O QUE TODO REVOLUCIONÁRIO DEVE SABER
SOBRE A REPRESSOM.
Víctor Serge
Nom havemos negar
que o terror é terrível. Ameaçada de morte, a revoluçom proletária utilizou-no
na Rússia durante três anos, de 1918 a 1921. De muito boa vontade, costuma
esquecer-se que a sociedade burguesa, além das revoluçons que terminárom
por formá-la, tivo necessidade, para nascer e crescer, de séculos de
terror. A grande propriedade capitalista formou-se ao longo dos séculos
por meio da expropriaçom implacável dos camponeses. O capital manufactureiro
e a seguir o industrial formárom-se pola exploraçom implacável, complementada
por umha legislaçom sanguinária, dos camponeses despossuídos, reduzidos
à vagabundagem. Esta horrorosa página da história é passada em silêncio
nos manuais escolares e mesmo nas obras sérias. A única exposiçom de conjunto,
concisa mas magistral, que conhecemos, é a de Karl Marx, no capítulo XXIV
de O Capital: “A acumulaçom originária”.
Um dos fins desta legislaçom muito precisa era a de promocionar mao de
obra para a indústria. Pena de chicote para os vagabundos, escravatura para
quem se negasse a trabalhar (edito de Eduardo VI, rei de Inglaterra, 1547),
marca o vermelho vivo para quem tratar de evadir-se, morte em caso de reincidência!
O roubo castiga-se com a morte. Segundo Tomás Moro, “72.000 pequenos ou
grandes ladrons fôrom executados sob o reinado de Henrique VIII”, que reinara
24 anos, de 1485 a 1509. inglaterra tinha naquela altura de 3 a 4 milhons
de habitantes. “Em tempos da rainha Isabel, os vagabundos eram enforcados
por séries, e cada ano fazia-se enforcar de 300 a 400”. Sob esta grande
rainha, os vagabundos de mais de 18 anos que ninguém guigesse empregar durante
polo menos dous anos, eram condenados à morte. Em França, “sob Luís XVI
[ordenança de
13 de Julho de 1777] todos os homens aptos, de 16 a 60 anos, que carecessem
de meios de subsitência e que nom exercesse algumha profissom, devia ser
enviado a galeras”. Numha das suas cartas, tam apreciadas polos literatos,
madame de Sevigné falava com umha encantadora singeleza de afeitos a enforcamentos
de camponeses.
Durante séculos,
a justiça nom foi mais do que terror, utilitariamente organizado polas classes possuidorsas. Robar a um rico
tem sido sempre maior crime do que matar um pobre. A falsificaçom da história,
feita de acordo com os interesses de classe da burguesia, é a regra no ensino
dos países democráticos, e ainda nom existe em francês, que nós saibamos,
umha história séria das instituiçons sociais que esteja à disposiçom das
escolas ou do grande público. Por isso necessitaremos recorrer a umha documentaçom
referente à Rússia. O historiador marxista M. N. Pokorvsky, dedica à justiça,
na sua destacada obra História da cultura russa, um capítulo de umha
vintena de páginas. Sob Joam III,
no século XV, a justiça era aplicada polos boiardos
[1]
, os dvorian –casta privilegiada de grandes
terratenentes— e polos bons (quer dizer, mais exactametne, polos
ricos) camponeses. A opiniom desta “honrada gente” bastava para justificar
completamente umha condena à morte, sempre que se tratasse, é claro, de
um pobre.
Em finais do século XV –escreve M. N. Pokrovsky— já
é evidente que a supressom dos elementos suspeitos é a essência deste direito”.
Suspeitos para quem? Suspeitos para os ricos. Um documento que data de 1539
outorga aos nobres (boiardos) o direito de aplicar a justiça assistidos
por “pessoas honradas” (os camponeses ricos). O acordo presecreve a pena
de morte para os “ladrons surpeendidos in fraganti ou nom” e autoriza
a pena de tormento para os “malfeitores”. Obtida a confessom, o “culpado”
será enforcado; se nom confesar, pode ser encarcerado a perpetuidade. As
ordenanças que estabelecem este direito nom admitem que um nobre
poda ser julgado. A justiça só começa a ser efectiva quando se trata de
camponeses, de artesaos, de comerciantes e fai-se rigorosa a sério só com
os pobres. Para convercer-se da crueldade dessa justiça, bastará com percorrer
a história das revoluçons camponesas da Alemanhas, jacqueries em
França, que assinalárom o surgimento da propriedade capitalista. Semelhantes
instituiçons existírom em todos os países onde houvo servidom. Esta justiça
de classe da propriedade latifundiária feudal nom desaparece, e apenas muito
lentamente cede o seu posto à das monarquias absolutas –mais completa mas
nom menos feroz— caracterizadas pola importáncia crescente do comércio.
Até a revoluçom francesa, até épocas recentíssimas da história, nengumha
igualdade frente à “justiça”, nem sequer puramente formal, tem existido
entre pobres e ricos.
É claro: as revoluçons
nada inovam em matéria de repressom e de terror, nom fam mais do que ressuscitar,
em forma de medidas extraordinárias, os princípios de justiça e de direito
que durante séculos tenhem sido os mesmos das classes possuidoras contra
as classes despossuídas.
