FASCISMO: O QUÊ É E COMO COMBATÊ-LO. Leon Trotsky

Primeira compilaçom sob o título  "FASCISM: What it is and how to fight it" a cargo de Pioneer Publishers em Agosto de 1944 e reprimpresso em 1964.   

PANFLETO  

CONTEÚDOS

 

·         1969 Introduçom por George Lavan Weissman

·         Fascismo. O quê é?

·         Como triunfou Mussolini

·         O perigo fascista paira sobre a Alemanha

·         Umha fábula de Esopo

·         A polícia e o exército alemáns.

·         A burguesia, a pequena burguesia , e o proletariado

·         O colapso da democracia burguesa

·         Teme a pequena burguesia a revoluçom?

·         A milícia operária e os seus oponentes

·         A perspectiva nos Estados Unidos

·         Construir o Partido Revolucionário!

 

  Voltar ao índice da Biblioteca Marxista em Galego

1969 INTRODUÇOM AO PANFLETO
Por George Lavan Weissman

 

Os liberais e mesmo a maior parte de aqueles que se consideram marxistas som culpáveis hoje do uso da palavra fascista de maneira muito imprecisa. Soltam-na como um epíteto ou palavrom contra figuras da ala direita que desprezam particularmente, ou contra pessoas reaccionárias em geral.

Desde a Segunda Guerra Mundial, o termo fascista tem sido aplicado quer a figuras quer a movimentos como Gerald L. Smith, o Senador Joseph McCarthy, o Senador Eastland, Barry Goldwater, (the Minutemen), a Sociedade John Birch, Richard Nixon, Ronald Reagan, e George Wallace.

Ora, fôrom todos eles fascistas, ou apenas alguns deles? Se apenas alguns, como podemos dizer quais som e quais nom?

O uso indiscriminado do uso do termo reflecte na verdade a vaguidade do seu significado. Perguntado sobre a definiçom do fascismo, o liberal responde com termos como ditadura, neurose colectiva, anti-Semitismo, o poder de umha propaganda sem escrúpulos, o efeito hipnótico de um orador genial e maluco sobre as massas, etc. O impressionismo e a confusom no sector liberal nom é surpreendente. Mas a superioridade do marxismo consiste na sua habilidade para analisar e diferenciar a natureza dos fenómenos sociais e políticos. Que muitos dos que se chamam a si próprios marxistas nom sejam capazes de definirem o fascismo de maneira mais adequada do que os liberais nom é culpa totalmente sua. Estiverem ou nom interessados polo tema, grande parte da sua herança vem da social-democracia (socialismo reformista) e dos movimentos estalinistas, que dominárom a esquerda na década de 30, quando o fascismo foi atingindo vitória após vitória. Estes movimentos nom só permitírom ao nazismo chegar ao poder na Alemanha sem que houvesse um disparo, senom que fracassárom totalmente na compreensom da natureza e as dinámicas do fascismo e o caminho para combatê-lo. Após a vitória do fascismo, eles tivérom muito que ocultar e entom abstivérom-se de fazer análises Marxistas que pudessem, polo menos, ter educado as geraçons posteriores. Mas há umha análise Marxista do fascismo. Esse foi um dos grandes contributos de Trotsky ao Marxismo. Começou a tarefa depois da vitória de Mussolini na Itália em 1922 e levou-na a um alto grau  de elaboraçom nos anos que precedêrom o triunfo de Hitler na Alemanha em 1933. No seu intuito de advertir o Partido Comunista Alemám e a Internacional Comunista (Comintern) do mortal perigo e agrupar umha fronte unida contra o nazismo, Trotsky fijo umha crítica ponto por ponto das políticas da social-democracia e dos partidos estalinistas. As quais constituem um compêndio do culmen do erradas, inefectivas, e suicidas posiçons que as organizaçons operárias podem tomar no que di respeito ao fascismo, desde as posiçons dos partidos alemáns dirigidos pola inoperáncia oportunista e pola traiçom da direita (social democrata) até o abstencionismo e a traiçom ultra-esquerdista (estalinista).

