O DECLÍNIO DO IMPÉRIO AMERICANO. Immanuel Wallerstein. 2002
A ascensom dos Estados
Unidos à hegemonia global foi um processo longo que começou
de facto com a recessom mundial de 1873. A partir daquela época, os
Estados Unidos e a Alemanha começárom a controlar umha fatia
cada vez maior dos mercados globais, graças sobretodo ao declínio
contínuo da economia británica. Ambos os países tinham
recentemente conquistado bases políticas estáveis: os Estados
Unidos com o fim da Guerra Civil e a Alemanha com a unificaçom após
a derrota da França na Guerra Franco-Prussiana.
De 1873 a 1914, os Estados
Unidos e a Alemanha tornárom-se os principais produtores em sectores
chaves: aço e depois automóveis nos Estados Unidos; química
industrial na Alemanha.
Os manuais de história
registam que a Primeira Guerra Mundial eclodiu em 1914 e terminou em 1918,
e que a Segunda Guerra Mundial durou de 1939 a 1945. No entanto, seria mais
razoável considerar as duas como umha única e contínua
"guerra de 30 anos" entre os Estados Unidos e a Alemanha, com tréguas
e conflitos locais espalhados entre elas.
A competiçom pola
sucessom da hegemonia assumiu um teor ideológico a partir de 1933,
quando os nazis chegárom ao poder na Alemanha e iniciárom sua
tentativa de transcender o sistema global, nom procurando competir pola hegemonia
dentro do sistema vigente e sim pola construçom de um império
global. Lembre-se do slogan nazi "ein tausendjähriges Reich"
(um império de mil anos). Por sua vez, os Estados Unidos assumírom
o papel de defensores do liberalismo centrista mundial -recordem-se as "quatro
liberdades" do ex-presidente americano Franklin D. Roosevelt (liberdade
de expressom, de religiom, de necessidades materiais e do medo)- e entrárom
numha aliança estratégica com a Uniom Soviética, possibilitando
a derrota da Alemanha e seus aliados.
A Segunda Guerra Mundial
resultou numha enorme destruiçom de infra-estruturas e de populaçons
por toda a Eurásia, do Oceano Atlántico ao Pacífico,
e poucos países escapárom às mesmas. A única grande
potência industrial do mundo a sair intacta e até reforçada,
numha perspectiva económica, fôrom os Estados Unidos -eles actuárom
rapidamente para consolidar esta posiçom.
Mas a aspiraçom à hegemonia tivo de enfrentar alguns obstáculos políticos práticos. Durante a guerra, as potências aliadas concordárom em fundar as Naçons Unidas e esta foi formada basicamente polos países que participárom da coligaçom contra as potências do Eixo. A característica crucial da organizaçom era o Conselho de Segurança, a única estrutura que poderia autorizar o uso da força.
Como a Carta da ONU deu
o direito de veto a cinco potências, incluindo os Estados Unidos e a
Uniom Soviética, o Conselho de Segurança tornou-se inoperacional.
Assim, nom foi a fundaçom das Naçons Unidas em Abril de 1945
que determinou as limitaçons geopolíticas da segunda metade
do século 20 e sim a Conferência de Ialta, dous meses antes,
entre Roosevelt, o primeiro-ministro británico Winston Churchill e
o líder soviético José Staline.
Os acordos formais de
Ialta fôrom menos importantes do que os acordos informais tácitos,
que só som perceptíveis se se observar o comportamento dos Estados
Unidos e da Uniom Soviética ao longo dos anos seguintes. Quando a guerra
terminou na Europa, em 8 de Maio de 1945, tropas soviéticas e ocidentais
(isto é, americanas, británicas e francesas) situavam-se em
determinados locais sobre o terreno, basicamente acompanhando umha linha no
centro da Europa, que passou a ser chamada de Linha Oder-Neisse. Excepto por
alguns pequenos acertos, elas ali permanecêrom. Em retrospectiva, Ialta
significou um acordo entre ambos os lados de que elas poderiam ali ficar e
de que nengum lado usaria a força para expulsar o outro. Esse acordo
tácito também se aplicava à Ásia, como provam
a ocupaçom do Japom polos Estados Unidos e a divisom da Coreia. Politicamente,
portanto, Ialta foi um acordo sobre o status quo em que a Uniom Soviética
passou a controlar cerca de um terço do mundo e os Estados Unidos o
restante.