Toda vez que as
crises sociais pugérom frente à burguesia moderna o problema da repressom,
esta nom vacilou em recorrer aos procedimentos mais sumários da justiça
de classe, tratando os seus inimigos como tratava os vagabundos no século
XV. Enforcou, metralhou por milhares, em 1848, os insurrectos parisinos
do bairro de Saint-Antoine, que nom eram mais do que cessantes exasperados
por hábeis provocadores. Entes grandes factos históricos nom se devem esquecer.
Duas vezes, com o melhor sangue humano, a burguesia escreveu no livro da
história a justificaçom antecipada do terror vermelho: decapitando, para
tomar o poder, os aristocratas feudais e dous reis, Carlos I de Inglaterra
em 1649 e Luis XVI, e reprimindo as sublevaçons proletárias. Deixemos por
um momento que falem as datas e os números.
A Comuna de Paris,
respondendo às execuçons sumárias dos seus soldados feitos prisioneiros
polos versalheses, passa polas armas 60 reféns. Os versalheses dizimárom
o povo de Paris. Segundo estimaçons moderadas, a repressom deixou em Paris
mais de 100.000 vítimas. Vinte mil comuneiros, como mínimo, fôrom metralhados,
e nom durante a batalha, mas depois dela. Três mil morrêrom nos presídios.
A revoluçom soviética
da Finlándia, reprimida em 1918 polos guardas brancos de Mannerheim, aliados
dos soldados de Van der Goiz, reprimiu antes de cair alguns dos seus inimigos?
É possível; mas o número foi tam reduzido que nem a mesma burguesia o tem
em conta. Mas, polo contrário, neste país de três milhons e meio de habitantes,
onde o proletariado nom existe em grande proporçom, 11.000 operários fôrom
fusilados polas forças da ordem e mais de 70.000 internados em campos de
concentraçom.
A República dos
Soviets da Hungria (1919), funda-se quase sem derramamento de sangue, graças
à abdicaçom voluntária do governo burguês do conde Károlyi. Quando os comissários
do povo de Budapest julgam desesperada a situaçom, abdicam por sua vez,
entregando o poder aos social-democratas. Durante os três meses que durou,
a ditadura do proletariado húngaro, apesar de estar ameaçada sem cessar
polas invasons checoslovaca e romena nas suas fronteiras e polos complots
internos, golpeou em total 350 inimigos: estám compreendidos nesta cifra
os contrarrevolucionários caídos de armas na mao durante as sublevaçons
locais. Os bandos de oficiais e os tribunais de Horthy figérom perecer “em
represália” muitos milhares de pessoas e internárom, encarcerárom, vexárom,
dúzias de milhares.
O Soviet de Munique
(1919) fijo passar polas armas, em resposta ao massacre de 23 prisioneiros
vermelhos polo exército regular, 12 reféns. Depois da entrada da Reichwehr
em Munique, 505 pessoas fôrom fusiladas na cidade, das quais 321 sem o menor
simulacro de justiça. Desse número, 60 eram russos apreendidos na confusom.
Das vítimas do
terror branco que desolou as regions onde a contrarrevoluçom triunfou, momentaneamente,
na Rússia, nom possuímos estatísticas. Porém, tem-se calculado num milhom
as vítimas só dos progromos anti-semitas na Ucránia, em tempos do general
Denikin. A populaçom judia de cidades inteiras (Festov) foi degolada sistematicamente.
Estima-se em 15.000
o número de operários que perecêrom pola repressom, durante as insurrecçons
operárias da Alemanha, de 1918 a 1921.
Nom mencionaremos
aqui nomes de mártires nem episódios simbólicos. Nom tratamos mais que de
basear alguns princípios sobre cifras. Demasiadas experiências dolorosas
deveriam ter ensinado o proletariado sobre este ponto, demasiados regimes
de terror branco estám ainda em acçom como para se necessitarem demonstraçons
minuciosas.
De Gallifet a
Mussolini, passando por Noske, a repressom dos movimentos revolucionários
operários, mesmo os que os social-democratas aceitavam presidir, como sucedeu
na Alemanha, caracteriza-se polo desígnio de espancar as classes trabalhadoras
nas suas forças vivas: por outras palavras, de exterminar fisicamente, e
completamente se for possível, as suas elites.
A repressom é
umha das funçons essenciais de todo o poder político. O Estado revolucionário,
na sua primeira fase de existência polo menos, necessita-o mais do que qualquer.
Mas semelha que, nos seus três elementos fundamentais –polícia, exército,
tribunais, prisons— o mecanismo da repressom e da coerçom quase nom varia.
Acabamos de estudar umha polícia secreta. Temos descendido até os seus mais
sujos e secretos redutos. E temos verificado a sua impotência. Esta arma,
em maos do antigo regime, dixemos, nom podia salvá-lo nem matar a revoluçom.
Admitimos, no entanto, a decisiva eficácia desta arma em maos da revoluçom.
A arma é a mesma só em aparência: umha instituiçom, repitamo-lo,
sofre profundas transformaçons segundo a classe a que serve e os fins que
persegue.
A Revoluçom Russa
destruiu o aparelho coercitivo do antigo regime, de lés a lés. Sobre essas
ruínas jubilosamente amontoadas é que criou o seu próprio.
Esforcemo-nos
por gizar as diferenças fundamentais entre a repressom tal e como a exerce
a classe dominante e a repressom tal e como a exerce a classe revolucionária.
