A QUESTOM UCRANIANA [1]

Leon Trotsky

 

22 de Abril de 1939

 

A questom ucraniana, que muitos governos e tantos “socialistas” e mesmo “comunistas” tenhem tratado de esquecer ou relegar às profundidades da história, acha-se novamente na ordem do dia, desta vez com força redobrada. O recente agravamento da questom ucraniana relaciona-se intimamente com a degeneraçom da Uniom Soviética e da Comintern, os êxitos do fascismo e a iminência de umha nova guerra imperialista. Cruzificada por quatro estados, a Ucránia ocupa agora no destino da Europa a mesma posiçom que umha vez ocupou a Polónia, com a diferença de que as relaçons mundiais som actualmente muito mais tensas e os ritmos do processo muito mais acelerados. No futuro imediato, a questom ucraniana está destinada a jogar um importante papel na vida europeia. Por algo Hitler propujo tam ruidosamente a criaçom de umha “Grande Ucránia”; e foi também por algo que arrumou esta questom com tam cauta rapidez.

A Segunda Internacional, exprimindo os interesses da burocracia e a aristocracia operária dos estados imperialistas, ignorou completamente a questom ucraniana. Inclusive a sua ala esquerda nom lhe dedicou a necessária atençom. Baste lembrar como Rosa Luxemburg, muito embora o seu brilhante intelecto e o seu espírito genuinamente revolucionário, julgou admissível afirmar que a questom ucraniana era a invençom de umha presa de intelectuais. Esta posiçom deixou umha profunda pegada até no próprio Partido Comunista Polaco. Os dirigentes oficiais da secçom polaca da Comintern vírom a questom ucraniana mais como um empecilho do que como um problema revolucionário. Daí as constantes tentativas oportunistas de desviar a questom, suprimi-la, passá-la silenciosamente por alto ou pospô-la para um futuro indefinido.

O Partido Bolchevique, nom sem dificuldade e só gradualmente sob a constante pressom de Lenine, pudo adquirir umha focagem correcta da questom ucraniana. O direito à autodeterminaçom, quer dizer, à separaçom, foi estendido igualmente por Lenine quer para os polacos, quer para os ucranianos. Ele nom reconhecia naçons aristocráticas. Toda tentativa de evadir ou pospor o problema de umha nacionalidade oprimida considerava-a expressom do chauvinismo gram-russo.

Após a tomada do poder, tivo lugar no partido umha séria luita pola soluçom dos numerosos problemas nacionais herdados da velha Rússia tsarista. No seu carácter de comissário do povo para as nacionalidades, Staline representou invariavelmente a tendência mais burocrática e centralista. Isto tornou especialmente evidente na questom da Geórgia e na da Ucránia [2] . Até hoje, a correspondência nom tem sido publicada. Esperamos poder editar a pequena parte de que dispomos. Cada linha das cartas e propostas de Lenine vibra com a urgência de conformar na medida do possível aquelas nacionalidades que tinham sido oprimidas no passado. Em troca, nas propostas e declaraçons de Staline, salientava invariavelmente a tendência para o centralismo burocrático. Com o fim de garantir “necessidades administrativas”, quer dizer, os interesses da burocracia, as mais legítimas reclamaçons das nacionalidades oprimidas fôrom declaradas manifestaçons de nacionalismo pequenoburguês. Estes sintomas já podiam perceber-se bem cedo, em 1922-1923. Desde essa altura, tivérom um monstruoso crescimento, levando a umha completa asfíxia qualquer tipo de desenvolvimento nacional independente dos povos da URSS.

Na concepçom do velho Partido Bolchevique, a Ucránia Soviética estava destinada a se converter no poderoso eixo à volta do qual adeririam as outras secçons do povo ucraniano. Durante o primeiro período da sua existência, é indiscutível que a Ucránia Soviética foi umha poderosa força de atracçom a respeito das nacionalidades, além de estimular a luita dos operários, os camponeses e a intelectualidade revolucionária da Ucránia Ocidental escravizada pola Polónia. Mas, durante os anos da reacçom  termidoriana, a posiçom da Ucránia Soviética e, com ela, a reclamaçom da questom ucraniana no seu conjunto, mudou bruscamente. Quanto mais profundas fôrom as esperanças despertadas, mais tremendas fôrom as desilusons.