Washington também
enfrentou desafios militares mais sérios. A Uniom Soviética
tinha as maiores forças terrestres do mundo, ao passo que o governo
americano enfrentava pressom interna para reduzir o seu Exército, inclusive
com a extinçom do serviço militar obrigatório.
Os Estados Unidos, portanto,
decidírom afirmar seu poderio militar nom por meio de forças
terrestres, mas por meio do monopólio das armas nucleares (e umha força
aérea capaz de transportá-las). Esse monopólio tivo curta
duraçom: desapareceu em 1949, pois a Uniom Soviética também
desenvolveu armas nucleares.
Desde entom, os Estados
Unidos ficárom reduzidos a tentar evitar a proliferaçom mundial
de armas nucleares (e armas químicas e biológicas), umha iniciativa
que nom parece bem fadada no século XXI.
Até 1991, os Estados
Unidos e a Uniom Soviética coexistírom no "equilíbrio
do terror" da Guerra Fria. Essa situaçom foi testada cegamente
apenas três vezes: no bloqueio de Berlim, em 1948-49, na Guerra da Coreia,
em 1950-53, e na crise dos mísseis cubanos, em 1962. O resultado em
cada caso foi a restauraçom do status quo. Além disso, sempre
que a Uniom Soviética enfrentou umha crise política nos seus
regimes satélites -Alemanha Oriental em 1953, Hungria em 1956, Checoslováquia
em 1968 e Polónia em 1981-, os Estados Unidos efectuárom pouco
mais que exercícios de propaganda, permitindo que a Uniom Soviética
agisse à sua vontade.
É claro que essa
passividade nom se estendia à área económica. Os Estados
Unidos aproveitárom o ambiente da Guerra Fria para lançar iniciativas
maciças de reconstruçom económica, primeiro na Europa
Ocidental e depois no Japom (assim como na Coreia do Sul e em Taiwan). O raciocínio
era óbvio: de que servia ter umha superioridade produtiva tam esmagadora
se no resto do mundo nom houvesse procura efectiva?
Além disso, a reconstruçom
económica ajudava a criar obrigaçons clientelistas por parte
dos países que recebiam a ajuda americana; esse sentido de obrigaçom
promovia a disposiçom para entrar em alianças militares e, mais
ainda, à subserviência política.
Finalmente, nom se deve
subestimar o componente ideológico e cultural da hegemonia americana.
O período imediatamente posterior a 1945 pode ter sido o auge histórico
da popularidade da ideologia comunista. É fácil esquecer hoje
as enormes votaçons obtidas por Partidos Comunistas em eleiçons
livres em países como Bélgica, França, Itália,
Checoslováquia e Finlándia, sem falar no apoio que os Partidos
Comunistas obtivérom na Ásia -Vietname, Índia, Japom-
e por toda a América Latina. E isso ainda sem considerar áreas
como China, Grécia e Irám, onde nom houvo eleiçons livres
ou estas fôrom restritas, mas onde os Partidos Comunistas locais desfrutavam
de um apoio generalizado. Em reacçom, os Estados Unidos mantivérom
umha maciça ofensiva ideológica anticomunista.
Em retrospectiva, essa
iniciativa parece amplamente bem sucedida: Washington desempenhou seu papel
como líder do "mundo livre" de modo polo menos tam eficaz
quanto a Uniom Soviética desempenhava o seu como líder do campo
"progressista" e "anti-imperialista".
O êxito dos Estados
Unidos como potência hegemónica no período do pós-guerra
criou as condiçons para o colapso hegemónico do país.
Esse processo é bem descrito por quatro eventos simbólicos:
a Guerra do Vietname, as revoluçons de 1968, a queda do Muro de Berlim
em 1989 e os atentados terroristas de Setembro de 2001. Cada evento ergueu-se
sobre o anterior, culminando na situaçom em que os Estados Unidos hoje
se encontram: umha superpotência solitária, que carece de verdadeiro
poder, um líder mundial que ninguém segue e poucos respeitam
e um país que flutua perigosamente em meio ao caos global que nom pode
controlar.