O Movimento Comunista estava ainda na sua bebedeira ultra-esquerdista (o dito Terceiro Período) quando o movimento Nazi começou a multiplicar-se. Para os estalinistas, qualquer partido capitalista esta automaticamente “fascista”. Ainda mais catastrófica do que esta desorientaçom dos trabalhadores foi a máxima estalinista segundo a qual, sendo opostos, o fascismo e a social democracia eram “gémeos”. Os socialistas fôrom chamados “social fascistas” e olhados como o principal inimigo. Com certeza, nom podia constituir-se umha frente unida com organizaçons social-fascistas, e aqueles que, como Trotsky, urgiam tais frentes unidas, fôrom também etiquetados de social fascistas e tratados de acordo com isso.

Como se divorciou da realidade a linha estalinista pode ser ilustrado lembrando a sua traslaçom aos termos americanos. Nas eleiçons de 1932, os estalinistas americanos denunciárom Franklin Roosevelt como o candidato fascista e Norman Thomas como o candidato social-fascista. O que foi ridículo como aplicado aos EEUU foi trágico na Alemanha e Áustria.

(Recentemente [1969], o termo social fascismo começou a ser cultivado em artigos por membros da nova esquerda. Imaginam os que o usam quem inventou o termo? Ou, se eles conhecem a sua história, som-lhes indiferentes as suas conotaçons?)

Após a chegada dos nazis ao poder, os estalinistas gabavam-se de que a sua linha tinha sido cem por cem correcta, que Hitler botaria uns meses e que a Alemanha Soviética emergiria a seguir. O tempo limite para esse milagre era estimado em três, seis, ou nove meses, e entom as simples ostentaçons tornárom-se em silêncio. A magnitude da derrota sofrida pola classe operária, o carácter especial do fascismo, que o distingue de outros regimes ou ditaduras, chegou a ser evidente para todos, e a ameaça para a Uniom Soviética e o rearmamento do imperialismo alemám começou a tornar-se real. Isto levou a umha mudança na linha de Moscova por volta de 1935 e os partidos comunistas do mundo aginha começárom a abalar para a direita, o mesmo que os social-democratas. Esta foi a sua postura face ao despregamento do perigo fascista em França e na Espanha. A ruína militar dos fascismos alemám e italiano na Segunda Guerra Mundial convenceu a maioria da gente de que o fascismo fora destruído para todo o sempre e tal foi também absolutamente desmentido, como que nom poda nunca atrair novos seguidores. Ainda desde aquela altura, a emergência de novos grupos e tendências fascistas nomeadamente em quase todos os países capitalistas, tem desacreditado tais ilusons. A ilusom de que a Segunda Guerra Mundial foi suficiente para salvar o mundo do fascismo foi o caminho da fácil ilusom de que a Segunda Guerra Mundial foi feita para salvar o mundo para a democracia. O germe do fascismo é endémico no capitalismo; umha crise pode elevá-lo a proporçons epidémicas se umha série de medidas preventivas nom forem aplicadas.

Como a informaçom prévia é a melhor prevençom, oferecemos esta nova compilaçom –umha pequena selecçon de escritos de Trotsky sobre o assunto –como umha arma para o arsenal anti-fascista.

 

Voltar ao índice

 

O FASCISMO. O QUÊ É?

Extractos de umha carta a um camarada inglês, em 15 de Novembro de 1931; impresso por O Militante, 16 de Janeiro de 1932

 

O quê é o fascismo? O nome tem a sua origem na Itália. Fôrom todas as formas de  contra-revoluçom ditaduras fascistas ou nom (quer dizer, as prévias à chegada do fascismo na Itália)?

A antiga ditadura de Primo de Rivera na Espanha, 1923-30, foi chamada fascista polo Comintern. É correcto ou nom? Nós achamos que é incorrecto. O movimento fascista na Itália foi um movimento espontáneo de amplas massas, com novos dirigentes tomados da tropa de trabalhadores de a pé. É um movimento popular em origem, dirigido ou financiado por grandes poderes capitalistas. Tomou força da pequena burguesia, do lumpemproletariado, e mesmo de alguns sectores das massas proletárias; Mussolini, um antigo socialista, é um homem “feito a si próprio” que cresce desse movimento.

