suicídio; mas também é provável que venha a se converter num aventureiro
sem fé, ao qual todos os meios lhe parecerám bons para atingir os seus fins
pessoais. E a provocaçom é um meio que, de ser-lhe proposto, de certeza
tentará.
Todos os movimetnos
de massas que abrangem milhares e milhares de homens arrastam escórias semelhantes.
Nom deve assombrar-nos. A acçom de semelhantes parasitas nom tem mais do
que um ínfimo poder sobre o vigor e a saúde moral do proletariado. Achamos
que, quanto mais proletário for o movimento revolucionário, quer dizer,
netamente, energicamente comunista, menos lhe ham ser perigosos os agentes
provocadores. Existirám provavelmente enquanto houver muita social. Mas
som individualidades às quais o hábito do trabalho e do pensamento
colectivo, da disciplina estrita, da acçom calculada polas massas e inspirada
por umha teoria científica da situaçom social, oferece escassas possibilidades
de façanhas. Nada mais contrário ao aventureirismo pequeno ou grande, com
efeito, do que a acçom ampla, séria, profunda e metódica de um grande partido
marxista revolucionário, inclusive ilega. A ilegalidade comunista nom é
a dos carbonari, a preparaçom comunista da insurreiçom nom é a dos
blanquistas. Os carbonari e os blanquistas eram umha presa de conspiradores,
dirigidos por alguns idealistas inteligentes e enérgicos. Um partido comunista,
inclusive numericamente fraco, representa sempre, pola sua ideologia, a
classe operária. Encarna a consciência de classe de centenas de milhares
ou de milhons de homens. O seu papel é imenso, já que é o do cérebro de
um sistema nervoso, mas inseparável das aspiraçons, das necessidades, da
actividade do proletariado inteiro, de maneira que os desígnios individuais,
quando nom se ajustarem às necessidades do partido, ou o que é igual,
ao proletariado
[2]
, perdem muita da sua importáncia.
Neste senso, o
partido comunista é, entre todas as organizaçons revolucionárias
que a história tem produzido até hoje, a menos vulnerável aos embates da
provocaçom.
Alguns expedientes
especiais contenhem as ofertas de serviço dirigidas à polícia. Folheei ao
acaso um tomo de correspondência com o estrangeiro, onde se pode ver sucessivamente
um “súbdito dinamarquês possuidor de instruçom superior” e um “estudante
saído de boa família” solicitar emprego na polícia secreta da sua majestade
o czar da Rússia...
As múltiplas ajudas
monetárias concedidas a Serova, dam fé da atençom da polícia no que di respeito
aos seus servidores, inclusive os reformados. A administraçom nom punha
na lista negra mais que os agentes surpreendidos em flagrante delito de
fraude ou de extorsom. Qualificados de “chantagistas”, e inscritos nas listas
negras, perdiam todo o direoto ao reconhecimento do Estado.
Os outros, em
troca, podiam obter tudo. Prórrogas ou dispensas do serviço militar, perdons,
amnistias, favores diversos após condenas oficiais, pensons temporárias
ou de viagem, tudo, inclusivamente favores do mesmo czar. Viu-se o czar
conceder a velhos provocadores nomes e apelidos nobres. O apelido e o nome
tinham, segundo o rito ortodoxo, valor religioso; o chefe espiritual da
igreja russa infringia assim as leis da mesma religiom. Tudo era pouco para
gratificar um bom delator!
A provocaçom acabou
por converter-se em toda umha instituiçom. A cifra completa de pessoas que
ao longo de vinte anos de movimento revolucionário rendêrom serviços à polícia
pode variar entre os 35 e os 40 mil. Estima-se que a metade deles, mais
ou menos, foi desmascarada. Alguns milhares de antigos delatores e provocadores
sobrevivem ainda hoje impunemente na mesma Rússia, pois a sua identificaçom
ainda nom foi possível. Entre esta multidom havia homens de valor e inclusive
alguns que desempenhárom um papel importante no movimento revolucionário.
À cabeça do partido
socialista-revolucionário e da sua organizaçom de choque, achava-se, por
volta de 1909, o engenheiro Evno Azev, quem, a partir de 1890, assinava
com o seu nome os informes da polícia. Azev foi um dos organizadores da
execuçom do grande duque Sérgio, da do ministro Plehve e de muitos outros.
Era ele quem dirigia, antes de enviá-los à morte, heróis tais como Kaliáev
e Egor Sazónov
[3]
.
No Comité Central
bolchevique, encabeçando a sua fracçom na Duma, achava-se, como vimos, o
agente secreto Malinovsky.
A provocaçom,
ao atingir semelhante dimensom, convertia-se também num perigo para o regime
que servia e sobretudo para os homens desse regime. Sabe-se, por exemplo,
que um dos mais altos funcionários do Ministério do Interior, o polícia
Rachkovsky, conheceu e aprovou os projectos de execuçom de Plehve e do grande
duque Sérgio. Stolypin
[4]
, perfeitamente inteirado dos casos, fazia-se acompanhar
nas suas saídas polo chefe da polícia Guerásimov, umha vez que julgava a
sua presença como umha garantia contra os atentados cometidos por instigaçom
dos provocadores. Stolypin foi, porém, morto polo anarquista Bagrof, que
tinha pertencido à polícia.
A provocaçom,
apesar de tudo, prosperava ainda no momento de a revoluçom estalar. Os agentes
provocadores recebêrom a sua derradeira mensalidade em finais de Fevereiro
de 1917, umha semana antes da derrocada da autocracia.
Revolucionários
abnegados vírom-se tentados a servir-se da provocaçom. Petrov, socialista-revolucionário,
quem deixara umhas memórias de um intenso dramatismo, entrou à Okhrana
para combatê-la melhor. Feito prisioneiro e tendo experimentado um primeiro
rejeitamento por parte do director da polícia, finge ter dado em doido para
conseguir ser enviado para um assilo donde a evasom fosse possível, logrando
tal, e volta, já livre, para oferecer os seus serviços. Mas –convencido
logo de que tinha chegado longe de mais e de que atraiçoava ao seu pesar,
Petrov suicida-se depois de ter executado o coronel Kárpov (1909).