O que foi a Guerra do
Vietname? Foi sobretodo o esforço do povo vietnamita para acabar com
o domínio colonial e estabelecer o seu próprio Estado. Os vietnamitas
combatêrom os franceses, os japoneses e os americanos e no final os
vietnamitas vencêrom -um grande feito, na verdade. Do ponto de vista
geopolítico, contodo, a guerra representou a rejeiçom ao status
quo de Ialta por populaçons entom rotuladas como Terceiro Mundo. O
Vietname tornou-se um símbolo muito poderoso, porque Washington foi
suficientemente estúpida para investir todo o seu poderio militar naquela
luita e, mesmo assim, os Estados Unidos perdêrom. É verdade que
os Estados Unidos nom utilizárom armas nucleares (decisom que certos
grupos míopes de direita muito criticárom), mas a sua utilizaçom
teria destruído os acordos de Ialta e poderia ter produzido um holocausto
nuclear, resultado que os Estados Unidos simplesmente nom poderiam arriscar.
Mas o Vietname nom foi
simplesmente umha derrota militar ou umha maldiçom para o prestígio
americano. A guerra desferiu um grande golpe contra a capacidade de os Estados
Unidos continuarem a ser a potência económica dominante no mundo.
O conflito saiu extremamente caro e praticamente esgotou as reservas de ouro
dos Estados Unidos, que eram abundantes desde 1945.
Além disso, os
Estados Unidos enfrentaram essas despesas exactamente quando a Europa Ocidental
e o Japom experimentavam grande crescimento económico. Esse condicionamento
pujo fim ao predomínio americano na economia global.
Desde os fins da década
de 60 os membros dessa tríade tenhem sido praticamente equivalentes
em termos económicos, cada um a desempenhar-se melhor durante certos
períodos, mas sem que nengum se distancie demasiado dos outros.
Quando as revoluçons
de 1968 irrompêrom por todo o mundo, o apoio aos vietnamitas tornou-se
um importante componente retórico. "Um, dous, muitos Vietnames"
e "Ho, Ho, Ho Chi Minh" fôrom entoados em muitas ruas do mundo
todo, inclusive nos Estados Unidos. Mas a geraçom de 68 nom condenava
apenas a hegemonia americana. Condenava a conivência soviética
com os Estados Unidos, condenava Ialta e usou ou adaptou a linguagem da Revoluçom
Cultural chinesa, que dividia o mundo em dous campos: as duas superpotências
e o resto do mundo.
A denúncia da conivência soviética levou logicamente à denúncia das forças nacionais intimamente aliadas à Uniom Soviética, o que na maioria dos casos significava os partidos comunistas tradicionais.
Mas os revolucionários
de 1968 também atacárom outros componentes da Velha Esquerda
-os movimentos de libertaçom nacional no Terceiro Mundo, os movimentos
social-democratas na Europa e os democratas do New Deal nos Estados Unidos,
acusando-os também de conivência com aquilo que os revolucionários
chamavam genericamente de "imperialismo americano".
O ataque à conivência
soviética com Washington, mais o ataque contra a Velha Esquerda, enfraqueceu
ainda mais a legitimidade dos acordos de Ialta sobre os quais os Estados Unidos
tinham moldado a ordem mundial. Ele também minava a posiçom
do liberalismo centrista como a única e legítima ideologia global.
As conseqüências políticas directas das revoluçons
mundiais de 68 fôrom mínimas, mas as repercussons geopolíticas
e intelectuais fôrom enormes e irrevogáveis. O liberalismo de
centro caiu do trono que ocupara desde as revoluçons europeias de 1848
e que lhe permitira incluir tanto conservadores quanto radicais. Tais ideologias
retornárom e mais umha vez representárom um verdadeiro leque
de opçons. Os conservadores tornariam-se novamente conservadores, e
os radicais, radicais. Os liberais de centro nom desaparecêrom, mas
fôrom reduzidos. Nesse processo, a posiçom ideológica
oficial dos Estados Unidos -antifascista, anticomunista, anticolonialista-
parecia frágil e inconveniente para umha proporçom cada vez
maior das populaçons mundiais.
O início da estagnaçom
económica internacional na década de 70 tivo duas conseqüências
importantes para o poderio americano. Primeiro, a estagnaçom resultou
no colapso do "desenvolvimentismo", a ideia de que cada país
poderia avançar economicamente se o Estado tomasse medidas adequadas,
que constituía a principal reivindicaçom ideológica dos
movimentos da Velha Esquerda entom no poder.
