O QUE É UMHA SITUAÇOM REVOLUCIONÁRIA?

Leon Trotsky

 

Artigo publicado em The Militant, 19 de Dezembro de 1931.

 

Para analisar umha situaçom, de um ponto de vista revolucionário, é necessário distinguir entre as condiçons económicas e sociais de umha situaçom revolucionária e a situaçom revolucionária propriamente dita.

As condiçons económicas e sociais de umha situaçom revolucionária se dam, em geral, quando as forças produtivas de um país estám em decadência; quando diminui sistematicamente o peso do país capitalista no mercado mundial e os recursos das classes também se reduzem sistematicamente; quando o desemprego já nom é simplesmente a conseqüência de umha flutuaçom conjuntural, mas um mal social permanente com tendência a se elevar. Estas som as características da situaçom de Inglaterra; podemos dizer que ali se dam e se aprofundam diariamente as condiçons económicas e sociais de umha situaçom revolucionária. Porém, nom podemos esquecer que a situaçom revolucionária deve ser definida politicamente – nom apenas sociologicamente –, e aqui entra o factor subjectivo, o qual nom consiste somente no problema do partido do proletariado, mas que é umha questom de consciência de todas as classes, obviamente, fundamentalmente do proletariado e o seu partido.

A situaçom revolucionária somente existe quando as condiçons económicas e sociais que permitem a revoluçom provocam mudanças bruscas na consciência da sociedade e de suas diferentes classes. Quais mudanças?

Para a nossa análise, devemos considerar as três classes sociais: a capitalista, a classe média e o proletariado. Som muito diferentes as mudanças de mentalidade necessárias em cada umha destas classes.

O proletariado británico sabe muito bem, muito melhor do que todos os teóricos, que a situaçom económica é muito grave. Porém, a situaçom revolucionária se desenvolve apenas quando o proletariado começa a buscar umha saída, nom sobre os trilhos da velha sociedade, mas polo caminho da insurreiçom revolucionária contra a ordem existente. Esta é a condiçom subjectiva mais importante de umha situaçom revolucionária. A intensidade dos sentimentos revolucionários das massas é um dos índices mais importantes da maturidade da situaçom revolucionária.

Contudo, a etapa seguinte à situaçom revolucionária é a que permite ao proletariado converter-se na força dominante da sociedade, e isto depende até certo ponto (ainda que menos em Inglaterra do que em outros países) das ideias e sentimentos políticos da classe média, da sua desconfiança em todos os partidos tradicionais (incluindo o Partido Trabalhista, que é reformista, ou seja, conservador) e de que deposite suas esperanças numha mudança radical, revolucionária, da sociedade (e nom numha mudança contra-revolucionária, isto é, fascista).

As mudanças no estado de ánimo da classe média e do proletariado correspondem e som paralelas às alteraçons no estado de ánimo da classe dominante. Quando esta enxerga que é incapaz de salvar o seu sistema, perde confiança em si mesma, começa a se desintegrar, divide-se em fracçons e camarilhas.

Nom se pode saber de antemao, nem indicar com exatidom matemática, em que momento desses processos, a situaçom revolucionária está madura. O partido revolucionário apenas pode descobri-lo através da luita polo crescimento de suas forças e influência sobre as massas, sobre os camponeses e a pequena burguesia das cidades etc.; e polo debilitamento da resistência das classes dominantes.

Aplicando estes critérios à situaçom da Gram Bretanha, vimos que:

As condiçons económicas e sociais existem e se tornam mais prementes e agudas.

Todavia, estas condiçons económicas nom provocarám umha resposta psicológica. Nom fai falta umha mudança nas condiçons económicas, já intoleráveis, mas umha mudança na atitude das distintas classes diante desta intolerável e catastrófica situaçom que vive Inglaterra.

O desenvolvimento económico da sociedade é um processo muito gradual, que se mede em séculos e décadas. Porém, quando se alteram radicalmente as condiçons económicas, a resposta psicológica, já demorada, pode aparecer muito rápido. E, assim, sucedendo rápida ou lentamente, essas mudanças inevitavelmente devem alterar o estado de ánimo das classes. Somente entom temos umha situaçom revolucionária.