O maximalista
[5]
Salomom Ryss (Mortimer), organizador de um grupo
terrorista extremamente audaz (1906-07), chega a zombar da Segurança, da
qual se tinha convertido em colaborador secreto. O caso de Salomom Ryss
constitui umha excepçom digna de ser mencionada, quase que inacreditável,
que nom se explicaria mais que polos muito particulares hábitos da Okhrana
após a revoluçom de 1905. Por via de regra, é impossível zombar da polícia;
é impossível para um revolucionário penetrar nos seus segredos. O agente
secreto de mais confiança nom tem relaçom mais do que com um ou dous polícias,
dos quais nada se pode tirar, mas aos quais, no entanto, som úteis até as
menores palavras e incluso as mentiras que se lhes digam, que som esclarecidas
no mesmo dia
[6]
.
O desenvolvimento
da provocaçom, de outra parte, induziu por vezes a Okhrana para tecer
complicadas intrigas em que amiúde nom pudo dizer a última palavra. Foi assim que, em 1907, tornou necessário para os seus
desígnios fazer com que o mesmo Ryss se evadisse. Para tal, o director da
polícia nom duvida em chegar mesmo ao crime. Cumprindo instruçons, dous
gendarmes organizárom a fugida do revolucinário. O inquérito judiciário,
torpemente conduzido, revelou a sua participaçom. Levados a conselho de
guerra e degradados oficialmente polos seus superiores, fôrom condenados
a trabalhos forçados.
Naturalmente, as ramificaçons da Okhrana
estendiam-se até o estrangeiro. Os seus arquivos incluiam informaçons relativas
à grande quantidade de pessoas que moravam naquela altura para além das
fronteiras do Império e que inclusive nunca tinham estado na Rússia. Recém
chegado à Rússia pola primeira vez em 1919, topei umha série de cadastros
sobre a minha pessoa. A polícia russa seguia com a maior atençom as actividades
dos revolucionários no estrangeiros. No que di respeito aos anarquistas
russos Troianovsky e Kirichek, capturados durante a guerra de Paris, topei
volumosos expedientes. A resenha dos interrogatórios decorridos no Palácio
de Justiça de Paris, estava completa. De resto, russos ou estrangeiros,
os anarquistas estavam totalmente vigiados em toda a parte, a cargo da Okhrana,
que para tal objectivo mantinha umha correspondência constante com os serviços
de segurança de Londres, Roma, Berlim, etc.
Em todas as capitais
importantes morava permanentemente um chefe de polícia russo. Durante a
guerra, M. Krassílnikov, oficialmente conselheiro da Ambaixada, desempenhava
este delicado posto em Paris.
No momento de
estalar a revoluçom na Rússia, uns quinze agentes provocadores trabalhavam
em Paris entre so diferentes grupos de emigrados russos. Aquando o derradeiro
embaixador do derradeiro czar tivo de entregar a legaçom para um sucessor
nomeado polo governo provisório, umha comissom integrada por altos personagens
da colónia de emigrados em Paris encarregou-se de estudar os papéis do senhor
Krassílnikov. Sem dificuldade, identificárom os agentes secretos. Achárom,
entre outras surpresas, que um membro da imprensa francesa, patriota de
bom tom, aparecia na rue de Grenelle em qualidade de delator e espiom.
Tratava-se do senhor Raymond Recouly, redactor naquela altura do Le Fígaro,
onde se ocupava da política exterior. Na sua oculta colaboraçom com o senhor
Krassílnikov, Recouly, seguindo os imperativos assinalados aos confidentes,
trocara o seu nome polo pseudónimo pouco literário de Ratmir. Ofício
de cam, nome de cam.
Ratmir informava a Okhrana
sobre os seus colegas da imprensa francesa. No Le Fígaro e outros
lugares levava a política da Okhrana. Recebeia 500 francos por mês.
As suas actividades som notórias. Acham-se completas,
impresas, polos vistos desde 1918, em Paris, num volumoso informe do senhor
Agafonov, membmro da comissom pesquisadora dos emigrados parisinos em torno
da provocaçom russa em França. Os membros desta comissom –alguns deles devem
morar ainda em Paris, nom esquecêrom, por certo, o Ratmir-Recouly.
De outra parte, René Marchand publicou, em 1924, em L’Humanité, as
provas tiradas de arquivos da Okhrana de Petrogrado, sobre a actividade
policial do senhor Recouly. Este senhor limitou-se a lançar um desmentido
que ninguém acreditou; nem foi repelido polos seus colegas
[7]
. E isto é explicável. O seu caso, dada a corrupçom da
imprensa por parte dos governos estrangeiros, é correntíssimo.
Krassílnikov também
tinha às suas ordens toda umha equipa de detectives, delatores, imprecisos
assalariados que tratavam dos trabalhos menores, tais como a vigiláncia
da correspondência dos revolucionários (gabinetes pretos privados, etc.).
Em 1913-14 (e
nom creio que até a revoluçom sofresse modificaçons de relevo), a agência
secreta da Okhrana em França era dirigida praticamente por certo
Bittard-Monin, quem recebia 1000 francos mensais. Dos recibos que por honorários
assinavam os seus agentes tomei os nomes destes e os seus lugares de residência.
A sua publicaçom talvez nom seja excessivamente útil. Ei-los:
Agentes secretos
da polícia no estrangeiro, sitos sob a direcçom de Bittard-Monin (Paris):
E. Invernitzi (Calvi, Córsega), Henri Durin (Génova), Sambaine (Paris),
A. o R. Sauvard (Cannes), Vogt (Menton), Berthold (Paris), Fontaine (Cap
Martin), Henri Neuhaus (Cap Martin), Vincení Vizardelli (Grenoble), Barthes
(Sam Remo), Ch. Delangle (Sam
Remo), Georges Coussonet (Cap Martin), O. Rougeaux (Menton), E. Levéque
(Cap Martin), Fontana (Cap Martin), Artur Frumento (Alassis), Sustrov o
Surjánov y David (Paris), Dussosois (Cap Martin), R. Gottlieb (Nice), Roselli
(Zurique), señora G. Richard (Paris), Jean Abersoid (Londres), J. Bint (Cannes),
-Karl Voltz (Berlim), meninha Drouchot, senhora Tiercelin, senhora Fagon,
Jollivet, Rivet.
Três pessoas tinham
umha pensom da agência russa de Paris. A viúva Farse (ou Farsa?), a viúva
Rigo (ou Rigault?) e N. N. Chachnikov.