Esses regimes enfrentárom
distúrbios internos sucessivos, com o declínio dos padrons de
vida, dívidas crescentes, a dependência em relaçom às
instituiçons financeiras internacionais e a erosom de sua credibilidade.
O que nos anos 60 parecia ser umha bem sucedida descolonizaçom do Terceiro
Mundo com o apoio dos Estados Unidos, minimizando rupturas e maximizando a
suave transferência de poder para regimes desenvolvimentistas, mas muito
pouco revolucionários, deu lugar à desintegraçom da ordem,
ao descontentamento turbulento e a temperamentos radicais nom canalizados.
Nos lugares em que os
Estados Unidos tentárom intervir, fracassárom. Em 1983, o presidente
Ronald Reagan mandou tropas para o Líbano a fim de restaurar a ordem.
Na realidade as tropas fôrom praticamente expulsas dali. Ele compensou
invadindo Granada, um país sem tropas.
O presidente George Bush
invadiu o Panamá, outro país sem tropas. Mas, depois, interviu
na Somália para restaurar a ordem, e os Estados Unidos fôrom
na verdade expulsos de um modo ignominioso. Como havia pouco que o governo
americano realmente pudesse fazer para inverter essa tendência de declínio
da hegemonia, ele preferiu simplesmente ignorar a tendência, umha política
que prevaleceu desde a retirada do Vietname até 11 de Setembro de 2001.
Umha hipótese
para a impotência dos EUA
Enquanto isso, os verdadeiros
conservadores começárom a assumir o controle de países-chave
e instituiçons internacionais. A ofensiva neoliberal dos anos 80 foi
marcada polos regimes Thatcher e Reagan e polo surgimento do FMI como um actor-chave
no cenário mundial. Antes (ao longo de mais de um século), as
forças conservadoras tentavam auto-apresentar-se como liberais e sensatas.
Agora, os liberais de centro eram obrigados a argumentar que eram conservadores
mais eficazes.
Os programas conservadores eram claros. No plano interno, os conservadores
tentavam implementar políticas que reduzissem o custo do trabalho,
minimizando as restriçons ambientais aos produtores e cortando os benefícios
do bem-estar estatal (welfare state). Os êxitos verdadeiros fôrom
modestos, por isso os conservadores passárom a actuar vigorosamente
na arena internacional.
As reunions do Fórum
Económico Mundial em Davos constituírom um campo de encontro
para as elites e os media. O FMI representava um clube para ministros das
Finanças e banqueiros centrais. E os Estados Unidos pressionárom
pola criaçom da Organizaçom Mundial do Comércio, destinada
a promover fluxos comerciais livres através das fronteiras mundiais.
Quando os Estados Unidos
nom estavam a olhar, a Uniom Soviética desmoronou. Sim, Ronald Reagan
chamara a Uniom Soviética de "império do mal" e usara
a retórica bombástica de pedir a destruiçom do Muro de
Berlim, mas os Estados Unidos realmente nom pretendiam e certamente nom fôrom
responsáveis pola queda da Uniom Soviética. Na verdade, a Uniom
Soviética e sua zona imperial no Leste Europeu desabou devido à
desilusom popular com a velha esquerda, em conjunto com iniciativas do líder
soviético Mikhail Gorbatchov para salvar seu regime, liquidando Ialta
e instituindo a liberalizaçom interna (perestroika mais glasnost).
Gorbatchov conseguiu liquidar Ialta, mas nom salvar a Uniom Soviética
(embora quase o tenha conseguido, deve-se dizer).
Os Estados Unidos ficárom
surpresos e atónitos com o colapso súbito, sem saber como enfrentar
as conseqüências. O colapso do comunismo significou na verdade
o colapso do liberalismo, removendo a única justificaçom ideológica
que respaldava a hegemonia americana, umha justificativa tacitamente apoiada
polo adversário ideológico ostensivo do liberalismo. Essa perda
de legitimidade conduziu directamente à invasom do Kuwait polo Iraque,
que o líder iraquiano Saddam Hussein jamais teria ousado se os acordos
de Ialta continuassem em vigor.
Em retrospectiva, as iniciativas
americanas na Guerra do Golfo obtivérom basicamente umha trégua
na linha de partida. Mas umha potência hegemónica pode-se satisfazer
com um empate numha guerra com um poder regional mediano? Saddam demonstrou
que era possível entrar numha briga com os Estados Unidos e sair inteiro.