Dos princípios gerais que umha análise ligeira nos revele, deduziremos alguns
corolários sobre o papel da polícia em um lado e em outro.
Na sociedade burguesa,
o poder é exercido pola minoria rica contra as maiorias pobres. Um governo
nom é mais do que o comité executivo de umha oligarquia de financeiros apoiados
polas classes privilegiadas. A legislaçom rumada a manter na obediência
o conjunto de assalariados –a maioria da populaçom— deve ser forçosamente
muito complexa e muito severa. Fai com que todo atentado sério à propriedade
implique de umha outra maneira a supressom do culpado. Já nom se enforca
o ladrom; e nom porque os princípios “humanitários” tenham “progressado”,
mas porque a proporçom de forças entre as classes possuidoras e as nom possuidoras
e também o desenvolvimento da consciência de classe dos pobres, já nom permite
ao juiz lançar um repto semelhante à miséria. Mas limitamo-nos a seguir
a legislaçom francesa, que é de umha fercidade média. O roubo qualificado
é penado com trabalhos forçados, e a pena de trabalhos forçados cumpre-se
em condiçons tais, agrava-se de jeito tal com penas acessórias”, que a vida
do culpado fica quase destruída. Todas as penas de trabalhos forçados significa
o duplo: o condenado é obrigado a morar nalgumha colónia um tempo igual
à residência perpétua na Güiana. Trata-se da mais malsá das colónias francesas!
O confinamento, pena “acessória” perpétua, que também se cumpre na Güiana,
bastante semelhante de facto aos trabalhos forçados, é precisamente o destino
dos reincidentes de roubo nom qualificado. Quatro condenas por roubo, fraudes,
etc. –O roubo sucessivo de 4 peças de cem sous constituiria um caso
ideal; tenho visto muitos expedientes de confinados para saber o que ´dos
casos deste tipo— podem conduzir ao confinamento; também sete condenas por
vagabundagem: por outras palavras, achar-se sete vezes seguidas sem pam
nem albergue nas ruas de Paris é um crime punido com pena perpétua.
Em Inglaterra e na Bélgica, onde existem workhouses (casas de trabalhos
forçados) e assilos de mendicidade, a repressom da mendicidade e
da vagabundagem nom é menos implacável. Outro traço: o patronato tem necessidade
de mao de obra e de carne de canhom: a lei pune implacavelmente o aborto.
Com a propriedade
privada e o sistema assalariado como princípio, nengum remédio eficaz pode
ser aplicado às doenças sociais tais como a criminalidade. Umha batalha
permanente livra-se entre a ordem e o crime; o “exército do crime”, di-se,
exército de miseráveis, exército de vítimas, exército de inocentes inútil
e indefinidamente dizimado. O seguinte ainda nom tem sido vincado com suficiente
insitência: a luita contra a criminalidade é um aspecto da luita de classes.
Três quartas partes dos criminosos de direito comum, polo menos, pertencem
às classes exploradas.
O código penal
do Estado proletário, por regra geral, nom admite a pena de morte em matéria
criminal (umha outra cousa é que a supressom física de certos anormais incuráveis
e perigosos seja às vezes a única soluçom). Tampouco admite penas a perpetuidade.
A pena mais severa é de dez anos de prisom. A privaçom de liberdade, medida
de segurança social e de reeducaçom, que exclui a ideia medieval do castigo,
é a pena que se impom. Nesse domínio e na situaçom actual da Uniom de Soviets,
as possibilidades materiais som naturalmente muito inferiores ao apetecido.
A edificaçom da sociedade nova –que será sem prisons— nom começa pola erecçom
de prisons ideais. O impulso existe, sem dúvida; começou umha reforma profunda.
Igual que o legislador, os tribunais tenhem em conta, com um claro sentido
de classe, as causas sociais do delito, as origens e as condiçons sociais
do delinqüente. Víamos que o facto de se achar sem pam nem teito constitui
um delito grave em Paris; em Moscovo é, se está em relaçom com um outro
delito, umha importante circunstáncia atenuante.
Face à lei burguesa,
ser pobre é freqüentemente um crime, sempre umha circunstáncia agravante
ou umha presunçom de culpabilidade. Face à lei proletária, ser rico, incluso dentro dos estritos limites
em que durante a NEP se permitia o enriquecimento, é sempre umha circunstáncia
agravante.
A grande doutrina
liberal do Estado que os governantes capitalistas nom derrogárom a sério
mais do que em tempos de guerra –entom tenhem o seu capitalismo de guerra,
caracterizado pola estatizaçom da produçom, o rigoroso contolo do comércio
e da distribuiçom dos produtos (livretas de racionamento, o estado de sítio,
etc.), preconiza a nom ingerência do Estado na vida económica.Esta doutrina
reduz-se em economia política ao laisser-faire, ao laisser-passer
da escola manchesteriana. Julga o Estado principalmente como instrumento
de defesa colectiva dos interesses dos possuidores; máquina de guerra contra
os grupos nacionais competidores, máquina de reprimir os explorados. Reduz
ao mínimo as funçons administrativas do Estado; é sob a influência do socialismo
e sob a influência da pressom das massas que o Estado assumiu recentemente
a direcçom do ensino público. As funçons económicas do Estado reduzem-se,
na medida do possível, ao estabelecimento de tarifas alfandegárias destinadas
a proteger os industriais contra a concorrência estrangeira (a legislaçom
laboral sempre é umha conquista do movimento operário). Numha palavra, o
respeito à anarquia capitalista é a regra do Estado. Que produza, venda,
revenda, especule sem qualquer entrave, sem atender ao interesse geral:
está certo. A livre concorrência é a lei do mercado. As crises convertem-se
assim nas grandes reguladoras da vida económica; som as que reparam, à custa
dos trabalhadores, das classes médis inferiores e dos capitalistas mais
fracos, os erros dos chefes da indústria. Incluso quando os grandes truts
ditam a lei ao país todo, suprimindo de facto a concorrência em vastos sectores
da produçom e do comércio, a velha doutrina do Estado, se nom embate com
os interesses dos reis do aço, do carvom, da carne de porco ou dos transportes
marítimos, continua intacta: assim acontece nos Estados Unidos.