A presença temporária
de numerosos agentes em Cap Martin ou noutras localidades de menor importáncia
explica-se pola necessidade de delaçons. Todos estes agentes nom tinham
dificuldade em se deslocarem.
Tinham conseguido
organizar na Europa toda um maravilhoso gabinete preto e privado. Em Petrogrado
possuímos maços de cópias de cartas trocadas entre Paris e Nice, Roma e
Genebra, Berlim e Londres, etc. Toda a correspondência de Savinkov e de
Chernov, no momento em que ambos moravam em França, foi conservada nos arquivos
da polícia de Petrogrado. Correspondência entre Haase e Dan
[8]
também foi interceptada, como muitas outras. Como? O
empregado de guarda, o carteiro ou simplesmente um empregado dos correios,
sem dúvida retribuidos generosamente, retinham durante algumhas horas, o
tempo preciso para copiá-las, as cartas dirigidas às pessoas vigiadas. As
cópias faziam-nas amiúde pessoas que nom conheciam a língua empregada polos
autores das cartas; torpezas, de resto insignificantes, assim o evidenciam.
Traziam também copiado o carimbo de expediçom e o endereço. Eram remetidas
a Petrogrado com a maior rapidez.
Naturalmente,
a polícia russa no estrangeiro colaborava com as polícias locais
[9]
. Enqunto os agentes provocadores, desconhecidos por todos,
faziam o seu papel de revolucionários, à sua volta operavam os detectives
de Krassílnikov, ignorados oficialmente, mas na verdade encorajados e ajudados.
Pormenores típicos mostram de que natureza é que era a ajuda que lhes emprestavam
as autoridades francesas. O agente Francesco Leone, que tinha estado em
relaçons com Búrtzev
[10]
, tinha consentido entregar-lhe por dinheiro alguns segredos
do senhor Bittard-Monin. O seu colega, Fontana, de quem figera roubar a
fotografia, fere-o de umha bengalada num café perto da Gare de Lyon (Paris,
28 de Junho de 1913). Detido o agressor e tendo-se-lhe topado dous cartons
de agente da Segurança francesa e um revólver, foi enviado à esquadra sob
a quádrupla acusaçom de “usurpaçom de funçons, posse de armas proibidas,
golpes e feridas e ameaças de morte”. Vinte e quatro horas depois era deixado
em liberdade por intervençom de Krassílnikov, após ter-se desmentido oficialmente
a sua qualidade de agente da Segurança russa. Quanto ao indiscreto Leone,
a Embaixada russa obtivo a sua expulsom de França. Umha carta de
Krassílnikov relata ao director
da Segurança todos estes incidentes e pom-no ao corrente das gestons empreendidas
para fazer expulsar o Búrtzev de Itália.
Noutra carta,
o mesmo Krassílnikov informa a Okhrana que umha interpelaçom socialista
sobre as manobras da polícia russa, em que aparecia envolvido, “nom é já
para temer por parte das autoridades francesas. Os parlamentares socialistas
tenhem outras ocupaçons nestes momentos”.
[11]
Mas, e se os revolucionários
empregavam chaves nas suas cartas?
Entom, a Okhrana
encomendava a um pesquisador genial que decifrasse a mensagem. E se me certificar
que nunca falhou. Este perito excepcional, nomeado Zybin, tinha conquistado
tal reputaçom de infalibilidade, que durante a revoluçom de Março... foi
poupado. Passou ao serviço do novo governo, que o empregou, acho eu, em
contraespionagem.
As mais diversas
chaves, segundo parece, podem ser decifradas. Se se empregarem combinaçom
geométricas ou aritméticas, o cálculo de possibilidades pode oferecer alguns
indícios. Basta um ponto de partida, a menor chave, para decifrar umha mensagem.
Para trocar cartas, alguns camaradas serviam-se –di-se-me— de certos livros
em que tinham acordado marcar certas páginas. Bom psicologista, Zybin achava
os livros e as páginas. “As chaves baseadas em textos de escritores conhecidos,
em modelos achegados por manuais das organizaçons revolucionárias, na disposiçom
vertical de nomes ou divisas”, nom valem nada, escreve o ex polícia M. E.
Bakai
[12]
. As chaves das organizaçons centrais som as mais
freqüentemente denunciadas polos provocadores ou decifradas a longo prazo,
depois de um trabalho minucioso. Bakai julga como as melhores chaves de
uso corrente aquelas que podem proceder de textos impressos pouco conhecidos.
Zybin figera-se com umha colecçom de gavetas e ficheiros onde se podia achar
instantaneamente o nome de todas as cidades da Rússia onde, por exemplo,
há certa rua Sam Alexandre; o nome de todas as cidades onde havia estas
ou aquelas fábricas ou escolas; as alcunhas e pseudónimos de todas as pessoas
suspeitas que moravam no Império, etc. Possuia listagens alfabéticas de
estudantes, de marinheiros, de oficiais, etc. Achava-se numha carta, muita
inocente em aparência, estas simples palavras: “O Moreninho doi nesta
noite à rua Maio”, e mais à frente umha frase relativa a um “estudante de
medicina”. Bastava deitar mao a algumhas gavetas para saber se o Moreninho
já tinha sido cadastrado, e em que cidade que possuísse umha faculdade
de medicina é que havia umha rua Maior. Três ou quatro indícios semelhantes
eram já umha hipótese digna de se considerar.
Em toda a correspondência
vigiada ou incautada, as menores alusons a determinada pessoa eram trasladadas
a fichas,em que certo números remetiam para o texto das cartas. Arquivos
inteiros estavam cheios de cartas semelhantes. Três cartas totalmente correntes,
provenientes de três militantes espalhados numha regiom e que figeram alusom
incidental a um quarto, podiam delatá-lo perfeitamente.
Sublinhemo-lo:
o controlo da correspondência por parte dos gabinetes pretos cuja existência
é rigorosa e tradicionalmente negada pola polícia, mas sem os quais nom
existiria polícia, é de grande importáncia. O correio das pessoas conhecidas
ou suspeitas é vigiado por princípio; depois, umha substracçom, praticada
ao acaso, intercepta as cartas que levam por fora “entregar a”, aquelas
cujos caracteres semelham representar algo acordado, aquelas com algumha
palavra que, de algumha maneira, dá nas vistas. A abertura de cartas ao
acaso proporciona umha documentaçom tam útil como o controlo da correspondência
dos militantes bem conhecidos. Estes, com efeito, tratm de escrever com
prudência (embora a única prudência real, a única efectiva, seja nom tratar
por carta assuntos relativos à acçom nem sequer indirectamente), enquanto
o comum dos membros do partido –os desconhecidos— se esquece das precauçons
mais elementares.