Primo de Rivera foi um aristocrata. Ocupou um alto posto militar e burocrático e foi governador chefe da Catalunha. Efectivou a sua ascensom com a ajuda do Estado e das forças militares.  As ditaduras da Espanha e Itália som duas formas totalmente diferentes de ditadura. Portanto, cumpre distinguirmo-las. Mussolini tivo dificuldades para reconciliar muitas velhas instituiçons militares com a milícia fascista. Este problema nom se colocou no caso de Primo de Rivera.

O movimento na Alemanha é análogo em maior medida com o caso italiano. É um movimento de massas, com os seus dirigentes a recorrerem a umha grande demagogia socialista. Isto é-lhes necessário para a criaçom do movimento de massas.

A genuína base (para o fascismo) é a pequena burguesia. Na Itália, é umha muito ampla base –a pequena burguesia das cidades e as vilas, e os camponeses. Na Alemanha, igualmente, há umha ampla base para o fascismo...

Deve ser dito, e isto é verdade até certo ponto, que a nova classe média, os funcionários do Estado, os administradores privados, etc., podem constituir tal base. Mas esta é umha nova questom que deve ser analisada...

Com o intuito de ter previsom no que di respeito ao fascismo, cumpre formular umha definiçom dessa ideia. O quê é o fascismo? Qual é a sua base, a sua forma, e as suas características? Como terá lugar o seu desenvolvimento? É necessário procedermos com um método científico e marxiano.

 

Voltar ao índice

 

COMO TRIUNFOU MUSSOLINI

De O quê fazer? Questom vital para o Proletariado Alemám, 1932

 

No momento em que os recursos políticos e militares “normais” da ditadura burguesa, junto das suas máscaras parlamentares, nom som suficientes para manter a sociedade em estado de equilíbrio, chega a vez do regime fascista. Através do recurso fascista, o capitalismo mantém em movimento as massas da pequena burguesia e os bandos do desclassado e desmoralizado lumpemproletariado, todos os inumeráveis seres humanos que o capital financeiro conduziu à desesperaçom e à loucura.

Através do fascismo, a burguesia efectiva um trabalho a fundo; umha vez que fai saltar os mecanismos da guerra civil, insiste em manter a paz por um período de anos. E o recurso fascista, mediante a utilizaçom da pequena burguesia como bateria de choque, por meio da derrubada de todos os obstáculos no seu caminho, fai esse trabalho a fundo. Após a vitória fascista, o capital financeiro directa e imediatamente reúne nas suas maos, como um torno de aço, todos os órgaos e instituiçons da soberania, o executivo, o administrativo e os poderes educacionais do Estado: o aparelho estatal completo junto do exército, os concelhos, as escolas, a imprensa, os sindicatos e as cooperativas. Quando o Estado se torna fascista, nom significa apenas que as formas e métodos de governo som mudados consoante com os padrons fixados por Mussolini –as mudanças nessa esfera jogam afinal um rol menor— senom que significa primeiro de tudo que a maior parte das organizaçons operárias som aniquiladas; que o proletariado é reduzido a um estado amorfo; e que o sistema de administraçom se incrusta fundamente nas massas e serve para frustrar a cristalizaçom independente do proletariado. Eis precisamente a essência do fascismo...

***

O fascismo italiano foi a imediata conseqüência da traiçom por parte dos reformistas da rebeliom do proletariado italiano. Da altura em que a [primeira] guerra [mundial] findou, houvo umha tendência à alça no movimento revolucionário na Itália, e em Setembro de 1920 derivou na tomada de feitorias e indústrias polos trabalhadores. A ditadura do proletariado era um facto certo; o único que faltava era organizá-la e desenhá-la tirando as necessárias conclusons. A social democracia levou medo e recuou. Depois dos seus corajosos e heróicos esforços, o proletariado foi abandonado perante o vazio. O trastorno do movimento revolucionário chegou a ser o mais importante factor no crescimento do fascismo. Em Setembro, o avanço revolucionário ficou parado; e Novembro já foi testemunha da primeira grande demonstraçom dos fascistas (a tomada de Bolonha).