Em termos políticos, isto significa:

Que o proletariado deve perder a sua confiança nom apenas nos conservadores e nos liberais mas também no Partido Trabalhista. Deve concentrar a sua vontade e sua coragem nos objectivos e métodos revolucionários.

Que a classe média deve perder a sua confiança na grande burguesia, nos senhores, e voltar os seus olhos ao proletariado revolucionário.

Que as classes possuidoras, as camarilhas governantes, rechaçadas polas massas, perdem a confiança em si mesmas.

Essas atitudes desenvolverám-se inevitavelmente, porém ainda nom existem. Podem desenvolver-se num breve lapso devido à gravidade da crise. Este processo pode durar dous ou três anos, inclusive um ano. Porém, hoje é umha perspectiva, nom um facto. Temos que assentar a nossa política nos factos de hoje, nom nos de amanhá.

As condiçons políticas de umha situaçom revolucionária desenvolvem-se simultánea e mais ou menos paralelamente, todavia isso nom significa que amadureçam todas ao mesmo tempo: esse é o perigo que nos ameaça. Das condiçons políticas actuais, a mais imatura é o partido revolucionário do proletariado. Nom está excluída a possibilidade de que a transformaçom revolucionária do proletariado e da classe média, e a desintegraçom da classe dominante, se desenvolvam mais rapidamente que a maturaçom do Partido Comunista. Isso significa que poderia dar-se umha verdadeira situaçom revolucionária sem um partido revolucionário adequado. Em certa medida, repetirá-se o que ocorreu na Alemanha em 1923. Porém, é um erro absoluto considerar que esta é hoje a situaçom de Inglaterra.

Dizemos que nom está excluída a possibilidade de que o partido poda estar em descompasso com os demais elementos da situaçom revolucionária, todavia nom é inevitável. Nom podemos fazer um prognóstico exacto, mas aqui nom se trata de um problema de prognósticos e sim de nossa actividade.

Nesta conjuntura, quanto tempo necessitará o proletariado británico para romper os seus vínculos com os três partidos burgueses? É muito possível que, com umha política correcta, o Partido Comunista cresça proporcionalmente à bancarrota e desintegraçom dos demais partidos. O nosso objectivo e o nosso dever som concretizar essa possibilidade.

Conclusons: isso é suficiente para explicar porque é totalmente erróneo colocar que em Inglaterra o conflito político se dá entre a democracia e o fascismo. A era fascista começa, seriamente, depois de umha vitória importante e temporalmente decisiva da burguesia sobre a classe operária. Contudo, em Inglaterra as grandes luitas ainda nom ocorrêrom. Como já assinalamos, referindo-nos a outro tema, o próximo capítulo político da Inglaterra, depois da queda do governo nacional e do conservador que provavelmente o suceda – será possivelmente liberal-trabalhista –, que num futuro próximo pode tornar-se mais perigoso que o espectro do fascismo. Condicionalmente, denominamos esta etapa como kerenskismo británico.

Todavia, há que acrescentar que nom necessariamente em toda etapa e em todos os países o kerenskismo será tam débil como foi o russo, que o era porque o Partido Bolchevique era forte. Por exemplo, na Espanha o kerenskismo – a coligaçom de liberais e “socialistas” – nom é, de maneira algumha, tam débil como o foi na Rússia, e isso deve-se à debilidade do Partido Comunista. O kerenskismo combina a fraseologia reformista, “revolucionária”, “democrática”, “socialista” e as reformas sociais democráticas de importáncia secundária com a repressom à ala esquerda da classe operária.

É um método oposto ao do fascismo, porém serve aos mesmos fins. A derrota do futuro lloydgeorgismo somente será possível se sabemos prever a sua chegada, se nom nos deixamos hipnotizar polo espectro do fascismo – que hoje é um perigo muito mais distante que Lloyd George e sua ferramenta do futuro, o Partido Trabalhista. Amanhá o perigo pode ser o partido reformista, o bloco de liberais e socialistas; o perigo fascista, todavia, está muito distante. A nossa luita para eliminar a etapa fascista e eliminar ou reduzir a etapa reformista é a luita por ganhar a classe operária para o Partido Comunista.

 

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