A Okhrana
fazia três cópias das cartas interessantes: umha para a morada da censura,
umha outra para a morada da Segurança Geral e umha terceira dirigida à polícia
local. A carta chegava ao seu destinatário. Em certos casos –por exemplo,
em aqueles em que se figera revelar quimicamente umha tinta simpática— a
polícia guardava o original e fazia chegar ao destinatário umha cópia perfeitamente
imitada, obra de certo perito que era todo um virtuoso.
Para abrir cartas,
seguiam-se procedimentos que variavam segundo a manha dos funcionários:
descolá-las com vapor, descolar selos lacrados –que aginha eram repostos,
com umha lámina de barbear quente, etc. O mais habitualm é que os cantos
do envelope nom estejam bem colados. Introduz-se entom pola abertura um
aparelho feito de umha varinha metálica, à volta da qual se enrola suavemente
a carta, que assim resulta fácil de tirar e de retornar ao envelope sem
abri-lo.
As cartas interceptadas
nunca eram consignadas à justiça, por forma a nom deitar a menor luz, nem
sequer indirecta, sobre o trabalho do gabinete preto. Eram utilizadas na
confecçom de informes policiais.
O gabinete de
cifrado nom tratava mais que das chaves dos revolucionários. Também coleccionava
fotografias de chaves diplomáticas das grandes potências.
Até agora, nom
examinamos mais do que os mecanismos de observaçom da Segurança russa. Os
seus procedimentos som de algumha maneira analíticos. Investiga-se, indaga-se,
regista-se. Trate-se de umha organizaçom ou de um militante, os métodos
som os mesmos. Ao cabo de certo tempo –que pode ser curtíssimo— a Segurança
dispom de certo tipo de dados sobre o adversário:
1)
Os da vigiláncia exterior, cujos resultados se resumem em
quadros sinópticos, esclarecem as suas actividades e os seus movimentos,
os seus hábitos, as suas relaçons, o seu meio, etc.;
2)
Os da agência secreta ou os informantes, que declaram sobre
as suas ideias, intençons, trabalhos, actividade clandestina;
3)
O que se pode obter da leitura atenta de jornais e publicaçons
revolucionárias;
4)
Os da sua correspondência, ou de correspondência de terceiros
com ele, completam o assunto.
O grau de precisom
das informaçons conseguidas polos agentes secretos era, naturalmente, variável.
A impressom geral que dam os expedientes é, no entanto, de umha exactidom
muito grande, nomeadamente os que dim respeito a organizaçons solidamente
estabelecidas. Os expedientes policiais contenhem informaçom verbal muito
detalhada de cada reuniom secreta, resumos de cada discurso importante,
exemplares de cada publicaçom clandestina, mesmo multicopiados
[13]
.
Temos já a Segurança
em posse de informaçom abundante. O trabalho de observaçom e análise está
feito. Segundo o método científico, deve seguir-se entom um trabalho de
classificaçom e de síntese.
Os seus resultados
expressarám-se em gráficas. Vamos despregar umha.
Títulos: Relaçons
de Boris Savinkov. Este quadro, de 40 cm de alto por 70 cm de comprimento,
resume, de maneira que se poda abranger de umha olhadela, todos os dados
obtidos sobre as relaçons do terrorista.
Ao centro, um
rectángulo, em forma de cartom de visita, com o seu nome escrito à mao.
Deste rectángulo irradiam linhas que o ligam a pequenos círculos de cor.
Via de regra, estes som por seu turno centros donde parte outras linhas
que os ligam a outros círculos. E assim por diante. As relaçons, inclusive
indirectas, de um homem, podem deste jeito ser captadas ao momento, qualquer
que for o nome dos intermediários, conscientes ou nom, que os relacionam
com umha dada pessoa. No quadro de relaçons de Savinkov, os círculos vermelhos,
que representam as suas relaçons de “luita”, dividem-se em três grupos de
nove, oito e seis pessoas, todas consignadas com os seus nomes e apelidos.
Os círculos verdes é que representam pessoas com quem tivo ou tem relaçons
directas, políticas ou de outro género: aparecem 37; os círculos amarelos
representam parentes (som 9); os círculos cor café indicam pessoas relacionadas
com os seus amigos e conhecidos... Tudo isto em Petrogrado. Outros signos
representam as suas relaçons com Kiev. Leamos, por exemplo: B. S. Conhecia
Varvara Eduárdovna Varsovskaya, quem conhecia por sua vez 12 pessoas em
Petrogrado (nomes, apelidos, etc.) e 5 em Kiev. Bem pode resultar que B.
S. nom soubesse nada destas 12 pessoas e destas 5 pessoas. Mas a polícia
conhecia melhor do que ele próprio a que novelos era que levavam os fios!
Trata-se de umha
organizaçom? Tomemos umha série de quadros de estudo, evidentemente resenhas,
de umha organizaçom socialista-revolucionária do governo de Vilna. Os círculos
vermelhos formam, aqui e acolá, espécies de constelaçons: entre eles, as
linhas entrecruzam-se estranhamente. Decifremos: Vilna. Um círculo vermelho:
Ivanov, chamado O Gelo, rua, número, profissom. Umha seta refere-o
a Pável (iguais dados). E algumhas setas indicam-nos que em 23 de Fevereiro
(de 16 a 17 horas), em 27 (às 21 horas) e em 28 (às 16 horas). Ivanov visitou
Pável. Umha outra seta refere-o a Marfa, que o visitou em 27 ao meio-dia.
Assim por diante, estas linhas confundem-se como os passos na rua. Este
quadro permite seguir, hora por hora, a actividade de umha organizaçom.