[NOTA: A campanha fascista de violência começou em Bolonha, em 21 de Novembro de 1920. Quando os vereadores social-democratas, vitoriosos nas eleiçons municipais, aparecêrom na entrada da cidade para apresentar o novo presidente da cámara, fôrom recebidos com armas de fogo, morrendo dez assassinados e ficando cem feridos. Os fascistas continuárom com “expediçons de castigo” por lugares próximos, um reduto das “Ligas Vermelhas”. Estes “esquadrons de acçom”, vestidos de preto e em veículos fornecidos por grandes terratenentes, tomárom vilas em ataques relámpago, ferindo e assassinando camponeses de esquerda e líderes operários, destroçando as sedes radicais, e aterrorizando a populaçom. Empurrados polos seus fáceis sucessos, os fascistas iniciárom entom ataques a larga-escala nas grandes cidades.]

Na verdade, o proletariado, ainda depois da catástrofe de Setembro, conseguiu desenvolver batalhas defensivas. Mas a social democracia só se preocupava com umha cousa: retirar os trabalhadores do combate a custa de umha concessom após outra. A social democracia esperava que a dócil conduta dos trabalhadores restauraria a “opiniom pública” da burguesia contra os fascistas. No entanto, os reformistas ainda o figérom pior pedindo a ajuda do Rei Vítor Manuel. Afinal, contenhem os trabalhadores quanto podem na sua luita contra os bandos de Mussolini. Nom lhes serviu de nada. A coroa, arroupada pola burguesia, bota-se aos braços do fascismo. Convencidos no último momento de que o fascismo nom havia de ser detido pola obediência, os social-democratas figérom um chamado aos operários para irem à greve geral. Mas a sua proclamaçom resultou um fracasso. Os reformistas apagaram a polvoreira durante tanto tempo, por medo a que pudesse explodir, que quando afinal quigérom prendê-la com a sua trémula mao, nom o conseguírom.

Dous anos depois do seu início, o fascismo estava no poder. Atrincheirou-se nele mercê de factos como que o seu primeiro período de mandato coincidiu com umha conjuntura económica favorável, após a depressom de 1921-22. Os fascistas esmagárom o proletariado em retirada por meio das forças de choque da pequena burguesia. Mas isto nom foi atingido tam facilmente. Ainda depois de ter assumido o poder, Mussolini procedeu com umha dupla precauçom: carecia ainda de modelos próprios e prontos. Durante os dous primeiros anos, a constituiçom nom foi ainda alterada. O governo fascista tomou o carácter de coligaçom. Enquanto isso, os bandos fascistas ocupavam-se do trabalho com porras, facas e pistolas. Só depois é que foi criado, aos poucos, o  governo fascista, o que supujo a completa estrangulaçom das organizaçons de massas independentes.

Mussolini conseguiu isto a custa da burocratizaçom do seu próprio partido fascista. Após a utilizaçom das forças de choque da pequena burguesia, o fascismo estrangulou-nas com o torno do Estado burguês. Mussolini nom poderia ter actuado de outro modo, já que a desilusom das massas que ele unira o precipitavam num perigoso futuro imediato. O fascismo, ao converter-se em  burocrático, aproxima-se muito de outras formas de ditadura militar e policial. E nom conserva por muito tempo o seu antigo sustento social. A reserva principal do fascismo –a pequena burguesia— vira-se representada por ele. Só a inércia histórica permite aos fascistas manter o proletariado no seu estado de dispersom e impotência...

Quanto à política referente a Hitler, nom cumpre acrescentar umha só palavra sobre o papel da social democracia alemá: repetem-se acentuadamente os erros que caracterizaram a acçom dos reformistas italianos, embora com maiores doses de temperamento. A explicaçom do fascismo como psicose de posguerra; a social democracia vê nele um “Versalhes” ou crise psicológica. Em ambos os supostos, os reformistas apontam para o carácter orgánico do fascismo como movimento de massas crescente no colapso do capitalismo.