Ainda mais que a derrota no Vietname, o desafio ousado de Saddam revolveu
as entranhas da direita americana, particularmente as dos chamados falcons,
o que explica o fervor de seu actual desejo de invadir o Iraque e destruir
seu regime.
Entre a Guerra do Golfo
e o 11 de Setembro de 2001, as duas principais arenas de conflito mundial
fôrom os Balcáns e o Oriente Médio. Os Estados Unidos
desempenhárom importante papel diplomático em ambas as regions.
Olhando em retrospectiva, quam diferentes seriam os resultados se os Estados
Unidos tivessem assumido umha posiçom totalmente isolacionista? Nos
Balcáns, um Estado multinacional economicamente bem sucedido (Jugoslávia)
desmoronou, basicamente nas suas partes componentes. Durante dez anos, a maioria
dos Estados resultantes iniciou um processo de etnificaçom, experimentando
umha violência brutal, amplas violaçons de direitos humanos e
guerras. A intervençom externa, em que os Estados Unidos actuárom
de modo destacado, levou a umha trégua e pujo fim à violência
mais evidente, mas essa intervençom de modo nengum reverteu a etnificaçom,
que hoje está consolidada e de certa forma legitimada.
Esses conflitos teriam
terminado de modo diferente sem o envolvimento americano? A violência
poderia ter continuado por mais tempo, mas os resultados básicos provavelmente
nom teriam sido muito diferentes. O quadro é ainda mais grave no Oriente
Médio, onde o envolvimento dos Estados Unidos foi mais profundo, e
os seus fracassos, mais espectaculares. Nos Balcáns e no Oriente Médio
igualmente, os Estados Unidos deixárom de exercer o seu poder hegemónico
com eficácia nom por falta de vontade ou de esforço, mas por
falta de verdadeiro poder.
Entom veu o 11 de Setembro,
o choque e a reacçom. Sob o fogo dos legisladores americanos, a CIA
hoje afirma que tinha advertido o governo Bush sobre possíveis ameaças.
Mas, apesar do enfoque da CIA sobre a Al Qaeda e a perícia da inteligência
do órgao, ela nom pudo prever (e portanto evitar) a execuçom
dos ataques terroristas. Foi o que afirmou o director da CIA, Robert Tenet.
Esse depoimento dificilmente pode tranquilizar o governo ou o povo americanos.
Seja o que for que os
historiadores decidam, os atentados de 11 de Setembro de 2001 representárom
um grande desafio ao poderio americano. Os indivíduos responsáveis
nom representavam umha grande potência militar. Eram membros de umha
força nom estatal, com alto grau de determinaçom, algum dinheiro,
um grupo de seguidores dedicados e umha forte base num Estado fraco. Em suma,
nom eram nada militarmente. No entanto, tivérom êxito num ataque
ousado ao solo americano.
George W. Bush chegou
ao poder criticando muito o trabalho do governo Clinton nos assuntos externos.
Bush e seus assessores nom o admitírom, mas sem dúvida estavam
conscientes de que o caminho de Clinton fora o de todo presidente americano
desde Gerald Ford, incluindo os de Ronald Reagan e George Bush pai. E tinha
sido até o caminho do actual governo Bush antes do 11 de Setembro.
Basta ver como Bush tratou o caso do aviom americano derrubado na China em
Abril de 2001 para verificar que prudência era o nome do jogo.
Depois dos atentados terroristas,
Bush mudou de rumo, declarando guerra ao terrorismo, garantindo ao povo americano
que "o resultado é certo" e informando ao mundo que "ou
estám do nosso lado ou estám contra nós".
Frustrados há muito,
até mesmo polos mais conservadores governos americanos, os falcons
finalmente passárom a dominar a cena política americana. A sua
posiçom é clara: os Estados Unidos detenhem um poderio militar
esmagador e, embora inúmeros líderes estrangeiros considerem
insensato Washington aplicar a sua força militar, esses mesmos líderes
nom podem fazer e nom farám qualquer cousa se os Estados Unidos simplesmente
impugerem a sua vontade ao resto do mundo. Os falcons acreditam que os Estados
Unidos devem agir como umha potência imperial por dous motivos: primeiro,
os Estados Unidos podem fazer isso; e, segundo, se Washington nom exercer
a sua força, os Estados Unidos ficarám cada vez mais marginalizados.