A enumeraçom destes
factos que todso deveríamos conhecer fai-se-nos necessária para melhor podermos
definir o Estado operário e camponês tal como o realiza a Uniom de Soviets,
com a nacionalizaçom do solo, dos transportes, da grande indústria, do comércio
exterior. O Estado soviético governa a vida económica. Influi diária e directamente
sobre os factores essenciais da vida económica. Nos mesmo limites em que
permite a iniciativa capitalista, controla-a e rege-a, exercendo sobre ela
umha dupla tutela: pola lei e pola acçom que chamamos directa sobre o mercado,
o crédito, a produçom. A previsom das crisese é umha das mais características
tarefas do Estado soviético. Esforça-se por conter as crises aquando dos
primeiros sintomas; nom é exagerado prever, em certo momento do desenvolvimento
social, a sua eliminaçom completa.
Onde o Estado
capitalista se contenta por princípio com combater os últimos efeitos das
causas sociais que lhe está vedadeo tocar, o Estado soviético age sobre
essas causas. A indigência, a prostituiçom, a precária situaçom da saúde
pública, a criminalidade, a deterioraçom das populaçons, o baixo índice
de natalidade, som só efeitos de causas económicas profundas
[2]
. Depois de cada crise económica, aumenta a criminalidade;
nom pode ser de outro jeito. E os tribunais capitalistas redobram a sua
severidade. Aos trastornos provocados polo funcionamento natural da economia
capitalista –anárquica, irracional, regida polos egoísmos individuais e
polo egoísmo colectivo das classes possuidoras— a burguesia nom conhece
outro remédio que a repressom
[3]
. O Estado soviético, ao concentrar-se sobre as causas
do mal, tem evidentemente menos necessidade da repressom. Quanto mais de
desenvolver, mais a sua acçom económica há de ser eficaz, concertada, previsora,
e menos necessidade terá da repressom, até o dia em que umha inteligente
gestom da produçom suprima, com a prosperidade, males sociais tais como
a criminalidade, cujo contágio se esforça em diminuir por meio da coerçom...
Roubará-se menos quando a fame nom exista; e menos ainda se roubará quando
o bem-estar se tenha realizado.
Doravante –e ainda
estamos longe da meta— a nossa conviçom é, contrariamente às aparências,
que o Estado soviético infinitamente menos do que outros. Pense-se na situaçom
económica actual da Rússia, nom se veria obrigado um governo burguês a governar
pola força infinitamente mais do que o governo soviético? O camponês
está amiúde descontente. Os impostos semelham-lhe algos de mais, os artigos
industriais muito caros. O seu descontentamento costuma traduzir-se em actos
que amiúde poderiam qualificar-se de contrarrevolucionários. No entanto,
os camponeses no seu conjunto dérom aos soviets a vitória militar –o Exército
Vermelho estava composto principalmente por camponeses— e continuam a apoiá-los.
Um governo capitalista que restituísse a terra aos latifundiários tera que
conter e nom poderia fazê-lo mais que por meio de umha repressom contínua
e despiadada— a cólera de cem milhons de camponeses. Eis por quê é que caírom
todos os governos subordinados polas forças estrangeiras.
Na sua actual
penúria, após anos de guerra imperialista, de guerra civil, de bloqueio,
de carestia, cercada polos estados capitalistas, objecto de bloquio financeiro,
de intrigas diplomáticas, de preparativos bélicos, a Uniom Soviética, semelhante
a um campo atrincheriado sitiado polo inimigo, ocupada aliás com as contradiçons
internas, próprias de um período de transiçom tam difícil, tem ainda muita
necessidade da repressom. Seria enganar-se muito julgar concluída a etapa
das tentativas contrarrevolucionárias. Mas, quaisquer que forem as dificuldades
actuais da Revoluçom Russa e as suas formas de resolvê-las, as características
essenciais do Estado soviético nom se modificarám e, por conseqüência, também
nom o fará o papel que a repressom tem jogado.