Mencionemos aqui
um meio acessório, muito útil, de que a Segurança dispunha: a antropometria
(o bertillonnage, do nome do senhor Bertillon, quem inventara o sistema),
valiosíssima para os serviços de identificaçom judiciária. De toda a pessoa
arrestada fai-se um cadastro antropométrico: é fotografada de diferentes
ángulos, frontalmente, de perfil, de pé, sentada; medida com ajuda de instrumentos
de precisom (forma e dimensom do cránio, do antebraço, do pé, da mao, etc.),
examinada por especialistas que ratificam a sua filiaçom científica (forma
do nariz e da orelha, matiz dos olhos, cicatrizes e sinais no corpo). Tomam-se-lhe
as impressons digitais: o estudo das mais mínimas sinuosidades da epiderme
poderá servir para os fins de estabelecer a sua identidade, quase que indefectivelmente,
servindo-se de umha impressom digital, deixada num copo ou no puxador de
umha fechadura. Em todas as pesquisas judiciárias, os cadastros antropométricos,
classificados por índices característicos, achegam o seu cúmulo de informaçons.
Os mais ínfimos sinais podem ser perigosos. A conformaçom
da orelha, o matiz das meninhas do olho, a forma do nariz, podem ser observadas
na rua sem dar nas vistas. Estes dados bastarám aginha ao polícia perito
para identificar o homem, a despeito das mudanças que tenha feito no seu
físico. Umhas letras convencionais transmitirám por telegrama umha filiaçom
científica.
Já os principais
militantes som perfeitamente conhecidos. A polícia está muito bem inteirada
da organizaçom no seu conjutno. Só resta fazer umha síntese, desta vez,
em concreto. Fagamos algo formoso e formal! E fam-no. Estes som os quadros
e as cores, cuidadosos como trabalhos de arquitectos, artísticos. Os signos
som explicados com legendas. Este é um Esquema de organizaçom do partido
socialista-revolucionário, que nem os mesmos membros do Comité Central
possuem; ou o quadro de organizaçom do Partido Socialista Polaco, do Bund
judeu, da propaganda nas fábricas de Petrogrado, etc. Todos os partidos,
todos os grupos som estudados a fundo.
Nada platonicamente,
por certo! Cá estamos perto da meta. Um elegante desenho mostra-nos o “projecto
de liquidaçom da organizaçom social-democrata de Riga”. No topo do Comité
Central (4 nomes) e a comissom de propaganda (2 nomes); abaixo, o comité
de Riga, em relaçom com 5 grupos, do qual dependem 26 subgrupos. Ao tudo,
76 nomes de pessoas para umha trintena de organizaçons. Nom resta mais do
que deitar a luva a todo o mundo numha só rusga para extirpar completamente
a organizaçom social-democrata de Riga.
Terminando o trabalho,
os seus autores sentem um legítimo orgulho por conservarem a sua memória.
Editam quase com luxo um álbum de fotografias de membros da organizaçom
liquidada. Tenho na minha frente um álbum consagrado à liquidaçom do grupo
anarquista-comunista “Os Comuneiros”, pola polícia de Moscovo, em Agosto
de 1910. quatro láminas mostram o armamento e a equipa do grupo: seguem-se
18 retratos acompanhados de dados biográficos.
Os materiais,
informes, expedientes, gráficas, etc., que até este momento tinham sido
utilizado com um intuito prático, imediato, vam ser empregues a partir de
agora com um espírito de certa forma científico.
Cada ano, publicava-se
um volume a cargo da Okhrana e exclusivamente para os seus funcionários,
o qual contém umha completa embora sucinta exposiçom dos principais casos
e informes sobre a situaçom actual do movimento revolucionário.
Volumosos tratados
fôrom escritos sobre o movimento revolucionário para instruir as jovens
geraçons de gendarmes. De cada partido lê-se a sua história (origem
e desenvolvimento), um resumo das suas ideias e programas, umha série de
desenhos acompanhados de textos explicativos que proporcionam o esquema
da sua organizaçom, as resoluçons das suas assembleias e dados dos seus
militantes mais conhecidos. Em resumo, umha monografia breve e completa.
A história do movimento anarquista da Rússia será, por exemplo, extraordinariamente
difícil de reconstruir por caus ada dispersom de homens e grupos, das perdas
inauditas que sofrera esse movimento durante a revoluçom e finalmente
da sua ulterior desintegraçom. No entanto, temos a sorte de topar, nos arquivos
da polícia, um pequeno e excelente volume, detalhadíssimo, onde se acha
resumida esta história. Bastará acrescentar algumhas notas e um curto prefácio
para entregar ao público um livro do maior interesse.
Sobre os grandes
partidos, a Okhrana publicou conscienciosos trabalhos, alguns dos
quais seriam dignos de reimprimir-se e que, em conjunto, servirám algumha
vez. Sobre o movimento sionista judeu, 156 páginas em grande formato,
informe dirigido à direcçom da polícia. A actividade da social-democracia
durante a guerra, 102 páginas. Situaçom do partido socialista-revolucionário
em 1908, etc. Som alguns dos títulos escolhidos ao acaso dentre os folhetos
saídos dos prelos da polícia imperial.
O Departamento
da Polícia também editava folhas periódicas de informaçom, para uso dos
funcionários superiores.
Para uso do czar,
confeccionava-se, em exemplar único, umha espécie de revista manuscrita
que aparecia de dez a quinze vezes por ano, em que os mais mínimos incidentes
do movimento revolucionário, capturas isoladas, pesquisas bem sucedidas,
repressons, eram registados. Nicolau II sabia-o tudo, Nicolau II nom desdenhava
as informaçons obtidas polos gabinetes pretos. Os informes estám amiúde
apontados pola sua mao.
A Okhrana
nom vigiava somente os inimigos da autocracia. Considerava-se bom ter na
mao os amigos, e sobretudo saber o que pensavam. O gabinete preto estudava
muito especialmente as cartas dos altos cargos funcionariais, conselheiros
do Estado, ministros, cortesaos, generais, etc. Os trechos com interesse
destas cartas, ordenados por temas e datas, formavam cada semestre um grosso
volume mecanografado que liam apenas dous ou três personagens poderosos.
A general Z escreve à princesa T... que desaprova a nomeaçom de M. Certo
personagem do Conselho Imperial que fai burla do ministro... nos salons.
Isto é apontado. Um ministro comenta ao seu jeito umha proposta de lei,
um decesso, um discurso, copiado, apontado, a título de “informaçons sobre
a opiniom pública”.