A burocracia também estrangulou e saqueou o povo da Gram Rússia. Mas nas questons ucranianas as cousas complicárom-se ainda mais polo massacre das esperanças nacionais. Em nengumha outra parte as restriçons, purgas, repressons e, em geral, todas as formas de truanice burocrática assumírom dimensons tam assassinas como na Ucránia, ao tentar esmagar poderosos anseios de maior liberdade e independência profundamente arreigados nas massas. Para a burocracia totalitária, a Ucránia Soviética tornou-se numha divisom administrativa da unidade económica e de umha base militar da URSS. Que nom fique qualquer dúvida: a burocracia de Staline erige estátuas à memória de Shevchenko, mas fai-no apenas como fim de esmagar mais minuciosamente o povo ucraniano sob o seu peso e obrigá-lo a cantar hinos à camarilha violadora do Kremlin no idioma do Kobzar [3] .

A respeito das partes da Ucránia que hoje estám fora das suas fronteiras, a atitude actual do Kremlin é a mesma que com todas as nacionalidades oprimidas, as colónias e semicolónias: som moedas de cámbio nas suas combinaçons internacionais com os governos imperialistas. No recente Decimo oitavo Congresso do “Partido Comunista”, Manuilski, um dos mais repugnantes renegados do comunismo ucraniano, explicou com bastante franqueza que nom só a URSS, como também a Comintern (a “falsa-uniom” segundo a formulaçom de Staline) recusavam solicitar a emancipaçom dos povos oprimidos quando os seus opressores nom eram inimigos da camarilha moscovita no poder. Staline, Dimitrov e Manuilski defendem actualmente a Índia contra o Japom, mas nom contra Inglaterra. Os burocratas do Kremlin estám prontos a ceder de vez a Ucránia Ocidental à Polónia em troca de um acordo diplomático que lhes pareça proveitoso. Ficam longe os dias em que só se atreviam a episódicas combinaçons.

Nom fica rasto da anterior confiança e simpatia das massas ucranianas polo kremlin. Desde a última “purga” assassina na Ucránia, ninguém no Oeste quer passar a fazer parte da satrapia do Kremlin, que continua a levar o nome da Ucránia Soviética. As massas operárias e camponesas da Ucránia Ocidental, da Bukovina, dos Cárpatos ucranianos, estám confundidas: a quem recorrer? O que Pedir? Esta situaçom desvia naturalmente o liderato para as camarilhas ucranianas mais reaccionárias, que exprimem o seu “nacionalismo” tentando vender o povo ucraniano a um ou outro imperialismo em pagamento de umha promessa de independência fictícia. Sobre esta trágica confusom baseia Hitler a sua política na questom ucraniana. Temos dito numha ocasiom: se nom fosse por Staline (por exemplo, a fatal política da Comintern na Alemanha), nom haveria Hitler. A isso pode acrescentar-se agora: se nom fosse pola violaçom da Ucránia Soviética por parte da burocracia estalinista, nom haveria política hitlerista na Ucránia.

Aqui nom havemos demorar para analisar os motivos que levárom Hitler a descartar, sequer por um tempo, a palavra de ordem da “Grande Ucránia”. Estes motivos devem procurar-se, de umha parte, nas fraudulentas ligaçons do imperialismo germano e, de outra, no temor de evocar um espírito maligno que poderia ter resultado difícil de exorcizar. Hitler presenteou os sanguinários húngaros com os Cárpatos ucranianos. Embora nom o figesse com a aprovaçom expressa de Moscovo, sim polo menos com a segurança de que esta aprovaçom havia de chegar no futuro. É como se Hitler tivesse dito a Staline: “Se me estivesse preparando para atacar amanhá a Ucránia Soviética, teria mantido os Cárpatos nas minhas maos”. Em resposta, Staline, no Décimo Oitavo Congresso, saiu abertamente em defesa de Hitler contra as calúnias das “democracias ocidentais”: Hitler tenta atacar a Ucránica? Nada disso! Luitar contra Hitler? Nom há a menor razom para fazer tal. Obviamente, Staline interpreta como um acto de paz o trespasso à Hungria dos Cárpatos ucranianos.

Isto significa que parte do povo ucraniano tornou moeda de troca para os cálculos internacionais do Kremlin. A Quarta Internacional deve compreender com clareza a enorme importáncia da questom ucraniana, nomapenas no destino do leste e sueste europeus, mas da Europa no seu conjunto. Trata-se de um povo que demonstrou a sua viabilidade, numericamente igual à populaçom de França e que ocupa um território excepcionalmente rico e, aliás, da maior importáncia estratégica. A questom da sorte da Ucránia está colocada em todo o seu alcance. Cumpre umha palavra de ordem clara e definida, que corresponda à nova situaçom. Em minha opiniom, há a actualidade umha única palavra de ordem: Por umha Ucránia Soviética de operários e camponeses, unida, livre e independente.