Esquece-se amiúde
esta outra verdade: que a sociedade soviética, no seu oitavo ano de vida,
nom pode ser comparada em justiça à sociedade burguesa, que goza de umha
tradiçom de autoridade de vários séculos e de mais de um século de experiências
políticas. Muito antes de 1789, o terceiro estado era, contra a veemente
afirmaçom de Sieyes, umha força respeitada dentro do Estado. Os primeiros
cinqüenta anos de desenvolvimento económico da burguesia no deixárom de
ser anos de atroz ditadura de classe. Os falsificadores oficiais da história
esquecem voluntariamente a verdade sobre as muitas generaçons de trabalhadores
que havitavam cortelhos, trabalhavam da alva ao pôr do sol, desconheciam
toda liberade democrática e entregavam à fábrica devoradora até dos fracos
músculso das crianças de oito anos... Sobre os ossos, a carne, o sangue
e o suor destas geraçons sacrificadas foi que se erigiu toda a civilizaçom
moderna. A ciência burguesa ignora-os. Mai umha vez, é-nos forçoso remeter
o leitor para O Capital de Karl Marx. No capítulo XXIII achará páginas
terríveis sobre a Inglaterra de 1846 a 1866. Nom resistimos a tentaçom de
citar algumhas linhas. Um médico, encarregado de um inquérito oficial, verifica
que “mesmo entre os operários da cidade, o trabalho que de ordinário unicamente
lhes permite morrer de fame, prolonga-se para além de qualquer media...
Nom há direito a dizer que o trabalho dá para comer a um homem”. Um outro
pesquisador constata que em Londres há “vinte grandes bairros povoados cada
um por à roda de 10.000 indivíduos; a sua miséria ultrapassa todo o que
se pode ver em Inglaterra”. “Newcastle –di o doutor Hunter— oferece o exemplo
de como umha das melhores castas de compatriotas caiu numha degeneraçom
quase selvagem por obra de circunstáncias puramente exteriores: a habitaçom
e a rua”. O Standard, diário conservador inglês, escreve a 5 de Abril de
1866, a respeito dos desocupados de Londres: “lembremo-nos do que padece
esta populaçom. Morre à fame. Som 40.000.
E isto na nossa época, num dos bairros desta maravilhosa metrópole, junto
da maior acumulaçom de riquezas vista no mundo”. Em 1846, a fame fijo perecer
na Irlanda mais de um milhom de individuos... Isto nom atingiu em absoluto
a riqueza do país (Marx).
Para transformar
em guinés constantes e soantes com a efígie da rainha Vitória, o sangue
e o suor deste povo miserável; para que os inúteis condenados polo desenvolvimento
do maquinismo e da crises a morrer de miséria consintam em morrer sem se
rebelarem como bestas encadenadas, que formidável opressom nom seria necessária?
Agora percebemos com nitidez um dos principais meios da violência capitalista:
a fame. Há meio século que se pode falar de terror económico. O operário
ameaçado polo desemprego, ameaçado de morrer à fame, trabalha entre a chusma
industrial, trabalha como um bruto para nom morrer à fame em quinze anos.
(Nom possuímos dados sobre a duraçom média da vida desses assalariados;
deploramo-lo; essas cifras resumiram tudo.) Nos nossos dias é igual: à violênica
económica por fame, contudo o mais importante, em definitivo a única eficaz,
a repressom nom fai mais do que proporcionar-lhe o complemento exigido pola
“defesa da ordem” capitalista contra determinado tipo de vítimas particularmente
inquietantes (os malfeitores) e contra os revolucionários.
Repitamo-lo: o
terror é terrível. Na guerar civil, todo combatente –e esta guerra nom conhece
neutrais— arrisca a vida. Instruída na escola dos reaccionários, a classe
operária, à qual os complots mantenhem ameaçada de assassinato, deve golpear
ela própria os seus inimigos mortais. A prisom nom inimida ninguém; o motim
arranca facilmente as portas aferrolhadas que também abrem a corrupçom ou
a engenhosidade dos conspiradores.
No paroxismo da
luita, umha outra necessidade contribui para estender os estragos do terror.
Desde os exércitos antigos, a eliminaçom é o meio clássico de manter disciplinadas
as tropas. Foi praticada durante a Grande Guerra, nomeadamente na frante
francesa depois dos amotinamentos de Abril de 1917. Nom se debe esquecer.
Consiste em passar polas armas um de entre cada dez homens, sem considerar
a inocência ou a culpabilidade individual. Por certo, fagamos umha observaçom
de ordem histórica. Em 1871, os da Comuna fôrom mais do que dizimados polos
versalheses. Já citamos o cálculo médio do número de fusilados por Gallifet:
20.000; a Comuna contou com 160.000 combatentes. A burguesia francesa, a
mais esclarecida do mundo, a mesma de Taine e de Renan, ensina-nos até com
cifras a temível lógica da guerra de classes. Umha classe nom se declara
vencida, umha classe nom é vencida enquanto nom se lhe impingir umha elevada
quantidade de baixas. Suponhamos –e a Rússia conheceu situaçons semelhantes
durante os anos heróicos da revoluçom— umha cidade de 100.000 almas, divididas
em 70.000 proletários (simplificando, proletários e elementos próximos do
proletariado) e 30.000 pessoas pertencentes à burguesia e às classes médias,
costumadas a julgarem-se como pertencentes à classe dirigente, instruída,
possuidora de meios de produçom Nom torna evidente, sobretodo se a luita
se circunscreve à cidade, que a resistência mais ou menos organizada desta
força contrarrevolucionária nom será derrotada enquanto nom tiver sofrido
perdas bastantes consideráveis? Nom resulta menos perigoso para a revoluçom
golpear forte e nom brandamente?
A burguesia prodigou
advertências sangrentas aos explorados. Acontece que agora os explorados
se reviram contra ela. A história adverte-o: quantos mais sofrimentos e
misérias a burguesia tiver ocasionado às classes trabalhadoras, com tanto
maior afinco resistirá o dia do acerto de contas e mais caro há de pagá-lo.