A protecçom da
sacra pessoa do czar exigia um mecanismo especial. Lim umha trintena de
folhetos consagrados à forma de preparar as viagens da sua magestade imperial
por terra, por água, por caminho de ferro, de automóvel, no interior, nas
ruas, nos campos. Inúmeras regras presidem a organizaçom de cada deslocamento
do soberano. Incluso quando durante umha solenidade deve atravessar certas
ruas, estuda-se o seu percurso casa por casa, janela por janela, a maneira
de saber exactamente que pessoas moram ao longo do percurso e quem os visitam.
Planos de todas as casas, de todas as ruas por onde passará o cortejo, som
levantados; desenhos das fachadas e com o número de andares, bem como os
nomes dos inquilinos, facilitam os aprestos.
Por várias vezes,
porém, a vida de Nicolau II estivo em maos dos terroristas, circunstáncias
fortuitas é que o salvárom. Nom a Okhrana.
Entre a papelada
da polícia czarista abundam os mais tristes documentos humanos, como já
vimos. Embora um bocado fora de tema, acho que devemos consagrar algumhas
linhas a umha série de simples recibos de somas miúdas de dinheiro, topadas
ao pé de um expediente. Nomeadamente por estes papelzinhos costumarem aparecer
após a “liquidaçom” de grupos revolucionários, a engordar ou a pôr fecho
aos expedientes já por si volumosos pola vigiláncia e a delaçom. A maneira
de epílogo...
Estes documentos
mostram-nos quanto é que custava à polícia czarista umha execuçom. Som os
recibos assinados por todos aqueles que, directa ou indirectamente, coloboravam
com o carrasco,
Despesas da execuçom
dos irmaos Modal e Djavat Mustafá Ogli, condenados polo tribunal militar
do Cáucaso.
Transporte dos condenados da fortaleza
de Metek à prisom, aos carroceiros
4
Outras despesas 4
Por ter cavado
e tapado duas valas (seis sepulteiros assinam cada um um recibo de dous
rublos 12
Por ter armado
o patíbulo 4
Por vigiar o trabalho
8
Despesas de viagem de um crego (e regresso) 2
Ao médico, polo certificado de defunçom
2
Ao carrasco
50
Despesas de viagem do carrasco 2
Resumindo, nom
é caro. O padre e o médico sobretudo, som modestos. O sacerdócio de um e
a profissom do outro implicam devoçom pola humanidade, nom é?
Nesta altura pensamos
que aqui deveríamos iniciar um capítulo intitulado: “A tortura”. Todas as
polícias fam uso mais ou menos freqüente do “interrogatório” medieval. Nos
EEUU pratica-se o terrível “3º interrogatório”. Na maioria dos países da
Europa, a tortura tem-se generalizado após o recrudescimento da luita de
classes a partir da guerra. A Siguranza romena, a Defensa polaca,
as polícias alemá, italiana, jugoslava, espanhola, búlgara –algumha nos
escapa decerto—usam-na com freqüência. A Okhrana russa tinha-as precedido
neste caminho, ainda que com certa moderaçom. Embora se dem casos, inclusive
numerosos, de castigos corporais –o knut (chicote) nalgumhas prisons,
o tratamento impligindo aos seus prisioneiros pola polícia russa antes da
revoluçom de 1905 semelha ter sido mais humano do que o que se impinge hoje,
em caso de arresto, aos militantes operários de umha dúzia de países da
Europa. Após 1905, a Okhrana possuia cámaras de tortura em Varsóvia,
Riga, Odessa e, polos vistos, na maioria dos grandes centros urbanos.
A polícia devia
vê-lo tudo, percebê-lo tudo, sabê-lo tudo, podê-lo tudo. O poder e a perfeiçom
do seu aparelho semelhava ainda mais terrível porquanto achava recursos
insuspeitos nos baixos fundos da alma humana.
Porém, nom pudo
impedir nada. Durante meio século defendeu inutilmente a autocracia contra
a revoluçom, que cada ano tornava mais forte.
De outra parte,
seria errado deixar-se impressionar polo mecanismo aparentemente perfeito
da Segurança imperial. É certo que à sua frente se achavam alguns homens
inteligentes, alguns técnicos de grande valor profissional; mas toda a maquinaria
repousava sobre o trabalho de umha caterva de funcionários ignorantes. Nos
informes melhor confeccionados topam-se os mais divertidos disparates. O
dinheiro oleava todas as engrenagens da enorme máquina; o ganho é um forte
estímulo, mas ineficaz. Nada de grande se fai sem nobre desinteresse. E
a autocracia só tinha defensores interessados no seu proveito.
Se após a derrubada
de 26 de Março de 1919, ainda fosse necessário demonstrar, com factos tomados
da história da Revoluçom Russa, a vaidade dos esforços do director do Departamento
da Polícia, podemos citar multidom de argumentos como o que nos oferece
o ex-polícia M. E. Bakai, em 1906, após a repressom da primeira revoluçom,
quando o chefe da polícia Trusévich reorganizou a Okhrana. As organizaçons
revolucionárias de Varsóvia, nomeadamente as do Partido Socialista Polaco
[14]
, “suprimírom durante o ano 20 militares, 7 gendarmes,
56 polícias, e ferírom 92; em resumo, pugérom fora de combate 179 agentes
da autoridade. Destruírom, aliás, 149 expêndios de álcool da administraçom.
Na preparaçom destas acçons participárom centenas de homens que na maioria
dos casos continuárom ignorados pola polícia”. M. E. Bakai repara que,
nos períodos de auge da revoluçom, os agentes provocadores freqüentemente
faziam mutis; mas reapareciam quando ascendia a reacçom. Igual que os corvos
nos campos de batalha.
Em 1917, a autocracia
ruiu sem que as legions de delatores, provocadores, gendarmes, carrascos,
guardas municipais, cosacos, juízes, generais, popes, pudessem desviear
o curso inflexível da história. Os informes da Okhrana redigidos
polo general Globachev verificam a proximidade da revoluçom e prodigam ao
czar advertências inúteis. O mesmo que os mais sábios médicos chamados para
assistirem a um moribundo nom podem mais do que constatar, minuto a minuto,
os progressos da doença, os omniscientes polícias do Império viam impotentes
como o mundo czarista se dirigia para o abismo...
