INCERTEZA
E CRIATIVIDADE. Immanuel WALLERSTEIN:
Conferência
dada no decurso do Forum 2000: inquietaçons e esperanças no limiar do novo
milénio, Praga, 3 a 6 de Setembro, 1997.
Acho que a
primeira metade do século XXI será mais dificultosa, mais perturbadora e, no
entanto, mais aberta do que todo o que conhecemos durante o século XX. Digo
isto baseando-me em três premissas, embora careça de tempo para argumentá-las
aqui.
A primeira
premissa é que os sistemas históricos, como todos os sistemas, tenhem vidas finitas.
Tenhem um começo, um longo período de desenvolvimento e, afinal, morrem, quando
se alonjam do equilíbrio e atingem pontos de bifurcaçom.
A Segunda
premissa é que nesses pontos de bifurcaçom surgem duas novas propriedades:
pequenos inputs provocam grandes outputs (enquanto durante o
desenvolvimento normal se produz o contrário: grandes inputs provocam
pequenos outputs) e o resultado de tais bifurcaçons é intrinsecamente
indeterminado.
A terceira
premissa é que o moderno sistema-mundo, como sistema histórico, tem entrado
numha crise terminal, e nom resulta verosímil que exista dentro de 50 anos.
Porém, já que o resultado é incerto, nom sabemos se o sistema (ou os sistemas)
resultante será melhor ou pior do que o actual, mas sim sabemos que o período de
transiçom será umha terrível etapa cheia de turbulências, já que os riscos da
transiçom som muito altos, os resultados incertos e muito grande a capacidade
de pequenos inputs para influírem sobre os ditos resultados.
Está muito
estendida a opiniom de que o colapso dos comunismos em 1989 marcou um grande
triunfo do liberalismo. Mas, em minha opiniom, marcou mais bem o colapso
definitivo do liberalismo como geocultura definidora do nosso sistema-mundo.
Essencialmente, o liberalismo prometeu que as reformas graduais haviam de
melhorarar as desigualdadaes do sistema-mundo e de reduzir a sua aguda
polarizaçom. A ilusom de que isto era possível dentro da estrutura do moderno
sistema-mundo foi, de facto, um grande factor de estabilizaçom, pois legitimava
os Estados perante os olhos das suas populaçons, às quais prometiam um céu
sobre a terra num futuro ao alcance da vista.
O colapso
dos comunismos, dos movimentos de libertaçom no Terceiro Mundo e da fé no
modelo keynesiano dentro do mundo ocidental reflecte, através dessa tripla
simultaneidade, a cada vez mais propagada desilusom popular na validade e
realidade dos programas reformistas.
Mas esta
desilusom, por muito merecida que for, bate sobre os pontais em que se baseia a
legitimaçom popular dos Estados, e, de facto, desfai qualquer possível razom
pola qual as suas populaçons devessem aturar a contínua e crescente polarizaçom
do nosso sistema-mundo. Portanto, prevejo que se ham de produzir consideráveis
tumultos, do mesmo tipo que os acontecidos durante os anos 90, estendendo-se
desde as Bósnias e Ruandas deste mundo para as regions mais ricas (e
consideradas mais estáveis) do planeta, como os Estados Unidos.
Como já
dixem, estou a expor premissas, das que vocês podem nom estar certos, já que
nom tenho tempo para as argumentar[1].
Desejo simplesmente tirar as conclusons morais e políticas das minhas
premissas. A primeira conclusom é que o progresso nom é inevitável, a diferença
do que a Ilustraçom, nas suas variantes todas, predicou. Mas nom aceito que
seja por isso impossível. O mundo nom tem avançado moralmente nos últimos
milhares de anos, mas poderia tê-lo feito. Podemos mover-nos na direcçom do que
Max Weber chamou "a racionalidade substantiva", quer dizer, valores
racionais e fins racionais, alcançados colectiva e inteligentemente.
A Segunda
conclusom é que a crença em certezas, umha premissa fundamental da modernidade,
cega e mutila. A ciência moderna, quer dizer, a ciência cartesiana-newtoniana,
tem-se baseado na certeza de certeza. A suposiçom básica é que existem leis
universai objectivas que governam todos os fenómenos naturais, que estas leis
podem ser decobertas pola investigaçom científica e que, desde que tais leis
forem conhecidas, podemos pronosticar perfeitamente o futuro e o passado a
partir de qualquer conjunto de valores para as condiçons iniciais.