Igual que o Tribunal
Revolucionário, da Revoluçom Francesa, só que com procedimentos em geral
um bocado menos sumários, a Cheka da Revoluçom Russa julgava irrecusável
e implacavelmente os seus inimigos de classe; igual que o Tribunal Revolucionário,
julgava menos por cargos e acusaçons concretas do que pola origem social,
pola atitude política, pola mentalidade, pola capacidade de danar o inimigo.
Tratava-se mais bem de golpear umha classe através dos seus homens do que
de sopesar factos concretos. A justiça de classe nom se detém no exame de
casos individuais, mas nos períodod de calamaria.
Os erros, os abusos,
os excessos parecem-nos funestos, nomeadamente frente aos sectores sociais
que o proletariado deve tratar de agrupar: campesinato méido, camadas inferiores
das classes médias, intelectuais sem fortuna; de igual maneira, a respeito
dos dissidentes da revoluçom, revolucionários sinceros aos quais as ideologias
demasiado afastadas da compreensom das realidades da revoluçom fam adoptar
atitudes objectivamente contrarrevolucionárias. Lembro aqueles anarquistas
que, quando a frota vermelha defendia desesperadamente Kronstadt e Petrogrado
(1920) contra umha esquadra inglesa, continuavam imperturvavelmente a bordo
de alguns buques a sua boa e velha propaganda antimilitarista! Penso também
nos socialistas-revolucionários de esquerda que, em 1918, se empenhavam
em meter a República dos Sovietes, desprovida de exército e de todo o tipo
de recursos, numha nova guerra contra o imperialismo alemám, ainda rigoroso.
Entre estes “revolucionários” equivocados e os homens do antigo regime,
a repressom revolucionária esforça-se e deverá esforçar-se sempre por distinguir;
mas nom sempre é possível consegui-lo.
Em qualquer batalha
social, determinada percentagem de excessos, de abusos, de erros, nom poderám
ser evitados. O dever do partido e de todos os revolucionários é trabalhar
por diminui-los. A sua importáncia, em definitivo, nom dependente mais que
dos seguintes factores:
1) a proporçom
das forçaas enfrentadas e o grau de encarniçamento da luita;
2) o grau de organizaçom
da acçom; a eficácia do controlo do partido do proletariado sobre a acçom;
3) o grau de cultura
das massas proletárias e camponesas.
Umha certa crueladade
devém das circunstáncias materiais da luita: cheias, as prisons de umha
revoluçom proletária nom suportam, no que di respeito à higiene, a comparaçom
com as “boas prisons” da burguesia... em tempos normais. Nas cidades sitiadas,
onde reinam a fame e o tifo, nessas prisons as pessoas morrem mais do que
fora. Quê fazer? Quando o cárcere está cheio de operários e camponeses,
esta ociosa questom nom preocupa nem sequer os filantropos. Quando os communards
prisioneiros no campo de Satory dormiam a céu aberto sobre a lama e as pedras,
a tremer de frio nas noites geladas, abaixo da chuva torrencial –com proibiçom
de erguer-se, ordem às sentinelas para dispararem sobre qualquer que se
incorporasse, um grande filósofo, Taine, escrevia: “Esses miseráveis pugérom-se
fora da humanidade...”
Ao dia seguinte
de tomar o poder, o proletariado, solicitado por inúmeras tarefas, resolve,
naturalmente, as mais importantes: avitualhamento, organizaçom urbana, defesa
exterior e interior, inventário dos bens expropriados, embargo das riquezas.
Consagra a isto as suas melhores forças. Para a repressom revolucionária
nom resta –e é umha causa de erros e abusos— mais do que um pessoal subalterno
sob a chefia de homens que devem procurar-se entre os mais firmes e puros
(o que fijo a ditadura do proletariado na Rússia –Djerjinsky— e na Polónia
–Otto Corvin). Os assuntos da defesa interior de umha revoluçom som os mais
delicados, os mais difíceis, os mais dolorosos e às vezes os mais consternadores.
Os melhores dentre os revolucionários com elevada consciência, espírito
escrupuloso e carácter firme devem dedicar-se a tal tarefa.
Por meio deles
é que se exerce o controlo do partido. Este controlo, moral e político,
permanente neste e os outros domínios, exprime ao mesmo tempo a intervençom
da elite mais consciente da classe operária, e a intervençom um tanto menos
directa das massas populares sob o controlo efectivo de aqueles para os
quais o partido está presente em todos os actos da sua vida. Também garante
o espírito de classe da repressom. As possibilidades de erros e de abusos
reduzirám-se na medida em que as forças de vanguarda do proletariado puderem
agir nesse sector.
No decurso do
nosso estudo sobre a Okhrana, ocupamo-nos a fundo da provocaçom. Ela nom
é um elemento necessário na técnica de toda polícia. A tarefa de um polícia
é a de controlar, a de saber, a de prevenir. Nom a de provocar, cultivar
ou suscitar. No Estado burguês, a provocaçom judiciária policíaca, quase
que desconhecida nas épocas de estabilidade, toma umha importáncia crescente
à medida que o regime esmorece, enfraquece, escorrega para o abismo. A actualidade
basta para convencer-nos. Praticamente insignificante neste momento no movimento
operário de França, após as crises revolucionárias de fins de 1923, umha
importáncia menor da que já tivo na Rússia depois da revoluçom derrotada
de 1905. O processo de Leipzig, chamado da “cheka alemá”, durante
o qual se viu a polícia berlinesa montar, em casa de um dos defensores do
socialista Kurt Rosenfeld, um roubo nocturno (Abril-Maio de 1925), revela
na Segurança Geral do Reich intrigas muito semelhantes às da Okhrana.