Porque a revoluçom
era conseqüência de causas económicas, psicológicas, morais, situadas para
além deles e fora do seu alcance. Estavam condenados a resistir inutilmente
e a sucumbir. Porque é a eterna ilusom dos governantes acreditar que podem
anular os efeitos sem considerarem as causas, legislar contra a anarquia
ou contra o sindicalismo (como nos Estados Unidos), contra o socialismo
(como Bismarck fijo na Alemanha), contra o comunismo, como se fai hoje um
pocado por toda a parte.
Na verdade, a
polícia russa viu-se desbordada. A simpatia instintiva ou consciente da
imensa maioria da populaçom estivo com os inimigos do antigo regime. O martírio
quotidiano destes suscitava a adesom de alguns e a admiraçom do grande número.
Sobre este velho povo cristao exercia umha influênica irresistível a vida
dos apóstolos dos propagandistas que, renunciando ao bem-estar e à segurança,
defrontavam, para levar o novo evangelho aos miseráveis, a prisom, o exílio
siberiano e a morte mesma. Voltavam a ser “o sal da terra”: eram os melhores,
os únicos portadores de umha imensa esperança e por isso eram perseguidos.
Tinham do seu lado só a força moral, a das ideias e
os sentimentos. A autocracia já nom era um princípio vivo. Ninguém acreditava
já na sua necessidade, carecia de ideólogos. A religiom mesma, por boca
dos seus pensadores mais sinceros, condenava aquele regime que apenas repousava
no emprego sistemático da violência. Os maiores cristaos da Rússia moderna,
dujobortzi e tolstosianos, eram anarquistas. Mas umha sociedade que
já nom repousava em ideias vivas, aquela em que os princípios fundamentais
estám mortos, sobrevive, como muito, pola força da inércia.
Mas na sociedade
russa dos últimos anos do antigo regime, as ideias novas –subersivas— tinham
conseguido umha força sem contrapeso. Todo o que na classe operária, na
pequena burguesia, no exército e na marinha, nas profissons liberais pensava
e obrava, era revolucionário, quer dizer, “socialista” de algum jeito. Nom
existia umha mediana burguesia satisfeita, como nos países da Europa ocidental.
O antigo regime nom era defendido mais que polo clero, a nobreza cortesá,
os financeiros, alguns políticos, em resumo, por umha aristocracia ínfima.
As ideias revolucionárias achavam terreno favorável em toda a parte. Durante
muito tempo, a nobreza e a burguesia entregárom à revoluçom os seus melhores
filhos. Quando um militante se ocultava, topava numerosas ajudas espontáneas,
desinteressadas, devotas. Quando um revolucionário era arrestado achava
cada vez mais freqüentemente que os soldados encarregados de conduzi-lo
simpatizavam com ele e entre os carcereiros quase houvo “camaradas”. Tam
certo era isto, que na maioria das prisons resultava fácil comunicar clandestinamente
com o exterior. Esta simpatia também facilitava as evasons. Guerchuni, condenado
à morte e transferido de umha prisom para outra, encontrou gendarmes que
eram “amigos”. Búrtzev, na sua luita contra a provocaçom, achou outrora
preciosa colaboraçom num alto funcionário do Ministério do Interior, o senhor
Lopujin, por acaso um homem honesto, e um velho polícia, Bakai. Eu conhecim
um revolucionário que tinha sido vigiante numha prisom. Os casos de “vigiantes”
convertidos polos detidos nom eram raros... quanto ao estado de espírito
dos elementos mais atrasados da populaçom –do ponto de vista revolucionário—
estes factos som sintomáticos.
E estas nom som
mais do que causas aparentes, superficiais, superpostas a outras mais profundas.
O poder das ideias, a força moral, a organizaçom e a mentalidade revolucionária
nom eram mais do que os resultados de umha situaçom económica cujo
desenvolvimento enveredava para a revoluçom. A autocracia russa encarnava
o poder de umha aristocracia de grandes terratenentes e de umha oligarquia
financeira, submetida a influências estrangeiras estorvadas, de resto, por
instituiçons pouco propícias para o desenvolvimento da burguesia. Pouco
numerosa, desprovista de influência política, descontenta, a classe média
urgana dava os seus filhos, juventude estudantil, intelectuais, para a revoluçom,
para umha revoluçom liberal, percebe-se, pois nom queria ver subir o mujik
e o operário. A grande burguesia industrial, comerciante, financeira, desejava
umha monarquia constitucional “à inglesa” em que, naturalmente, exerceria
o poder. Abafada polos impostos, presa nos tempos de paz, na época de prosperidade
europeia, de fames periódicas, desmoralizada polo monopólio do vodka, explorada
brutalmente por popes, polícias, burocratas e grandes proprietários, a massa
rural acolhia com fervor, depois de mais de meios século, os chamados dos
revolucionários. “Camponês, toma posse da terra!”. E como esta massa proporcionava
ao exército a imensa mamioria dos seus efectivso, a carne de canhom de Lyaoyang
e Mukden, assim como os carrascos de todas as sublevaçons, o exército, trabalhado
polas organizaçons militares dos partidos clandestinos, esse exército mantido
na obediência polos conselhos de guerra e polo “governo do soco no focinho”
bulia de amargura. Umha classe operária ainda jovem, multiplicada tam rapidamente
como se desenvolvia a indústria capitalista, privada do elementar dereito
de fakar os seus idiomas próprios, de consciência, de organizaçom de imprensa
(direitos que eram desconhecidos polo antigo regime russo), ignorante dos
enganos do regime parlamentar, a viver em cortelhos, a receber salários
baixos, submetida ao polícia arbitrário, em resumo, colocada face as novas
realidades da luita de classes, tomava mais clara consciência dos seus interesses
cada dia que se passava. Trinta nacionalidades alógenas, ou vencidas polo
Império, privadas do elementar direito a falar as suas línguas, colocadas
na impossibilidade de ter umha cultura nacional, russificadas a chicotadas,
nom eram mantidas sob o jugo mais que por constantes medidas repressivas.
Na Polónia, na Finlándia, na Ucránia, nos países bálticos, no Cáucaso, gestavam-se
revoluçons nacionais, prestes a aliarem-se com a revoluçom agrária, a insurreiçom
operária, a revoluçom burguesa... A questom judia surgia por todo o lado.