Hoje essa posiçom
dos falcons tem três expressons: o ataque militar ao Afeganistám,
o apoio de facto à tentativa israelita de liquidar a Autoridade Palestina
e a invasom do Iraque, que estaria em fase de preparativos militares. Menos
de um ano depois dos atentados terroristas de Setembro de 2001, talvez seja
cedo demais para avaliar o resultado futuro dessas estratégias.
Até agora, esses
esquemas levárom à derrubada dos talibám no Afeganistám
(sem o desmantelamento completo da Al Qaeda ou a captura de sua liderança);
enorme destruiçom na Palestina (sem tornar "irrelevante"
o líder palestino Iasser Arafat, como pretendia o primeiro-ministro
israelense, Ariel Sharon); e a forte oposiçom dos aliados dos Estados
Unidos na Europa e no Oriente Médio aos planos de invasom do Iraque.
A leitura dos factos recentes
polos falcons enfatiza que a oposiçom às acçons americanas,
embora séria, continua principalmente verbal. Nem a Europa Ocidental
nem a Rússia, a China ou a Arábia Saudita parecem dispostas
a romper seriamente os laços com os Estados Unidos. Por outras palavras,
os falcons acreditam que Washington realmente conseguiu desenvencilhar-se.
Os falcons suponhem que um resultado semelhante virá a ocorrer quando
os militares americanos realmente invadirem o Iraque e, depois, quando os
Estados Unidos exercerem sua autoridade em outras partes do mundo, seja no
Irám, na Coreia do Norte, na Colômbia ou talvez na Indonésia.
Ironicamente, a leitura
dos falcons tornou-se de modo geral a leitura da esquerda internacional, que
vem gritando contra as políticas americanas principalmente por temer
que as probabilidades de êxito dos EUA sejam elevadas. Mas as interpretaçons
dos falcons estám erradas e apenas contribuirám para o declínio
dos EUA, transformando umha descida gradual numha queda muito mais rápida
e turbulenta. Especificamente, as abordagens dos falcons irám fracassar
por motivos militares, económicos e ideológicos.
Os militares continuam
a ser, sem dúvida, a carta mais forte dos EUA; na verdade, a única
carta. Hoje os Estados Unidos possuem a mais formidável máquina
militar do mundo. E, a acreditar-se nos anúncios de novas e incomparáveis
tecnologias militares, a vantagem americana sobre o resto do mundo é
consideravelmente maior hoje do que umha década atrás. Mas significará
isso que os EUA podem invadir o Iraque, conquistá-lo rapidamente e
instalar um regime amigo e estável? É improvável. Tenha-se
em mente que, das três guerras sérias que os EUA travárom
desde 1945 (Coreia, Vietname e Golfo), umha terminou em derrota e duas em
retirada após aquilo que poderia ser chamado de "empate"
-nom é exactamente um registro glorioso.
O Exército de Saddam
nom é o dos talibám e o controle interno dos seus militares
é muito mais firme. Umha invasom americana envolveria necessariamente
umha importante força terrestre, que teria de abrir caminho até
Bagdad e provavelmente sofreria baixas significativas. Essa força também
precisaria de bases como pontos de partida para os combates e a Arábia
Saudita deixou claro que nom ajudará nesse sentido. O Kuwait ou a Turquia
ajudarám? Talvez, se Washington utilizar todas as suas fichas.
Enquanto isso, pode-se
esperar que Saddam utilize todas as armas à sua disposiçom e
é exactamente o que inquieta o governo americano: que essas armas podam
ser muito malignas. Os EUA podem torcer os braços dos regimes da regiom,
mas o sentimento popular vê todo o assunto como o reflexo de um profundo
viés anti-árabe nos EUA. Esse conflito pode ser vencido? O estado-maior
británico já informou ao primeiro-ministro Tony Blair que nom
acredita nisso.
E sempre há a questom das "segundas frentes". Depois da Guerra do Golfo, as Forças Armadas americanas tentárom preparar-se para a possibilidade de duas guerras regionais simultáneas. Depois de algum tempo, o Pentágono abandonou silenciosamente a ideia, por ser impraticável e dispendiosa.
Mas quem pode ter certeza
de que nengum potencial inimigo atacará quando os EUA estiverem atolados
no Iraque?