Noutro país, onde a reacçom se enfrenta desde há quase dous anos com umha
revoluçom popular –Bulgária—, o mesmo fenómeno, mas mais acentuado ainda.
Na Polónia, a provocaçom tornou-se na arma por excelência da reacçom contra
o movimento operário. Limitemo-nos a estes exemplos.
A provocaçom policial
é principalmente a arma –ou o mal— dos Regimes em descomposiçom. Consciente
da sua impotência para prevenir ou para impedir, a sua polícia suscita iniciativas
que reprime imediatamente. A provocaçom também é um facto espontáneo, elementar,
resultante da desmoralizaçom de umha polícia encurralada, desbordada polos
acontecimentos, que nom pode com umha tarefa infinitamente superior às suas
forças e que tenta polo menos justificar a atençom e o favor dos seus patrons.
A Okhrana
nom pudo inpedir a queda da autocracia.
Mas a Cheka
contribuiu poderosamente para impedir a derrocada do poder dos soviets.
A autocracia russa,
mais do que ser derrubada, caiu por si própria. Bastou-lhe um empurrom. Aquele velho
prédio carcomido, do qual a imensa maioria da populaçom desejava a queda,
ruiu. O desenvolvimento económico da Rússia precisava de umha revoluçom,
que podia contra isso a Segurança Geral? Era da sua conta remediar os conflitos
de interesses confrontados, irreconciliáveis, decididos a tudo para sair
da situaçom que nom oferecia outra saída que a guerra de classes, conflito
entre a burguesia industrial e financeira, os grandes latifundiários, a
nobreza, os intelectuais, os desclassados, o porletariado e as massas camponesas?
A sua acçom nom podia proporcionar ao antigo regime, aina a condiçomde contar
com inteligentes medidas de política geral, mais do que recursos limitados.
Aquele cordom de polícias e de agentes provocadores tratava às cegas de
conter a determinaçom da vaga contra o velho farelhom resquebrado, bambeante,
que logo os enterraria abaixo do seu entulho. Que ironia!
A Cheka
nom cumpriu funçons tam absurdas.
Um país divido em brancos e vermelhos,
onde os vermelhos eram foçosamente
a maioria, procura o inimigo, desarma-o, espanca-o. Nom é mais do que umha
tina em maos da maioria contra a minoria, umha arma entre outras muitas,
acessória depois de tudo e que nom atinge grande importáncia mais do que
em razom do perigo de que a revoluçom poda ser ferida na cabeça polos paus
do inimigo. Conta-se que para o dia seguinte a ter tomado o poder, Lenine
passou umha noite em claro a redigir o decreto de expropriaçom da terra.
“Com tal de termos tempo para promulgá-lo”, dizia. “A ver quem é que entom
tenta derrogá-lo”. A expropriaçom dos domínios senhoriais proporcionou instantaneamente
aos bolcheviques a adesom de cem milhons de camponeses.
A repressom é
eficaz quando complementa o efeito de medidas eficazes de política geral.
Antes da Revoluçom de Outubro, quando o gabinete de Kerensky rejeita satisfazer
as reivindicaçons dos campones, a detençom dos agitadores revolucionários
nom fazia mais do que aumentar a irritaçom e a desesperaçom nas aldeias.
Após o deslocamento das forças sociais operado nos campos pola expropriaçom
dos domínios, o interesse dos camponeses leva-os a defenderem o poder dos
soviets; o arresto dos agitadores socialistas-revolucionários ou monárquicos,
decididos uns a explorar nos campos a sua passada popularidade e outros
a especular com o espírito religioso, suprimiu umha fonte de confusons.
A repressom é
umha arma eficaz em maos de umha classe enérgica, consciente do que quer
e que serve os interesses da imensa maioria. Em maos de umha aristocracia
degenerada, cujos privilégios constituem um obstáculo para o desenvolvimento
económico da sociedade, é historicamente ineficaz. Nom o dissimulemos mais:
a umha burguesia forte nos períodos decisivos, pode emprestar quase os mesmos
serviços que ao proletariado durante a guerra civil.
A repressom é
eficaz quando vai no sentido do desenvolvimento histórico; é afinal,
impotente quando vai contra o sentido do desenvolvimento histórico.
Em vinte ocasions,
tanto durante o mais intenso da guerra civil quanto antes da tomada do poder,
Lenine dedicou-se a restabelecer as teorias de Marx sobre a desapariçom
do Estado e sobre a aboliçom final da violência na sociedade comunista.