Este programa está, ante todo, em irreconciliável contradiçom com os interesses das três potências imperialistas: Polónia, Roménia e Hungria. Só pacifistas irrecuperavelmente imbecis som capazes de julgar que a emancipaçom e unificaçom da Ucránia pode levar-se a termo por meio de pacíficas conversas diplomáticas, referendos ou decisons da Liga das Naçons, etc. Com certeza, nom melhores as soluçons que proponhem os “nacionalistas”, que consistem em se colocarem ao serviço de um imperialismo contra o outro. A tais aventureiros, Hitler deu-lhes umha impagável liçom entregando (por quanto tempo?) os Cárpatos aos húngaros, que imediatamente exterminárom nom poucos ucranianos leais. Enquanto a questom depender do poderio militar dos estados imperialistas, a vitória de um bando ou outro só pode significar um novo desmembramento e umha vasalagem ainda mais brutal do povo ucraniano. O programa de independência da Ucránia na época do imperialismo está directa e indissoluvelmente ligado ao programa da revoluçom proletária. Seria criminoso alimentar ilusom algumha sobre isso.

Mas –gritarám a coro os “amigos” do Kremlin– a independência da Ucránia Soviética significaria a sua separaçom da URSS? O que tem isso de terrível?, contestamos. É-nos alheio o culto apaixonado polas fronteiras estatais. Nom sustemos a posiçom de umha totalidade “unida e indivisível”. Depois de todo, inclusive a constituiçom da URSS reconhece o direito dos seus povos federados à autodeterminaçom, quer dizer, à separaçom. Assim, nem sequer a própria oligarquia do Kremlin ousa negar tal princípio, embora só tenha vigência no papel. A mais mínima tentativa de apresentar abertamente a questom de umha Ucránia independente significaria a imediata execuçom sob o cargo de traiçom. Mas é precisamente este desprezível equívoco, esta despiadada perseguiçom de todo pensamento nacional livre, o que tem levado as massas trabalhadoras da Ucránia, em grau muito maior do que as da Gram Rússia, a considerar monstruosamente opressivo o domínio do Kremlin. Perante umha tal situaçom interna, é naturalmente impossível falar de que a Ucránia Ocidental se una voluntariamente à URSS, do modo como esta é actualmente. Por conseqüência, a unificaçom da Ucránia pressupom a libertaçom da Ucránia Soviética da bota estalinista. Também nesta questom a camarilha bonapartista colheitará o que tem sementado.

Mas, nom significaria isto o enfraquecimento militar da URSS?, uivarám com horror os “amigos” do Kremlin. Respondemos que o enfraquecimento da Uniom Soviética se deve às tendências centrífugas em permanente crescimento que gera a ditadura bonapartista. Em caso de guerra, o ódio das massas à camarilha governante pode levar ao colapso das conquistas de Outubro. A fonte dos sentimentos derrotistas acha-se no Kremlin. Em troca, umha Ucránia Soviética independente converteria-se, embora apenas fosse por próprio interesse, num poderoso baluarte sulocidental da URSS. Quanto mais aginha for socavada, derrubada, esmagada e varrida a actual casta bonapartista, mais firme tornará a defesa da República Soviética e mais seguro estár o seu futuro socialista.

Naturalmente, umha Ucránia independente de operários e camponeses poderia a seguir unir-se à Federaçom Soviética; mas voluntariamente, sobre condiçons que ela mesma julgasse aceitáveis, o que por sua vez pressupom umha regeneraçom revolucionária da URSS. A autêntica emancipaçom do povo ucraniano é inconcebível sem umha revoluçom ou umha série de revoluçons no Oeste, que podam conduzir em última instáncia à criaçom dos estados unidos soviéticos da Europa. Umha Ucránia independente poderia unir-se a esta federaçom como membro igualitário e indubitavelmente faria-o. A revoluçom proletária na Europa, por seu turno, nom deixaria em pé nem umha pedra da repugnante estrutura do bonapartismo estalinista. Nesse caso, seria inevitável a estreita uniom dos estados unidos soviéticos da Europa e a regenerada URSS, e representaria infinitas vantagens para os continentes europeu e asiático, incluindo, com certeza, a Ucránia. Mas aqui estamos a desviar-nos para questons de segunda ou terceira ordem. A questom de primeira ordem é a garantia revolucionária da unidade e independência da Ucránia de operários e camponeses na luita contra o imperialismo, de umha parte, e contra o bonapartismo moscovita, de outra.