Considere-se também
a questom da toleráncia popular americana às nom-vitórias.
Os americanos oscilam entre um fervor patriótico que apoia todos os
presidentes em tempo de guerra e um profundo sentimento isolacionista. Desde
1945, o patriotismo chocou-se com um muro sempre que as baixas aumentárom.
Por que a reacçom seria diferente hoje? E, mesmo que os falcons (quase
todos civis) se sintam impermeáveis à opiniom pública,
os generais americanos, queimados polo Vietname, nom se sentem.
E a frente económica?
Nos anos 80, inúmeros analistas americanos ficárom histéricos
quanto ao milagre económico japonês. Eles acalmárom-se
nos anos 90, diante das conhecidas dificuldades financeiras do Japom. Mas,
depois de exageradas declaraçons sobre o avanço rápido
do Japom, as autoridades americanas hoje parecem tranquilas, confiantes em
que o Japom está muito atrás. Hoje em dia, Washington parece
mais inclinada a mostrar aos decisores das políticas japonesas o que
eles estám a fazer errado.
Esse triunfalismo dificilmente
parece garantido. Considere a seguinte reportagem do New York Times de 20/Abril/2002:
"Um laboratório japonês construiu o computador mais rápido
do mundo, umha máquina tam poderosa que se equipara ao poder de processamento
dos 20 mais rápidos computadores americanos juntos e supera de longe
o líder anterior, umha máquina construída pola IBM. A
conquista [...] "é a evidência de que a corrida tecnológica,
que a maioria dos engenheiros americanos pensava vencer facilmente, está
longe de terminar".
A análise continua,
comentando que há "prioridades científicas e tecnológicas
contrastantes" nos dous países. A máquina japonesa foi
construída para analisar mudanças climáticas, mas as
máquinas americanas som desenhadas para simular armas.
Esse contraste representa
a história mais antiga na história das potências hegemónicas.
O poder dominante concentra-se nos militares (em seu detrimento); o candidato
a sucessor concentra-se na economia. A última opçom sempre foi
a mais vantajosa. Foi o que aconteceu com os Estados Unidos. Por que nom deveria
acontecer também com o Japom, talvez em aliança com a China?
Finalmente, há a esfera ideológica. Hoje, a economia americana parece relativamente fraca, ainda mais considerando-se as exorbitantes despesas militares associadas às estratégias dos falcons.
Além disso, Washington
continua politicamente isolada; virtualmente ninguém (excepto Israel)
acha que a posiçom do falcám fai sentido ou é digna de
incentivo. Outros países temem ou nom estám dispostos a enfrentar
Washington directamente, mas até sua indecisom está a prejudicar
os Estados Unidos.
Mas a reacçom americana
representa pouco mais que um arrogante braço de força. A arrogáncia
tem suas próprias negativas. Usar as fichas significa deixar menos
fichas para a próxima vez, e a aquiescência a contragosto provoca
um ressentimento crescente. Durante os últimos 200 anos, os EUA conquistárom
umha quantidade considerável de crédito ideológico. Mas,
hoje em dia, os EUA estám a gastar esse crédito ainda mais depressa
do que gastárom os seus excedentes em ouro nos anos 60. Os EUA enfrentam
duas possibilidades nos próximos dez anos: podem seguir o caminho dos
falcons, com conseqüências negativas para todos, mas especialmente
para o país. Ou, em alternativa, podem perceber que as conseqüências
negativas seriam demasiado grandes.
Simon Tisdall, do "Guardian",
argumentou recentemente que, mesmo sem considerar a opiniom pública
internacional, "os Estados Unidos nom som capazes de ter êxito
numha guerra no Iraque sozinhos sem incorrer em enormes danos, principalmente
em termos dos seus interesses económicos e seu abastecimento energético.
Bush está reduzido a falar com dureza e a parecer ineficaz". E,
se os EUA invadirem o Iraque e forem obrigados a recuar, ele parecerá
ainda mais ineficaz.
As opçons do presidente
Bush parecem extremamente limitadas e nom há dúvida de que os
EUA continuarám a declinar como força decisiva nos assuntos
mundiais na próxima década. A verdadeira questom nom é
se a hegemonia americana está a decair, mas se os EUA podem encontrar
umha maneira de declinar graciosamente, com danos mínimos para o mundo
e para si próprios.
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