[NOTA: O Tratado de Versalhes, impujo-se à Alemanha após a Segunda Guerra Mundial; foi profundamente odiado polo que supujo de tributo sem fim às vitoriosas forças aliadas em forma de “reparaçons” polos danos e perdas na Guerra. A “crise” referida no parágrafo anterior foi a depressom económica que assolou o mundo capitalista em 1929.]

Ante o temor à mobilizaçom revolucionária dos trabalhadores, os reformistas italianos pugérom as suas esperanças no “Estado”. A sua palavra-de-ordem era “Ajuda! Vítor Manuel, exerce pressom!”. Mas a social democracia alemá carecia do baluarte democrático que suporia um monarca leal à constituiçom. Por isso tivérom de ser contentar com um presidente: “Ajuda!, Hindenburg, exerce pressom!”.

[NOTA: Field Marshal Paul von Hindenburg (1847-1934), JUNKER general que ganhara fama na Primeira Guerra Mundial e mais  tarde chegara a ser presidente da República de Weima. EM 1932, os social-democratas apoiárom-no para a reeleiçom como um “mal menor” face os nazis. Ele foi quem nomeou Hitler chanceler em Janeiro de 1933.]

Enquanto luitavam contra Mussolini, quer dizer, enquanto se retiravam ante ele, Turati exibiu a sua brilhante palavra-de-ordem, “Cumpre ter a coragem de ser um covarde”." [Filippo Turati (1857-1937), principal teórico reformista do Partido Socialista Italiano.] Os reformistas alemáns foram menos brincalhons com as suas palavras-de-ordem. Eles reclamavam “coragem ante a impopularidade” (Mut zur unpopularitaet), o que vinha a significar a mesma cousa. Cumpre nom Ter medo à impopularidade causada pola própria contemporizaçom covarde com o inimigo.

Idênticas causas produzírom idênticas conseqüências. Foi a marcha dos acontecimentos condicionada pola direcçom do partido social-democrata que assegurou a carreira de Hitler. Deve-se admitir, no entanto, que o Partido Comunista Alemám tinha aprendido algo da experiência italiana.

O Partido Comunista Italiano criara-se quase simultaneamente com o fascismo. Mas as mesmas condiçons de maré revolucionária em decadência, que levárom os fascistas ao poder, servírom para dissuadir o desenvolvimento do Partido Comunista. Esta circunstáncia impediu-lhe acometer a eliminaçom do perigo fascista; contentou-se ele próprio com ilusons revolucionárias; foi inimigo irreconciliável da política de frente unida; resumindo, estava atingido por todas as doenças infantis. Nom é estranho! Tinha apenas dous anos de vida. Aos seus olhos, o fascismo semelhava ser apenas a “reacçom capitalista”. O Partido Comunista foi incapaz de perceber os traços particulares do fascismo que provenhem da mobilizaçom da pequena burguesia contra o proletariado. Os camaradas italianos informárom-me de que, com a única excepçom de Gramsci, o Partido Comunista nom dava crédito à hipótese de os fascistas tomarem o poder. Umha vez que a revoluçom proletária ficara derrotada, umha vez que o capitalismo impedira o seu ascenso e que a contra-revoluçom tinha triunfado, por quê havia de ir mais longe com um novo levantamento contra-revolucionário? Por quê a burguesia havia de alçar-se contra si própria? Tal foi a natureza da orientaçom política do Partido Comunista Italiano. No entanto, cumpre nom perdermos de vista o facto de o fascismo italiano ser na altura um fenómeno novo, ainda em processo de formaçom; nom teria sido labor fácil mesmo para um partido experimentado distinguir os seus traços específicos.