A Ucránia é especialmente rica em experiências de falsos caminhos de luita para atingir a emancipaçom nacional. Ali todo foi testado: a Rada [governo] pequenoburguesa e Skoropadski, Petlura, umha “aliança” com os Hohenzollern e combinaçons com a Entente[4]. Após estes experimentos, só cadáveres políticos podem continuar a depositar esperanças em qualquer fracçom da burguesia ucraniana com líder da luita nacional pola emancipaçom. Unicamente o proletariado ucraniano é capaz nom só de realizar esta tarefa –revolucionária em essência–, como também de tomar a iniciativa para conseguir a sua soluçom. O proletariado e só o proletariado pode congregar à sua volta as massas camponesas e a intelectualidade nacional genuinamente revolucionária.

Ao começo da última guerra imperialista, Melenevski (“Basok”) e Skoropis-Yeltujovski tentárom colocar o movimento de libertaçom ucraniano sob a ala de Ludendorff, general dos Hohenzollern. Para tal, disfarçárom-se de esquerdistas. Os marxistas revolucionários expulsárom-nos de um pontapé. Eis a forma como devem agir os revolucionários no futuro. A iminente guerra criará umha atmosfera favorável a todo o tipo de aventureiros, caçadores de milagres e buscadores do velocino de ouro. Estes cavalheiros, que tenhem especial preferência por quecer as maos ao fogo da questom nacional, nom devem ser admitidos nas fileiras do movimento operário. Nem o mais mínimo compromisso com o imperialismo, seja fascista ou democrático! Nem a mais mínima concessom aos nacionalistas ucranianos, sejam clerical-reaccionários ou liberal-pacifistas! Nom à “frente popular”! Completa independência do partido proletário como vanguarda dos trabalhadores!.

Esta acho eu a política correcta para a questom ucraniana. Falo aqui pessoalmente e em meu próprio nome. Cumpre abrir a discussom internacional sobre o tema. O primeiro lugar nesta discussom corresponderá aos marxistas revolucioinários ucranianos. Escuitaremo-los com grande atençom. Mas convém-lhes apressar! Resta pouco tempo para preliminares!

 



[1] A questom ucraniana. Socialist Appeal, 9 de Maio de 1939, onde se intitulava “O problema da Ucránia”. A política que propom está muito mais explicada em Escritos, Tomo XI (1939-1940).

[2] No verao de 1922 surgírom desavenças sobre a maneira em que a Rússia controlava as repúblicas nom russas da Federaçom Soviética. Staline estava por apresentar umha nova constituiçom, muito mais centralista que a sua predecessora de 1918, que restringiria os direitos das nacionalidades nom russas transformando a Federaçom de Repúblicas Soviéticas numha Uniom Soviética, ao qual se punham com toda a força georgianos e ucranianos. Lenine, desta vez, apoiou Staline; em Dezembro de 1922, logo de receber o relatório de umha comissom de inquérito independente que tinha enviado à Geórgia, mudou de opiniom sobre os acontecimentos nessa regiom. Propujo entom que os direitos dos georgianos, ucranianos e outras nacionalidades nom russas eram mais importantes que as necessidades de centralizaçom administrativa que aduzia Staline. Lenine exprimiu esta opiniom no seu artigo “A respeito do problema das nacionalidades ou sobre a "autonomizaçom"” (Obras Completas, T. 36).

[3] Taras Shevchenko (1814-1861): poeta ucraniano que chegou a ser considerado o pai da literatura nacionalista do seu país. Fundou umha organizaçom para promover a igualdade social, a aboliçom da escravatura, etc. Continua a ser o símbolo das aspiraçons e fins do povo ucraniano. Kobzar foi o seu primeiro livro de poesias (publicado em 1840), considerado geralmente como umha das maiores obras da literatura ucraniana. O título foi tomado de um antigo instrumento de corda e simboliza a variada herança ucraniana.

[4] Pavel Skoropadski (1873-1945): general do exército czarista, em 1918 foi durante um breve período o governador títere da Ucránia quando as tropas alemás ocupárom o país e dissolvêrom a Rada. O seu regime caiu logo após a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Simom V. Petlura (1877-1926): foi social-democrata de direita antes da Revoluçom. Em Junho de 1917 foi designado secretário geral para assuntos militares da Rada ucraniana. Aliou-se com a Polónia na guerra soviético-polaca de 1920.

 

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