No topo do poder,
umha dinastia degenerada rodeada de imbecis. O cabeleireiro Filipe cuidava
tratava mediante hipnotismo da saúde vacilante do suposto herdeiro. Rasputim
tirava e punha ministros desde as suas estáncias privadas. Os generais roubavam
ao exército, os grandes dignatários saqueavam o Estado. Enter este poder
e a naçom, umha burocracia, inúmera, que vivia principalmente do suborno.
No seio das massas,
as organizaçons revolucionárias, amplas e disciplinadas, activas constantemente,
possuidoras tanto de umha vasta experiência quanto do prestígio e do apoio
de umha magnífica tradiçom... Tais eram as forças profundas que trabalhavam
pola revoluçom. E contra elas, na vá esperança de impedir a avalancha, a
Okhrana tensava os seus fracos arames farpados!
Nesta deplorável
situaçom, a polícia agia sabiamente. Bom. Conseguia, vamos lá dizer, “liquidar”
a organizaçom social-democrata de Riga. Setenta capturas decapitavam o movimento
na zona. Imaginemos por um momento umha liquidaçom total. Ninguém fugiu.
E a seguir?
Para já, estas
setenta capturas nom deixavam de ser advertidas. Cada um dos militantes
estava em relaçom com polo menos umha dúzia de pessoas. Setecentas pessoas,
quando menos, achavam-se repentinamente encaradas com este facto brutal:
a captura de gente honesta e corajosa, cujo crime consistia em querer o
bem comum... O processo, as condenas, os dramas privados que implicam, provocavam
umha explosom de simpatia e interesse polos revolucionários. Se algum deles
atingia fazer ouvir umha voz enérgica desde o banco dos argüidos, pode dizer-se
com certeza que a organizaçom, ao conjuro desta voz, renascia das suas cinzas.
Era questom de tempo.
De outra parte,
o quê fazer com o setenta militantes presos? Nom se podia mais do que fechá-los
durante longo tempo ou deportá-los às regions desertas da Sibéria. Bem.
Na prisom –ou na Sibéria— acham camaradas, mestres e alunos. Os ócios obrigatórios
som dedicados ao estudo, à formaçom teórica das suas ideias. Sofrendo em
comum endurecem-se, adquerem tempero, apaixonam-se. Tarde ou cedo, evadidos,
amnistiados –graças às greves gerais— ou libertados provisoriamente, reintegram-se
na vida social como revolucionários “veteranos” ou “ilegais”, agora muito
mais fortes do que nunca. Nom todos, é claro. Alguns ham de morrer no caminho;
dolorosa selecçom que tem a sua virtude. E o recordo dos amigos desaparecidos
tornará intransigentes os que sobrevivam...
Enfim, numha liquidaçom
nunca é total. As preocupaçons dos revolucionários preservarám alguns. Os
mesmos interesses da provocaçom exigem serem deixados alguns presos em liberdade.
E a má sorte incide no mesmo sentido. Os “fugidos”, embora metidos em situaçons
difíceis, acham-se em capacitados para aproveitarem as circunstáncias favoráveis
do meio...
A repressom nom
se vale, em definitivo, mais que do medo. Mas, basta o medo para anular
as necessidades, o anelo de justiça, a inteligência, a razom, o idealismo,
todas aquelas forças revolucionárias que exprimem a pujança formidável e
profunda dos factores económicos de umha revoluçom? Valendo-se da intimidaçom,
os reaccionários esquecem que causárom mais indignaçom, mais ódios, mais
sede de martírio do que temor verdadeiro. Nom intimidam mais do que os fracos:
exasperam os melhores e temperam a resoluçom dos mais fortes.
Ao primeiro olhar,
podem causar ao movimento revolucioniário prejuízos terríveis. Mas, de verdade
é assim?
Graças ao seu
concurso, a polícia pode, decerto, multiplicar as capturas e as “liquidaçons”
de grupos. Em determinadas circunstáncias, pode contrarrestar os mais profundos
planos políticos. Pode acabar com militantes valiosos. Os provocadores tenhem
sido amiúde provedores directos do carrasco. Todo isso é terrível, certamente.
Mas também nom é menos certo que a provocaçom nunca pode anular mais do
que indivíduos ou grupos e que é quase impotente contra o movimento revolucionário
no seu conjunto.
Vimos como um
agente provocador se encarregava de fazer entrar na Rússia (em 1912) propaganda
bolchevique; como um outro (Malinovsky) pronunciava na Duma discursos redigidos
por Lenine; como um terceiro organizava a execuçom de Plehve. No primeiro
caso, o nosso malandro pode entregar à polícia umha quantidade considerável
de literatura; no entanto, nom pode, a risco de se queimar de imediato,
entregar toda a literatura, inclusive nom poderá mais que entregar umha
quantidade muito restrita. Boa ou mamente contribui, pois, à sua difusom.
Se um folheto propagandístico for divulgado por um agente secreto ou por
um devoto militante, os resultados som sempre os mesmos: o essencial é que
seja lido. Se a execuçom de Plehve foi arranjada por Azev ou por Savinkov,
nom devemos importar-nos com sabê-lo. Ainda se fosse o resultado da luita
entre as camarilhas da polícia, tampouco. O importante é que Plehve desapareça.
Os interesses da revoluçom neste caso som muito mais importantes do que
os maquiavelismos ínfimos e infames da Okhrana. Quando o agente secreto
Malinovsky fai ouvir na Duma a voz de Lenine, o ministro do Interior fazia
mal em alegrar-se polo êxito do seu agente a soldo. A importáncia que a
palavra de Lenine tem para o país nom pode ser comparada com a que
poda ter a voz de um miserável. De jeito que se pode, acho eu, dar do agente
provocador duas definiçons que se compensam, mas das quais a segunda é mais
significativa.
1) O agente provocador
é um falso revolucionário;
2) O agente provocador
é um polícia que, sem querer, serve à revoluçom.
Aparenta que a serve. Mas em semelhante ofício om existem as aparências.
Propaganda, combate, terrorismo, tudo é realidade. Nom se milita
a médias ou superficialmente.
Os miseráveis que num momento de cobardia se precipitárom nessa lama, pagárom-no. Recentemente, Máximo Gorki publicou nas suas Consideraçons retrospectivas a curiosa carta de um agente provocadore. O homem escrevia mais ou menos isto: “Eu estava consciente da minha infámia, mas também sabia que ela nom podia retardar nem um segundo