 [NOTA: Antonio Gramsci (1891-1937): fundador do Partido Comunista Italiano, feito preso por Mussolini em 1926, morreu na cadeia 11 anos mais tarde. Enviou umha carta, em nome do comité político do partido italiano, protestando pola campanha de Staline contra a Oposiçom de Esquerda.Taglatti, na altura em Moscova como representate italiano no Comitern, ocultou essa carta.  Durante a etapa de Staline, a memória de Gramsci foi deliberadamente banida. No período de des-Estalinizaçom, porém, foi”redescoberto” polo Partido Comunista Italiano e oficialmente considerado herói e mártir. Desde entom, foi considerado e aclamado internacionalmente polos seus escritos teóricos, nomeadamente os seus apontamentos na prisom.]   

A direcçom do Partido Comunista Alemám reproduz hoje quase literalmente a posiçom tomada polos comunistas italianos no seu ponto de partida; o fascismo nom é mais do que a reacçom capitalista; do ponto de vista do proletariado, a diferença entre os diversos tipos de reacçom capitalista nom merece consideraçom. Este radicalismo vulgar é menos escusável porque o partido alemám é muito mais velho do que era o italiano no período correspondente; para além do mais, o marxismo foi enriquecido pola experiência italiana. Insistir em que o fascismo está já aqui, ou negar as suas grandes possibilidades de atingir o poder, equivalem a umha e a mesma cousa. Porque ignorando a natureza específica do fascismo, a vontade de combatê-lo fica inevitavelmente paralisada. A maior responsabilidade recai, com certeza, na direcçom do Comintern. Nomeadamente os comunistas italianos estavam obrigados a alçar a sua voz de alarme. Mas Staline, junto de Manuilsky, compelírom-nos a rejeitarem as mais importantes liçons do seu próprio aniquilamento.

[NOTA: Dmitri Manuilsky (1883-1952): Chefiou o Comintern de 1929 a 1934; a sua mudança anunciada abalou do ultra-esquerdismo ao oportunismo do período da Frente Popular. Mais tarde apareceu no palco diplomático, como delegado nas Naçons Unidas.]

Temos observado com quê diligente facilidade Ercoli mudou da sua posiçom a respeito do social fascismo para a sua posiçom de espera passiva ante a vitória fascista na Alemanha.

 [NOTA: Ercoli. Alcunha no Comintern de Palmiro Togliatti (1893-1964). Chefiou o Partido Comunista Italiano após o encarceramento de Gramsci. Sobreviveu todos os ziguezagues da linha do Comintern, mas após a morte de Staline criticou o papel deste bem como a sua linha na URSS e no movimento comunista internacional.]

 

Voltar ao índice

 

O PERIGO FASCISTA PAIRA SOBRE A ALEMANHA

De O giro na Internacional Comunista e a situaçom alemá, 1930

 

A imprensa oficial do Comintern interpreta agora os resultados das eleiçons da Alemanha [Setembro de 1930] como umha prodigiosa vitória do comunismo, que situaria na ordem do dia a palavra-de-ordem da “Alemanha soviética”. Os burocratas optimistas recusam reflectir sobre o significado da relaçom de forças revelada polas estatísticas eleitorais. Examinam o incremento de votos comunistas independentemente das tarefas revolucionárias criadas pola situaçom e os obstáculos estabelecidos. O partido comunista recebeu por volta de 4.600.000 votos, face aos 3.300.000 em 1928. Do ponto de vista dos mecanismos “normais” do palamentarismo, o ganho de 1.300.000 votos é considerável, mesmo levando em conta o aumento o aumento no número total de votantes. Mas o ganho do partido fica ensombrado completamente se comparado com o progresso do fascismo, que passa de 800.000 a 6.400.000 votos. De nom menor importáncia para a avaliaçom das eleiçons é o facto de a social democracia, apesar das perdas substanciais, reter os seus quadros principais e ainda receber um maior número de votos operários [8.600.000] do que o Partido Comunista.