Umha das razons que invoca para preconizar a substituiçom da palavra social-democrata
pola palavra comunista para a designaçom do partido bolchevique é
que “o termo social-democrata é cientificamente inexacto. A democracia é
umha das formas do Estado. Mas, como marxistas, somos contra todo Estado”
[4]
. Também lembramos um artigo que escreveu em tempos difíceis,
por ocasiom do primeiro de Maio (em 1920, achamos). O punho de ferro do
partido proletário ainda mantinha o comunismo de guerra. O terror vermelho
só estava amodorrado. Por cima desse presente heróico e terrível, os homens
da revoluçom mantinham os olhos calmamente fixos na meta. Fechado a todo
utopismo, desdenhoso dos sonhos, mas dedicado inquebrantavelmente à consecuçom
dos objectivos essenciais da revoluçom, Lenine, chefe indiscutido do primeiro
Estado proletário, Lenine, animador de umha ditadura, evocava um futuro
em que o trabalho e a repartiçom do produto estariam regidos polo princípio:
“De cada quem segundo as suas capacidades, a cada quem segundo as suas necessidades”.
A diferença fundamental
entre o Estado capitalista e o Estado proletário é esta: o Estado dos trabalhadores
trabalha pola sua desapariçom. A diferença fundamental entre a violênica-repressom
exercida pola ditadura do proletariado é que esta última constitui umha
arma necessária da classe trabalhadora para a aboliçom de toda a violência.
Nom se debe esquecer
nunca. A consciência dos fins supremos é também umha força.
Em fins do século anterior podia-se alimentar o grande
sonho de umha transformaçom social idílica. Generosos espíritos dedicárom-se
a ele, desdenhando ou deformando a ciência de Marx. Imaginavam a revoluçom
social como a expropriaçom quase indolora de umha ínfima minoria de plutocratas.
Por que o proletariado magnánimo, rompendo as velhas espadas e os fusis
modernos, nom havia de perdoar os seus despossuídos exploradores da véspera?
Os derradeiros ricos extinguiriam-se pacificamente, ociosos, rodeados de
um burlom menosprezo. A expropriaçom dos tesouros acumulados polo capitalismo,
unida à reorganizaçom racionial da produçom, proporcionaria à sociedade
inteira, no seu momento, a segurança e a comodidade. Todas as ideologias
operárias de anteguerra estavam mais ou menos penetradas por essas falsas
ideias. O mito radical do progresso dominava-as. Entretanto, os capitalistas
aperfeiçoavam a sua artilharia. Na II Internacional, umha presa de marxistas
revolucionários desentranhavam sozinhos as grandes vertentes do desenvolvimento
histórico. Em França, à volta do problema da violência proletária, alguns
sindicalistas revolucionários viam claro.
Mas o capitalismo,
noutra época iníquo e cruel sem dúvida, mas criador de riquezas, converteu-se,
no apogeu da sua história, que começa em 2 de Agosto de 1914, no exterminador
da sua própria civilizaçom, no exterminador dos seus povos... desenvolvido
prodigiosamente durante um século de descobertas e de labor encarniçado,
com a técnica científica em maos dos grandes burgueses, dos chefes de bancos
e trusts, virou-se contra o homem. Todo o que servia para produzir, para
estender o poder humano sobre a natureza, para enriquecer a vida, serviu
para destruir e para mtar com um poderio repentinamente aumentado. Basta
umha tarde de bombardeamento para destruir umha cidade, obra de séculos
de cultura. Basta umha bala de 6 milímetros para paralisar totalmente o
cérebro melhor organizado. Nom podemos ignorar que umha nova conflagraçom
imperialista poderia ferir de morte a civilizaçom europeia já bastante espancada.
É razoável prever, em razom do progresso da “arte militar”, a despovoaçom
de países inteiros por umha aviaçom provista de armas químicas, cujo enorme
perigo denunciou em 1924 a Sociedade de Naçons –e nom será ela acusada de
demagogia revolucionária— num documento oficial. Ainda nom acabárom de ser
dispostos nos monumentos patrióticos o sangue e os ossos de milhons de mortos
de 1914-18, quando esta ameaça paira novamente sobre a humanidade. Tendo
presentes as duras realidades da revoluçom, é necessário lembrar estas cousas.
Os sacrifícios impostos pola guerra civil, a implacável necessidade do terror,
os rigores da repressom revolucionária, os erros inelutáveis e dolorosos
que aparecem entom reduzidos às suas justas proporçons. Som males ínfimos
se comparados com essas imensas calamidades. Se nom estivesse de mais, só
o ossário de Verdum os justificaria largamente.
“A revoluçom ou
a morte”. Esta frase de um combatente de Verdum continua a ser umha profunda
verdade. Nas próximas horas terríveis da história, esse será o dilema. Terá
chegado o momento para a classe operária de cumprir com esta dura, embora
saudável e salvadora tarefa: a revoluçom.
[2]
O baixo índice de natalidade inquieta sensivelmente
os chefes da burguesia francesa. As comissons instituidas para pesquisar
as suas causas chegárom à conclusom, o que é totalmente certo, de que
este fenómeno é característico de um Estado de pequenos rendistas. O que
é que o legislador pode fazer ante isto? Somente lhe resta admoestar platonicamente
o pequeño rendista que apenas quer um filho.
[3]
Já temos feito alusom noutro lugar às jornadas de
Junho de 1848. É deplorável o esquecimento em que tem caído esta página
edificante e gloriosa da história do proletariado francês. A burguesia
da II República atravessava umha crise cuja conseqüênica foi a extensom
do desemprego. Para o problema do desemprego só encontrou umha soluçom:
promover a sublevaçom e a seguir reprimi-la. Paul-Luis oferece na sua
Histoire du socialisme francais um quadro conciso destes acontecimentos.