Freqüentemente,
tem-se dito que este conceito de ciência é mera secularizaçom do pensamento
cristao, na que a figura de Deus seria simplesmente substituída pola
"natureza", e que a indispensável presunçom de certeza se deriva de
-e é paralela a- as verdades próprias das crenças religiosas. Nom quero começar
aqui umha discussom teológica per se, mas chamou-me sempre a atençom o
facto de que a crença num Deus omnipotente, opiniom comum polo menos às
chamadas religions ocidentais (Judaísmo, Cristianismo e Islam), é de facto
lógica e moralmente incompatível com a crença na certeza, ou polo menos em
qualquer certeza humana. Já que se Deus for omnipotente, entom os seres humanos
nom mpodem limitá-lo ditando aquilo que julgam serem verdades eternas, pois
entom Deus nom seria omnipotente. Sem qualquer dúvida, ao comeó da modernidade
os cientistas, muitos dos quais eram muito devotos, pudérom achar que eles
estavam a defender teses consoantes com a teologia imperante, e também nom há
dúbida de que muitos teólogos lhes davam motivos para pensarem assim, mas em
definitivo, nom é certo que a crença na certeza científica seja um complemento
necessário dos sistemas religiosos.
Além do
mais, a crença na certeza acha-se agora submetida a um severo -e eu diria que
muito eficaz- ataque procedente das próprias ciências naturais. Basta-me com
fazer referência ao último livro de Ilya Prigogine, O fim das certezas,
em que sustem que mesmo na sancta sanctorum das ciências naturais -os
sistemas dinámicos da mecánica-, os sistemas som regidos pola seta do tempo, e
alonjam-se inevitavelmente do equilíbrio. Estas novas perspectcivasd recebem o
neme de ciência da complexidade em parte porque afirmam que as certezas
newtonianas continuam a ser válidas apenas em sistemas muito restritos e
simples, mas também porque dim que o universo manifesta um desenvolvimento
evolutivo da complexidade e que a imensa maioria das situaçons nom m podem
explicar-se a partir do equilíbrio linear e de um tempo reversível. A terceira
conclusom é que nos sistemas sociais humanos, os mais complexos do universo
-polo que resultam ainda mais difíceis de analisar-, a luita por umha boa
sociedade é um traço permanente. Aliás, essa luita toma o seu maior significado
nos períodos de transiçom entre um sistema histórico e outro (cuja natureza nom
podemos conhecer de antemao). Para dizermo-lo de outro jeito: só nesses tempos
de transiçom resulta possível que as pressons do sistema existente para a volta
ao equilíbrio podam ser ultrapassadas polo que denominamos livre alvedrio.
Portanto, umha mudança fundamental é possível, embora nunca seja certo, polo
que corresponde à nossa responsabilidade moral agirmos racionalmente, de boa fé
e com energia na procura de um sistema histórico melhor. Nom podemos saber como
sera este novo sistema histórico em termos estruturais, mas podemos expor
aqueles critérios que seriam a base do que chamaríamos um sistema histórico
substantivamente racional. Deveria ser um sistema largamente igualitário e
democrático. Nom é somente que nom veja nengum conflito entre ambos os
objectivos, quanto que defendo que estám intrinsecamente ligados entre si. Um
sistema histórico nom pode ser igualitário se nom for democrático, porque um
sistema nom democrático distrubui o poder desigualmente, o que implica que
também distribuirá desigualmente todas as restantes cousas. Nom pode ser
democrático se nom for igualitário, já que num sistema desigualitário alguns
disponhem de mais meios materiais do que outros, e portanto, é inevitável que
também tenham mais poder político.
A quarta
conclusom que extraio é que a incerteza é maravilhosa e que a certeza, se fosse
tal, seria a morte moral. Se estivéssemos certos do futuro, nom haveria pressa
moral nengumha para fazer qualquer cousa. Seríamos livres para satisfazermos
qualquer paixom e agirmos seguindo qualquer impulso egoísta, já que todas as
acçons estariam submetidas a umha ordenada certeza. Polo contrário, se todo
está sem dicidir, daquela o futuro está aberto à criatividade, nom apenas à
criatividade meramente humana, mas também à criatividade de toda a natureza.
Está aberto pa hipótese e, portanto, a um mundo melhor.
Mas
somente podemos atingir um mundo melhor se estivermos prontos a empregar as
nossas energias morais para consegui-lo, e prontos a enfrentar-nos com os que
sob qualquer disfarce e arroupados em qualquer escusa, preferem um mundo
desigualitário e nom democrático.
[1]
Estas
teses fôrom defendidas com algumha extensom em dous livros recentes:
Immanuel Wallerstein, Después del liberalismo (México, Siglo XXI, 1996) e
Terence K. Hopkins & I. Wallerstein, coords. The age of Transition; Trajectory of the World-System, 1945-2025 (Londres: Zed Press, 1996)