No entanto, se nos perguntarmos que combinaçom de circunstáncias internas e externas poderiam fazer virar a classe operária do lado do comunismo com maior velocidade, nom acharíamos um exemplo de melhores circunstáncias para um giro tal do que a actual situaçom na Alemanha: A soga do Young, a crise económica, a decadência dos dirigentes, a crise do parlamentarismo, o incrível auto-desmascaramento da social democracia no poder. Do ponto de vista destas cirscunstáncias históricas concretas, a influência do Partido Comunista na vida social do país, apesar do ganho de 1.300.000 votos, devém proporcionalmente pequena.

[NOTA: “A soga do Young”: di respeito ao Plano Young. Após Owen D. Young, poderoso homem de negócios norte-americano, que foi Agente-geral para a reparaçom da Alemanha durante a década de 20. No verao de 1929, foi presidente da conferência que adoptou o seu plano, que substituiu o mal sucedido Plano Dawes, para “facilitar” que a Alemanha pagasse as reparaçons acordadas no Tratado de Versalhes].

A fraqueza da posiçom do comunismo, totalmente ligada à política e funcionamento interno do comintern, revela-se mais claramente se compararmos o peso social actual do Partido Comunista com estas concretas e inadiáveis tarefas que as actuais circunstáncias históricas colocárom na sua frente.

É certo que o Partido Comunista nom contava com ganho semelhante de votos. Mas isso prova que ante a desfeita dos seus erros e defeitos, a direcçom do Partido Comunista deixou de ter grandes objectivos e perspectivas. Se ontem subestimava as suas possibilidades, hoje ainda subestima mais as dificuldades. Por esta via, um perigo vê-se multiplicado polo outro.

Para além do mais, a primeira qualidade de um autêntico partido revolucionário é a de ser capaz de olhar a realidade cara a cara.

Para que a crise social poda ser conduzida para a revoluçom proletária, cumpre que, ao lado de outras condiçons, se dê um decisivo movimento das classes pequeno burguesas na direcçom do proletariado. Isto daria ao proletariado a ocasiom de pôr-se à frente da naçom e liderá-la. As últimas eleiçons revelam –e isto é o seu principal valor sintomático— umha tendência no sentido contrário. Sob a desfeita da crise, a pequena burguesia tem-se decantado nom pola revoluçom proletária, mas pola mais radical reacçom imperialista, empurrando nessa direcçom um considerável sector do próprio proletariado.

O crescimento gigantesco do nacional socialismo é expressom de dous factores: umha profunda crise social, que desestabiliza o equilíbrio das massas pequeno burguesas, e a carência de um partido revolucionário que apareça ante as massas populares como reconhecido dirigente revolucionário. Se o Partido Comunista é o partido da esperança revolucionária, o fascismo é, como movimento de massas, o partido da desesperança contra-revolucionária. Quando a esperança revolucionária abraça as massas proletárias ao completo, isso empurra inevitavelmente no caminho da revoluçom consideráveis e crescentes camadas pequeno-burguesas. Precisamente nesse plano, as eleiçons oferecem a imagem oposta: a desesperança contra-revolucionária abraça as massas pequeno burguesas com tanta força que que empurra importantes sectores do proletariado...

O fascismo na Alemanha tem-se convertido num perigo real, como umha aguda expressom da posiçom de indefenso em que se acha o regime burguês, o papel conservador da social democracia nesse regime, e a impotência acumulada polo Partido Comunista para derrubá-lo. Quem negar isto, é cego ou um fanfarrom.

O perigo atinge particular gravidade ligado com a questom do ritmo de desenvolvimento, que nom depende apenas de nós. O estado febril detectado na curva política  com motivo das eleiçons mostra que o ritmo de desenvolvimento da crise nacional pode decorrer com rapidez. Por outras palavras, o curso dos acontecimentos num muito próximo futuro pode fazer ressurgir na Alemanha, num novo plano histórico, a velha trágica contradiçom entre a madureza de umha situaçom revolucionária, de umha parte, e a fraqueza e impotência estratégica do partido revolucionário, de outra. Isto deve ser dito com clareza, abertamente e, sobretudo, a tempo.

Pode ser calculada com antecedência a força da resistência conservadora dos trabalhadores social-democratas? Nom tal. À luz dos acontecimentos do passado ano, essa força semelha ser  gigantesca. Mas na verdade o que mais ajudou à coesom da social democracia foi a política errada do partido Comunista, que achou a sua mais alta expressom na absurda teoria do social fascismo. Para medirmos a resistência real da social democracia, cumpre um diferente instrumento de medida, quer dizer, umha correcta táctica comunista. Eom essa condiçom –e nom é condiçom pequena— o grau de unidade interna real da social democracia pode revelar-se em pouco tempo.

Embora de modo diferente, o que foi dito anteriormente também tem a sua aplicaçom no fascismo: Desenvolveu-se, de umha parte, a partir da inestabilidade das condiçons criadas pola estratégia Zinoviv-Staline. Qual é a sua força ofensiva? Qual a sua estabilidade? TEm atingido o seu ponto álgido, como nos asseguram os optimistas profissionais [Comintern e paridos comunistas oficiais], Ou está apenas no primeiro degrau da escada? Isto nom pode ser predito mecanicamente. Pode determinar-se sjó através da acçom. Precisamente em funçom do fascismo, que vem sendo umha lámina de barbear em maos do inimigo de classe, a errada política do Comintern pode produzir resultados fatais em pouco tempo. De outra parte, umha correcta política –nom em tam breve período de tempo, é certo— pode socavar as posiçons do fascismo.

[NOTA: “Estratégia Zinoviev-Staline”: Gregory Y. Zinoviev (1883-1936), presidente do Comintern desde a sua fundaçom em 1919 até a sua substituiçom por Staline em 1926. Após a morte de Lenine, Zinoviev e Kamenev figérom um bloco com Staline (a Troika) contra Trotsky, e dominárom o partido Soviético. No período de dominaçom do Comintern por parte de Zinoviev-Staline, umha linha oportunista conduziu-no a umha série de erros e oportunidades perdidas, a mais notável das quais foi a revoluçom alemá de 1923. Após a ruptura com Staline, Zinoviev aderiu à trotskista Oposiçom de Esquerda. Mas em 1928, após a expulsom do partido da Oposiçom Unida, Zinoviev capitulou ante Staline. Readmitido no partido, foi expulso de novo em 1932. Após a negaçom de toda perspectiva crítica, foi readmitido mais umha vez, mas em 1934 foi expulso  e encarcerado. “Confessou” no começo dos grandes julgamentos de Moscova em 1936 e foi executado].

Se o Partido Comunista, apesar das circunstáncias excepcionalmente favoráveis, provou a sua impotência para abalar seriamente a estrutura da social democracia com ajuda da sua fórmula do “social fascismo”, o fascismo real, polo contrário, ameaça agora essa estrutura, nom já com fórmulas verbais de um falso radicalismo, mas com as fórmulas químicas dos explosivos. Por mais que seja certo que a social democracia preparou com a sua política o florescimento do fascismo, nom é menos certo que o fascismo supom umha ameaça mortal primeiramente para a própria social democracia, cuja força está indissoluvelmente ligada com formas e métodos democrático-parlamentares e pacifistas de governo...

A política de frente unida de trabalhadores contra o fascismo nasce desta situaçom. Abre grandes possibilidades para o Partido Comunista. Umha condiçom para o êxito, porém, é o rechaço da teoria e prática do “social fascismo”, cujo dano pode ser quantificado sob as presentes circunstáncias.

A crise social produzirá inevitavelmente umha profunda cissom no seio da social democracia. A radicalizaçom das massas afectará aos social-democratas. Nós teremos que chegar a acordos, inevitavelmente, com diversas organizaçons e facçons social-democratas contra o fascismo, colocando condiçons precisas aos seus líderes, à vista das massas... Devemos abandonar declaraçons vácuas sobre a frente unida e voltar à política de frente única consoante com a formulaçom de Lenine e a sua aplicaçom constante por parte dos bolcheviques em 1917.

 

Voltar ao índice

 

UMHA FÁBULA DE ESOPO

 

  Voltar ao índice da Biblioteca Marxista em Galego